A Arte da Felicidade por Dalai Lama & Howard C. Cutler - Versão HTML

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A ARTE

DA FELICIDADE

Um manual para a vida

DE SUA SANTIDADE,

O DALAI-LAMA

e

HOWARD C. CUTLER

Tradução

WALDÉA BARCELLOS

2

Esta obra foi publicada originalmente em inglês com o título

THE ART OF HAPPINESS par Riverhead Books.

Copyright © 1998 by HH Dalai Lama and Howard C. Cutler, M.D.

Copyright © Livraria Martins Fontes Editora Ltda.

São Paulo. 2000, para a presente edição.

1ª edição 2000

14ª tiragem 2008

Tradução

WALDÉA BARCELLOS

Revisão gráfica

Ivany Picasso Batitsta

Márcia da Cruz Nóboa Leme

Produção gráfica

Geraldo Alves

Paginação/Fotolitos

Studio 3 Desenvolvimento Editorial

Capa

Lisa Amoroso

Foto da Capa

His Holiness the Dalai Lama © Dan Farber

Bstan-'dzin-rgya-mtsho, Dalai Lama XIV, 1935-

A arte da felicidade: um manual para a vida / de sua santidade o

Dalai Lama e Howard C. Cutler; tradução Waldéa Barrellos.

— São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Título original: The art of happiness.

ISBN 85-336-1201-X

1. Budismo – Doutrinas 2. Felicidade – Aspectos religiosos –

Budismo 3. Vida religiosa – Budismo I. Cutler, Howard C. II. Título.

00-0290

CDD- 294.3444

Índices para catálogo sistemático:

1. Vida religiosa: Budismo 294.3444

Todos os direitos para o Brasil reservados à

Livraria Martins Fontes Editora Ltda.

Rua Conselheiro Ramalho, 330 01325-00 São Paulo SP Brasil

Tel. (11) 3241-3677 Fax (11) 3105-6993

e-mail: info@martinsfonteseditora.com.br http://www.martinsfonteseditora.com

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Dedicado ao leitor:

Que você encontre a felicidade

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INDICE

Nota do autor IX

Introdução 1

PRIMEIRA PARTE: O PROPÓSITO DA VIDA 11

Capítulo 1 O direito à felicidade 1,3

Capítulo 2 As fontes da felicidade 20

Capítulo 3 O treinamento da mente para a felicidade 41

Capítulo 4 O resgate do nosso estado inato de felicidade 58

SEGUNDA PARTE: O CALOR HUMANO E A COMPAIXÀO 73

Capítulo 5 Um novo modelo para a intimidade 75

Capítulo 6 O aprofundamento da nossa ligação com os outros 95

Capítulo 7 O valor e os benefícios da compaixão 127

TERCEIRA PARTE: A TRANSFORMAÇÃO

DO SOFRIMENTO 147

Capítulo 8 Como encarar o sofrimento 149

Capítulo 9 O sofrimento criado pela própria pessoa 168

Capítulo 10 A mudança de perspectiva 194

Capítulo 11 A descoberta do significado na dor e no sofrimento 225

QUARTA PARTE:

A SUPERAÇÃO DE OBSTÁCULOS 2415

Capítulo 12 A realização de mudanças 247

Capítulo 13 Como lidar com a raiva e o ódio 278

Capítulo 14 Como lidar com a ansiedade e reforçar o amor-próprio 297

5

QUINTA PARTE:

REFLEXÕES FINAIS SOBRE COMO LEVAR UMA VIDA

ESPIRITUAL 329

Capítulo 15 Valores espirituais essenciais 331

Agradecimentos 359

Obras selecionadas de autoria de Sua Santidade, o Dalai-Lama 363

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NOTA DO AUTOR

este livro estão relatadas longas conversas com o Dalai-Lama.

NOs encontros pessoais com o Dalai-Lama no Arizona e na Índia,

que constituem a base desta obra, foram realizados com o objetivo expresso

da colaboração num projeto que apresentaria suas opiniões sobre como

levar uma vida mais feliz, acrescidas das minhas próprias observações e

comentários a partir da perspectiva de um psiquiatra ocidental. O Dalai-

Lama permitiu com generosidade que eu escolhesse para o livro o formato

que a meu ver transmitiria melhor suas idéias. Considerei que a narrativa

encontrada nestas páginas proporcionaria uma leitura mais agradável e ao

mesmo tempo passaria uma noção de como o Dalai-Lama põe em prática

suas idéias na própria vida diária. Com a aprovação do Dalai-Lama,

organizei este livro de acordo com o tema tratado; e assim, ocasionalmente,

decidi combinar e associar material que pode ter sido extraído de conversas

variadas. Da mesma forma, também com a permissão do Dalai-Lama, nos

trechos em que considerei necessário para fins de clareza e compreensão,

entremeei trechos de algumas das suas palestras ao público no Arizona. O

intérprete do Dalai-Lama, o dr. Thupten Jinpa, gentilmente fez a revisão da

versão final dos originais com o intuito de se assegurar de que não

houvesse, em decorrência do processo de organização, nenhuma distorção

inadvertida das idéias do Dalai-Lama.

Uma série de descrições de casos e relatos pessoais foi apresentada

para ilustrar as idéias em pauta. Com o objetivo de manter a

confidencialidade e proteger a privacidade dos envolvidos, em todos os

casos alterei os nomes, detalhes e outras características particulares, de

modo que impedisse a identificação dos indivíduos.

DR. HOWARD C. CUTLER

7

INTRODUÇÃO

ncontrei o Dalai-Lama sozinho num vestiário de basquetebol

Epouco antes da hora em que se apresentaria para falar a uma

multidão de seis mil pessoas na Arizona State University. Bebericava

calmamente seu chá, em perfeita serenidade.

— Se Vossa Santidade estiver pronto...

Ele se levantou, animado, e saiu do vestiário sem hesitar, dando com a

turba apinhada nos bastidores, composta de repórteres da cidade,

fotógrafos, seguranças e estudantes — os que procuram, os curiosos e os

céticos. Caminhou em meio à multidão com um largo sorriso; e

cumprimentava as pessoas à medida que avançava. Finalmente, passou por

uma cortina” apareceu no palco, fez uma reverência, uniu as mãos e sorriu.

Foi recebido com um aplauso ensurdecedor. A pedido seu, a iluminação

não foi reduzida, de modo que ele pudesse ver a platéia com nitidez. E, por

alguns instantes, ficou simplesmente ali parado, observando o público em

silêncio com uma expressão inconfundível de carinho e boa vontade. Para

quem nunca tinha visto o Dalai-Lama antes, suas vestes de monge de um

marrom-avermelhado e da cor do açafrão podem ter causado uma

impressão um pouco exótica. No entanto, sua notável capacidade para

estabelecer contato com o público logo se revelou quando ele sentou e

começou a palestra.

— Creio ser esta a primeira vez que vejo a maioria de vocês. Mas,

para mim, não faz mesmo muita diferença se estou falando com um velho

amigo ou com um novo porque sempre acredito que somos iguais: somos

todos seres humanos. É claro que pode haver diferenças de formação

cultural ou estilo de vida; pode haver diferenças quanto à nossa fé; ou

podemos ser de uma cor diferente; mas somos seres humanos, constituídos

do corpo humano e da mente humana. Nossa estrutura física é a mesma; e

nossa mente e nossa natureza emocional também são as mesmas. Onde

quer que eu conheça pessoas, sempre tenho a sensação de estar me

encontrando com outro ser humano, exatamente igual a mim. Creio ser

muito mais fácil a comunicação com os outros nesse nível. Se dermos

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ênfase a características específicas, como a de eu ser tibetano ou de ser

budista, nesse caso há diferenças. Mas esses aspectos são secundários. Se

conseguirmos deixar de lado as diferenças, creio que poderemos nos

comunicar, trocar idéias e compartilhar experiências com facilidade.

Foi assim que, em 1993, o Dalai-Lama deu início a uma semana de

palestras abertas ao público no Arizona. Planos para sua visita ao Arizona

haviam começado a se delinear mais de dez anos antes. Foi naquela época

que nos conhecemos, quando eu estava visitando Dharamsala, na índia,

graças a uma pequena bolsa de pesquisa para estudar a medicina tradicional

tibetana. Dharamsala é um lugarejo lindo e tranqüilo, empoleirado na

encosta de um monte nos contrafortes do Himalaia. Há quase quarenta

anos, essa é a sede do governo tibetano no exílio, desde quando o Dalai-

Lama, acompanhado por cem mil tibetanos, fugiu do Tibete após a brutal

invasão pelas forças chinesas. Durante minha estada em Dharamsala,

conheci alguns familiares do Dalai-Lama; e foi através desses familiares

que foi marcado meu primeiro encontro com ele.

