Dogma e Ritual de Alta Magia por Eliphas Lévi - Versão HTML

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Dogma e Ritual

de Alta Magia

Eliphas Levi Zahed

Título original:

Dogme et Rituel de la Haute Magie

Publicação original em 1855.

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DISCURSO PRELIMINAR

DAS TENDÊNCIAS RELIGIOSAS, FILOSÓFICAS E MORAIS

(DOS NOSSOS LIVROS SOBRE A MAGIA)

Desde que a primeira edição deste livro foi publicada, Agendes

acontecimentos se realizaram no mundo, e outros — talvez maiores —

estão para se realizar.

Estes acontecimentos nos tinham sido anunciados, como de

ordinário, por prodígios: as mesas haviam falado, vozes haviam saído das

paredes, mãos sem corpos haviam escrito palavras misteriosas, como no

festim de Baltazar.

O fanatismo, nas últimas convulsões da sua agonia, deu sinal desta

última perseguição dos cristãos, anunciada por todos os profetas. Os

mártires de Damasco perguntaram aos mortos de Perusa o nome daquele

que salva e que abençoa; então o céu se cobriu com um véu e a terra ficou

muda.

Mais do que nunca, a ciência e a religião, a autoridade e a liberdade,

parecem guerrear-se encarniçadamente e guardar entre si um ódio

irreconciliável. Não acrediteis, todavia, nas suas aparências sanguinolentas:

elas estão em vésperas de se unirem e de se abraçarem para sempre.

A descoberta dos grandes segredos da religião e da ciência primitiva

dos Magos, revelando, ao mundo a unidade do dogma universal, aniquila o

fanatismo, dando a razão dos prodígios, O verbo humano, o criador das

maravilhas do homem, se une pura sempre com o verbo de Deus, e faz

cessar a antinomia universal, fazendo-nos compreender que a harmonia

resulta da analogia dos contrários.

O maior gênio católico dos tempos modernos, o conde José de

Maistre, tinha previsto este grande acontecimento. "Newton — dizia ele —

nos leva a Pitágoras; a analogia que existe entre a ciência e a fé deve, cedo

ou tarde, uni-las. O mundo está sem religião, mas esta monstruosidade não

poderia existir por muito tempo; o século XVIII dura ainda, mas vai

acabar."

Participando da fé e das esperanças deste grande homem, ousamos

escavar as ruínas dos velhos santuários do ocultismo; perguntamos às

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doutrinas secretas dos caldeus, egípcios e hebreus os segredos da

transfiguração dos dogmas, e a verdade eterna nos respondeu — a verdade,

que é una e universal como ó ente; a verdade que vive nas forças da

natureza, os misteriosos Elohim que refazem o céu e a terra, quando o caos

tomou, por algum tempo, a criação e suas maravilhas, e quando só o

espírito de Deus pairava sobre o abismo das águas.

A verdade está acima de todas as opiniões e de todos os partidos.

A verdade é como o sol; cego é quem não a vê. Tal era, não o

podemos duvidar, o sentido de uma célebre palavra de Bonaparte, dita por

ele numa época em que o vencedor da Itália, resumindo a revolução

francesa, encarnada somente nele, começava a compreender como a

república podia ser uma verdade.

A verdade é a vida, e a vida se prova pelo movimento. É pelo

movimento determinado e efetivo, enfim, pela ação, que a vida se

desenvolve e se reveste de novas formas. Ora, os desenvolvimentos da vida

por si mesma e a sua produção de formas novas, nós chamamos criação. A

potência inteligente que age no movimento universal, chamamo-la o verbo,

de um modo transcendental absoluto. É a iniciativa de Deus, que nunca

pode ficar sem efeito, nem parar sem ter atingido o seu fim. Para Deus,

falar é fazer; e tal deveria ser sempre a capacidade da palavra, mesmo entre

os homens: a verdadeira palavra é a semente das ações. Uma emissão de

inteligência e de vontade não pode ser estéril, sem que haja abuso ou

profanação da sua dignidade original. E é por isso que o Salvador dos

homens deve nos pedir uma conta severa, não só de todos os pensamentos

desencaminhados, mas também, e principalmente, das palavras ociosas.

Jesus, diz o Evangelho, era poderoso em obras e em palavras; as

obras antes das palavras: é assim que se estabelece e se prova o direito de

falar. Jesus se pôs a fazer e a falar, diz alhures um evangelista, e, muitas

vezes, na linguagem primitiva da sagrada Escritura, uma ação é chamada

um verbo.

