A Casa Fechada por Roberto Gomes Ribeiro - Versão HTML

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A Casa Fechada, de Roberto Gomes

Fonte:

GOMES, Roberto. A Casa Fechada. In: Teatro da Juventude. Ano IV, nº. 26, pp. 15 – 25. Governo do Estado de São Paulo. Secretaria de Cultura. São Paulo: Imprensa Oficial, 1999.

Texto proveniente de:

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A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo

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A CASA FECHADA

Roberto Gomes

PERSONAGENS:

A Mãe

O

Filho

A Agente do Correio

Dona Sinfonia

Ritoca

O

Boticário

O Barbeiro

O

Acendedor de Lampiões

Joaquim Aguaceiro

O

Mendigo

O

Delegado

O

Moleque Jenipapo

Um Pescador

Uma Criança

ATO ÚNICO

(Uma rua tristonha, numa cidade do interior. Uma lagoa reluz ao longe. Ao fundo, à extrema direita, uma casinha de duas janelas, separada da rua por um pequeno jardim. A casa está completamente fechada. No primeiro plano, à esquerda, a entrada do Correio. Perto da porta, um banco. No centro, ao fundo, um lampião perfila-se diante de uma árvore raquítica. A rua é vista em diagonal. Seis horas da tarde.)

CENA 1

(Dona Sinfonia, Joaquim Aguaceiro, Mendigo,Pescador.)

(Dona Sinfonia, à janela da agência, faz crochê e olha de vez em quando para a casa fechada. O Mendigo está sentado, imóvel, debaixo do lampião. Entra o Pescador com uma carta na mão e atravessa o palco. Quando ele vai penetrar no Correio, topa com Joaquim Aguaceiro, que, em pé, no solar, contempla a casa, ao longe.) O

PESCADOR

(Cumprimentando) Boa tarde, patrão.

JOAQUIM AGUACEIRO

Boa tarde, Candonga. (O Pescador entra, depois de cumprimentar Dona Sinfonia, e sai, logo após, sem a carta.) Está metido a escritor, agora?

O

PESCADOR

Foi a carta que mandei pro filho.

JOAQUIM AGUACEIRO

Está sempre trabalhando na cidade?

O

PESCADOR

Sim, patrão. Há muito que não sei dele. Então, como estava me dando saudade, pedi ao Anfilóquio para escrever uma carta.

JOAQUIM AGUACEIRO

Quem sabe se ele não anda doente?

O

PESCADOR

A última vez que tive notícias, ele estava bem forte e saudável. Mas lá na cidade os homens caem depressa. Ah!

Patrão! Criança é o castigo da gente! (Olha para Dona Sinfonia, que concorda com a cabeça.) JOAQUIM AGUACEIRO

Aqui ele já era meio extravagante. Ficava a jogar bilhar até as dez horas.

O

PESCADOR

Eu, na idade dele, era um bicho... era um bicho para tudo. Tinham medo, tão bravo que eu era no trabalho.

JOAQUIM AGUACEIRO

Hoje ainda.

O

PESCADOR

Qual! Tenho andado doente. Foi uma resfriadela que apanhei. (Olha para o céu.) O tempo não está bom para reumatismo... Está assim cozinhando... Mas vamos ter chuva. (Olha ao longe.) A lagoa está brilhando.

JOAQUIM AGUACEIRO

Trabalhou muito hoje?

O

PESCADOR

Assim. A pesca não foi lá das melhores. E, para atravessar a lagoa, meu bote só pega três pessoas. A gente precisa suar muito para ganhar pouco. Ah! Se eu tivesse todo o dinheiro que perdi, já estava remediado.

JOAQUIM AGUACEIRO

Agora vai pra casa?

O

PESCADOR

Vou sim, patrão. (Pausa. Ele não se move.) Vou, sim... (Permanece imóvel. Afinal, dá um passo e pára.

Mostrando a casa ao longe, com a cabeça:) Ainda estão lá dentro?

DONA SINFONIA

Estão, sim. Há mais de uma hora.

JOAQUIM AGUACEIRO

Ele é capaz de descobrir a coisa.

