A África por ela mesma: a perspectiva africana na História Geral da África (UNESCO) por Muryatan Santana Barbosa - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL

MURYATAN SANTANA BARBOSA

A África por ela mesma: a perspectiva africana na História Geral da

África (UNESCO)

(versão corrigida)

O exemplar original se encontra disponível no CAPH da FFLCH (Centro de Apoio à

Pesquisa Histórica)

São Paulo

2012

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL

A África por ela mesma: a perspectiva africana na História Geral da

África (UNESCO)

(versão corrigida)

O exemplar original se encontra disponível no CAPH da FFLCH (Centro de Apoio à

Pesquisa Histórica)

MURYATAN SANTANA BARBOSA

Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em

História Social do Departamento de História da Faculdade

de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade

de São Paulo, para a obtenção do título de Doutor em

História.

Orientadora: Profa. Dra. Marina de Mello e Souza

São Paulo

2012

Autorizo a reprodução total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional

ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.

Catalogação na Publicação

Serviço de Biblioteca e Documentação

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

Barbosa, Muryatan Santana

B238Á

A África por ela mesma: a perspectiva africana na História

Geral da África (UNESCO) / Muryatan Santana Barbosa ; orientadora

Marina de Mello e Souza. – São Paulo, 2012. 208 f.

Tese (Doutorado)- Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências

Humanas da Universidade de São Paulo. Departamento de História. Área de

concentração: História Social.

1. Historiografia. 2. Eurocentrismo. 3. História da África. 4.

Metodologia da História. 5. UNESCO. I. Souza, Marina de Mello e, orient.

II. Título

FOLHA DE APROVAÇÃO

BARBOSA, Muryatan Santana. A África por ela mesma: a perspectiva africana na

História Geral da África (UNESCO). Tese apresentada ao Programa de Pós-

Graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia,

Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de

Doutor em História.

Aprovado em:

Banca Examinadora

Profa. Dra. ____________________________Instituição: _______________________

Julgamento: ___________________________Assinatura: _______________________

Profa. Dra. ____________________________Instituição: _______________________

Julgamento: ___________________________Assinatura: _______________________

Profa. Dra. ___________________________Instituição: ________________________

Julgamento: ___________________________Assinatura: _______________________

Prof. Dr. _____________________________Instituição:________________________

Julgamento: ___________________________Assinatura: _______________________

Prof. Dr. _____________________________Instituição:________________________

Julgamento: ___________________________Assinatura:________________________

À Sil, Téo, Faizone, Soca e Taco

AGRADECIMENTOS

Agradeço especialmente a minha orientadora, a professora Marina de Mello e

Souza. Em particular, por seu rigor acadêmico, confiança e abertura de espírito, que me

permitiu desenvolver este trabalho. Muito obrigado.

Ao meu professor no Departamento de História da Universidade de Harvard, o

historiador ganense Emmanuel Kwaku Akyeampong. Por seu profissionalismo e

generosidade durante as pesquisas e as discussões que permearam o curso sobre Fontes,

Metodologia e Temas na História da África (2010). Tais atividades me possibilitaram

ampliar minha formação intelectual em História da África e ter acesso a uma vasta

bibliografia internacional. Agradeço também aos colegas do referido curso.

Pela hospitalidade e companherismo nos E.U.A, a Demétrio G. C. Toledo,

Márcio Macedo, Denise Hirao, Thomas Grimm e ao professor Anani Dzidzienyo, da

Universidade de Brown.

Às professoras Leila M. G. Leite Hernandez e Maria Antonieta M. Antonacci,

por suas valoras contribuições e apoio na banca de Qualificação desta tese. Ademais,

pela amizade.

Ao professor Fernando Augusto de Albuquerque Mourão, por ter compartilhado

comigo sua sabedoria e experiência pessoal no projeto da História Geral da África

( HGA).

Ao professor Valter Roberto Silvério e a todos da UNESCO-Brasil, que me

convidaram para participar do projeto Brasil-África: histórias cruzadas. Este convite

me obrigou a retomar a HGA pormenorizadamente, para realizar a revisão crítica dos

dois volumes do Livro Síntese da Coleção História Geral da África (UNESCO, 2012).

Aos colegas e amigos do Núcleo de África, Colonialidade e Cultura Política

(NEACP-DH-USP) e da revista Sankofa: Flávio Thales R. Francisco, Irinéia M. Franco

dos Santos, Eduardo Januário, Rodrigo F. Bonciani, Thiago C. Sapede e Maria Rosa D.

Ribeiro.

Ao professor Wilson do Nascimento Barbosa, pelas conversas em torno desta

tese.

A Silvia Eri Hirao, pela paciência e companheirismo.

A todos que fizeram comentários, críticas e sugestões ao conteúdo essencial

deste trabalho, que foi exposto em encontros, seminários e conferências, ao longo dos

últimos três anos.

Ao CNPq que, com seu apoio institucional e financeiro, no Brasil e no Exterior,

com a Bolsa Doutorado Sanduíche (SWE), me permitiu concretizar este trabalho.

O cientista crítico é crítico principalmente em relação a si próprio, ao

seu trabalho, que deve executar nos limites das suas atribuições. O valor

ideológico adquirido por sua obra não lhe vem de uma deliberada

intenção, não é uma mensagem de que lhe reveste, um ingrediente que

lhe acrescenta maliciosamente, mas decorre do fato de que todo o

conhecimento possui por sua natureza essa característica. Se o que

produz procede de uma consciência que se identifica pela raiz com o

pensar das massas da comunidade, esse condicionamento se

concretizará nos produtos que cria, independentemente de qualquer

intencional destinação. O cientista crítico revela-se, neste particular,

imensamente

mais

livre

que

seus

colegas

que

trabalham

conscientemente para as finalidades de camadas minoritárias da

sociedade.

Àlvaro Vieira Pinto

RESUMO

BARBOSA, M. S. A África por ela mesma: a perspectiva africana na História Geral

da África (UNESCO). 2012. 208 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras

e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.

Esta tese traz uma análise da perspectiva africana na coleção História Geral da África

(UNESCO). Para isto, baseia-se no exame da história institucional do projeto que lhe

originou e da escrita da história ali presente, em seus oito volumes. Tais considerações

levaram a definição da perspectiva africana como uma perspectiva que privilegia os

fatores internos ao continente, em oposição aos externos, na explicação histórica,

científica, da África. Ademais, constatou-se que esta perspectiva se diversifica, na

História Geral da África ( HGA), em três abordagens complementares da história da

África: a) regionalismo; b) difusionismo intra-africano; c) sujeito africano. A partir de

tal investigação, reflete-se sobre algumas consequências teóricas e metodológicas que

tal perspectiva africana traz para uma visão científica contemporânea e tendencialmente

pós-eurocêntrica da história da África.

Palavras-Chave: Historiografia – Eurocentrismo – História da África – Metodologia da

História - UNESCO

ABSTRACT

BARBOSA, M. S. Africa by itself: the african perspective in the collection General

History of Africa (UNESCO). 2012. 208 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia,

Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.

