666 – O limiar do inferno por Jay Anso - Versão HTML

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666

O Lim iar do Inferno

Jay Anson

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CÍRCULO DO LIVRO S.A.

Caixa postal 7413

01051 São Paulo, Brasil

Edição integral

Título do original: “666”

Copy right © 1981 by The Estate of Jay Anson

Tradução:

Gilberto Dom ingos do Nascim ento

Então houve o dia em que os filhos de Deus

vieram apresentar-se perante o Senhor, e

veio Satanás também entre eles.

Então o Senhor disse a Satanás: De onde

vens? E Satanás respondeu ao Senhor e

disse: De rodear a Terra, e passear por

ela.

Jó, 2:1-2

PRÓLOG O

A casa do assassinato, local da tragédia de 1973, foi retirada de seu alicerce.

Seattle (10 de setem bro de 1978). — Um a casa de m adeira, branca e am arela,

local de um duplo e brutal assassinato, cinco anos atrás, foi colocada num a

carreta, ontem , e transportada para Puget Sound.

Bem cedo, esta m anhã, os residentes litorâneos observaram a casa de dois

andares ser guinchada e colocada num a enorm e barcaça e rebocada para o m ar.

Realm ente, a m udança da casa, feita logo após a m eia-noite, quando as estradas

por onde ela passaria poderiam ser interditadas, era algo pouco com um .

A casa em estilo vitoriano, na Brem erton Road, 666, tinha estado vazia desde

1973, quando Jam es Beaufort com eteu ali um duplo assassinato. A brutalidade do

crim e abalou essa pacata área residencial da cidade. O advogado de Beaufort

negou que seu cliente fosse forte o suficiente para com eter tais assassinatos.

Porém , de m odo surpreendente, durante o j ulgam ento, Beaufort confessou

am bos os crim es aos j urados.

Beaufort, que anteriorm ente fora vereador da cidade, testem unhou que havia

alugado a m oradia para Patrícia Swenson, secretária em seu escritório. Beaufort

tinha pedido o divórcio para poder casar-se com a srta. Swenson, m as sua esposa

o recusou. Logo após, Beaufort surpreendeu seu cunhado, Edgar Sutton, sozinho

com a srta. Swenson. Movido por um ataque de ciúm e, assassinou os dois.

“Achei que ele estivesse persuadindo Patrícia a deixar-m e”, declarou

Beaufort. Desde 1974 ele está cum prindo um a pena de vinte anos na

Penitenciária Federal da Ilha McNeil.

“A casa era um belo exem plo da arquitetura de m eados do século XIX”,

disse um porta-voz da Im obiliária Spatz, que havia alugado a casa para Beaufort.

“Mas aqueles assassinatos fizeram com que a casa se tornasse im possível de

alugar. Os clientes interessados achavam que a casa era assombrada.

“Havia tam bém o problem a com os curiosos. As pessoas, em seus carros,

paravam em frente da casa e ficavam espiando, ou desciam para tirar

fotografias. Os prováveis inquilinos argum entavam que não teriam sossego se a

alugassem .”

Segundo a Im obiliária Spatz, várias ofertas de com pra foram recebidas

durante os últim os anos. Porém , todas foram recusadas pelo proprietário, que

está registrado no cadastro im obiliário com o um tal sr. Coste.

A própria im obiliária não tem o endereço do proprietário, e ninguém , no

escritório, se lem bra de tê-lo encontrado pessoalm ente. Alegam que tratava de

negócios pelo correio e por telefone e acrescentaram que o lote núm ero 666 da

Brem erton Road está à venda agora.

A polícia declarou que, desde os assassinatos, a casa tem sofrido pequenos

atos de vandalism o. Um grande portal com vidro colorido e as ornam entadas

j anelas da sacada foram fechados com tábuas para evitar m aiores danos. Várias

vezes, os vizinhos perceberam um a trem ulante luz verm elha no interior da

residência e cham aram os bom beiros. Mas nunca encontraram qualquer

evidência de fum aça ou danos provocados por fogo.

O sr. Coste não inform ou à Im obiliária Spatz onde será o novo local da casa.

A com panhia encarregada de transportar a estrutura não pôde ser encontrada,

para m aiores esclarecim entos.

1

Terça-feira, 10 de abril de 1979.

Dez dias no Caribe eram precisam ente o que Keith Olson precisava. Ele passara

a m aior parte do inverno renovando um a velha casa de fazenda em Dobbs Ferry

e, agora, queria um a pausa antes do próxim o trabalho. Então, ele e sua esposa,

Jennifer, voaram para as Baham as para tom ar sol e pescar em alto-m ar.

Contudo, Keith estava um tanto ansioso para voltar ao trabalho. A prim avera

sem pre fora um a época agitada para a Carpintaria Olson. Os gelados invernos no

vale Hudson deixavam um bocado de telhados e calhas em péssim o estado. E, do

j eito que os preços dos im óveis subiam , nesses dias, m ais e m ais pessoas

preferiam consertar ou renovar suas casas, acrescentando m ais um côm odo ou

rem odelando o sótão ou o porão. Geralm ente, em m aio e j unho, Keith tinha bem

m ais trabalho do que podia executar. Agora, se pelo m enos sua esposa pudesse

dedicar-se a sua carreira novam ente. . .

Dois anos antes, Jennifer trabalhava com o decoradora de am bientes em

Manhattan. Mas, quando se casou com Keith, fechou seu escritório e saiu da

cidade. Agora, ela e Keith m oravam na cidadezinha de New Castle, logo acim a

de Ossining. Mas, com o passar do tem po, Jennifer descobriu que não estaria

totalm ente satisfeita se não estivesse realizando pelo m enos um proj eto de

decoração, escolhendo am ostras de papel de parede ou criando algum a idéia

com tecidos ornam entais.

O fato de ficar sem fazer nada o dia todo a deixava deprim ida e irritada. Por

esta razão, desde o Natal de 1978 procurava algum trabalho de decoração para

fazer. Chegou até a colocar um anúncio no j ornal local, ao qual ninguém

respondeu. Aqui, no alto Westchester, não era assim tão fácil encontrar esse tipo

de trabalho. E, à m edida que o inverno chegava, Jennifer se desencoraj ava cada

vez m ais. Keith notou, porém , que o sol tropical a aj udara, anim ando-a um

pouco.

O avião aterrissou no Aeroporto Internacional J. F. Kennedy um pouquinho

depois das quatro horas. Keith não se preocupou em encontrar um carregador

para retirar suas m alas da alfândega. Ele tinha j ogado futebol na escola e, agora,

aos trinta e três anos de idade, ainda conservava as form as de um vigoroso

zagueiro, com om bros fortes e largos e um tronco bem -constituído. Carregou a

bagagem para a área de recolhim ento e cam inhou até o estacionam ento onde ele

e Jennifer haviam deixado seu carro — um seda azul. Aí aj eitou toda a bagagem

no porta-m alas e rum ou para a Whitestone Bridge, sentido norte, em direção à

Saw Mill River Parkway .

Estavam quase chegando a casa quando Jennifer virou-se para ele e disse:

— Você não se im portaria se David viesse j antar conosco am anhã à noite?

— Tão cedo? — perguntou Keith. — Parece que estam os alim entando o sr.

David praticam ente a cada duas sem anas. — Lá nas Baham as, ele e Jennifer

tinham se queim ado dem ais para fazer am or e, naturalm ente, tinham j antado

fora todas as noites. Agora, Keith queria pelo m enos algum as noites a sós com

Jennifer, em sua própria casa, sem garçons, sem agitação. . .

— Mas não vem os David desde m arço — lem brou-lhe Jennifer.

— É m esm o — gargalhou Keith —, 31 de m arço. Mas, claro, convide-o. Não

m e im porto.

Mas no com eço, quando ele e Jennifer se casaram , Keith não se sentia m uito

bem diante da am izade de Jennifer com o negociante de antiguidades de

Manhattan.