O

PESCADOR

Ah! Com o Dr. Aprígio ninguém escapa. Moleque feio tem de entrar nela.

DONA SINFONIA

Não se ouve nada.

O

PESCADOR

Nada. Está tudo fechado. Parece que estão a velar um defunto.

DONA SINFONIA

Desde a manhã, ninguém saiu.

CENA II

(Os mesmos, o Boticário) (O Boticário, chegando pausadamente, aperta a mão de Joaquim Aguaceiro, cumprimenta cerimoniosamente Dona Sinfonia, e, de alto, o Pescador.)

O

BOTICARIO

Boas tardes, senhor aguaceiro.

JOAQUIM AGUACEIRO

Como passa, Sr. Simplício?

O BOTICÁRIO

Sempre bem. Deixei um instantinho a botica para comprar uns selos. Dona Eudóxia está?

JOAQUIM AGUACEIRO

Está. Ela anda um pouco atarefada. Desde manhã cedo teve gente como quê.

O

BOTICÁRIO

Dona Sinfonia não largou a janela.

DONA SINFONIA

Estou com dor de cabeça... Preciso respirar.

O

BOTICÁRIO

Tenho um bom remédio para dor de cabeça.

DONA SINFONIA

(Continuando, sem responder) Preciso respirar. Não posso ficar trancada.

JOAQUIM AGUACEIRO

(Olhando para a casa e piscando) Trancados estão eles.

O

BOTICÁRIO

Já devem estar cheirando a mofo. (Pausa) Que estarão fazendo? Ouviu alguma coisa, Dona Sinfonia?

DONA SINFONIA

Não ouvi nada, Sr. Simplício. Não costumo meter-me na vida dos outros.

O

PESCADOR

Quem viu foi o Geraldino.

DONA SINFONIA

(Largando o crochê) Ah! Ele viu?

O

BOTICÁRIO

(Sem afetação) Viu?

O

PESCADOR

Viu, sim. Ele ficou de me procurar depois do serviço pra me contar a coisa. O doutor delegado já conversou com ele.

DONA SINFONIA

Ah! Conversou?

O

PESCADOR

(Importante) Conversou, sim. E agora está lá dentro com eles todos. Ah! Com aquele homem é preciso andar na linha. Senão, está tudo à toa.

DONA SINFONIA

(Olhando para a casa) À-toa é ela. Santa Bárbara!

CENA III

(Os mesmos, Dona Eudóxia, a Agente do Correio) (Dona Eudóxia aparece à porta do Correio. Joaquim Aguaceiro, com indiferença afetada, vai se aproximando da casa fechada e passa lentamente rente às janelas.)

O

BOTICÁRIO

Como tem passado, Dona Eudóxia?

DONA EUDÓXIA

Vou indo, Sr. Simplício. Dona Quintanilha está boa?

O

BOTICÁRIO

Está, obrigado.

DONA EUDÓXIA

Deseja alguma coisa?

O

BOTICÁRIO

Preciso de uns selos. Mas não há pressa. . não há pressa...

DONA EUDÓXIA

Não quer entrar um pouquinho?

O

BOTICÁRIO

Prefiro ficar aqui mesmo.

DONA EUDÓXIA

Então, não quer sentar-se?

O

BOTICÁRIO

Aceito o seu convite, Dona Eudóxia. Sinto-me cansado.

JOAQUIM AGUACEIRO

Foram as emoções desta noite.

DONA SINFONIA

Ah! Cruzes!

DONA EUDÓXIA

Deixe lá o seu crochê, Dona Sinfonia. A esta hora, vai estragar a vista. (Falando para dentro) Moleque! Traga uma cadeira!

(O Moleque Jenipapo aparece com uma cadeira. O Boticário senta-se nela; os outros no banco. O Pescador fica em pé. Aproxima-se Joaquim Aguaceiro.)

O

BOTICÁRIO

Por onde anda, seu compadre?

DONA SINFONIA

Ouviu alguma coisa?

JOAQUIM AGUACEIRO

Nada. Está tudo calado.

O

BOTICÁRIO

Não é como esta noite.

DONA SINFONIA

Ah! Que barulheira!

O

BOTICÁRIO

A Quintanilha até chorou de susto.

