A Cabeça Bem-Feita: Repensar a Reforma, Reformar o Pensamento por Edgar Morin - Versão HTML

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2003.

128p.

Tradução de: La tête bien faite

Anexos

ISBN 85-286-0764-X

1. Educação - Ensaios. 2. Educação - Filosofia. I. Título.

Todos os direitos reservados pela

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Não é permitida a reprodução total ou parcial desta obra, por quaisquer

meios, sem a prévia autorização por escrito da Editora.

Atendemos pelo Reembolso Postal.

Este livro é dirigido a todos, mas poderia

ajudar particularmente professores e alunas.

Gostaria de que estes últimos, se tiverem

acesso a este livro, e se o ensino os entedia,

desanima, deprime ou aborrece, pudessem

utilizar meus capítulos para assumir sua

própria educação.

SUMÁRIO

PREFÁCIO ....................................................................................... 9

1. OS DESAFIOS ............................................................................ 13

2. A CABEÇA BEM-FEITA ............................................................. 21

3. A CONDIÇÃO HUMANA............................................................. 35

4. APRENDER A VIVER ................................................................. 47

5. ENFRENTAR A INCERTEZA ........................................................ 55

6. A APRENDIZAGEM CIDADÃ ...................................................... 65

7. OS TRÊS GRAUS....................................................................... 75

8. A REFORMA DE PENSAMENTO ................................................. 87

9. PARA ALÉM DAS CONTRADIÇÕES ............................................ 99

ANEXOS

1. Inter-poli-transdisciplinaridade ............................................ 105

2. A noção de sujeito ................................................................. 117

7

PREFÁCIO

“Gostaria tanto de perseverar em minha educação puramente

humana, mas o saber não nos torna melhores nem mais felizes.

Sim! Se fôssemos capazes de compreender a coerência de todas

as coisas! Mas o início e o fim de toda ciência não estão

envoltos em obscuridade? Ou devo empregar todas estas

faculdades, estas forças, esta vida inteira, para conhecer tal

espécie de inseto, para saber classificar uma determinada planta

na série dos reinos?”

KLEIST, Lettre à une amie (Carta a uma amiga)

DURANTE OS ÚLTIMOS dez anos, desenvolvi uma linha de

idéias que me conduziria a este livro. Cada vez mais convencido da

necessidade de uma reforma do pensamento, portanto de uma reforma do

ensino, aproveitava diversas oportunidades para refletir sobre o assunto.

Por sugestão de Jack Lang, então ministro da Educação na França,

enunciei “algumas anotações para um Emílio* contemporâneo”.

Imaginara um “manual para alunos, professores e cidadãos”, projeto que

não abandonei. Depois, por ocasião de várias palestras e vários honoris

causa em faculdades estrangeiras, inseria em meus discursos minhas

idéias em formação.

Comecei a formular meu ponto de vista em meados 1997, quando

fui chamado por Le Monde de l’éducation para ser o “correspondente-

chefe convidado” do número sobre a Universidade.

_____________________

* Referência a Emílio, ou da educação, de Jean-Jacques Rousseau, Bertrand

Brasil. (N.daT.)

9

No dezembro seguinte, o ministro Claude Allègre pediu-me para presidir

um “Conselho Científico” destinado a refletir sobre a reforma dos saberes

nos ginásios. Graças ao apoio de Didier Dacunha-Castelle, organizei

algumas jornadas temáticas1, que me permitiram demonstrar a viabilidade

de minhas idéias. Mas elas levantaram tantas resistências, que o relato

referente a minhas proposições ficou prejudicado de ponta a ponta.

Entretanto, meu pensamento entrara irrevogavelmente em ação, e

com ele prossegui neste trabalho, que é o seu resultado2.

Tencionei começar pelos problemas que acreditava serem, ao

mesmo tempo, os mais urgentes e os mais importantes, e indicar o

caminho para analisá-los.

Tencionei começar pelas finalidades e mostrar como o ensino –

primário, secundário, superior – podia servir a essas finalidades.

Tencionei demonstrar como a solução dos problemas e sua

submissão às finalidades deveriam levar, necessariamente, à reforma do

pensamento e das instituições.

Os que não me leram e julgam-me segundo o “disse-me-disse” do

microcosmo atribuem-me a idéia bizarra de uma poção mágica, chamada

complexidade, como remédio para todos os males do espírito. Ao

contrário, a complexidade, para mim, é um desafio que sempre me propus

a vencer.

Este livro é dedicado, de fato, à educação e ao ensino, a um só

tempo. Esses dois termos, que se confundem, distanciam-se igualmente.