Com um m etro e oitenta de altura, David M. Carm ichael era cerca de cinco

centím etros m ais alto que Keith.

E a atraente aparência de David fazia com que Keith sentisse ligeiram ente a

am eaça de, m esm o tem porariam ente, ser relegado a segundo plano. David tinha

quarenta e dois anos — nove anos m ais velho que Keith, doze m ais que Jennifer.

Mas os anos a m ais só serviram para m elhorar sua aparência. Sua vasta

cabeleira tornara-se charm osam ente grisalha, e ele se m antinha em form a,

passando no m ínim o um a hora por dia no clube de tênis. Um hom em elegante,

usava sem pre ternos sob m edida, gravatas de seda e sapatos caros. E, com o

negociante de antiguidades, de peças do século XVIII, sentia-se perfeitam ente à

vontade no rico e sofisticado m undo que Jennifer costum ava frequentar.

A prim eira vez em que Keith se encontrou com David foi quando Jennifer o

arrastou a Nova York para um leilão na Sotheby Parke Bernet. Nas salas de

exibição, os três viram um abaj ur de vidro esverdeado. Para Keith, aquilo

lem brava as lâm padas que pendiam num a sorveteria alem ã, lá em Ossining; e

Jennifer realm ente parecia gostar daquilo. Ele lhe disse, então, que se ela

quisesse o abaj ur com o presente de casam ento, no dia 7 de m aio, ele arriscaria

um lance de até quatrocentos dólares.

Jennifer e David se olharam com o que assustados, m as nenhum dos dois disse

qualquer coisa. Então, m ais tarde, Keith exam inou o catálogo de venda. Aquele

extraordinário abaj ur era um a peça assinada por Louis Com fort Tiffany —

estim ada entre quinze m il e dezoito m il dólares. Para Keith, o m undo da arte e as

antiguidades eram um labirinto resplandecente com que David e sua esposa

estavam bem fam iliarizados, m as onde ele se perdia facilm ente.

Um pouco antes das seis horas, Keith estacionava na entrada da garagem , na

Sunset Brook Lane, 712. Jennifer foi direto para a cozinha para preparar alguns

bifes para o j antar. Keith carregava as m alas novam ente — um a sob o braço

esquerdo e as outras duas, um a em cada m ão —, e, com certo esforço, subiu as

escadas em direção ao quarto.

Que bom estar em casa, pensou ele. Haviam com prado essa velha casa de

tij olos verm elhos dois anos atrás, um pouco antes de se casarem . Então, Jennifer

vendeu seu pequeno apartam ento no East Side e trouxe a m aior parte da m obília

para New Castle. Os m óveis dos dois form avam um a com binação engraçada —

o oratório de carvalho de Jennifer e sua m obília de estilo m oderno, ao lado das

velhas e rústicas m esas e cadeiras de Keith. Mas a sua habilidade com cores e

tecidos fez com que tudo aquilo com binasse, sem deixar a casa m uito fem inina e

suntuosa, para que Keith se sentisse à vontade.

De repente, ele ouviu a voz de Jennifer vindo da cozinha. — Keith! — ela

cham ou. — Desça aqui. — Parecia preocupada.

— Estou indo — respondeu ele, saindo rapidam ente do quarto e descendo as

escadas em dois saltos. Mas, quando entrou na cozinha, tudo parecia na m ais

perfeita ordem .

— O que houve? — perguntou ofegante.

— Olhe. — Jennifer apontava a j anela sobre a pia. Eles possuíam cerca de

um acre de terra. Mas, m esm o assim , a sua casa parecia ainda m ais isolada, pois

a Sunset Brook Lane era quase toda coberta de árvores e vegetação. Atrás da

casa havia unia vala que ia dar num pequeno riacho, onde sam am baias e flores

silvestres cresciam todo verão. E sua cozinha tinha um a am pla vista do poente.

Keith e Jennifer sem pre gostavam de j antar na m esa da cozinha para apreciar o

pôr-do-sol.

Mas agora, quando olhava pela j anela, ele não podia acreditar em seus olhos.

Bem do outro lado da vala, onde a Sunset Brook Lane fazia um a espécie de

retorno, erguia-se um a casa de dois andares. Ela não estava lá quando ele e

Jennifer saíram de férias.

— Lá se foi nossa vista — m urm urou Jennifer tristem ente.

Mas Keith estava assom brado. — É im possível! Não há j eito de construir

um a casa tão rapidam ente. O terreno nem m esm o estava lim po há dez dias!

— Tem certeza? — perguntou Jennifer. Ela e Keith raram ente usavam o

atalho oeste da Sunset Brook Lane, a não ser que estivessem indo em direção à

Taconic Parkway .

— Tenho certeza — insistiu Keith. — Passei ali há duas sem anas, quando ia

para Dobbs Ferry. Não havia nenhum sinal de alicerce, nenhum a escavadora. E,

além disso, aquele terreno é de Cly de Ram sey . Ele nunca quis construir ali.

O clarão do fim da tarde ofuscava seus olhos. Os carvalhos e os bordos ainda

estavam sem folhas, e o sol poente escorregava por detrás da varanda principal

da nova casa. Parecia estar a apenas uns cem m etros de distância, bem na beira

da vala. E, de acordo com sua silhueta, Keith podia concluir que era um a casa

com água-furtada, um a am pla varanda, à esquerda. Ele não via nenhum a cortina

ou veneziana — evidentem ente, os novos inquilinos ainda não tinham se m udado.

Keith deu um a olhada no relógio sobre o fogão. Ele m arcava seis e dez.

Dentro de quinze m inutos o sol estaria se pondo. — Jennifer, você se im porta se

eu for até lá para dar um a olhada? Sim plesm ente não posso im aginar com o é

possível construir um a casa em tão pouco tem po.

— Desde que você desfaça as m alas prim eiro. Sua roupa vai m ofar toda se

você não a tirar de lá.

Keith concordou e subiu novam ente para o quarto. Na noite anterior, um a

série de tem porais tropicais havia lavado as ilhas Baham as. Agora, ao abrir a

m ala, sentira a um idade em seu interior. Seus ternos estavam totalm ente

am arrotados; porém , se eles fossem para o tintureiro, Keith não sentiria sua falta.

Não era um hom em de usar paletós e gravatas.

Depois de colocar a m ala no fundo do arm ário, Keith m udou de roupa

rapidam ente, vestindo blue jeans e sapatos esporte. O tem po, em abril, ainda

estava um pouco frio em New Castle, fazendo com que Keith procurasse sua

j aqueta acolchoada que costum ava usar quando ia esquiar com Jennifer em

Verm ont. Seria idiotice arriscar-se a pegar um resfriado logo agora, com a

chegada da época de m ais trabalho.

Quando desceu novam ente, Jennifer estava j unto à pia, preparando os bifes.

Ela estava com um bronzeado m aravilhoso, e os raios de sol haviam realçado

seus cabelos castanhos cor de m el. O sol j á havia desaparecido por detrás da

nova casa, m as a luz do céu poente brilhava por entre seus cabelos, tornando-os

suavem ente dourados. Ela não era a m ulher m ais bonita que ele j á vira, m as,

com toda a certeza, era um a das finalistas.

Seria essa a razão de seu ciúm e? — perguntou Keith a si m esm o. Aborrecia-

lhe um pouco o fato de Jennifer ter sido casada antes, quando tinha vinte e cinco

anos. Seu divórcio acontecera há cinco anos. Mas, m esm o assim , Keith não

gostava de ser com parado a alguém que ele nunca conhecera. E, pata agravar,

havia ainda David, um dos m elhores am igos de Jennifer, sim pático, educado,

independente e que ganhava m uito m ais dinheiro do que ele.

