666 – O limiar do inferno por Jay Anso - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

David retornou ao volante. Apenas com sua j aqueta esporte, sentia um pouco

de frio, m as o aquecedor do carro j á estava ligado. Olhou de um lado e do outro

da estrada, m as não se via nenhum a luz de carro. A Sunset Brook Lane estava

totalm ente deserta. Satisfeito, David colocou novam ente seu Mercedes-Benz

verde na estrada e ligou os faróis.

Que diabos tinha acontecido com ele ao tocar naquela velha m oeda? David

havia lidado com obj etos antigos durante toda a sua vida. Mas nunca, antes, tinha

sentido aquela sobrenatural, quase dolorida vibração, m uito m enos tinha visto e

ouvido coisas que não existiam ! Se ele fosse m édium ou qualquer coisa, então,

por que seus poderes estariam adorm ecidos por todos esses anos? Ou será que

havia algum a coisa m uito especial naquela m oeda para despertar nele tal reação

violenta?

Olhou em frente, onde a Sunset Brook Lane fazia um a curva para a esquerda.

Então, por entre as árvores, ele a viu — a nova casa sobre a qual Keith e Jennifer

haviam falado. E lá, através de um a das j anelas, percebia-se um a luz verm elha

trem ulante.

David tirou o pé do acelerador, dim inuindo a m archa, para olhar m elhor.

Bem adiante agora, à sua esquerda, estava a pequena varanda dos fundos. As

tábuas recortadas refletiam o brilho de seus faróis. E, então, David viu a grande

j anela da sacada proj etando-se para a rua. Lá estava aquele brilho verm elho

novam ente, bem atrás de um a das vidraças.

Será que a casa estava pegando fogo? David dim inuiu ainda m ais a

velocidade e passou pela j anela da sacada com a prim eira m archa engrenada.

Deu um a olhada por todos os lados, na esperança de ver o que poderia estar

queim ando dentro daquela estrutura vazia.

Só se a casa não estivesse vazia! Bem atrás do vidro cor de chum bo da j anela

da sacada, estava um a figura em pé, banhada num a luz verm elha, observando o

Mercedes passar.

David freou o carro e olhou por sobre os om bros. Mas agora o quarto atrás da

j anela da sacada estava vazio. As j anelas estavam todas apagadas, tanto em

cim a com o em baixo.

Pensou ter reconhecido a figura parada atrás daquelas placas de vidro

sextavado. Mas depois ele percebeu que deveria ter im aginado tudo aquilo. Não

era possível que fosse Jennifer Olson! Ele a havia deixado, com Keith, em sua

própria porta, há apenas alguns m inutos. Ela não poderia ter atravessado a vala

àquela hora da noite. Ele estava apenas pensando um pouco dem ais nela.

David engatou a prim eira no Mercedes-Benz e pisou no acelerador. Faltava

ainda um quilôm etro e m eio para chegar à Taconic Parkway e m ais de um a

hora para chegar a seu apartam ento na Riverside Drive.

3

Quinta-feira, 12 de abril de 1979.

Você bem que poderia consertar aquela goteira no sótão, antes que chova

novam ente — disse Jennifer, durante o café, aquela m anhã.

Keith interrom peu seu café. — Goteira? — perguntou.

— Você se lem bra daquela trem enda chuva que deu, antes de a gente sair de

férias? Fui até o sótão pegar m inha valise e vi um filetezinho de água escorrendo

pela cham iné.

Nesta quinta-feira, Keith e seus aj udantes estavam trabalhando em Peekskill.

Então, em vez de com er qualquer coisa no trabalho, com o sem pre fazia, Keith

resolveu alm oçar em casa e tentar descobrir onde estaria aquela bendita goteira.

No cam inho de casa, passou pela casa n.° 666. Ela parecia do j eito que estava

na terça-feira à tarde. A única diferença era que, agora, havia um a placa

esm altada fincada no solo bem em frente à j anela da sacada:

ALUG A-SE

THOMAS G REENE,

CORRETOR

555-0098.

Keith conhecia Tom Greene. Sem pre que um a casa era colocada para

alugar, antes, naturalm ente, ela tinha que ser reform ada. E Keith era sem pre

recom endado por Tom para esse tipo de trabalho. Mas essa nova casa realm ente

precisava de reparos — principalm ente no interior, onde tinha aquelas indecentes

forrações —, e Keith ficou im aginando por que razão Tom não havia telefonado

para ele. Bem , tinha saído de férias. Keith decidiu então que, ao voltar para o

escritório, telefonaria para Tom para descobrir quem era o dono daquela casa.

Dez m inutos m ais tarde, Keith estava no telhado de sua própria casa,

arrastando-se para a cham iné. A prim avera tinha chegado de vez, m as o sol

insistia em ficar escondido atrás de algum as nuvens, deixando a tem peratura

bem fria. Keith gostaria de poder usar luvas. Mas, para escalar telhados cobertos

com asfalto, as luvas seriam escorregadias dem ais. Tinha que ser com as m ãos

lim pas m esm o.

A elevação do telhado lhe dava um a boa visão da nova casa, no outro lado da

vala. Um carro do departam ento de energia elétrica tinha estado lá, nessa

m anhã; evidentem ente, iriam ligar a luz naquele dia. E agora, enquanto Keith

observava, um furgão de algum a firm a de aj ardinam ento estava estacionado na

estrada coberta com pedregulho, ao lado da varanda principal. Dois hom ens

saltaram e com eçaram a lim par o terreno, espalhando algo parecido com

fertilizante por todos os lados. Quem estivesse alugando aquela casa realm ente

não estava perdendo tem po. Keith não dem orou a encontrar a goteira de que

Jennifer reclam ara. Durante o inverno, a água havia se congelado na base do

tubo da cham iné, afastando-o alguns centím etros da parede. Mas a tem peratura

estava m uito baixa para qualquer trabalho de calafetagem . Seria bem m elhor

esperar até a tarde, quando o sol estivesse bem sobre a goteira. . .

Então, ouviu o barulho de um m otor pesado se aproxim ando. De cim a do

telhado pôde ver quando o cam inhão da United Parcel dim inuiu a m archa e

estacionou em frente à sua entrada.

Keith esfregou suas m ãos geladas. A chegada do cam inhão seria um a

desculpa perfeita para descer do telhado. Ao chegar ao chão, desarm ou sua

escada de alum ínio.

O hom em da United Parcel, ao chegar à sua varanda, parecia

convenientem ente im pressionado. — Encom enda para a sra. Olson; assine aqui,

por favor.

A caixa de papelão tinha, m ais ou m enos, uns trinta centím etros de

com prim ento, m as era extrem am ente pesada. O rem etente era de algum a firm a

em Edm onds, Washington. Keith carregou-a para a cozinha, onde Jennifer

preparava alguns sanduíches de queij o derretido. Ela lhe passou um fum egante

prato com sopa e com eçou a abrir o pacote.

— O que você encom endou? — perguntou Keith.

— Pêssegos em calda. Seu irm ão Paul adorou aqueles deliciosos pêssegos

em bebidos em conhaque que nós lhe dem os de presente de Natal, e eu calculei

que ele gostaria de ganhar m ais alguns, no seu aniversário, em j ulho.

As m ãos de Keith ainda estavam frias, e aquele quente prato de sopa vinha em

boa hora. Deu um a olhada pela j anela da cozinha. Do outro lado da vala, um

hom em aplainava um a área que logo m ais se tornaria o gram ado frontal do n.°

666 da Sunset Brook Lane.

Quando Jennifer colocou as com potas de pêssego em calda sobre a m esa,

Keith apanhou um a daquelas folhas am assadas de j ornal que eram usadas com o

calço nas em balagens dos pêssegos. Ele não podia resistir em dar um a olhada

para saber o que se passava lá pelas bandas do Pacífico norte, a quase cinco m il

quilôm etros de distância.