Em todas as línguas, aliás, denomina-se verbo aquilo que exprime,

ao mesmo tempo, o ente e a ação, e não há verbo que não possa ser suprido

pelo verbo fazer, mudando o. regime. No princípio estava o verbo, diz o

evangelista S. João. Em que princípio? No primeiro princípio: no princípio

absoluto que existe antes de tudo. Neste princípio estava, pois, o verbo, isto

6, a ação. Isso é incontestável em filosofia, pois que o primeiro princípio é

necessariamente o primeiro motor. O Verbo não é uma abstração: é o

princípio mais positivo que há no mundo, pois que ele se prova, sem cessar,

por atos. A filosofia do Verbo é essencialmente a filosofia da ação e dos

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DOGMA E RITUAL DE ALTA MAGIA

fatos realizados, e é nisso mesmo que é preciso distinguir um verbo de uma

palavra. A palavra pode ser, às vezes, estéril, como na seara se acham

espigas chochas, mas o Verbo não o é. O Verbo é a palavra cheia e

fecunda, os homens não se divertem em escutá-lo e aplaudi-lo; eles o

realizam sempre, muitas vezes sem o compreender, quase sempre sem lhe

ter resistido! As doutrinas que o povo repete não são as que têm sucesso. O

cristianismo era ainda um mistério, quando os Césares já se sentiam

destronados pelo Verbo cristão. Um sistema que o mundo admira e que a

multidão aplaude pode ser somente um brilhante conjunto de palavras

estéreis; um sistema que a humanidade suporta, por assim dizer, contra a

sua vontade, é um verbo.

O poder se prova por seus resultados, e como dizem que escreveu um

profundo político dos tempos modernos: "A responsabilidade é alguma

coisa quando não se tem êxito." Esta palavra, que espíritos ininteligentes

acharam imoral, é igual-mente verdadeira se for aplicada a todas as noções

especiais que distinguem a palavra do Verbo, a vontade da ação, ou antes o

ato imperfeito do ato perfeito. O homem que se dana, conforme a teologia

católica, é o que não tem o êxito de salvar-se. Pecar é faltar à felicidade. O

homem que não é bem sucedido, errou sempre: quer em literatura, quer em

moral, quer em política. O mau em qualquer gênero é o belo e o bom mal

sucedidos. E se for preciso ir mais além até o domínio eterno do dogma,

dois espíritos havia outrora, cada um dos quais queria a divindade para si

só: um teve sucesso e é ele que é Deus; o outro malogrou-se e veio a ser o

demônio!

Ser bem sucedido e poder; malograr-se sempre é tentar eternamente:

estas duas palavras resumem os dois destinos opostos do espírito do bem e

do espírito do mal!

Quando uma vontade modifica o mundo, é um Verbo que fala, e

todas as vozes se calam diante dele, como diz o livro dos Macabeus a

respeito de Alexandre; mas Alexandre morreu com seu verbo de poder,

porque nele não havia futuro; a menos que a grandeza romana não tivesse

sido a realização do seu sonho! Ora, em nossos dias se passa alguma coisa

de mais estranho: um homem que morreu no exílio, no meio do Oceano

Atlântico, faz calar segunda vez a Europa diante do seu verbo, e conserva

ainda o mundo inteiro suspenso pela única força de seu nome! É que a

missão de Napoleão foi grande e santa; é que havia nele um Verbo de

verdade. Só Napoleão podia, depois da revolução francesa, reerguer os

altares do catolicismo, e só o herdeiro moral de Napoleão tinha o direito de

levar Pio IX a Roma. Vamos dizer por que:

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Há, na doutrina católica da Encarnação, um dogma conhecido nas

escolas teológicas sob o título de Comunicação dos Idiomas. Este dogma

afirma que, na união da divindade e da humanidade realizada em Jesus

Cristo, a aproximação das duas naturezas foi tão estreita, que resultou disso

uma identidade e uma muito simples unidade de pessoa; o que faz com que

Maria, mãe do homem, possa e deva ser chamada mãe de Deus. (O mundo

inteiro agitou-se por causa desta prerrogativa no tempo do concilio de

Éfeso.) O que faz que se possa atribuir a Deus os sofrimentos do homem e

ao homem as glórias de Deus. Numa palavra, a Comunicação dos Idiomas

é a solidariedade das duas naturezas divina e humana em Jesus Cristo;

solidarie-dade em nome da qual se pode dizer que Deus é homem, e que o

homem é Deus.