Em sua palestra ao público em 1993, o Dalai-Lama falou da

importância do relacionar-se como um ser humano diante de outro; e era

essa mesma qualidade que havia sido a característica mais surpreendente da

nossa primeira conversa na sua casa em 1982. Ele parecia ter uma

capacidade incomum para deixar as pessoas totalmente à vontade, para

criar com rapidez um vínculo simples e direto com outro ser humano.

Nosso primeiro encontro durou cerca de quarenta e cinco minutos; e, como

tantas outras pessoas, saí daquele primeiro encontro com excelente estado

de espírito, com a impressão de ter acabado de conhecer um homem

verdadeiramente extraordinário.

Com o passar dos anos, à medida que meu contato com o Dalai-Lama

se ampliou, vim aos poucos a perceber suas numerosas qualidades

especiais. Ele dispõe de uma inteligência perspicaz, mas sem artifícios;

uma benevolência, mas sem sentimentalismo em excesso; um humor

maravilhoso, mas sem frivolidade; e, como muitos descobriram, a

capacidade de inspirar as pessoas em vez de intimidá-las.

Convenci-me, com o tempo, de que o Dalai-Lama havia aprendido a

viver com uma noção de realização pessoal e um nível de serenidade que

eu nunca tinha visto em outras pessoas. Determinei-me a identificar os

princípios que lhe permitiam conseguir isso. Embora ele seja um monge

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budista com toda uma vida de estudos e formação budistas, comecei a me

perguntar se seria possível isolar um conjunto das suas crenças ou práticas

que pudesse ser utilizado por não-budistas também — práticas que

pudessem ter aplicação direta à nossa vida, para simplesmente nos ajudar a

ser mais felizes, mais fortes, talvez a ter menos medo.

Acabei tendo a oportunidade de examinar suas opiniões em maior

profundidade em encontros diários com ele durante sua estada no Arizona

e, dando continuidade a essas conversas, em outras mais longas na sua casa

na Índia. Enquanto trocávamos idéias, logo descobri que havia alguns

obstáculos a superar no esforço para harmonizar nossas perspectivas

diferentes: a dele a de um monge budista, a minha a de um psiquiatra

ocidental. Comecei uma das nossas primeiras sessões, por exemplo,

propondo-lhe certos problemas humanos comuns, que ilustrei com alguns

relatos cansativos sobre casos reais. Depois de descrever itma mulher que

persistia em comportamentos autodestrutivos apesar do tremendo impacto

negativo sobre sua vida, perguntei-lhe se ele teria uma explicação para esse

comportamento e que conselho poderia oferecer. Fiquei pasmo quando,

depois de uma longa pausa para reflexão, ele simplesmente disse que não

sabia e, dando de ombros, soltou uma risada afável.

Ao perceber meu ar de surpresa e decepção por não receber uma

resposta mais concreta, o Dalai-Lama explicou:

— Às vezes é muito difícil explicar por que as pessoas fazem o que

fazem... Com freqüência, a conclusão é que não há explicações simples. Se

entrássemos nos detalhes da vida de cada indivíduo, tendo em vista como a

mente do ser humano é tão complexa, seria muito difícil compreender o

que está acontecendo, o que ocorre exatamente.

Achei que ele estava usando evasivas.

— Mas, na qualidade de psicoterapeuta, minha função é descobrir os

motivos pelos quais as pessoas fazem o que fazem...

Mais uma vez, ele caiu naquela risada que muitas pessoas consideram

extraordinária — um riso impregnado de humor e boa vontade, sem

afetação, sem constrangimento, que começa com uma ressonância grave e,

sem esforço, sobe algumas oitavas para terminar num tom agudo de prazer.

— Considero extremamente difícil tentar descobrir como funciona a

mente de cinco bilhões de pessoas — disse ele, ainda rindo. — Seria uma

tarefa impossível! Do ponto de vista do budismo, são muitos os fatores que

10

contribuem para um dado acontecimento ou situação... Na realidade, pode

haver tantos fatores em jogo que às vezes é possível que nunca se tenha

uma explicação completa para o que está acontecendo, pelo menos não em

termos convencionais.

Ao perceber uma certa perturbação de minha parte, ele prosseguiu

com suas observações.

— No esforço de determinar a origem dos problemas de cada um,

parece que a abordagem ocidental difere sob muitos aspectos do enfoque

budista. Subjacente a todas as variedades de análise ocidental, há suma

tendência racionalista muito forte, um pressuposto de que tudo pode ser

explicado. E ainda por cima existem restrições decorrentes de certas

premissas tidas como Ilíquidas e certas. Por exemplo, eu recentemente me

reuni com alguns médicos numa faculdade de medicina. Estavam falando

sobre o cérebro e afirmaram que os pensamentos e os sentimentos resultam

de diferentes reações e alterações químicas no cérebro. Por isso, propus

uma pergunta. É possível conceber a seqüência inversa, na qual o

pensamento dê ensejo à seqüência de ocorrências químicas no cérebro?

Mas a parte que considerei mais interessante foi a resposta dada pelo

cientista. “Partimos da premissa de que todos os pensamentos são produtos

ou funções de reações químicas no cérebro.” Quer dizer que se trata

simplesmente de uma espécie de rigidez, uma decisão de não questionar o

próprio modo de pensar.

Ficou calado por um instante e depois prosseguiu.

— Creio que na sociedade ocidental moderna parece haver um forte

condicionamento cultural baseado na ciência. No entanto, em alguns casos,

as premissas e os parâmetros básicos apresentados pela ciência ocidental

podem limitar sua capacidade para lidar com certas realidades. Por

exemplo, vocês sofrem as limitações da idéia de que tudo pode ser

explicado dentro da estrutura de uma única vida; e ainda associam a isso a

noção de que tudo pode e deve ser explicado e justificado. Porém, quando

deparam com fenômenos que não conseguem explicar, cria-se uma espécie

de tensão. É quase uma sensação de agonia.

Muito embora eu percebesse que havia alguma verdade no que ele

dizia, de início considerei difícil aceitar suas palavras.

— Bem, na psicologia ocidental, quando deparamos com

comportamentos humanos que na superfície são difíceis de explicar, temos

11

algumas abordagens que podemos utilizar para entender o que está

ocorrendo. Por exemplo, a idéia do aspecto inconsciente ou subconsciente

da mente tem um papel de destaque. Para nós, às vezes, o comportamento

pode resultar de processos psicológicos dos quais não estamos conscientes.

Por exemplo, poderíamos agir de uma determinada forma a fim de evitar

um medo oculto. Sem que percebamos, certos comportamentos podem ser

motivados pelo desejo de impedir que esses temores venham à tona no

consciente, para que não tenhamos de sentir o mal-estar associado a eles.

O Dalai-Lama refletiu por um instante antes de responder.

— No budismo, existe a idéia de disposições e registros deixados por

certos tipos de experiência, o que é meio parecido com a noção do

inconsciente na psicologia ocidental. Por exemplo, um determinado tipo de

acontecimento pode ter ocorrido num período anterior na sua vida e ter

deixado um registro muito forte na sua mente, registro este que pode

permanecer oculto e mais tarde afetar seu comportamento. Portanto, há

essa idéia de algo que pode ser inconsciente: registros dos quais a pessoa

pode nem ter consciência. Seja como for, creio que o budismo tem como

aceitar muitos dos fatores que os teóricos ocidentais podem apresentar, mas

a esses ele somaria outros fatores. Por exemplo, ele acrescentaria o

condicionamento e os registros de vidas passadas. já na psicologia

ocidental há na minha opinião uma tendência a superestimar o papel do

inconsciente na procura das origens dos problemas de cada um. A meu ver,

isso deriva de alguns pressupostos básicos a partir dos quais a psicologia

ocidental opera. Por exemplo, ela não aceita a idéia de que registros

possam ser herdados de uma vida passada. E ao mesmo tempo há um

pressuposto de que tudo deve ser explicado dentro do período desta vida.