“Educação” é uma palavra forte: “Utilização de meios que

permitem assegurar a formação e o desenvolvimento de um ser humano;

esses próprios meios”. (Robert) O termo “formação”, com suas

conotações de moldagem e conformação, tem o defeito de ignorar

_____________________

1 O relato dessas jornadas foi publicado sob o título Relier les connaissances;

Seuil, 1999.

2 Agradeço a Jean-Louis Le Moigne e Chtistiane Peyron-Bonjan, que

contribuíram com suas observações críticas na releitura de meu manuscrito.

10

que a missão do didatismo é encorajar o autodidatismo, despertando,

provocando, favorecendo a autonomia do espírito.

O “ensino”, arte ou ação de transmitir os conhecimentos a um

aluno, de modo que ele os compreenda e assimile, tem um sentido mais

restrito, porque apenas cognitivo.

A bem dizer, a palavra “ensino” não me basta, mas a palavra

“educação” comporta um excesso e uma carência. Neste livro, vou

deslizar entre os dois termos, tendo em mente um ensino educativo.

A missão desse ensino é transmitir não o mero saber, mas uma

cultura que permita compreender nossa condição e nos ajude a viver, e

que favoreça, ao mesmo tempo, um modo de pensar aberto e livre.

Kleist tem muita razão: “O saber não nos torna melhores nem mais

felizes.”

Mas a educação pode ajudar a nos tornarmos melhores, se não mais

felizes, e nos ensinar a assumir a parte prosaica e viver a parte poética de

nossas vidas.

11

CAPÍTULO I

OS DESAFIOS

“Nossa Universidade atual forma, pelo mundo afora, uma

proporção demasiado grande de especialistas em disciplinas

predeterminadas, portanto artificialmente delimitadas, enquanto

uma grande parte das atividades sociais, como o próprio

desenvolvimento da ciência, exige homens capazes de um

ângulo de visão muito mais amplo e, ao mesmo tempo, de um

enfoque dos problemas em profundidade, além de novos

progressos que transgridam as fronteiras históricas das

disciplinas.”

LICHNEROWICZ

HÁ INADEQUAÇÃO cada vez mais ampla, profunda e grave entre os

saberes separados, fragmentados, compartimentados entre disciplinas, e,

por outro lado, realidades ou problemas cada vez mais polidisciplinares,

transversais, multidimensionais, transnacionais, globais, planetários.

Em tal situação, tornam-se invisíveis:

– os conjuntos complexos;

– as interações e retroações entre partes e todo;

– as entidades multidimensionais;

– os problemas essenciais.

De fato, a hiperespecialização1 impede de ver o global (que ela

fragmenta em parcelas), bem como o essencial (que ela dilui). Ora,

_____________________

1 ... ou seja, a especialização que se fecha em si mesma sem permitir sua integração em

uma problemática global ou em uma concepção de conjunto do objeto do qual ela

considera apenas um aspecto ou uma parte.

13

os problemas essenciais nunca são parceláveis, e os problemas globais são

cada vez mais essenciais. Além disso, todos os problemas particulares só

podem ser posicionados e pensados corretamente em seus contextos; e o

próprio contexto desses problemas deve ser posicionado, cada vez mais,

no contexto planetário.

Ao mesmo tempo, o retalhamento das disciplinas torna impossível

apreender “o que é tecido junto”, isto é, o complexo, segundo o sentido

original do termo.

Portanto, o desafio da globaliaade é também um desafio de

complexidade. Existe complexidade, de fato, quando os componentes que

constituem um todo (como o econômico, o político, o sociológico, o

psicológico, o afetivo, o mitológico) são inseparáveis e existe um tecido

interdependente, interativo e inter-retroativo entre as partes e o todo, o

todo e as partes. Ora, os desenvolvimentos próprios de nosso século e de

nossa era planetária nos confrontam, inevitavelmente e com mais e mais

freqüência, com os desafios da complexidade.

Como disseram Aurélio Peccei e Daisaku Ikeda: “O approach

reducionista, que consiste em recorrer a uma série de fatores para regular

a totalidade dos problemas levantados pela crise multiforme, que

atravessamos atualmente, é menos uma solução que o próprio problema.”2

Efetivamente, a inteligência que só sabe separar fragmenta o

complexo do mundo em pedaços separados, fraciona os problemas,

unidimensionaliza o multidimensional. Atrofia as possibilidades de

compreensão e de reflexão, eliminando assim as oportunidades de um

julgamento corretivo ou de uma visão a longo prazo. Sua insuficiência

para tratar nossos problemas mais graves constitui um dos mais graves

problemas que enfrentamos. De modo que, quanto mais os problemas se

tornam multidimensionais, maior a incapacidade de

_____________________

2 Cri d’alarme pour le 21e siècle. Dialogue entre Daisaku Ikeda et Aurélio Peccei, PUF,