A Bíblia Satânica por Anton Szander LaVey - Versão HTML

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Traduzido para o português brasileiro por

AMON DENOTEFER FENRYS

(2013)

INTRODUÇÃO

Abrindo os Portões Adamantinos

Uma introdução à Bíblia Satânica

pelo Magus Peter H. Gilmore

Este livro tem o potencial de mudar sua vida – ele mudou a minha. É um trabalho

diabólico, escrito com elegância, mundanidade, e poder, servindo magicamente como

um espelho. Se você olhar dentro destas páginas e ver a si mesmo; se você descobrir

que estes princípios são aqueles pelos quais tem vivido desde que pode se lembrar; se

sentir a evocação de um irresistível sentimento de estar voltando ao lar, então você terá

descoberto que faz parte de uma “meta-tribo” dispersa, e “satanista” é o nome

apropriado para o que você é.

Eu encontrei Anton Szandor LaVey pela primeira vez através da Bíblia Satânica, com

a idade de treze anos, quando era um ateu declarado. Não tendo predileção por

literatura relacionada à fé de nenhum tipo, fiquei agradavelmente surpreso que aquilo

não era nenhum discurso de alguém clamando contato direto com Satã.

Ao invés disso, encontrei uma filosofia de senso comum, racional, materialista, junto

com técnicas rituais teatrais entendidas como psicodramas autotransformadores. Aqui

estava uma ferramenta perfeitamente adaptada à minha natureza como um meio de

alcançar o máximo da minha vida. Eu soube que “ateu” não era mais uma designação

suficiente para mim mesmo. Este livro me levou a encontrar e ficar amigo de LaVey,

trabalhando com ele para administrar a Igreja criada por ele, e finalmente a sucedê-lo

como segundo Alto Sacerdote da Igreja de Satã.

Um dos numerosos talentos de LaVey é que suas palavras escritas são vívidas,

repletas com sua personalidade distinta. Suas frases bem trabalhadas dão a sensação de

estar se encontrando com o próprio homem, e tal impressão não é ilusória. Quando

minha esposa, Peggy Nadramia, e eu encontramos “O Doutor” (um apelido afetuoso

usado por aqueles próximos a ele), concordamos que ali estava exatamente o homem

que nos atrevemos a esperar da leitura de seus livros.

Ao contrário dos fundadores de outras religiões que clamaram “inspiração” advinda

de alguma entidade sobrenatural, LaVey prontamente reconhecia que tinha usado suas

próprias faculdades para sintetizar o satanismo. Ele o baseou tanto no seu

entendimento do animal humano adquirido pela sua experiência de vida quanto na

sabedoria que ele ganharia de outros defensores do materialismo, pragmatismo e

individualismo. Sua blasfemamente denominada “Igreja de Satã” foi conscientemente

projetada para ser uma adversária aos sistemas de crença “espirituais” existentes. Foi a

primeira organização a promover uma filosofia religiosa centrada em Satã como o

símbolo de liberdade e individualismo. A respeito de seu papel como fundador ele

disse que “se eu mesmo não fizesse, algum outro, talvez menos qualificado, faria”.

Seus insights perspicazes levaram-no então a dar um nome apropriado a um tipo

humano que sempre fez parte de nossa espécie.

LaVey nasceu em Chicago em 1930, e seus pais logo se mudaram para Califórnia,

aquele local de encontro para as mais brilhantes e mais sombrias manifestações do

“Sonho Americano”, no lado oeste. Foi um ambiente fértil para uma criança sensível

que eventualmente cresceria para o papel que a imprensa mundial rotulou de “O Papa

Negro”. De sua avó da Europa Oriental, o jovem LaVey aprendeu superstições que

ainda perduram naquela parte do mundo. Estes contos estimularam seu apetite pelo

extraordinário, levando-o a ficar absorvido em literatura sombria clássica tais como

Drácula e Frankenstein. Também se tornou um ávido leitor de revistas pulp, que

publicaram pela primeira vez contos considerados hoje clássicos do terror e da ficção

científica. Mais tarde ele se tornaria amigo de autores seminais de Contos Estranhos,

tais como Clark Ashton Smith, Robert Barbour Johnson, e George Has. Sua imaginação

foi capturada por personagens fictícios encontrados nos trabalhos de Jack London e

