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Dádiva de Ísis por Eliane Voga - Versão HTML

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DÁDIVA de ÍSIS

C omeço a escrever o nome de meus

namorados, pelo menos dos que eu me lembro, em ordem

alfabética :

Alexandre, Alfredo, Amauri, Armando, Augusto (Guto),

Danilo, Francisco, Fernando, Mauro, Paulo, Renato,

Rubem, Sílvio.

Pego a lista em minhas mãos e fico pensando que isso é

definitivamente um desperdício de vida, ou ainda de vidas.

A minha e a desses caras, que junto comigo, viram morrer

a cada momento, tantos outros sonhos que poderiam

alcançar, porque se enveredaram pelo caminho da

paixonite aguda e acabaram assim como eu, sozinhos e se

perguntando: “Pra que que eu fiquei com essa pessoa?”

Tá aí. Você poderia dizer que é assim mesmo. Que faz

parte, até o dia em que encontramos aquela nossa cara

metade e aí vivemos felizes para sempre! Grande engano.

Quanto mais você convive com o cara, mais você descobre

o quanto ele não combina com você e que não rola aquela

química entre vocês. Aí, desanda tudo. E, cá estou eu.

Com uma estúpida lista de nomes de homens em minhas

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mãos, contendo 13 nomes, que para mim já é um número

azarado e que de certa forma, azarou com a minha vida.

Passo a mão direita sobre a minha barriga e penso que de

fato eu tentei fazer com que as coisas dessem certo com o

Mauro. Caramba como eu tentei! E por último essa

gravidez, que por um momento insano, quisemos

conceber, achando que era por isso, que não estávamos

mais conseguindo manter a chama acesa . Talvez a vinda

de um bebê nosso, pudesse nos unir. Nossa! Eu nunca vi

tanta idiotice, em duas pessoas adultas e estudadas!

Agimos como dois adolescentes imaturos! E, é claro que

isso só daria merda! E deu. Daí para frente o Mauro entrou

em parafuso. Pirou mesmo, acabou-se de vez!

O fato é: Agora esse serzinho está na minha barriga e não

na dele. Eu é que tenho que decidir, o que fazer daqui pra

frente, porque segundo o Mauro o corpo é meu. Eu sei o

que é melhor para mim. Bem típico de um macho idiota!

Ainda me disse que me apoiaria, qualquer que fosse minha

decisão. Como se tomar decisão em um momento como

esse, fosse fácil! Nem agora tenho seu apoio. Cadê o conto

de fadas? Meu príncipe virou um sapo! Escrever nomes dos

meus ex foi a coisa mais louca que já fiz. Mas isso é

compreensível, depois da longa e dolorosa discussão com

meus pais. De ouvir lamúrias sem parar de minha mãe e o

descontrole de meu pai. Afinal o que havia com aqueles

dois?! Eu não estava pedindo permissão para nada, pelo

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amor de Deus! Nem tão pouco me importava com o que

eles e os outros poderiam pensar de mim. Não sou uma

menininha ou uma adolescente! Sou uma mulher, com um

sério problema para resolver e queria, somente alguns

conselhos, ou quem sabe um pouco de apoio. Mas o que

eu esperava afinal? Eles sempre foram muito reservados,

para tantas coisas! Me amavam. Eu sempre soube disso.

Papai era bem mais fechado com relação a sentimentos.

Quando alcançava as médias mais altas na escola,

limitava-se a dizer:

_ Você não fez mais do que a sua obrigação. Afinal de

contas, você só faz é estudar e nada mais! Que mérito há

nisto? Continue com o seu trabalho, porque esse é o seu

trabalho.

Raios me partam! Que coisa, mais... mais ... Ah, quer

saber? É melhor deixar quieto. Mamãe era diferente.

Sempre se achegava a mim, me fazendo uns carinhos e

me falando palavras de conforto. Agora fico me corroendo

por dentro. Minha vida ficou toda revirada, como se um

furacão tivesse passado por ela. O que de certa forma não

deixa de ser uma boa comparação. Como? Como pude ser

tão burra?! Foi isso que um grande amor fez comigo?

Tornou-me alheia a tudo que eu compreendia como

correto e estável? Isso é o cúmulo da burrice! Passei a

adolescência inteirinha sendo precavida, esperta e nunca

caindo na lábia de garoto algum. Agora, olha só pra mim!

Aos 25 anos, com uma profissão que amo, adulta e

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independente e Perdidinha da Silva! Isso devido a uma

combinação de atos insanos. Só posso chamar assim,

porque de fato isso é uma insanidade total de minha parte!

Ou melhor, só um momento insano, mas...

Bom, normalmente sou uma pessoa bem tranquila, não

aprecio baladas, muita televisão. Gosto mais de jogos de

futebol, ou ainda, ficar curtindo um som de alguma banda

antiga. Mas o que realmente me deixa feliz, é me enfiar

em uma biblioteca e curtir a leitura, de um bom livro,

mesmo que ele seja repetido. Isso não importa, pois

sempre consigo descobrir coisas novas, com uma segunda

ou terceira leitura. Devo confessar que sair a noite com

algum namorado, durante o tempo de leitura de um bom

livro, me deixava rabugenta a noite toda. Ou, quando não

suportava esperar para saber o desfecho de um livro, eu o

levava comigo e consequentemente, acarretava no fim do

namoro. Geralmente com uma frase de efeito do tipo:

_ Porque você não tenta beijar e sentir o calor do seu

livro, pra variar?

É claro que tal sugestão, acabava por me fazer rir! Já faz

um tempo agora, para ser mais precisa, exatos um mês,

que não pego um livro pra ler. Estou definitivamente

doente! Ainda consigo dar as minhas aulas, com a mesmo

empolgação de sempre! Lecionar é tão natural para mim,

quanto beber água, por exemplo. Ou mais! Amo o que

faço! Ver aqueles rostinhos felizes e seus olhinhos

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brilharem, diante da compreensão de determinado

conteúdo, me deixa realizada.

