20 Mil Léguas Submarinas por Júlio Verne - Versão HTML

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VINTE MIL LÉGUAS SUBMARINAS

JÚLIO VERNE

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VINTE MIL LÉGUAS SUBMARINAS

JÚLIO VERNE

Primeira Parte

0 HOMEM DAS ÁGUAS

Capítulo 1

O ano de 1866 foi assinalado por um acontecimento estranho. Havia já algum tempo que vários navios vinham encontrando nos mares “uma coisa enorme”, um objeto comprido, em forma de fuso, às vezes rodeado por uma espécie de fosforescência, muito mais corpulento e rápido do que uma baleia. Os relatos sobre esses encontros, registrados nos diários de bordo, coincidiam perfeitamente nos pormenores da estrutura do objeto ou do ser em questão. Relatavam a espantosa mobilidade de sua movimentação, a sua surpreendente força de deslocação e falavam da vida especial de que ele parecia dotado.

Negociantes, armadores, capitães de navios, mestres e contramestres da Europa e da América, oficiais das marinhas de guerra de todos os países e os governantes das diversas nações dos dois continentes, andavam seriamente preocupados com o fenômeno.

Que ele existia era um fato incontestável. Com o pendor do cérebro humano para o maravilhoso, será fácil compreender-se a sensação suscitada em todo o mundo por esse aparecimento sobrenatural.

A 20 de julho de 1866, o vapor “Governor Higginson” havia encontrado o objeto em questão, a cinco milhas a leste das costas da Austrália.

A primeira vista o Capitão Baker julgou ver um escolho desconhecido.

Dispunha-se a determinar a sua situação exata, quando duas colunas de água projetadas pelo inexplicável objeto, ergueram-se nos ares a quase vinte metros de altura. Portanto, a menos que o escolho estivesse sujeito às erupções intermitentes de um gêiser, o “Governor Higginson”

tinha-se encontrado com algum mamífero aquático, até então desconhecido, que expelia pelas ventas colunas de água misturada com vapor e ar. No dia 23 de julho do mesmo ano, no Pacífico, foi observado fato semelhante pelo navio “Cristobal Colon”.

Assim, este extraordinário cetáceo podia deslocar-se de um sítio para o outro com uma velocidade surpreendente, uma vez que, com um inter-valo de dois dias os navios o tinham visto em dois pontos geográficos afastados entre si mais de setecentas léguas marítimas.

Duas semanas depois, a duas mil léguas de distância, o “Helvetia” e o

“Shannon”, cruzando-se na zona do Atlântico compreendida entre os Estados Unidos e a Europa, deram conhecimento um ao outro de terem avistado o monstro a 42° 15' de latitude norte e 60° 35' de longitude do meridiano de Greenwich. Através dessa observação simultânea, foi possível avaliar o comprimento mínimo do mamífero em mais de cento e seis metros, uma vez que o “Shannon” e o “Helvetia” eram de dimensões inferiores a ele, embora medissem cem metros da proa à popa.

Essas notícias chegadas seguidamente, mais as observações feitas de bordo do transatlântico “Pereire”, um abalroamento entre o “Etna” da linha Iseman e o monstro, além de um relato verbal feito pelos oficiais da fragata francesa “Normandie” e uma bem cuidada comprovação providenciada por oficiais do Comodoro Fitzjames de bordo do “Lord Clyde”, abalaram profundamente a opinião pública.

A 5 de março de 1867, o “Moravian”, da Montreal Ocean Co., encontrando-se a 270 30' de latitude e a 720 15' de longitude, abalroou por estibordo com um rochedo não assinalado em qualquer mapa daquelas paragens. Com o esforço combinado do vento e dos seus quatrocentos cavalos-vapor, ele avançava a uma velocidade de treze nós. Não há dúvida de que se não fosse a qualidade superior do seu casco, o

“Moravian”, que foi arrombado com o choque, teria sido engolido pelas águas com os seus duzentos e trinta e sete passageiros.

A 13 de abril de 1867, com o mar calmo e o vento propício, o “Escó-

cia” encontrava-se a 150 12' de longitude e 45° 37' de latitude. As quatro horas e dezessete minutos da tarde, durante o lanche dos passageiros, sentiu-se um choque ligeiro no casco do navio, de lado e um pouco atrás da roda de bombordo. O “Escócia” não fora abalroado, mas tinha sido tocado por um grande objeto cortante. A pancada fora tão leve que ninguém a bordo se preocuparia se não fossem os gritos dos marinheiros do porão, que subiram ao convés gritando que o navio estava fazendo água.

A princípio os passageiros ficaram muito assustados, mas o Capitão Anderson apressou-se a tranqüilizá-los, explicando-lhes que o perigo não podia ser iminente. O “Escócia” estava preparado para enfrentar um rombo no casco sem grande perigo de se afundar. Continuou navegando e chegou ao porto de Liverpool com três dias de atraso. Os engenheiros verificaram que a dois metros e meio abaixo da linha de flutuação, abria-se um rombo em forma de triângulo isósceles. O corte na chapa metálica era perfeitamente nítido e não teria sido mais bem executado por um instrumento apropriado para tal fim.

Esse acontecimento veio exaltar de novo a opinião pública. Na verdade, a partir desses incidentes, todos os desastres marítimos cujas causas se desconheciam passaram a ser atribuídos ao monstro. As comunica-

ções entre os diversos continentes tornaram-se cada vez mais perigosas, levando o público a exigir categoricamente que os mares fossem libertados a todo custo desse terrível cetáceo.

Capítulo 2

Na época em que esses acontecimentos ocorreram, regressava eu de uma expedição científica nas inóspitas terras do Nebraska, nos Estados Unidos. Quando cheguei a Nova Iorque para embarcar em um navio que me levasse para a Europa, a controversa questão estava no auge.

A minha chegada, várias pessoas deram-me a honra de me consultar sobre o fenômeno, em vista de uma obra que eu publicara na França, intitulada “Os Mistérios dos Grandes Fundos Submarinos”. O acontecimento passara a preocupar várias camadas da população americana, e os Estados Unidos foi o primeiro país a adotar medidas enérgicas, em nível de governo, para esclarecer o mistério.

A fragata “Abraham Lincoln”, moderna e muito rápida, recebeu ordens para se fazer ao mar o mais depressa possível, com esse objetivo. O

Comandante Farragut reforçou o armamento de seu navio e encheu de munição os seus arsenais.

