Nascida à Meia-Noite - (Saga Acampamento Shadow Falls,1) por C.C. Hunter - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

esforçou ao máximo para fazer a pergunta sobre a qual vinha tentando não refletir

desde que tudo havia começado.

— E eu, o que sou?

index-51_1.jpg

index-51_2.png

index-51_3.jpg

index-51_4.png

50

Nove

— Você vai conseguir suportar a verdade? — perguntou Holiday

pausadamente com um olhar compreensivo.

Suportar a verdade? Acabo de ver um cara se transformar em unicórnio. As

coisas poderiam ficar piores?

Segundos depois de se perguntar isso, Kylie sentiu um calafrio. E se as coisas

pudessem ficar piores? Lembrou-se de Holiday dizendo que havia outras criaturas

sobrenaturais além de vampiros e lobisomens, os quais, para Kylie, eram as criaturas

mais horripilantes. Não que entendesse do assunto, mas, e se Holiday tivesse dito

aquilo apenas para tranquilizá-la? Teria mentido?

— Vou conseguir, sim — garantiu Kylie, querendo parecer mais corajosa do

que de fato era.

Mas, quando Holiday abriu a boca para falar, Kylie gritou:

— Não! — escondeu o rosto nas mãos, depois as tirou novamente fitou a líder

do acampamento. — Não sei se vou conseguir.

Como poderia? Aquilo era demais. Kylie mordeu o lábio inferior com tanta

força que ele começou a sangrar.

— Quer dizer, se você vai dizer que estou morta, que preciso começar a gostar

de sangue e não posso comer mais nem sushi, não vou suportar. Não vou suportar

também se me disser que logo estarei uivando para a lua e devorando os gatos dos

index-52_1.jpg

index-52_2.png

index-52_3.jpg

index-52_4.png

51

vizinhos, tendo de passar o resto da vida me depilando para vestir um biquíni. Gosto

de gatos e já tentei me depilar uma vez; dói pra caramba — passou a mão por entre

as coxas, lembrando-se do episódio.

Holiday deu uma gargalhada, mas Kylie estava falando sério. A depilação

realmente tinha doído e, desde aquele momento, nunca mais deixou Sara convencê-

la a fazer nada parecido.

— Você acha que vou suportar? — perguntou, com medo da resposta.

— Honestamente, não a conheço muito bem, mas confio no diagnóstico da

Dra. Day.

— O que minha psicóloga tem a ver com isso? — perguntou Kylie, intrigada.

— Sua psicóloga, como você a chama, foi quem a recomendou para nós. Ela

reconheceu seus dons e é meio fada, como você sabe.

Kylie tentou processar a informação.

— Estou aqui por causa dela? Aquela mulher é... — inclinou-se para Holiday,

como se, sussurradas, suas palavras parecessem menos grosseiras.

— Ela não vale nem o que come. Pousou as mãos na carteira. Não vou mentir

pra você. Ela não passa de uma sonsa.

Holiday estremeceu.

— Infelizmente, todos os sobrenaturais parecem um pouco estranhos vistos

da perspectiva normal. A Dra. Day falou muito bem de você.

Kylie sentiu uma pontada de culpa, o que talvez fosse a intenção da líder do

acampamento. Holiday pousou as mãos sobre as de Kylie.

— Eu também não vou mentir pra você, Kylie. A verdade... A verdade é que

não sabemos o que você é.

index-53_1.jpg

index-53_2.png

index-53_3.jpg

index-53_4.png

52

Kylie endireitou-se na carteira, remoendo aquela parcela de informação,

enquanto Holiday permanecia em silêncio, dando a ela tempo para se acostumar à

ideia. Mas Kylie não queria se acostumar. Droga, não! Queria, é claro, uma opinião

positiva sobre o que estava acontecendo.

— Você não percebe? Isso é porque não sou coisa nenhuma. Sou apenas eu.

Eu normal.

Holiday balançou a cabeça.

— Você tem dons, Kylie, que podem ter surgido de várias formas

sobrenaturais. Quase sempre, são hereditários.

— Hereditários? Nenhum dos meus pais é... Sobrenatural.

Holiday não parecia convencida.

— Em alguns casos raros, uma geração é saltada e não tem dons. Você pode

ser uma fada ou uma descendente dos deuses. Pode ter dons...

— Deuses? Dons? Que dons?

Holiday limpou a garganta e seus olhos de novo contemplaram Kylie cheios

de compreensão.

— Você pode conversar com os mortos. Às vezes, dormindo; outras vezes,

acordada.

As mãos de Kylie ficaram quentes, mas seu coração gelou.

— Com os mortos? — seu cérebro começou a filtrar imagens mentais, todas

elas do soldado Dude, visto que não conseguia se lembrar de nada de seus terrores

noturnos. — Não, você está errada. Nunca conversei com eles. Nunca, jamais! Nem

uma palavra. Mamãe sempre me disse para não falar com estranhos e eu sempre

obedeci.

— Mas os viu, não viu?

index-54_1.jpg

index-54_2.png

index-54_3.jpg

index-54_4.png

53

Lágrimas afloraram de novo aos olhos de Kylie.

— Apenas um. E não sei bem se é ou não um fantasma. Minha mãe, é claro,

nunca conseguiu vê-lo, mas minha mãe... Está sempre em seu mundinho particular.

No entanto, sua vizinha também cruzava com o soldado Dude e nem sequer

reparava nele. Ah, droga! Droga!

— É assustador, eu sei — disse Holiday. — Lembro-me bem das minhas

primeiras experiências desse tipo.