This thesis presents an analysis of the African perspective in the project General

History of Africa (UNESCO). It examines the institutional history of the project and the

writing of history in this collection of eight volumes. Such considerations have led to

the definition of the African perspective as a perspective that focuses on the internal

factors of the continent, as opposed to external ones, in its scientific explanation of

Africa history. In addition, this study concluded that this perspective unfolds into three

complementary approaches of the General History of Africa (GHA): a) regionalism b)

intra-African diffusionism c) African subject. This analysis provides the basis for a

discussion on some theoretical and methodological outcomes that such an African

perspective brings to a scientific view on the history of Africa that is contemporary and

potentially post-Eurocentric.

Keywords: Historiography – Eurocentrism – History of Africa – Methodology of

History - UNESCO

SUMÁRIO

Introdução. ................................................................................................................. 1

1. A “perspectiva africana” na História Geral da África (HGA) ........................ 17

1.1.Apresentação ..................................................................................................... 17

1.2. A “perspectiva africana” na história institucional do projeto ( HGA) ............... 19

1.2.1. O início do projeto (1965-69) ........................................................................ 19

1.2.2. Organização e início da obra (1969-75) ......................................................... 21

1.2.3. Anos polêmicos (1975-78) ............................................................................. 28

1.2.4. A vitória do pragmatismo (1978-82) ............................................................. 33

1.3. A “perspectiva africana” na metodologia da HGA .......................................... 36

1.4. Definindo a “perspectiva africana” e suas abordagens .................................... 45

2. O difusionismo intra-africano e a história da África da HGA .......................... 54

2.1. Periodização ..................................................................................................... 54

2.2. Neolítico e África Antiga (10 mil a. C. – VII d. C.) ......................................... 55

2.3. A África entre os séculos VII e XVII ............................................................... 70

2.4. A África entre os séculos XVII e fins do século XIX (1880)........................... 81

2.5. A África entre 1880 e fins do século XX .......................................................... 87

2.6. Considerações parciais ...................................................................................... 91

3. O sujeito africano e a história da África da HGA .............................................. 93

3.1. Periodização ..................................................................................................... 93

3.2. A experiência egípcio-faraônica (3.200 a. C – 332 a. C) .................................. 94

3.3. A civilização berbere-magrebiana (146 a. C – XIV d. C.) ............................... 97

3.4. As diásporas africanas (VII– XX) ................................................................... 110

3.5. As resistências africanas contra o colonialismo e o neo-colonialismo (XIX-

XX) ......................................................................................................................... 119

3.6. Considerações parciais .................................................................................... 127

4. O regionalismo e a história da África da HGA ................................................ 130

4.1. Periodização ................................................................................................... 130

4.2. Neolítico e África Antiga (10 mil a. C. – XII d. C).. ...................................... 130

4.3. A África entre os séculos XII-XIX ................................................................ 143

4.4. Considerações parciais ................................................................................... 164

Considerações finais ................................................................................................ 166

Referências .............................................................................................................. 174

I – Fontes documentais citadas .............................................................................. 174

II - Entrevistas ....................................................................................................... 176

III - Bibliografia .................................................................................................... 176

LISTA DE FIGURAS

Figura 1. A expansão banta ............................................................................................ 61

Figura 2. Hipóteses da origem dos Bantu e do inicio da metalurgia do ferro ................ 63

Figura 3. Mapa do fluxo do ouro africano na economia muçulmana da África

setentrional ..................................................................................................................... 72

Figura 4. Mapa da circulação de homens e técnicas na África Ocidental ...................... 75

Figura 5: Grupos étnicos e movimentos populacionais na África Austral, entre 950 e

1000 ................................................................................................................................ 77

Figura 6. Mapa dos sítos e tradições arqueológicas mencionadas no texto ................... 78

Figura 7: Mapa da expansao khoi-khoi .......................................................................... 80

Figura 8. As províncias romanas da África do Norte no final do século IV da Era Cristã

......................................................................................................................................... 99

Figura 9. A expansão do Estado Islâmico .................................................................... 105

Figura 10. O Magreb na primeira metade do século XI ............................................... 107

Figura 11. A África, a Europa e a Ásia ........................................................................ 113

Figura 12. O vale do Nilo e o Corredor Núbio ............................................................. 133

Figura 13. Mapa da África Central com a indicação das regiões de ocupação “neolitica”

e da “Idade do Ferro Antiga” ......................................................................................... 135

Figura 14. Entidades políticas do Sahel entre os séculos XI e XVI ............................. 143

Figura 15. Algumas cidades e sítios mencionados no texto ......................................... 148

Figura 16. Os diferentes grupos étnicos do Quênia e da Tanzânia ............................... 152

Figura 17. O Império Rozwi ......................................................................................... 157

Figura 18. A região dos Grandes Lagos, 1840-1884 .................................................... 160

Introdução

A pesquisa e o ensino de história da África no Brasil passa por um momento de

consolidação acadêmica e institucional. Vários são hoje os cursos e as disciplinas que

difundem um conhecimento introdutório sobre o assunto. Estes, sem dúvida, trarão

frutos positivos para a ciência histórica. E, mais importante, para o crescimento de uma

visão anti-racista entre as novas gerações. Por este fato, inclusive, esta área tem ganhado

muitos jovens adeptos.

É justamente neste momento, entretanto, que os estudos históricos sobre África

necessitam estar atentos aos fundamentos críticos da sua prática teórica, para que esta

energia renovadora não seja desencaminhada, seja por um ativismo anti-intelectual, seja

por um academicismo formalizador, de viés positivista e eurocêntrico. Afinal, o que a

disciplina História da África será num futuro próximo é consequência do que está sendo

consolidado hoje, enquanto conhecimento histórico, compromisso político e

institucionalização acadêmica.

Esta tese visa contribuir para uma necessária discussão epistemológica e teórico-

metodológica da história da África, tendo por foco a principal obra deste campo do

conhecimento até hoje: a História Geral da África ( HGA). Uma obra em oito volumes,

com uma média de cerca de 900 páginas por volume, escrita por trezentos e cinquenta

especialistas internacionais em história da África1. Vale dizer, não se trata de um

ajuntamento de artigos, mas de um trabalho coletivo. Este, sob auspícios da UNESCO,

durou cerca de trinta e cinco anos em sua primeira fase, entre 1965 e 19992. Trata-se de

1Segundo informação da UNESCO. Disponível em http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/special-

themes/ethnic-and-racial-relations-in-brazil/general-history-of-africa/. Acesso em 04 de Fev. de 2012.