A página que Keith estava olhando datava de 4 de abril. Entre os anúncios de

utilidades dom ésticas, encontrava-se um título em duas colunas:

ASSASSINO DE DUAS PESSOAS

EM VIAS DE LIBERDADE CONDICIONAL

DEPOIS DE CINCO ANOS

CUMPRINDO PENA NA ILHA MCNEIL

Junto com o artigo, havia a fotografia de um a casa que lhe parecia

estranham ente fam iliar. Keith colocou o prato de sopa sobre a m esa e segurou a

folha de j ornal com as duas m ãos, desdobrando-a da m elhor m aneira possível. A

granulada fotografia não era bem clara, m as a casa se parecia exatam ente com

aquela do n.° 666 da Sunset Brook Lane!

Estarrecido, Keith aj eitou a folha sobre a m esa. Agora, num exam e m ais

apurado, conseguira distinguir as m esm as ripas da parede externa. O

espalhafatoso vigam ento da varanda e do beirai parecia o m esm o. E, se Keith

usasse um pouco a im aginação, poderia identificar os painéis do portal de entrada

e a ventarola sobre a porta da frente. Isso seria verdade se essa casa tivesse a

j anela da sacada igual àquela do outro lado da vala! Mas a fotografia tinha sido

tirada de um ângulo onde o côm odo hexagonal, se houvesse um , ficava

escondido, do outro lado da casa.

Keith leu a legenda sob a foto: “A casa, na Brem erton Road, 666, logo após os

assassinatos”.

— Jennifer, dê um a olhada nisto! — disse ele.

Ela colocou um sanduíche de queij o derretido sobre a m esa, à sua frente. —

Dá para virar um pouco a folha?

— Dê um a olhada nesta casa. Não parece a m esm a do outro lado da vala?

Tem até o m esm o núm ero!

Jennifer observou a foto por alguns instantes e, então, deu um a olhada pela

j anela da cozinha. — Bem , segundo você, parece que sim , m as eu não estive lá,

ainda.

Keith sabia que sua esposa não tinha gostado m uito de saber que ele tinha

entrado na casa, assim , sem saber se tinha alguém lá — para ela, isso era

bisbilhotice, introm issão. Mais um a vez, ele deu um a esticada na am arrotada

folha de j ornal sobre a m esa e com eçou a ler o artigo:

“Os responsáveis, na Penitenciária Federal da Ilha McNeil, confirm aram ,

hoj e, que Jam es Beaufort, assassino condenado, terá um a audiência no

Departam ento para Assuntos de Liberdade Condicional. Beaufort j á cum priu

cinco anos de um a pena de vinte.

Em 1974, ele confessou ter assassinado brutalm ente Edgar Sutton e Patrícia

Swenson, na casa que havia alugado para a srta. Swenson. Na época, declarou ter

surpreendido os dois, sozinhos, na residência da Brem erton Road. Convencido de

que Sutton tentava persuadi-la a deixá-lo, ele m atou os dois, levado por um

incontrolável ataque de ciúm e e raiva.

Em declaração à im prensa, ontem , o advogado de Beaufort lem brou os anos

de serviço de seu cliente, com o vereador, na Câm ara Municipal de Seattle. O

causídico salientou o fato de Beaufort ter tido um com portam ento exem plar e

m ostrar sinais evidentes de total reabilitação. Mais ainda, ele se arrependia

profundam ente do crim e passional que custou a vida de dois inocentes, há quase

seis anos atrás.

A casa perm aneceu vazia por anos, a despeito das inúm eras tentativas de

outras pessoas de alugá-la. Então, no últim o m ês de setem bro, o sobrado de

m adeira (continua na página 18)”

Keith pegou novam ente a caixa de em balagem e despej ou todo o j ornal

am arrotado no chão. Então, aj oelhou-se sobre o piso de vinil e com eçou a

desam assar folha por folha.

— Keith, o que você está fazendo? — perguntou Jennifer.

— Por acaso, achei aqui um artigo bastante interessante e gostaria de

term inar de lê-lo — j ustificou-se Keith.

Finalm ente, espalhou todas as páginas no chão da cozinha. Pegou as folhas,

um a por um a, e colocou-as de novo na caixa de papelão. Variedades, esportes,

acessórios de lim peza dom éstica, m as nada da página 18!

Então, pegou a página com a fotografia e olhou-a novam ente. Claro, casas

velhas, de vez em quando, se pareciam um as com as outras. Mas nem sem pre se

acham duas casas com as m esm as ripas, vigam ento entalhado, varanda coberta

e portais com j anelas — a cinco m il quilôm etros de distância! Aquilo não lhe saía

da cabeça! Seria possível que a nova casa, do outro lado da vala, tivesse

exatam ente a m esm a estrutura desta?

Pegou a tesoura de Jennifer e, cuidadosam ente, recortou o am arrotado artigo,

j unto com a fotografia da casa de n.° 666, na Brem erton Road. Lem brou-se

então da placa de Tom Greene, anunciando, o aluguel da nova casa. Certam ente,

Tom saberia quem era o proprietário e de onde a casa tinha vindo!

— Sua sopa está esfriando — alertou Jennifer.

Para agradar-lhe, Keith deu um a m ordida no sanduíche de queij o e tom ou

um gole de caldo m orno. Então, foi até o telefone na parede da cozinha e

com eçou a discar.

Um pouquinho depois das treze horas, no m om ento em que Keith ligava para

Tom Greene, David Carm ichael saía de seu escritório particular, no fundo da

galeria da East 5Th Street, 41.

A srta. Rosewood, percebera que seu patrão, definitivam ente, não viera

trabalhar de bom hum or. Som ente um a vez, ele saíra de sua escrivaninha, para

cum prim entar um velho cliente que estava interessado num a em poeirada peça

Luís XV. Mas seu sorriso era forçado e sua m ente não estava ali. Então, viu que

ele vestira seu sobretudo escuro e suas luvas de couro. E carregava um a valise

que continha fotos de peças im portantes e catálogos de futuros leilões.

Com um ente, ele carregava sua valise presa sob o braço. Hoj e, porém , ele a

segurava com a m ão esquerda, bem longe do corpo, com o se nela houvesse um a

bom ba que estivesse prestes a explodir.

David dirigiu-se à sua secretária com o m esm o sorriso am arelo que ela j á

vira naquela m anhã. — Srta. Rosewood, não devo dem orar m ais do que um a

hora.

— Tudo bem , sr. Carm ichael. Tenha um bom alm oço!

Mas o negociante de antiguidades não ia alm oçar. Em purrando as pesadas e

lustrosas portas de m etal do Edifício Fuller, ele alcançou a rua e passou por um

carrinho cheio de roscas e castanhas assadas. Então, atravessou a Madison

Avenue rum ando para oeste. No cruzam ento da Seventh Avenue com a 56 th

Street, o Sheraton de Nova York abrigava um a convenção de num ism ática.

Segundo os j ornais da m anhã, m ais de cinquenta diferentes negociantes estavam

exibindo suas m ercadorias. Então, David calculou que, dentro daquele extenso

núm ero, deveria haver pelo m enos um que pudesse identificar a m oeda rom ana

que Keith Olson lhe entregara na noite passada.

A exposição estava instalada num enorm e salão, no andar térreo, e, antes que

pudesse entrar, David teria que aguardar na fila para registrar-se. As portas eram

guardadas por um robusto policial negro. Um a vez dentro, David tom ou a direção

de estreitos corredores forrados com vitrinas e apinhados de negociantes e

colecionadores de várias partes do m undo.

No m eio de um dos corredores, David parou em frente de um balcão de um

negociante texano. Havia ali fileiras e fileiras de m oedas do m undo antigo. Todas

colocadas em envelopes quadrados de plástico; e m uitas delas tão gastas e

corroídas com o aquela que Keith lhe dera. A m aioria das m oedas era de bronze

ou prata. Mas, aqui e ali, os olhos de David percebiam o brilho do ouro. Parecia

realm ente que ele tinha vindo ao lugar certo.