Kylie afastou suas mãos das de Holiday.

— Você... Você tem o mesmo... Dom?

Holiday assentiu e olhou à esquerda. Kylie examinou o recinto.

— Mas não há ninguém aqui, certo?

Então, sentiu. Aquele frio misterioso nos ossos, que a vinha incomodando

com tanta frequência ultimamente.

— Eles estão sempre aqui, Kylie. Acontece que você se desliga.

— Posso fazer isso? — perguntou Kylie. — Posso ficar o tempo todo

desligada?

Holiday hesitou.

— Algumas pessoas podem. Mas trata-se de um dom, Kylie, e não usá-lo é um

desperdício.

— Desperdício? Ah, não, eu não pedi esse dom — as palavras ecoaram dentro

de sua cabeça e ela compreendeu que estava praticamente aceitando a realidade de

tudo aquilo. Não queria de modo algum que fosse real. Não queria aceitar esse dom

ou lhe dar crédito. — Não acredito que eu tenha realmente esse tal dom. Quer dizer,

já ouvi falar de pessoas normais que veem fantasmas o tempo todo.

index-55_1.jpg

index-55_2.png

index-55_3.jpg

index-55_4.png

54

— É verdade — concordou Holiday. — Alguns fantasmas acumulam tanta

energia que até uma pessoa normal consegue vê-los.

— Então é isso que vem acontecendo comigo. Estou lidando com um

fantasma super energizado. Nada mais, porque sou normal.

— Não é o que mostram as evidências.

Kylie prendeu a respiração:

— Que evidências?

Holiday levantou-se e fez sinal para que Kylie a seguisse. Kylie sentia os

joelhos trêmulos, mas obedeceu. Holiday foi falando enquanto caminhavam.

— Primeiro, há o fato de você ser ilegível.

— Ilegível? — estranhou Kylie, entrando com Holiday num pequeno

escritório.

— Todos os sobrenaturais conseguem ler a mente das outras pessoas. Lendo

humanos, notamos um padrão genérico. Lendo outros sobrenaturais, geralmente

conseguimos saber o que são. Isto é, quando eles não nos bloqueiam, coisa que quase

nunca fazem por questão de cortesia.

— Está se referindo àquela coisa de franzir as sobrancelhas? — quis saber

Kylie.

— Você não perde nada, hein? — sorriu Holiday. — Acontece que quem tem

o dom de conversar com fantasmas é muitas vezes lento para ler outras pessoas e

difícil de ser lido. Não queremos parecer rudes, mas nossas mentes não funcionam

no mesmo plano que o dos demais. Com a prática, porém, conseguimos nos abrir o

bastante para não dar uma impressão de superioridade. Vejo, por seu padrão e pelo

fato de não ser legível, que você no é meramente humana. E também há esta

evidência.

index-56_1.jpg

index-56_2.png

index-56_3.jpg

index-56_4.png

index-56_5.png

55

A líder do acampamento abriu uma gaveta de arquivo. De uma pasta com o

nome de Kylie, tirou um papel e o entregou a ela. Era uma cópia de sua certidão de

nascimento. Em nenhum lugar estava escrito que ela era sobrenatural ou via

fantasmas. Ergueu os olhos para Holiday, com a cabeça cheia de perguntas. A mulher

devia ter lido seus pensamentos ou interpretado sua expressão, pois se adiantou:

— Você nasceu à meia-noite, Kylie.

— E daí? Isso significa alguma coisa?

Holiday deslizou os dedos pelas pastas.

— Todos aqui nasceram à meia-noite.

O coração de Kylie pulsou mais forte. Acompanhou a unha esmaltada de

vermelho de Holiday deslizar sobre as etiquetas das pastas, que traziam os nomes em

letras maiúsculas. Nenhum daqueles nomes lhe dizia nada até que leu: Lucas Parker.

Não que Lucas Parker tivesse alguma importância para ela. O nome dele

chamou a atenção apenas porque era um dos poucos que conhecia ali. Outro calafrio

percorreu sua espinha. Kylie virou-se e quase perdeu o fôlego quando o viu. Não

Lucas: o soldado Dude. Estava ali de pé, mais perto do que nunca, fitando-a com

aqueles olhos gélidos, sem brilho.

Menos de dez minutos depois, Kylie sentava-se para o almoço. Sozinha.

Somente ela, Holiday, a outra líder do acampamento e os dois homens ocupavam o

refeitório. A cada instante, a mente de Kylie tentava entender o que havia acontecido

— do unicórnio ao fato de ela não ser humana. Mas não conseguia se concentrar.

Negue tudo. Negue tudo — as palavras vibravam como música em sua cabeça.

index-57_1.jpg

index-57_2.png

index-57_3.jpg

index-57_4.png

56

Vozes na frente do refeitório a fizeram erguer os olhos. Holiday tinha

recebido uma chamada de Sky e, como de qualquer maneira já era a hora do almoço,

convidou Kylie para acompanhá-la, avisando que mostraria sua cabana logo depois

de comerem.

O olhar de Holiday pousou em Kylie. Kylie olhou para seu celular, fingindo

que estava bem à vontade, enquanto Holiday e a outra líder do acampamento, Sky,

permaneciam à porta, conversando com os dois sujeitos de terno preto que haviam

aparecido por lá antes.

Kylie não podia ouvir a conversa, mas, fosse qual fosse, sem dúvida não

parecia nada de bom. Observou-as de novo, de testa franzida. Holiday e Sky estavam

carrancudas. Holiday, a mais ansiosa das duas, batia o pé e enrolava cabelos numa

mecha compacta.

