StudioClio espaço de interações culturais: um olhar sobre a cultura, a arte e a gastronomia por Ana Méri Zavadil Machado - Versão HTML

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StudioClio espaço de interações culturais: um olhar sobre a cultura, a arte e a

gastronomia1

Ana Méri Zavadil Machado2

Resumo

Este artigo integra estudos sobre Espaços Não Institucionais de Arte. O StudioClio é um

espaço que enriquece a paisagem cultural de Porto Alegre. Multidisciplinar, atua em

diversos segmentos: artes visuais, música, literatura, cinema, teatro, filosofia, história,

moda e gastronomia. Neste texto, busca-se realizar um estudo sobre cultura, arte e

gastronomia, tendo como foco duas atividades realizadas no StudioClio: o Almoço

Cultural e o Banquete Cultural.

Palavras-chave: cultura, arte, gastronomia, Almoço Cultural, Banquete Cultural.

Abstract

This article integrates studies about Spaces Non-Institutional of Art. StudioClio is a space

that enriches the cultural scenery of Porto Alegre. As it is a Multidisciplinary place, it acts

in several segments: visual arts, music, literature, cinema, theater, philosophy, history,

fashion and gastronomy. This article intends to study about culture, art and gastronomy,

focusing on two activities carried out at StudioClio: Cultural Lunch and Cultural Banquet.

Keywords: culture, art, gastronomy, Cultural Banquet, Cultural Lunch.

A palavra Cultura: origem e significado

O StudioClio é um lugar de diversificados acontecimentos, no campo cultural de Porto

Alegre, que abrange diferentes atividades por meio de linguagens artísticas e de suas

relações com outros campos de conhecimento.

Para este estudo, é importante resgatar alguns dos significados históricos associados ao

conceito de cultura e a suas implicações com a arte a partir de alguns autores das áreas

de sociologia, antropologia e história da arte, para, depois, identificar os elos entre arte e

gastronomia nas atividades: Banquete Cultural e Almoço Cultural, realizadas no

StudioClio, atividades situadas entre-territórios, ou seja, entre arte, cultura e

gastronomia.

11 Este artigo faz parte de minha pesquisa de mestrado que analisa os espaços culturais não institucionais em

Porto Alegre

2 Mestranda em Artes Visuais, bolsista da CAPES, desenvolve pesquisa vinculada à linha de pesquisa de Arte e

Cultura, no Programa de Pós Graduação em Artes Visuais da UFSM, sob a orientação da Professora Dra. Blanca

Brites (UFRGS).

2

A palavra cultura, desde o século XVII, já fazia parte do vocabulário francês. Vinda do

latim, cultura significa cuidado dispensado ao campo ou ao gado. No século XIII, já

aparecia como “parcela de terra cultivada” (CUCHE, 2002, p.19). Na metade do século

XVI, aparece no sentido figurado como “cultura de uma faculdade, isto é, o fato de

trabalhar para desenvolvê-la” (CUCHE, 2002, p.19). No século XVIII, começa a se impor,

no sentido figurado, e entra para o Dicionário da Academia Francesa (edição de 1718).

No entanto, aparecia sempre com outra palavra complementar: cultura das letras,

cultura das ciências, etc. Com o passar do tempo, esse complemento foi abolido e cultura

passa a designar a formação e a educação do espírito.

O sentido da palavra cultura, na França, aproximou-se de outra palavra: civilização.

Apesar de terem as mesmas concepções fundamentais, a primeira, trata dos progressos

individuais e a segunda dos coletivos. Para os filósofos, civilização significa progresso e

melhoria das instituições, legislações e da educação no sentido universal de estender-se

a todos os povos. Já Kultur, no sentido figurado, aparece no século XVIII, na língua

alemã, mas significa o oposto da noção de civilização na França, pois ela diz respeito

somente ao povo alemão e daquilo que o distinguia dos outros.