2A primeira fase terminou com a publicação dos resumos da obra (em inglês, francês, árabe, suahili, peule

e haussa) e dos oito volumes integrais em três línguas: inglês, francês e árabe. Parcialmente ela foi

também publicada nos volumes originais em chinês, espanhol, japonês, suahili, peule, haussa, italiano e

fulani. No Brasil, tinham sido publicados quatro volumes pela Editora Ática. A obra foi relançada em sua

totalidade em 2010, pela parceria UNESCO-Ministério da Educação-UFSCAR. A partir de 2007 se

iniciou a segunda etapa do projeto da HGA, intitulada “O uso pedagógico da História Geral da África”.

Aqui não se estuda esta fase. O objetivo desta é ampliar a difusão e a utilização pedagógica dos

conhecimentos da HGA. Esta etapa foi idealizada, inicialmente, nos seguintes encontros organizados pela

UNESCO: Dakar (1986), Nairobi (1989) e Tripoli (1999). A organização efetiva dela é resultado de um

pedido formal da União Africana, que pretende adotar um currículo comum de História da África para os

1

um trabalho que possibilitou um compêndio pormenorizado sobre o assunto, cobrindo

toda a história da humanidade na África.

Existem hoje, pelo menos, quatro motivos primordiais para se revisitar a HGA.

O primeiro deles é a qualidade científica da obra. Este fato foi resultante de um trabalho

árduo e demorado de leituras e críticas. Na obra, cada artigo, escrito por um ou mais

especialistas na área, era analisado e, muitas vezes, rescrito, antes de ser publicado. O

segundo motivo é que este projeto da UNESCO garantiu que o ponto de vista dos

intelectuais africanos sobre a história do seu continente, se tornasse algo

internacionalmente relevante e acessível aos interessados. Com isto, desde então, não há

mais justificativa para se fazer história da África, sem levar em consideração o que os

intelectuais africanos pensam sobre o assunto. O terceiro motivo é de ordem local, pois

a obra foi relançada no Brasil em 2010, com acesso livre pela internet. Algo que a

tornará uma bibliografia básica para o conhecimento de história da África no país. O

quarto motivo é objeto de estudo desta tese. Trata-se do fato de que a História Geral da

África, apesar da inegável heterogeneidade de contribuições e autores, legou uma

interpretação científica e potencialmente pós-eurocêntrica da história da África: a

“perspectiva africana” .

O objetivo primordial desta tese é analisar o que é e qual a importância desta

“perspectiva africana”. Algo que passou despercebido à bibliografia internacional em

história da África sobre a HGA 3. Para isto, pretende-se dar uma definição desta

seus países membros, baseado nas linhas estabelecidas pela HGA. Concomitantemente, em Outubro de

2011, na 36ª. Conferência Geral da UNESCO, em Paris, decidiu-se pela preparação do nono volume da

História Geral da África. O conteúdo deste novo volume ainda está em debate, mas, muito

provavelmente, contará com uma seção dedicada as diásporas africanas.

3Salvo melhor juízo, não existe na bibliografia internacional uma análise como esta, que visa estudar a

“perspectiva africana”, conforme trazida pela HGA, como uma abordagem teórico-metodológica

específica para a história da África. Este fato passa despercebido inclusive das resenhas escritas sobre os

volumes da HGA. Provavelmente, a causa desta omissão é que tais resenhas não abarcam a totalidade da

obra (oito volumes). Pelos menos, isto é o que se pode observar dos seguintes ensaios: Robert Ross.

Trends in Historiography. Itinerario, Vol. VI, 2 (1982), pp. 149-153; J. H. Clarke. Ancient civilizations of

Africa: the missing pages in world history. Journal of African Civilisations, 4, 2, (November, 1982), pp.

117-120; Bogumil Jewsiewicki & P. L. Shinnie.  The UNESCO History Project / L'Histoire-monument

ou l'histoire conscience. Canadian Journal of African Studies, 15, 3 (1981), pp. 539-551; Michael Brett.

UNESCO General History of Africa. Vol. II. Ancient Civilizations of Africa by G. Mokhtar. The Journal

of African History, 23, 1(1982), pp. 117-120; David Phillipson. UNESCO General History of Africa.

Vol. I. Methodology and African Prehistory by J. Ki-Zerbo. The Journal of African History, 23, 1(1982),

pp. 115-117; Christopher Ehret & J. J. Hoover. UNESCO General History of Africa, Vol. 1:

Methodology and African Prehistory by J. Ki-Zerbo . African Studies Review, xxiv, 4 (1981), pp. 182-183;

Ivor Wilks. Volume  I: Methodology and African Prehistory by J. Ki-Zerbo and UNESCO General

History  of Africa. Volume II: Ancient Civilizations of Africa by G. Mohktar. International Journal of 2

“perspectiva africana”, comprovar a veracidade da mesma e delinear a linha

investigativa que ela construiu para a história da África, tendo por foco a escrita da

história na HGA.

Todavia, antes de adentrar na investigação referida, de viés internalista, cabe

mostrar a originalidade do projeto coletivo da HGA, em sua inserção geral no campo

historiográfico. Em particular, dos estudos historiográficos sobre a África. Por outro

lado, tal contextualização visa qualificar o desafio intelectual da HGA, dentro de um

escopo maior e mais atual, cujo cerne são as tentativas contemporâneas de construir um

saber que supere as premissas e a agenda eurocêntrica, ainda reinantes nas ciências

humanas. Dizer isto, entretanto, implica certas convicções acerca da relação entre

eurocentrismo, pensamento social e razão histórica, que cabe qualificar.

Eurocentrismo e História

Existe hoje certo consenso nos debates acadêmicos sobre a necessidade de uma

discussão das concepções eurocêntricas dominantes na ciência contemporânea4.

African Historical Studies, 15, 2, (1982), pp. 283-285; Richard Rathbone. The UNESCO General History of Africa, Vol. VIII: Africa since 1935 by Ali A. Mazrui. The International Journal of African Historical

Studies, Vol. 28, No. 1 (1995), pp. 182-184;  Phyllis M. Martin.  The UNESCO General History of Africa,

Volume VII: Africa under Colonial Domination 1880-1935 by A. Adu Boahen. The International Journal of African Historical Studies, Vol. 20, No. 2 (1987), pp. 351-353; John  D. Hargreaves. UNESCO 

General History of Africa Vol. I: Methodology and African Prehistory by J. Ki-Zerbo. Africa: Journal of the International African Institute, Vol. 54, No. 3, Interventions of the State (1984), pp. 111-112;

 Jacques L. Hymans. The  UNESCO General History of Africa. Volume VI: Africa in the Nineteenth

Century until the 1880's by J. F. Ade Ajayi. African Studies Review, Vol. 34, No. 1 (Apr., 1991), pp. 140-142;  John Lamphbear. The  UNESCO General History of Africa. Vol. 4. Africa from the XIIth to the

XVIth  Century by D. T. Niane. Research in African Literatures, Vol. 18, No. 1, Special Issue on Literature and Society (Spring, 1987), pp. 80-82;  E. Ann McDougall. The  sands of time. UNESCO

General History of Africa, Volume VI: Africa in the Nineteenth Century Until the 1880s by J. F. Ade

Ajayi. The Journal of African History, Vol. 35, No. 2 (1994), pp. 314-316;  Christopher Fyfe . UNESCO

General History of Africa, Vol. VII, Africa under Colonial Domination, 1880-1935 by A. Adu Boahen.