O magismo, revelando ao mundo a Lei universal do equilíbrio e da

harmonia que resultam da analogia dos contrários, soma todas as ciências

pela base, e preludia pela reforma das matemáticas uma revolução

universal em todos os ramos do saber humano: ao princípio gerador dos

números ele une o princípio gerador das idéias, e, por conseguinte, o

princípio gerador dos mundos, levando, assim, à luz da ciência o resultado

incerto das instituições muito físicas de Pitágoras; opõe ao esoterismo

teúrgico de Alexandria uma fórmula clara, precisa, absoluta, que todas as

ciências regeneradas demonstram e justificam; a razão primária e o fim

último do movimento universal, quer nas idéias, quer nas formas, se

resumem definitiva-mente para ele em alguns sinais de álgebra sob a forma

de uma equação.

As matemáticas, assim compreendidas, nos levam à religião, porque

se tornam, sob qualquer forma, a demonstração do infinito gerador da

extensão e a prova do absoluto, de que emanam os cálculos de todas as

ciências.

Esta sanção suprema dos trabalhos do espírito humano, esta

conquista da divindade pela inteligência e pelo estudo, deve consumar a

redenção da alma humana e alcançar a emancipado definitiva do Verbo da

humanidade. Então, o que ainda hoje chamamos lei natural terá toda a

autoridade e infalibilidade de uma lei revelada; então, também se há de

compreender que a lei positiva e divina é, ao mesmo tempo, uma lei

natural, porque Deus é o autor da natureza, e não poderia contradizer-se

mas suas criações e nas suas leis.

Desta reconciliação do Verbo humano nascerá a verdadeira moral,

que ainda não existe de um modo completo e definitivo. Então, também

uma nova carreira se abrirá diante da Igreja universal. Com efeito, até o

presente, a infalibilidade da Igreja só constitui o dogma, e para isso, sem

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DOGMA E RITUAL DE ALTA MAGIA

dúvida, a Divindade não queria ter necessidade do concurso dos homens,

chamados mais tarde a compreender o que deviam crer primeiramente.

Porém, para constituir a moral, não se dá a mesma coisa, porque ela é tão

humana como divina; e necessariamente deve consentir no pacto aquele

que mais obrigações toma nele. Sabeis vós o que falta mais ao mundo, na

época em que estamos? É a moral. Todos o sentem, todos o dizem, e,

portanto, são abertas em toda parte escolas de moral. Que falta a essas

escolas? Um ensinamento que inspirasse confiança; numa palavra, uma

autoridade razoável, em vez de uma razão sem autoridade de uma parte, e

de uma autoridade sem razão de outra.

Observemos que a questão moral foi o pretexto da grande deserção

que deixa, neste momento, a Igreja viúva e desolada. É em nome da

humanidade, esta expressão material da caridade, que se fez revoltarem os

instintos populares contra dogmas falsamente acusados de serem

desumanos.

A moral do catolicismo não é desumana, mas é, muitas vezes, sobre-

humana; por isso, ela não era dirigida aos homens do mundo antigo, e

estava unida a um dogma que estabelece como possível a destruição do

homem velho e a criação de um homem novo. O magismo acolhe este

dogma com entusiasmo, e promete este renascimento espiritual à

humanidade para a época da reabilitação do Verbo humano. Então, diz ele,

o homem, tornado criador como Deus, será o operador do seu

desenvolvimento moral e autor da sua imortalidade gloriosa. Criar a si

próprio, tal é a sublime vocação do homem restabelecido em todos os seus

direitos pelo batismo no espírito; e haverá uma tal conexão entre a

imortalidade e a moral, que uma será o complemento e a conseqüência da

outra.