DONA EUDOXIA

Ah!

O

BOTICÁRIO

Tive de lhe dar água de flor de laranja com umas gotas e... Urna composição minha. (Pausa.) DONA EUDÓXIA

(Voltando-se para a casa ao longe) Dizem que “ela” embarca no trem das sete.

O

PESCADOR

Das sete.

DONA SINFONIA

Ela terá de passar por aqui.

JOAQUIM AGUACEIRO

Decerto.

O

BOTICÁRIO

Homem! Já que vim até cá, estou quase a me demorar um pouco.

DONA SINFONIA

Até as sete.

JOAQUIM AGUACEIRO

Quero ver o seu jeito, quando ela passar.

DONA EUDÓXIA

Quem havia de dizer? Urna mulher assim tão direita!

O

BOTICÁRIO

Oh! Eu sempre desconfiei. . Essa gente calada. .

DONA SINFONIA

E velha que ela é!

DONA EUDÓXIA

Velha, não!

DONA SINFONIA

Como não?

JOAQUIM AGUACEIRO

(Ao Pescador) Que idade tem ela? (Aos outros) Candonga sabe.

O

PESCADOR

Ela ,já deve estar capinando os seus trinta e cinco.

DONA SINFONIA

(De mãos postas) Trinta e cinco!

O

BOTICÁRIO

E três filhos.

JOAQUIM AGUACEIRO

O

Julinho já anda pelos seus quinze.

DONA EUDÓXIA

Coitado!

DONA SINFONIA

Pois eu também vou esperar para vê-la passar... Ia agora para casa, mas como todos ficam. .

DONA EUDÓXIA

Não querem tomar café?

O

BOTICÁRIO

Aceito, Dona Eudóxia.

JOAQUIM AGUACEIRO

Não vale a pena.

O

BOTICÁRIO

Bem que vale.

DONA EUDÓXIA

Já está feito, Sr. Joaquim. E só trazer. Vou chamar o Jenipapo. (Chamando) Moleque! Moleque! (Olhando para dentro) Onde se meteu esse moleque? (O Moleque Jenipapo entra correndo pelo fundo. Ele esteve atrás da casa fechada.) Ah! Ele tinha ido espiar! (Ao Moleque) Traga o café, depressa.

O

BOTICÁRIO

(Fazendo-o parar) Viste alguma coisa, moleque?

O

MOLEQUE JENIPAPO

Não, senhor, senhor não. A casa está toda escura. (Sai.)

DONA EUDÓXIA

Uma casa que parecia tão feliz! Lembra-se, Sr. Joaquim? Havia sempre flores às janelas.

JOAQUIM AGUACEIRO

Parece que esta noite ele arrebentou até as flores.

O

PESCADOR

Viu que estava desgraçado. Então foi desgraçando tudo.

DONA EUDÓXIA

É isso mesmo... Oh!

DONA SINFONIA

Que é?

DONA EUDÓXIA

Acendeu!

TODOS

Acendeu?

DONA EUDÓXIA

Vejam. (Todos olham para a casa fechada. Com efeito, unia réstia de luz filtra pelas venezianas. Longo silêncio, durante o qual eles contemplam, imóveis, aquele feixe luminoso.)

O

BOTICÁRIO

(Murmura.) Que será?

DONA SINFONIA

Não ouvem nada? (Todos escutam. Pausa.)

JOAQUIM AGUACEIRO

Nada. (Pausa.)

DONA EUDÓXIA

Eu também preciso acender. (Entra, acende o interior da casa e volta a ter com os outros.) DONA SINFONIA

Vê-se ainda. (A uma senhora que chega) Oh! Ritoca! Há quanto tempo não a encontrava!

CENA IV

(Os mesmos, Ritoca)

DONA RITOCA

(Saudando a todos e abraçando Dona Sinfonia) Como vai sua obrigação?

DONA SINFONIA

Estou boa. E você?

DONA RITOCA

Não estou passando muito bem.

JOAQUIM AGUACEIRO

Pois não parece. Quando atravessava o largo, há pouco, estava dengosa como seriema no capim.