Assim, quando não se consegue explicar o que está provocando certos

comportamentos ou problemas, a tendência é sempre atribuir o motivo ao

inconsciente. É mais ou menos como se a pessoa tivesse perdido algum

objeto e decidisse que esse objeto estaria nesta sala. E, uma vez que se

tenha tomado essa decisão, já se fixaram os parâmetros. já se excluiu a

possibilidade de o objeto estar fora daqui ou em outro aposento. Com isso,

a pessoa não pára de procurar, mas não encontra nada. E, mesmo assim,

continua a pressupor que o objeto ainda esteja escondido em algum lugar

neste recinto!

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Quando comecei a conceber este livro, imaginei um formato

convencional de auto-ajuda no qual o Dalai-Lama apresentaria soluções

claras e simples para todos os problemas da vida. Minha impressão era que

eu poderia, recorrendo à minha formação em psiquiatria, classificar suas

opiniões num conjunto de instruções fáceis sobre como conduzir a vida no

dia-a-dia. Antes do final da nossa série de encontros, eu já havia desistido

da idéia. Descobri que seu enfoque abrangia um paradigma muito mais

amplo e multifacetado, que englobava todas as sutilezas, a riqueza e a

complexidade que a vida tem a oferecer.

Aos poucos, porém, comecei a ouvir a nota única que ele

constantemente fazia soar. É uma nota de esperança. Sua esperança tem

como base a crença de que, embora não seja fácil alcançar a felicidade

genuína e duradoura, mesmo assim, ela é algo que se pode realizar.

Subjacente a todos os métodos do Dalai-Lama há um sistema básico de

crenças que funciona como um substrato para todos os seus atos: a crença

na docilidade e bondade essencial de todos os seres humanos, a crença no

valor da compaixão, a crença numa política de benevolência e uma

percepção do que há de comum entre todas as criaturas vivas.

À medida que sua mensagem se revelava, foi ficando cada vez mais

claro que suas crenças não se baseiam na fé cega ou no dogma religioso

mas, sim, no raciocínio sólido e na experiência direta. Sua compreensão da

mente e do comportamento humano tem como sustentação toda uma vida

de estudos. Suas opiniões estão enraizadas numa tradição que remonta a

mais de dois mil e quinhentos anos e no entanto é amenizada pelo bom

senso e por uma sofisticada compreensão dos problemas modernos. Sua

apreciação de questões contemporâneas moldou-se a partir da posição

singular que ele ocupa como figura mundial, o que lhe permitiu viajar pelo

mundo muitas vezes, expondo-se a muitas culturas diferentes e a pessoas

de todos os campos de atuação, trocando idéias com cientistas de renome,

bem como com líderes religiosos e políticos. O que surge, em última

análise, é um enfoque cheio de sabedoria para lidar com os problemas

humanos, uma abordagem ao mesmo tempo otimista e realista.

Neste livro, procurei apresentar a abordagem do Dalai-Lama a um

público essencialmente ocidental. Nele incluí longos trechos dos seus

ensinamentos públicos e das nossas conversas particulares. Em obediência

13

ao meu objetivo de procurar dar mais ênfase ao material que for mais

aplicável à nossa vida no dia-a-dia, em certas passagens preferi omitir

partes das palestras do Dalai-Lama que se dedicavam a alguns dos aspectos

mais filosóficos do budismo tibetano. O Dalai-Lama já escreveu uma série

de livros excelentes a respeito de vários aspectos do caminho budista.

Podem-se encontrar títulos selecionados no final deste livro, e quem estiver

interessado num estudo mais profundo do budismo tibetano encontrará

muita informação de valor nesses livros.

14

Primeira Parte

O PROPÓSITO

DA VIDA

15

Capítulo 1

O DIREITO A FELICIDADE

ara mim o próprio objetivo da vida é perseguir a

— Pfelicidade. Isso está claro. Se acreditamos em religião,

ou não; se acreditamos nesta religião ou naquela; todos estamos procurando

algo melhor na vida. Por isso, para mim, o próprio movimento da nossa

vida é no sentido da felicidade...

Com essas palavras, pronunciadas diante de uma platéia numerosa no

Arizona, o Dalai-Lama expôs o cerne da sua mensagem. No entanto, sua

afirmação de que o propósito da vida era a felicidade levantou na minha

cabeça uma questão.

— O senhor é feliz? — perguntei-lhe mais tarde, quando estávamos

sozinhos.

— Sou — respondeu ele e depois acrescentou. — Decididamente...

sou. — Havia na sua voz uma sinceridade tranqüila que não deixava

dúvidas, uma sinceridade que se refletia na sua expressão e nos seus; olhos.

— Mas será que a felicidade é um objetivo razoável para a maioria de

nós? — perguntei. — Será que ela é realmente possível?

— É. Para mim, a felicidade pode ser alcançada através do

treinamento da mente.

Num nível básico de ser humano, eu não podia deixar de me

sensibilizar com a idéia da felicidade como um objetivo atingível. Como

psiquiatra, porém, eu estava sobrecarregado com idéias como a opinião de

Freud de que se sente a “propensão a dizer que a intenção de que o homem

seja 'feliz' não faz parte dos planos da 'Criação'”. Esse tipo de formação

levou muitos na minha profissão à conclusão sombria de que o máximo que

se poderia esperar era “a transformação da aflição histérica em mera

infelicidade”. A partir dessa perspectiva, a afirmação de que havia um

caminho bem definido até a felicidade parecia ser uma idéia totalmente

radical. Quando voltei meu olhar para os anos que passei na formação

psiquiátrica, raramente consegui me lembrar de ter ouvido a palavra

16

“felicidade” ser sequer mencionada como objetivo terapêutico.

Naturalmente, havia bastante conversa sobre o alívio dos sintomas de

depressão ou ansiedade do paciente, de resolver conflitos interiores ou

problemas de relacionamento; mas jamais com o objetivo expresso de

tornar o paciente feliz.

No Ocidente, o conceito de alcançar a verdadeira felicidade sempre

pareceu mal definido, impalpável, esquivo. Até mesmo a palavra happy é

derivada do termo happ em islandês, que significa sorte ou oportunidade.

Parece que a maioria de nós encara da mesma forma a misteriosa natureza

da felicidade. Naqueles momentos de alegria que a vida proporciona, a

felicidade dá a impressão de ser algo que caiu do céu. Para minha cabeça

de ocidental, ela não parecia ser o tipo de aspecto que se pudesse

desenvolver e sustentar, apenas com o “treinamento da mente”.

Quando levantei essa objeção, o Dalai-Lama deu a explicação de

imediato.

— Quando falo em “treinar a mente” neste contexto, não estou me

referindo à “mente” apenas como a capacidade cognitiva da pessoa ou seu

intelecto. Estou, sim, usando o termo no sentido da palavra Sem, em

tibetano, que tem um significado muito mais amplo, mais próximo de

“psique” ou “espírito”; um significado que inclui o intelecto e o

sentimento, o coração e a mente. Por meio de uma certa disciplina interior,

podemos sofrer uma transformação da nossa atitude, de todo o nosso modo

de encarar e abordar a vida.

“Quando falamos dessa disciplina interior, é claro que ela pode

envolver muitos aspectos, muitos métodos. Mas em geral começa-se

identificando aqueles fatores que levam à felicidade e aqueles que levam ao

sofrimento. Depois desse estágio, passa-se gradativamente a eliminar os

que levam ao sofrimento e a cultivar os que conduzem à felicidade. É esse

o caminho.”

O Dalai-Lama afirma ter atingido certo grau de felicidade pessoal. E,

ao longo da semana que passou no Arizona, eu testemunhei com freqüência

como essa felicidade pessoal pode se manifestar como uma simples

disposição para entrar em contato com o outro, para gerar uma sensação de

afinidade e boa vontade, até mesmo nos encontros mais curtos.

17

Um dia de manhã, depois da sua palestra aberta ao público, o Dalai-

Lama seguia por um pátio externo no caminho de volta ao seu quarto no

hotel, cercado pelo séquito de costume. Ao perceber uma camareira do

hotel parada perto dos elevadores, ele parou para perguntar de onde ela era.

Por um instante, ela pareceu surpresa com aquele homem de aparência

exótica, de vestes marrom-avermelhadas, e demonstrou estar intrigada com

a deferência do séquito. Depois, ela sorriu.