Somerset Maugham, por personagens de histórias em quadrinhos como Ming, o

Impiedoso, como também por figuras históricas de molde diabólico, tais como

Cagliostro, Rasputin, e Basil Zaharoff. Mais interessante para ele do que a literatura

oculta disponível, que ele rejeitava como sendo pouco mais que magia branca

hipócrita, eram livros de conhecimento obscuro aplicado tais como o Lições Práticas de

Hipnotismo, de Wesley Cook, Jane’s Fighting Ships e manuais de análise da escrita à

mão.

Suas habilidades musicais foram notadas cedo, e seus pais lhe deram carta branca

para experimentar vários instrumentos. LaVey foi atraído principalmente pelo teclado

por causa de seu alcance e versatilidade. Ele encontrou tempo para praticar e podia

facilmente reproduzir músicas de ouvido, sem recorrer a livros ou partituras. Este

talento viria a ser uma de suas principais fontes de renda por muitos anos,

particularmente as apresentações com calíope durante seus dias de carnaval, e mais

tarde seus numerosos trabalhos como organista em bares, salões e boates. Estes lugares

deram a ele a chance de estudar como várias linhas melódicas e progressões de acordes

influenciavam as emoções de suas audiências, de espectadores no carnaval e shows de

horror a indivíduos procurando consolo para os desapontamentos de suas vidas em

bebidas destiladas e tavernas cheias de fumaça, para os quais as execuções de LaVey

forneciam uma trilha sonora taciturna.

Seus interesses incomuns o marcaram como um estranho, e ele não aliviava esta

sensação, não sentindo nenhuma compulsão para ser “mais um dos caras”. Ele

desprezava aulas de ginástica e times de esportes e frequentemente matava aulas para

seguir seus próprios interesses. Indo além dos textos escolares padrões, ele absorvia

volumes analisando o comportamento humano em cada nível, dos impulsos do

indivíduo às dinâmicas das massas. Ele assistia a filmes que mais tarde seriam

rotulados como noir e também cinema expressionista alemão, como M, O gabinete do

Dr. Caligari, e Dr. Mabuse. Seu interesse por vestes espalhafatosas também serviram

para ampliar sua alienação do mainstream.

Ele saiu do colégio para perambular com tipos encapuzados e foi atraído para o

trabalho no circo e em carnavais, primeiro como empregado e domador, depois como

músico. Sua curiosidade sempre ativa foi recompensada, com ele aprendendo os

truques do ofício. Ele trabalhou num ato com os grandes felinos – tinha uma afinidade

por esses poderosos predadores – e mais tarde deu assistência para as maquinações

dos shows de horror. Tornou-se bem versado nas muitas tramoias usadas para separar

os tolos de seu dinheiro, junto com a psicologia que leva pessoas a tais buscas. Sob o

nome de “O Grande Szandor” ele tocou calíope para shows indecentes em noites de

sábado, assim como para tendas revivalistas em manhãs de domingo, vendo muitos

dos mesmos homens frequentando ambos e notando esta contradição expressa. Todas

essas atividades forneceram uma formação sólida para sua cínica visão de mundo que

se desenvolvia.

Com o fim da temporada de carnaval, LaVey obteria dinheiro tocando órgão nas

casas burlescas na área de Los Angeles, e ele relata que foi durante este período que

encontrou e teve um breve romance com a então desconhecida Marilyn Monroe,

depois acompanhando seu striptease “arrasta-correntes” no Mayan Burlesque Theater.