Teixeira Coelho explica que a cultura á algo específico de um povo, conforme a noção de

civilização do povo alemão, ou seja:

A cultura de um lugar não deveria ser vista como a soma de tudo,

mas apenas do específico daquele lugar: não o universal, mas o

particular; cultura não era o todo de todos, mas o relativo a um

grupo, com a implicação que cada cultura revestia-se de um

atributo a ela relativo. (COELHO, 2008, p.21).

De acordo com Roger Taylor, houve uma divisão histórica por volta do século XVIII, a

partir do surgimento de dois fatos: o domínio da burguesia sobre a aristocracia rural e o

aparecimento da ciência; esses dois fatos fizeram cair por terra hábitos antigos e deram

início a uma nova maneira de ver a vida. Esse acontecimento acarretou um retorno da

aristocracia para partes do antigo sistema ainda não atingidas e as transformou em

novas formas de oposição à burguesia. “A arte foi uma invenção da aristocracia.”

(TAYLOR, 2005, p.60). O novo conceito de arte veio dessa transformação, de uma parte

dessa velha forma, em objeto de culto irracional. “Quando a burguesia assimila e

transforma o estilo de vida da aristocracia, atividades burguesas, como a pintura, os

escritos, etc., que não seriam considerados arte pelos critérios da aristocracia, passa a

ser”. (TAYLOR, 2005, p.63). A arte fica dependente da ascensão da burguesia, o que a

torna suscetível a mudanças ligadas à tecnologia e ao modo social como é veiculada. A

arte como se conhece na contemporaneidade é o resultado de vários processos. É uma

forma de vida, um sistema conceitual dentro da estrutura burguesa e envolve o juízo. A

área social de onde vem é que lhe dá o status de arte.

A manutenção da tradição da arte e o seu crescimento provêm dos processos sociais

dentro da classe média ou da burguesia. A experiência cultural, que é imposta, é

chamada alta cultura por ser bem aceita e também parte integrante da vida burguesa

que não está no cotidiano das massas, embora exija conhecimento nesse campo para

tornar o sucesso na academia possível.

A ideologia da alta cultura do século XX afirma que a arte é universal e, a exemplo disso,

objetos classificados como pertencentes aos museus e de interesse etnográfico foram

parar nas galerias de arte.

As pessoas são educadas de acordo com a tradição na arte, principalmente a

contemporânea enquanto os processos sociais são negócios ou indústrias dessa

sociedade, que envolvem planejamentos sociais.

A palavra cultura analisada com outra raiz: coulter é considerada uma cognata de

cultura, cujo significado é “a lâmina do arado”. Para Teixeira Coelho, essa definição é

“estimulante” para os estudos de cultura e de políticas culturais. Só que ele acha

conveniente guardar essa “imagem do arado” para algo maior do que a cultura: a arte. O

entendimento da cultura, tendo como ênfase as artes refinadas, ou seja, as belas artes

(termo antigo usado para referir-se a artes ou obras do espírito) deve ter senso crítico

para que seja realmente cultural. Então, “a lâmina do arado” retorna: “A lâmina afiada

que penetra nesse campo e o corta e revolve, pondo para cima o que estava embaixo e

vice-versa”. (COELHO, 2008, p.18) A capacidade de diferenciar entre uma coisa e outra

com rapidez e senso crítico agudo é importante em um mundo, pois a informação em

demasia prejudica qualquer reflexão.

Francis Bacon, filósofo inglês, escreveu sobre cultura e adubamento dos espíritos em

uma tessitura sugestiva entre esterco e elevação espiritual. Parafraseando o autor que

diz sobre a primeira ideia que surge dessa premissa da cultura como adubo é a de

processo que está contido nela, ou seja, o estrume é o elemento ativo, mas ele em si

não é nada, ele mesmo é outra coisa, e outra coisa que resulta de um processo cujas

partes têm a mesma natureza verificada no conjunto. A questão principal é a cultura

como atividade.