A luz da verdade é também a luz da vida. Mas a verdade, para ser

fecunda em imortalidade, quer ser recebida em almas, ao mesmo tempo,

livres e submissas, isto é, voluntariamente obedientes. Com o esplendor

desta claridade, a ordem se estabelece nas formas como nas idéias, ao passo

que o crepúsculo enganador da imaginação só engendra e só pode

engendrar monstros. Assim, o inferno se povoa de pesadelos e de

fantasmas; assim o pagode dos charlatães se enche de divindades horrendas

e disformes; assim, as tenebrosas evocações da teurgia dão às quimeras do

Sabbat uma fantástica existência. As imagens simbólicas e populares da

tentação de Santo Antônio representam a fé pura e simples, lutando, na

aurora do cristianismo, contra todos os espectros do mundo antigo: mas o

Verbo humano, manifestado e vitorioso, foi profeticamente figurado por

este admirável São Miguel, a quem Rafael dá para vencer, com uma

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simples ameaça, um ser inferior, tendo também a figura humana, mas com

os caracteres do bruto.

Os místicos religiosos querem que se faça o bem unicamente para

obedecer a Deus. Na ordem da verdadeira moral, será, sem dúvida,

necessário fazer o bem pela vontade de Deus, mas também pelo próprio

bem. O bem é, em Deus, o justo por excelência, que não limita, mas

determina a sua liberdade. Deus não pode danar a maioria dos homens por

capricho despótico. Deve existir uma proporção exata entre as ações do

homem e a criação determinante da sua vontade, que faz dele,

definitivamente, uma potência do bem ou um auxiliar do mal, e é o que a

ciência da alta magia demonstra.

Eis o que escrevemos num livro publicado em 1845: "O tempo da fé

cega passou, pois, e chegamos à época da fé inteligente e da obediência

razoável; o tempo em que não acreditaremos somente em Deus, mas em

que havemos de vê-lo nas suas obras, que são as formas exteriores do seu

ente. "Ora, eis aqui o grande problema da nossa época: "Traçar, completar

e fechar o círculo dos conhecimentos humanos; depois, pela convergência

dos raios, achar um centro, que é Deus.

"Achar uma escala de proporção entre os efeitos, as vontades e as

causas, para subir daí à causa e à vontade primeira.

"Constituir a ciência das analogias entre as idéias e a sua fonte

primitiva.

"Tornar qualquer verdade religiosa tão certa e tão clara-mente

demonstrada como a solução de um problema de geometria."

Eis agora o que diz um homem que foi assaz feliz para achar, antes

de nós, a demonstração do absoluto conforme os antigos sábios, mas assaz

infeliz por ver nesta descoberta somente um instrumento de fortuna e um

pretexto de cupidez:

"Ser-nos-á suficiente dizer, antecipadamente à doutrina do

Messianismo, que, de um lado, a aplicação da razão absoluta à nossa

faculdade psicológica da cognição produz em nós a faculdade superior da

criação dos princípios e da dedução das conseqüências, que é o grande

objeto da filosofia, e, de outro lado a aplicação da razão absoluta à nossa

faculdade psicológica do sentimento produz, em nós, a faculdade superior

do sentimento moral e do sentimento religioso, que é o grande objeto da

religião. — Poder-se-á, assim, entrever como o Messianismo alcançará a

união final da filosofia e da religião, desembaraçando uma e outra dos seus

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DOGMA E RITUAL DE ALTA MAGIA

obstáculos físicos e terrestres, e levando-as, além destas condições

temporais, à razão absoluta, que é a sua fonte comum.

Além disso, já se poderá reconhecer como pela influência destas

condições temporais ou destes obstáculos físicos, se tornam possíveis, de

um lado, o erro no domínio da filosofia, e do outro, o pecado no domínio

da religião; principalmente quando estas condições físicas são comuns às

da depravação hereditária da espécie humana, que faz parte da sua natureza

terrestre. E então se compreenderá como a razão absoluta, que está acima

dessas condições, desta nódoa terrestre, e que, no Messianismo, deve

destruir até a fonte do erro e do pecado, forma, sobre a expressão alegórica

da virgem que deve esmagar a cabeça da serpente, a realização desta

predição sagrada. — Ê, pois, esta Virgem augusta que o Messianismo

introduz hoje no santuário da humanidade."

Crêde e vós compreendereis, dizia o Salvador do mundo; — estudai

e haveis de crer, podem dizer, agora, os apóstolos do magismo.

Crer é saber por palavra. Ora, esta palavra divina, que antecipava e

supria por um tempo a ciência cristã, devia ser compreendida mais tarde,

conforme a promessa do mestre. Eis, pois, o acordo da ciência e da fé

provada pela própria fé.