Atrás do balcão, um a bela j ovem de óculos e um lindo colar com pequenas

penas sorria para o alto e bem -vestido cliente. — Em que posso servi-lo, senhor?

Ainda com suas luvas, David abriu sua valise e retirou a velha m oeda de

bronze. Mesm o protegido pelas luvas de couro, pôde sentir aquelas desagradáveis

vibrações.

— Eu creio que esta sej a um a m oeda da Rom a antiga. Será que você poderia

m e dizer com certeza? — perguntou à garota.

Colocou a m oeda sobre a tam pa de vidro do balcão, e a j ovem pegou-a com

o polegar e indicador. Obviam ente, parecia não ter sido afetada por aquele

obj eto; segurava a m oeda com o se ela fosse sim plesm ente um a ficha de

telefone.

— Bem , o senhor faria a gentileza de aguardar um m inuto? — disse ela a

David.

— Pois não — retrucou David.

Um pouco atrás da m oça, havia um hom em sentado. Ele era roliço e barbudo

e usava óculos e um a gravata de laço. Exam inava pacientem ente as páginas de

um grosso dicionário. A garota aproxim ou-se e m ostrou-lhe a m oeda. Então, ele

retirou do bolso do seu colete um a pequena lupa de j oalheiro e ficou m aravilhado

ao exam inar aquela peça tão rara. David percebeu que o rosto do hom em não

conseguiu disfarçar um ar de surpresa. Novam ente, verificou os dois lados da

m oeda, m anuseando-a com bastante cuidado. Finalm ente, fez um sinal para a

garota, levantou-se e foi até David, com a m oeda num a m ão e a lupa na outra.

— Pois não, senhor! — Seu sotaque texano era bem m ais acentuado do que o

da garota. — Sua m oeda é um sestércio de bronze do reinado do im perador

Nero. Ela foi cunhada — deixe-m e ver — m ais ou m enos em 64 d.C.

— Caram ba! Sua precisão é espantosa — disse David.

Bem , quando se está nesse ram o há vinte anos, com o eu, não é tão difícil

assim . — O negociante sorriu, tentando disfarçar um certo ar de orgulho. Então,

retirou um a pequena alm ofada de veludo que se encontrava no m ostruário do

balcão e, cuidadosam ente, colocou sobre ela aquele sestércio, com o se ele fosse

um a j óia raríssim a. — Está vendo essa estrutura aqui, no reverso? — perguntou a

David, oferecendo-lhe a lupa. — Por favor, olhe o senhor m esm o.

David aj ustou a lupa sob a pálpebra e abaixou a cabeça, até que a m oeda

entrasse em foco. Agora, am pliada, a corrosão era bem m ais evidente, com o

tam bém o desenho original. Entre as letras s e c havia o form ato de um a

estrutura com posta de colunas verticais.

— Em 64 d.C, Nero term inou de construir um arco triunfal, para com em orar

suas vitórias na Partia — o negociante explicava. — Este arco é exatam ente o

m esm o que aparece no reverso de sua m oeda. Desse m odo, podem os identificar

a data com bastante precisão.

Ao exam inar a m oeda, David sentia aquela j á fam iliar sensação em seus

dedos cobertos com as luvas. O gasto perfil, do outro lado da m oeda, m ostrava

um hom em com um grosso e longo pescoço e um queixo agressivam ente

protuberante, porém os outros traços j á tinham se apagado com o tem po. David

tinha que adm itir que m uitas das m oedas ali estavam em bem m elhor estado do

que aquela.

— Ela está em péssim o estado m esm o. Acho que esteve enterrada por algum

tem po — disse David.

— Bem , ela está um pouco m ais corroída que o norm al, para um a peça dessa

época — adm itiu o negociante. — Parece-m e que foi colocada no fogo. O cobre

sem pre fica desse j eito, depois de aquecido.

David lem brou-se das visões em que a m oeda era aquecida num caldeirão

com carvão em brasa.

— Mas não tem sentido — m urm urou David. — Por que alguém iria queim ar

um a m oeda?

— Oh, casas tam bém pegam fogo — disse o texano. — Muitas vezes, com

coleções de m oedas dentro delas. O senhor se lem bra da história de com o Nero

se divertia enquanto Rom a ardia em cham as? Talvez seu sestércio estivesse lá,

enterrado nas cinzas.

David estava aliviado em saber que havia um a explicação lógica para o

aquecim ento da m oeda. Então, o que ele vira nas aparições provavelm ente não

era real, apenas um a terrível fantasia.

— Mas, m esm o assim , m uitos colecionadores gostam de form ar o conj unto

de m oedas de cada um dos doze Césares — continuou o barbudo negociante. —

Quanto o senhor quer por ela?

David tinha experiência suficiente, neste ram o, para reconhecer a j ogada do

negociante texano. Nunca faça um a oferta ao cliente! Peça-lhe para que dê seu

preço. Geralm ente, um inexperiente colecionador pediria um preço bem m enor

do que o real valor da peça.

— Esta m oeda não é m inha — explicou David. — Eu teria que consultar o

dono e ver se ele está interessado na venda.

O texano suspirou intim am ente, lam entando. Os clientes sempre fingem que

suas m oedas pertencem a outra pessoa. Isso lhes dá tem po de pensar na oferta e

procurar um preço m elhor.

— Bem ... — o texano hesitou. — Com o o senhor m esm o disse, esta peça não

está em boas condições. Deixe-m e ver. — Ele tam borilava seus grossos dedos

sobre o balcão.

— O senhor iria revendê-la no varej o? — perguntou David.

O barbudo negociante de m oedas olhou para ele, um pouco surpreso. Afinal,

aquele sim pático nova-iorquino não era nenhum am ador. — Eu poderia vender

um a m oeda com o esta por m il dólares. Diga a seu am igo que eu pagarei

seiscentos e setenta e cinco.

David não teve tem po de disfarçar seu espanto. Quantas m oedas rom anas,

valendo m il dólares, estariam caídas por aí, em banheiras? Ele recolheu o valioso

sestércio e guardou-o na valise.

O texano observava David astutam ente. Talvez esse elegante cliente não

estivesse realm ente interessado em vender, m as, quem sabe, ele gostaria de

com prar? Todo colecionador desej a aum entar sua coleção, e por que esse

distinto cavalheiro seria diferente?

— Senhor? — O negociante de m oedas ergueu sua m ão. —

coincidentem ente, tem os aqui um outro espécim e deste m esm o sestércio. Talvez

da m esm a época.

— É m esm o? — perguntou David.

O negociante apontava através do grosso vidro de seu m ostruário. Ali,

protegida por um transparente envelope de plástico, estava um a peça sim ilar,

m as em bem m elhor estado do que aquela que Keith tinha achado. David não

conseguia controlar sua curiosidade. O que aconteceria se ele segurasse aquele

sestércio? Será que ele o afetaria da m esm a form a que o prim eiro?

— O senhor gostaria de vê-lo? — perguntou o texano.

— Sim , por favor — respondeu David, ansioso.

O negociante de m oedas abriu o m ostruário e retirou o envelope, colocando-o

sobre o balcão. O pescoço do im perador era grosso com o o de um touro a ponto

de explodir de raiva. Diferente do achado de Keith, esse sestércio tinha a

superfície lisa, esverdeada, e em condições tão boas que perm itiam a David

identificar as letras m aiúsculas que contornavam o perfil:

NEROCLAVDIVSCAESARAVG G ERPM

— Com o o senhor sabe, os rom anos costum avam escrever todas as letras

j untas e tam bém usavam abreviações — disse o negociante de m oedas. — Estas

letras significam : “Nero Claudius, Caesar Augustus, Germ anicus, Pontifex

Maxim us”. — O texano acrescentou: — Dizem que, quando Nero estava

torturando sua vítim a, colocava um a m oeda com o esta, cunhada com sua própria

figura, dentro da boca do hom em agonizante. Um a espécie de advertência para o

m undo vindouro, e, assim , a vítim a j am ais ousaria ofender o im perador

novam ente.