The Journal of African History, Vol. 27, No. 1 (1986), pp. 178-180; Wyatt MacGaffey. Who owns Ancient Egypt? The Journal of African History, Vol. 32, no. 3 (1991), pp. 515-519; J. Vasina Unesco and

African historiography. History in Africa. Vol. 20, 1993, pp. 337-352.

4 Ver, por exemplo, o relatório da Comissão Calouste Gulbenkian sobre a reestruturação das ciências

sociais, publicado em WALLERSTEIN, Immanuel et al. Para abrir as ciências sociais. São Paulo:

Cortez, 1996. Existe hoje farta literatura sobre o tema. Em relação às ciências humanas, o debate tem-se

fundamentado em uma apropriação transdisciplinar de diferentes tradições críticas, enfatizando a

cooperação Sul-Sul. Para isto, criam-se novos espaços institucionais de diálogo. E, alguns analistas

contemporâneos, como Edgardo Lander (2000), Sandra Harding (2011), Boaventura de Souza Santos

3

Todavia, apesar de sua amplitude, tal debate é algo recente. Basta lembrar que as

contribuições pioneiras sobre o assunto datam da década de 1950 e início dos 1970,

como aquelas dos sociólogos A. Guerreiro Ramos ( Redução sociológica, 1958) e A.

Abdel-Malek ( A dialética social, 1972). Foi apenas com o célebre livro de Edward Said,

Orientalismo (1978), que o tema tornou-se assunto candente internacionalmente.

Existem diversas formas de caracterizar o eurocentrismo. Por vezes, ele é visto

como mero fenômeno etnocêntrico, comum aos povos de outras épocas históricas. Mas

para a maioria dos autores que tratam atualmente da questão, o eurocentrismo deveria

ser caracterizado, diferentemente, como um etnocentrismo singular, entendido como

uma ideologia, paradigma e/ou discurso.

As diferenças que aí se colocam estão mais no plano interpretativo do que

conceitual. Os autores que tratam o eurocentrismo como discurso visam analisá-lo,

geralmente, em sua manifestação mais cotidiana, no senso comum popular, nos meios

de comunicação de massa, nas instituições etc (Shohat & Stam, 1997). Os autores que

preferem enfatizá-lo como ideologia e/ou paradigma, tendem a focar, em seus estudos, o

caráter eurocêntrico do pensamento erudito europeu-ocidental, em sua filosofia, teoria

social etc (Young, 1990; Dussel, 1993; Quijano, 2000).

Nesta tese, tratar-se-á o eurocentrismo a partir da definição dada pelo

economista Samir Amin. Este autor, em trabalho clássico sobre o tema ( Eurocentrismo,

1994), o analisou como a ideologia do capitalismo como modo de produção realmente

existente, cuja origem remontaria ao século XVI. É o período de início do colonialismo

na América e da consolidação do Renascimento na Europa Ocidental. Para Amin, o

núcleo essencial do eurocentrismo seria a crença generalizada de que o caminho do

desenvolvimento europeu-ocidental fosse uma fatalidade desejável para todas as

sociedades e nações. Tratar-se-ia, pois, de uma estrutura mental de caráter provinciano.

Todavia, por sua aparência universalista e modernizadora, possuiria grande poder de

difusão, para além da visão de mundo das classes dominantes europeias, que lhe deram

origem.

(2004), Immanuel Wallerstein (2007), Walter Mignolo (2003), Nelson Maldonado-Torres; Mignolo & F.

Schiwy (2006) entre outros, vem buscando linhas de continuidade que solidifiquem tal produção

intelectual.

4

Limitando-se às consequências deste fenômeno para o pensamento histórico

europeu-ocidental, é perceptível o quanto esta ideologia, assim entendida, esteve

presente no pensamento dos grandes pensadores europeus, deturpando a percepção

destes acerca dos demais povos do mundo. Tais povos eram vistos, então, na melhor das

hipóteses, como crianças a serem educadas pelas luzes da Razão, em uma percepção

provincialista que outorgava um “R” maiúsculo à razão histórica europeia-ocidental.

Existe uma literatura recente que analisa de forma pormenorizada esta visão em autores

clássicos da filosofia como Descartes (Quijano, 2000), Kant (Eze, 1997), Hegel (Dussel,

1993) e outros5.

O mesmo olhar pode ser identificado no pensamento social europeu dos séculos

XVIII e XIX, de forma mais diversificada. Existe uma tendência eurocêntrica

recorrente, por exemplo, nas Filosofias da História, a partir de autores clássicos como

Voltaire, Vico, Condorcet, Hegel, Marx e Engels. É certo que existe uma

heterogeneidade evidente no pensamento de tais autores. Entretanto, o que os une – e

por isto são os principais fundadores da Teoria da História - são suas tentativas de, a

partir da Filosofia, construir interpretações evolutivas das sociedades humanas,

baseadas no progresso da história europeia-ocidental.

Além das Filosofias da História, teorias sociais do século XIX, como o

evolucionismo de Spencer e o positivismo de Comte, podem ser considerados casos

extremos deste provincialismo europeu, auto-declarado como universalista. Nestas

perspectivas francamente eurocêntricas, as sociedades e os povos não europeus (tidos

por “primitivos”, “pré-modernos”, “pré-lógicos”, “arcaicos”), deveriam ser estudados

como estágios de um caminho civilizacional único, cujo ápice seria a Europa Ocidental.

Aí, na melhor das hipóteses, o passado destas sociedades deveria ser entendido como

parte do germe deste processo evolutivo.

Assim, pois, se reproduziu a crença na excepcionalidade europeia, definida de

formas diferenciadas. Seja por uma compreensão econômico–social (capitalismo ou

industrialismo); culturalista (modernidade, espiritualidade medieval, cultura greco-

romana); religiosa (cristã ou judaico-cristã); racial (branca ou ariana) etc. Trata-se, em

5Para mais detalhes ver, entre outros: Emmanuel C. Eze (Ed.). Race and the Enlightenment: A Reader.

Wiley-Blackwell, 1997; Andrew Valls (Ed.). Race and Racism in Modern Philosophy. NY: Cornell

University Press, 2005.

5

ultima instância, de um problema ontológico recorrente, ainda não suficientemente

examinado em sua importância científica e política.

Este eurocentrismo foi integralmente assimilado pelos historiadores que

trabalharam pela institucionalização do campo historiográfico no século XIX, como, por

exemplo, Jules Michelet e Leopold VonŔanke. Os compêndios de “história universal”

de ambos são etnocêntricos e teleológicos, narrando à história humana como um

prelúdio da dominação europeia-ocidental.