Mas, para estabelecer para a ciência a necessidade deste acordo, é

preciso reconhecer e estatuir um grande princípio: é que o absoluto não se

acha em nenhuma das duas extremidades da antinomia, e que os homens de

partido, que sempre puxam para os extremos opostos, temem ao mesmo

tempo chegar a esses extremos, considerando como loucos perigosos os

que declaram claramente as suas tendências, e, no seu próprio sistema,

temem instintivamente o fantasma do absoluto como o nada ou a morte, É

assim que o piedoso arcebispo de Paris desaprova formalmente as basófias

inquisitoriais do Universo, e que todo o partido revolucionário se indignou

contra as brutalidades de Proudhon.

A força desta prova negativa consiste nesta simples observação: que

um lugar central deve reunir duas tendências opostas em aparência, que

estão na impossibilidade de dar um passo, sem que uma arraste a outra para

trás; o que necessitará, em seguida, de uma reação semelhante. Eis aí o que

acontece desde há dois séculos: presas, assim, uma à outra, sem saberem e

por detrás, essas duas potências estão condenadas a um trabalho de Sísifo e

mutuamente se fazem obstáculo. Voltai--vos, dirigindo-as para o ponto

central, que é o absoluto, então rins se encontrarão face a face, e, apoiando-

se uma na outra, produzirão uma estabilidade igual à força dos seus

esforços contrários, multiplicados uns pelos outros.

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Para voltar, assim, às forças humanas, o que, à primeira vista, parece

um trabalho de Hércules, basta desenganar as inteligências e mostrar-lhes o

fim onde crêem achar o obstáculo.

A Religião é razoável. Eis o que é preciso dizer à filosofia; e pela

simultaneidade e a correspondência das leis geradoras do dogma e da

ciência, pode-se prová-lo radicalmente.

A Razão é santa. Eis o que é preciso dizer à Igreja, e deve-se provar-

lhe, aplicando à vitória da sua doutrina de caridade todas as conquistas da

emancipação e todas as glórias do progresso.

Ora, Jesus Cristo, sendo o tipo da humanidade regenerada, a

divindade feita homem, tinha por missão tornar a humanidade divina: o

Verbo feito carne permitia à carne fazer-se Verbo, e é o que os doutores da

Igreja não compreenderam a princípio; o leu misticismo quis absorver a

humanidade na divindade. Negaram o direito divino; acreditaram que a fé

devia aniquilar a razão, sem lembrar-se desta palavra profunda do maior

dos hierofantes cristãos: "Todo espírito que divide o Cristo é um espírito do

Anticristo."

A revolta do espírito humano contra a Igreja, revolta que foi

sancionada por um espantoso sucesso negativo, teria sido, pois, neste ponto

de vista, um protesto em favor do dogma integral; e a revolução, que dura

há três séculos e meio, teria tido por causa um grande equívoco!

Com efeito, a Igreja católica nunca negou nem pôde negar a

divindade humana, o Verbo feito carne, o Verbo humano!

Nunca consentiu nestas doutrinas absorventes e enervantes que

destroem a liberdade humana num quietismo insensato. Bossuet teve a

coragem de perseguir a senhora Guyon, de que, todavia, admirava e

admiramos, depois dele, a conscienciosa loucura; mas Bossuet viveu,

infelizmente, só depois do Concilio de Trento. Era preciso que a

experiência divina tivesse o seu curso.

Sim, chamamos a revolução francesa uma experiência divina, porque

Deus, nesta época, permitiu ao gênio humano medir-se contra ele; luta

estranha que devia acabar por um apertado abraço; depravação do filho

pródigo que tinha por único futuro uma volta decisiva e uma festa solene na

casa do pai da família.

O Verbo divino e o Verbo humano, concebidos separada-mente, mas

sob uma noção de solidariedade que os tornava inseparáveis, tinha, desde o

começo, fundado o papado e o império: as lutas do papado para prevalecer

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DOGMA E RITUAL DE ALTA MAGIA

sozinho tinham sido a afirmação do Verbo divino; e esta afirmação, para

restabelecer o equilíbrio do dogma da Encarnação, devia corresponder, no

império, a uma afirmação absoluta do Verbo humano. Tal foi a origem da

Reforma, que tendeu aos direitos do homem! Os direitos do homem!