David em palideceu. Outra vez ele se lem brou da im agem que insistia em

perm anecer diante de seus olhos, lá na sala de Jennifer.

— Vam os, dê um a olhada no reverso — o texano cutucou-o.

David hesitava, receando tocar no envelope de plástico m esm o com as m ãos

cobertas com as luvas. E se essa m oeda, bem m elhor conservada que a de Keith,

provocasse um a reação ainda m ais forte?

Vagarosam ente, com bastante cuidado, segurou o invólucro de plástico com a

m ão esquerda. No reverso da m oeda, o arco triunfal de Nero destacava-se

claram ente, m ais ainda que os quatro cavalos sobre ele. Em am bos os lados do

arco estavam as letras s e c.

— O que significam essas letras? — perguntou David.

Senatus Consulto. Significando que Nero reinava com o consentim ento do

Senado rom ano.

David fez um a pausa, esperando que as vibrações com eçassem . Porém , nada

aconteceu. Curioso! Tirou as luvas e colocou o envelope de plástico na palm a da

m ão. Ainda assim , não sentiu nada, nada m esm o!

Aquele esplêndido sestércio aguçava sua curiosidade. Por que não sentia

nada? Talvez o plástico prej udicasse a transm issão das sensações. Naturalm ente,

o negociante de m oedas não iria perm itir que David tocasse naquela preciosidade

com suas m ãos nuas. Mas, se ele comprasse a m oeda, poderia fazer o que bem

entendesse com ela!

O envelope de plástico estava lacrado com um a pequena etiqueta, com o

preço da m oeda, im presso com letras, e não núm eros. Muitos negociantes de

antiguidades usavam códigos com o aquele. Ao escolher um a palavra de dez

letras ou um a frase com o CHARLESTON OU ANTIQUERS-O, eles

estabeleciam um valor para a prim eira letra com o sendo 1, para a segunda, 2, e

assim por diante, até zero. Dessa form a, um a etiqueta de m il duzentos e

cinquenta dólares continha o código CHLN OU ANQO. O freguês era forçado a

perguntar o preço, o que perm itia ao negociante aj ustá-lo, conform e as

circunstâncias.

Esse sestércio tinha com o preço OEXX — um código desconhecido para

David. Mas se a m oeda toda corroída de Keith valia m il dólares, e esta estava em

bem m elhor estado. . .

— Ela é m aravilhosa — disse David. — Quanto custa?

— Um preço razoável. — O texano sorriu, brincando com ele. — Três m il e

setecentos dólares.

David tentou esconder seu espanto. Três m il e setecentos dólares! Mas, afinal,

era um a peça rara. Que diabos, ele poderia deduzir de suas despesas com erciais,

e, ainda, vendê-la m ais tarde, em algum leilão, depois de satisfeita sua

curiosidade. . .

O barbudo negociante texano m al podia esconder sua satisfação ao ver David

tirar seu talão de cheques e decidir-se pela com pra.

— Eu tam bém sou negociante — disse David, colocando seu cartão sobre o

m ostruário de vidro. — Talvez o senhor possa m e fazer um desconto.

O texano deu um a boa olhada no im pecável terno sob m edida de David e

explicou que não podia. Dez m inutos m ais tarde, David voltava para seu

escritório, levando as duas m oedas de bronze em sua valise.

Logo que chegasse a casa, a experiência com eçaria.

4

Quinta-feira, 12 de abril de 1979,

Escritório do sr. Greene... — a secretária respondeu, quando Keith discou o

núm ero do corretor.

— Aqui é Keith Olson. Já fiz alguns serviços para Tom , antes. Posso falar

com ele, por favor?

— Desculpe, m as o sr. Greene j á saiu para alm oçar. O senhor não quer

deixar recado?

— Bem , estarei trabalhando em Peekskill esta tarde — disse Keith. — Peça

para ele ligar para m inha casa, hoj e à noite. . .

— Posso dizer-lhe do que se trata?

— Claro! — Keith olhava a casa, do outro lado da vala, através da j anela da

cozinha. — Diga-lhe que estou muito interessado naquela casa que ele está

alugando, lá na Sunset Brook Lane, 666.

Keith engoliu o resto do sanduíche e do caldo, beij ou Jennifer e dirigiu-se

para seu cam inhão. No cam inho para o trabalho, deu um a parada para olhar a

nova casa outra vez.

O pessoal da firm a de j ardinagem j á tinha term inado o serviço e o furgão

não estava m ais lá. Haviam preparado todo o terreno ao redor da casa. Tinham

construído um a calçada entre a varanda e a entrada de carro e plantado um

pinheiro perto da rua.

Keith estacionou seu cam inhão na entrada da casa e desceu. Queria olhar

aquelas j anelas desenhadas m ais de perto, principalm ente aquela vidraça onde

pensou ter visto seu próprio rosto, na terça-feira à tarde. Mas o pessoal da firm a

de j ardinagem tinha fincado pequenas estacas na beira do gram ado, ligando-as

com um a fita branca. Cerca de quatro m etros e m eio de solo preparado

separavam a sacada da j anela da Sunset Brook Lane; e Keith não queria pisar no

novo gram ado com suas pesadas botas.

A essa distância, pensou, as figuras gravadas no vidro não eram nem um

pouco distintas. Keith m al podia distinguir o contorno da Donzela Desej osa,

m esm o sabendo para onde olhar. Obviam ente, os desenhos eram com o aqueles

de um a j anela de vidro fosco, feitos para serem vistos do lado de dentro.

Durante a preparação do solo, os hom ens da firm a de j ardinagem deixaram

a placa de m etal de Tom Greene bem ao lado da j anela da sacada. Aquilo fez

com que Keith se lem brasse de que Tom geralm ente alm oçava na Millwood Inn,

ao norte de Chappaqua. Quase sem pre, Tom perm anecia na m esa, por um a hora

ou m ais, conversando com eventuais clientes ou velhos am igos. Se Keith desse

um a passada por lá, antes de retornar ao trabalho, provavelm ente encontraria

Tom , antes que ele voltasse para o escritório.

Num a das áreas reservadas da Millwood Inn, Tom Greene estava sentado

num a m esa perto do balcão. Ao term inar seu sanduíche, recostou-se, satisfeito,

no encosto de couro verm elho. Norm alm ente, o asseado e calvo corretor tom ava

apenas um drinque no alm oço. Mas, naquele dia, ele decidiu que tinha que

com em orar. Afinal de contas, não era todo dia que seus bolsos estavam estufados

de dinheiro assim .

Um pouco antes de ir para a Millwood Inn, Tom tinha passado no banco para

depositar m il dólares em dinheiro — exatam ente a quantia que Coste Nad havia

lhe prom etido para providenciar a papelada referente à m udança do sobrado

para a Sunset Brook Lane, em New Castle. Agora, Coste queria que ele colocasse

a casa para alugar — Tom tinha recebido seu telefonem a aquela m anhã —, e

escolhera sua im obiliária para se encarregar do assunto. Sim , senhor, abril tinha

tudo para ser um m ês bem lucrativo.

A garçonete tinha acabado de trazer um segundo drinque para Tom quando

ele viu seu am igo Keith Olson adentrar o recinto. O rosto do corretor ilum inou-se,

e ele fez sinal com a m ão para cim a, para cham ar a atenção de Keith.

— Caram ba, com o você está queim ado! -— o corretor exclam ou enquanto

Keith se aj eitava no assento à sua frente. — Onde você esteve?

— Nas Baham as — disse Keith, sorrindo. -— Voltei na terça-feira passada.

Tom apontou para o borbulhante drinque à sua frente.

— Você m e acom panha?

— Não, não, obrigado. Ainda tenho que voltar a trabalhar.

— Então, tom e um café — disse o corretor, erguendo a m ão m ais um a vez,

agora para cham ar a garçonete.