Keith beij ou sua esposa e fitou seu rosto por instantes. Seus olhos tinham

pequenos anéis am arelados ao redor das pupilas, com o dois pequenos eclipses

solares. Ele não devia se preocupar com Jennifer, pensou consigo m esm o. Ela e

David eram apenas velhos am igos que se conheciam há anos.

— Não vou dem orar. Só quero dar um a olhada na casa, antes de escurecer.

Jennifer concordou com um sorriso. — Tente descobrir quem é o dono.

Talvez ele queira que eu a decore, assim que estiver tudo pronto.

Keith destrancou a porta da cozinha e saiu. Jennifer esperou que ele se

distanciasse o suficiente, até cruzar a vala. Então, pegou o telefone na parede da

cozinha e discou para Manhattan. Não houve resposta, porém . Será que David

estava trabalhando até tarde, na galeria?

Jeniffer reconheceu o nítido sotaque inglês da secretária de David, a srta.

Rosewood. — David M. Carm ichael, boa tarde!

— Olá, aqui é Jennifer Olson. David está, por favor?

— Ah, sra. Olson, um m om ento. Deixe-m e ver se ele pode atendê-la. — E,

então, um profundo silêncio; a srta. Rosewood deixou-a na linha, esperando.

Era sem pre ligeiram ente desagradável ser tratada com o um a estranha por

alguém que a conhecia há tanto tem po. Mas a britânica srta. Rosewood era m uito

discreta e protegia seu patrão com im placável lealdade — principalm ente agora

que David estava solteiro novam ente.

— Jennifer! — Era a voz de David. — Com o vai?

— Maravilhosa, David, e você? Por que está trabalhando até agora? Estou

ligando num a hora im própria?

— Não, absolutam ente — gargalhou David. Então ele abaixou a voz. — Há

um produtor de Beverly Hills que quer com prar um presente para sua esposa,

para com em orar seus dez anos de casam ento. Ela prefere um j ogo de poltronas

que custa sessenta e cinco m il dólares. Mas ele está m ais interessado num a

escrivaninha Luís XVI que custa oitenta e cinco m il. Ele acha que a escrivaninha

é algo m ais prático.

— Tom ara que ele a convença — disse Jennifer. — Mas escute; Keith e eu

acabam os de voltar das Baham as. Eu quero que você nos vej a antes que eu

com ece a descascar. Você está livre para j antar am anhã?

David deu um a olhada em sua agenda. Na noite de quarta-feira teria que

j antar com um dos adm inistradores do Metropolitan Museum . Mas, claro,

poderia cancelá-lo. Preferia Jennifer — e Keith tam bém , é claro.

— Parece perfeito — disse David. — A que horas?

— Bem . . . — Jennifer fez um a pausa. — Por volta das seis e m eia está

ótim o.

— Com binado; às seis e m eia — confirm ou David. Isso significava então que

ele teria que deixar a galeria ali pelas quatro horas, pegar um táxi para casa,

tom ar um banho e barbear--se. . .

Da casa dos Olsons, no núm ero 712, a Sunset Brook Lane partia em direção

ao norte, fazendo novam ente um a curva acentuada ao sul, para form ar um U

invertido. Se Keith quisesse chegar até a nova casa pela estrada, teria que

atravessar a pequena ponte de concreto, no com eço da alam eda. Um a

cam inhada de uns setecentos m etros, aproxim adam ente. Seria bem m ais prático

atravessar a vala que separava a nova casa de sua cozinha.

Soprava um a leve brisa. A pele do rosto de Keith — queim ada há apenas

um a sem ana — estava toda ressequida. No fundo da vala, onde as sam am baias

cresciam no verão, o riacho corria suavem ente. Aparentem ente, não chovia

desde aquele incrível aguaceiro que caíra um a noite antes de deixarem o

Aeroporto Kennedy .

Atravessando sobre as pedras que se elevavam acim a da superfície da água,

Keith parou. Do outro lado do riacho, o ar parecia m ais pesado. Sugeria aquela

m esm a sensação que Keith experim entava sem pre antes de um a tem pestade.

Keith levantou a cabeça. A casa assom ava-se acim a, cobrindo o sol. Keith

encolheu os om bros num gesto de indiferença e com eçou a escalar o íngrem e

barranco. Alcançou logo o outro lado da ravina. Bem à sua frente, num a estreita

faixa de terra que tinha sido aplainada com escavadoras, a nova casa de m adeira

assom ava im ponente e am eaçadora. Era am arela, com vigam ento azul, e o

telhado da água-furtada era de telhas de ardósia. Não poderia haver um sótão ali,

apenas um pequeno espaço, bastante raso, que só atrairia esquilos e ratos.

A casa fora colocada em diagonal com a Sunset Brook Lane, de m odo que a

porta da frente dava para o sul. Keith espiava, assom brado, o ornam entado

vigam ento sob o telhado da varanda. Já não se viam m ais ornam entações tão

espalhafatosas com o aquela.

Não havia nenhum a garagem , m as bem em frente à varanda principal, um a

larga faixa de terra conduzia até a estrada, recoberta com pedregulho. Ali, Keith

supôs, seria onde o proprietário teria de estacionar seu carro. Agora, porém , não

havia nenhum autom óvel. Com o tam bém não havia cortinas nem persianas nas

j anelas. As tábuas recortadas, cuidadosam ente preparadas, im itavam pequenas

telhas sem icirculares, m as, definitivam ente, precisavam de um a nova m ão de

tinta. Keith podia ver arranhaduras e lascas por todo lado. Mesm o a uns seis

m etros de altura, nas paredes.

Então, Keith percebeu rastros de pneus enorm es. Algum veículo de grande

porte tinha deixado as m arcas de seus pneus suj os de barro na Sunset Brook Lane.

Agora ele com preendia. A casa não fora construída ali, e sim , transportada de

algum lugar para lá.

Chegou m ais perto, enquanto exam inava as fileiras inferiores de ripas, na

parede da casa, bem j unto ao alicerce de concreto, que ainda estava fresco. Sim ,

ali estavam as m arcas dos cavaletes que haviam sido usados com o suporte,

quando a casa fora retirada do seu alicerce original. Quem executara esse

serviço certam ente sabia o que estava fazendo. Keith quase se arrependeu de ter

estado ausente, em férias. Teria adorado presenciar a instalação dessa tre m enda

estrutura de dois andares sobre seu novo alicerce.

Mas, dentre todos os lugares, por que j ustam ente aqui? Para com eçar,

praticam ente não havia quintal. E, bem ao lado da varanda principal, o terreno

precipitava-se inclinadam ente em direção ao riacho no fundo da vala. E, além de

ter todos esses inconvenientes, o que teria levado o proprietário a escolher um

pedaço de terra tão estreito e desaj eitado?

Keith deu um a cam inhada ao redor da varanda para ter um a idéia da vista da

casa, da estrada. Um a sólida sacada proj etava-se da parede que fazia frente para

a Sunset Brook Lane. Coberta com ardósia, a sacada continha três vidraças

separadas, cada um a m edindo aproxim adam ente um m etro de largura por dois

de altura. Aparentem ente, a casa tinha sido colocada de m aneira que a j anela da

sacada pudesse captar a luz da tarde. Talvez o dono desse lugar tam bém gostasse

de apreciar o pôr-do-sol.

Ao chegar à varanda da frente, Keith observou os painéis em am bos os lados

da porta de entrada. Cada painel era constituído de pequenos pedaços de vidro

sextavado, ligados por filetes de chum bo. Os pedaços de vidro sextavado eram

perfeitam ente claros. Mas as extrem idades superior e inferior de cada painel

traziam um a faixa verm elha de um tipo de vidro brilhante.

Sobre a porta havia um a ventarola sem icircular com o m esm o tipo de

vidraça dos painéis da porta de entrada. Na parte inferior da ventarola, havia um

grande disco de vidro verm elho cor de sangue. Desse disco, tiras de chum bo

im itavam os raios do sol. Parecia o sol poente, a ponto de m ergulhar no horizonte.