Como sempre acontece, quando se decidiu, a perseguição ao monstro, ele desapareceu. Durante dois meses ninguém ouviu falar dele. A fragata armada e abastecida para uma campanha demorada, não tinha para onde se dirigir. A impaciência crescia a bordo entre oficiais e marinheiros, quando chegou a notícia de que um vapor da linha de São Francisco da Califórnia tinha visto o animal nos limites sententrionais do Pacífico. A sensação causada por essa noticia foi grande.

Os víveres continuavam a bordo, os depósitos de carvão estavam cheios e todos os homens se encontravam em seus postos. Só faltava acender as caldeiras da fragata e levantar ferro. Em menos de vinte e quatro horas o Capitão Farragut fazia-se ao mar.

Três horas antes da “Abraham Lincoln” deixar o cais do Brooklyn, recebi uma carta do secretário da Marinha J. B. Hobson, que em nome de seu governo, convidava-me para representar a França participando daquela expedição.

Capítulo 3

Três minutos depois de ter lido a carta do ilustre secretário da Marinha, caçar aquele monstro inquietante e livrar os mares de sua constante ameaça tornara-se o único objetivo de minha vida. A oportunidade de participar daquela caçada me empolgou.

No entanto, eu estava cansado e precisando de repouso. O meu maior desejo era rever o meu pais, os meus amigos, o meu pequeno aparta-mento do Jardim Botânico, em Paris, as minhas preciosas coleções.

Mas nada me deteve. Esqueci tudo: fadigas, amigos, conforto, e aceitei, sem mais reflexões, a oferta do governo americano.

- Conselho! - chamei com voz impaciente.

Conselho era o meu criado. Tratava-se de um rapaz dedicado que me acompanhava em todas as minhas viagens, apto para todo o serviço e que, apesar do seu nome, nunca dava conselhos mesmo quando não lhe eram pedidos. Era uma excelente e honesta criatura.

- Conselho! - chamei-o de novo, começando os meus preparativos para a viagem, com grande agitação - Prepare-se, meu rapaz, partimos dentro de duas horas.

- Vamos para Paris? - perguntou ele.

- Sim... certamente... mas dando uma volta primeiro - respondi.

- Daremos a volta que o senhor quiser - concordou o criado.

- Não será uma grande volta. Trata-se de um caminho menos direto.

Vamos embarcar na “Abraham Lincoln”.

- Se é a sua decisão, para mim é a melhor, senhor – disse ele.

- Vou lhe dizer a verdade, meu rapaz. Trata-se do monstro marinho.

Vamos livrar os mares da sua presença. O autor de uma obra importante, sobre os “Mistérios dos Grandes Fundos Submarinos”, não poderia deixar de embarcar com o Capitão Farragut. Missão gloriosa, mas perigosa também. Não sabemos para onde vamos. Esses animais são seres caprichosos. Mas, ainda assim, vamos. Temos um comandante que não tem medo de nada.

- O que o senhor fizer eu também farei - disse ele.

Um quarto de hora depois as nossas malas estavam prontas. Em poucos minutos chegávamos ao cais. As chaminés da “Abraham Lincoln”

soltavam na atmosfera torrentes de fumaça negra. Subimos a bordo e um dos marinheiros conduziu-nos ao tombadilho. Conselho caminhou para a amurada e eu fui levado à presença de um oficial de aspecto agradável, que me estendeu a mão:

- Sr. Pierre Aronnax? - perguntou-me.

- O próprio - respondi. - O Comandante Farragut?

- Em pessoa. Seja bem-vindo, Sr. Professor.

Após os cumprimentos de praxe deixei o capitão entregue ao seu trabalho e me encaminhei para a cabina que me estava reservada. A arrumação interior da fragata correspondia às suas qualidades náuticas.

Fiquei muito satisfeito com o meu alojamento, situado à ré e comunican-do-se com a sala dos oficiais. Deixei Conselho a arrumar convenientemente as nossas coisas e subi à coberta a fim de assistir aos preparativos da partida.

As oito horas da noite, navegávamos a todo vapor nas sombrias águas do Atlântico.

Capítulo 4

O comandante Farragut era um marinheiro muito experiente, digno da fragata que dirigia. Navio e comandante eram um só, sendo este a alma daquele. Sobre a existência real do cetáceo gigante, o Comandante Farragut não tinha a menor dúvida, e não permitia que os seus homens pensassem diferente dele.

A tripulação observava os mares com escrupuloso cuidado, cada homem querendo ganhar a soma de dois mil dólares prometida para aquele que, grumete ou marinheiro, mestre ou oficial, avistasse o monstro primeiro. Por isso, todos forçavam os olhos a bordo da “Abraham Lincoln”. A fragata não faltava nenhum meio de destruição. Mas ainda tinha mais: entre a sua tripulação encontrava-se Ned Land, homem conhecido como o rei dos arpoadores.

Ned Land era um canadense de uma destreza pouco comum, sem rival no seu perigoso mister. Agilidade e sangue-frio, audácia e esperteza eram qualidades que ele possuía em elevado grau, e seria preciso uma baleia muito manhosa ou um cachalote particularmente astucioso para escapar ao seu arpão.

Entretanto, ele era o único homem a bordo que não acreditava na existência do fabuloso cetáceo, deixando de participar da convicção geral. Resolvi conversar com ela sobre o assunto.

Numa magnífica noite, a 30 de julho, isto é, três semanas depois de nossa partida de Nova Iorque, encontrava-se a fragata nas alturas do Cabo Branco, trinta milhas a sotavento das costas da Patagônia. Tínhamos ultrapassado o Trópico de Capricórnio e o Estreito de Magalhães situava-se a menos de setecentas milhas para o sul. Dentro de oito dias, a fragata estaria navegando em águas do Pacífico.

- Ned, como pode estar convencido de que o narval que vamos caçar não existe? Tem razões particulares para proceder assim?

O arpoador olhou-me durante alguns instantes em silêncio, bateu na testa com a mão, gesto que lhe era peculiar, fechou os olhos como que para refletir, e disse:

- É possível que eu tenha, Sr. Aronnax.

- No entanto, você que é baleeiro há tantos anos, que está familiarizado com os grandes mamíferos marinhos, e cuja imaginação deve facilmente aceitar a existência de enormes cetáceos, devia ser o último a duvidar em tais circunstâncias.