Escute, Tom . . . — O sorriso desapareceu do rosto de Keith. Ele gostava

daquele senhor alegre e j ovial, m as naquele dia não estava para m uito bate-papo.

— Qual é a história daquela casa que você está anunciando para alugar, lá do

lado da m inha?

— História? — Tom sorriu, geniosam ente. — A parte m ais difícil foi evitar

qualquer história sobre ela. O proprietário insistiu na m enor publicidade possível.

— Não com preendo — disse Keith. A garçonete aproxim ou-se, e Tom pediu

um a xícara de café para Keith. — Que tipo de publicidade?

— Deus m eu! — disse o corretor, inconform ado. — Geralm ente, quando se

transporta um a casa, um a casa inteirinha, é m otivo para m anchetes. E aí está

esse trem endo sobrado que foi rebocado pelo Hudson, num a barcaça! Ele teve

que ficar ancorado em Ossining, sendo depois guinchado sobre a plataform a de

um a enorm e carreta e levado por aquelas ruas estreitas e tortuosas até sua rua. . .

— Tom fez um a pausa. — Quando foi que você disse que voltou de férias?

— Terça-feira — repetiu Keith.

— É um a pena, porque você perdeu o espetáculo. Aconteceu há um a

sem ana, na quarta-feira.

A garçonete retornou com duas fum egantes xícaras de café. Tom Greene

passou a j arrinha de crem e para Keith.

— Não, obrigado. Prefiro puro — disse Keith.

— Bem , a m udança m esm o foi feita depois do escurecer, para evitar todos

aqueles curiosos — continuou Tom . -— Havia apenas um repórter do j ornal

local. Ele tentou tirar algum as fotos, porém acho que elas queim aram .

Keith sorveu o forte e quente café. — Mas por que colocar um a casa daquele

tam anho num lugar tão estreito?

Tom deu um gole em seu novo drinque e encolheu os om bros. — Era onde o

sr. Coste queria, exatam ente aquele pedacinho de terra do outro lado de sua casa.

— Com o é que ele se cham a? Coste? — perguntou Keith, ansioso.

Tom confirm ou, balançando a cabeça.

Keith franziu a testa. — Mas todo aquele lado da vala pertence ao velho

Cly de Ram sey. Pensei que ele estivesse planej ando deixar aquele terreno para a

cidade, quando m orrer, para que possam construir um a reserva de pássaros.

Estou surpreso de que ele o tenha vendido. Tom deu um a olhada em volta, para

ver se não havia ninguém escutando. Então, debruçou-se sobre a m esa, na

direção de Keith. — O único m otivo que fez Ram sey vender foi porque ele

pensou que estivesse com câncer. Em m arço passado, Cly de foi fazer um check-

up, e as chapas de pulm ão apresentaram alguns sinais de tum or. E você deve

im aginar quanto fica caro todo aquele tratam ento de cobalto e quim ioterapia.

Ram sey precisava de dinheiro, e depressa. Você sabe, aquela parte de New

Castle é dem arcada com um a residência por acre. Então, quando Coste m e pediu

para oferecer um a certa quantia a Cly de, um a quantia bem generosa, por sinal,

por aquele sim ples terreninho, Cly de aceitou na hora.

— Incrível! — disse Keith, sacudindo a cabeça.

— Mas a parte m ais interessante é que as chapas não m ostraram m ais

nenhum sinal de câncer! — disse Tom Greene, sorrindo. — Algum a coisa deve

ter em baçado o film e durante os prim eiros exam es. Mas aí j á era tarde. Ram sey

j á tinha aceito a oferta de Coste. A propósito, Coste pagou em dinheiro! A m aior

parte do terreno é num a estreita faixa de terra que vai em direção ao riacho, no

fundo da vala, m as term ina um pouquinho antes. Coste foi bem claro. Ele não

queria sua propriedade delim itada por água corrente.

— Ele não lhe explicou por quê? — perguntou Keith.

Tom sacudiu a cabeça negativam ente, e um certo tem or cobriu seu rosto. —

Coste parecia que estava sem pre com pressa. Se eu lhe perguntava algo

desnecessário, ele sim plesm ente m e cortava. Mas, m eu am igo, para conseguir

toda aquela papelada da Polícia Estadual, para o transporte da casa, foi um

pesadelo!

Keith deu m ais um gole em seu café, inquieto. — Você sabe se esse tal sr.

Coste coleciona m oedas? — perguntou.

O corretor encolheu seus pequenos om bros. — Não tenho nem idéia.

— Bem , qual é seu prim eiro nom e? De onde ele é?

Mas Tom Greene perm anecia sentado ali, copo na m ão, com um estranho e

preocupado ar no rosto.

— Oh, vam os lá! — insistia Keith. — Você não tem m ais nenhuma

inform ação sobre esse cara?

— Keith, eu j am ais m e encontrei com esse hom em ! Toda a transação foi por

telefone. Espere aí, ele apareceu no escritório um a vez, para assinar alguns

papéis. . . — Tom evitava o olhar de Keith. — Mas foi na hora do alm oço. Eu não

o vi.

O corretor fez um a pausa. Não gostava de m entir para ninguém ,

principalm ente para um velho am igo com o Keith Olson. Mas toda a verdade era

esquisita dem ais para ter algum a explicação.

Cerca de uns quarenta dias antes, Coste telefonara, dizendo que queria ir até a

im obiliária, para levar o dinheiro do terreno de Cly de Ram sey e assinar a

papelada. Então, Tom orientou sua secretária para deixar toda a docum entação

pronta. O corretor colocou tudo num envelope sobre sua escrivaninha para que o

sr. Coste encontrasse tudo pronto, na m anhã seguinte.

Trancara a im obiliária às cinco e quarenta e cinco, naquela tarde, com o de

costum e. Ou, pelo m enos, ele pensou que tivesse trancado. Porque, quando ele

voltou na m anhã seguinte, às nove e quinze, encontrou a porta da frente

destrancada. Não escancarada, apenas entreaberta, de um j eito que seria difícil

perceber, da calçada, que ela estava aberta.

Teria havido algum a invasão durante a noite? Tom correu para dentro da

im obiliária, esperando encontrar o escritório todo revirado, sua escrivaninha

arrom bada, o arquivo no chão. Mas, para seu im enso alívio, tudo estava na m ais

perfeita ordem . Não estava faltando nada.

Justam ente o contrário!

Finalm ente, Tom percebeu o envelope que tinha deixado sobre sua

escrivaninha, na noite anterior. Agora, ele estava lacrado com um adesivo e

parecia bem m ais grosso e pesado do que antes. Quando Tom rasgou o envelope,

abrindo-o, saltaram dúzias e dúzias de cédulas de cinquenta e cem dólares.

Ele levou quase quinze m inutos para contar todo aquele dinheiro. Estava tudo

ali, até o últim o dólar — dinheiro suficiente para pagar o terreno de Cly de, m ais

os custos dos docum entos e a com issão de Tom Greene.

Prensados pelas notas, estavam os docum entos que a secretária de Tom havia

preparado. Todos assinados no lugar certo, com um a elegante porém ilegível

assinatura. Obviam ente, Coste tinha estado na im obiliária para assinar os papéis!

O velho corretor tinha certeza de ter trancado a porta, na noite anterior. Mas é

claro que ele poderia ter-se enganado. Tom não queria que sua secretária

pensasse que ele estava ficando senil ou esquecido. Então, m ais tarde, naquele

dia, disse à secretária que, enquanto ela fora alm oçar, o sr. Coste tinha vindo ao

escritório e assinado os papéis. Aquela j ustificativa era suficientem ente plausível,

e ela não se preocupou m ais com aquilo.

E agora, nessa m esm a m anhã, Tom tinha recebido os m il dólares de

pagam ento de Coste pelas providências tom adas para a m udança da casa.