Então um dos homens levantou as mãos e ameaçou:

— Não estou acusando ninguém, mas repito: é melhor irem fundo e

colocarem um ponto final nisso ou, eu juro, os chefões fecharão o acampamento.

Fechar o acampamento?

Kylie baixou os olhos e fingiu que não tinha ouvido aquilo, mas não podia

reprimir a esperança que havia brotado dentro dela. Desde que Holiday a deixou

sozinha na mesa, Kylie se sentiu tentada a ligar para os pais e pedir para que viessem

buscá-la.

Mas o que diria a eles? Papai, mamãe, sabem o que aconteceu?

Vocês me mandaram para um acampamento cheio de aberrações, um bando

de chupadores de sangue e devoradores de gatos. Ah, e tem mais: eu também sou

uma aberração, embora ninguém ainda saiba de que tipo.

O estômago de Kylie se contraiu quando pensou em como aquela conversa

com os pais ia terminar. A mãe com certeza a arrancaria do acampamento para

index-58_1.jpg

index-58_2.png

index-58_3.jpg

index-58_4.png

57

interná-la numa clínica psiquiátrica. Não que isso fosse deixar as coisas piores do que

já estavam.

Olhando para as mãos, Kylie se lembrou do que Holiday havia dito sobre a

hereditariedade dos dons. Será que seu pai ou sua mãe viam fantasmas? Sua mãe

não, do contrário não ligaria para a analista da primeira vez que Kylie mencionara o

soldado Dude. E o pai teria lhe contado se tivesse algum dom especial.

Kylie ainda não tinha engolido a ideia de ter dons sobrenaturais. Continuava a

achar provável que Holiday tivesse se enganado quando disse que ela era uma pessoa

especial. Talvez o soldado Dude fosse apenas um fantasma com energia de sobra,

conforme Holiday dissera ser possível. E, é claro, havia pessoas normais nascidas à

meia-noite, certo?

Ainda assim, a ideia de falar aos pais sobre qualquer uma dessas coisas lhe

parecia absurda. Absurda? A quem estava querendo enganar? A ideia era cem por

cento maluca e, se ela própria não tivesse visto Perry se transformar num unicórnio,

também não acreditaria.

A conversa lá fora subiu um pouco de tom, mas não tanto quanto antes, não o

bastante para Kylie entender as palavras. Olhou, então, para o celular e fingiu ler a

última mensagem de Sara — que já tinha lido.

A amiga não havia contado aos pais que sua menstruação estava atrasada e,

assim que a mãe saiu para um almoço marcado, correu à farmácia e comprou um

teste de gravidez. Ainda naquela tarde saberia se estava grávida ou não.

Kylie não perguntou nada a Sara sobre o pai do bebê, nem sequer se a amiga

estava considerando a hipótese de aborto. Por algum motivo, não a imaginava

fazendo aquilo. Mas também, seis meses antes, juraria que Sara jamais ficaria

grávida.

Kylie resolveu se preocupar durante um minuto com Sara antes de voltar aos

seus próprios problemas. Como conseguiria sobreviver pelos próximos dois meses? E

sobreviver não apenas mentalmente: vampiros e lobisomens matam pessoas.

index-59_1.jpg

index-59_2.png

index-59_3.jpg

index-59_4.png

58

Só os maus — explicou Holiday a caminho do refeitório, quando Kylie

estremecia toda vez que alguém se aproximava.

Será que Holiday tinha certeza de que não havia criaturas más no

acampamento? Algumas delas pareciam bem desagradáveis. Não que se achasse uma

especialista em distinguir os sobrenaturais bonzinhos dos malvados. Mas devia ser

mais ou menos como ela se sentia em relação a cobras e aranhas: havia as inofensivas

e as perigosas. Entretanto, por uma questão de segurança, evitava todas.

Ah, só esperava não ter que ficar alojada com nenhuma daquelas criaturas!

Sem dúvida, Holiday não esperava que ela dormisse numa cabana ao lado de alguém

que... Talvez se sentisse tentado a matá-la em pleno sono. Que ótimo! Precisaria

então dormir com um olho aberto durante dois meses!

A conversa entre os dois caras de terno preto e as líderes do acampamento

terminou e eles se prepararam para partir. Mas um deles, o mais alto, virou-se e

olhou diretamente para Kylie. E fez aquilo: arqueou as sobrancelhas. Kylie desviou o

olhar, mas sabia que ele continuava lá, de pé no mesmo lugar, ainda espiando e

contraindo a testa. Sentiu suas bochechas arderem.

A porta do refeitório se fechou, mas logo se abriu de novo. Kylie ergueu o

rosto e viu os outros adolescentes entrando. Tentou adivinhar o que cada um deles

seria à medida que desfilavam à sua frente: fada, bruxa, lobisomem, vampiro,

mutante. Haveria outros tipos de sobrenaturais? Iria perguntar a Holiday sobre os

diferentes tipos, inclusive o que significava “descendente dos deuses”.

Tentou então classificar os tipos que já conhecia em um destes dois grupos:

sobrenaturais que não consideravam o homem parte da cadeia alimentar e

sobrenaturais que eram de outra opinião.