- Aí que se engana, professor - falou Ned. - Que o vulgo acredite em meteoros deslumbrantes que cruzam o espaço ou na existência de dinossauros pré-históricos que vivem no interior da terra, ainda se aceita. Mas nem o astrônomo nem o geólogo admitem tais quimeras.

Com o baleeiro acontece o mesmo. Persegui muitos cetáceos, arpoei um grande número deles, matei vários, mas por mais bem armados e possantes que fossem, não possuíam caudas ou dentes capazes de furar as placas de aço de um navio.

- Porém, Ned, fala-se de barcos cujo casco foi perfurado de lado a lado pelo dente do narval.

- Navios de madeira talvez - respondeu o canadense. - Mas mesmo nesse caso, jamais vi um narval capaz dessas proezas. Portanto, até provas em contrário, nego em absoluto que baleias, cachalotes ou narvais possam produzir tais estragos.

- Escute-me, Ned . . .

- Não, professor, não. Tudo o que quiser, menos isso. Talvez um polvo gigante...

- Isso ainda menos, Ned! O polvo não passa de um molusco, e o próprio nome indica a pouca consistência das suas carnes. Mesmo com todo o seu grande comprimento, o polvo, que não pertence ao ramo dos vertebrados, seria inofensivo para navios como o “Escócia” ou esta fragata em que viajamos.

- Então, Sr. Aronnax - replicou ele, num tom bastante irônico - persiste em admitir a existência de um enorme cetáceo?

- Sim, Ned, e com uma convicção baseada na lógica dos acontecimentos. Acredito na existência de um mamífero desmesuradamente desenvolvido, pertencente ao ramo dos vertebrados, como as baleias, os cachalotes ou os golfinhos, armado de um dente córneo de grande poder de penetração.

- Hum! - fez o arpoador, abanando a cabeça com o ar de um homem que não se quer deixar convencer.

Naquele dia não insisti mais com ele.

Capítulo 5

A fragata percorreu a costa sudoeste da América com uma rapidez prodigiosa. No dia 3 de julho estávamos à entrada do Estreito de Magalhães, perto do Cabo das Virgens. O Comandante Farragut não quis atravessar esta sinuosa passagem e manobrou de forma a dobrar o Cabo Horn.

No dia 6 de julho, cerca das três horas da tarde, a “Abraham Lincoln”, quinze milhas para o sul, dobrou essa ilhota solitária, esse rochedo perdido no extremo do continente americano, ao qual alguns marinheiros holandeses deram o nome da sua cidade natal, o Cabo Horn.

Rumamos para noroeste e no dia seguinte a hélice da fragata batia finalmente nas águas do Oceano Pacífico.

As atenções de todos foram redobradas. Várias vezes partilhei da emoção dos oficiais e da tripulação, quando alguma baleia emergia o dorso escuro à tona da água. A coberta da fragata enchia-se de gente num abrir e fechar de olhos. Todos, com os peitos ofegantes e os olhares ansiosos, observavam a marcha do cetáceo. Eu olhava e tornava a olhar até gastar a retina ou ficar cego, enquanto Conselho, sempre fleumático, dizia-me num tom calmo:

- Se o senhor quisesse ter a bondade de não arregalar tanto os olhos, talvez visse melhor.

Esperanças vãs! A fragata aumentava a velocidade e perseguia o animal assinalado, que não passava de uma simples baleia ou cachalote, que em breve desaparecia no meio de um concerto de imprecações.

A 20 de julho atravessamos o Trópico de Capricórnio a cento e cinco graus de longitude e no dia 27 do mesmo mês chegamos ao Equador pelo meridiano cento e dez. Depois a fragata rumou mais decididamente para oeste e entrou nos mares centrais do Pacífico. O Comandante Farragut pensava, com razão, que era preferível navegar em águas profundas e afastar-se dos continentes e das ilhas, que o animal parecia ter sempre evitado, “sem dúvida porque as águas não eram suficientemente profundas para ele”, segundo o mestre da tripulação. A fragata passou, portanto, ao largo das Pomotu, das Marquesas, das Sandwish, passou o Trópico de Câncer a cento e trinta e dois graus de longitude e dirigiu-se para os mares da China.

Não ficou nessas águas um único ponto por explorar, desde as costas do Japão às da América. E nada! Nada, a não ser a imensidão dos mares desertos. Nada que se parecesse com um narval gigantesco, com uma ilhota submersa, com o casco de um navio afundado, com um escolho móvel ou com algo de sobrenatural.

O desânimo apoderou-se dos espíritos e abriu caminho à incredulidade.

Com a desesperança e o descontentamento da tripulação, o Comandante Farragut decidiu que se no prazo de três dias o monstro não aparecesse, o timoneiro daria três voltas ao leme é a “Abraham Lincoln” navegaria para os mares da Europa.

A decisão, tomada: a 2 de novembro, teve como resultado reanimar a tripulação. O oceano foi observado com novo entusiasmo. Todos queriam dar-lhe uma última olhadela, como que para guardar uma recordação. Os óculos funcionavam com uma atividade febril. Era um desafio supremo lançado ao narval gigante, e este não podia deixar de corresponder àquele desejo de encontrá-lo.

No dia 5 de novembro, exatamente ao meio-dia, expirava o prazo estabelecido pelo Comandante Farragut, depois do que, fiel à sua promessa, devia rumar para sudeste e abandonar definitivamente as regiões setentrionais do Pacífico.

A fragata encontrava-se então a 310 15' de latitude norte e a 1360 42'

de longitude leste. As terras do Japão estavam a menos de duzentas milhas para sotavento. A noite aproximava-se. Acabavam de soar as oito horas. Grandes nuvens envolviam o disco da lua, então em quarto crescente. O mar ondulava calmo sob a quilha do navio.

De repente, no meio do silêncio geral, ouviu-se uma voz. Era Ned Land quem gritava:

- Alerta! Vejo o monstro! Dirige-se para nós.

Capítulo 6

Aquele brado, toda a tripulação se precipitou para o arpoador. A escuridão era total e, por muito bons que fossem os olhos do canadense, eu me perguntava como e o que ele teria visto. Sentia o meu cora-

ção bater aceleradamente. Land não havia se enganado e todos viram o objeto ,que ele apontava com a mão. Inclusive eu.