Napoleão os provou pela glória com que cobriu sua espada. Encarnada e

resumida em Napoleão, a revolução cessou de ser uma desordem e

produziu, por um brilhante sucesso, a prova incontestável do seu Verbo. É

então que se viu — coisa inaudita nos fastos da religião! — o homem

estender, por sua vez, a mão a Deus, como que para o levantar da sua

queda. Um papa, cuja piedade e ortodoxia nunca foram contestadas, veio

sancionar, com a autoridade de todos os séculos cristãos, a santa usurpação

do novo César, e a revolução encarnada foi sagrada, isto é, recebeu a unção

que faz os Cristos, da própria mão do mais venerável sucessor dos pais da

autoridade!

É sobre semelhantes fatos, tão universais, tão incontestáveis e tão

brilhantes de claridade como a luz do sol, é sobre fatos semelhantes que o

Messianismo estabeleceu a sua base na história.

A afirmação do Verbo divino pelo Verbo humano, impelida por este

último, até o suicídio, à força de abnegação e de entusiasmo, eis a história

da Igreja desde Constantino até a Reforma.

A imortalidade do Verbo humano, provada por convulsões terríveis,

por uma revolta que chegou ao delírio, por combates gigantescos e por

sofrimentos semelhantes aos de Prometeu, até a vinda de um homem assaz

forte para prender de novo a humanidade a Deus: eis a história da

revolução inteira!

Fé e razão! dois termos que o homem julga serem opostos e que são

idênticos.

Autoridade e liberdade, dois contrários que são fundamentalmente a

mesma coisa, pois que não pode existir um sem o outro.

Religião e ciência, duas contradições que se destroem mutuamente,

enquanto contradições, e se afirmam reciprocamente, se as considerarmos

como duas afirmações fraternas.

Eis aí o problema estabelecido e já resolvido pela história. Eis aí o

enigma da esfinge explicado pelo Édipo dos tempos modernos, o gênio de

Napoleão.

Ê certamente um espetáculo digno de todas as simpatias do gênero

humano, e diremos mais, digno da admiração até dos espíritos mais frios,

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este movimento singular, este processo simultâneo, estas tendências iguais,

estas quedas previstas e estes jorros, igualmente infalíveis, da sabedoria

divina, de um lado derramada na humanidade, e da sabedoria humana, de

outro, dirigida pela divindade! Rios que nascem da mesma fonte, eles, se

separam para melhor abraçar o mundo, e, quando se reunirem, arrastarão

tudo consigo. Esta síntese, este triunfo, este arrastamento, esta salvação

definitiva do mundo, todas as almas elevadas pressentiam: mas quem, pois,

antes destes grandes acontecimentos que revelam e fazem falar tão alto a

potência da magia humana e a intervenção de Deus nas obras da razão,

quem, pois, ousara pressenti-las?

Dissemos que a revelação tivera por objeto a afirmação do Verbo

divino, e que a afirmação do Verbo humano tinha sido o fato transcendente

e providencial da revolução européia começada no século XVI.

O divino fundador do cristianismo foi o Messias da revelação,

porque o Verbo divino estava encarnado nele, e nós consideramos o

imperador como o Messias da revolução, porque nele o Verbo humano se

tinha resumido e se manifestava em todo o seu poder.

O Messias divino foi enviado em socorro da humanidade, que

parecia gasta pela tirania dos sentidos e as orgias da carne. O Messias

humano veio de algum modo em socorro de Deus, que o culto obsceno da

razão ultrajava, e em auxílio da Igreja, j ameaçada pelas revoltas do espírito

humano e pelas saturnais da falsa filosofia.

Desde que a Reforma e depois a Revolução tinham abalado a Europa

a base de todos os poderes; desde que a negação do direito divino

transformava em usurpadores quase todos os senhores do mundo e

entregava o universo político ao ateísmo ou ao fetichismo dos partidos, um

único povo, conservador das doutrinas de unidade e autoridade, se tinha

tornado o povo de Deus em política. Assim, este povo crescia na sua força

de um modo formidável, inspirado por um pensamento que podia

transformar-se em Verbo, isto é, em palavra de ação: este povo, era a raça

vigorosa dos eslavos, e este pensamento, era o de Pedro, o Grande.

Dar uma realização humana ao império universal e espiritual do

Messias, dar ao cristianismo a sua realização temporal, unindo todos os

povos num só corpo, tal devia ser, desde então, o sonho do gênio político,

transformado pela idéia cristã em gênio social. Mas onde ficaria a capital

deste colossal império? Roma tivera sobre isso a sua idéia, Pedro, o

Grande, tinha a sua e só Napoleão podia conceber uma outra.