Quando o corretor abriu a porta,.do escritório, encontrou um de seus próprios

envelopes tim brados, com seu próprio endereço com o rem etente, caído sobre o

assoalho. Dentro, dez cédulas de cem dólares, novinhas em folha. “Coste deve ter

em purrado o envelope pela abertura do correio”, im aginou Tom . Mas com o

conseguira escorregar assim , até o m eio da sala? E por que Coste teria usado um

dos próprios envelopes tim brados de Tom ? Deveria tê-los conseguido na

papelaria, quando assinou os papéis, em m arço passado.

Agora, Tom observava Keith tom ar o últim o gole do seu café.

Definitivam ente, algum a coisa estava incom odando Keith, pensou o corretor.

Geralm ente, Keith era afável e extrovertido. Tom nunca tinha visto o am igo

divagando tanto assim .

— Bem ! — pigarreou Keith. — Agora que você está encarregado de alugar a

casa de Coste. . .

Um ligeiro ar m alicioso apareceu no sem blante de Tom .

— Keith! Com o é que você sabia disso?

— Eu não sou cego! — retrucou Keith. — Sua placa de “Aluga-se” está lá,

bem na frente da casa.

— Mas não pode ser! —- exclam ou Tom Greene. — Coste m e telefonou hoje

de m anhã para dizer que queria que eu m e encarregasse do aluguel lá! Eu ainda

tenho que colocar um anúncio no j ornal que sai am anhã à tarde. Então, sábado

eu irei até lá, para fincar um a de m inhas placas.

É um a placa esm altada — insistiu Keith. — Bem j unto à j anela da sacada,

de frente para a rua. Sim , Tom , eu j á vi suas placas antes.

O corretor tom ou o últim o gole do seu manhattan e desej ou que houvesse

m ais. Aquelas placas em verde e branco tinham lhe custado alguns trocados, de

m odo que ele as conservava trancadas num arm ário em seu escritório. E só ele

tinha a chave.

— Talvez você tenha em prestado um a placa para Coste, e ele a colocou lá —

insistiu Keith.

— Talvez — m entiu Tom . — Eu sim plesm ente não m e lem bro. — Ele devia

estar ficando senil; era a única explicação!

— Mas e você? Ainda não viu a casa?

— Sim , j á — disse Tom . — Fui até lá, na m anhã após a m udança, quando ela

estava sendo colocada sobre os novos alicerces.

— Então, você viu que precisa de reparos, especialm ente se seu cliente

pretende alugá-la. Você sabe o quanto gosto desse tipo de serviço, Tom . Por que

não m e telefonou?

— Eu não tinha perm issão — respondeu o corretor, em baraçado.

— O que você quer dizer? — insistiu Keith. — Por acaso, Coste lhe disse para

não m e oferecer o serviço?

Não, não! Nada disso. — Tom podia perceber que Keith estava bem intrigado

e desconcertado com o m al-entendido. “Coste que vá pro inferno!”, o corretor

pensou. — Ele disse que realm ente queria que a casa fosse restaurada,

principalm ente no interior. E ele deve ter ouvido falar de você antes, porque

m encionou seu nom e.

— Então, por que não m e cham ou?

— Coste m e disse para não m e preocupar em cham á-lo — disse Tom . —

Porque ele m esm o quer entrar em contato com você.

Quando Keith deixou a taverna, j á estava m ais de um a hora atrasado. Mas

que diabo — seus aj udantes, Marc e Jason, poderiam se virar sem ele. Então, em

vez de ir direto para Peekskill, Keith se dirigiu para a biblioteca de Chappaqua.

Através de um panfleto federal, “Mudando prédios históricos”, ele ficou

surpreso em saber que a técnica de m udança de casas tinha, pelo m enos,

duzentos anos. Em 1838, um a casa de tij olos de quatro andares, na cidade de

Nova York, fora transportada a um a distância de quatro m etros, sem nem

m esm o danificar os espelhos pendurados nas paredes interiores. Em 1869,

operários transportaram um hotel de seis andares, em Boston, tam bém feito de

tij olos e pesando cinco m il toneladas. Em 1889, um tribunal de três andares em

Nebraska fora rebocado por cerca de catorze quilôm etros por um a locom otiva.

E, em 1975, um a catedral gótica na Tchecoslováquia, pesando dez m il toneladas,

fora transportada para um novo local, a quase um quilôm etro de distância. Os

com putadores asseguraram que a estrutura do século XIV praticam ente não

saíra fora do alinham ento.

Com parado a isso tudo, o transporte de um sobrado de m adeira em estilo

vitoriano era brincadeira de criança. Mas será que j á tinham transportado um a

casa de um lado a outro do país? Agora, a curiosidade de Keith era m aior do que

nunca.

Desde quarta-feira ele lia e relia aquele incrível artigo tirado do j ornal de

Seattle. Queria saber m ais sobre o assassino condenado, Jam es Beaufort, sobre

seu j ulgam ento e a surpreendente confissão e, principalm ente, sobre o local do

assassinato, na Brem erton Road, 666.

Keith não tinha dinheiro para voar até Seattle. Então foi até o escritório da

Carpintaria Olson, onde fez um a cham ada de longa distância para o j ornal de

Seattle e descobriu o nom e de seu editor-chefe. Então, sentou-se em sua

escrivaninha e bateu um a carta, pedindo ao hom em o favor de enviar-lhe

fotocópias de todo o m aterial editado até o m om ento, sobre o caso Sutton-

Swenson. Lem brando ao editor que os crim es aconteceram por volta de 1973,

Keith colocou um a nota de vinte dólares na carta, para recom pensar o hom em

por tanto trabalho.

Com o rem etente, Keith colocou o endereço da Carpintaria Olson em

Chappaqua. Jennifer j á com eçava a pensar que ele estava preocupado dem ais

com a nova casa do outro lado da vala; afinal de contas, era apenas a

propriedade de alguém . Se ela o pegasse novam ente rem exendo naquele m onte

de artigos sobre um duplo assassinato, ocorrido há seis anos, provavelm ente o

m andaria para o hospício.

O funcionário do correio de Chappaqua inform ou-lhe que não era necessário

usar um envelope aéreo. Todas as cartas registradas seguiam autom aticam ente

por avião. Mesm o assim , o funcionário adm itiu: as cartas para o Pacífico

noroeste poderiam dem orar de três a quatro dias. Keith não queria esperar tanto

tem po, portanto pediu que sua carta fosse registrada e enviada por via aérea.

De volta à sua galeria, David parou para um a refeição ligeira. À noite,

quando chegasse a casa, na Riverside Drive, j antaria satisfatoriam ente. O

negociante de antiguidades deixou o estôm ago vazio deliberadam ente, porque

sabia o que tinha que fazer aquela noite. Mas ficou protelando, protelando; queria

consultar alguns livros antes.

Por volta das vinte e três e quarenta e cinco, seu estôm ago ainda roncava,

porém ele j á não tinha fom e. Espreguiçou-se e fechou a grossa Enciclopédia do

mundo antigo, guardando-a na biblioteca. Então, retornou à sala e sentou-se no

sofá. As luzes do candelabro de m etal refletiam -se na lustrosa m esinha de

m árm ore, à sua frente.

Quase se arrependeu de ter consultado a enciclopédia em prim eiro lugar, pois

leu m ais do que queria saber sobre o reinado de Nero Claudius Caesar Drusus

Germ anicus.

O im perador Calígula tam bém fora selvagem e cruel, m as reinara apenas

por quatro anos. Nero perm aneceu no trono por catorze sangrentos anos.

Torturou e m atou centenas de pessoas, inclusive m em bros de sua própria fam ília

e sua esposa, Popéia. Foi Nero quem ordenou a seus servos para pôr fogo na

cidade, que ardeu durante seis dias. Nero não tocava violino enquanto Rom a

ardia em cham as — ele cantava! Mas nem bem as cinzas esfriaram , ele acusou

a nova seita cristã de Rom a pelo incêndio. Durante as perseguições de Nero, as

catacum bas de Rom a estavam entulhadas de corpos de m ártires. São Paulo foi

decapitado e São Pedro, crucificado de cabeça para baixo.