A cerca de quatrocentos metros da “Abraham Lincoln” e a estibordo, o mar parecia iluminado por baixo. Não era um simples fenômeno de fosforescência. Não havia engano. Do monstro, submerso a alguns metros da superfície, emanava aquele brilho intenso e inexplicável, mencionado em vários relatos de capitães que o tinham visto. O comandante havia mandado parar a fragata.

- Não passa de uma aglomeração de moléculas fosforescentes - opinou um dos oficiais.

- Não, senhor - repliquei, com convicção. - E um brilho de natureza essencialmente elétrica. Desloca-se. Move-se para a frente e para trás.

Dirige-se para nós!

Um grito de muitas vozes fez-se ouvir na fragata.

- Silêncio! - ordenou o capitão. - Virar para barlavento a toda velocidade! - comandou, enérgico.

Os marinheiros correram para o leme e os maquinistas para a casa de máquinas. A “Abraham Lincoln” virou para bombordo e descreveu um semicírculo.

- O leme a direita! A todo vapor! - gritou o comandante.

Essas ordens foram executadas e a fragata afastou-se rapidamente do foco luminoso. Na verdade, ela tentou afastar-se, mas o enigmático animal aproximou-se com uma velocidade dupla da sua.

Todos a bordo não podíamos nem respirar. A estupefação, mais do que o medo, mantinha-nos mudos e imóveis. O animal ultrapassava-nos com a maior facilidade. Deu uma volta à fragata, que navegava a quatorze nós e a envolveu com a sua claridade elétrica como se fosse uma poeira luminosa. Depois afastou-se duas ou três milhas, deixando um rasto fosforescente comparável aos turbilhões de vapor que lança a locomotiva de um expresso. De repente, dos obscuros limites do horizonte onde se encontrava, o monstro avançou para a “Abraham Lincoln” com aterradora velocidade, parou bem próximo de nós e se apagou sem mergulhar nos abismos profundos. O seu brilho não sofreu um desaparecimento gradual, mas repentino, como se a fonte do seu brilhante eflúvio se tivesse cerrado. Depois reapareceu do outro lado da fragata, rodeando-a ou passando-lhe por baixo do casco. Apesar de acompanhar cada movimento, não pudemos ver a sua manobra.

Entretanto, eu me surpreendia com os movimentos da fragata. Ela fugia em vez de atacar. Era perseguida em vez de perseguir. Falei sobre isso com o Comandante Farragut. O seu rosto, habitualmente impassível, estava dominado por uma surpresa indefinível.

- Sr. Aronnax - respondeu-me. - Não sei que espécie de gigantesco animal tenho pela frente e não quero arriscar imprudentemente a minha fragata. Esperemos pelo amanhecer e os papéis serão trocados. Eu passarei ao ataque.

- Então o comandante não tem dúvidas quanto à natureza do animal?

- Não, senhor. Trata-se evidentemente de um narval gigantesco, mas também de um animal elétrico.

- Talvez não seja possível uma aproximação - opinei.

- Pode ser - concordou o comandante. - Se ele possuir em si mesmo um poder fulminante, é sem dúvida o animal mais terrível saído das mãos de Deus. É por isso, meu caro professor, que estou tendo cautela.

Toda a tripulação ficou acordada aquela noite. Ninguém pensou em dormir. A “Abraham Lincoln”, não podendo competir em velocidade com o animal, moderou a sua marcha e navegava a meio vapor. Por seu lado, o narval, imitando a fragata, deixava-se embalar pelas águas do mar, parecendo decidido a não abandonar o teatro da luta.

A uma hora da madrugada ouviu-se um silvo ensurdecedor, semelhante àquele que é produzido por uma coluna de água arremessada com extrema violência por algum engenho de grande força propulsora.

O Comandante Farragut, Ned Land e eu nos encontrávamos então no tombadilho, perscrutando avidamente as trevas profundas.

- Ned Land, você já ouviu baleias rugindo? - perguntou o comandante.

- Muitas vezes, senhor. Mas nenhuma igual a essa.

- Esse barulho não é igual ao que fazem os cetáceos quando expelem água pelos respiradouros?

- Esse é incomparavelmente mais forte, senhor. Acho que não há engano possível: é mesmo um cetáceo que temos diante dos olhos. Se o senhor autorizar - acrescentou o arpoador - ao nascer o dia vou dar-lhe duas palavrinhas.

- Se ele quiser ouvi-10, meu caro Land - observei. - Se eu conseguir me aproximar dele à distância ideal para lançar o arpão, ele terá de me ouvir - afirmou o canadense.

- Mas para se aproximar - disse o comandante - terei de pôr uma baleeira à sua disposição.

- Sem dúvida, comandante.

- Será arriscar as vidas dos meus homens.

- E a minha - respondeu simplesmente o arpoador.

Pelas duas horas da madrugada, o foco luminoso reapareceu com a mesma intensidade, cinco milhas a barlavento da “Abraham Lincoln”.

Apesar da distância, apesar do barulho do vento e do mar, ouvia-se as formidáveis batidas da cauda do animal, assim como a sua respiração ofegante.

Toda a tripulação permaneceu de vigia até o amanhecer, preparando-se para o combate. Os aparelhos de pesca foram dispostos ao longo da balaustrada. O imediato mandou carregar as enormes espingardas que lançam os arpões à distância de uma milha e as que disparam balas explosivas, cujo ferimento é mortal mesmo para os animais mais possantes. Ned Land limitara-se a preparar o arpão, arma terrível em suas mãos. Na fragata estavam todos prontos para iniciar o combate.

As seis horas o dia nasceu. Com a sua claridade desapareceu o brilho elétrico do narval. As sete horas um nevoeiro matinal muito cerrado diminuía o horizonte e os melhores óculos de longo alcance não conseguiam penetrá-lo. Esse fenômeno deixou todos aborrecidos a bordo.

De repente, ouviu-se a voz de Ned Land

- O monstro está à ré, do lado de bombordo!

Todos os olhares se dirigiram para o ponto indicado. A cerca de uma e meia milha da fragata, um longo corpo escuro emergia um metro acima do nível das águas. A sua cauda, violentamente agitada, produzia um redemoinho considerável. Um imenso rasto de deslumbrante brancura marcava a passagem do animal e descrevia uma curva alongada.