Agora tem o bebê. Entrara em acordo com Mauro, em

relação ao bebê. Não queria e nem precisava dele por

perto, para tumultuar ainda mais sua vida. Ele não possuía

um osso se quer, assertivo, para desempenhar um papel

de papai do ano! Daí lhe propus que abdicasse da criança

ao meu favor, caso viesse a tê-lo. Em contra partida, ele

estaria isento de pensão, visitas e etc...

Não é preciso dizer o quanto de alívio transpareceu em seu

rosto! Além de prometer que seríamos sempre amigos, se

eu precisasse de qualquer coisa e tal... Poderia com

certeza, contar com ele. Bom esta parte estava resolvida.

Quanto aos meus pais... ainda os ouço na cozinha de casa,

insistindo para que não aborte o bebê. Mamãe não parava

de chorar e falar ao mesmo tempo:

_ O que você vai fazer? Pretende se casar com ele?

Não faça isso, Isa! Sei que é difícil criar uma criança

sozinha, e... e...(chorava)

Papai gritava a plenos pulmões e soltando fogo pelas

ventas:

_ Eu o mato ! Eu o mato! Mato o desgraçado do Mauro

e não falarei mais com você!

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Olhei para aquela cena grotesca na cozinha e quase ri, do

exagero daquilo tudo. Olhei para ambos, minha mãe em

prantos e meu pai arrancando os cabelos e disse:

_ Acho que, em primeiro lugar. Vocês deveriam se

acalmar. Porque ainda estou pensando, se quero levar essa

gravidez a diante...

_ O quê?! - Mamãe me interrompe. – Vai fazer um

aborto?! Isso é um horror!

Prefiro ignorar esse exagero de minha mãe.

_ Como eu ia dizendo... Não sei se será possível seguir

a diante, com essa gravidez. Mas se eu resolver ter o bebê,

isso é assunto meu. E papai, você precisa se acalmar,

senão acabará tendo um infarto. - Deixei-os pra lá. Minha

cabeça estava a mil.

A sexta-feira amanheceu nublada, como o

meu humor. Sentei-me à mesa ainda pensando no que

fazer. Papai entrou na cozinha carrancudo, sem querer

muito papo. Ambos sentaram-se. Ele me encarando com

um olhar gelado e minha mãe de cabeça baixa ainda

chorando. Não entendo essa loucura de ter que assumir,

por causa de, como diz mamãe: Deu um mal passo! Bom,

o deu, apesar de meio vulgar, foi o que de fato aconteceu.

Prefiro fazer amor, é menos chulo. Quanto ao mal, ou

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ainda , deu mal, isso depende do ponto de vista de cada

um. E quanto ao (passo) ...O que isso tem haver?! A

vontade que tenho é de cair na gargalhada, porque lá

estou eu de novo, em meus devaneios, quando a situação

requer uma maior sobriedade. Procuro me controlar.

Casamento está fora de cogitação, nem agora e nem em

outra situação qualquer. Observara seus pais durante

muito tempo. Não queria um casamento como o deles,

apesar de saber que os dois se amavam de alguma forma.

Seu pai, ela se lembrava muito bem, apesar de ser sempre

bem discreto, dava um jeitinho de estar sempre perto de

mamãe, tentando demonstrando o seu amor, ou dizendo o

quanto ela era importante para ele. Essas coisas de os

casais falam um para o outro. Seus pais, não eram de fazer

estardalhaços sobre o amor dos dois. Ela raramente via um

beijo mais intenso entre eles. Parecia que algo não estava

certo. A maior parte do tempo, mamãe habitava a cozinha

e papai a biblioteca. Daí essa minha mania pelos livros.

Ficava imaginando, se o amor de meus pais havia esfriado

com o tempo e eles agora não passavam de grandes

amigos. Bem, mas verdade seja dita, eu nunca os vi brigar

por motivo algum. Também mamãe era de natureza muito

submissa. É pequena, embora de uma beleza sem igual!

Seus cabelos são negros como a noite mas sombria,

fazendo contraste com seus olhos azuis, como a imensidão

do céu! Com a pele branquinha como o leite. Não sei o que

ela viu em meu papai. Não que ele seja feio, é mais uma

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beleza bruta! Edgar Sossa é um homem alto, com 1,85m,

moreno de cabelos e olhos castanhos. É aficionado por

livros, os que ele mais gosta são livros épicos e os de

guerra. Especificamente, segunda guerra mundial. Me

lembro de conversar com meu pai em sua biblioteca,

quando ele tecia comentários de algum livro e eu opinava

também. Nesses momentos seus olhos brilhavam e ele me

dizia o quanto eu era esperta, como me parecia com ele.

Eu era melhor que qualquer menino, jamais seria! Não sei

se nas atuais circunstâncias ele ainda pensa assim. Ele é

um pouco assustador para a maioria das pessoas e penso

que até minha mãe, sua esposa Emília, sofre desse mesmo

medo. Então, como poderia imaginar-me casada e vivendo

dia-após-dia desse jeito, como meus pais? Não. Casamento

não era pra mim! Papai pigarreou, tirando-me de meus

devaneios, levantou-se da mesa e me dizendo:

_ Isadora (ele só me chama assim, quando está muito,

mas muito zangado mesmo) _ A partir de agora as coisas

tomaram um rumo que me desagradou por demais! Sinto

lhe dizer, que é chegada a hora de você tomar uma

atitude, responsável e madura!