O

BOTICÁRIO

Se não está boa, eu recebi da cidade uma pílulas que curam num instante. ~ só pedir.

DONA RITOCA

(Abraçando Dona Eudóxia) Vim até cá para ver se não havia cartas à minha espera.

DONA EUDÓXIA

Bem sabe que, quando há, sempre lhe mando levar. Não precisava incomodar-se. (Entra o Moleque com uma bandeja.) Toma café conosco?

DONA RITOCA

Não sei se tenho tempo... (Mais baixo, rapidamente) Ela já saiu?

DONA EUDÓXIA

Não. Vai pelo trem das sete.

DONA RITOCA

Ah! (Alto) Pois aceito... Uma canequinha.

DONA SINFONIA

Café nunca se recusa.

DONA EUDÓXIA

(Ao Moleque, que acaba de servir o café) Uma cadeira! Depressa. (Ele traz a cadeira e dirige-se, depois, para o lado da casa fechada, atrás da qual desaparece. Todos bebem o café aos goles.)

DONA RITOCA

Estavam falando da Maria das Dores?

JOAQUIM AGUACEIRO

Estávamos. Quem havia de dizer?

DONA RITOCA

Eu não sei ao certo o que houve. Que foi, heim, Sr. Aguaceiro?

O

BOTICÁRIO

(A Dona Eudóxia) Ela já deve saber de cor. Desde manhã cedinho que se agarra a toda a gente para que lhe contem.

DONA SINFONIA

Quem conhece bem o caso é o Geraldino.

DONA RITOCA

O

barbeiro?

O

PESCADOR

Sim, senhora, Dona Ritoca. Tanto que ele ficou de me procurar, depois do serviço... Ele viu tudo, e já conversou com o doutor delegado. (Passa ao fundo uma criança arrastando um papagaio. Quando chega diante da casa fechada, ergue-se na ponta dos pés e procura espiar. Depois, segue o caminho.)

JOAQUIM AGUACEIRO

Não sei como é que ele não apareceu.

O PESCADOR

Ainda não acabou o serviço. (Pausa.)

DONA RITOCA

(Olhando para a casa) E ele? Não se sabe afinal quem é?

O

BOTICÁRIO

Ela não quis dizer... Por nada. Ao senhor delegado talvez...

DONA SINFONIA

Parece até impossível.

DONA RITOCA

Não valia a pena fazer tanto xodó para acabar assim!

DONA EUDÓXIA

Que pena, meu Deus! Que pena!

DONA RITOCA

Lembra-se, Dona Sinfonia? Quando o coronel Fulgêncio passou uma tarde por aqui... Papai tinha preparado em casa um café de estalar a língua... Toda a gente à espera. Pois fizeram tanta intriga que o coronel acabou indo tomar café em casa da Maria das Dores.

DONA SINFONIA

Uma mulher que nem punha chapéu pra missa das dez!

JOAQUIM AGUACEIRO

Sim. O Matias está hoje desfalcado; mas já teve alguma coisa; e a Maria das Dores ainda hoje tem ar assim de gente grossa.

DONA EUDÓXIA

Quando ela entrava na igreja com seu grande xale preto, lembrava uma princesa..

O BOTICÁRIO

Pois está fresca, a princesa!

DONA RITOCA

Papai nunca perdoou o café do coronel. (Pausa.)

JOAQUIM AGUACEIRO

(Olhando para a casa) E nada...?

O BOTICÁRIO

Até agora, nada. (Silêncio.)

DONA SINFONIA

Que vai ser dela, sozinha, na capital?

DONA RITOCA

Ora!

O BOTICÁRIO

Com o perdão da palavra, vai cair na malandragem.

O PESCADOR

Ela tem umas primas por lá.

DONA EUDÓXIA

Coitada da Maria das Dores!

DONA SINFONIA

Coitada quê, Dona Eudóxia? Coitado do Matias!

DONA EUDÓXIA

Ele era muito bruto.

JOAQUIM AGUACEIRO

Qual bruto qual nada! Mulher precisa é andar na linha.

O BOTICÁRIO

Pancada traz amor.

DONA EUDÓXIA

(Apontando o Mendigo) O pai Tobias é que vai sentir falta. Acabou-se a janta.