O antropólogo Franz Boas (1858-1942) estabelece algumas proposições vistas hoje no

relativismo cultural pesquisadas pelos etnólogos e que aparecem nas atividades do

StudioClio que resgata a cultura de povos antigos para dar uma nova interpretação nos

almoços e banquetes. Boas diz que:

[...] cada cultura tem um valor próprio a ser reconhecido, um

estilo específico que se manifesta na língua, nas crenças, nos

costumes e na arte e que veicula um espírito próprio (a

identidade), cabendo ao etnólogo estudar as culturas (não a

Cultura) e, mais do que verificar em que consiste uma dada

cultura, apreender o elo que une um indivíduo a uma cultura.

( Apud COELHO, 2008, p.22)

Logo, a cultura toma para si o significado de conjunto de padrões de comportamento, de

crenças, de conhecimentos e dos costumes que particularizam um grupo social. Pode-se

pensar ainda em forma ou etapa de evolução e de valores tanto intelectuais como morais

e espirituais de um lugar ou época específica.

Pierre Bourdieu (1930-2002), em suas pesquisas sobre capital cultural, no livro L’amour

de L’art, de 1969, em coautoria com Alan Darbel diz que o amor pela arte é fruto de

aprendizado e socialização. A partir da sua extensa pesquisa, passa-se a falar de um

público, no plural, com competência e repertórios diferenciados. Por esse motivo, a

origem do conceito de capital cultural está baseada em “diplomas e origem familiar”

(BOURDIEU, 2007, p. 71). Isso significa que se recebe da família e da escola

conhecimentos e incentivos para a prática cultural. “A obra de arte considerada bem

simbólico não existe como tal a não ser para quem detenha os meios de apropriar-se

dela, ou seja, decifrá-la”. (BOURDIEU, 2007, p.71). Portanto, a apropriação do capital

artístico está intrinsecamente relacionada à decifração das obras de arte que são

apresentadas diante de determinadas sociedades em um referido espaço/tempo. Os bens

culturais, da gastronomia até a música, passando pelo cinema ou teatro, são objetos de

apreensão que podem abarcar desde uma simples sensação até o deleite erudito, uma

vez que se tenha noção da tradição e das regras do jogo. Os freqüentadores do

StudioClio tem o perfil de um público especializado que teve na escola e nas origens

familiares uma educação que permite a aproximação com as atividades culturais lá

apresentadas, confirmando as pesquisas de Bourdieu.

StudioClio: espaço de arte e cultura

Os espaços culturais visam a uma aproximação com um público capaz de apreciar a arte

em suas diferentes demonstrações e entrelaçamentos. Como modelo de espaço cultural,

o StudioClio detém um público elitizado para a fruição de suas atividades artísticas,

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constituído por artistas, estudantes e intelectuais que estão em constante busca por

novos saberes. Cada um procura atividades em uma área específica, porém as

permeabilidades possíveis entre uma e outra instauram diálogos, principalmente, devido

aos desvios nos modos tradicionais de apresentação dos programas culturais.

O StudioClio – Instituto de Arte e Humanismo – está situado na Cidade Baixa, bairro que

se destaca pela sua efervescente atividade de bares, cafés, restaurantes, além de abrigar

outros espaços culturais, como a Associação Riograndense de Artes Plásticas Francisco

Lisboa, a Fundação ECARTA e vários ateliês coletivos. Voltado ao conhecimento, é um

espaço de estudo, de criação e de ensino que envolve múltiplas atividades com a

intenção de trazer um novo olhar para as diferentes formas de expressão e formar um

público cativo.

O espaço cultural tem como proposta atividades transdisciplinares que tratam de

conteúdos da cultura universal. Os eventos de sua programação são elaborados por

cientistas, artistas, escritores, estudantes e chefs e englobam as artes visuais, o cinema,

o teatro, a filosofia, a história, a literatura, a moda, a música e a gastronomia

apresentadas sob a forma de cursos, concertos, oficinas, exposições, shows, seminários,

publicações e gastronomia por meio das atividades: Banquete Cultural e Almoço Cultural.

As atividades desenvolvem-se uma invadindo o espaço da outra em uma relação de

trocas e aproximações.