Meu queixo caiu! Ele só pode estar de brincadeira! Que

coisa é essa de : atitude madura ? Acaso estamos no

século XlX? Por acaso eu tenho 15 anos de idade? Não

queria acreditar no que ele estava me falando. Parecia

tão... Nem sei o que dizer. Olhei para minha mãe e ela se

encolheu, abaixou mais ainda a cabeça e não disse nada.

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Chega! Pensei. Minha paciência acabou! Empurrei minha

cadeira para traz, deixei meu café da manhã inacabado

sobre a mesa e saí porta afora. Deparei-me com um jato

de ar gelado e respirei fundo...

Ai, Ai, Ai! Meu Deus do céu! Que loucura! Gritei que nem

uma louca e saí andando apressadamente pela calçada,

sem na realidade tomar conhecimento do que se passava

ao meu redor. Subitamente estagnei. O que é que eu estou

fazendo? Para onde eu estou indo? A escola ficava na

direção contrária a que eu estava andando. Senti vontade

de chorar. Mas porque motivo eu iria chorar? “Será que é

porque você está grávida e não sabe o que vai fazer?” -

Questionei-me a mim mesma. “Ora! Francamente! Isso é

ridículo! Larga de besteira e se apruma. Desde de quando

você virou uma chorona? Vamos lá garota! Você só precisa

de algumas horas para pensar e resolver. Um bom ombro

amigo para conversar, ou apenas descansar, ou até se for

o caso, chorar pra valer mesmo! É isso aí!” Pensei comigo.

Pego o celular dentro da bolsa e ligo para Patrícia e ela

atende ao segundo toque.

_ Isa! Cadê você mulher?! Está quase na hora do

primeiro sinal e você nada de nada! Estou preocupada! O

que houve? - Noto a ansiedade em sua voz e procuro

responder o mais rápido que posso.

_ Olha, acalme-se, tudo bem? Não posso dar aula hoje.

Simplesmente não posso! Quebra essa pra mim, amiga.

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Preciso pensar sozinha, você sabe onde. Preciso relaxar,

para poder tomar algumas decisões. - Suspirei e esperei

por sua resposta, que veio quase imediatamente.

_ E isso vai acontecer na hora do nosso almoço, no

SUBWAY. É bom que você esteja lá ouviu? Agora vá

relaxar no seu esconderijo secreto. Eu seguro as coisas por

aqui amiga. - Ela ri baixinho.

_ Obrigada, obrigada mesmo Pati, vou ficar te devendo

uma.

_ Ah! Deixa isso pra lá! Se manda, vai! Até mais tarde.

_ Até Pati!

Patrícia, ou simplesmente Pati, como costumo sempre

chamá-la e é assim que ela gosta, é minha amiga, hã...

deixa ver... desde sempre. Nos conhecemos no primeiro

ano do ensino fundamental. Assim que a vi, não tive como

não gostar dela. Uma gorduchinha de cabelos louros e

olhos azuis e com as maças do rosto salientes, devido a

vermelhidão contida ali. De bem com a vida, nada a

aborrecia e nunca se importou com suas gordurinhas a

mais. Dizia que aquilo a deixava mais linda ainda! Nunca

tivera papas na língua, como sempre costumava dizer.

Isso aos sete anos imagine agora aos 24! Crescemos

juntas, estudamos juntas, brincamos, sujamos, batemos

em outras garotas, sempre juntas e por fim, fizemos a

faculdade juntas e juntas abraçamos, a mesma vocação

Dádiva de Ísis

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educacional. Amamos nossa profissão! Amamos lecionar!

Passar o conhecimento para os nossos pequenos, com

muita dedicação e respeito. Esse é o nosso lema. E,

achamos isso muito especial! Pati é professora de Química

e eu de Português e Literatura. Quando saímos juntas, Pati

tem a estranha mania de ficar citando as composições

químicas, das coisas que bebemos. Confesso que isso me

deixa doida e ela apenas diz que é um passa tempo legal.

Minha amiga também está namorando a sério, quase dois

anos, com o mesmo cara. Embora se conheçam desde a

adolescência, quando segundo eles, eram apenas amigos,

naquela época. Victor Kllaus, descendente de alemães, é

tão doido quanto ela! É um físico . Daí, dá para perceber

tudo não é? Mas os dois, são apaixonados um pelo outro.

Os olhos de Victor se enchem de luz, quando a Pati

aparece a sua frente. Ele não para de repetir o quanto a

ama e como ela é linda! E, assim vai. Apesar de amar

demais o Victor como ela diz, separa bem as coisa. Nós,

somos como irmãs. Só não fizemos pacto de sangue,

porque eu não quis. Lembro que na época bati firme o pé

e disse a ela, que aquilo era loucura! Não precisávamos

dessas besteiras para nos mantermos amigas. Por fim esse

assunto caiu na roda do esquecimento, seguimos em

frente. É! Amizade de longos anos! E agora a caminho da

biblioteca pública, penso em cada coisa, ou, na mais

importantes que vivemos juntas. Sei que ela deve estar se

perguntando o que aconteceu comigo. E deve estar em

cólicas, de tanta curiosidade e até preocupação, já que

Dádiva de Ísis

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raramente falto uma aula minha, porque amo ensinar. Sei

que na hora do almoço, ela vai querer saber tudo, tim-tim

por tim-tim. Mas agora só quero ficar sozinha com meus

pensamentos. Longe de olhares e de vozes, por todos os

lados. Só existe um lugar assim, onde eu consigo relaxar e

raciocinar com clareza. Apresso o passo para chegar logo e

aproveitar cada segundo. Sei que as vezes isso até parecer

infantil, mas só por hoje, vou me dar o prazer de ser

criançona, outra vez.