Retornando para São Francisco, LaVey trabalhou por um tempo como um fotógrafo

para o departamento de polícia, durante a Guerra da Coreia, matriculado no San

Francisco City College como um superior em criminologia, afim de evitar o

recrutamento. Tanto seus estudos como emprego mostraram revelações cruéis sobre a

natureza humana e confirmaram sua rejeição de doutrinas espirituais. Nesse período

ele encontrou e se casou com Carole Lansing, que gerou sua primeira filha, Karla

Maritza, em 1952. Alguns anos antes, LaVey havia examinado os escritos de Aleister

Crowley, então em 1951 ele decidiu encontrar alguns thelemitas de Berkeley. Ele não

ficou impressionado, pois eles eram mais místicos e menos “malvados” do que ele

supunha que deviam ser para discípulos do credo libertino de Crowley.

Durante os anos 1950, LaVey incrementa seu rendimento como um investigador de

fenômenos alegadamente paranormais, atendendo “chamados malucos” passados a ele

por amigos no departamento de polícia. Estas experiências provaram para ele que

muitas pessoas eram inclinadas a procurar explicações bizarras, “de outro mundo”

para fenômenos que tinham causas prosaicas. Suas explicações racionais

frequentemente desapontavam os queixosos, então LaVey inventou fontes exóticas

para fazê-los se sentirem melhores, dando a ele sugestões de como a crença funciona

na vida das pessoas.

Em 1956 ele comprou uma casa vitoriana na California Street no distrito Richmond

em São Francisco. Tinha a reputação de ter sido uma taberna clandestina, e era

guarnecida por passagens secretas, possivelmente para auxiliar atividades carnais

furtivas. Ele a pintou de preto, criando assim uma intromissão num bloco que de outra

forma seria típico, impondo sua própria e única presença. Foi apenas algo natural ela

ter se tornado mais tarde o lar da Igreja de Satã. Após a morte dele, o prédio

permaneceu desocupado, uma chocante casa evitada, até que foi demolida em 17 de

outubro de 2001 pela companhia imobiliária que possuía sua propriedade.

LaVey encontrou e ficou fascinado por Diane Hegarty em 1959; ele então deixa

Carole em 1960. Hegarty e LaVey nunca se casaram, mas ela gerou a segunda filha

dele, Zeena Galatea, em 1964 e foi companheira dele por muitos anos. Hegarty e LaVey

se separaram mais tarde; ela o processou para obter uma pensão1, e isso foi resolvido

fora da corte.

Através de sua atividade de “desmascara fantasmas” e suas frequentes aparições

públicas como um organista, inclusive tendo tocado o Wurlitzer no salão de coquetéis

Lost Weekend, LaVey se tornou uma celebridade local e suas festas em feriados

atraíram muitos famosos de São Francisco. Convidados incluindo Carin de Plessin,

chamada de “a Baronesa” por ter crescido em um palácio real da Dinamarca, o

antropólogo Michael Harner, Chester A. Arthur III (neto do presidente dos Estados

Unidos), Forrest J. Ackerman (mais tarde, o editor do Famous Monsters of Filmland, e um

especialista reconhecido em ficção científica), o escritor Fritz Leiber, o excêntrico local

Dr. Cecil E. Nixon (criador do autômato musical Ísis) e o cineasta alternativo Kenneth

Anger. Deste grupo LaVey extraiu o que ele chamou de um “Círculo Mágico” de

associados, que compartilhavam seu interesse pelo bizarro, o lado oculto do que move

o mundo. À medida que seus conhecimentos aumentavam, LaVey começou a

apresentar palestras nas noites de sexta-feira, resumindo os frutos de sua pesquisa. Em

1965, LaVey foi destaque no “The Brother Buzz Show”, um programa humorístico

infantil apresentado por marionetes. O enfoque foi no estilo de vida “Família Addams”

de LaVey – ganhando a vida fazendo hipnoses, investigando o paranormal, e tocando

órgão – assim como no seu mascote altamente incomum Togare, um leão núbio.

No processo de criar suas palestras, LaVey notou muitas linhas em comum, que ele

começou a costurar numa tenebrosa tapeçaria conceitual. Quando um membro do seu

Círculo Mágico sugeriu que ele tinha a base para uma nova religião, LaVey concordou

e decidiu fundar a Igreja de Satã como o melhor meio para comunicar suas ideias. E

então, em 1966 na noite da véspera de maio – o tradicional sabá das bruxas – LaVey

declarou fundada a Igreja de Satã e renumerou 1966 como o ano um, Anno Satanas – o

primeiro ano da Era de Satã.