Figura 1: StudioClio, R. José do Patrocínio, 698 - Fone: (51) 32547200

Porto Alegre/RS/Brasil - CEP 90050-000 - Foto: Francisco Marshall

O nome foi escolhido com base na deusa da História, chamada Clio, filha de Zeus e da

Memória, e celebra a beleza da narrativa, simbolizando todas as expressões artísticas e

intelectuais. Studio ( studiolum) vem do gabinete renascentista. A conduta do StudioClio,

voltada para a erudição e criação interdisciplinar, está como deseja a ciência e a cultura

da contemporaneidade: híbrida, miscigenada e com trocas entre os campos de

conhecimento.

O responsável pela concepção do espaço e da programação cultural é o Professor da

UFRGS, classicista, Francisco Marshall, que fala a respeito de sua formação: “O classicista

tem por meta social recuperar e tornar relevante a memória profunda da civilização,

ampliando a noção de identidade cultural e os recursos disponíveis para a reflexão e a

ação contemporânea”. (MARSHALL, 2009) Ele está à frente de tudo o que acontece no

StudioClio e atua como curador cultural, desde setembro de 2005, data da inauguração.

Questionado como surgiu esse espaço cultural Marshall explica:

O StudioClio complementa e enriquece a paisagem cultural de

Porto Alegre com uma agenda de atividades originais e de alto

nível em todos os campos da arte e do humanismo, com ênfase na

memória cultural. Ele nasceu para ser um instituto transdisciplinar,

aberto ao diálogo e à interação entre pessoas, épocas, gêneros e

disciplinas, desburocratizado, acessível e confiável. Ele dinamiza a

vida acadêmica e promove a criação artística. Sobretudo, o

StudioClio oferece ao público a percepção de nossa dimensão

cultural universal, por meio de diferentes comentários sobre o

patrimônio cultural da humanidade, com nosso ponto de vista –

atual e brasileiro, latino americano. ‘A ideia surgiu de uma

percepção estratégica – a falta que faz um espaço desse tipo e os

benefícios que pode produzir à sociedade’. (MARSHALL, 2009)

Ainda deve-se salientar que o prédio construído em 1924 sofreu mudanças entre 2004 e

2005. Ele é composto por um auditório de 53 lugares fixos e uma plateia baixa com

possibilidades de adequação conforme a atividade que vai receber. O StudioClio também

tem uma sala de concertos para 108 pessoas, uma de banquete para 58 pessoas, sala de

aula com recursos audiovisuais de qualidade e um cinema digital ou clube de jazz com

instrumentos acústicos. Além disso, tem um espaço, chamado Microgaleria de Arte

Acessível, que se situa junto à recepção e tem como curadores a Professora da UFRGS

Blanca Brites e o artista plástico e designer Leandro Selister. As exposições de arte

contemporânea, realizadas nesse espaço, primam por pequenos formatos e preços

acessíveis. O café está na parte frontal e abriga um espaço expositivo, no interior de seu

ambiente, chamado Quadro Branco.

A criatividade com que são apresentados os eventos suscita reflexões sobre os

fenômenos artísticos e sobre a crença de que as verdadeiras obras de arte são dotadas

de beleza universal, ou seja, essa beleza pode emocionar a todos os seres sensíveis,

independentemente da cultura que possuem.

Arte e Gastronomia: Banquete Cultural e Almoço Cultural

A partir da programação periódica realizada pelo StudioClio , foram escolhidas duas para

fazer um estudo mais significativo, trata-se da relação entre arte e gastronomia por meio

do Banquete Cultural e do Almoço Cultural. Essas atividades são referenciais de

gastronomia cultural na cidade de Porto Alegre e no Brasil.

Antes de falar de cada uma delas, é necessário retomar alguns antecedentes históricos

sobre arte e gastronomia através da história da arte. A ação recíproca entre arte e

alimento manifestou-se desde sempre nas relações sociais e culturais humanas, basta

lembrar que os homens primitivos se reuniam ao redor do fogo para se alimentar.