Entretanto, nestes historiadores, mais do que em pensadores europeus anteriores

citados, vê-se uma preocupação de narrar esta história mundial, ressaltando sua nação

de origem – respectivamente França e Prússia – como representante máxima da

especificidade evolutiva europeia. Seja por sua face “moderna”, contratualista

(Michelet); seja por sua face romântica, de origem místico-religiosa (Ranke). Trata-se

de uma tendência também observável em outros historiadores do século XIX, como

Thomas B. Macaulay, Treitschke, Fustel de Coulanges e outros (Fontana, 1998, pp.

117-120).

Neste sentido, a História disciplinar pode ser vista como um caso exemplar da

crescente associação de interesses entre o Estado-Nação e a institucionalização das

ciências humanas, na Europa Ocidental do século XIX. Aí naturalizado, o

eurocentrismo renova-se na heterogeneidade do discurso teórico, dentro e fora da

História. Algo que, sem dúvida, multiplica as explicações sobre a suposta superioridade

europeia.

É certo que, em última instância, pode-se agrupar as razões que legitimavam tal

superioridade nos grandes erros das macro-narrativas etnocêntricas, qualquer que seja

sua origem. Jorn Rusen (2004, p. 122), por exemplo, analista historiográfico, sintetizou

três dos erros fundamentais de todo etnocentrismo: a) distribuição assimétrica de

valores negativos e positivos, de acordo com a referência de quem julga; b) visão

teleológica da formação identitária; c) concepção espacial monocêntrica. Todavia, a

variedade e multiplicidade das argumentações, assim como o poder social que possuem,

são fatos que marcam a singularidade do etnocentrismo da ideologia eurocêntrica.

Assim sendo, uma questão torna-se pertinente. O que ocorre ao historiador ou

filósofo social quando, olhando para o passado dos povos não europeus, não encontra

6

ali a genealogia da modernidade europeia-ocidental? Trata-se de uma questão

pertinente. Hegel, por exemplo, foi peremptório neste ponto, ao falar sobre o passado da

África, que aqui interessa ressaltar. Diz o filósofo alemão que, ali, não havendo

“progressos” e “movimentos históricos” não haveria, por conseguinte, “história

mundial”.

Por mais estranheza que esta assertiva traga hoje para uma visão politicamente

correta da ciência, ela toca em premissas desconcertantes para o pensamento

historiográfico de viés evolucionista do século XIX. Afinal, além da aparente falta de

grandes “progressos” e “movimentos históricos”, sobretudo na África sul-saariana, a

realização de uma história da África engendra uma dificuldade em relação à sua relativa

falta de fontes escritas, para sua reconstrução histórica. Esta é uma questão pertinente

que, para existir como sub-área do conhecimento historiográfico, a História da África

(entre outras) teve que responder.

História da África e a descolonização da história

A História da África como área disciplinar é fruto do Pós-Guerra (2ª. Guerra

Mundial). Como tal, ela responde a certos dilemas teóricos e práticos que devem ser

precisados.

Teoricamente, a História da África é fruto de um distanciamento gradual, mas

decisivo, da historiografia do século XX em relação à historiografia tradicional de

cunho político-diplomático, dominante no século XIX. Pode-se observar tal ensejo na

obra de diversos historiadores da passagem do século XIX para o século XX, como, por

exemplo, Fustel de Coulanges, Gustav Schmoller, Karl Lamprecht, James Robinson,

Henri Berr e outros. Todavia, a ruptura com esta História tradicional só foi consolidada

a partir dos anos 1930, com as contribuições clássicas da Escola dos Annales. Em texto

conhecido, Peter Burke (1991) definiu esta “revolução” dos Annales na historiografia

em três pontos centrais: a) a inter-disciplinaridade; b) a perspectiva totalizante; c) a

história “problematizada”. Em Marc Bloch, Apologia à Historia, Lucien Febvre,

Combates pela Historia e Fernand Braudel, Historia e ciências sociais, vê-se o cerne

desta nova proposta historiográfica. Também certo marxismo, nos primeiros decênios

7

do século XX, teve uma contribuição importante para esta superação, como mostram os

trabalhos históricos de K. Kautsky, V. Lenin, R. Luxemburgo, A. Gramsci, J. C.

Mariátegui, N. Bukharin, Caio Prado Jr., e muitos outros. Estas tradições, com a

especialização e ampliação do campo acadêmico, foram discutidas e reinterpretadas por

historiadores de outros países e correntes de pensamento.

Hoje, são perceptíveis as razões teóricas que possibilitaram que esta renovação

historiográfica tenha se difundido rapidamente pelo mundo, sob a tutela dos Annales e

do marxismo, em contraposição à historiografia tradicional. Tal difusão, todavia,

decorreu também de fatores extra-acadêmicos. Entre os vários que se poderia citar, cabe

lembrar a importância simbólica que as duas Guerras Mundiais tiveram para a derrocada

do otimismo europeu, acerca de sua própria sociedade e países. Não se tratava mais, tão

somente, de vangloriar a Nação.

O nascimento disciplinar da História da África, sobretudo na França e na

Inglaterra, foi uma consequência desta ampliação paradigmática da História tradicional,

do século XIX. Como observa Alberto da Costa e Silva (1996), isto é perceptível, por

exemplo, nas publicações especializadas sobre a história do continente, como o The

Journal African History, na Inglaterra, e no Bulletin de lÍnstitut Français de lÁfrique

Noire, na França. Assim como em livros importantes das décadas de 1950 e início dos

1960, que trouxeram um conhecimento introdutório sobre o assunto a um público mais

amplo, como, por exemplo: a) A velha África redescoberta (1959), de Basil Davidson;

b) História dos povos da África negra (1960), de Robert & Marianne Cornevin; c)

Breve história da África, de R. Oliver e J. Fage (1962); d) História da África Negra

(1961), de Jean-Suret Canale; e) Nações negras e cultura (1955), de Cheikh Anta Diop;

f) África, seus povos e sua história cultural (1959), de G. Murdock. Assim, a história da

África nascia como uma consequência específica da consolidação de uma nova

historiografia, sem a qual não haveria uma história da África a se produzir no mundo

acadêmico.

Por outro lado, apesar do que foi aqui dito, seria um erro supor que, por serem

eivados de eurocentrismo, a filosofia e a teoria social europeia dos séculos XVIII e XIX,

em nada teriam contribuído para o desvelamento de realidades histórico-sociais não

europeias. É certo que pouco se escreveu até o início do século XX, acerca da história

de outros povos e civilizações. Há, entretanto, uma questão importante. Ao se

8

expressarem como universalistas sendo, em verdade, provincialistas, os europeus

ajudaram a criar um instrumental teórico pelo qual os demais povos poderiam,

tendencialmente, re-significar a imagem de si próprios.