A atenção da imprensa veio logo em seguida, particularmente com o casamento do

jornalista radical John Raymond com a socialite Judith Case em 1º de fevereiro de 1967.

O famoso fotógrafo Joe Rosenthal foi enviado pelo San Francisco Chronicle para capturar

uma imagem que foi direto para as páginas do Los Angeles Times e outros jornais

proeminentes. LaVey começou a divulgação em massa de sua filosofia através do

lançamento de um álbum gravado, The Satanic Mass (Murgenstrumm, 1968). O álbum

contou com uma capa denominada por LaVey de “Sigilo de Baphomet”: a cabeça de

bode num pentagrama, circulado com a palavra hebraica “Leviatã”, que desde então se

tornou o símbolo ubíquo do satanismo. Foi apresentado no álbum parte do rito de

batismo escrito para Zeema, com três anos de idade (executado em 23 de maio de

1967). Além da gravação real de um ritual satânico, o lado dois do LP possuía trechos

da ainda não publicada Bíblia Satânica, lida por LaVey ao som de Beethoven, Wagner e

Souza. Suas palestras de sexta continuaram, e ele instituiu uma série de “workshops

para bruxas” para instruir mulheres na arte de alcançar seus desejos através do

glamour, dos ardis femininos, e da hábil descoberta e exploração dos fetiches

masculinos.

1 No original, palimony: divisão de bens ou suporte financeiro entre parceiros não

legalmente casados [Nota do tradutor]

Ao final de 1969, LaVey pegou monografias que tinha escrito para explicar a filosofia

e as práticas rituais da Igreja de Satã e as expandiu. Suas influências incluem filósofos

tais como Ayn Rand, Nietzsche e Mencken, a sabedoria base da cultura de carnaval, as

observações de P.T. Barnum, e finalmente o imaginário sobre o arquidiabo encontrado

em Twain, Milton, Byron, e outros românticos. Ele prefaciou estes ensaios e ritos com

trechos do Might is Right de Ragnar Redbeard e concluiu com versões “satanizadas”

das Chaves Enoquianas de John Dee para criar A Bíblia Satânica. Ela nunca ficou fora de

catálogo e permanece a principal fonte para o movimento satânico moderno.

A filosofia lá apresentada é um todo integrado, não uma miscelânea a qual alguém

pode selecionar e escolher. É destinada apenas àqueles poucos seletos que são

epicuristas, pragmáticos, mundanos, ateus, ferozmente individualistas, racionais e

sombriamente poéticos. Talvez haja companheiros de viagem – ateus, misantropos,

humanistas, livres-pensadores – que veem apenas um reflexo parcial deles mesmos

nesta bola de cristal. Assim, o satanismo pode atrair estes tipos de alguma forma, mas

em última análise não é para eles. Se fosse apenas uma filosofia, tais individualistas

poderiam ser bem-vindos; é mais do que isso. O satanismo se move para o território da

religião por possuir um componente estético, um sistema de simbolismo, metáfora e

ritual no qual Satã é adotado não como um Diabo a ser adorado, mas como uma

projeção simbólica externa do mais alto potencial de cada satanista individual. A

identificação que os satanistas têm com Satã é uma barreira intencional contra aqueles

que não podem ressoar com este arquétipo sinistro. A Bíblia Satânica foi acompanhada

em 1971 por The Complete Witch (relançada em 1989 como The Satanic Witch), um

manual que ensina “Baixa Magia” – os modos e caminhos de compreender e manipular

as pessoas e suas ações em direção à realização dos objetivos desejados por alguém.

The Satanic Rituals (1972) foi impresso como um volume complementar à Bíblia Satânica

e contém rituais de “Alta Magia”, tiradas de uma tradição satânica identificada por

LaVey em várias culturas pelo mundo. Duas coleções de ensaios, que variam do

engraçado e inspirador ao alegremente sórdido, The Devil’s Notebook (1992) e Satan

speaks (1998), completam seu cânone escrito.