O BOTICÁRIO

Onde vais comer agora, heim, pai Tobias?

O MENDIGO

(Fita-os sem responder, e, após um silêncio, gravemente) Deus é que sabe! (Pausa.) O BOTICÁRIO

Antes não comer que comer o pão do pecado.

O PESCADOR

Ah! Isso também não!

DONA SINFONIA

(De repente) Oh! (Todos olham. Vê-se entreabrir a porta da casa, donde sai o delegado seguido pelo escrivão.

O Moleque Jenipapo, que espiava, escondido, atravessa a rua correndo. Todos calam, cumprimentam o delegado. Este toca de leve o chapéu e sai.)

O PESCADOR

Ele saiu.

DONA EUDÓXIA

Que terá havido, meu Deus!

DONA RITOCA

Mais logo vamos saber.

DONA SINFONIA

Está começando a esfriar, não acham?

DONA EUDÓXIA

Podemos entrar.

DONA RITOCA

Estamos muito bem aqui.

O BOTICÁRIO

Estamos, sim.

JOAQUIM AGUACEIRO

(Puxando o relógio) Pouco falta para as sete.

DONA SINFONIA

E a estação fica tão perto!

OPESCADOR

Aí vem o Geraldino!

TODOS

Ah!

DONA RITOCA

Afinal!

CENA V

(Os mesmos, Geraldino)

JOAQUIM AGUACEIRO

Então, Geraldino? Teve serviço até agora?

GERALDINO

Fui até a estação. (Cumprimenta a todos.) Boas tardes!

O BOTICÁRIO

Já se pode dar boa-noite.

(Geraldino saúda com a mão o Pescador, que corresponde.)

DONA EUDÓXIA

Há muita gente na estação?

GERALDINO

Está cheia... Assim... Todos querem ver.

DONA SINFONIA

Que gente bisbilhoteira!

DONA RITOCA

Eu é que não me mexo.

GERALDINO

Também, ela tem de passar por aqui.

O BOTICÁRIO

Ela irá mesmo?

GERALDINO

Vai, pois não. Só se ela quiser dizer quem foi.

DONA EUDOXIA

O senhor delegado saiu agora mesmo.

GERALDINO

(Importante) Sei. Já estive com ele hoje à tarde. (Todos olham para o Geraldino, esperando que ele fale.) O PESCADOR

Mas você viu mesmo tudo, seu Dino?

GERALDINO

Vi, decerto.

DONA SINFONIA

Tudo?

GERALDINO

Tudo, tudo, não.

DONA RITOCA

Oh! Conte... Conte..

GERALDINO

Mas vosmecê já me ouviu contar hoje duas vezes. (Todos se riem.)

O BOTICÁRIO

(A Dona Eudóxia) Está vendo?

DONA RITOCA

(Zangada) Eu? Onde? Onde?

GERALDINO

Esta manhã, perto da vacaria, quando eu explicava a coisa ao Zé Menezes; e, antes das duas...

DONA RITOCA

Oh! Eu passava tão depressa... Não ouvi quase nada.

JOAQUIM AGUACEIRO

Não se zangue, Dona Ritoca.

DONA RITOCA

Não. Mas parece assim que sou curiosa!

GERALDINO

(Dispondo-se a contar) Então, vá lá!

JOAQUIM AGUACEIRO

Quer pitar?

GERALDINO

Pois sim.

O BOTICÁRIO

Eu aceitava mais uma canequinha.

DONA EUDÓXIA

Moleque!... Café para o seu Simplício! (Pouco depois entra o Moleque, com o café.)

DONA SINFONIA

Então? Como foi isso?

GERALDINO

Foi assim.. Eram onze horas. Eu passava pelo Beco das Formigas.

JOAQUIM AGUACEIRO

Às onze horas pelas ruas, seu malandro. .

GERALDINO

Ora, não me interrompa...

O BOTICÁRIO

Deixe falar o Geraldino!

GERALDINO

Vinha da casa do Tinoco... A casa nova...

O PESCADOR

Um sujeito que outro dia mesmo estava arrancando mato, e depois ficou rico tão ligeiro!