A fortuna dos descendentes de Pedro encontrava, com efeito, nesta

época, um dique invencível nas ruínas dos santuários dos papas, ruínas

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DOGMA E RITUAL DE ALTA MAGIA

viventes, em que parecia dormitar o catolicismo, imortal como o Cristo no

seu sepulcro. Se a Rússia tivesse sido católica depois da Reforma, a

revolução francesa devia pertencer àquele que levantasse a autoridade

espiritual na sua expressão mais simples e mais absoluta, porque os fatos

seguem sempre as idéias. A autoridade divina de Pedro, apóstolo, faltava

aos projetos do Czar Pedro. Era uma boa sorte que a Rússia deixava para a

França. Napoleão compreendeu-o; reergueu os altares, fêz-se sagrar pelo

sucessor de Hildebrando e de Inocêncio III, e desde então acreditou na sua

estrela, porque a autoridade que vem de Deus não faltava mais ao seu

poder.

Os homens tinham crucificado o Messias divino, o Messias humano

foi abandonado à desgraça pela Providência; porque do suplício de Jesus

Cristo, acusado pelos padres, devia nascer um sacerdócio novo, e do

martírio do imperador, traído pelos reis, devia nascer uma realeza nova.

Que é, com efeito, o império de Napoleão? É uma síntese

revolucionária resumindo o direito de todos no de um só. É a liberdade

justificada pelo poder e pela glória; é a autoridade provada por atos; é o

depotismo da honra substituído pelo temor. Por isso na tristeza da sua

solidão, em Santa Helena, Napoleão, tendo a consciência do seu gênio e

compreendendo que lodo o futuro do mundo estava nele, teve tentações de

desespero, e não via outra alternativa para a Europa senão a de ser

republicana ou cossaca antes de cinqüenta anos.

"Novo Prometeu — escrevia ele, algum tempo antes de morrer —,

estou ligado a um rochedo e um abutre me vem dilacerar.

"Sim, roubei o fogo do céu, para com ele dotar a França; o fogo

subiu à sua fonte, e eis-me aqui!

"A glória era para mim este ponto que Lúcifer lançou sobre o caos

para escalar o céu; ela reunia ao passado o futuro, que está separado dele

por um abismo... Nada mais deixo a meu filho senão o meu nome!"

Nunca uma coisa tão grandiosa como estas poucas linhas saiu do

pensamento humano; e todas as poesias inspiradas pelo destino estranho do

Imperador são bem pálidas e bem fracas em comparação com esta linha: —

Nada mais deixo a meu filho senão o meu nome! Seria, talvez, somente

uma herança de glória que ele acreditava transmitir, ou antes, na intuição

profética dos moribundos, compreendia ele que o seu nome, inseparável do

seu pensamento, continha, em si só, toda a sua fortuna com os destinos do

mundo?

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Pretender que a humanidade se enganou nos seus movimentos, que

ela se desencaminhou nas suas evoluções, é blasfemar a Providência. E,

todavia, estes movimentos e estas evoluções, às vezes, parecem

contraditórios; mas os paradoxos opostos se refutam uns pelos outros, e,

semelhantes às oscilações do pêndulo, que tendem sempre, restringindo-se,

para o centra de gravidade, os movimentos contrários são apenas aparentes,

e as verdadeiras tendências da humanidade se acham sempre na linha reta

do progresso. Assim, quando os abusos do poder produziram a revolta, o

mundo, que não pode fixar-se na escravidão nem na anarquia, espera a

instauração de um novo poder, que terá em conta a liberdade dos seus

protestos e reinará por ela.

Este poder novo Paracelso no-lo faz conhecer nas admiráveis

predições que pareceriam feitas imediatamente, se um grande número de

páginas ainda não se referisse ao futuro.

Não se esclarece mais o futuro do que se ressuscita o passado, mas

considera-se sempre nele o que é duradouro; ora, só é duradouro o que é

fundado na própria natureza das coisas. Nisso mesmo, o instinto dos povos

se conforma com a lógica das idéias, e duas vezes o sufrágio universal,

colocado entre c obscurantismo e a anarquia, adivinhou a conciliação da

ordem com o progresso, e nomeou Napoleão.