Derek atravessou a porta e Kylie se perguntou de que tipo ele seria, o garoto

deu alguns passos pela sala e olhou em volta. No momento em que os olhos de Derek

se encontraram com os seus, Kylie não teve mais dúvidas de que ele havia achado

quem estava procurando. Derek estava procurando por Kylie. Mesmo não sabendo o

index-60_1.jpg

index-60_2.png

index-60_3.jpg

index-60_4.png

59

que o garoto seria ou em qual grupo se encaixava, ela concluiu que o simples fato de

gostar dela a ponto de procurá-la bastava para fazê-la se sentir menos solitária.

Um leve sorriso iluminou os olhos de Derek quando ele caminhou em sua

direção. Ele de fato lembrava Trey. Seria por isso que tinha gostado dele, ou pelo

menos gostado mais do que dos outros? Só porque se parecia um pouquinho com

Trey?

Precisava ser cuidadosa, disse a si mesma, para não confundir amizade com

outra coisa.

— Olá — disse Derek, sentando-se a seu lado. Observando-o, Kylie constatou

que seu ombro mal chegava ao antebraço do garoto. Portanto, era mais alto que

Trey, talvez uns cinco centímetros.

Kylie respondeu ao cumprimento com um aceno de cabeça e guardou o

celular na bolsa.

— Então? — perguntou ele.

Kylie contemplou seus olhos verdes com reflexos dourados. Compreendeu

exatamente o que significava aquela pergunta de uma palavra só: Derek queria saber

o que ela era. Ela estava prestes a lhe dizer que não sabia o que era, só tinha

consciência de seu dom, mas percebeu que não estava preparada para dizer aquilo

em voz alta. Dizer em voz alta é acreditar no que se diz. E ela não acreditava. Ainda

não.

— Esta manhã está uma loucura — disfarçou.

— Imagino — concordou ele, num tom que Kylie julgou de decepção.

Gostaria sem dúvida que ela confiasse nele.

Nisto, estou com sorte — pensou Kylie.

Entre pessoas morrendo — isto é, a avó —, pessoas se divorciando — isto é, os

pais — e pessoas abandonando-a porque ela não queria transar —, sua capacidade de

index-61_1.jpg

index-61_2.png

index-61_3.jpg

index-61_4.png

60

confiar em alguém tinha rolado morro abaixo, indo cair num poço profundo, em

algum lugar perto do seu coração.

Miranda esparramou-se na cadeira ao lado de Derek e inclinou-se para Kylie:

— Olá! Vamos ficar juntas. Isso não é ótimo?

— É — respondeu Kylie, tentando rapidamente fazer uma ideia do que

Miranda poderia ser. Lembrou-se do sapo e concluiu que ela talvez fosse uma bruxa.

— Estarei com vocês também, meninas — disse alguém, sentando-se do outro

lado de Kylie.

Kylie virou-se e contemplou seu próprio reflexo nos óculos da Garota Pálida.

Calafrios percorreram sua espinha. Kylie não sabia se a garota pertencia ao grupo dos

vampiros ou dos lobisomens, mas algo lhe dizia que a um dos dois devia pertencer.

Ou seja, para ela, os humanos faziam parte da cadeia alimentar. A garota baixou os

óculos e Kylie viu seus olhos pela primeira vez. Eram pretos, levemente estrábicos e

exóticos, com um toque asiático.

— Meu nome é Della... Della Tsang.

— Ah... E o meu, Kylie Galen — conseguiu dizer, esperando que a hesitação

não parecesse medo. Mas era medo, Kylie não tinha como negar.

— Então, Kylie — prosseguiu a outra, puxando os óculos para baixo mais

alguns centímetros —, conte pra nós: o que você é exatamente?

Estaria imaginando coisas ou pelo menos doze outros adolescentes se viraram

para olhá-la? Teriam um ouvido biônico? O celular de Kylie tocou.

— Com licença, preciso... Atender.

Tirou o aparelho da bolsa, levantou-se e foi para um canto, longe de todos.

Examinando a tela para ver a quem agradeceria mil vezes por tê-la chamado

justamente naquele momento, sentiu o coração saltar no peito. Esperava que fosse

Sara, talvez o pai ou a mãe. Só não esperava que fosse Trey.

index-62_1.jpg

index-62_2.png

index-62_3.jpg

index-62_4.png

61

Dez

— Alô? — murmurou, hesitante. Seu peito se encheu imediatamente com a

dor de ter perdido Trey, dor que até vê-lo na festa tinha quase desaparecido. Quase.

— Kylie? — o tom grave da voz de Trey mexeu ainda mais com suas emoções.

Kylie engoliu em seco e o visualizou mentalmente: os olhos verdes encarando-

a como acontecia quando ficavam juntos.

— Sim?

— É o Trey.

— Eu sei — respondeu Kylie, fechando os olhos. — Por que está me ligando?

— Preciso de um motivo?

Como está dormindo com outra garota, precisa, sim.

— Não estamos mais juntos, Trey.

— E talvez isso seja um erro — continuou ele. — Não consigo parar de pensar

em você desde que nos vimos na festa.

Kylie podia apostar que ele nem lembrava mais dela depois de ficar a sós com

seu novo brinquedinho sexual aquela noite. Para a sorte deles, tinham saído quinze

index-63_1.jpg

index-63_2.png

index-63_3.jpg

index-63_4.png

62

minutos antes de a polícia chegar. Sendo assim, enquanto Kylie esperava sentada na

delegacia, Trey provavelmente se esbaldava com a sua nova namorada.

— Sara me contou que você está num acampamento em Fallen — prosseguiu

ele, vendo que Kylie não dizia nada. — E, pelo que ela me disse, sua mãe te colocou

aí por causa da festa.

— Pois é — confirmou Kylie, embora soubesse que aquela não era toda a

verdade.