— Do México — respondeu com timidez. O Dalai-Lama fez uma

rápida pausa para falar alguns instantes com ela e então seguiu adiante,

deixando-a com uma expressão de enlevo e prazer. No dia seguinte, à

mesma hora, ela apareceu no mesmo local com outra integrante da equipe

de camareiras, e as duas o cumprimentaram calorosamente enquanto ele ia

entrando no elevador. A interação foi rápida, mas as duas pareciam

radiantes de felicidade enquanto voltavam ao trabalho. Todos os dias daí

em diante, reuniam-se a elas mais algumas camareiras no local e horário

designado, até que no final da semana já havia ali dezenas de camareiras,

nos seus uniformes engomados em cinza e branco, formando uma linha de

recepção que se estendia ao longo do trajeto até os elevadores.

Nossos dias são contados. Neste exato momento, muitos milhares de

pessoas vêm ao mundo, algumas fadadas a viver apenas alguns dias ou

semanas, para depois sucumbirem tragicamente com alguma doença ou

outra desgraça. Outras estão destinadas a abrir caminho até a marca dos

cem anos, talvez até a ultrapassá-la um pouco, e a provar cada sabor que a

vida tem a oferecer: a vitória, o desespero, a alegria, o ódio e o amor.

Nunca sabemos. Quer vivamos um dia, quer um século, sempre resta uma

pergunta crucial: qual é o propósito da vida? O que confere significado à

nossa vida?

O propósito da nossa existência é buscar a felicidade. Parece senso

comum, e pensadores ocidentais como Aristóteles e William James

concordaram com a idéia. No entanto, será que uma vida baseada na busca

da felicidade pessoal não seria, em si, egocêntrica, até mesmo comodista?

Não necessariamente. Na realidade, pesquisas e mais pesquisas revelaram

que são as pessoas infelizes que costumam ser mais centradas em si

mesmas e que, em termos sociais, com freqüência são retraídas,

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ensimesmadas e até mesmo hostis. Já as pessoas felizes são em geral

consideradas mais sociáveis, flexíveis, criativas e capazes de suportar as

frustrações diárias com maior facilidade do que as infelizes. E, o que é mais

importante, considera-se que sejam mais amorosas e dispostas ao perdão do

que as infelizes.

Pesquisadores desenvolveram algumas experiências interessantes que

revelaram que as pessoas felizes demonstram um certo tipo de abertura,

uma disposição a estender a mão e ajudar os outros. Eles conseguiram, por

exemplo, induzir um estado de espírito de felicidade numa pessoa que se

submeteu ao teste, criando uma situação em que ela inesperadamente

encontrava dinheiro numa cabine telefônica. Fingindo ser um

desconhecido, um dos participantes da experiência passou então por ali e

deixou cair “acidentalmente” uma pilha de papéis. Os pesquisadores

queriam saber se o objeto da experiência pararia para ajudar o

desconhecido.

Em outra situação, levantou-se o ânimo dos objetos da experiência

com um disco de piadas, e eles depois foram abordados por alguém que

passava por necessidade (também de conluio com os pesquisadores) e

queria apanhar dinheiro emprestado. Os pesquisadores concluíram que os

objetos da experiência que estavam se sentindo felizes tinham maior

probabilidade de ajudar alguém ou de emprestar dinheiro do que indivíduos

num “grupo de controle”, a quem era apresentada a mesma oportunidade de

ajudar, mas cujo estado de espírito não havia sido estimulado com

antecedência.

Embora esses tipos de experiência contradigam a noção de que a

procura e a realização da felicidade pessoal de algum modo levam ao

egoísmo e ao ensimesmamento, todos nós podemos conduzir nossa própria

experiência no laboratório do nosso próprio dia-a-dia. Suponhamos, por

exemplo, que estejamos parados num congestionamento.

Depois de vinte minutos, o trânsito volta a fluir, ainda a uma

velocidade muito baixa. Vemos alguém em outro carro fazendo sinais de

que quer passar para nossa faixa à nossa frente. Se estivermos de bem com

a vida, é maior a probabilidade de reduzirmos a velocidade para deixar a

pessoa entrar. Se estivermos nos sentindo péssimos, nossa reação pode ser

simplesmente a de aumentar a velocidade e fechar o espaço. “Ora, se eu

19

estou aqui parado esperando todo esse tempo, por que os outros não podem

esperar?”

Partimos, então, da premissa básica de que o propósito da nossa vida é

a busca da felicidade. É uma visão da felicidade como um objetivo

verdadeiro, um objetivo para a realização do qual podemos dar passos

positivos. E, à medida que começarmos a identificar os fatores que levam a

uma vida mais feliz, estaremos aprendendo como a busca da felicidade

oferece benefícios não só ao indivíduo, mas à família do indivíduo e

também à sociedade como um todo.

20

Capítulo 2

AS FONTES DA FELICIDADE

ois anos atrás, uma amiga minha teve um ganho inesperado. Um

Dano e meio antes daquela época, ela havia abandonado o

emprego de enfermeira, para ir trabalhar para dois amigos que estavam

abrindo uma pequena empresa de atendimento de saúde. A companhia teve

um sucesso meteórico e em um ano e meio foi comprada por um grande

conglomerado por um valor altíssimo. Tendo participado da empresa desde

o início, minha amiga saiu da venda cheia de opções de compra de ações —

o suficiente para conseguir aposentar-se aos trinta e dois anos de idade. Eu

a vi há não muito tempo e perguntei se estava gostando de estar

aposentada.

— Bem — disse ela — é ótimo poder viajar e fazer o que eu sempre

quis fizer. Mas o estranho é que, depois que me recuperei da emoção de

ganhar todo aquele dinheiro, as coisas mais ou menos voltaram ao normal.

Quer dizer, tudo está diferente comprei uma casa nova e tudo o mais, mas

em geral ache que não estou muito mais feliz do que era antes.

Por volta da mesma época em que minha amiga estava recebendo os

lucros inesperados, outro amigo da mesma idade descobriu que era

soropositivo. Nós conversamos sobre como ele estava lidando com seu

estado.

— É claro que a princípio fiquei arrasado — disse ele. E demorei

quase um ano só para aceitar o fato de estar com o vírus. Mas ao longo do

último ano, as coisas mudaram. Parece que aproveito cada dia mais do que

jamais aproveitei antes. E, se analisarmos de momento a momento, estou

mais feliz agora do que nunca fui. Parece simplesmente que aprecio mais o

dia-a-dia; e sinto gratidão por não ter até agora apresentado nenhum

sintoma grave da AIDS e por poder realmente aproveitar o que tenho. E,

muito embora eu preferisse não ser soropositivo, devo admitir que, sob

certos aspectos, a doença transformou minha vida... para melhor...

— Em que ternos? — perguntei.

21

— Bem, por exemplo, você sabe que eu sempre tive a tendência a ser

um materialista inveterado. Só que ao longo do último ano, a procura da

aceitação da minha mortalidade descortinou todo um mundo novo.

Comecei a explorar a espiritualidade pela primeira vez na minha vida,

lendo um monte de livros e conversando com as pessoas... descobrindo

tantas coisas nas quais nunca havia pensado antes. Fico empolgado só de

acordar de manhã, de pensar no que o dia pode me trazer.

Essas duas pessoas ilustram o ponto essencial de que a felicidade é

determinada mais pelo estado mental da pessoa do que por acontecimentos

externos. O sucesso pode produzir uma sensação temporária de enlevo, ou

a tragédia pode nos mandar para um período de depressão, mas mais cedo

ou mais tarde nosso nível geral de felicidade acaba migrando de volta para

uma certa linha de referência. Os psicólogos chamam esse processo de

adaptação; e nós podemos ver como esse princípio atua no nosso dia-a-dia.

Um aumento, um carro novo ou um reconhecimento por parte dos colegas

podem nos deixar animados por um tempo; mas logo voltamos ao nosso

nível costumeiro de felicidade. Da mesma forma, uma discussão com um

amigo, um automóvel na oficina ou um pequeno ferimento podem nos

deixar de péssimo humor, mas em questão de dias nosso espírito volta ao

que era antes.

Essa tendência não se limita a acontecimentos triviais, de rotina, mas

persiste mesmo sob condições mais extremas de sucesso ou catástrofe.