A fragata aproximou-se do cetáceo. Examinou-o atentamente. Os relatórios do “Shannon” e do “Helvetia” tinham exagerado um pouco as suas dimensões. Calculei o comprimento em cerca de oitenta e cinco metros. Quanto ao volume era difícil fazer um cálculo, mas o estranho animal parecia bem proporcionado em suas dimensões.

Tinha soado a hora do combate.

A “Abraham Lincoln” impelida para a frente pela sua potente hélice dirigia-se diretamente para o animal. Ele a deixou aproximar-se com a maior indiferença, até uma distância de cem metros. Depois, não querendo dar-se ao trabalho de mergulhar, fez como se pretendesse fugir e continuou a manter a distância que lhe convinha da fragata.

Esta perseguição prolongou-se por quarenta e cinco minutos, sem que ganhássemos sequer um metro ao cetáceo. Era evidente que a continuar naquele jogo nunca o apanharíamos.

O Comandante Farragut torcia com raiva a barba espessa.

- Ned Land! - chamou ele. - Ainda me aconselha a jogar as minhas embarcações ao mar? - perguntou ao canadense.

- Não, comandante. Este animal só se deixará apanhar se quiser -

respondeu ele.

- Que faremos então?

- Se for possível, aumente a velocidade. Quanto a mim, se o senhor permitir, vou me instalar no cesto do gurupés e quando o animal estiver ao alcance do arpão, disparo.

O comandante o autorizou a fazer o que pretendia e mandou que o maquinista aumentasse a pressão das caldeiras. A fragata não demorou a alcançar a velocidade de dezoito milhas por hora.

Porém, o maldito animal avançava com igual velocidade, continuando a manter a mesma distância que o separava de nós. Depois de algum tempo dessa emocionante perseguição, o narval começou a fazer um jogo que ainda nos causava mais suspense. As vezes deixava a fragata se aproximar bastante e depois fugia de novo. Ned Land continuava no seu posto, de arpão na mão, pronto para disparar.

- Vamos apanhá-lo! Vamos apanhá-lo! - gritava esperançoso, a cada vez que a fragata se aproximava do monstro.

No entanto, no momento em que se preparava para arpoá-lo, o cetáceo afastava-se a uma velocidade que talvez atingisse as trinta milhas por hora. Mesmo quando avançávamos à velocidade máxima, o animal permitia-se brincar com a fragata dando-lhe uma volta por baixo.

Um enorme grito de raiva saía então de todas as gargantas.

Ao meio-dia estávamos na mesma situação que às oito horas da manhã.

O Comandante Farragut decidiu usar meios mais diretos.

- Então esse animal anda mais depressa do que a minha fragata! - falou nervoso. - Pois bem, vamos ver se ele consegue escapar às balas cônicas. Mestre, mande os homens para a peça da proa.

O canhão da proa foi imediatamente carregado e apontado. O tiro partiu, mas a bala passou alguns metros por cima do cetáceo, que estava a meia milha de distância.

- Outro disparo com mais pontaria! - ordenou o comandante. - Quinhentos dólares para quem atingi-lo - acrescentou.

Um velho artilheiro, de barba grisalha, de olhar calmo e frio, aproximou-se do canhão e fez pontaria durante algum tempo. Soou uma forte detonação, à qual se misturaram os vivas da tripulação. A bala atingiu o alvo, mas de maneira estranha, pois escorregou na superfície arredondada do animal e foi perder-se no mar.

- Ora esta! - exclamou o velho artilheiro. - Parece que está blindado com chapas de seis polegadas!

- Maldição! - gritou o Comandante Farragut.

A perseguição continuou. Voltando-se para mim, disse ele:

- Pegarei esse animal ainda que a minha fragata se rebente!

- Temos que pegá-lo, comandante! - animei-o.

Era de esperar que o animal se esgotasse e não fosse indiferente à fadiga. Mas isso não aconteceu. As horas passaram sem que ele desse qualquer sinal de cansaço. A “Abraham Lincoln” lutava com infatigável tenacidade. Calculo que tenha percorrido mais de quinhentos quilômetros ao longo daquele fatídico dia 6 de novembro. Mas a noite chegou e envolveu em sombras o mar encapelado.

Pensei que a nossa expedição havia chegado ao fim e que nunca mais veríamos aquele animal fantástico. Enganei-me. Quase às onze horas da noite a luminosidade elétrica reapareceu a três milhas a barlavento da fragata, tão pura e tão intensa como na noite anterior. O narval parecia estar imóvel, talvez fatigado, deixando-se vogar ao sabor das ondas.

Era uma oportunidade que o Comandante Farragut resolveu aproveitar.

Deu as suas ordens. A “Abraham Lincoln” avançou a baixa velocidade, prudentemente, para não acordar o adversário. Desligou as caldeiras a cerca de trezentos metros do animal e se pôs à deriva. Ninguém respirava a bordo. Reinava um silêncio profundo na coberta. Estávamos a menos de quarenta metros do foco ardente, cujo brilho aumentava e nos ofuscava os olhos.

Nesse momento vi Ned Land encostado ao cabo do castelo de proa segurando o arpão. Menos de sete metros o separavam do animal. De repente ele estendeu o braço com toda a força e o arpão foi lançado.

Ouvi o choque sonoro da arma, que parecia ter-se embatido num corpo duro.

O foco elétrico apagou-se subitamente e duas enormes trombas de água abateram-se sobre a coberta da fragata, deslizando como uma torrente, de proa à popa, derrubando os marinheiros e quebrando os mastros. Deu-se um embate terrível. Pego de surpresa, não consegui me segurar e fui lançado por cima da amurada. Caí ao mar.

Capítulo 7

Embora tivesse sido surpreendido por essa queda inesperada, conservei minha presença de espírito. O mergulho na água não me fez perder o controle de minhas ações. Com dois vigorosos impulsos voltei à superfí-

cie. O meu primeiro reflexo foi tentar localizar a fragata.

As trevas eram profundas. Descortinei uma massa negra que desaparecia para leste e cujos focos de luz se desvaneciam no horizonte. Era a fragata e eu me senti perdido. Com braçadas desesperadas nadei na direção dela, gritando por socorro. As minhas roupas me atrapalhavam, colando-se ao meu corpo e me impedindo os movimentos. Afogava-me. Sufocava. Minha boca se enchia de água. Debatia-me, arrastado para o abismo. Já me desesperava de fazer mais qualquer esforço, quando me senti agarrado por uma mão vigorosa que me levou de volta à tona.