Q uando chego na entrada, comprimento o

porteiro e agora estou aqui, na biblioteca. Até parece que

entrei no refúgio de uma caverna e o dinossauro Rex ficou

lá fora. Mas é assim que estou me sentindo, como se a

qualquer momento o dinossauro do destino fosse me

tragar. Falo com Clara na recepção:

_ Oi, Clara! Tudo bem? - Estou meio distraída.

_ Oi, Isa. Tudo ótimo! Seu cantinho está reservado,

não deixo ninguém sentar ali! - Abro um largo sorriso para

ela.

_ Tá tudo bem Isa? - Ela me olha como se não

soubesse o que falar. – Desculpe...é que, você por aqui

essa hora da manhã... Ah... (sacode as mãos no ar) _

Deixa pra lá! Não e da minha conta. Tenho que parar com

essa mania de me meter na vida dos outros.

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_ Está tudo bem Clara. Obtive uma folga hoje e vim

fazer meu programa predileto. - Fico meia sem jeito.

Detesto mentir, inventar histórias mas... há, quer saber?

Vou ficar devendo uma para minha consciência.

_ Que bom! Então aproveita bem!

_ Valeu Clara!

Assim me dirijo para o meu cantinho nos fundos da

biblioteca e desabo na cadeira. Coloco minhas duas mãos,

uma em cada lado do rosto, segurando a cabeça e

mergulho em um mundo quieto. Tão quieto, que até as

engrenagens da minha mente resolvem tirar licença.

Relaxo e fecho os olhos, sentindo o ambiente que tanto

amo! Na companhia de livros que tanto amo! Como é bom

esse lugar! Pati diz que isso é loucura ao extremo! Que

tudo que é demais, não pode fazer bem. Não sei não. Mas

nesse exato momento, é todo que eu quero e o que

preciso. Amo ler! Prefiro isso, a ver televisão, escutar

musicas altas ou mesmo sair pra festas. Pati, apesar de ler

algumas vezes, não se detém muito nisso. Ela diz que é

preciso abrir um sorrisão, para o sol todos os dias e

esperar seu beijo, para o dia ser mais feliz. Se seguirmos

essa teoria de minha amiga, deveríamos incluir a lua dos

fins de semana, para a noitada seguir feliz, também.

Não sei quanto tempo se passou, até que eu levantasse

minha cabeça outra vez. Será que cochilei? Meu pescoço

doí um pouco e balanço a cabeça de um lado para o outro,

Dádiva de Ísis

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tentando amenizar a dor. Caio um pouco para o lado, para

dar um espiada nas horas, no relógio central da biblioteca.

10:05h. Ainda é muito cedo, então resolvo levantar, para

esticar um pouco as pernas. Vou em direção a uma estante

para pegar um livro, qualquer livro! Nem quero saber se já

o li. Leio de novo se preciso e acredite é preciso! Ai, não

estou dizendo coisa com coisa. Meto a mão em uma

estante, pego um exemplar a esmo. A Moreninha. Ah,

que legal! Não queria ler autor brasileiro agora. Embora,

eu goste muito, queria ler um estrangeiro. Ora veja só?!

Estou mesmo com a cabeça na lua. Estante de livros

nacionais! Adivinha só?! Só poderia ter livros nacionais! E

ler A Moreninha , pela quarta vez, não me anima muito.

Tenho ímpetos de lançar o livro longe. Credo! O que está

acontecendo comigo?! Afinal, me contenho. Olho para o

livro. É um belo exemplar. Para mim, um clássico e não é

justo maltratar uma obra tão bela!

Quando estou retornando para o meu cantinho, bato de

frente com um homem, que vem apressado em minha

direção. Sem que ambos pudéssemos antever o outro, o

inevitável acontece. Nossas cabeças vão de encontro, uma

contra a outra. Fico tonta na hora. Mal consigo visualizar o

sujeito a minha frente. Mas, sinto-o segurar meu cotovelo

direito. Firmo o olhar e reparo no estranho a minha frente.

Normalmente não sou tão descuidada, ou, distraída assim,

ao ponto de meter-me em situações embaraçosas, como a

que me encontro agora. Mas, definitivamente, hoje é um

Dádiva de Ísis

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dia atípico e estou sem dúvida meio aérea. O estranho

continua a me segurar com firmeza. Agora me detenho em

seu rosto, já um pouco contrariada, por ele ainda não ter

soltado o meu braço. É bonito! Tá bom. O cara é, como

diria a Pati : Um pedaço de mal caminho. Ah, que bom! Perdi a

capacidade de falar. Dou um sacudidela na cabeça e

consigo recuperar a fala, o suficiente para me desculpar,

com o Sr. Estranho, aqui.

_ Por favor, me desculpe. Não prestei atenção por

onde andava. Não vi o senhor vindo em minha direção.

Espero que sua cabeça não tenha machucado muito.

O sujeito ficou ali parado, a minha frente me olhando e

ainda segurando o meu braço. Sacudi com força o braço,

procurando livrar-me de sua mão. Encarei-o de volta. Qual

é a desse cara? Vai ver, é surdo e mudo. Era só o que me

faltava! Mas para a minha enorme surpresa, ele

perguntou:

_ Are you, ok? - E traduziu logo a seguir. _ Você

está bem? - Seu sotaque, denunciando sua condição de

gringo. Ai! Detesto gringo! Não só porque, eles

pronunciam errado, nosso idioma, como também se acham

os maiorais em relação, a ralé do terceiro mundão! Tá!

Vai! Eles podem! Mas mesmo assim, não gosto dele. Acho

que hoje será difícil gostar de alguém, principalmente se

esse alguém for um gringo. Olho-o com impaciência, me

dando conta de que não respondi sua pergunta.

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_ I’m fine. Estou bem. - Traduzo também. – Olha, eu

sei que você está me entendendo. Então, vou ser educada

só mais uma vez e te pedir que me dê licença, por favor?