Mas toda a verdade ela não podia contar a Trey. Nem sequer parte da verdade.

Só agora se dava conta de quantas vezes tinha sido obrigada a mentir para todas as

pessoas que conhecia! E nesse momento constatou outra coisa. A mãe não havia

mentido ao dizer que tinha sido a Dra. Day quem a convencera a mandar Kylie para

o acampamento. Talvez, no final das contas, a mãe não quisesse tanto se livrar da

filha como ela tinha pensado. Isso devia fazê-la se sentir melhor, mas a dor no peito

só aumentou. Estava com saudade da mãe. Com saudade do pai. Queria ir para casa.

O nó se formou na garganta e ela se esforçou a engoli-lo.

— Tem permissão para atender telefonemas? — perguntou Trey. A voz a

trouxe de volta ao presente, para longe de seus pensamentos.

Permissão?

Kylie não tinha pensado nisso.

— Acho que sim. Ninguém até agora me proibiu — no entanto, não tinha lido

as regras que deviam estar afixadas em sua cabana. E não por culpa sua: ainda não

tinha permissão para ir até lá.

Olhou em volta para ver se mais alguém estava ao telefone. Dois conversavam

e outros dois digitavam mensagens. Um deles era Jonathon, o cara dos piercings, no

momento acompanhado por dois colegas. Ao lado deles, a Garota Gótica, no meio de

uma turma de góticos.

index-64_1.jpg

index-64_2.png

index-64_3.jpg

index-64_4.png

63

Kylie viu também Lucas Parker. Não ao telefone, mas batendo papo com um

grupo de garotas que pareciam seu fã-clube. Ele ria do que uma delas tinha dito. As

meninas sorviam suas palavras, extasiadas, quase desfalecendo a seus pés.

Que riam até desmaiar — pensou Kylie. Ele ainda não havia matado seus

gatos.

— Estarei num acampamento de futebol, em Fallen, na semana que vem —

contou Trey, trazendo-a de volta à conversa. — Talvez pudéssemos... Sei lá, descobrir

um jeito de ficar juntos. Conversar. Sinto sua falta, Kylie.

— Pensei que você estivesse namorando aquela garota, Shannon.

— Namorando para valer, não. De qualquer maneira, não estamos mais nos

vendo. Não tínhamos muito que conversar.

Mas outras coisas vocês fizeram, aposto... — era doloroso se lembrar da garota

grudada nele na festa.

— Diga que pelo menos irá me encontrar — pediu ele. — Por favor. Eu

realmente sinto sua falta.

Kylie sentiu um peso no peito.

— Não sei se posso... Quer dizer, ainda não sei como são as coisas por aqui.

— Nossos acampamentos ficam a mais ou menos um quilômetro de distância.

Não seria difícil nos encontrarmos.

Kylie fechou os olhos e calculou como seria bom ver Trey de novo. Ver

qualquer pessoa que conhecia seria ótimo, especialmente Trey. Era por ele que ela

sempre procurava quando algo a aborrecia. Por isso o fim do namoro tinha sido tão

difícil para ela.

— Não posso prometer nada até conhecer as regras deste lugar.

Olhou para cima e viu Holiday e Sky se dirigindo para frente da sala.

index-65_1.jpg

index-65_2.png

index-65_3.jpg

index-65_4.png

64

— O almoço está pronto — avisou Sky. — Vamos deixar que os novatos

comecem. Depois, faremos as apresentações.

Apresentações?

A ideia de ter de falar ao grupo lhe causou um frio na barriga. Kylie viu Derek

se virar e olhá-la como se quisesse saber se ela toparia entrar na fila com ele. Kylie

gostou da ideia de ficar ao lado dele e não, sozinha.

— Tenho que ir, Trey — disse.

— Mas, Kylie...

Kylie desligou. Não fez de propósito, mas a perspectiva de que ele pudesse se

sentir um pouquinho rejeitado não a aborreceu muito. Era o troco. Derek se levantou

e acenou para ela. Com certeza, ele era mais alto que Trey. Ao acompanhá-lo, tentou

não hesitar quando Della se juntou a eles e os três entraram na fila. Della ficou atrás

da Garota Gótica e começaram a conversar. Derek virou-se para Kylie e a encarou.

— Namorado? — perguntou.

— Hã?

— O do telefone?

— Ah! — ela negou com a cabeça. — Ex.

Instantaneamente se lembrou de que várias cabeças tinham se voltado em sua

direção quando Della lhe perguntou o que ela era. Inclinou-se para Derek.

— Você conseguiu ouvir o que eu estava falando ao telefone? — baixou a voz.

— Alguém mais ouviu?

— Eu, não. Falo por causa... Da sua linguagem corporal — ele tinha percebido

o modo como ela olhava para o grupo. — Mas, sim, alguns aqui têm super audição.

— E você, não tem? — perguntou, esperando que Derek lhe contasse o que

gostaria muito de saber: o que ele era.

index-66_1.jpg

index-66_2.png

index-66_3.jpg

index-66_4.png

65

— Não — disse o garoto, enquanto davam mais um passo à frente. Seu braço

roçou no dela e, por um segundo, Kylie não soube dizer se gostaria de se afastar ou

chegar mais perto. O fato de Derek não ser frio reforçava a segunda opção. Quando

seus braços se tocaram de novo, uma sensação reconfortante se espalhou pelo corpo

de Kylie.

— Mas, então, o que você é? — ela perguntou, para logo se arrepender. Não

era justo fazer perguntas a que ela mesma não queria responder. — Tudo bem,

esqueça o que eu disse.