Assim, nos anos 1950, o arcabouço teórico ocidental foi importante na formação

da primeira geração de historiadores africanos, quando estes começaram a construir uma

história da África realizada pelos próprios africanos. Tratava-se, sobretudo, de depurar

tais concepções de seu viés eurocêntrico. Para isto, dever-se-ia realizar uma adequação

teórico-metodológica que visava qualificar tal saber, para embasar uma história

científica da África. Isto, em oposição à visão colonialista sobre o continente. Este

objetivo, no contexto linguístico de época, marcado pelas Independências Nacionais

Africanas, foi chamado de “descolonização da história”.

Um exemplo deste intento se encontra nos trabalhos do primeiro grande

historiador africano da geração dos anos 1950 e 1960: o senegalês Cheikh Anta Diop.

Em livros conhecidos como Nações negras e cultura (1955) e Anterioridade das

civilizações africanas (1967), Diop trabalhou uma ideia presente no pensamento social

do século XIX. Esta ideia era de que o Egito fora uma civilização negra; e que esta teria

sido uma origem cultural do mundo helenístico (por consequência, greco-romano) e das

sociedades africanas posteriores. Ao qualificar esta tese, de forma original, Diop

perseguia um duplo objetivo. Primeiro, defender a africanidade do Egito Faraônico e do

mundo mediterrânico antigo, de onde surgiram a maior parte das civilizações indo-

europeias. Em segundo lugar, apoiar o princípio da unidade cultural africana, de origem

nilótica. Esta possuiria as seguintes características primordiais: estrutura matriarcal,

expressão dionisíaca da vida, idealismo religioso, coletivismo e otimismo (Diouf &

Mbodj, 1992; Barbosa, 2009).

Por outro lado, o historiador Boubacar Barry (2000), aponta duas obras sobre a

tradição oral africana, entre fins dos anos 1950 e início dos 1960, que, sob o signo da

descolonização, também teriam marcado este período inicial dos estudos africanos sobre

a África: a) Campanhas do Senegal (1958), de Abdoulaye Ly; b) Sudjata ou o épico

mandinga (1960), de Djibril Tamsir Niane. Vale lembrar também do livro A tradição

oral (1958), de Jan Vansina. Afinal, este seria de grande valia metodológica para os

estudos africanos posteriores, que trabalharam com a história oral dos povos do

continente.

9

Os anos 1950 são também o período áureo da Sociedade Africana de Cultura6 e

da revista Présence Africaine 7, principal órgão de divulgação do pensamento da

intelectualidade africana e afro-descendente do pós-Guerra. Estas organizações

fortaleciam um elo diaspórico do negro, em que os intelectuais africanos e afro-

descendentes se colocam como co-partícipes de uma mesma comunidade de interesses,

na luta contra o racismo e o colonialismo. Os dois congressos de Escritores e Artistas

Negros à época, em Paris (1956) e Roma (1959) são uma concretização deste ideal.

Ao longo das décadas de 1950 e 1960, nasceram também os primeiros centros

universitários no continente africano, que davam especial interesse à História na África

em seus currículos, como a Universidade de Dakar (Senegal); o Gordon College de

Cartum (Sudão); o Makerere College de Kampala (Uganda); a Universidade de Ibadan

(Nigéria); a Universidade de Lovanium (Congo, posteriormente Zaire); a Universidade

de Dar-Es-Salam (Tanzânia); Universidade de Nairobi (Quênia) (Fage, 2010, pp. 20-

21). Nestes institutos, professores europeus se tornaram os primeiros docentes

contratados para ensinar a temática, como J. D. Fage em Gana; J. D. Hargreaves, em

Serra Leoa; C. Wrigley e C. Ehrlich, na Nigéria; J. Vansina, no Congo e em Ruanda, R.

6A Sociedade Africana de Cultura foi criada por ocasião do Primeiro Congresso dos Escritores e Artistas

Negros, em Paris (1956). Era sua missão defender os interesses das nações africanas e o enriquecimento

da solidariedade internacional do povo negro. Em 1958, tornou-se órgão consultivo da UNESCO. Seu

primeiro evento foi o Segundo Congresso de Escritores e Artistas Negros, em Roma, em 1959. A partir de

então, a revista Presencé Africaine tornou-se parte integrante da organização.

7Principal revista do mundo negro-africano no século XX. Seu idealizador e principal diretor foi o

intelectual senegalês Alioune Diop (1910-1980). O primeiro número da revista foi lançado em 1947, com

o apoio de importantes nomes da intelectualidade europeia, como Jean Paul-Sartre, André Gide, Albert

Camus, Théodore Monod, Georges Padmore, Roger Bastide e outros. Seu intuito era a defesa do

pensamento e das civilizações negro-africanas. Um de seus principais eventos foi a organização do

Primeiro Congresso de Escritores e Artistas Negros, em Paris, em 1956. No Congresso de Paris,

estiveram presentes os seguintes intelectuais, conforme seus países de origem à época: G. Sekoto (África

do Sul), P. Tchibamba (África Equatorial Francesa), Mario P. Andrade, M. Lima (Angola), P. Blackman,

G.Lamming (Barbados), Tibério (Brasil), Pasteur T. Ekollo, François Sengat Kuo, Benjamin Matip,

Nyunaï, F. Oyono (Camarões), A.R. Bolamba (Congo Belga), Bernard Dadié (Costa do Marfim), W.

Carbonel (Cuba), N. Damz, Paulin Joachim, P. Hazoumé (Dahomei), H.M. Bond, M. Cook, J.A. Davis,

W., J. Ivy Fontaine, Richard Wright (Estados Unidos da América), P. Mathieu, Moune de Rivel (Ilhas

Guadalupe), J. Alexis, R.P. Bisanthe, René Depestre, A. Mangones, E.C. Paul, R. Piquion, J. Price-Mars,

E. Saint-Lot (Haiti), Cédric Dover (Índia), M. James, J. Holness (Jamaica), Andriantsilaniarivo, Jacques

Rabemanjara, F.Ranaivo (Madagascar), L. Achille, Aimé Césaire, Frantz Fanon, Edouard Glissant

(Martinica), M. Dos Santos (Moçambique), B. Hama (Niger), B. Enwonwu, L. A. Fabunmi, M.

Lasebikan, J. Vaughan (Nigéria), Mamadou Dia, C.A. Diop, David Diop, Diop O. Socé, A. Seck, L.S.

Senghor, Bachir Touré, Abdoulaye Wade (Sénégal), D. Nicol (Sierra Leoa), Hampaté Bâ, A. Wahal

(Sudão), F. Agblemagnon (Togo). Disponível em: http://portal.unesco.org/fr/ev.php. Acesso em: 09 de

Abrilde2009.

10

Mauny e Y. Person, no Senegal. Entre estes havia geralmente simpatia pelas

Independências Nacionais Africanas (Curtin, 2010, pp. 50-54).