Ele sorri e se afasta um pouco. Começo a regressar ao

meu cantinho, não antes de dar uma olhadela por cima dos

meus ombros, a tempo de ver o homem se dirigir á saída.

Ah! que bom! Novamente o sossego e a paz da biblioteca

e... De súbito, o cara está ao meu lado, outra vez. Surgido

sei lá de onde, andando comigo, pelo corredor. Olho de um

lado para o outro. Ai, estou começando a sentir medo.

Será que ele é louco, tarado ou ainda as duas coisas.

Como se pressentindo o que se passava comigo disse:

_ Não sou maluco e nem pervertido. Sou de paz.

Fico mais espantada.

_ Como é?!

_ Como? - Ele responde. Ele disse que não é maluco,

mas isso, é papo de maluco! Olho pra ele e digo:

_ Acho que você errou! A saída, é por ali, olha. -

Aponto a saída para ele, no que ele rapidamente responde:

_ Eu não estou de saída. Bom, até estava. Mas agora

resolvi que era melhor ficar um pouco mais e descansar

em uma dessas mesas, porque minha cabeça doí e estou

um pouco tonto. Você é cabeça dura!

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Acho que estou olhando o maluco, de queixo caído! Não

acredito que ele teve a coragem de me dizer isso! E, ainda

por cima, com esse sorriso palerma na cara! Pronto! Hoje

não é definitivamente, meu dia! Já perdi de novo o poder

de elaborar uma frase coerente, outra vez. Abro a boca

para falar e nada acontece. Fico ali, parada, olhando para

o gringo e aproveito minha momentânea afonia,

observando-o mais detalhadamente. Ele é alto, deve de ter

mais ou menos o tamanho de meu pai. Hum... Quem sabe,

um pouquinho mais. Mas e daí? Isso também não me

intimida. Também sou alta! Não tão alta como meu pai,

mas próxima a ele. No mais, ele tem cabelos negros, pele

branca e se tomar um solzinho por aí, vira pimentão! Ah!

Quanta maldade! Penso logo. Seus olhos são de um azul

intenso! Ou, seria seu olhar que é intenso? Ah, sei lá! Mas,

não é que o danado é bonito que doí?! Ah, isso é! E ainda

por cima, está lindo de morrer, com aquele sorriso torto,

de deboche, nos lábios carnudos e... Ops! Que é isso, meu

Deus?! Já não chega tanta besteira ao longo da vida e de

meu sofrimento atual? É! Definitivamente chega! Em uma

coisa meu pai estava certo, eu precisava tomar uma

atitude madura e responsável para minha vida. E

certamente, não incluía outro relacionamento, fadado

irremediavelmente ao fracasso. Testo a voz. Aleluia! Já

consigo falar, mas antes que eu consiga dizer qualquer

coisa, o homem fala primeiro:

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_ Passei no seu critério de avaliação? - Diz rindo.

Decido ignorar o comentário e digo:

_ Olha só! Eu pedi desculpas. Minha cabeça também

doeu! Mas, não estou por aí reclamando, que sua

cabeçorra estrangeira, também é dura!

Ele joga a cabeça para trás, se contorcendo de tanto que

ri. Não consigo acreditar nisso! Passo por ele de cabeça

erguida e nariz empinado. Notando e vendo-o ainda, ri sem

parar! Me dirijo ao meu lugar, sentando rápido para fugir

daqueles olhos inquisidores. Ele se senta um pouco mais

minha frente, ainda rindo e resolvo que é melhor ignora-lo

por completo. Tento, embora em vão, ater-me releitura de

: A Moreninha .

N unca, durante esses dois anos

trabalhando juntas, Isa deu qualquer justificativa para

faltar ao trabalho. Aliás, ela raramente, digo raramente,

porque não me recordo de atender a qualquer pedido por

parte dela, para que eu pudesse segurar as coisas . Mesmo

porque, Isa adora o que faz! Fora os livros que ela gosta

de ler, quase a todo o instante, lecionar é sua grande

motivação todos os dias. Por isso acho que algo de muito

sério está acontecendo com a minha amiga. Isso está me

deixando muito preocupada! Resolvo adiantar minhas aulas

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de Química, já que as crianças não terão nem literatura,

nem gramática hoje. As crianças não gostaram de saber

que sua professora predileta, não viria. Isso causou um

borbulhinho de lamúrias e insatisfação de todos. Os alunos

a amam! E, essa é a palavra correta, para descrever o que

sentem em relação a Tia Isa, como carinhosamente,

costumavam chamá-la. Isa é espirituosa em sala. Ensina

com paciência e muita dedicação. Vibra com a língua

Pátria! E quando seus alunos conseguem entender,

aprender e colocar no papel suas redações criativas e bem

escritas, isso faz com que tudo valha à pena! Segundo a

própria Isa. Então, essa sua ausência, no dia de hoje, é

muito estranho.

Isadora, de nós duas, sempre foi a mais centrada e mais

talentosa na vida, no seu dia-a-dia e em suas tarefas. Não

gostava muito de festas ou de sair de bobeira . Mas apesar

disso, e por isso, talvez, sempre causava terremotos nos

corações dos garotos, quando estávamos na escola e até

hoje. Acho as vezes, que ela não se dá conta de como é

bonita: cabelos castanhos, olhos cor de mel e aquela pele

morena curtida de sol, arrasam! Eu disse isso à ela, uma

ou duas vezes, no que ela me retrucou:

_ Pati, eu já te falei! Isso é só casca, o que vale mesmo

tá aqui e aqui. - Diz ,apontando para a cabeça e o

coração. Não me faço de rogada:

Dádiva de Ísis

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_ É, pode até ser. Mas que uma carinha bonitinha

ajuda, há, isso ajuda!