Desde sua fundação, a Igreja de Satã de LaVey atraiu muitas pessoas variadas que

compartilham uma alienação das religiões convencionais, incluindo celebridades como

Jayne Mansfield e Sammy Davis Jr., assim como astros de rock como King Diamond,

Marilyn Manson, e Marc Almond, todos se tornaram, pelo menos por um tempo,

membros de carteirinha. Contou entre seus associados com Robert Fuest, diretor dos

filmes de Vincent Price “Dr. Phibes”, assim como The Devil’s Rain; Jacques Vallee,

ufólogo e cientista da computação, que foi usado como base para o personagem

Lacombe, interpretado por François Truffaut, em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de

Spielberg; e Aime Michel conhecido como espeleologista e editor de Morning of the

Magicians.

A influência de LaVey se espalhou através de artigos nos meios de comunicação ao

redor do mundo, revistas populares tais como Look, McCalls, Argosy, Newsweek, Time, e

mais tarde Seconds, The Nose, e Rolling Stone, várias revistas masculinas, e através de

talk shows tais como Joe Pyne, Phil Donahue e Johnny Carson. Esta publicidade deixou

uma marca em romances como O Bebê de Rosemary (concluído por Ira Levin durante os

primeiros dias do estouro de alta visibilidade da Igreja na mídia) e Our Lady of

Darkness, de Leiber, e em filmes tais como O Bebê de Rosemary (1968), The Devil’s Rain

(1975), The Car (1977), Dr. Dracula (1980), e muitos dos filmes de “Culto ao Diabo” dos

anos 1970 até os dias de hoje que pegaram o simbolismo dos escritos de LaVey. Um

documentário longa metragem, Satanis: The Devil’s Mass (1969) cobriu os rituais e

filosofia da Igreja, enquanto o próprio LaVey foi perfilado no vídeo documentário de

Nick Bougas, de 1993, Speak of the Devil.

A habilidade musical do Doutor está preservada em diversas gravações,

principalmente em Strange Music (1994) e Satan Takes a Holiday (1995). Estas refletem

sua inclinação para melodias dos anos 1930 até os anos 1950, que variam do cômico ao

catastrófico, assim como canções com temática diabólica. LaVey as apresenta numa

série de sintetizadores autoprogramados, imitando vários grupos instrumentais. Elas

são impressionantes, porque não são feitas em gravação multicanal, mas sim numa

única trilha com os sons de todo o conjunto instrumental criado pelo uso simultâneo de

vários sintetizadores tocados pelos habilidosos dedos de LaVey, assim como pelo seu

pé numa pedaleira estilo órgão conectada via MIDI.

Quando seu relacionamento com Diane Hegarty ruiu no final dos anos 1970, uma

nova senhora entraria em sua vida para ser sua última companheira. Blanche Barton se

tornou sua parceira, coconspiradora, Suma Sacedotisa, amante e melhor amiga. Ela

gerou seu único filho, Satan Xerxes Carnacki LaVey em 1° de novembro de 1993. Como

sua saúde se deteriorava em meados de 1990, LaVey preferia passar o tempo com

pessoas que achava enriquecedoras, ganhando assim uma reputação de recluso.

Morreu em 29 de outubro de 1997, de complicações advindas de problemas cardíacos.

Não houve contrição no leito de morte. Ele se foi orgulhosamente, da mesma forma

como viveu, como um satanista, seus únicos arrependimentos eram ter que deixar a

grande festa que era a vida e que perderia o crescimento seu jovem filho Xerxes até a

idade adulta.

De acordo com a vontade de LaVey, Barton o sucedeu no comando da Igreja após

sua morte. Em 2001, ela passou sua posição para mim, Peter H. Gilmore, já então um

administrador de longa data da Igreja e membro do Conselho dos Nove. Em 2002,

Magistra Barton trocou sua posição de Suma Sacerdotisa com minha esposa Magistra

Peggy Nadramia, outra administradora veterna, que estava servindo como presidente

do Conselho dos Nove.