GERALDINO

Assim não conto nada!

DONA RITOCA

Ora!

O BOTICÁRIO

Sossega! Gente!

GERALDINO

Está bom. (A Joaquim) Dê cá fogo! (Acende o cigarro, que se apaga.) Passava lá pelos fundos do beco, quando me pareceu ouvir ao longe uma qualquer coisa de especial dentro da casa do Matias. Paro para ouvir. De repente, bate a janela com toda a força, e vejo um vulto a pular.

DONA SINFONIA

A pular?

GERALDINO

Fiquei assim indeciso, sem saber. Pensei a princípio num ladrão. Mas, enquanto estava a cismar, ele desata a correr que nem veado e cai no mato.

DONA EUDÓXIA

Por que não correu atrás?

DONA RITOCA

E não reconheceu?

GIRALDINO

Não pude.Vi só que era um rapaz novo, esperto... Mas não reconheci.

DONA SINFONIA

Novo... Esperto... Quem sabe se não era o Alcino?

O BOTICÁRIO

O Alcino ontem estava de cama. Melhorou com um xarope meu, excelente.

JOAQUIM AGUACEIRO

Quem sabe se o Antônio Ferraz ...

DONA RITOCA

Ah! O António Ferraz!

O PESCADOR

Qual! O Nico bem que andava a rondar a casa do Matias, — não arranjou nada. Ela nem olhava para ele!

DONA RITOCA

(Resmungando) Não olhava... Não olhava...

DONA SEFONIA

Então, a gente nunca há de saber?

GERALDINO

Só se ela disser...

O PESCADOR

(para si) Por que é que ela não diz...?

O BOTICÁRIO

Adiante, Geraldino!

GERALDINO

Fui chegando de mansinho até a janela,que tinha ficado entreaberta, e espiei lá para dentro. Gente! Estava o Matias com os olhos a saltar, agarrado à mulher, torcendo-lhe os braços. E batendo-lhe com a cabeça no chão..

(Redobra a atenção de todos)

DONA RITOCA

E ela gritava?

GERALDINO

Nem um pio. Ela não queria acordar os filhos.

DONA RITOCA

Ora veja!

GERALDINO

Parece que todas as noites, quando o Matias estava adormecido, ela ia devagarinho abrindo a porta da casa...

Sabem que de dia ela não podia sair...

DONA EUDÓXIA

Que noites terríveis deviam ser aquelas!

O BOTICÁRIO

Ela com os filhos ao lado. Com a certeza de ser um dia apanhada.

DONA RITOCA

Ela não tinha medo de acordá-los?

JOAQUIM AGUACEIRO

Como é que a Maria das Dores, tão sossegada, tão refletida, foi desnortear assim, depois de velha?

DONA SINFONIA

Isso não se explica.

GERALDINO

São coisas!

JOAQUIM AGUACEIRO

Mas por quê?

DONA EUDÓXIA

(Timidamente) A gente, às vezes, sente-se tão só!

DONA RITOCA

Só... com um marido e três filhos!

DONA EUDÓXIA

(Viva mente) Não foi isso que eu quis dizer

O BOTICÁRIO

Que foi que a senhora quis dizer, Dona Eudóxia?

(Silêncio.)

DONA EUDÓXIA

(Depois de hesitar) Quis... (Pára um instante.) Eu bem sinto cá dentro, mas não sei explicar... Não sei.. (Olham para Dona Eudóxia. Pausa.)

DONA SINFONIA

Uma grande sonsa é o que ela era.

JOAQUIM AGUACEIRO

Não tem desculpa o que ela fez.

DONA RITOCA

Que acha o Sr. Simplício?

O BOTICÁRIO

Uma desavergonhada... Pior que uma cadela.

DONA SINFONIA

E fingindo-se de boa! Quando penso, senhor aguaceiro, que, o mês passado, ela foi tratar da minha Ruth, na ocasião da tal epidemia! Eu também estava doente. Seis noites que ela passou na cabeceira da pequena, maculando com seu contato impuro aquele anjinho de inocência! Quando penso nessa desgraça...

DONA EUDÓXIA

Mas a menina salvou-se.