Desviou os olhos, embaraçada, e pôs-se a ouvir a tagarelice das pessoas à sua

volta. Ao contrário de antes, quando reinava o silêncio, agora, com algum esforço, ela

podia até se convencer de que estava numa sala cheia de adolescentes normais.

Percebeu então que já não tentava negar isso.

Risos e gritinhos femininos chegaram aos seus ouvidos. Tinha achado a ideia

de que eles eram “normais” reconfortante, mas não podia exagerar: nenhuma

daquelas pessoas era normal. Nem ela. Essa constatação provocou uma onda de

pânico no fundo do seu estômago e Kylie se perguntou como, pelo amor de Deus, ela

ia conseguir comer alguma coisa naquele momento.

— Sou meio Fae — sussurrou Derek no ouvido dela. A respiração dele fez seu

estômago se agitar. Não por causa do medo, mas de algo diferente.

Procurando não pensar nisso, concentrou-se no que o garoto tinha falado.

Fae?

A busca por sinônimos, em seu cérebro, iniciou uma varredura de arquivos até

ela se lembrar de ter lido, uma vez, que Fae era a palavra francesa para fada.

A mente de Kylie começou a ligar os fatos. Holiday era fada. E Holiday tinha

dito que Kylie talvez fosse também. Contemplou os olhos verdes de Derek. Em voz

tão baixa que mal se podia considerar um sussurro, ela perguntou:

— Você... Você vê fantasmas?

index-67_1.jpg

index-67_2.png

index-67_3.jpg

index-67_4.png

66

— Fantasmas? — os olhos dele se arregalaram, como se a pergunta fosse

inconcebível.

Mas, que droga, como poderia ser inconcebível ou maluca quando...

Quando... O fluxo de pensamentos foi interrompido abruptamente quando percebeu

alguém atrás de si. Seu coração se acelerou e ela temeu que fosse o soldado Dude.

Mas o frio que sempre sentia quando ele estava por perto dessa vez não se

manifestou. Derek ergueu os olhos e acenou com a cabeça. Kylie virou-se e quase

perdeu o fôlego quando deu de cara com os olhos azul-claros de Lucas Parker.

— Acho que você perdeu isso — sua voz parecia a de um locutor de rádio:

profunda, com uma vibração que a tornava única, memorável. Uma voz que o fazia

parecer mais velho do que era.

Baixou então os olhos para as mãos de Lucas. Elas seguravam a carteira que

sua avó lhe dera no último natal. Kylie apressou-se a olhar para a mesa onde tinha

deixado a bolsa. Estava lá, no mesmo lugar. Como ele conseguiu pegar sua carteira?

Tomou-a das mãos de Lucas e lutou contra o impulso de verificar se o cartão de

crédito de sua mãe continuava seguro lá dentro. Ela ficaria uma fera se Kylie o

perdesse.

Sem saber se tomaria a atitude socialmente aceitável de agradecer ou se

perguntaria como ele tinha ousado pôr aquelas mãos assassinas nas suas coisas, a

mente de Kylie perdeu o rumo. Em seguida, como quase sempre tomava atitudes

socialmente aceitáveis, a palavra “obrigada” se formou em seus lábios, mas não

conseguiu pronunciá-la.

Ela não conseguia deixar de imaginar se ele se lembrava dela. Não conseguia

deixar de perceber que seus olhos azuis a penetravam fundo, como já havia

acontecido anos antes. Não tinham sido amigos, mas vizinhos por algum tempo. Eles

nem estavam na mesma série. Mas os dois costumavam percorrer os mesmos três

quarteirões da escola para casa diariamente. E essa caminhada era a melhor parte do

dia para Kylie. Quando o viu pela primeira vez andando de bicicleta na rua, sentiu

index-68_1.jpg

index-68_2.png

index-68_3.jpg

index-68_4.png

67

um misterioso fascínio. Lembrou-se também, nitidamente, da última vez que o tinha

visto. O fascínio se foi, deixando em seu lugar uma rajada fria de medo.

Ela estava brincando no balanço com o novo gatinho no colo — o gatinho que

seus pais tinham lhe dado depois que Socks desaparecera. A cabeça de Lucas

apareceu por cima da cerca e seus olhos azuis se encontraram com os dela. O gatinho

rosnou e a arranhou, tentando fugir. O garoto, com os olhos pregados nela, disse:

Não deixe esse gatinho sair de casa á noite acontecerá com ele o que aconteceu com

o outro.

Kylie correu para junto da mãe, chorando. Aquela noite, o pai e a mãe foram

falar com os pais de Lucas. Não contaram a Kylie o que aconteceu, mas ela se

lembrava de que o pai parecia furioso quando voltaram da visita. De qualquer modo

isso não importava, pois no dia seguinte Lucas Parker e sua família se mudaram.

— Seja bem-vinda! — disse Lucas, com a voz profunda agora mesclada de um

ligeiro sarcasmo. Em seguida, afastou-se.

Mais essa. Tudo o que lhe faltava era fazer inimigos entre os membros da

gangue que consideravam os seres humanos parte da cadeia alimentar. —

especialmente aquele que, ela sabia bem, era capaz de praticar atos abomináveis.

Mas, convenhamos, dar uma de boazinha com Lucas Parker não seria nada fácil.