Pesquisadores que estudavam os ganhadores da loteria estadual no Illinois

e da loteria britânica descobriram, por exemplo, que a empolgação inicial ia

passando com o tempo e os ganhadores voltavam à sua faixa habitual de

felicidade de cada momento. E outros estudos demonstraram que, mesmo

aquelas pessoas que são vítimas de acontecimentos catastróficos, como por

exemplo o câncer, a cegueira ou a paralisia, tipicamente recuperam seu

nível normal ou quase normal de felicidade de rotina depois de um período

adequado de ajuste.

Portanto, se nossa tendência é voltar para o nível de referência de

felicidade que nos é característico, não importa quais sejam as condições

externas, o que então determina esse nível de referência? E, o que é mais

importante, será que ele pode ser modificado, fixado numa faixa mais alta?

Alguns pesquisadores defenderam recentemente a tese de que o nível de

felicidade ou bem-estar característico de um indivíduo é determinado

22

geneticamente, pelo menos até certo ponto. Estudos como, por exemplo,

um que concluiu que gêmeos idênticos (que têm a mesma constituição

genética) tendem a apresentar níveis muito semelhantes de bem-estar —

independentemente do fato de terem sido criados juntos ou separados —

levaram esses pesquisadores a postular a existência de um ponto biológico

fixo para a felicidade, instalado no cérebro desde o nascimento.

Entretanto, mesmo se a constituição genética desempenhar um papel

no que diz respeito à felicidade — e ainda não foi dada a última palavra

quanto à extensão desse papel — há um consenso geral entre os psicólogos

de que qualquer que seja o nível de felicidade que nos é conferido pela

natureza, existem passos que podem ser dados para que trabalhemos com o

“fator mental”, a fim de aumentar nossa sensação de felicidade. Isso,

porque nossa felicidade de cada momento é em grande parte determinada

por nosso modo de encarar a vida. Na realidade, o fato de nos sentirmos

felizes ou infelizes a qualquer dado momento costuma ter muito pouco a

ver com nossas condições absolutas mas é, sim, uma função de como

percebemos nossa situação, da satisfação que sentimos com o que temos.

A MENTE QUE COMPARA

O que determina nossa percepção e nosso nível de satisfação? Nossa

sensação de contentamento sofre forte influência da nossa tendência à

comparação. Se comparamos nossa situação atual com nosso passado e

concluímos que estamos em melhor situação, sentimo-nos felizes. Isso

ocorre, por exemplo, quando nossos rendimentos anuais sobem de repente

de US$ 20.000 para US$ 30.000, mas não é o valor absoluto da renda que

nos deixa felizes, como logo descobrimos quando nos acostumamos ao

novo patamar e percebemos que só voltaremos a ser felizes quando

ganharmos ÚS$ 40.000 por ano. Também olhamos à nossa volta e nos

comparamos com os outros. Por maior que seja nossa renda, nossa

tendência é sentir insatisfação se nosso vizinho estiver ganhando mais.

Atletas profissionais queixam-se amargamente de salários anuais de um,

dois ou três milhões de dólares, mencionando o salário mais alto de um

colega da equipe como justificativa para seu descontentamento. Essa

tendência parece corroborar a definição de H. L. Mencken de um homem

23

rico: aquele cuja renda superar em cem dólares a renda do marido da irmã

da sua mulher.

Logo, pode-se ver como nosso sentimento de satisfação com a vida

muitas vezes depende da pessoa com quem estamos nos comparando.

Naturalmente, comparamos outros aspectos além da renda. A comparação

constante com quem é mais inteligente, mais bonito ou mais bem-sucedido

do que nós também costuma gerar inveja, frustração e infelicidade. No

entanto, podemos usar esse mesmo princípio de modo positivo. Podemos

aumentar nossa sensação de satisfação com a vida comparando-nos com os

que são menos afortunados do que nós e refletindo sobre tudo o que temos.

Pesquisadores realizaram uma série de experiências e demonstraram

que o nível de satisfação com a vida de uma pessoa pode ser elevado

através de uma simples mudança de perspectiva e da visualização de como

as coisas poderiam ser piores. Num estudo, mostraram-se a mulheres na

University of Wisconsin em Milwaukee imagens das condições de vida

extremamente duras vigentes em Milwaukee na virada do século passado,

ou pediu-se às mulheres que imaginassem tragédias pessoais, como sofrer

queimaduras ou ficar deformada, e escrevessem a respeito. Depois de

terminado esse exercício, foi pedido às mulheres que avaliassem a

qualidade das suas próprias vidas. O exercício resultou num aumento da

sensação de satisfação com a vida. Em outra experiência na State

University of New York, em Buffalo, pediu-se aos objetos da pesquisa que

completassem a frase “Fico feliz por não ser...” Depois de repetir esse

exercício cinco vezes, os participantes apresentaram uma nítida elevação

nos seus sentimentos de satisfação. Pediu-se a outro grupo que completasse

a frase “Eu gostaria de ser...” Dessa vez, a experiência deixou as pessoas

sentindo uma insatisfação maior com a vida.

Essas experiências, que demonstram nossa possibilidade de aumentar

ou diminuir nossa sensação de satisfação com a vida por meio de uma

mudança de perspectiva, sugerem com clareza a supremacia da nossa

disposição mental no que diz respeito a levar uma vida feliz.

— Embora seja possível alcançar a felicidade — explica o Dalai-

Lama —, ela não é algo simples. Existem muitos níveis. No budismo, por

exemplo, há uma referência aos quatro fatores de realização, ou felicidade:

riqueza, satisfação material, espiritualidade e iluminação. Juntos eles

abarcam a totalidade da busca do indivíduo pela felicidade.

24

“Deixemos de lado por um momento as aspirações máximas

espirituais ou religiosas, como a perfeição e a iluminação, e lidemos com a

alegria e a felicidade como as entendemos num sentido rotineiro ou

material. Dentro desse contexto, há certos elementos essenciais que

convencionamos reconhecer como propiciadores da alegria e da felicidade.

Por exemplo, considera-se que a saúde é um dos fatores necessários para

uma vida feliz. Outro fator que encaramos como fonte de felicidade são

nossos recursos materiais, ou a :riqueza que acumulamos. Outro fator é ter

amigos ou companheiros. Todos nós reconhecemos que, a fim de levar uma

vida realizada, precisamos de um círculo de amigos com quem possamos

nos relacionar emocionalmente e em quem confiemos.

“Ora, todos esses fatores são, no fundo, fontes de felicidade. No

entanto, para que um indivíduo possa fazer pleno uso delas com o intuito

de levar uma vida feliz e realizada, sua disposição mental é essencial. Ela

tem importância crucial.

“Se utilizarmos nossas circunstâncias favoráveis, como nossa saúde

ou fortuna, de modo positivo, na ajuda aos outros, elas poderão contribuir

para que alcancemos uma vida mais feliz. E, naturalmente, nós apreciamos

esses aspectos: nossos recursos materiais, nosso sucesso e assim por diante.

Porém, sem a atitude mental correta, sem a atenção ao fator mental, esses

aspectos terão pouquíssimo impacto na nossa sensação de felicidade a

longo prazo. Por exemplo, se a pessoa nutre pensamentos rancorosos ou

muita raiva bem no fundo de si mesma, isso acaba com a saúde e, assim,

destrói um dos fatores. Da mesma forma, quando se está infeliz ou

frustrado no nível mental, o conforto físico não ajuda muito. Por outro lado,

se a pessoa conseguir manter um estado mental calmo e tranqüilo, poderá

ser muito feliz apesar de sua saúde ser frágil. Ou ainda, quando está

vivendo um momento de raiva ou ódio intenso, mesmo quem tem bens

maravilhosos sente vontade de atirá-los longe, de quebrá-los. Naquele

instante, os bens não significam nada. Hoje em dia, há sociedades bastante

evoluídas em termos materiais, e no entanto em seu seio muitas pessoas

não são muito felizes. Logo abaixo da bela aparência de afluência há uma

espécie de inquietação mental que leva à frustração, a brigas

desnecessárias, à dependência de drogas ou álcool e, no pior dos casos, ao

suicídio. Não há, portanto, nenhuma garantia de que a riqueza em si possa

proporcionar a alegria ou a realização que buscamos. Pode-se dizer também

25

o mesmo a respeito dos amigos. Quando se está num estado exacerbado de

raiva ou ódio, até mesmo um amigo íntimo parece de algum modo meio

frio ou gélido, distante e perfeitamente irritante.

“Tudo isso indica a tremenda influência que o estado da mente, o fator

mental, exerce sobre nossa experiência do dia-a-dia. Naturalmente,

devemos encarar esse fator com muita seriedade.