E bem no centro do círculo verm elho, em grandes algarism os negros, estava o

núm ero da casa: 666.

Keith e Jennifer m oravam no n.° 712. Um a casa desse lado da Sunset Brook

Lane poderia ter qualquer núm ero até 640 — que era o núm ero da casa da sra.

Woodfield, cerca de quatrocentos m etros estrada abaixo. Olhando m ais

detalhadam ente, Keith notou que os núm eros tam bém eram feitos de chum bo,

circundando o disco de vidro verm elho. Seria essa a razão pela qual a casa fora

transportada para esse exato local, para que não fosse preciso m udar a

num eração?

Então, ouviu um suave clique. Bem à sua frente, a porta dianteira m oveu-se

ligeiram ente. Que estranho, pensou Keith. Não sentiu nenhum a brisa. Mas, afinal,

se a porta estava destrancada é porque havia alguém lá dentro. Keith teria que se

encontrar com seu novo vizinho, m ais cedo ou m ais tarde; e agora poderia ser

um a hora tão boa com o qualquer outra.

Apertou a cam painha, m as não ouviu nenhum barulho no interior da

residência. Aparentem ente, a eletricidade ainda não tinha sido ligada. Em purrou

a porta com a m ão, e ela se m oveu silenciosam ente, nas dobradiças.

Bem do seu lado esquerdo, um a íngrem e escadaria com um velho corrim ão

levava até o segundo andar. Em frente, um pequeno e estreito corredor dava

para os fundos da casa.

— Olá, alguém em casa? — cham ou Keith. Mas ninguém respondeu.

Entrou num lugar que devia ser a sala de estar. Mas o andar térreo estava

com pletam ente vazio, sem nenhum a m obília. Tam bém não havia lâm padas.

Alguém , provavelm ente m uito previdente e cauteloso, tinha tirado as instalações

do teto, tanto no hall com o na sala de estar, de m odo que a única luz do lugar

vinha de fora, pelas j anelas.

Na parte posterior da sala de estar havia um pequeno nicho, com um a lareira

num a parede e um a porta na parede adj acente. Keith em purrou a porta e viu que

ela dava para a cozinha, na parte posterior da casa. Lá dentro havia um a

geladeira de aparência m oderna e um a pia de aço inoxidável.

Voltou para onde estava. O assoalho de carvalho da sala de estar parecia

bastante antigo. Mas as paredes, onde Keith esperava encontrar um a forração no

m ínim o interessante, eram feitas com os piores com pensados possíveis. Keith

balançou a cabeça, desapontado. Será que o proprietário não se im portava nem

um pouco com o interior? Se preferisse m aterial pré-fabricado, poderia, pelo

m enos, usar lam bris m ais decentes.

Porém , num a parte do andar térreo, havia um a for-ração um pouco m elhor

— na escada. A princípio, Keith pensou que as duas portas de correr, em baixo da

escadaria, fossem de algum arm ário de roupas. Mas, no lugar das m açanetas, as

portas tinham enorm es argolas de ferro, todo batido e gasto. Keith puxou as

portas, que se abriram , escondendo-se por entre a forração de m adeira. Então

deparou com um estranho côm odo sextavado.

Keith entrou. Bem à sua frente estavam os três painéis da sacada que tinha

visto do lado de fora. Mas a pessoa que havia proj etado esse côm odo deveria ter

hexágonos na cabeça. O chão, talvez com uns três m etros de diâm etro, era de

m árm ore branco e crem e, form ando um m osaico de hexágonos entrelaçados. O

m esm o padrão era repetido em am bos os lados das portas de correr e sob as

j anelas com filetes de chum bo. Até nas j anelas.

Cada parte da j anela da sacada era feita de pequenos pedaços de vidro

sextavado e transparente, tendo cerca de um m etro e m eio de extensão, ligados

por filetes de chum bo. A m aioria dos pedaços de vidro tinha pequenos arranhões,

os quais chegavam a dar idéia de algum a espécie de desenho, m as eram fracos

dem ais para que Keith pudesse identificá-los. Aqueles pequenos arranhões eram

quase tão transparentes quanto o próprio vidro. Agora, o sol estava quase sobre o

horizonte, entrando pela j anela da sacada e criando um a espécie de

deslum bram ento.

Keith subiu até o segundo andar. O corrim ão era feito de um bom e velho

m ogno, m as as escadas não tinham nada de especial, apenas tábuas velhas e

m anchadas, com um a lasca aqui e ali. No topo da escada estava o banheiro e, do

lado direito, algo com o um vestíbulo ou pequeno dorm itório. Mais para a direita

— no sentido da varanda principal — estava o dorm itório central. Um a de suas

paredes era acabada com o m esm o m aterial que forrava o lado da escada, no

andar térreo. As outras paredes, entretanto, eram forradas com aquelas m esm as

chapas rechonchudas e m oles.

Olhando das j anelas do quarto principal, Keith tinha um a boa visão de sua

própria casa, que estava apenas a uns dez m etros de distância. A nova casa

ficava num terreno ligeiram ente m ais elevado, de m aneira que era fácil ver,

dali, o interior de seu próprio quarto, no segundo andar. Nada bom ; eles não

poderiam esquecer de abaixar a persiana durante a noite.

Estava para descer as escadas quando, de repente, ouviu um agudo som

m etálico: clang! Com o se alguém tivesse deixado cair um parafuso dentro de um

balde. Keith voltou-se. Bem atrás dele estava o banheiro, e, dentro, um a antiga

banheira de ferro fundido, sobre seus quatro pés, em form a de garras. Foi até a

beirada da banheira e deu um a olhada. No fundo, sobre o esm alte enferruj ado,

j azia um a m oeda m arrom -escura, m ais ou m enos do tam anho de um a daquelas

de cinquenta cents. Ela era grande dem ais para sair pelo ralo. Keith debruçou-se

sobre a borda da banheira e apanhou a m oeda. Para sua surpresa, ela estava um

pouco quente, com o se estivesse encostada num a lâm pada antes. Mas não havia

nenhum a lâm pada na casa — na verdade, nem m esm o tinham ligado a

eletricidade ainda.

De onde teria caído aquela m oeda? Keith olhou para o teto sobre a banheira,

m as ele estava perfeito. Será que a m oeda estava na beirada da banheira e

escorregou por causa de seus passos? Mas, ainda assim , quem teria tido a idéia de

colocá-la ali?

Então, levou a m oeda até a j anela do banheiro, para poder exam iná-la à luz

do sol poente. Enquanto Keith segurava a m oeda, parecia que o calor se

refugiava dentro dela. Agora, Keith j á não tinha tanta certeza se ela tinha estado

aquecida realm ente. Em um a das faces, estavam escritas as iniciais se, em

grandes letras m aiúsculas, e, entre elas, algo que lem brava a form a de um cabo

de guarda-chuva, Keith ficou im aginando o que se queria dizer; South Carolina?

Tinha que ser um a m oeda estrangeira, pensou. Na outra face, havia o gasto

perfil de um hom em com um pescoço longo e grosso. Um círculo de letras

contornava o perfil, m as estavam tão gastas que Keith não conseguia distingui-

las. De fato, a m oeda não estava em boas condições. Tinha aquela aparência

esverdeada e rústica que o bronze adquire após ter passado algum tem po

enterrado, e as bordas estavam denteadas em vários pontos.

Mas, m esm o assim , não havia por que deixá-la na banheira. Keith colocou a

m oeda no bolso de sua j aqueta.

Do topo da escada ainda deu um a olhada pela j anela. Agora, o sol estava

bem na linha do horizonte. Em poucos m inutos estaria escurecendo — hora de

voltar para casa, antes que Jennifer com eçasse a ficar preocupada.

