Viagem ao Brasil por Hans Staden - Versão HTML

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Como cozinham a comida

Há muitas raças de povos que não comem sal. Aqueles entre os quais estive

prisioneiro comem sal, às vezes, porque viram usar dele os franceses, com os quais

negociam. Mas contaram-me de uma nação, cuja terra se limita com a deles, nação Carajá,

moradora no interior, longe do mar, que faz sal das palmeiras e o come, sendo que os que se

servem muito dele não vivem muito tempo. Preparam-no da seguinte maneira, que eu vi e

ajudei a preparar: derrubam um grosso tronco de palmeira e racham-no em pequenas

achas; fazem depois uma armação de madeira seca e lhe põem as achas em cima,

queimando-as juntamente com a madeira seca até ficarem reduzidas a cinzas. Das cinzas

fazem então decoada, que fervem, e assim obtêm sal. Eu julgava que era salitre e o

experimentei ao fogo; mas não era. Tinha gosto de sal e era de cor parda. A maior parte da

gente, porém, não come sal.

Quando cozinham alguma coisa, seja peixe ou carne, põem-lhe em geral pimenta

verde, e, quando está mais ou menos bem cozida, tiram-na do caldo e a reduzem a uma

sopa rala a que chamam mingau e que bebem em cascas de purungas20, que servem de

vasilhas. E quando querem guardar alguma comida por mais tempo, carne ou peixe,

penduram-na uns quatro palmos acima do fogo, em varas, e fazem bastante fogo por baixo.

Deixam-na então secar e enfumaçar, até ficar bem seca. Quando querem comê-la,

aferventamna outra vez e se servem. A carne assim preparada chamam-na Mockaein21.

20 São as nossas cuias, feitas das cascas das cabaças ou cuités.

21 Mockaein é do tupi mbocaen, que quer dizer "tostar, secar ao fogo". Chamavam os selvagens mocaen ao aparelho feito de varas que servia de grelha. A carne assada no mocaen tomava-lhe, assim o nome. Hoje é vulgar o nome "moquém" com o mesmo sentido.

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Capítulo XIII

Que regime e que ordem seguem em relação às autoridades e à justiça

Não têm regime especial, nem justiça. Cada cabana tem um chefe, que é o seu

principal. Todos os seus chefes são de uma e mesma raça, com mando e regime, e podem

fazer tudo o que quiserem. Pode por ventura um deles ter-se distinguido mais na guerra do

que o outro; este então é sempre mais ouvido, quando se trata de novas guerras, como o já

referido Konyan-Bébe. No mais, não vi direito algum especial entre eles, senão que os mais

moços prestam obediência aos mais velhos, como é dos seus costumes.

Quando alguém mata ou fere a outrem, os amigos deste se dispõem logo a matar, por

sua vez, o ofensor, o que, porém, raras vezes acontece. Prestam obediência também aos

chefes das cabanas, e o que estes mandarem fazer, executam sem constrangimento nem

medo, e somente por boa vontade.

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Capítulo XIV

Como fabricam os potes e as vasilhas de que usam

As mulheres é que fazem as vasilhas de que precisam. Tiram o barro e o amassam;

dele fazem todas as vasilhas que querem; deixam-nas secar por algum tempo, e sabem

pintá-las bem. Quando querem queimá-las, emborcam-nas sobre pedras e amontoam ao

redor grande porção de cascas de árvores, que acendem, e, com isto, ficam queimadas, pois

que se tornam em brasas, como ferro quente.

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Capítulo XV

Como fabricam as bebidas com que se embriagam e como celebram essas