“Portanto, deixando de lado a perspectiva da prática espiritual, mesmo

em termos terrenos, no que diz respeito a levarmos uma existência feliz no

dia-a-dia, quanto maior o nível de serenidade da mente, maior será nossa

paz de espírito e maior nossa capacidade para levar uma vida feliz e

prazerosa.”

O Dalai-Lama parou por um instante como que para deixar que essa

idéia assentasse e depois prosseguiu.

— Eu deveria mencionar que, quando falamos de um estado mental

sereno ou de paz de espírito, não deveríamos confundir isso com um estado

mental totalmente insensível, apático. Ter um estado de espírito tranqüilo

ou calmo não significa ser completamente desligado ou ter a mente

totalmente vazia. A paz de espírito ou a serenidade têm como origem o

afeto e a compaixão. Nisso há um nível muito alto de sensibilidade e

sentimento.

“Desde que falte a disciplina interior que traz a serenidade mental”,

disse ele, para resumir “não importa quais sejam as condições ou meios

externos que normalmente se considerariam necessários para a felicidade,

eles nunca nos darão a sensação de alegria e felicidade que buscamos. Por

outro lado, quando dispomos dessa qualidade interior, uma serenidade

mental, uma certa estabilidade interna, nesse caso, mesmo que faltem

vários recursos externos que normalmente se considerariam necessários

para a felicidade, ainda é possível levar uma vida feliz e prazerosa.”

O CONTENTAMENTO INTERIOR

Ao atravessar o estacionamento para ir me encontrar com o Dalai-

Lama numa tarde, parei para admirar um Toyota Land Cruiser novinho em

folha, o tipo de carro que vinha querendo havia muito tempo. Ainda com o

carro na cabeça quando comecei minha sessão, fiz uma pergunta.

26

— Às vezes parece que toda a nossa cultura, a cultura ocidental, se

baseia nas aquisições materiais. Vivemos cercados, bombardeados, por

anúncios das últimas novidades a comprar, do último modelo de automóvel

e assim por diante. É difícil não ser influenciado por isso. São tantas as

coisas que queremos, que desejamos. Parece que não têm fim. O senhor

poderia falar um pouco sobre o desejo?

— Creio que há dois tipos de desejo — respondeu o Dalai-Lama. —

Certos desejos são positivos. O desejo da felicidade. É absolutamente certo.

O desejo da paz. O desejo de um mundo mais harmonioso, mais amigo.

Certos desejos são muito úteis.

“Mas, a certa altura, os desejos podem tornar-se absurdos. Isso

geralmente resulta em problemas. Ora, por exemplo, eu às vezes visito

supermercados. Realmente adoro supermercados porque posso ver muita

coisa bonita. E assim, quando olho para todos aqueles artigos diferentes,

surge em mim uma sensação de desejo, e meu impulso inicial poderia ser:

'Ah, eu quero isso e mais aquilo'. Brota então um segundo pensamento e eu

me pergunto: 'Ora, será que eu preciso mesmo disso?' Geralmente a

resposta é `não'. Se obedecermos àquele primeiro desejo, àquele impulso

inicial, muito em breve estarem de bolsos vazios. No entanto, o outro nível

de desejo, baseado nas nossas necessidades essenciais de alimentação,

vestuário e moradia, é algo mais razoável.

“Às vezes, determinar se um desejo é excessivo ou negativo é algo

que depende das circunstâncias ou da sociedade em que se vive. Por

exemplo, para quem vive numa sociedade afluente na qual é preciso um

carro para ajudar a pessoa a cumprir a rotina diária, nesse caso não há nada

de errado em querer ter um carro.. Porém, se a pessoa mora num lugarejo

pobre na índia, onde se pode viver muito bem sem um carro, e ainda sente

o desejo de ter um, mesmo que disponha do dinheiro para comprá-lo, essa

compra pode acabar causando problemas. Pode gerar um sentimento de

perturbação entre os vizinhos, entre outras coisas. Ou, caso se viva numa

sociedade mais próspera e se tenha um carro mas não se pare de querer

carros sempre mais caros, isso também leva ao mesmo tipo de problema.”

— Mas eu não consigo ver como querer ou comprar um carro mais

caro causa problemas para o indivíduo, desde que ele tenha condições para

isso. Ter um carro mais caro do que os de seus vizinhos poderia ser um

problema para eles (pois poderiam sentir inveja ou algo semelhante) mas

27

ter um carro novo daria à pessoa, em si, uma sensação de satisfação e

prazer.

O Dalai-Lama abanou a cabeça e respondeu com firmeza.

— Não... A satisfação pessoal em si não pode determinar se um desejo

ou ato é positivo ou negativo. Um assassino pode ter uma sensação de

satisfação no momento em que comete o assassinato, mas isso não justifica

o ato. Todas as ações condenáveis, a mentira, o roubo, o adultério, entre

outras, são cometidas por pessoas que podem na ocasião ter um sentimento

de satisfação. O que distingue um desejo ou ato positivo de um negativo

não é a possibilidade de ele lhe proporcionar uma satisfação imediata mas,

sim, se ele acaba gerando conseqüências positivas ou negativas. Por

exemplo, no caso do anseio por bens mais caros, se ele estiver baseado

numa atitude mental que simplesmente quer cada vez mais, a pessoa acaba

atingindo um limite daquilo que consegue adquirir e se defronta com a

realidade. E, quando ela chega a esse limite, perde toda a esperança,

mergulha na depressão e assim por diante. É um perigo inerente a essa

espécie de desejo.

“E, para mim, esse tipo de desejo excessivo gera a ganância,

manifestação exagerada do desejo, baseada na exacerbação das

expectativas. E, quando refletimos sobre os excessos da ganância,

concluímos que ela conduz o indivíduo a uma sensação de frustração,

decepção, a muita confusão e muitos problemas. Quando se trata de lidar

com a ganância, um aspecto perfeitamente característico é que, embora ela

decorra do desejo de obter alguma coisa, ela não se satisfaz com a

obtenção. Torna-se, portanto, algo meio sem limites, como um poço sem

fundo, e isso gera perturbação. Um traço interessante da ganância é que,

apesar de seu motivo subjacente ser a busca da satisfação, mesmo depois da

obtenção do objeto do seu desejo, a pessoa ainda não está satisfeita, o que é

uma ironia. O verdadeiro antídoto para a ganância é o contentamento. Se a

pessoa tiver um forte sentido de contentamento, não faz diferença se

consegue o objeto desejado ou não. De uma forma ou de outra, ela continua

contente.”

Como podemos, então, alcançar esse contentamento íntimo? Há dois

métodos. Um consiste em obter tudo o que se quer e deseja — todo o

28

dinheiro, todas as casas, os automóveis, o parceiro perfeito e o corpo

perfeito. O Dalai-Lama já salientou a desvantagem dessa abordagem. Se

nossos desejos e vontades permanecerem desenfreados, mais cedo ou mais

tarde vamos deparar com algo que queremos e não podemos ter. O segundo

método, que é mais confiável, consiste em não ter o que queremos mas,

sim, em querer e apreciar o que temos..

Há pouco tempo, assisti a suma entrevista na televisão com

Christopher Reeve, o ator que caiu ide um cavalo em 1994 e teve lesões na

medula espinhal que o deixaram totalmente paralisado do pescoço para

baixo e exigem que ele respire com aparelhos em caráter permanente.

Quando o entrevistador perguntou como ele lidava com a depressão

decorrente da sua invalidez Reeve confessou ter vivido um curto período de

total desespero enquanto estava na unidade de terapia intensiva do hospital.

Prosseguiu, porém, dizendo que esse sentimento de desespero passou com

relativa rapidez e que agora ele francamente se considerava “um cara de

sorte”. Mencionou a felicidade de ter mulher e filhos amorosos, mas

também falou com gratidão do veloz progresso da medicina moderna (que,

por seus cálculos, descobrirá uma cura para as lesões na medula espinhal

dentro dos próximos dez anos), e afirmou que, se seu acidente tivesse sido

apenas alguns anos antes, ele provavelmente teia morrido em decorrência

das lesões. Enquanto descrevia o processo de adaptação à paralisia, Reeve

disse que, embora seu desespero se tivesse dissolvido com bastante rapidez,

de início ele ainda era perturbado por crises intermitentes de inveja que

podiam ser detonadas por alguma frase inocente como, por exemplo, “Vou

subir correndo para apanhar isso”. Ao aprender a lidar com esses

sentimentos, ele disse ter percebido que o único jeito de seguir pela vida é

olhar para o que se tem, ver o que ainda se pode fazer. No seu caso,

felizmente, ele não havia sofrido nenhuma lesão cerebral, e ainda tinha uma

mente que podia usar. Ao concentrar a atenção dessa forma nos recursos de

que dispõe, Reeve decidiu usar sua mente para aumentar a conscientização

do público e informá-lo a respeito das lesões na medula espinhal, para

ajudar outras pessoas; e tem planos para continuar a falar em público assim

como para escrever e dirigir filmes.