- Se o senhor fizer o favor de se apoiar no meu ombro, nadará muito mais à vontade.

Reconheci a voz de meu fiel criado e me agarrei ao braço dele.

- O choque o lançou ao mar ao mesmo tempo que a mim? - perguntei.

- De maneira nenhuma. Mas uma vez que estou ao serviço do senhor, tinha de segui-lo.

0 valente rapaz achava isso natural.

- E a fragata?

- Acho que o senhor não pode contar com ela. No momento em que me atirei ao mar ouvi os homens gritando que a hélice e o leme haviam se quebrado.

- Partiram-se?

- Sim. Foi o dente do monstro. Penso que foi a única avaria sofrida pela fragata. Mas, infelizmente para nós, ela não ficou em condições de se governar.

- Então estamos perdidos!

- Talvez - respondeu-me Conselho, tranqüilamente. - No entanto ainda temos algumas horas à nossa frente e durante esse tempo muita coisa pode acontecer.

O imperturbável sangue-frio dele animou-me um pouco.

No entanto, com o passar do tempo a nossa situação foi se tornando insustentável. Terrível mesmo. Ainda que o nosso desaparecimento tivesse sido notado imediatamente a bordo da fragata, ela não podia tentar nos socorrer porque estava desgovernada. Portanto, só podíamos contar com os botes.

A colisão entre a fragata e o cetáceo tinha ocorrido por volta das onze horas da noite. Tínhamos portanto ainda oito horas até o nascer do sol.

Durante esse tempo deveríamos nadar, boiar, fazer o possível para nos mantermos vivos. Por volta da uma hora da manhã, sentia-me extremamente fatigado e com as pernas inteiriçadas devido a violentas cãibras.

Conselho foi obrigado a suster-me e passou a ser o único responsável pelo nosso salvamento. Mas não demorou muito para que eu notasse o seu cansaço e concluísse que ele não poderia agüentar aquela situação por mais tempo.

- Deixe-me! - falei-lhe.

- Abandonar o senhor? Nunca farei isso - afirmou. - Na verdade, espero afogar-me primeiro do que o senhor!

Neste momento, a lua surgiu através das franjas de uma grande nuvem que o vento arrastou para leste. A superfície do mar brilhou sob os seus raios e esta luz benfazeja fez-me recuperar as forças. Levantei a cabeça e perscrutei todos os pontos do horizonte. Avistei a fragata, que se encontrava a cerca de cinco milhas de nós e constituía uma massa sombria que mal se notava no horizonte. Mas não vi um só dos seus botes. Conselho, embora eu não visse nenhuma utilidade naquilo, gritou por socorro algumas vezes.

Suspendemos os movimentos e nos pusemos à escuta. Podia ter sido um desses zumbidos originados pelo espírito oprimido, mas a verdade é que me pareceu ouvir um grito respondendo ao apelo do meu criado.

- Ouviste? - perguntei a ele.

- Sim, ouvi.

Conselho lançou mais um grito de socorro. Agora não podíamos ter mais dúvida. Uma voz humana respondia à dele. Naquele instante bati num corpo duro e me agarrei nele. Senti que era arrastado, que me puxavam até a superfície, que o peito se me aliviava e desmaiei. Recuperei rapidamente os sentidos e entreabri os olhos.

- Conselho! - murmurei.

- O senhor chamou? - ouvi a voz dele.

Naquele momento, aos últimos raios da lua que desaparecia no horizonte, distingui um rosto que não era o do meu criado.

- Ned! - exclamei.

- Em pessoa, professor.

- Você também foi atirado ao mar?

- Fui. Mas tive mais sorte do que o senhor, porque quase imediatamente encontrei um escolho flutuante e me agarrei nele.

- Um escolho?

- Ou, para dizer melhor, agarrei-me ao nosso narval. - Ao monstro?

- Nele mesmo. Agora sei por que o meu arpão não conseguiu furar-lhe a pele. É que este animal, Sr. Aronnax, é feito de chapa de aço.

Subi de imediato ao ponto mais elevado do objeto semi-submerso que nos servia de refúgio. Bati-lhe com o pé. Tratava-se evidentemente de um corpo duro, impenetrável, e não da substância mole característica dos mamíferos marinhos. O dorso escuro que nos suportava era liso e polido. Ao ser tocado produzia um som metálico.

Não podia haver mais dúvida. O animal, o monstro, o fenômeno que tinha intrigado todo o mundo científico, agitado e transtornado a imaginação dos marinheiros dos dois hemisférios, era algo ainda mais espan-toso, porque tinha sido feito pela mão do homem.

A descoberta da existência do ser mais fabuloso e mais mitológico, não teria surpreendido mais a minha inteligência. Que venha do Criador tudo o que é prodigioso, espera-se. Mas encontrar de repente, diante dos nossos olhos, o impossível realizado misteriosamente pelo homem, confunde as idéias. E no entanto era verdade. Encontrávamo-nos estendidos sobre o dorso de uma espécie de submarino, com a forma, tanto quanto pude perceber, de um imenso peixe. A opinião de Ned a respeito dele era certa. Conselho e eu fomos obrigados a concordar com ele que o “animal” era feito de chapa de aço.

- Mas então - disse eu - este aparelho deve encerrar um mecanismo de locomoção e uma tripulação para manobrá-lo.

- Evidentemente - respondeu o arpoador - embora haja mais ou menos três horas que estou aqui e ainda não vi sinal de vida nele.

- Ainda não se moveu?

- Não, Sr. Aronnax. Deixa-se embalar ao sabor das ondas, mas não se move.

- No entanto, sabemos que ele é dotado de grande velocidade. Ora, como é preciso um motor para produzir tal velocidade e um maquinista para o dirigir, concluo que estamos salvos.

- Hum! - fez Ned Land com certa reserva.

Naquele momento, e como que para dar razão aos meus argumentos, produziu-se um turbilhão na ré do estranho aparelho, cujo propulsor era evidentemente uma hélice, e ele se pôs em movimento. Só tivemos tempo de nos agarrarmos à parte superior que submergiu cerca de oitenta centímetros. Felizmente a sua velocidade não era excessiva.

