A Bruxa (pt.2) por Ryoki Inoue - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub para obter uma versão completa.

index-1_1.jpg

editora@vertente.com.br

www.vertente.com.br

Jeanne ia dizendo que sua ambição não chegava a esse ponto mas não conseguiu. Com um ruído surdo e exalando um horrível cheiro ácido que ela não conseguiu definir o que poderia ser, Satã desapareceu.

Jeanne se viu outra vez sozinha, olhando pela janela, vendo o dia que começava a clarear.

Ouviu um ruído atrás de si e, voltando-se, encontrou Tomás que a olhava com um sorriso.

— Acho que foi definitivo — murmurou ele — Você é a mulher perfeita para mim...

Jeanne caminhou até onde o homem estava e, enlaçando-o com seus braços, falou:

— Você foi maravilhoso, querido...

Fitando-o nos olhos, acrescentou:

— E não estou dizendo isso apenas para agradá-lo, como talvez fizesse em outra ocasião. Você realmente me fez sentir coisas que eu jamais havia sentido antes!

Tomás Camargo balançou a cabeça em sinal de dúvida e, depois de alguns instantes, falou:

— Não quero saber se você está sendo sincera ou não, Jeanne.

Sei que eu jamais fui tão feliz quanto esta noite. E acho que não serei mais capaz de me deitar com outra mulher sem me lembrar de você, sem lamentar o fato de não ser você a estar comigo...

Jeanne lembrou das palavras de Satã e sorriu consigo mesma enquanto dizia:

— Há uma maneira muito simples para que isso não aconteça, Tomás... Basta que fique comigo...

Tomás não respondeu.

Olhando o relógio, falou:

— Nem vou voltar para casa, hoje... Não teria o que dizer para explicar minha ausência durante toda a noite... Será melhor dizer que tive de viajar.

Ergueu os ombros e acrescentou:

— De qualquer maneira, será uma desculpa meramente formal.

Há muito que eu e Beatriz não temos mais nada em comum.

Principalmente a cama!

*******

138

index-2_1.jpg

www.vertente.com.br

editora@vertente.com.br

Era pouco mais de nove horas da manhã quando o telefone de Jeanne tocou.

— Jeanne... Você sabe me dizer o que aconteceu? — perguntou a voz de Hilda, uma senhora da alta sociedade e que já deixara muitas vezes bem claro que não conseguia suportar a presença de Jeanne —

Será que tem mais detalhes?

A francesa não respondeu de imediato, tão surpresa estava por receber aquele telefonema. Afinal, quando as duas se encontraram cerca de duas semanas atrás, Hilda fora até mesmo grosseira, dando as costas para a francesa várias vezes durante uma reunião na mansão dos Almeida Prado...

— Não, Hilda — disse Jeanne, em tom frio e seco — Não sei o que aconteceu e nem sequer desconfio do que você está falando.

— Ora! — exclamou Hilda — Estou falando de Regina! E estou ligando para você por que, como de nós era a que estava mais perto dela, a que estava encontrando com ela e com Roberto com mais frequência, talvez soubesse de mais detalhes a respeito dessa tragédia...

Imediatamente, Jeanne lembrou do que lhe dissera Satã e do que fizera com o boneco de papel.

— Mas eu não estou sabendo de nada! — protestou — Ninguém me disse coisa nenhuma!

Fazendo voz ansiosa, tentando mostrar que se preocupava, que estava angustiada, indagou:

— O que aconteceu com Regina? Diga-me, por favor!

Houve uma pequena pausa do outro lado da linha e, então, Hilda respondeu:

— O casal morreu... Regina e Roberto estão mortos!

— Mortos?! — fez Jeanne, sentindo um arrepio e com sincera surpresa pois não imaginava que o castigo imposto por Satã pudesse ser tão violento — Mas como foi isso?!

— Foram atropelados esta manhã — explicou Hilda — Eles saíram de casa bem cedo, foram juntos à farmácia pois Roberto estava, desde ontem à noite, um pouco doente. Não viram o caminhão de entregas... Foram alcançados já quando estavam a menos de dois metros da calçada. Morreram na hora. Esmagamento de crânio, falou o médico...

Hilda ainda disse mais algumas coisas, mais algumas das banalidades que costumam conversar as cocotas da sociedade.

Banalidades que não têm hora e nem lugar para serem discutidas e que surgem na conversa mesmo depois de uma notícia como aquela. Jeanne nem mesmo prestou atenção às palavras da amiga. Estava impressionada 139

index-3_1.jpg

editora@vertente.com.br

www.vertente.com.br

com o que acabara de acontecer e começava sinceramente a ter medo do que poderia fazer com a ajuda de Satã. Porém, sua mente ambiciosa e objetivam, enquanto Hilda matraqueava do outro lado a respeito de um novo cabeleireiro que tinha surgido na cidade e a respeito de um escândalo qualquer que movimentava os altos círculos, já estava pensando na melhor maneira de tirar proveito de tudo aquilo.

E, quando finalmente Hilda desligou o aparelho, ela já tinha uma boa idéia do que fazer para se afirmar na sociedade, e não apenas como uma mulher bonita, casada ou amasiada com um homem rico...

Não...

Ela seria famosa...

Seria respeitada também por ela mesma, seria procurada por muitos e, evidentemente, receberia muito dinheiro... Faria uma fortuna respeitável e sólida!

Mal se afastara do telefone, este tocou novamente.

Era Tomás que ligava do Banco, dizendo que ainda não se convencera de que a noite tinha sido real, de que não tinha sido apenas um sonho.

— Vou precisar ter certeza — disse ele — Vou querer tudo outra vez...

— Sua mulher vai desconfiar... — replicou Jeanne com um tom de malícia na voz.

— Não estou me incomodando mais, querida — falou Tomás

— Inclusive, já falei com um amigo advogado. Ele vai começar a tomar as providências necessárias para a minha separação. Nem vou voltar para casa, hoje...

Jeanne não teve o que dizer e Tomás, com uma risada, arrematou:

— Por isso, hoje estarei sem teto para me abrigar. Creio que é no mínimo uma obrigação de amiga você me dar pousada em sua casa...

Jeanne riu, disse-lhe que estaria esperando por ele com ansiedade e, desligando o telefone, lembrou-se que, à meia-noite, teria que ir a algum lugar...

— Mas onde? — perguntou-se — O Príncipe das Trevas não me disse onde deveria ir...

Afastou-se em direção à cozinha e, ao passar pela mesa da sala de jantar, viu sobre ela, um pedaço de papel.

Era um papel estranho, amarelado, grosso, parecendo um pedaço de uma página de livro velho.