29

O VALOR INTERIOR

Já vimos como trabalhar com nosso modo de encarar a vida é um

meio mais eficaz para alcançar a felicidade do que procurá-la através de

fontes externas, tais como a riqueza, a posição social ou mesmo a saúde

física. Outra fonte interna de felicidade, estreitamente ligada a uma

sensação íntima de contentamento, é uma noção de amor-próprio. Ao

descrever a base mais confiável para desenvolver esse sentido de amor-

próprio, o Dalai-Lama deu a seguinte explicação.

— Agora, no meu caso, por exemplo, suponhamos que eu não tivesse

nenhum sentimento humano profundo, nenhuma capacidade para fazer

bons amigos com facilidade. Sem isso, quando perdi meu próprio país,

quando minha autoridade política no Tibete chegou ao fim, tornar-me um

refugiado teria sido muito difícil. Enquanto eu estava no Tibete, em virtude

da estrutura do sistema político, havia um certo grau de respeito concedido

ao posto do Dalai-Lama; e as pessoas me tratavam de acordo,

independentemente de sentirem ou não verdadeiro afeto por mim. Porém,

se essa fosse a única base da relação do povo comigo, então, quando perdi

meu país, tudo teria sido dificílimo. Só que existe outra fonte de

valorização e dignidade a partir da qual podemos nos relacionar com outros

seres humanos. Podemos nos relacionar com eles porque ainda somos um

ser humano, dentro da comunidade humana. Compartilhamos esse vínculo.

E esse vínculo humano é suficiente para dar ensejo a uma sensação de

valorização e dignidade. Esse vínculo pode tornar-se uma fonte de consolo

na eventualidade de se perder tudo o mais.

O Dalai-Lama parou por um instante para bebericar o chá, abanou a

cabeça e prosseguiu.

— Lamentavelmente, quando se estuda história, encontram-se casos

de imperadores ou reis no passado que perderam sua posição em

decorrência de alguma convulsão política e foram forçados a abandonar seu

país, mas daí em diante sua história não foi positiva. Creio que, sem aquele

sentimento de afeto e ligação com outros seres humanos, a vida passa a ser

muito difícil.

“Em termos gerais, podem existir dois tipos diferentes de indivíduos.

Por um lado, pode-se ter uma pessoa rica e bem-sucedida, cercada de

30

parentes e assim por diante. Se a fonte de dignidade e sentido de valor

dessa pessoa for apenas material, então, enquanto sua fortuna persistir,

talvez essa pessoa possa manter uma sensação de segurança. Porém, no

momento em que a fortuna minguar, a pessoa sofrerá por não haver

nenhum outro refúgio. Por outro lado, pode-se ter outra pessoa que goze de

sucesso financeiro e situação econômica semelhante, mas que ao mesmo

tempo seja carinhosa, afetuosa e tenha o sentimento da compaixão. Como

essa pessoa tem outra fonte de valorização, outra fonte que lhe confere uma

noção de dignidade, outra âncora, há menos probabilidade de essa pessoa

se deprimir se sua fortuna por acaso desaparecer. Através desse tipo de

raciocínio, pode-se ver o valor prático do afeto e calor humano no

desenvolvimento de uma sensação íntima de valor.”

A FELICIDADE x O PRAZER

Alguns meses após as palestras do Dalai-Lama no Arizona, fui visitá-

lo em casa em Dharamsala. Era uma tarde muito quente e úmida em julho,

e cheguei à sua casa empapado de suor depois de uma curta caminhada a

partir do lugarejo. Por eu vir de um clima seco, a umidade naquele dia me

parecia quase insuportável, e eu não estava com o melhor dos humores

quando nos sentamos para começar a conversar. já ele parecia estar

animadíssimo. Pouco depois do início da conversa, nós nos voltamos para o

tópico do prazer. A certa altura, ele fez uma observação crucial.

— Agora, as pessoas às vezes confundem a felicidade com o prazer.

Por exemplo, há não muito tempo eu estava falando a uma platéia indiana

em Rajpur. Mencionei que o propósito da vida era a felicidade, e alguém da

platéia disse que Rajneesh ensina que nossos momentos mais felizes

ocorrem durante a atividade sexual e que, logo, é através do sexo que

podemos nos tornar mais felizes. — O Dalai-Lama deu uma risada gostosa.

— Ele queria saber o que eu achava da idéia. Respondi que, do meu ponto

de vista, a maior felicidade é a de quando se atinge o estágio de Liberação,

no qual não mais existe sofrimento. Essa é a felicidade genuína, duradoura.

A verdadeira felicidade está mais relacionada à mente e ao coração. A

felicidade que depende principalmente do prazer físico é instável. Um dia,

ela está ali; no dia seguinte, pode não estar.

31

Em termos superficiais, sua observação parecia bastante óbvia. É

claro que a felicidade e o prazer são sensações diferentes. E no entanto,

nós, os seres humanos, costumamos ter um talento especial para confundi-

las. Não muito depois de voltar para casa, durante uma sessão de terapia

com uma paciente, eu viria a ter uma demonstração concreta de como pode

ser importante essa simples percepção.

Heather era uma jovem profissional liberal solteira que trabalhava

como psicóloga na região de Phoenix. Embora gostasse do emprego que

tinha, no qual trabalhava com jovens problemáticos, já havia algum tempo

ela vinha se sentindo cada vez mais insatisfeita com a vida na região.

Costumava queixar-se da população crescente, do trânsito e do calor

sufocante no verão. Fizeram-lhe a oferta de um emprego numa linda

cidadezinha nas montanhas. Na realidade, ela já visitara a cidadezinha

muitas vezes e sempre sonhara em se mudar para lá. Era perfeito. O único

problema era que o emprego que lhe ofereciam envolvia o trabalho com

uma clientela adulta. Havia semanas, ela lutava com a decisão de aceitar ou

não o novo emprego. Simplesmente não conseguia se decidir. Tentou fazer

uma lista de prós e contras, mas dela resultou um empate irritante.

— Eu sei que não gostaria do trabalho lá tanto quanto do daqui, mas

isso seria mais do que compensado pelo mero prazer de morar naquela

cidade! Eu realmente adoro aquilo lá. Só estar lá já faz com que eu me sinta

bem. E estou tão cansada do calor aqui que simplesmente não sei o que

fazer.

Seu uso do termo “prazer” me fez lembrar as palavras do Dalai-Lama;

e, procurando me aprofundar um pouco, fiz uma pergunta.

— Você acha que mudar para lá lhe traria maior felicidade ou maior

prazer?

Ela ficou calada um instante, sem saber como encarar a pergunta.

— Não sei... — respondeu afinal. — Sabe de uma coisa? Acho que

me traria mais prazer do que felicidade... Em última análise, acho que não

seria realmente feliz trabalhando com aquela clientela. Acho que é mesmo

muito gratificante trabalhar com os jovens no meu emprego...

A simples reformulação do seu dilema em termos de “Será que isso

vai me trazer felicidade?” pareceu conferir uma certa clareza. De repente,

ficou muito mais fácil para ela tomar a decisão. E resolveu permanecer em

32

Phoenix. É claro que ainda se queixava do calor do verão. No entanto,

decidir em plena consciência ficar em Phoenix, com base naquilo que ela

achava que acabaria por fazê-la mais feliz, de algum modo tornou o calor

mais suportável.

Todos os dias deparamos com inúmeras decisões e escolhas. E, por

mais que tentemos, é freqüente não escolhermos aquilo que sabemos ser

“bom para nós”. Em parte isso está relacionado ao fato de que “a escolha

certa” costuma ser a difícil — aquela que envolve algum sacrifício do

nosso prazer.