É certo que a formação intelectual dos jovens estudantes africanos nestas e

outras universidades e instituições fora da África8, assim como o ensino dirigido por

professores europeus e estadunidenses no próprio continente, foi um fato condicionante

do tipo de prática profissional, que se estabeleceu entre os historiadores africanos, a

partir da década de 1970. Todavia, o intento de descolonizar a História para projetar

uma “verdadeira” História da África, científica, segue sendo um objetivo desta geração

de historiadores africanos do pós-Guerra. Como afirma Barry (2000, p. 52), este intento

marca a realização de encontros regulares, como o Congresso de Africanistas de 1961, o

Congresso Internacional sobre a História da África, em 1965, na Tanzânia (também

conhecido como o Encontro de Dar-Es-Salam), e o de Yaundé, em Camarões, em 1975.

Esta difusão de interesse pela História da África promoveu uma maior

quantidade e qualidade na produção historiográfica sobre o continente, que possibilitou

o aumento do conhecimento acerca da temática, entre os anos 1960 e 19709. Em 1975,

8Entre as primeiras a lecionar ou pesquisar o tema, entre as décadas de 1960 e 70: Universidade de

Londres (Inglaterra), Escola de Estudos Orientais e Africanos (Inglaterra), Sorbonne (França), Centro de

Estudos Africanos (França), Escola Prática de Altos Estudos (França), Universidade de Howard (EUA),

Universidade de Yale (EUA), Associação de Estudos Africanos (EUA), Instituto Etnográfico de

Leningrado (URSS), Universidade Patrice Lumumba (URSS) (Curtin, 2010, pp. 50-54).

9Em uma lista discutível, pode-se citar, entre outros, os estudos de Joseph Ki-Zerbo. História da África

Negra (1972); Basil Davidson. A África na História (1975) e A velha África redescoberta (1977); Endre

Sik. A História da África Negra (1976); A. Akinjogbin. Daomey e seus vizinhos: 1708-1818 (1967); P. L.

Shinnie. Meroé: uma civilização do Sudão (1967); J. S. Trimingham. O Islã na África Oriental (1964);

Terence Ranger. Revoltas na Rodésia do Sul: um estudo da resistência africana (1967); C. S. Nicholls. A

costa swahili (1971); K. O. Dike. Comércio e política no Delta do Níger, 1830-1885 (1959); Walter

Rodney. Como a Europa subdesenvolveu a África (1972) e A História da Costa Superior da Guiné:

1545-1800 (1970); C. Meilassoux. Escravidão na África pré-colonial (1975); Daniel Mc Call. A África

em perspectiva temporal (1964); Y. Person. Samori (1968); B. A. Ogot. Zamani (1968) e A história dos

povos Luo do Sul (1967); T. Hopkins. História econômica da África Ocidental (1973); J. F. Ajayi; I.

Espie & K. O. Dike. Mil anos de história da África Ocidental (1969); J. F. Ajayi & K. O. Dike. Missões

cristãs na Nigéria (1965); R. C. Law. O Império de Oyo, 1600-1836 (1977); J. Fage (ed.). História da

África – Cambridge. Vol. 2 (1978); R. Oliver (ed.). História da África – Cambridge. Vol. 3. (1977); R.

Gray (ed.). História da África - Cambridge. Vol. 4 (1978); J. Flint (ed.). História da África – Cambridge.

Vol. 5 (1976); J. Fage (ed.). História da África – Cambridge. Vol. 2 (1978); R. Oliver (ed.). História da

África – Cambridge. Vol. 3. (1977); R. Gray (ed.). História da África - Cambridge. Vol. 4 (1975); J. Flint

(ed.). História da África – Cambridge. Vol. 5 (1976); J. D. Clark. Pré-historia da África (1970); R. Hull.

Cidades africanas antes da conquista europeia (1976); Jan Vansina. Reinos da Savana (1966); Boubacar

Barry. O Reino do Wallo (1970); Philip Curtin. O trafico escravista no Atlântico (1970) e Mudanças

econômicas na África Pré-colonial (1975); Joseph Greenberg. As línguas da África (1970); G. Connah. A

arqueologia do Benim (1975); D. W. Phillipson. A pré-história tardia no Nordeste e Sudeste da África

(1977); W. Y. Adams. Núbia: corredor da África (1977); Joseph Miller. Poder político e

parentesco(1974); T. Shaw. Igbo-Ukwu (1970); A. Hampaté Bã. O Império Peul de Macina (1955) e

Aspectos da civilização africana (1972); N. Levitzon. Antiga Gana e Mali (1973); Henri Brunschwig.

11

foi publicado o primeiro10 dos oito volumes da Cambridge History of Africa.

Paralelamente, entre 1965 e 1999, com a participação de mais de trezentos especialistas

em África, africanos e não africanos (sobretudo europeus e estadunidenses), a UNESCO

organizou e promoveu a publicação da ambiciosa História Geral da África, um ponto

de virada nos estudos sobre a história africana. Seus oito volumes, com cerca de 8.000

páginas, tornar-se-iam fonte obrigatória sobre o assunto.

A partir da década de 1980, com a ampliação ainda maior deste campo de

estudos, vê-se uma multiplicação de estudiosos, temas e métodos de trabalho. Isto

formou a História da África uma área disciplinar consolidada e internacionalmente

reconhecida. Desde então, como observa Henk Wesseling (1992, p. 111), o que se

constata nesta historiografia é que, por suas características próprias - sobretudo pelo fato

de suas fontes escritas serem em sua maioria exógenas -, a História da África tende a

seguir em muito as características atribuídas a Escola dos Annales e a nouvelle histoire:

uma história interdisciplinar, problematizada e totalizante. Afinal, para reconstruir o

passado africano era preciso aprender a reconstruir o passado de outras formas. E, estas

formas, não se restringem à África.

Tratou-se aí tanto de um avanço intelectual, quanto institucional, com a

formação de novas áreas de estudos historiográficos africanos, dentro e fora deste

continente. O objetivo deste trabalho é focar o marco fundamental desta transformação:

o projeto HGA.

O projeto História Geral da África

A ideia de uma História Geral da África teve sua origem no 1º. Congresso

Internacional dos Africanistas, realizado em Acra, capital de Gana, entre 11 e 18 de

Dezembro de 1962. Tratou-se de um grande evento que, com o suporte da UNESCO,

Partilha da África negra (1971); M. Mandami. Política e formação de classe em Uganda (1976); Y. M.

Kobishchanov. Axum (1979); Samir Amin. Neo-colonialismo na África Ocidental (1975) e O

desenvolvimento desigual: ensaio sobre as formações sociais do capitalismo periférico (1975); K. Y.

Daaku. Trocas comerciais e política na Costa do Ouro (1970); Ali Mazrui. Por uma pax africana (1967);

M. Crowder. A África Ocidental sob domínio colonial (1968) e, como editor, A resistência na África

Ocidental (1971); e muitos outros autores e textos. Títulos traduzidos em livre acepção.