Disseram que o próprio imperador não pudera conciliar a liberdade e

a ordem, e que, para fundar o seu poder, teve de interdizer aos franceses o

uso dos seus direitos. Disseram que nos fizera esquecer a liberdade à força

de glória, e não compreenderam que caiam numa contradição evidente. Por

que a sua glória é a nossa, se éramos somente seus escravos? Esta palavra

glória terá mesmo uma significação para homens que não sejam livres?

Consentíamos na sua disciplina, e ele nos levava à vitória; o ascendente do

seu gênio era o nervo do seu poder, e se não permitia a ninguém

contradizê-lo, estava completamente no seu direito, porque tinha razão, "O

Estado sou eu!", tinha dito Luís XIV, resumindo "assim, numa só palavra,

todo o espírito das instituições monárquicas. "O povo soberano sou eu!",

podia dizer o imperador, resumindo, por sua vez, toda a força republicana;

e é, evidente que quanto mais seu chefe tinha autoridade, tanto mais o povo

francês era livre.

O que tornou tão terrível a agonia de Napoleão, não foi a saudade do

passado; não se tem saudade da glória que pode-ria morrer; porém, era o

medo de levar consigo o futuro do mundo. "Oh! não é a morte —

murmurava ele —, é a vida que me mata"! Depois, levando a mão ao peito:

"Cravaram aqui um cutelo de algoz e quebraram o ferro na ferida!"

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DOGMA E RITUAL DE ALTA MAGIA

Um momento depois, neste instante supremo em que a vida foge, e

em que o homem, já iluminado interiormente pela luz de um outro mundo,

tem necessidade de deixar a sua última palavra aos vivos, como um ensino

e uma herança, Napoleão, repetiu duas vezes estas palavras enigmáticas:

"A chefia do exército!" Seria um último desafio lançado ao fantasma de

Pedro, o Grande, um grito supremo de desespero ou uma profecia dos

destinos da França? Então, a humanidade inteira aparecia ao imperador,

harmoniosa e disciplinada, marchando para a conquista do progresso, e

queria ele resumir, numa só, o problema dos tempos modernos que deve ser

proximamente resolvido entre a Rússia e a França: a chefia do exército!

O que dá, neste momento, mais sorte à França é o seu catolicismo e a

sua aliança com o papado, esta potência que os anarquistas dizem caída, e

que Napoleão considerava mais forte do que um exército de trezentos mil

homens. Se a França, como o queriam os anarquistas imbecis, se tivessem

ligado, em 1819, com a ingratidão romana, ou tivesse somente deixado o

trono pontificai ser restaurado pela Áustria e pela Rússia, os destinos da

França se acabariam, e o Gênio indignado do imperador, passando ao

Norte, realizava em proveito dos Eslavos o belo sonho de Pedro, o Grande.

Para os homens que imaginam o absoluto nos extremos, a razão e a

fé, a liberdade e a autoridade, o direito e o dever, o trabalho e o capital são

inconciliáveis. Mas o absoluto não é mais admissível em cada uma das

opiniões separadas do que o inteiro é concebível em cada uma das suas

frações. Fé razoável, liberdade autorizada, direito merecido pelo dever

realizado, capital filho e pai do trabalho; eis, como dissemo-lo já em outros

termos, as fórmulas do absoluto. E se nos perguntarem qual é o centro da

antinomia, qual é o ponto fixo do equilíbrio, já respondemos que é a

própria essência de um Deus, ao mesmo tempo soberanamente livre e

infinitamente necessário.

Que a força centrípeta e a força centrífuga sejam duas forças,

contrárias, não é para se duvidar; mas também que dessas duas forças

combinadas resulta o equilíbrio da Terra, é o que seria igualmente absurdo

e inútil negar.

O acordo da Razão com a Fé, da Ciência com a Religião, da

Liberdade com a Autoridade, do Verbo humano, numa palavra, com o

Verbo divino, não é menos evidente, e indicamos suficientemente as suas

provas. Mas os homens nunca consideram como provadas as verdades que

recusam entender, porque elas contrariam as suas paixões cegas. À

demonstração mais rigorosa, vos respondem sempre pela própria

dificuldade que acabais de resolver. Recomeçai vossas provas, eles se

impacientarão, e dirão que estais repetindo.

HADNU.ORG

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O Salvador do mundo tinha dito que o vinho novo não deve ser posto

em odres velhos, e que não se deve coser um pano novo num manto usado.