Ela faz um muxoxo e desconversa. Isa é quase uma irmã

para mim. Sou filha única, assim como ela. Então, me

identifiquei muito com Isa e não nos desgrudamos. Ela

sempre me apoia. Um dia briguei na escola, não me

recordo bem o motivo. Só sei que um grupo de garotas

começaram a fazer troça de mim, me dizendo que eu era

muito feia, gorda como uma porca! Não quis saber de

papo e parti pra briga. Isa, vinha chegando quando notou

o que estava acontecendo, também entrou na briga. Foi

puxões de cabelos, mordidas sem fim, chutes, até que Isa

acertou um soco de direita bem nos cornos, de uma

daquelas safadas! Olhei para ela, rindo, feliz e espantada,

ao mesmo tempo. “Bela direita” - Pensei. É claro que

depois disso, a briga chegou ao fim e obviamente sofremos

sansões. 15 dias de suspensão em casa e mais o castigo

de nossos pais.

_ Não consigo te entender Pati. - Eis aí, uma Isa

exasperada! - E daí que elas te chamaram de feia e gorda

como uma porca? Desde quando você passou a ser tão

sensível, em relação a essas bobeiras? Já não tínhamos

combinado que essas picuinhas, de “filhinhas de papai”,

não conseguiriam nunca, nos atingir? E, é só eu virar as

costas e você se comporta assim?!

Dádiva de Ísis

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_ Ah, vai! Me desculpe tá?! Não sei o que me deu! Sei

que isso é uma tremenda babaquice, além do que eu sou

bem bonitinha! - Isa faz cara de desdém. – É verdade!

Não é você que vive me dizendo que todos os dias ganho

um beijão do sol e consigo fazer o dia ficar mais feliz? -

Na verdade, eu comecei a dizer isso primeiro. Isa, achou

bonito e falou que seria meu tema.

_ Ok, está perdoada, mas chega de arrumar confusão!

Por causa dessa briga, estamos sem televisão por um bom

tempo. - Ela anda de um lado para o outro e chega a me

deixar tonta, seguro seu braço, para que ela pare de

andar.

_ Até parece que você vai sentir falta do aparelho do

mal (TV). Você vai é enfiar a cara nos livros, é isso sim!

O fato é que ela sempre esteve lá, para me ajudar com

minhas confusões! Embora sempre se prejudicasse com

isso, de certa forma. É uma perfeita irmã mais velha, um

aninho só mais velha. Em matéria de namorados, ela

sempre namorou muito. Mas era reservada, quando tecia

algum comentário sobre eles . Eles, os meninos, por sua

vez, quando o namoro chegava ao fim, agiam de igual

modo em relação a ela. Isa sempre soube ser respeitada e

amada, desde muito pequena. Uma vez vi um garoto

implorar, por mais uma chance com ela! Embora ela

tivesse sido taxativa e bem dura com ele, até hoje ele a

olha com respeito e admiração. As pessoas naturalmente a

Dádiva de Ísis

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amam e tenho orgulho de dizer que sou sua melhor amiga!

Agora, pela primeira vez, tenho absoluta certeza que terei

de ser de fato: Sua Melhor Amiga .

Já está quase chegando o fim do expediente e pela

primeira vez quero que essa hora voe. A desculpa que

arrumei para Celinha, nossa diretora, foi que Isa estava

doente e passando muito mal! Nem precisei dizer de que.

Ela também não perguntou, porque reconhecendo a boa

funcionária que Isa era, apenas lamentou o ocorrido. Me

senti quase mal com a mentira, quase. Celinha, estimou

melhoras para ela. Disse que esperava que Isa

descansasse bem no fim de semana. segunda-feira,

gostaria de vê-la presente, para a apresentação do novo

professor de inglês, que embora fosse nativo, já residia no

Brasil a quase dois anos. Então eu lhe disse que daria o

recado.

I sadora dá uma espiadela por cima da

mesa. – Ah! Ele continua lá! O cabeça dura, literalmente!

E institivamente leva a mão a própria cabeça, imitando

uma careta de dor. Olha o relógio na parede. 11:45h. Está

quase na hora de meu encontro com a Pati e quanto ao

gringo... Ah! Que se exploda em mil pedacinhos! Como eu

disse, detesto gringo! Esse em especial, conseguiu me

Dádiva de Ísis

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fazer sair do sério! Tenho que me controlar. Logo, logo

vou embora e esse encontro do acaso, com esse estranho,

não irá passar disso: Um encontro ao acaso.

Meu pensamento retorna para Pati. Ela não vai acreditar

no meu descuido por assim dizer. Como pude achar que

um bebê iria nos unir novamente, concertando nossos

erros? E, como pude sucumbir a essa ideia, tão

estapafúrdia?! O fato é que eu queria ter um grande

amor! Acreditava que, apesar dos últimos meses de brigas,

nos ainda tínhamos chance e ele também pensava da

mesma forma. Ou assim eu achava. O que nenhum de nos

dois reparou, que éramos um TITANIC de tantos

fracassos, que não havia como recuperar mais nada!

Quebramos ao meio e o primeiro a afundar foi Mauro. E eu

iria logo a seguir.

Eu ainda era uma menina, quando me descobri apaixonada

pelo Mauro. Ele era charmoso desde pequeno. Raramente

nos víamos. Nossas famílias não se toleravam, a não ser

no natal, quando íamos todos para a casa do vovô Pablo.