10R. Gray (ed.). Cambridge History of Africa: from c. 1600 to c. 1790. Vol. 4 (1975)

12

reuniu cerca de quinhentos especialistas em África de todo o mundo. Ou melhor, a ideia

do projeto era provavelmente anterior. Todavia, ali se ratificou, de forma pública, o

desejo de construir, com a ajuda da UNESCO, um trabalho de cooperação científica

internacional, visando desenvolver a pesquisa histórica em África (UNESCO, 1966a,

pp. 1-2). Em 1963, a ideia do projeto foi retomada na reunião de fundação da

Organização da Unidade Africana (Vansina, 1993, p. 337). No ano seguinte, em 1964,

ela foi encaminhada e aprovada como um dos projetos de cooperação científica

internacional da 16ª. Conferência Geral da UNESCO. Desde então, portanto, se iniciou

o projeto História Geral da África, propriamente dito.

Desde seu início, havia duas razões que justificavam a participação da UNESCO

no projeto da HGA. Em primeiro lugar, tal instituição já estava à época voltada para a

intensificação do seu trabalho na África. Isso é evidente, por exemplo, nas deliberações

da 15ª. Conferência Geral da UNESCO, em 1960, por mais esforços pela educação no

continente. O apoio da UNESCO ao referido Congresso dos Africanistas fazia parte

deste objetivo maior. Este, por sua vez, era um direcionamento que respondia à

integração de uma grande quantidade de países africanos nos seus quadros. Sobretudo

os recém-independentes, no início de 1960. Basta lembrar que, em 1960, existiam

apenas nove países africanos na UNESCO; enquanto que, em 1963, este número já

havia subido para trinta e dois. A outra razão é que a UNESCO poderia dar o respaldo

institucional e financeiro que o projeto exigia. Afinal, desde seu início ele foi pensado

como um trabalho científico internacional de grande envergadura.

Três motivos principais justificavam a criação do projeto da HGA, segundo seus

idealizadores. Em primeiro lugar, havia o perigo de que as fontes para a história da

África se perdessem definitivamente, tanto as fontes escritas, quanto as orais. E tal fato

poderia ser revertido, em parte, com a coleta de fontes e organização dos arquivos em

África. Eles poderiam acomodar a documentação existente, e aquela que ainda estar-se-

ia por investigar. Mas isto deveria ser feito rapidamente. Em segundo lugar, havia o

desejo de que HGA pudesse sintetizar o conhecimento sobre o continente, ainda

disperso e mal distribuído no tempo e espaço. Só assim se teria clareza das lacunas a

serem pesquisadas. Por fim, havia o desejo de que a HGA pudesse impulsionar uma

escrita da história que superasse os preconceitos colonialistas sobre o continente,

trabalhando para mostrar as contribuições africanas para a civilização em geral. Algo

13

visto como sumamente necessário às nações africanas, no período pós-colonial, que se

instaurava na África (UNESCO, 1966a, p.1).

Ao tornar-se o orgão gestor da HGA, em 1964, a UNESCO assumia o apoio

institucional, administrativo e financeiro do projeto. Na prática, entretanto, como

veremos, ele foi construído de forma autônoma, por uma comissão de especialistas de

notório saber sobre a temática.

Os pontos primordiais do projeto da HGA são firmados na Apresentação do

projeto, de 1979, assinada pelo então presidente do Comitê, o historiador Betwhell

Ogot.

1) Em que pese visar a melhor qualidade científica possível, a História

Geral da África não busca a exaustão e se pretende uma obra de

síntese que evitará o dogmatismo. Sob muitos aspectos, ela constitui

uma exposição de problemas indicadores do estádio atual dos

conhecimentos e das grandes correntes de pensamento e pesquisa, não

hesitando em assinalar, em tais circunstâncias, as divergências de

opinião. Ela assim preparará o caminho para posteriores publicações.

2) A África aqui é considerada com um todo. O objetivo é mostrar as

relações históricas entre as diferentes partes do continente, muito

amiúde subdividido, nas obras publicadas até o momento. Os laços

históricos da África com os demais continentes recebem a atenção

merecida, e são analisados no âmbito dos intercâmbios mútuos e das

influências multilaterais, de forma a fazer ressurgir, oportunamente, a

contribuição da África para o desenvolvimento da humanidade.

3) A História Geral da África consiste, antes de tudo, uma história de

ideias e de civilizações, das sociedades e das instituições. Ela

fundamenta-se sobre uma grande diversidade de fontes, aqui

compreendidas a tradição oral e a expressão artística.

4) A História Geral da África é aqui essencialmente examinada desde

seu interior. Obra erudita, ela também é, em larga medida, o fiel

reflexo da maneira através da qual os autores africanos veem sua

própria civilização. Embora elaborada em âmbito internacional e

recorrendo a todos os dados científicos atuais, a História será

igualmente um elemento capital para o reconhecimento do patrimônio

cultural africano, evidenciando os fatores que contribuem para a

unidade do continente. Esse esforço em examinar os fatos a partir de

seu interior constitui o ineditismo da obra e poderá, além de suas

qualidades científicas, conferir-lhe um grande valor de atualidade. Ao

evidenciar a verdadeira face da África, a História poderia, em uma

época dominada por rivalidades econômicas e técnicas, propor uma

concepção particular dos valores humanos (B. Ogot, 2010a, p.

XXVII)

14

Esta tese visa analisar este último ponto da HGA. Isto, tanto na problematização

de sua significação teórica, quanto nas consequências daí derivadas, para a construção

da história da África, nos oito volumes da obra. O que aqui se chama de “perspectiva

africana” da HGA é um tipo de interpretação historiográfica derivada de uma análise

deste último ponto. Para tanto, faz-se necessário explicar a ordem de exposição e os

procedimentos metodológicos que guiam este trabalho.

Metodologia

Para embasar tal análise da HGA, esta tese seguirá a seguinte divisão. No

primeiro capítulo tratar-se-á de problematizar esta “perspectiva africana” da obra,

levantada na Apresentação de B. Ogot. Para isto seguir-se-á dois caminhos.

Inicialmente, se buscará as origens e a importância deste ideal da “perspectiva africana”

na organização e construção do projeto, entre 1965-79; período crucial de realização da

obra. Posteriormente, apresentar-se-á a definição desta “perspectiva africana”, que

servirá de base para a análise subseqüente da escrita da história da África na HGA.

Os demais capítulos (2, 3 e 4) desta tese analisarão, de forma imanente e

pormenorizada, como esta “perspectiva africana” pode ser encontrada em três

abordagens diferentes da história da África, na HGA: a) difusionismo intra-africano; b)

sujeito africano; c) regionalismo. A ordem desta exposição, nos próximos capítulos, está

construída conforme o espaço ocupado por cada uma destas abordagens dentro da

própria HGA. Por isto, a análise, no segundo capítulo, se inicia com o difusionismo

intra-africano. Posteriormente, no terceiro capítulo, analisar-se-á o tipo de história da

África derivado do sujeito africano, e, finalmente, no quarto capítulo, o regionalismo.

Por fim, se farão algumas considerações finais sobre a temática, analisando as