Mas, em m eio a tudo aquilo, havia um a coisa que se fixou na m em ória de

David: Nero tinha m edo de fantasm as.

Depois de ordenar o assassinato de sua própria m ãe, Agripina, o im perador

reclam ava que seu espírito vingativo tinha voltado para persegui-lo. Nero chegou

até a pagar um a necrom ante persa para afastar o espírito da m ulher assassinada.

Medo de fantasm as! Será que aquilo explicava o fato de um sestércio de

bronze ser aquecido num braseiro e enfiado na boca de um hom em agonizante?

Porém , o que o negociante texano tinha dito a David agora tinha sentido. Segundo

a enciclopédia, os beatos rom anos sem pre colocavam um a m oeda na boca de

um cadáver. Assim , o falecido teria dinheiro para pagar Caronte, o barqueiro que

transportava alm as penadas do rio Estige para o tenebroso reino de Hades. Um a

vez que tinham atravessado o rio subterrâneo, os espíritos j am ais poderiam voltar

para perturbar os vivos.

David deu um a olhada sobre a lareira da sala. Lá, havia um relógio do século

XVIII que ele tinha m andado consertar, depois que o assassino de Eleanor o

quebrara. Era quase m eia-noite.

David lem brou-se de que o dia seguinte seria bastante atarefado na galeria. Já

era hora de com eçar a experiência que ele estava adiando a noite toda.

Levantou-se e cam inhou vagarosam ente para o quarto. Sua valise estava lá,

com as duas m oedas. De volta à sala, David colocou a valise sobre a m esinha de

m árm ore. Então, sentou-se novam ente no sofá, abriu-a e pegou o valioso

sestércio de bronze que tinha com prado aquela tarde.

Apreensivam ente, David abriu o envelope de plástico e aparou a pesada

m oeda na palm a de sua m ão. Ela estava levem ente fria, nada m ais. Se havia

algum a vibração, era fraca dem ais para que ele pudesse sentir. Aparentem ente,

aquele bem -conservado sestércio tinha passado inexpressivos m il e novecentos

anos. Certam ente, não transm itia nenhum a daquelas horríveis e desconcertantes

sensações que David havia sentido, quando pegou a prim eira m oeda.

Depois de segurar a m oeda por uns três m inutos, ainda não sentia nada de

extraordinário. Então, o pesado relógio de bronze sobre a lareira anunciou m eia-

noite.

David pegou um lenço lim po e esfregou suavem ente a valiosa m oeda para

que o suor de seus dedos não danificasse sua superfície. Então, devolveu-a ao

envelope de plástico. Desde o assalto, dois anos antes, David não deixava m ais

obj etos de valor, com o aquele, no apartam ento. A prim eira coisa a fazer, na

m anhã seguinte, seria levar a m oeda ao banco e guardá-la no cofre.

Estava tam bém na valise a gasta e corroída m oeda que Keith lhe havia

em prestado. Ela tam bém estava acondicionada num envelope de plástico que o

negociante texano graciosam ente lhe cedera. Mesm o tem endo m anuseá-la

novam ente, David teria que fazer a com paração. Abrindo o envelope de plástico,

deixou que a m oeda escorregasse para a palm a de sua m ão esquerda.

Quase im ediatam ente sentiu o forte latej ar em seus dedos. Então, reclinou-se

no sofá e fechou os olhos.

Instantaneam ente, todas as im agens apareceram — o calor, o ruído de carne

dilacerada, os gritos. David queria atirar o sestércio longe. Mas, ao contrário,

cerrou ainda m ais seus dedos em volta da ardente m oeda. Devia haver algo

m ais! Se pudesse suportar aquela agonia por tem po suficiente, talvez outras

cenas desfilassem perante seus olhos fechados. E, possivelm ente, teria a

oportunidade de saber com o aquele velho sestércio da Rom a antiga tinha ido

parar num a banheira, em New Castle, Nova York. Então, cerrou os dentes,

preparando-se para a em inente situação de terror e dor.

De repente, as terríveis im agens de sangue e m orte com eçaram a retroceder.

E agora?, perguntou-se David. Apertou a m oeda m ais forte ainda. Houve então

um a notória e brusca m udança no ar. A atm osfera parecia úm ida e pesada,

carregada de um forte odor anim alesco.

Abruptam ente, rápida com o um raio, a im agem de Jennifer Olson apareceu

atrás de suas cerradas pálpebras. A visão dem orou o suficiente para que David

pudesse ver que seu rosto estava todo banhado por um a luz averm elhada. Seus

olhos estavam arregalados, em pânico, sua boca ansiava por ar.

Estarrecido, David abriu os olhos. Inacreditavelm ente, tudo perm anecia

com o antes. O pesado relógio do século XVIII continuava m arcando a hora

sobre a lareira, e aquele terrível odor tinha desaparecido. Até aquela ardente e

latej ante sensação se fora. David tinha apertado tanto a m oeda que sua m ão

estava doendo. Agora, um pouco m ais relaxado, abriu os dedos crispados, e

quase desm aiou de susto.

Sua m ão estava vazia! A palm a de sua m ão ainda trazia a m arca

arredondada daquele fantasm agórico sestércio, Mas, com o que por encanto, ele

tinha desaparecido.

5

Sexta-feira, 13 de abril de 1979.

Mais de um a hora depois, David ainda se encontrava sentado no sofá da sala.

Todas as luzes do apartam ento estavam acesas. Ele estava terrivelm ente

cansado, porém , assustado e confuso dem ais para poder dorm ir.

A m arca na palm a de sua m ão sum ira, m as o desaparecim ento da m oeda

abalou-o profundam ente. Será que seus dedos teriam se, aberto sem que ele

percebesse? David queria desesperadam ente acreditar que o sestércio tinha

m eram ente escorregado pelo vão de seus dedos.

Então, olhou, prim eiram ente, atrás das alm ofadas do sofá. Chegou a levantar

o tapete persa que cobria o chão da sala, para certificar-se de que a m oeda não

tinha deslizado para baixo dele. Quando viu que não achava m esm o, foi até a

cozinha e serviu-se de um scotch para acalm ar os nervos. Im pressionante! Tudo

aquilo parecia sim plesm ente inacreditável.

Então, ficou vagando pela biblioteca, na esperança de que alguns daqueles

livros pudessem aj udá-lo a entender tudo aquilo. Porém , a m aioria dós livros de

David era estritam ente a respeito do m undo real: m obílias, decoração e história

francesa. Não tinha nenhum livro sobre religião ou fenôm enos paranorm ais.

David serviu-se de um outro copo de scotch e sentou-se no sofá da sala por

m ais m eia hora, pensando. Quando o relógio sobre a lareira assinalou um a e

m eia da m anhã, ainda não tinha resolvido nenhum a das questões que pairavam

em sua m ente. Mas dois copos de scotch num estôm ago vazio fizeram com que

ele perdesse o m edo e, naturalm ente, ficasse ligeiram ente tonto. Quando se deu

conta de seu enorm e cansaço, colocou o pij am a e foi para a cam a.

David ainda ficou acordado por m ais uns dez m inutos, ouvindo o barulho do

tráfego da West Side Highway. A noite parecia calm a agora. De algum m odo,

era quase certo que o terrível sestércio de bronze j á não estava m ais ali para

incom odá-lo. E, antes que percebesse isso, estava sonhando.

Tinha a im pressão de estar ao lado de um a estrada, em algum ponto do país.

Era noite. À sua frente alongava-se um a faixa de terra. Além , havia um espaço

vazio onde a terra desaparecia. Então, para espanto de David, algo com eçou a

rom per aquele solo rochoso.

Torrões se desm anchavam e escorregavam sobre o telhado da em ergente

figura. A terra estava parindo um a casa!!! David olhava estupefato, enquanto o

sobrado de m adeira se erguia, com pleto, com cham iné e varanda recém -

pintadas de azul. Mas, no lugar das ripas, a casa tinha escam as, com o um réptil.