Aquilo era um horror! Sempre tinha uma briga. No fundo,

eu achava que eles esperavam o ano todo, para nesse dia

“tão especial” pudessem lavar a roupa suja . Enquanto os

observava, imaginava uma outra cena:

Uma família feliz com todos se abraçando, rindo,

desejando feliz natal uns aos outros. Distribuindo presentes

para as crianças. Mas a realidade bateu sem dó em mim,

Dádiva de Ísis

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me tirando de meus devaneios encantados. Lá estavam

eles de novo . Um lançando contra o outro, dardos

envenenados. Cunhadas criticando a comida uma das

outras, ou ainda, homens bebendo suas cervejas e

jogando cartas, colocando para fora seus maus fluídos, de

testosterona de machos enfurecidos. As crianças brigavam,

seguindo o exemplo de seus pais. Os adolescentes como

eu, isolavam-se como se fossem autista. Enfadados com

tudo aquilo, retirando-se para seus mundinhos particulares.

Era um inferno! Eu, no canto da sala odiando tudo aquilo.

Foi em um desses natais sinistros, que Mauro e eu nos

olhamos de um modo diferente, pela primeira vez. Ele

estava de jeans e uma camisa xadrez por cima de sua

camiseta branca. O cabelo cacheado e comprido demais,

para os padrões da família. A pele morena se

harmonizando com seus cabelos e olhos verdes. Era um

adolescente alto e bem bonitinho! Sabia que minhas

primas eram encantadas por ele! Quando ele chegava à

festa com os pais, elas reuniam-se em um canto qualquer

da casa, para falar sobre ele. Sei porque, cansava de ouvir

aquelas conversas. Mas hoje era diferente. Ele me olhou

do outro canto da sala e me chamou com o seu dedo

indicador, fazendo um movimento para que eu me

aproximar mais. E lá fui eu. Em sua direção. Sem desviar o

olhar, andando como uma mariposa, fascinada pelo brilho

da luz. Quando cheguei perto, ele disse:

Dádiva de Ísis

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_ Oi, Isadora! Priminha querida! - Não havia sarcasmo

em sua voz, era um comprimento sincero. De imediato

respondi de modo igual ao dele.

_ Oi, Mauro! Meu priminho. -Ele riu e disse:

_ Vamos lá para o varandão, está bem?

Acho, que assim como eu, ele também não suportava ficar

ali, naquela sala, naquele encontro de babacas que eram

as nossas famílias. Fomos para o varandão e nos sentamos

no banco de madeira, posicionado ao lado da janela da

sala.

_ Puxa! Eu odeio essas reuniões de família! - Ele disse.

– Acho que se estivessem armados, matariam uns aos

outros! - Ri do exagero de sua declaração. Por outro lado,

ele não deixava de ter razão.

_ Está se tornando insuportável, a cada ano que passa!

- Eu disse. – Tenho até medo, de que com essa disputa,

de qual das mulheres cozinha melhor, elas acabem por

desandar com o preparo dos alimentos, causando uma

intoxicação alimentar, em todos nos!

Mauro riu e gargalhou, jogando a cabeça para trás de

modo exagerado, ou quem sabe bem calculado para me

impressionar.

Dádiva de Ísis

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_ Isso! - Ele disse. – Sem falar que meu pai e meus

tios, adorariam que a sala do vovô, virasse um ringue de

luta livre, para então a porrada rolar pra valer!

Ambos rimos, imaginando a cena e ficamos um pouco em

silêncio, até que Mauro me olhou com mais atenção.

_ Você está se tornando uma bela mulher Isadora. Sua

cor está linda! Combina muito com seus cabelos e seus

olhos, e quando você ri assim, é... desse, jeitinho! Mexe,

mexe mesmo, com alguma coisa dentro de mim.

Fico tonta com suas palavras e antes que eu possa tecer

qualquer comentário, ele continua:

_ Venho a muito tempo observando você crescer, ao

longo desses natais. De patinho feio, para um cisne

glamoroso! Você se destacou de nossas outras primas, que

ficaram feias e invejosas de você. Você é com uma

borboleta que rompeu o casulo e deixou que o mundo

vislumbrasse sua beleza! Você está radiante, maravilhosa!

Na verdade não esperava que Mauro fosse capaz de

proferir coisas tão bonitas e em se tratando de minha

pessoa. Aquilo me fez sentir um calor tomar conta do meu

rosto. Ele sorriu de novo para mim. Disse que meu rubor

funcionava como se fosse uma maquiagem natural.

Discretamente, foi chegando mais para perto de mim,

levantou meu queixo com a mão e deu-me um beijinho na

bochecha direita. Ficamos, o que para mim pareceu uma

Dádiva de Ísis

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eternidade, olhando um no olho do outro. Mauro inclinou

um pouquinho a cabeça em minha direção e eu levantei

um pouco mas o rosto em direção aos seus lábios. Não

faço ideia de quanto tempo se passou enquanto estávamos

ali, perdidos no enlevo daquele momento, saboreando

cada toque de língua, sentindo nossos corações baterem

em uníssono...Então ele se afastou, me olhou e sorriu

brevemente.

_ Eu gostaria que esse beijo tivesse durado bem mais!

Entretanto, acho que já tivemos plateia o suficiente por

hoje! Olhei assustada em volta e reparei algumas de

nossas primas rindo com ironia, um pouco mas afastadas

no varandão. _ Nunca imaginei que seria tão,

bom beijar você! Seu beijo é doce e me toca aqui. -

Colocou a mão sobre o coração. Queria te beijar outra

vez, mas não quero correr o risco de ser surrado, por um

tio irado na noite de natal.