Duas biografias foram escritas sobre LaVey: The Devil’s Avenger (1974) por Burton

Wolfe e Secret Life of a Satanist (1990) por Blanche Barton. Em anos recentes, detratores

de LaVey com pautas bastante óbvias tem questionado a autenticidade dos eventos

narrados nestes livros. Eles o acusam de invenção e exagero autopromocionais. LaVey

era um showman habilidoso, um talento que ele nunca negou. Entretanto, os incidentes

relatados em ambas as biografias que podem ser autenticados por fotografias,

testemunhos e evidência documental excedem em muito os itens em disputa. O fato

que permanece é que LaVey seguiu por um caminho que o expôs a indivíduos

incomuns de todos os níveis da sociedade. Isto culminou com sua fundação da Igreja

de Satã, que levou a notoriedade internacional. Ele possuía dons que iam além do que

é normalmente considerado um padrão de excelência, voltando-se para muitas artes

com uma destreza geralmente ganha pela dedicação a uma só musa. Viveu sua vida

como um verdadeiro exemplar de tudo que enaltecia – buscando seus prazeres sem

regatear enquanto produzia obras apenas possíveis por meio de uma vigorosa

autodisciplina.

LaVey conseguiu evitar o destino da Sra. Cassan, um personagem de The Circus of

Dr. Lao, de Charles G. Finney, um dos romances favoritos do Doutor. O destino dela

era morrer e ser esquecida, pois nada do que produziu em vida era memorável, nem de

forma criativa nem destrutiva. Com seus pensamentos, agora presentes em várias

línguas, continuando a inspirar mentes semelhantes ao redor do globo, Anton Szandor

LaVey ganhou um lugar na arena do discurso filosófico e religioso. Nós, satanistas,

devemos a ele nossa gratidão por ter simbolicamente aberto os portões adamantinos do

Inferno, dando forma e estrutura a uma filosofia que nos denomina Deuses de nossos

próprios universos subjetivos. Sua heresia final contra as massas complacentes foi

rejeitar seu idolatrado dito de que todos os homens são iguais. Consequentemente, ele

desafiou seus camaradas a exercitar suas faculdades de julgar e ser julgado em tudo o

que fazem. Ele destronou a busca de salvadores externos e defendeu a

responsabilidade por todas as nossas ações e as consequências resultantes. Este é talvez

o princípio mais assustador para uma sociedade onde ninguém é responsabilizado por

seu comportamento.

A Igreja de Satã permanece como uma cabala de abrangência mundial daqueles que

trabalham para dar continuidade ao ímpeto humano da sociedade de acordo com o

vetor definido por LaVey. Deve permanecer no domínio precioso de uns poucos

imperiosos, que vivem por seus próprios sangue e cérebro, que orgulhosamente

rejeitam qualquer “distintivo de mocinho” e abraçam o título de satanista. Não há nada

a temer na Bíblia Satânica, pois ela não irá transformá-lo em algo que você não é. Ela

não pode convertê-lo, ou lhe persuadir a seguir direções que não são inerentes a sua

natureza. Seu poder reside em sua habilidade em mostrar o que você é pela sua reação

ao seu conteúdo. Adote-os, e sua vida ganhará um novo enfoque, pois você terá

aguçado sua compreensão de seu próprio ser, e verá mais claramente como difere

daqueles ao seu redor. Rejeite todos ou alguns desses obstinados postulados, e você

estará livre para ir a qualquer outro refúgio espiritual ou conceitual que lhe traga

satisfação. Entretanto, você não mais será ignorante do que significa ser um satanista.

Se você tiver apreendido estes fundamentos e tiver o talento de interpretar as pessoas,

poderá notar que há tais indivíduos como você, e como o próprio LaVey, que são

algumas das mais justas e fascinantes pessoas que você terá o prazer de conhecer.

Magus Peter H. Gilmore

Sumo Sacerdote, Igreja de Satã.