DONA SINFONIA

Graças à Divina Providência.

DONA RITOCA

Com certeza, ao sair, ela ia se encontrar com o tal rapaz.

O BOTICÁRIO

Ora se ia!

JOAQUIM AGUACEIRO

O tratamento era o pretexto.

DONA SINFONIA

Ah! Aquela mulher é um monstro. Não é, Sr. Geraldino?

GERALDINO

Decerto.

O BOTICÁRIO

Forca é o que ela merece. (Nesse momento, o velho mendigo deixa cair o cajado. Joaquim Aguaceiro volta-se para ele ao ouvir o ruído e exclama:)

JOAQUIM AGUACEIRO

E você, pai Tobias, que acha disso tudo?

O MENDIGO

(Olhando-os, lentamente, depois de apanhar o cajado) Essas coisas cá da terra a gente nunca pode explicar.., nem julgar... Deus é que sabe... (Silêncio.)

DONA RITOCA

(Ao Barbeiro) E depois?

GERALDINO

Depois...? Ele puxava-lhe os cabelos, torcia-lhe os braços, sacudindo-a e repetindo sempre com raiva: “Diga o nome... Diga o nome.. "

O PESCADOR

(Consigo mesmo) Mas por que é que ela não disse?

O BOTICÁRIO

Pudera! Se o Matias pegasse o rapazinho, esborrachava-o com um soco.

GERALDINO

(Prosseguindo) Então, corno ela não queria falar, ele apanhou à parede um grande chicote de couro e começou a bater-lhe, a bater-lhe até mais não poder. A princípio ela gemia baixinho, mas depois pegou a gritar, a gritar que era um gosto. Ele só repetia: “Diga o nome... Diga o nome...” E ela nada.. Até que o sangue começou a pingar.

DONA RITOCA

O sangue?

DONA EUDÓXIA

Cruzes! (Todos se aproximam do Geraldino, ofegantes. Os peitos arfam, os olhos brilham no crepúsculo.) GERALDINO

Sim. A cada chibatada, aparecia uma fitinha vermelha que ia escorrendo pelo corpo. Não sei se o Matias tinha dó, mas ele chorava também. E continuava, de chicote em punho, a dizer, chorando: “O nome... O nome... Diga o nome... Ela torcia-se no chão, feito cobra. Arrastava-se, agarrava-se a ele, gritando:“ Tem pena! Tem pena!

Matias, eu te amei também!.. ” Quando o Julinho entrou no quarto, ela estava toda encharcada...

DONA SINFONIA

Encharcada?

GERALDINO

O assoalho estava vermelho, como se tivessem amassado goiaba. . (Nesse momento, Dona Ritoca desanda a rir nervosamente. Todos olham, estupefatos. Geraldino interrompe-se. Mas a risada continua, cada vez mais nervosa, mais estridente.)

O BOTICÁRIO

Que é, Dona Ritoca?

DONA EUDÓXIA

Está incomodada?

DONA SINFONIA

Quer ir lá pra dentro?

DONA RITOCA

(Insistindo, e continuando a rir-se, diz, com palavras entrecortadas e ofegantes:) Não... Não. . Mas... Eu imaginava a Maria das Dores, oferecendo chá ao coronel, com seus ares de princesa.., e ontem... o chicote. . e o sangue... (E ri-se, ri-se sem parar. Todos entreolham-se, em silêncio, com certo constrangimento. Longa pausa.)

DONA SINFONIA

Coitada da Ritoca! ~ tão sensível!... (A Dona Eudóxia) Não tem um pouco de vinagre?

DONA EUDÓXIA

Sim. (Entra e volta com o vinagre, que faz respirar a Dona Ritoca, enquanto a conversa recomeça.) JOAQUIM AGUACEIRO

Foi só o Julinho que entrou?

GERALDINO

As pequenas também. Elas estavam com medo, mas o Matias arrastou-as até o quarto e disse à mulher: “Olha bem, pela última vez... Se não queres dizer o nome, amanhã tu sais desta casa para sempre, e nunca mais verás teus filhos.. Nunca. ."

O BOTICÁRIO

E ela não disse?

GERALDINO

Não.