Keith estava descendo as escadas, m as parou no m eio do cam inho. Deixara a

porta da frente totalm ente aberta ao entrar. Agora, ela estava fechada

novam ente. Aí ouviu um leve ruído, um sussurro, talvez um suspiro, vindo do

corredor atrás dele.

Voltou-se, e vislum brou os raios averm elhados de um a luz que escapava

pelas portas de correr. Curioso, Keith voltou até o corredor e deu um a olhada

dentro do côm odo sextavado.

Fora da j anela da sacada, o sol verm elho-fogo estava bem na linha do

horizonte. Apenas há poucos m inutos atrás, as vidraças da j anela da sacada

estavam com pletam ente transparentes. Agora, elas estavam em brasa, com a

m esm a cor do sol que m orria.

Entrou no côm odo, ofegante. De algum m odo, o vidro da j anela parecia

captar os verm elhos raios solares e am plificá-los. O chão, os lam bris, todo o

côm odo, de fato, estava banhado com aquele incom um brilho averm elhado.

Keith olhou para suas m ãos, agora verm elhas. Sua j aqueta, azul à luz do dia,

estava toda purpúrea.

Então percebeu figuras hum anas, de tam anho natural, em cada um a das três

j anelas. Dessa vez não eram arranhaduras, m as linhas precisas, cuidadosam ente

gravadas no vidro. E agora que as vidraças refletiam aquele brilho verm elho, o

m olde a elas sobreposto era claram ente visível.

A figura da j anela do lado esquerdo vestia um a túnica com m angas

com pridas e um a estranha espécie de sapato e m eia ao m esm o tem po.

Lem brava um pouco aquelas estatuetas de m etal que Jennifer trouxera, certa

vez, da Inglaterra. Keith, entretanto, percebeu tratar-se de um a figura m asculina.

Gracioso e sim pático, ele estava olhando para a direita, com um largo sorriso,

estendendo a m ão esquerda para a m ulher desenhada na j anela do m eio.

Com o o Cavalheiro Sorridente, ela tam bém parecia estar vestida com traj es

da Idade Média. Ele fazia sinal para que ela fosse até ele, e ela, com um tím ido

sorriso, aceitava o convite.

Agora, Keith podia entender a razão de todas aquelas partículas de vidro em

cada j anela. Se um a sim ples parte daquela vidraça desenhada, cerca de dois

m etros por um , se quebrasse, um artista teria que desenhar um painel inteiro para

poder substituí-la. Mas aquelas partículas eram bem m ais fáceis de se substituir.

E, se algum garoto atirasse um a pedra na j anela, o proprietário teria que

encom endar apenas dois ou três hexágonos, no m áxim o. Bastante inteligente! E

aqueles desenhos eram realm ente um a obra de m estre. Um a pena não ter a

oportunidade de sem pre poder apreciar aquilo tudo, a não ser em determ inadas

horas do dia, com o naquelas. . .

E, então, seus olhos pousaram num a terceira j anela, a do lado direito. Tanto o

Cavalheiro Sorridente quanto a Donzela Desej osa estavam desenhados de perfil.

O outro hom em estava desenhado de frente. Sua boca contorcia-se em aflição, e

grandes pingos de lágrim as estilizadas rolavam de seus olhos. Obviam ente,

aquele tipo não tivera sorte no am or — o Cavalheiro Sorridente estava-lhe

roubando a m ulher. Mas, em lugar de tom ar um a atitude para detê-la, ele

perm anecia ali, parado, choram ingando. Bobo, idiota!

Mas havia algo estranham ente fam iliar naquele rosto. Keith chegou m ais

perto. O rosto do Bobo enquadrava-se em um dos hexágonos, com o se um a

m áscara sextavada tivesse sido colocada sobre sua cabeça. As lágrim as eram

estilizadas, m as o rosto atrás delas era quase fotograficam ente real...

Lá fora, o sol ia desaparecendo no horizonte. Ainda assim , a figura

desenhada, diante dos olhos de Keith, era m ais clara do que nunca. De repente,

Keith percebeu por que aqueles traços lhe eram tão fam iliares. Eles form avam

os m esm os olhos, a m esm a boca e o m esm o nariz que ele via todas as m anhãs,

no espelho do banheiro. Era o próprio rosto de Keith que o fitava daquele

hexágono de vidro.

Aterrorizado e confuso, Keith afastou-se daquela incrível j anela. Do lado de

fora, o sol j á tinha desaparecido no horizonte. O crepúsculo caía. Mesm o assim ,

as vidraças ainda refletiam aquele brilho verm elho, pulsando levem ente, com o

se possuíssem vida própria.

Tem eroso de tirar os olhos daquela fantástica j anela, Keith se afastava de

costas, procurando a saída para o corredor. Mas, ao invés disso, suas m ãos

encontravam apenas m adeiras sólidas.

Será que as portas haviam se fechado, aprisionando-o ali? Ele se contorcia,

quase em pânico. Mas não, apenas tinha ido de encontro a um dos lam bris. As

duas portas ainda continuavam abertas, com o as deixara. Dando graças a Deus

por poder sair dali, m ergulhou pela saída do côm odo e correu para a porta da

frente. Mas, quando chegou ao fim da escada, Keith deu um a olhada pela j anela

do vestíbulo, ao lado da porta da frente, e quase caiu de susto. Um a figura

transparente e decapitada estava parada na varanda, bloqueando sua saída.

Retrocedeu, totalm ente aterrorizado, e a aparição tam bém desapareceu,

instantaneam ente. Aí Keith deu outra olhada e entendeu. Era seu próprio reflexo

na j anela do vestíbulo.

Deu um passo à frente outra vez, e a figura decapitada prontam ente

reapareceu. Um passo para trás, e a figura sum iu. Keith olhou à sua direita, onde

a últim a luz do dia brilhava pela j anela, no pé da escada, ilum inando seus om bros

e tronco, m enos sua cabeça.

Tudo não passou de um a travessura da luz! Keith podia sentir sua pulsação

voltando ao norm al, quando abriu a porta da frente, dirigindo-se para a varanda. .

.

Mas, e o rosto do Bobo Lacrim ej ante, lá atrás, no côm odo sextavado? Aquilo

não era reflexo! Keith tinha a certeza de que o rosto desenhado no vidro era seu

próprio rosto, m as, agora, nem pensava em voltar lá, para vê-lo novam ente.

Ao fechar a porta atrás de si, Keith ouviu o barulho da trava da fechadura. A

porta estava trancada; não podia girar a m açaneta m ais dó que um quarto de

volta. Satisfeito, saiu da varanda, em direção ao outro lado da vala.

Agora estava escurecendo rapidam ente, e Jennifer tinha ligado o holofote

sobre a porta da cozinha. De repente, Keith teve a desagradável sensação de

estar sendo observado. Voltou-se repentinam ente e olhou cada um a das j anelas

sem cortinas. Mas não havia ninguém lá.

Dentro do bolso da j aqueta, apertava a pesada m oeda de bronze. Quando,

finalm ente, encontrasse o proprietário daquela casa, ele lhe devolveria a m oeda

j unto com um lem brete para não deixar a porta da frente destrancada! Enquanto

isso, porém , decidiu não com entar nada com Jennifer sobre o fato de ter visto seu

próprio rosto naquele painel de vidro. Até que tivesse um a oportunidade de dar

um a olhada naquelas j anelas durante o dia.

Mas Keith sabia que não teria tem po de voltar ali no dia seguinte. A prim eira

coisa que teria que fazer na quarta-feira de m anhã seria visitar o escritório em

Cappaqua e se inteirar das contas e cham adas telefônicas gravadas na secretária

eletrônica. Depois, ele, Marc e Jason teriam que com eçar um novo serviço em

Peekskill. E, naquela noite, Jennifer queria que ele estivesse em casa cedo para se

arrum ar, colocar um a gravata e engraxar os sapatos...