E, aplicado num a das paredes, o enorm e e protuberante olho de um inseto

gigante espiava David.

Agora, sangue vazava da terra revolvida, em volta do alicerce. David

percebeu que a terra estava sangrando. Então, ouviu um a trovoada. Um a chuva

pesada com eçou a cair, tentando lavar aquele sangue. Mas a casa continuava

erguendo-se, rasgando o solo rochoso. O sangue j orrava m ais forte agora, pelas

fendas do alicerce.

A casa tinha se erguido com pletam ente, e a terra de onde em ergira

transform ara-se em carne hum ana. O sangue esguichava pela cavidade form ada

pelo alicerce de concreto, correndo pela estrada onde se encontrava David.

Tentou gritar, m as sua voz não saía.

Anos atrás, sem pre que David tinha pesadelos, sua esposa Eleanor ouvia seus

gem idos, ao seu lado. Então, ela sacudia seus om bros até que ele acordasse e lhe

dissesse o que estava acontecendo. Mas agora, desde a m orte de Eleanor, David

vivia sozinho, em seu apartam ento na Riverside Drive. E não havia m ais ninguém

para acordá-lo.

Outra vez David tentou gritar. Mas, no sonho, o ar era pesado e úm ido; não

conseguia sequer respirar. Pior ainda, parecia que algo envolvia seu pescoço,

sufocando-o. Sua voz não em itia nenhum som . . .

Mas, de repente, ele acordou!

Ou não? Bem longe, ainda ouvia os ecos dos trovões. Pesadas batidas vinham

de algum lugar atrás dele.

Não, aquilo não era sonho. David sentia o fam iliar travesseiro sob sua cabeça.

As batidas vinham da parede atrás de sua cabeceira. Então, repentinam ente, elas

pararam .

David voltou-se e deu um a olhada no relógio de cabeceira. Passava um

pouco das quatro horas da m anhã de sexta-feira. Acendendo as luzes, levantou-se

e deu um a olhada pela j anela. As ruas estavam m olhadas. Então, m ais um a vez,

ouviu um trovão, distante porém fraco. O trovão do sonho tinha sido m ais forte,

m ais agourento. Um a tem pestade de com eço de prim avera devia ter lavado a

cidade enquanto ele dorm ia.

Então David descobriu o que eram aquelas batidas. Seu quarto era separado

apenas por um a fina parede do apartam ento do sr. e sra. Jacob. Durante o

pesadelo, ele tentara gritar. Mesm o que não tenha ouvido a si m esm o,

evidentem ente fora bem -sucedido. O que m ais faria Leo Jacob bater daquele

j eito na parede?

David foi até a cozinha, tom ou um copo de leite e voltou para a cam a. Mas

não conseguiu dorm ir. Recostou-se na cam a sem sono, preocupado. E se os

pesadelos recom eçassem ? Será que acordaria com seus gritos, ou acordaria os

vizinhos prim eiro?

Em New Castle, Jennifer Olson acordou ao prim eiro ruído de trovão. Desde

garotinha m orria de m edo de relâm pagos. E agora, ao ouvir a tem pestade

próxim a, perm anecia acordada, im óvel, im aginando quanto tem po levaria para

que seu m arido acordasse.

Aquela noite, Keith levara-a para a cam a e eles fizeram am or até altas horas.

Keith sem pre dorm ia profundam ente, em especial depois de fazer am or.

Agora, Jennifer m ovia-se na cam a, em sua direção. Ela podia sentir suas

costas, suaves, aconchegantes, m usculosas. Mas ele nem se m exia.

De repente, na escuridão da m adrugada, um raio brilhante explodiu do lado

de fora da j anela de seu quarto. Foi im ediatam ente seguido pelo forte ribom bar

de um trovão. Dessa vez tinha sido bem perto m esm o. Por causa da nova casa do

outro lado da vala, as persianas estavam abaixadas, e Jennifer não pôde ver onde

o raio tinha caído. Mas não podia suportar m ais. Keith dorm ia tranquilam ente a

seu lado. Sua respiração era longa e vagarosa; ele se encontrava totalm ente

ausente do m undo.

— Keith — disse Jennifer, sacudindo seu braço. — Keith, acorde!

Ele acordou, num sobressalto, assim que a chuva com eçou a respingar na

j anela do quarto. — Caram ba... — m urm urou. Deveria ter arrum ado a goteira

da cham iné. Agora, parecia que havia um a cachoeira em seu quarto, e deveria

haver m ais água no só tão.

Então, outro relâm pago seguido de um enorm e estrondo! Jennifer estava

aterrorizada. Keith sabia o quanto aquilo a am edrontava, e então virou-se e

abraçou-a. Ela o apertou fortem ente, protegendo-se em seu peito.

— Keith — sussurrou ela. — Acho que o raio atingiu algum a coisa!

— Vou dar um a olhada. Seus pés nus pisaram no carpete. Nu, foi até a j anela

e levantou a persiana. As luzes estavam apagadas, portanto, ninguém poderia vê-

lo, e espiou pela j anela coberta com os respingos da chuva. As j anelas de seu

quarto davam para o oeste, de onde sem pre vinham as tem pestades.

Naquele instante, o dardo de um relâm pago espatifou-se na cham iné da casa

nova. Um estrondoso trovão ressoou em m enos de um segundo.

Keith recuou, assustado, e autom aticam ente afastou-se da j anela. — A casa

do outro lado acaba de ser atingida — disse ele a Jennifer.

— Você acha que ela vai pegar fogo? — perguntou ela.

Keith tentava olhar através da escuridão. Bem longe, clarões de relâm pagos

se repetiam , envolvendo a casa nova com um a fraca luz cinza. — Não dá para

dizer. Mas tam bém não há ninguém lá para poder inform ar. É m elhor cham ar a

polícia e pedir para eles verificarem .

Jennifer acendeu o abaj ur ao lado da cam a. Sentindo os efeitos da repentina

ilum inação, pegou o telefone. De repente, a luz piscou e dim inuiu, m as voltou

novam ente.

— Eu sei o núm ero — disse Keith, enrolando-se num roupão. — 7, 9, 2... —

Mas, então, percebeu a intrigada fisionom ia da esposa. Jennifer estava apenas

ouvindo o fone, sem discar.

— O telefone está m udo — disse, finalm ente.

— Deixe-m e ver. — Keith deu a volta na cam a e pôs o fone no ouvido.

Queria ouvir o sinal de discagem , m as não havia som nenhum . Insistiu no botão

do telefone, m as nada aconteceu.

— Aposto que deve haver algum poste caído por aí — disse Keith, enquanto

outro raio atingia a casa, do outro lado da vala. Um a chuva de faíscas azuis

escorregou pelo telhado. Outra vez, seguiu-se o ensurdecedor trovão.

Keith pensava que raios não costum avam atingir o m esm o local duas vezes.

Mesm o assim , aquela cham iné tinha sido atingida duas vezes, nos poucos m inutos

em que ele estivera na j anela!

Lá em cim a, nas nuvens, novam ente o clarão dos relâm pagos ilum inava a

casa com um a m aligna luz esverdeada. Naquele prolongado instante, Keith pôde

ver que a cham iné parecia perfeitam ente intacta. Mas, então, vislum brou algo

estranho no andar térreo. . .

— Keith! — Jennifer cham ou preocupada. — Saia da j anela!

— Já vou — retrucou ele. A luz do abaj ur piscou novam ente, m as Keith nem

percebeu. Estava observando um a vaga luz averm elhada na sala de estar do

núm ero 666, na Sunset Brook Lane,

No céu, o rugir dos trovões ressoava com o os passos de um enorm e gigante à

procura de -sua vítim a. Keith viu quando a varanda se ilum inou com aquela

m esm a luz averm elhada. O clarão verm elho estava saindo agora! Tinha cerca

de um m etro e m eio de diâm etro — pelo m enos, parecia ter. Com toda aquela