Afinal, ele tinha matado seu gato e ameaçado matar também seu novo gatinho.

index-69_1.jpg

index-69_2.png

index-69_3.jpg

index-69_4.png

68

Dez

Durante o almoço, as apresentações acabaram sendo mais embaraçosas do

Kylie tinha previsto. Cada pessoa disse seu nome e “o que” era, mas, quando chegou a

vez de Kylie, ela só disse seu nome. Nos instantes que se seguiram, o silêncio da sala

tornou a atmosfera sufocante. Holiday apressou-se a explicar que a origem dos

poderes de Kylie ainda estava sendo investigada e que seu “estado mental fechado”

não era intencional, mas consequência dos seus dons.

Se alguém por ali ainda duvidava de que ela era a mais esquisita entre todos

os esquisitos, agora já estava bem ciente do fato graças à líder do acampamento.

Holiday talvez pretendesse ajudar, mas Kylie sem dúvida teria dispensado essa ajuda.

Por sorte, já tinha conseguido engolir metade de um sanduíche de peru, pois a partir

daquele instante não seria capaz de comer mais nada.

Pouco depois do seu momento embaraçoso sob a luz dos refletores, o celular

de Kylie tocou. Leu o número da mãe na tela e desligou o aparelho. Por nada neste

mundo gostaria que pessoas dotadas de super audição ouvissem a conversa com a

mãe.

Tão logo a reunião oficial do almoço terminou, Kylie pediu a Holiday que lhe

mostrasse sua cabana. O jantar seria as seis e, até lá, teriam a tarde livre. Nesse

período, “aconselhavam” que procurassem se entrosar, conhecer os colegas de

acampamento e de alojamento.

index-70_1.jpg

index-70_2.png

index-70_3.jpg

index-70_4.png

69

Em vez disso, porém, Kylie passou as quatro horas seguintes remoendo suas

emoções tumultuadas, escondida no cubículo que era seu quarto. Sim, sabia muito

bem a diferença entre “aconselhar” e “exigir”.

Sentada na cama, calculou de novo o tamanho do quarto. Não que estivesse se

queixando. O fato de ter seu próprio quarto tornava irrelevantes as proporções.

Considerando-se os terrores noturnos que a afligiam três ou quatro noites por

semana, a privacidade era muito bem-vinda. Só esperava que as paredes fossem

grossas o suficiente para abafar o que a mãe chamava de “gritos arrepiantes”. As de

sua casa, é claro, não eram.

Mordendo o lábio, Kylie se perguntou de novo como a mãe pudera fazer

aquilo com ela. Mandá-la para aquele lugar quando, só uma semana antes,

recomendava que não passasse a noite fora, porque seria embaraçoso que outras

pessoas a surpreendessem aos gritos em pleno sono.

Procurando afastar a mãe dos pensamentos, Kylie correu novamente os olhos

pelo quarto. A tarde não tinha sido um total desperdício. Tinha arrumado suas

coisas, retornado a ligação da mãe — a conhecida Rainha do Gelo —, tentado entrar

em contato com Sara — que ainda não tinha telefonado nem enviado mensagem —,

lido as regras do acampamento e se desfeito em lágrimas bem à moda antiga.

Choro muito merecido.

Durante dezesseis anos, havia tentado descobrir quem era. E, embora

soubesse que ainda tinha um longo caminho pela frente, sentia confiança nas

próprias descobertas. Agora, porém, percebia que não só estava errada sobre quem

era como nem sequer sabia o que poderia ser.

Resumindo, uma crise de identidade.

O celular tocou de novo. Kylie leu o nome do pai no identificador de

chamadas. O pai que a abandonou. O pai que não foi buscá-la na delegacia. O pai

que não a visitou antes de seu embarque forçado para o acampamento. O pai que

index-71_1.jpg

index-71_2.png

index-71_3.jpg

index-71_4.png

70

obviamente não a amava tanto quanto ela acreditava. O pai cuja falta, a despeito de

tudo, Kylie sentia de todo o coração.

Se aquilo fazia dela a “filhinha do papai”, ela não ligava. Provavelmente era

uma situação passageira. Cedo ou tarde, deixaria de amá-lo como ele tinha deixado

de amá-la também. Certo?

Sentiu um aperto na garganta. A tentação de atender e implorar para que ele

fosse buscá-la ficou tão forte que ela jogou o telefone nos pés da cama. Continuou

ouvindo o sinal de chamada e concluiu que, se respondesse, acabaria contando a

respeito dos sobrenaturais e o fato de ela ser um deles — e também do encontro com

Lucas Parker, o serial killer em potencial.

Ter segredos com a mãe sempre tinha sido fácil, pois a mãe parecia também

ter os seus. Mas esconder coisas do pai era como álgebra — complicadíssimo. Assim,

em vez de atender, enterrou a cabeça no travesseiro e se entregou a um novo acesso

de choro. Quando bateram à porta, Kylie ainda exibia no rosto a evidência das

lágrimas. Antes de decidir o que fazer, a porta se abriu e um nariz apareceu na fresta.

— Está acordada?

Como Kylie tinha se sentado na cama e visto os olhos de Miranda voltados

para ela, não pôde mentir:

— Estou.

Miranda entrou — sem ser convidada.

— Oi, eu só... — o olhar atento de Miranda examinou o rosto de Kylie e ela

estancou de boca aberta.

Kylie sabia exatamente o que tinha surpreendido aquela bruxinha. Kylie

invejava as garotas que conseguiam pôr para fora suas emoções sem arruinar a

maquiagem; mas essa habilidade ela não tinha. Quando Kylie chorava, sua pele se

cobria de manchas vermelhas e seus olhos inchavam a tal ponto que ela nem parecia

index-72_1.jpg

index-72_2.png

index-72_3.jpg

index-72_4.png

71

humana. Mas, tudo bem: segundo Holiday, Kylie não era mesmo humana. Vai lá

saber.