Claro, sem pre havia um a chance de David não estar disponível para um

convite assim , tão em cim a da hora. Mas um a chance m uito rem ota, adm itiu

Keith. Quando Jennifer o convidava para j antar, David Carm ichael sempre

estava disponível.

2

Quarta-feira, 11 de abril de 1979.

Às seis e m eia, naquela noite, quando o sol estava se pondo, Jennifer ouviu o

Mercedes-Benz de David estacionando na entrada. O negociante de antiguidades

tinha feito um a longa viagem , desde a Saw Mill River Parkway até New Castle, e

Jennifer estava determ inada a fazer um j antar que realm ente com pensasse todo

aquele esforço. Se ao m enos David im aginasse o quanto ela desej ava suas visitas

— porque ele era, positivam ente, o único elo que Jennifer tinha com a vida que

conhecera em Nova York.

Há apenas dois anos, ela dirigia seu próprio negócio de decoração de

interiores, na parte superior do East Side. Era fácil encontrar im itações, de

qualidade, da m obília francesa. Mas, quase sem pre, tinha clientes que podiam

pagar por um a peça original. E, então, ela ia visitar a Galeria David M.

Carm ichael, no Edifício Fuller, no núm ero 41 da East 57th Street.

Jennifer nunca se cansava de adm irar as cadeiras, as côm odas e as estatuetas

douradas que David conseguia em leilões, tanto no país com o no exterior. Ao

todo, Jennifer deve ter proporcionado à em presa David M. Carm ichael cerca de

duzentos m il dólares, em transações com erciais. Porém , ela ainda assim não

conseguira um a m aior aproxim ação com a srta. Rosewood, a britânica secretária

de David. E nem ela, a srta. Rosewood, estava contente com seu relacionam ento

com David.

O prim eiro casam ento de Jennifer term inara em divórcio, em 1974, no

m esm o ano em que com eçara. Depois de passadas as dores e as m ágoas,

com eçou a sair com outros hom ens, porém o relacionam ento nunca durava.

David Carm ichael — doze anos m ais velho que ela — foi realm ente o único

hom em interessante que Jennifer encontrou em Nova York.

Sabia que ele tam bém gostava m uito dela. Havia apenas um problem a: David

era casado. E não apenas casado, m as profundam ente apaixonado por Eleanor

Carm ichael, um a elegante m ulher, no com eço de seus quarenta anos. Jennifer

sentia um a certa invej a, sem pre que via David e Eleanor j untos. Obviam ente,

rom ances eternos não eram exatam ente aquilo com que o Ladies’ Home Journal

sonhava para aum entar sua tiragem .

Não que Jennifer visse os Carm ichaels tão frequentem ente, é claro. Eleanor e

David eram casados; Jennifer, solteira novam ente. Assim , ela entrava em

contato com David som ente quando visitava sua galeria. A cada seis m eses,

aproxim adam ente, eles se encontravam num coquetel ou num leilão na Christie’s

ou na Sotheby Parke Bernet. E, m uito raram ente, alm oçavam j untos, um alm oço

puram ente com ercial, num excelente restaurante francês. Jennifer podia

perceber que David não era o tipo de hom em que enganava a esposa, jamais.

Mas esse tipo de com portam ento só contribuía para que ela gostasse m ais e m ais

daquele hom em .

E, então, encontrou Keith num coquetel com em orativo do bicentenário do 4

de Julho, em Pound Ridge. Extrovertido e autoconfiante, Keith Olson era

totalm ente diferente dos hom ens que ela conhecera em Manhattan. Ele

trabalhava com o carpinteiro e pintor, m as preferia fazer restauração de casas

velhas. Não era elegante e sim pático com o David, m as era realm ente atraente,

com seus sorridentes olhos azuis e seu bigode dourado.

Depois de três horas, ele e Jennifer em pé, no gram ado, o gelo j á derretido

em suas bebidas, conversavam com o se fossem am igos há anos. Cada um pegou

o núm ero do telefone do outro. E então, quando a festa acabou, Jennifer pegou

seu carro e voltou para a cidade.

Queria ligar para Keith logo que entrou em casa, m as se conteve. Keith não

era de Manhattan e poderia interpretar m al esse tipo de atitude. No entanto, ele

ligou para ela na m anhã seguinte.

Por seis m aravilhosos m eses, ela e Keith tentaram se convencer de que

aquilo era apenas um caso passageiro, um a paixão tem porária e nada m ais.

Finalm ente, desistiram de resistir e m arcaram a data do casam ento para 7 de

m aio de 1977.

Agora, quase dois anos depois, ainda se am avam . Se, pelo m enos, Jennifer

não tivesse tanta saudade de Nova York... A época do verão era deliciosa em

New Castle, m as, Deus, o inverno parecia durar para sem pre. Não havia m useus

nem galerias de arte, apenas um punhado de restaurantes. E os únicos cinem as

ficavam a oito quilôm etros de distância.

E gostaria tam bém que Keith não se m ostrasse tão cium ento, toda vez que

convidava David para j antar. Claro que o fato de Jennifer conhecer David há

tanto tem po perturbava Keith. Mas o que realm ente o incom odava, e Jennifer

sabia, era o fato de David estar solteiro novam ente.

Em novem bro de 1977, seis m eses depois do casam ento de Jennifer e Keith,

David foi para Paris, num leilão no Hotel Druot. Eleanor Carm ichael

surpreendeu um gatuno invadindo seu apartam ento na Riverside Drive.

Quando David desceu do Concorde no Aeroporto Kennedy, um detetive do

Departam ento de Hom icídios j á estava esperando para levá-lo num carro do

esquadrão ao Colum bia-Presby terian Hospital. Eleanor ainda viveu por m ais três

dias e, então, não resistiu aos ferim entos. A polícia conseguiu agarrar o

crim inoso, um j ovem viciado que estava cum prindo um a pena de quinze anos no

interior do Estado de Nova York.

Logo que Jennifer soube do caso, com eçou a convidar David para j antar. E,

com o passar dos m eses, o choque e a tristeza foram se acalm ando, fazendo com

que David voltasse a ser com o antes. Mas, de qualquer form a, ele não se casou

novam ente. Na m ente de Keith, David chegava a ser um a am eaça a sua própria

felicidade. Naturalm ente, ele se portava m uito polidam ente, sem pre que David

vinha visitá-los. Mas Jennifer conhecia seu m arido m uito bem para sentir o

ciúm e ardendo dentro dele.

Keith não queria dizer nada, m as aquela noite Jennifer tinha ido longe dem ais.

Com som ente eles três para j antar, Jennifer preparara sopa de cebola, seguida de

filé mignon, salada de chicória e duas garrafas de vinho francês. Keith não se

im portava com j antares suntuosos, um a vez ou outra, m as esse era quase

com prom etedor. E, com o sobrem esa, Jennifer serviu pequenas tortas de

m orango — ou tartes aux fraises, com o David as cham ava.

Depois do j antar, os três tom aram um cafezinho na sala de estar. Keith

gostaria de poder participar da conversa. Mas Jennifer e David continuavam

falando de antiguidades e leilões e, assim , era difícil para Keith acom panhá-los.

Finalm ente, houve um a pausa na conversa, e ele aproveitou para dizer que

tam bém estava presente. — Com o vão os Fowlers? — perguntou. Jerry e Ruth

form avam um j ovem casal, m uito alegre e sincero, que Keith e Jennifer haviam

conhecido quando se casaram . Mas, então, Jerry Fowler arrum ou um em prego

na Wall Street e se m udou, com Ruth, para Manhattan, onde, ocasionalm ente,

David os encontrava.

— Você está falando de Jerry e Ruth? — indagou David. — Eu não os tenho

visto ultim am ente, m as ouvi dizer que ela pediu divórcio.

— Os Fowlers? — perguntou Jennifer. — Não é possível!