Em todos os séculos, homens e mulheres dedicaram grande esforço à

tentativa de definir o papel adequado que o prazer desempenharia na nossa

vida — uma verdadeira legião de filósofos, teólogos e psicólogos, todos

estudando nossa ligação com o prazer. No século III a.C., Epicuro baseou

seu sistema ético na ousada afirmação de que “o prazer é o início e o fim de

uma vida abençoada”. Mas até mesmo Epicuro reconheceu a importância

do bom senso e da moderação, e admitiu que a devoção desenfreada a

prazeres sensuais poderia, pelo contrário, resultar em sofrimento. Nos anos

finais do século XIX, Sigmund Freud dedicava-se a formular suas próprias

teorias sobre o prazer. De acordo com Freud, a força motivadora

fundamental de todo o aparelho psíquico era o desejo de aliviar a tensão

causada por impulsos instintivos não realizados. Em outras palavras, nossa

motivação oculta é a busca do prazer. No século XX, muitos pesquisadores

optaram por deixar de lado especulações mais filosóficas; e, em vez disso,

um exército de neuroanatomistas passou a dedicar-se a espetar o

hipotálamo e as regiões límbicas do cérebro com eletrodos, à procura

daquele ponto que produz o prazer quando recebe estimulação elétrica.

Nenhum de nós realmente precisa de filósofos gregos mortos, de

psicanalistas do século XIX ou de cientistas do século XX para nos ajudar a

entender o prazer. Nós sabemos quando o sentimos. Nós o reconhecemos

no toque ou no sorriso de um ser amado, na delícia de um banho quente de

banheira numa tarde fria e chuvosa, na beleza de um pôr-do-sol. Entretanto,

muitos de nós também conhecem o prazer no arroubo frenético da cocaína,

no êxtase da heroína, na folia de uma bebedeira, na delícia do sexo sem

restrições, na euforia de uma temporada de sorte em Las Vegas. Esses

33

também são prazeres muito verdadeiros — prazeres com os quais muitos na

nossa sociedade precisam aprender a conviver.

Embora não haja soluções fáceis para evitar esses prazeres destrutivos,

felizmente temos por onde começar: o simples lembrete de que o que

estamos procurando na vida é a felicidade. Como o Dalai-Lama salienta,

esse é um fato inconfundível. Se abordarmos nossas escolhas na vida tendo

isso em mente, será mais fácil renunciar a atividades que acabam nos sendo

prejudiciais, mesmo que elas nos proporcionem um prazer momentâneo. O

motivo pelo qual costuma ser tão difícil adotar o “É só dizer não!”

encontrasse na palavra “não”. Essa abordagem está associada a uma noção

de rejeitar algo, de desistir de algo, de nos negarmos algo.

Existe, porém, um enfoque melhor: enquadrar qualquer decisão que

enfrentemos com a pergunta “Será que ela me trará felicidade?” Essa

simples pergunta pode ser uma poderosa ferramenta para nos ajudar a gerir

com habilidade todas as áreas da nossa vida, não apenas na hora de decidir

se vamos nos permitir o uso de drogas ou aquele terceiro pedaço de torta de

banana com creme. Ela permite que as coisas sejam vistas de um novo

ângulo. Lidar com nossas decisões e escolhas diárias com essa questão em

mente desvia o foco daquilo que estamos nos negando para aquilo que

estamos buscando — a máxima felicidade. Uma felicidade definida pelo

Dalai-Lama como estável e persistente. Um estado de felicidade que,

apesar dos altos e baixos da vida e das flutuações normais do humor,

permanece como parte da própria matriz do nosso ser. A partir dessa

perspectiva, é mais fácil tomar a “decisão acertada” porque estamos agindo

para dar algo a nós mesmos, não para negar ou recusar algo a nós mesmos

— uma atitude de movimento na direção de algo, não de afastamento; uma

atitude de união com a vida, não de rejeição a ela. Essa percepção

subjacente de estarmos indo na direção da felicidade pode exercer um

impacto profundo. Ela nos torna mais receptivos, mais abertos, para a

alegria de viver.

34

Capítulo 3

O TREINAMENTO DA MENTE

PARA A FELICIDADE

uando se identifica o estado mental como o fator primordial para

Qalcançar a felicidade, naturalmente não se está negando que

nossas necessidades físicas fundamentais de alimentação, vestuário e

moradia não sejam satisfeitas. Entretanto, uma vez atendidas essas

necessidades básicas, a mensagem é clara: não precisamos de mais,

dinheiro, não precisamos de mais sucesso ou fama, não precisamos do

corpo perfeito, nem mesmo do parceiro perfeito agora mesmo, neste

momento exato, dispomos da mente, que é todo o equipamento básico de

que precisamos para alcançar a plena felicidade.

Assim começou o Dalai-Lama, ao apresentar sua abordagem ao

trabalho com a mente.

— Quando nos referimos à “mente” ou à “consciência”, há muitas

variedades diferentes. Da mesma forma que acontece com as condições ou

objetos externos, alguns aspectos são muito úteis, outros muito prejudiciais

e outros são neutros. E, quando lidamos com assuntos externos, geralmente

tentamos primeiro identificar quais cessas diferentes substâncias ou

produtos químicos são benéficos para que possamos nos dedicar a cultivá-

los, propagá-los e usá-los. E das substâncias que, são danosas nós nus

livramos. De modo similar, quando falamos sobre a mente, há milhares de

pensamentos diferentes ou de “mentes' diferentes. Entre eles, alguns são

muito úteis. Esses, deveríamos nutrir. Alguns são negativos, muito

prejudiciais. Esses deveríamos tentar reduzir.

“Portanto, o primeiro passo na busca da felicidade é o aprendizado.

Antes de mais nada, temos de aprender como as emoções e

comportamentos negativos nos são prejudiciais e como as emoções

positivas são benéficas. E precisamos nos conscientizar de como essas

emoções negativas não são prejudiciais e danosas somente para nós

mesmos mas perniciosas para a sociedade e para o futuro do mundo inteiro

35

também. Esse tipo de conscientização aumenta nossa determinação para

encará-las e superá-las. Em seguida, vem a percepção dos aspectos

benéficos das emoções e comportamentos positivos. Uma vez que nos

demos conta disso, tornamo-nos determinados a valorizar, desenvolver e

aumentar essas emoções positivas por mais difícil que seja. Há uma espécie

de disposição espontânea que vem de dentro. Portanto, através desse

processo de aprendizado, de análise de quais pensamentos e emoções são

benéficos e quais são nocivos, aos poucos desenvolvemos uma firme

determinação de mudar, com a sensação de que Àgora o segredo da minha

própria felicidade, do meu próprio futuro, está nas minhas mãos. Não posso

perder essa oportunidade'.

“No budismo, o princípio da causalidade é aceito como uma lei

natural. Ao lidar com a realidade, é preciso levar essa lei em consideração.

Por exemplo, no caso de experiências do dia-a-dia, se houver certos tipos

de acontecimentos que a pessoa não deseje, o melhor método de garantir

que tais acontecimentos não ocorram consiste em certificar-se de que não

mais se dêem as condições causais que normalmente propiciam aquele

acontecimento. De modo análogo, caso se deseje que ocorra um

acontecimento ou experiência específica, a atitude lógica a tomar consiste

em procurar e acumular as causas e condições que dêem ensejo a ele.

“O mesmo vale para experiências e estados mentais. Quem deseja a

felicidade deveria procurar as causas que a propiciam; e se não desejamos o

sofrimento, o que deveríamos fazer é nos certificarmos de que as causas e

condições que lhe dariam ensejo não mais se manifestem. É muito

importante uma apreciação desse princípio causal.

“Ora, já falamos da suprema importância do fator mental para que se

alcance a felicidade. Nossa próxima tarefa é, portanto, examinar a

variedade de estados mentais que vivenciamos. Precisamos identificar com

clareza diferentes estados mentais e fazer distinção entre eles,

classificando-os segundo sua capacidade de levar à felicidade ou não.”

— O senhor pode dar alguns exemplos específicos de diferentes

estados mentais e descrever como os classificaria? — perguntei.

— Por exemplo, o ódio, o ciúme, a raiva, entre outros, são prejudiciais

— explicou o Dalai-Lama. — Nós os considerarmos estados mentais

negativos porque eles destroem nossa felicidade mental. Uma vez que

abriguemos sentimentos de ódio ou rancor contra alguém, uma vez que nós