- Enquanto navegar à superfície, tudo vai bem - falou Ned Landa- Mas se resolver a mergulhar, a minha pele não vale um centavo.

Era pois urgente que nos comunicássemos com quem quer que estivesse no interior daquela máquina. Procurei uma abertura na superfície, mas as linhas das cavilhas, solidamente achatadas na junção das folhas, eram contínuas e uniformes.

Por outro lado, a lua desapareceu naquele momento, deixando-nos na mais completa escuridão. Tínhamos de esperar pelo nascer do dia para tentarmos entrar naquele barco submarino.

Por volta das quatro horas da madrugada a velocidade do aparelho aumentou. A muito custo resistimos àquele vertiginoso andamento, pois as ondas batiam-nos em cheio. Ned encontrou uma grande argola fixa na parte superior do casco e nos agarramos a ela.

Enfim o dia rompeu. Fomos envolvidos pelas brumas matinais, que não tardaram a dissipar-se. Preparava-me para proceder a um exame atento do casco, que formava na parte superior uma espécie de plataforma horizontal, quando o senti submergindo.

- Com mil diabos! - gritou Ned Land, batendo com o pé no casco. -

Abram, seus marinheiros pouco hospitaleiros!

Porém era difícil que o ouvissem no meio dos ruídos produzidos pelo barulho da hélice. Felizmente o movimento de imersão parou. De repente ouvimos o som de manuseamento de ferros no interior do barco. Abriu-se uma chapa. e surgiu um homem que desapareceu imediatamente, assim que nos viu. Instantes depois, apareceram oito robustos marinheiros, com os rostos cobertos, que nos levaram para o interior da sua formidável máquina.

Capitulo 8

A ação deles a nosso respeito, foi brutal e rápida. Nem eu e nem meus companheiros tivemos tempo de ver o que estava se passando. Ao ser introduzido naquela prisão flutuante, senti um calafrio percorrer-me todo o corpo. Quem seria aquela gente? Sem dúvida seriam piratas de unir nova espécie, que exploravam os mares à sua maneira.

Assim que a estreita abertura se fechou atrás de nós, ficamos envolvidos pela mais profunda escuridão. Os meus olhos habituados à claridade exterior, nada conseguiam distinguir. Senti os meus pés nus descerem os degraus de uma escada de ferro. Ned Land e Conselho seguiam-me, seguros pelos homens estranhos. No fundo da escada abriu-se uma porta que se fechou imediatamente após sermos empurrados através dela.

Estávamos prisioneiros. Onde? Não podíamos nem imaginar. Tudo era escuro, mas de um escuro tão absoluto que, passados alguns minutos, os meus olhos ainda não tinham vislumbrado nenhum desses raios intermitentes que flutuam nas noites mais profundas. Ned Land come-

çou a ficar afobado e passou a dizer impropérios contra os nossos carcereiros.

- Não se exalte, Ned - aconselhei-o. - Pode agravar a nossa situação com esses excessos inúteis. Devem estar nos ouvindo. Tentemos saber onde estamos.

Comecei a tatear a minha volta. Dei alguns passos e esbarrei no que me pareceu ser uma parede de ferro feita de grandes chapas cavilhadas.

Ao me virar bati numa mesa de madeira, junto da qual se encontravam alguns bancos alinhados. O soalho da nossa sala estava coberto por uma esteira que abafava o ruído dos passos. As paredes nuas não revelavam o mínimo vestígio de porta ou de janela.

Conselho, fazendo uma meia-volta em sentido inverso, foi juntar-se a mim e nos reunimos no meio daquela cabina que devia ter uns seis metros de comprimento por três de largura. Quanto à sua altura, embora fosse um homem alto, Ned Land não conseguiu alcançar-lhe o teto.

Decorrida meia hora sem que a situação se alterasse, passamos de repente da mais profunda escuridão para a claridade mais intensa. A nossa prisão foi subitamente iluminada e ficou tão claro o ambiente que quase não pude suportar-lhe o brilho. Pela intensidade de sua claridade reconheci a luz elétrica que produzia à volta do submarino aquele deslumbrante fenômeno de fosforescência. Depois de ter cerrado as pálpebras involuntariamente, quando as abri de novo vi que a luz provi-nha de uma espécie de globo despolido preso na parte superior da sala.

Pouco tempo depois que a luz foi acesa escutamos um ruído de ferrolhos, a porta abriu-se e apareceram dois homens. Um deles era um indivíduo comum. Quanto ao outro merece uma descrição mais pormenorizada. Reconhecia-se facilmente as suas qualidades dominantes confiança em si próprio, porque a cabeça se erguia com nobreza sobre o arco formado pela linha dos seus ombros e o olhos negros refletiam segurança; era um homem calmo, pois a sua pele, mais pálida do que corada, deixava transparecer a tranqüilidade do sangue; era um indiví-

duo enérgico e demonstrava isso pela rápida contração dos músculos superciliares; e, finalmente, era um ser corajoso, porque a sua respira-

ção profunda denotava grande expansão vital.

Acrescentarei que aquele homem era arrogante, que o seu olhar firme e calmo parecia refletir os mais altos pensamentos e que de todo este conjunto, da homogeneidade das expressões, dos gestos do corpo e do rosto, ressaltava uma indiscutível franqueza. Senti-me

“involuntariamente” tranqüilo e antevi algo de bom em sua presença.

Quanto a sua idade eu não poderia dizer se tinha trinta e cinco ou cinqüenta anos. Sua estatura era alta, testa ampla, nariz aquilino, a boca nitidamente desenhada, os dentes magníficos, as mãos finas e alongadas.

Sem pronunciar uma palavra, ele nos examinou atentamente. Depois, virando-se para o seu companheiro, conversaram numa língua que eu não consegui reconhecer. O outro falou apenas duas ou três palavras e limitou-se mais a concordar com acenos de cabeça sobre o que ouvia.

A seguir, aquele que era indubitavelmente o chefe, pareceu interrogar-me diretamente com os olhos, sem uma única palavra.

Falei-lhe em francês, dizendo-lhe que não entendia a língua em que tinham conversado. Tive a impressão de que ele não me compreendera e a situação tornou-se bastante embaraçosa. Depois Ned Land falou com ele em inglês e Conselho mostrou o seu conhecimento de alemão, falando-lhe nessa língua. Por último, numa desesperada tentativa de me fazer entender, tentei expressar-me em latim. Em nenhuma dessas línguas conseguimos nos comunicar com os dois desconhecidos.