Keith estava igualm ente surpreso. — Não é possível! Eu nunca vi ninguém

tão dedicado à esposa com o Jerry Fowler. Por que estariam se separando?

David baixou a cabeça. — Parece que ela encontrou outra pessoa. E, assim ,

pediu divórcio para poder se casar novam ente.

— E ele está fazendo o que ela quer? — Keith esbravej ou. — Vou lhe dizer

um a coisa, se isso acontecesse com igo, não ficaria assim , não! Por que Jerry não

dá uns tiros nesse cara, ou então faz algum a coisa?

Quem pode dizer? — disse David, encolhendo os om bros. — A única razão

pela qual soube disso é que um a das casas de leilão está catalogando a coleção de

m oedas de Jerry . Ele a está vendendo para saldar parte de suas dívidas.

Então, houve um a pausa. Keith olhou para Jennifer, que tom ava seu café. Se

alguém tentasse tirá-la dele, sinceram ente não im aginava o estrago que poderia

fazer! Voltou-se para David: — Falando em m oedas, você tam bém conhece

m oedas estrangeiras?

David balançou a cabeça, negativam ente. — Eu costum ava colecionar

m oedas francesas, m as elas foram todas roubadas naquele assalto lá em casa.

Por quê?

— Ontem , encontrei um a m oeda que não parece ser am ericana. Fiquei

pensando se valeria algum a coisa.

— Depende m uito de seu estado — retrucou David. — A m aioria das m oedas

de valor está fora de circulação.

— Esta parece bem usada — adm itiu Keith. — Você se im portaria de dar

um a olhada? Ela está lá em cim a.

— De m odo algum — retrucou o negociante de antiguidades.

Keith pulou da cadeira, quase derram ando o café na m esa. Jennifer olhou-o,

assustada. Ele estava bem m ais anim ado agora.

Jennifer podia ouvir Keith subindo apressadam ente as escadas, em dois saltos,

e abrir a porta do arm ário em seu dorm itório. — Sinceram ente — disse a David

—, não sei o que deu nele.

David sorriu para ela, satisfeito em poder estar de volta à sua sala de estar.

Ele j am ais poderia retribuir-lhe a gentileza de tê-lo convidado tantas vezes,

durante aquelas terríveis sem anas, após a m orte de Eleanor. Mas agora —

especialm ente nesta noite — Jennifer parecia tratá-lo de m aneira bem m ais

afetuosa, sugerindo m ais que um a m era am izade. O que Jennifer realm ente

sentia por ele? Seu casam ento, é claro, perm anecia m ais sólido do que nunca.

Mas se aquele relacionam ento — ou até m esm o Keith — não estivessem no

cam inho. . .

David tom ou seu café e procurou afastar tais pensam entos da cabeça. Afinal,

não era elegante se entreter em fantasias rom ânticas com relação à esposa de

seu anfitrião. E Keith Olson era claram ente o tipo de hom em cium ento —

m esm o quando não havia nada de que pudesse suspeitar.

Num segundo Keith estava de volta, trazendo um a grande e escura m oeda. —

Estava no bolso de m inha j aqueta — disse ele.

Intim am ente, David se lam entava. Não se m anuseia um a m oeda, a não ser

pelas bordas, pois o ácido do suor dos dedos de um a pessoa pode m anchar a

superfície da m oeda, dim inuindo drasticam ente seu valor. Mas a m oeda que

Keith segurava não poderia estar em pior estado.

— Aqui está — disse Keith, passando a m oeda para David.

— Onde você achou isso? — perguntou Jennifer.

— Naquela casa, do outro lado da vala.

— Você encontrou isso ontem? — insistiu ela. — Você não m e disse que a

tinha encontrado.

Keith balançou a cabeça, adm itindo. — A porta se abriu, bem na m inha

frente, com o se alguém estivesse esperando que eu entrasse. Então, calculei que

deveria haver alguém em casa. E aí encontrei essa m oeda caída na banheira. . .

David pegou a m oeda com o polegar e o indicador e segurou-a sob a luz do

abaj ur, ao lado de sua cadeira. Por baixo de todo o desgaste e corrosão, ela

parecia ser de bronze. Então, seus olhos se arregalaram .

— Meu Deus! — m urm urou.

— O que houve? — perguntou Jennifer.

— Nada. Estou sim plesm ente assom brado. Acho que esta m oeda é rom ana.

— Você quer dizer italiana? — perguntou Keith.

— Não, da antiga Rom a. — O negociante de antiguidades virou a m oeda para

um outro ângulo, contra a luz. — Você está vendo estas letras aqui, sobre a

cabeça? C-A-E-S-A-R. O hom em aqui desenhado deve ser um dos im peradores

rom anos.

— Pode m e dizer qual deles? — perguntou Keith.

David disse que não, balançando a cabeça. — Esta m oeda está tão gasta e

danificada que é im possível distinguir as outras letras. E, para dizer a verdade, eu

não sou perito em m oedas antigas. — Mais um a vez, tentou decifrar as

fantasm agóricas letras que circundavam o perfil no anverso da m oeda. Então,

fez um a pausa. O que seria aquela estranha sensação de form igam ento em seus

dedos?

— Keith — sorriu Jennifer —, não se acham m oedas antigas caídas por aí,

em banheiras!

— Aparentem ente, Keith achou — disse David, diplom aticam ente.

— Acho que caiu de algum lugar — disse Keith. — Quer dizer, eu estava

para descer ao andar térreo quando ouvi isso caindo na banheira, atrás de m im .

— Talvez o últim o inquilino costum asse guardar algum a coleção de m oedas

no sótão e esta tenha caído pelo forro do banheiro — disse David.

— Cheguei a pensar nisso — adm itiu Keith. — Mas não havia nenhum buraco

ou rachadura no forro por onde a m oeda pudesse ter passado.

— Você entrou na casa? — perguntou Jennifer. — Mesm o assim , não havia

ninguém ?

— Mas eu pensei que houvesse alguém — protestou Keith. Agora, ele estava

até contente de não ter m encionado as j anelas da sacada, que refletiam aquele

brilho verm elho-sangue, ou, ainda, a vidraça que parecia ter sido desenhada com

seu próprio rosto. Tudo aquilo parecia absurdo e irracional.

David girava a velha m oeda entre o polegar e o indicador. As estranhas

vibrações pareciam m ais fortes agora, bem m ais fortes. — Você sentiu algo

diferente ao segurar a m oeda? — perguntou a Keith.

— Sim , a prim eira vez em que peguei a m oeda, ela estava quente — disse

Keith.

David sentia aquela pulsante sensação se espalhando por seus dedos. Não era

calor. Pior, era um incôm odo calafrio que chegava a doer.

— David? — perguntou Jennifer. — Por acaso, viu alguém perto daquela

casa nova, quando chegou aqui,hoj e à noite?

— Eu não vim por aquele cam inho — retrucou David. — Mas, quando eu

voltar para casa, posso ir pelo lado oeste e pegar a Taconic em vez da Saw Mill

River Parkway .

Keith levantou-se e foi até a cozinha. O sol j á tinha ido em bora há m uito

tem po, m as a casa do outro lado da vala estava totalm ente apagada. Não havia

nenhum sinal de luz no n.° 666 da Sunset Brook Lane. De volta à sala, percebeu a

estranha expressão no rosto de David. O negociante de antiguidades estava

com pletam ente pálido!

— David, você está se sentindo bem ? — perguntou Jennifer.

David não tinha certeza. Um suor frio corria pela sua testa. As vibrações da

m oeda estavam tom ando form a agora e, em sua m ente, im agens se m oviam .

— Tudo bem , tudo bem , estou perfeitam ente bem — disse, tentando voltar à

realidade; ignorando a visão que lutava, ou m elhor, digladiava, para se fazer

notada. Ao pressentir o ar de preocupação de Jennifer, abriu a boca para

assegurar-lhe que. . .