Na história da alimentação e dos comportamentos alimentares, cruzam-se as histórias

econômica, social e cultural de um povo: indicador do nível de vida, da identidade

cultural e de segregação social. Pode-se citar o exemplo do pão, na França do Antigo

Regime, em que o pão consumido pelas classes populares era o preto (pão bis ou brode)

e pelas elites, o pão branco (pão de chapitre). A revolução decretou o brioche para todos,

o que representou para a classe popular uma conquista social em detrimento do valor

nutricional. Desse fato em diante, o pão tornou-se o alimento básico para o consumo das

classes menos abastadas. Já a batata fez o caminho inverso, desprezada pela

aristocracia até a Revolução, no século XIX, ela eleva-se socialmente.

Em Paris, no século XIX “a gastronomia se instala, sob a Revolução, nos restaurantes de

luxo abertos pelos ex- chefs de cozinha das casas aristocráticas”. (LE GOFF, 2005, p.183).

A gastronomia torna-se símbolo de poder e ostentação.Tendo em vista a pobreza das

classes inferiores, ela afirma o status da burguesia.

Os banquetes são acontecimentos registrados desde os mais remotos tempos na cultura

grega e romana e a ação recíproca entre arte e alimento era uma manifestação cultural

para unir arte e culinária, com a intenção de demonstrar a riqueza e o poder. Ao redor da

mesa farta decidiam-se o destino de pessoas e nações.

A comida era apresentada em formas de esculturas de animais ou seres mitológicos para

causar estranhamento, tudo na mais perfeita harmonia com músicos e artistas do teatro,

uma verdadeira performance (a partir de um olhar contemporâneo) para impressionar os

convidados e conquistar o poder por meio dos sentidos.

Ademais, pode-se pensar em outros episódios dentro da cronologia histórica que envolve

arte e alimentos, um dos mais destacados é o Banquete (Platão), em que Sócrates

discutiu com outros filósofos o gosto e traçou a filosofia ocidental. Na antiguidade, as

pinturas dos frescos gregos e romanos eram cenas de banquetes; no Renascimento,

destaca-se a Ceia de Leonardo da Vinci, a pintura barroca holandesa cheia de

representações de naturezas mortas e as cenas em torno da mesa de Vermeer; Cezànne,

Van Gogh e Gauguin trabalham arranjos de frutos e flores; a famosa cena de Manet:

Dejeuneur sur l’herbe; no Modernismo, a invenção da comida dos Bistrôs e, na Arte

Contemporânea, a comida é usada como matéria plástica: de Joseph Beyus a Artur

Barrio, tudo é possível.

Para terminar esta análise ainda falta discutir dois termos: a gastronomia e a culinária. A

gastronomia é um ramo que abrange a culinária, as bebidas e os materiais usados na

alimentação, além dos aspectos culturais a ela associados. O gastrônomo (ou gourmet

em francês) pode ser um cozinheiro, mas pode também ser a pessoa que se preocupa

com o refinamento da alimentação. A gastronomia inclui não apenas a preparação dos

alimentos, mas também a sua apresentação. É importante salientar que o vestuário, a

música e a dança fazem parte do acompanhamento da refeição. A diferença entre os dois

termos é que a culinária diz respeito à técnica de preparação dos alimentos enquanto a

gastronomia tem um conceito mais alargado. O prazer de comer está na sua origem, e a

associação de alimentos, cores e sabores faz o seu exotismo.

Como já foi visto, a gastronomia é uma cultura de tempos antigos e esteve

acompanhada de grandes acontecimentos sociais e políticos, caminhando lado a lado na

formação da Alta Cultura Ocidental.

Depois de esclarecidas as questões sobre cultura, arte, gastronomia, compreende-se

melhor as atividades realizadas no StudioClio . Em primeiro lugar, os Banquetes Culturais.