Quando desistimos de dialogar com eles, por termos esgotados os nossos recursos lingüísticos, os dois homens trocaram algumas palavras na sua incompreensível

língua e retiraram-se sem sequer nos dirigir um gesto tranqüilizador.

Discutíamos a nossa situação, quando a porta foi novamente aberta e entrou um criado de bordo. Trazia-nos casacos e calças feitos de um tecido cuja natureza desconhecíamos. Apressamo-nos em vestir aquelas roupas, lembrando-nos de que toda roupa serve aos nus. Enquanto nos vestíamos, o rapaz tinha posto a mesa para três pessoas.

Os pratos, cobertos com as respectivas tampas de prata, foram simetri-camente colocados sobre a toalha. Tomamos lugar à mesa. Entre as iguarias que nos foram servidas, reconheci diversos peixes requintada-mente cozidos, mas quanto aos outros pratos, aliás excelentes, não fiquei sabendo do que se tratava. Todos os utensílios de que nos servi-mos tinham uma letra encimada por uma divisa

“Mobilis in Mobili N”. (Móvel em elemento móvel.) Esta divisa aplica-va-se com justeza aquele barco submarino. A letra “N” seria certamente a inicial do nome da enigmática personagem que comandava o navio.

Satisfeita a nossa fome, a necessidade de dormir se fez imediata, como reação natural depois da infindável noite em que tínhamos lutado contra a morte. Pouco depois, os três, dormíamos profundamente.

Capítulo 9

Ignoro qual foi a duração do nosso sono, mas deve ter sido longo, pois ao acordarmos nos sentimos completamente recuperados das fadigas.

Fui o primeiro a despertar. Assim que me levantei daquele leito um pouco duro, senti o cérebro desanuviado, o espírito livre e tentei reavaliar a fossa situação, enquanto fazia um exame da cela.

O monstro de aço acabava de emergir para respirar, como as baleias.

Logo que oxigenei os pulmões com o ar puro, procurei descobrir o condutor que fazia chegar até nós aquela corrente benfazeja e não tardei a encontrá-lo. Por cima da porta havia um orifício de ventilação que deixava passar uma coluna de ar fresco, renovando assim a atmosfera saturada da cela.

Estava eu nessas cogitações, quando Ned e Conselho acordaram, quase ao mesmo tempo, sob o efeito daquele ar revigorante.

- O senhor dormiu bem? - perguntou-me Conselho.

- Muito bem, meu rapaz - respondi. - E você, mestre Land? - indaguei ao canadense.

- Dormi profundamente, professor.

- Aconteceu o mesmo comigo - disse Conselho. A seguir me perguntou:

- O que acha da nossa situação, professor?

- Penso que o acaso nos revelou um importante segredo. Ora, se a tripulação deste navio submarino tem interesse em mantê-lo ignoto, e se esse interesse for para eles mais importante do que três vidas humanas, acho que a nossa existência está comprometida. Em caso contrário, na primeira ocasião, o monstro que nos engoliu há de devolver-nos ao mundo habitado pelos nossos semelhantes.

- A menos que nos incluam na tripulação e nos mantenham aqui -

sugeriu o meu criado.

- E aqui ficaremos até o dia em que uma fragata mais rápida ou mais hábil do que a “Abraham Lincoln”, apodere-se deste ninho de piratas, fazendo-os respirar pela última vez nas vergas dos mastros.

- Bem pensado, mestre Land - repliquei. - Mas, que eu saiba, ainda não nos foi feita nenhuma proposta, e portanto é inútil discutir o que devemos fazer. Vamos aguardar e reagir diante de circunstâncias concretas. De qualquer maneira, não creio que tenhamos condições de exigir muita coisa.

Os sinais de inconformismo eram fáceis de se perceber no canadense.

Isso me deixava bastante preocupado. Eu mesmo estava incomodado com o nosso abandono naquela cela e nem podia calcular quanto tempo poderíamos ficar detidos nela. As esperanças que eu tinha alimentado depois que o comandante do submarino estivera conosco, desvaneciam-se pouco a pouco. A doçura do olhar daquele homem, a expressão generosa do seu rosto, a nobreza do seu porte, tudo isso desaparecia da minha lembrança, e eu via aquela personagem enigmática como ela devia ser, necessariamente impiedosa e cruel. Sentia-o desumano, incapaz de qualquer sentimento de piedade, inimigo implacável dos seus semelhantes aos quais devia consagrar eterno ódio.

Naquele momento, ouvimos um ruído no exterior e escutamos passos que se aproximavam no chão metálico.

Os ferrolhos foram corridos, a porta foi aberta e o mesmo empregado que nos servira a comida entrou. Antes que eu tivesse tempo de impedir, o canadense precipitou-se sobre ele, derrubou-o e começou a estrangulá-lo. Conselho tentava retirar a vítima já meio inanimada das mãos do arpoador, e eu ia juntar meus esforços ao dele quando, subitamente, fui surpreendido ao ouvir uma advertência falada em excelente francês:

- Acalme-se, mestre Land. E o senhor professor, queira escutar-me.

Capítulo 10

Era o comandante do submarino quem falava.

Ao ouvir aquelas palavras, Ned Land levantou-se de repente, libertando a sua vítima. A um sinal do amo, pois fora ele quem as pronunciara, o rapaz saiu cambaleando. Conselho e eu, quedos e mudos, aguardávamos receosos a seqüência da cena.

O comandante, apoiado no canto da mesa, de braços. cruzados, observava-nos com muita atenção. Hesitaria em falar? Estaria arrepen-dido das palavras que pronunciara .. . . em francês?

Passados alguns instantes de silêncio, que nenhum de nós pensou em quebrar, ele começou a falar com voz calma e penetrante

- Meus senhores, falo corretamente francês, inglês, alemão e latim.

Poderia ter respondido em minha primeira visita às palavras de vocês.

No entanto quis conhecê-los primeiro para depois refletir sobre a atitude que tomaria a seu respeito. Os três disseram as mesmas coisas e me forneceram as suas identidades. Sei agora que o acaso trouxe ao meu barco o senhor Pierre Aronnax, professor de História Natural do Museu de Paris e encarregado de uma missão científica no estrangeiro; Conselho é o seu criado e Ned Land, canadense e arpoador da fragata