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A Carteira Aérea

A Carteira Aérea
A verdade, é que a vida de Aérea começou logo mal.
Foi deixada de madrugada, à porta de um convento de monjas, que funcionava
como orfanato, largada como um farnel ou uma encomenda, numa cesta de vime,
muito embrulhada em mantas e ainda recém nascida, com cordão umbilical e tudo.
Preso ¢ cesta, um cartão dizia: “Que se chame A←rea a esta Filha do Divino.”
Congeminaram as monjas, não acerca deste Divino Parentesco, por demais óbvio,
mas do outro, do genético.
Quem seriam o pai e mãe terrenos da pequena e rosada criatura?
Também estranharam a indicação do nome, tão invulgar e pouco cristão.
Seria o pai importante aviador dado a amores ilícitos?!
Com um ego dilatadíssimo?
Mas as freiras não tinham lido Freud e nem pensaram nisso... Divino é Divino!
Seria descendente de alguma família importante, aristocrática? Daquelas
salganhadas com sangue azul e sangue vermelho? Uma aliança indesejada entre
classes? Entre os terratenentes da classe dominante e o proletariado rural?
(Mas as freiras também não tinham lido Marx).
O típico! Taran-taran-taran... ouvem-se os cascos do cavalo... a ceifeirinha virgem de
13 anos, mas roliça, esconde-se atrás dum chaparro frondoso, ele empina -se,
empina o cavalo, fica tudo empinado , salta e zás! Adeus cavalo, volto já! Disse à
besta telepáticamente. E o cavalo compreendeu. (Mas as freiras também não tinham
visto westerns).
Por isso, o que as freiras pensaram mesmo, porque eram incultas mas não eram
burras, foi que tal nome era uma forma simples de mais tarde a identificar facilmente.
A CARTEIRA AÉREA de Filipa Azul
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