Eles acontecem uma vez por mês e tem o objetivo de trazer uma noite de prazeres e

conhecimentos plenamente harmonizados. A experiência de convívio e o resgate da

memória da cultura universal abrangem temas relevantes da história das artes e da

humanidade. Um especialista do tema escolhido é convidado para fazer a conferência,

em que ele situa o convidado no tempo e no espaço tematizados. Depois, é realizada

uma exibição artística (que pode ser dramática, musical ou coreográfica) para ilustrar o

assunto proposto, e o banquete, que tem o cardápio do período apresentado, é oferecido

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em uma releitura contemporânea, composto por entrada, prato principal, sobremesa e

bebidas. A comida fica a cargo de um chef de cuisine que vai preparar tudo de acordo

com o assunto da noite. A decoração e os aromas no ambiente trazem a

complementação ideal para unir laços e tornar o ambiente fraterno. Muitos foram os

Banquetes Culturais realizados desde 2005, entre eles: O Império Asteca (29/05/2009);

Gauleses: o mundo de Asterix e Obelix (19/06/2009); Noites Áticas 2: Eros

(28/01/2010), em que a arqueologia da história de Eros (tema preferido de artistas e

poetas) foi apresentada por Marshall, com comentários de Donaldo Schüller e

performance poética de Laura Medina. A gastronomia afrodisíaca ficou a cargo do chef

César Sperotto. Os banquetes mexem com o imaginário por apresentarem verdadeiras

encenações performáticas que tocam a sensibilidade dos participantes.

Em segundo lugar, destacam-se os Almoços Culturais. Essa atividade é realizada

quinzenalmente, nas quartas-feiras, (das 12h20 às 13h40) e um especialista ligado à

área das artes (visuais, música, literatura, história, teatro ou arqueologia) ou da ciência é

convidado para fazer uma palestra. É servida uma refeição temática com entrada, prato

principal, sobremesa e bebidas. O ambiente é preparado para saborear conjuntamente a

cultura, sob a forma do tema proposto, e a gastronomia. Por exemplo, enquanto se

assiste à apresentação de Tiago Halewicz que mostra a coleção de obras do Museu

Nacional de Varsóvia, pode-se almoçar um prato típico do lugar com novas releituras.

(Almoço Cultural realizado no dia 16/12/2009). Nesse contexto, é possível encontrar

confraternização e conhecimento em um ambiente agradável e com recursos de um

Instituto que inova no campo cultural. O almoço é uma atividade cotidiana, em que o

público acostumado a frequentar o StudioClio, se encontra por dois motivos: o social e o

cultural, pois ali, certamente, estão apreciadores de boa comida e interessados em

expandir seus conhecimentos sobre um tema específico.

Figura 2: Fachada do StudioClio - Foto: Francisco Marshall

Considerações Finais

Por fim, as tessituras entre a cultura, a arte e a gastronomia, que andam juntas desde os

primórdios da evolução da humanidade, revelam-se nas atividades de um espaço não

institucional de arte. O StudioClio foi alvo desta pesquisa como um desses espaços e

mostra-se eficiente na sua tarefa de resgatar a memória da civilização nos diversos

contextos históricos. O Banquete Cultural e o Almoço Cultural recuperam a História

Clássica e entre o antigo e o contemporâneo o intuito é desenvolver o pensamento

crítico.

Referências

BOURDIEU, Pierre. DARBEL, Alain. Obras culturais e disposição culta. In: __________O

amor pela arte: os museus de arte na Europa e seu público. Porto Alegre: Zouk, 2007,

p.69-111.

COELHO, Teixeira. Nem tudo é cultura. In: A cultura e seu contrário. São Paulo:

Iluminuras, 2008. p.17- 48.

CUCHE, Denys. Gênese social da palavra e da idéia de cultura. In: A Noção de

cultura nas Ciências Sociais. Bauru: EDUSC, 2002, p.17-31.

LE GOFF, Jacques. A História Nova. São Paulo. Martins Fontes, 2005.

MARSHALL, Francisco. [Entrevista disponibilizada em 11 de maio de 2009, na

Internet]1999.Disponívelem< http://wp.clicrbs.com.br/pedepagina/2009/11/05/

entrevista-com-francisco-marshall> Acesso em: 10/01/2010.

TAYLOR, Roger L. Corrigindo idéias equivocadas sobre arte e cultura. In: ________

Arte inimiga do povo. São Paulo: Conrad, 2005, p.43-79.

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