Rimos um para o outro e ficamos ali observando as

crianças correrem. Duas de nossas tias sentando-se no

terceiro degrau da escada e tia Fátima chorando. Lá dentro

a gritaria comia solta . Os homens estavam um pouco

altos demais. Sabíamos que vovô, ainda permanecia em

sua cadeira de rodas, ao lado da porta da cozinha sem

esboçar nenhuma reação. O patriarca da família! Como

costumava se intitular, antes de ficar meio senil. Era o

circo dos horrores , como Mauro descreveu, um tempo

Dádiva de Ísis

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depois. Depois daquela noite passamos a nos ver com mais

frequência. Ainda de forma moderada, afinal eu só tinha

17 anos e com pais rígidos! Mauro era três anos mais velho

que eu. Foram muitos encontros. Foram muitos beijos.

Foram muitos abraços e olhares apaixonados. Estávamos

em nossa própria bolha tão grande quanto nossa

felicidade. Mas... não durou. A bolha... Bem, acho que

gradativamente ela começou a esvaziar-se até

desaparecer. Não entendo...

Balanço a cabeça, saio do meu devaneio profundo.

Debruço sobre a mesa para observar o relógio outra vez.

Me levanto de um pulo só! 12:35h! A essa altura, na escola

, já ocorre a movimentação habitual. Para dar a saída dos

alunos do turno da manhã. Sei que, Pati assim como eu

está ansiosa pelo nosso encontro. Começo a recolher meus

pertences e ir até o balcão, onde Clara está, para que ela

anote o livro que estou levando comigo emprestado. Será

que papai tem esse livro em sua biblioteca? Talvez sim,

talvez não. Vai se saber. Nos últimos anos ele passou a ser

mais eclético em relação a livros e isso incluiu romances

também.

Paro em frente ao balcão esperando minha vez de ser

atendida. Olho para todos os lados... não. É claro que não

estou procurando por ele. “A quem você acha que está

enganando sua boba?” - Balanço a cabeça

vigorosamente. “ E daí que o achou interessante? A essa

Dádiva de Ísis

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hora o cara já foi embora ...” -Ele para ao meu lado. Sorri

torto.

_ Olá de novo! -Ele diz. – Posso? - Faz um gesto

com a mão, como se pedisse permissão para ficar ao meu

lado, e já se postando ali, sem nem esperar a resposta.

Olhei para ele de alto a baixo, sem entender. Qual é a

desse sujeito?! A essa altura a minha calma já tinha ido

para o espaço! Eu estava com ímpetos, de socar a cara

risonha, daquele gringo!

_ Pois não? -Perguntei: - Você quer alguma

informação, é ali com a Clara! - Apontei para a

recepcionista, sacudindo a minha mão para frente, em um

gesto de enxotá-lo. Ele pareceu percebeu minha

impaciência e apressou-se em falar, com um timbre de voz

rouco e sensual , que fez com que os cabelinhos de minha

nuca se arrepiassem todos! “Ei, credo! O que é isso

agora?! Para! Para, agora mesmo com essa bobagem!

Deixa de ser infantil.” -Recriminei-me rapidamente.

_ Acho que começamos com o...Como é que eu digo

isso?... Bom, algo que não me recordo, errado.

Por mais exasperada que eu esteja, tenho que ri e ele ri

junto. – É com o pé errado! Se é isto que está tentando

dizer. E torno a rir.

_ Isso! Me perdoe. Você não é cabeça dura coisa

nenhuma, nem causou-me trauma algum, esteja certa

Dádiva de Ísis

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disso. Em contra partida, sua beleza pode me provocar

algum choque e grandes convulsões! - E riu.

Mesmo não gostando nadinha daquele papinho brega e

um pouco forçado demais, tive que admitir para mim

mesma que ele estava se esforçando para se desculpar,

embolando-se muito, com as palavras. Resolvi aliviar para

ele. Já que não nos veríamos mais, não queria que ele

voltasse lá para a terra dele, achando que as pessoas

daqui, são grosseiras e desprovidas de qualquer bom

humor.

_ Ok. Deixa essa bobagem toda pra lá! Não vou

guardar mágoas suas. Espero que sua estadia, aqui, em

nosso país, possa ser fantástica! Foi um prazer te

conhecer!

_ Que prazer?! - Perguntou ele com a testa franzida.

– Você nem sabe o meu nome e nem eu o seu!

_ Olha. - Digo com calma. – Não tem sentido você

falar o seu nome e eu o meu. - Respondo já sem

paciência. _Afinal, não nos veremos outra vez. _ Foi um

prazer quer dizer: “adeus”, “good by”, “au revoir”, coisas

assim! Até nunca mais!

_ Que coisa horrível de se dizer! E quem te disse que

não vamos nos ver nunca mais? Como você pode garantir

isso? Por acaso você não acredita em destino ou coisas do

tipo? O mundo dá tantas voltas, tudo pode acontecer e...

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_ Tudo pode acontecer. -Repito suas palavras dando

um suspiro frustrado, não querendo que mais nada

aconteça, antes que eu consiga resolver os meus

problemas. Antes que, consiga dar um pouco de equilíbrio

a minha vida, que está toda desestabilizada. – Bem, se

para finalizar esse papo pra lá de esquisito, precisarmos

nos apresentar um ao outro, então lá vai... Promete que

depois das nossas apresentações, você sairá do meu

caminho e irá cuidar da sua vidinha e eu da minha?

_ Você tem minha palavra... Hã... De honra. - E abre

um sorrisão estonteante, que me deixa quase sem fôlego!

Nossa! Como é lindo esse gringo! Balanço a cabeça em uma

censura a mim mesma. Sai pra lá coisa ruim, ou, coisa

boa... Ah, sei lá! Mesmo assim: “Sai tentação! Xô, xô de

mim!”

_ Meu nome é: Isadora de Mello Sossa. Sou professora... -

Paro e olho para ele, não querendo dar-lhe mais nenhuma

informação ao meu respeito.

_ Que lindo o seu nome! I-SA-DO-RA! - Soletra, ou,

tenta, como se estivesse testando o meu nome. – É um