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PREFÁCIO

Este livro foi escrito porque, com muito poucas exceções, todo tratado e artigo, todo

grimório “secreto”, todas as “grandes obras” sobre magia, não são nada mais do que

fraude hipócrita – divagações cheias de culpa e algaravias esotéricas por cronistas do

conhecimento mágico incapazes ou não desejosos de apresentar uma visão objetiva do

assunto. Escritor após escritor, nos esforços para indicar os princípios da “magia

branca e negra”, conseguiram ao invés disso obscurecer a questão de forma tão ruim

que um pretenso estudante de feitiçaria acaba empurrando estupidamente uma

prancheta sobre um tabuleiro de Ouija, de pé dentro de um pentagrama esperando um

demônio se apresentar, jogando frouxamente varetas de milefólio para I-Ching como

biscoitos velhos, embaralhando cartolinas para predizer um futuro que perdeu todo o

significado, assistindo seminários que garantem esvaziar seu ego – assim como sua

carteira – e geralmente fazendo-se de tolo tagarela aos olhos daqueles que sabem!

O verdadeiro mago conhece aquelas estantes de livros de ocultismo repletas de

relíquias quebradiças de mentes frágeis e corpos estéreis, diários metafísicos de

autoilusão, e constipados manuais de misticismo oriental. Por muito tempo o assunto

da filosofia e magia satânica tem sido escrito por jornalistas de olhos arregalados do

caminho da mão direita.

A velha literatura é o subproduto de cérebros apodrecidos com medo e derrota,

escrita inconscientemente para o auxílio daqueles que realmente governam a terra, e

quem, de seus tronos infernais, riem com alegria perniciosa.

As chamas do Inferno ardem com mais brilho com as aparas fornecidas por estes

volumes de venerável desinformação e falsa profecia.

Aqui você encontrará a verdade – e fantasia. Uma é necessária para a outra existir;

mas casa uma deve ser reconhecida pelo que é. O que você vê pode nem sempre

agradá-lo; mas você verá!

Aqui está o pensamento satânico através de um ponto de vista verdadeiramente

satânico.

A Igreja de Satã,

São Francisco, Noite de Walpurgis, 1968.

PRÓLOGO

Os deuses do caminho da mão direita têm discutido e brigado por toda uma era

terrena. Cada uma dessas deidades e seus respectivos sacerdotes e ministros têm

tentado encontrar sabedoria em suas próprias mentiras. A era glacial do pensamento

religioso pode durar apenas por tempo limitado neste grande esquema da existência

humana. Os deuses do conhecimento corrompido tiveram sua saga, e seu milênio se

tornou realidade. Cada um, com seu próprio caminho “divino” para o paraíso, tem

acusado o outro de heresia e indiscrições espirituais. O Anel dos Nibelungos carrega

uma maldição eterna, mas apenas porque aqueles que o buscam pensam em termos de

“Bem” e “Mal” – eles mesmos sendo por todo o tempo o “Bem”. Os deuses do passado

tornaram-se como seus próprios diabos a fim de sobreviver. Debilmente, seus

ministros jogam o jogo do Diabo para encher seus tabernáculos e pagar as hipotecas de

seus templos. Ai deles, que por tanto tempo têm estudado a “retidão”, e se fizeram

pobres e incompetentes diabos. Então todos juntam as mãos em “fraternal” unidade, e

em seu desespero vão à Valhalla para seu último grande concílio ecumênico. “Na

escuridão se aproxima o crepúsculo dos deuses”. Os corvos noturnos voaram adiante

para invocar Loki, que deixou Valhalla em chamas com seu tridente flamejante do

Inferno. O crepúsculo está concluído. Um brilho de luz nova é nascido da noite e

Lúcifer ressurge mais uma vez, para proclamar: “Esta é a era de Satã! Satã governa a

Terra!” Os deuses dos iníquos estão mortos. Esta é a manhã da magia, e da sabedoria

pura. A carne prevalece e uma grande Igreja será construída, consagrada em seu nome.

Nunca mais a salvação do homem será dependente de sua autonegação. E será

conhecido que o mundo da carne e dos vivos será a maior preparação para todo e cada

deleite eterno!

REGIE SATANAS!

AVE SATANAS!

HAIL SATAN!

SALVE SATÃ!

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AS

NOVE

DECLARAÇÕES

SATÂNICAS