— Está tudo bem? — indagou Miranda.

— Está — respondeu Kylie, tentando dar um tom alegre à voz. — É alergia.

— Por que não procura a enfermeira? Sério, você parece péssima.

Muitíssimo obrigada.

— Não, estou bem. Logo passa.

— Isso aí não é contagioso, é? — alarmou-se Miranda, parando a uma

distância segura.

— Espero que não — disse uma voz à porta. A voz de Della, que ainda usava

óculos escuros e, segundo Kylie tinha descoberto nas apresentações, que era uma

vampira. Isso mesmo, uma vampira de verdade.

— Não estou com nada contagioso — garantiu Kylie e logo se arrependeu; se

tivesse dito o contrário, elas a deixariam em paz.

Miranda entrou e se sentou aos pés da cama. Della seguiu-a, mas não se

sentou. O que fez foi tirar os óculos de sol para examinar Kylie de cima a baixo. Sua

expressão faminta lembrava a de uma pessoa de dieta avaliando um biscoito

saboroso antes de derretê-lo na boca. Kylie estremeceu à ideia de ser derretida na

boca de alguém.

— Você vai ao jantar e à fogueira, não vai? — perguntou Miranda.

— É... Obrigatório? — perguntou Kylie, esperando que sua reação a Della não

tivesse sido notada.

— Você tem medo de mim? — interrompeu Della, anulando todas as

esperanças de Kylie de esconder que a outra a intimidava e muito.

— Por que... Por que eu teria?

index-73_1.jpg

index-73_2.png

index-73_3.jpg

index-73_4.png

72

— Será porque meus dentes são afiados? — abriu a boca e expôs uma fileira

de dentes extremamente brancos, em que se destacavam dois longos caninos. —

Porque posso sugar o seu sangue até a última gota?

Kylie precisou de muito esforço para não se encolher ao ouvir as palavras de

Della, especialmente quando passou a língua gulosamente pelos lábios.

— Pare de zoar com ela — riu Miranda, revirando os olhos.

— Ela está com medo de mim! — disse Della, apontando para Kylie. — Seu

coração está disparado e seu pulso, acima do normal. Olhe como palpita a veia no

pescoço. Não, não sei se ela sabe que só estou brincando.

A alusão de Della à sua veia fez com que o sangue de Kylie corresse mais

depressa.

— É claro que sei — mentiu Kylie. — Holiday me disse que todos aqui são...

Gente boa.

— E você acreditou nela? — os olhos de Della a acusavam de não estar sendo

totalmente honesta.

Kylie concluiu que a capacidade de Della de ler seus sinais vitais superava sua

própria capacidade de mentir.

— Quero acreditar. Mas não nego, minha mente ainda não assimilou bem o

fato de os sobrenaturais... Existirem.

— Mas você é uma sobrenatural — disse Miranda. — Como pode ignorar...

— Holiday acha que eu sou — nos últimos minutos, Kylie ainda alimentava a

esperança de que o diagnóstico de Holiday estivesse errado.

— Você é sobrenatural, sim — disseram Miranda e Della ao mesmo tempo,

ambas arqueando de leve as sobrancelhas.

— Ou, pelo menos, não inteiramente humana — acrescentou Delia. —

Podemos ver isso pelo seu padrão cerebral.

index-74_1.jpg

index-74_2.png

index-74_3.jpg

index-74_4.png

73

— E vocês não se enganam nunca? — perguntou Kylie, apertando os joelhos

contra o peito.

— Todo mundo pode se enganar às vezes — Miranda disse.

— Mas não muitas — acrescentou Della.

Essa resposta, ainda assim, não acabou com as esperanças de Kylie.

— No entanto, isso acontece, certo? — o peso em seu peito diminuiu.

— Sim, existem pessoas que tem um tumor no cérebro — explicou Della.

Kylie pousou a testa nos joelhos. Ou ela era uma sobrenatural ou morreria de

um tumor no cérebro; não sabia qual das duas possibilidades poderia ser pior.

— E há aquelas que são apenas tantãs — acrescentou Miranda.

Kylie levantou a cabeça:

— Tantãs?

— É, que piraram.

— Então eu talvez seja apenas tantã. Já me acusaram disso antes.

— Mas, espere um pouco — disse Miranda. — Holiday não disse que você

tem poderes? — Della e Miranda ergueram as sobrancelhas com um olhar

inquisitivo.

— Disse — murmurou Kylie, dando de ombros. — Mas talvez só tenha dito

isso porque vejo de vez em quando um fantasma supercarregado de energia.

— Fantasma?! — exclamaram Della e Miranda ao mesmo tempo. Kylie podia

estar enganada, mas a verdade é que as duas garotas pareciam agora horrorizadas e

mortas de medo. Seu susto lembrava a reação de Derek quando ela lhe perguntou se

ele também via fantasmas.

index-75_1.jpg

index-75_2.png

index-75_3.jpg

index-75_4.png

74

— Você vê os mortos? — Della se afastou da cama. — Que droga, não vou

querer dividir meu espaço com alguém que vê fantasmas por aí. Isso é bizarro

demais.

Até Miranda se levantou da extremidade da cama. Kylie olhou para elas,

totalmente confusa.

— Devem estar brincando, não? Têm medo de mim? Mas você é bruxa —