Então, de repente, David teve a im pressão de não estar m ais na sala de estar

de seus am igos em New Castle. Ouvia gritos roucos, ásperos, num idiom a

estrangeiro. E aí, com o se um film e estivesse sendo proj etado diante de seus

olhos, viu a m oeda. Ela era brilhante e parecia ser de cobre, novinha em folha.

Um a torquês de ferro segurava a m oeda sobre um caldeirão com carvão em

brasa, até ela se tornar incandescente tam bém .

Então, rapidam ente, antes que ela esfriasse, era retirada do fogo, e enfiada na

boca de um a coisa sem olhos, que antes deveria ter sido um ser hum ano. Agora,

os braços e pernas daquela coisa estavam am arrados num a estaca fincada no

chão; e ela estava prestes a m orrer. Mas ainda tinha fôlego suficiente para dar

um grito final.

Clara e inequivocam ente, David viu com o a m oeda tinha se tornado tão

m anchada e corroída. Não apenas por ter estado, há anos, enterrada na terra,

m as, tam bém , por ter sido tem perada no sangue de um hom em agonizante.

Com o num film e, ele podia ver o rastro da m oeda, m arcado a fogo, na língua da

vítim a... Mas aquilo não era nenhum film e!

Tentando afastar a visão, David livrou-se da m oeda, atirando-a ao chão. Ela

rolou pelo tapete da sala, indo parar nos pés de Keith. Mas os dedos de David

continuavam a latej ar dolorosam ente. E ele ainda podia ver — tão claro quanto

podia ver Keith e Jennifer — um a vítim a torturada, num anfiteatro feito de

pedra. A terrível visão tom ava conta de toda a sala de estar dos Olsons, e não ia

em bora!

Segurando o vôm ito, David apertou sua boca com um a das m ãos. Levantou-

se e, cam baleante, correu para fora da sala. Sabia que havia um banheiro ali, no

andar térreo, ao lado do pequeno gabinete de Keith, m as percebeu que não

chegaria a tem po. Então, em vez disso, apressou-se para a porta da frente.

Alcançou os degraus da entrada assim que a prim eira golfada de vôm ito saía de

sua boca. O j antar, que Jennifer tinha preparado com tanto carinho, agora se

espalhava por entre as azaléias.

Dez m inutos m ais tarde, o negociante de antiguidades se encontrava deitado

no sofá da sala dos Olsons. Keith tinha tirado seus sapatos e afrouxado sua

gravata, e Jennifer tinha colocado um pano m olhado em sua testa. A visão

doentia tinha desaparecido. Sentia-se um pouco m elhor agora.

— Mesm o que Keith e eu não tenham os sentido nada, só pode ter sido algum a

coisa que coloquei na com ida — disse Jennifer, um pouco desapontada. — Quero

cham ar o m édico e m e certificar.

David estava arrasado. Prim eiro, ele estava bastante constrangido por ter

arruinado a noite de Jennifer. Agora, provavelm ente, ela e Keith teriam que se

subm eter àquelas desagradáveis lavagens estom acais! Mas com o poderia

explicar aquelas vivas e aterrorizantes im agens que tinham aparecido diante de

seus olhos? Com o um a velha m oeda rom ana podia causar-lhe tal tipo de reação?

— Acho que peguei um a gripe ontem — m entiu David. — Não disse nada

porque estava m uito ansioso por esta noite e não queria preocupá-los. Seu j antar

não tem nada a ver com isso, acredite-m e! Keith e Jennifer se olharam .

— Tem certeza de que você não quer passar a noite aqui? — perguntou

Jennifer. — A cam a no quarto de hóspedes j á está arrum ada. Não seria

incôm odo nenhum .

— O problem a é que a galeria abre às dez da m anhã e ainda tenho que pegar

algum as faturas em m eu apartam ento — desculpou-se David. Não podia

suportar a idéia de dorm ir sob o m esm o teto que Jennifer e saber que ela estava

bem ali, do outro lado do corredor, aconchegada ao m arido. . .

Na porta, Keith aj udou David a vestir seu pesado sobretudo e, então, voltou

para dentro.

— David, se você for na direção norte da Sunset Brook Lane — lem brou

Jennifer —, vai passar bem em frente à nova casa. A entrada para a Taconic

Parkway fica cerca de um quilôm etro e m eio além . Tem indicações, e não dá

para errar m esm o.

— Agora eu m e lem bro — disse David. Ele j á tinha feito aquele cam inho

algum as vezes antes. Mesm o assim , levaria m ais de um a hora para chegar à

Riverside Drive. Com o canto dos olhos, David percebeu Keith voltando da sala

de estar.

— Há algum m odo de descobrir que im perador é esse? — perguntou Keith.

David virou-se para apertar a m ão de seu anfitrião, m as recuou. Keith estava

segurando a velha m oeda de bronze na palm a da m ão direita! Obviam ente, ela

não o afetava tanto quanto a David.

— Deve haver dicionários a respeito — gaguej ou David, afastando-se. —

Mas não sei qual sugerir. Por que você não a leva a um desses negociantes de

m oedas antigas para que ele possa identificá-la?

— Não há m uitas loj as desse tipo por aqui — retrucou Keith. — Por outro

lado, há um bocado delas na cidade.

— Sim — concordou David, vacilante. — É claro... Keith j ogou a m oeda

para o negociante de antiguidades. — Talvez você encontre alguém que possa

exam iná-la, não? Se não for nenhum incôm odo, é claro.

David tinha que se controlar. Não podia deixar que Jennifer percebesse sua

hesitação e preocupação. — Que nada, pode deixar — disse, sorrindo

tim idam ente. — Logo que eu descobrir que César é esse, eu lhe devolverei a

m oeda pelo correio.

— Oh, não há pressa, não. Por que você não fica com ela até a próxim a vez

em que a gente se encontrar? — Keith sugeriu.

Rapidam ente, David deixou a m oeda escorregar para o bolso de seu

sobretudo. Agora, ela tinha tocado em seus dedos por m enos de um segundo.

Mesm o assim , sua m ão ficou latej ando, com o se estivesse bem próxim a do fogo.

E, de algum lugar distante, David podia ouvir os sussurros rascantes de um

m oribundo. Aprum ou-se e engoliu um gosto am argo que lhe subiu da garganta.

— Então, boa noite, David — disse Jennifer sorrindo.

Ele apertou sua m ão firm em ente. Depois de sua atuação, quinze m inutos

atrás, ele não ousou beij á-la. — Boa noite e obrigado, m ais um a vez. Lam ento ter

estragado tudo.

— Tolice disse Keith. — Não pense m ais nisso.

— Bem , foi m uito bom para m im . Da próxim a vez vocês dois virão a Nova

York, e o j antar será por m inha conta. — David sorriu m ais um a vez para

Jennifer.

David viu Keith e Jennifer observando sua partida, da porta da frente. Ligou o

Mercedes-Benz e m anobrou em direção à rua. Então, dobrou à esquerda, com o

Jennifer havia sugerido, e dirigiu-se ao norte, até cruzar a ponte de concreto, no

topo da Sunset Brook Lane.

Logo que a casa de Keith e Jennifer ficou fora de vista, atrás das árvores, ele

parou no acostam ento e apagou os faróis. Não queria que os Olsons percebessem

que ele tinha parado. Então, pulou do carro, tirou o sobretudo — com a m oeda

ainda no bolso — e atirou-o no banco traseiro.

Agora, pelo m enos, aquela m aldita m oeda estava lá atrás, onde ele não

poderia esbarrar nela nem m esm o acidentalm ente! Antes de voltar ao volante,

sentiu a fria brisa prim averil. Deste lado da ponte, o ar era diferente — úm ido e

pesado. Por que se sentia com o se não pudesse respirar profundam ente? Seria

por causa da um idade que vinha do córrego? Mas não havia vento agora.