O PESCADOR

(Meditando) Mas por quê?

DONA SINFONIA

Que mãe sem entranhas!

DONA EUDÓXIA

No entanto, bem extremosa que ela era!

O PESCADOR

Era, sim. E ela vai deixar os filhos para sempre.

DONA SINFONIA

Disfarce!

DONA EUDÓXIA

Mas, Sr. Geraldino, por que é que o senhor não entrou no quarto quando viu isso?

GERALDINO

Oh! Dona Eudóxia... Eu não me meto nas brigas de casais.. Não me casei, foi para não brigar.

DONA EUDÓXIA

Que noite horrorosa! Fui acordada em sobressalto pelo Julinho.

DONA RITOCA

Ah! O Julinho esteve aqui?

DONA EUDÓXIA

Veio pedir-me um remédio para a mãe, que não podia mais..

O BOTICÁRIO

Em vez de ir à botica. . E a senhora deu?

DONA EUDÓXIA

Pois não.

O BOTICÁRIO

Não posso deixar de estranhar essa atitude, Dona Eudóxia! A senhora.. uma funcionária exemplar, de vida tão correta, pretender aliviar o castigo de uma criminosa!. .

DONA EUDÓXIA

Desculpe, Sr. Simplício. Não tive em vista desgostá-lo. Mas, quando uma criatura sofre, acho que é sempre digna de piedade.

O BOTICÁRIO

São idéias subversivas, Dona Eudóxia. Ai de nós se todos assim pensassem!

DONA EUDÓXIA

Tanto mais que o Matias era longe de ser um marido exemplar. É um homem...

O BOTICÁRIO

E um homem. E o dono. Tem todos os direitos.

JOAQUIM AGUACEIRO

Isso tem.

DONA EUDÓXIA

E possível. Não sei. Não sei me exprimir. . Mas isso assim não está direito.

DONA SINFONIA

Não acha justo o castigo?

DONA EUDÓXIA

Não sei. Mas a Maria das Dores, que foi, durante tantos anos, tão boa mãe, tão boa esposa, tão boa para todos...

Como é que perde tudo assim, num dia só... Isso não é justo. . Não é justo...

O BOTICÁRIO

Pois eu acho que ele foi até bem bom. Não é? (Volta-se para Joaquim Aguaceiro, que aprova com a cabeça.) GERALDINO

Eu matava.

DONA EUDÓXIA

Oh! Sr. Geraldino!

JOAQUIM AGUACEIRO

(Ao Pescador) E você, Candonga? Que diz?

O PESCADOR

(Começando a falar, sem responder) Lá pelo sertão de Minas, morava um primo meu, o Xicão. Estava casado com uma mulher linda... Eu a conheci... Uma noite, ele ouve barulho dentro de casa. . Levanta-se, pega a garrucha e vai ter até o sótão. (Cospe.) Lá, ele topa com a mulher nos braços dum rapaz, um desses cometas vagabundos que andam a correr pelas estradas.

DONA SINFONIA

Matou os dois?

DONA RITOCA

(Pegando-lhe o braço, súplice) Oh! Deixe falar...

O PESCADOR

Ele atracou o rapaz. Era um valente, o Xicão, e forte, como o Matias. Amarrou o homem aos pés da cama, enterrou-lhe um lenço na boca para que não pegasse a gritar. .

DONA SINFONIA

E depois...?

O PESCADOR

Depois?... Fez esquentar um ferro na trempe. Quando esteve em brasa, deu-o à mulher, mostrou-lhe o rapaz amarrado e disse: “Vai... Espeta!”

DONA EUDÓXIA

Ah! Que horror!

DONA RITOCA

E ela?

O PESCADOR

Ela a princípio não queria. Ele então encostou-lhe a garrucha na testa e disse: “Espeta ou eu atiro!...” (Pausa.) Então ela espetou.

DONA EUDÓXIA

Oh!

O PESCADOR

Espetou a noite inteira. O Xicão não tinha pressa... Ele dizia: “Espeta aqui... estes braços que te abraçaram...

aqui esta boca que te beijou.. Espeta!” De vez em quando ele mandava parar, pra esticar... Quando o rapaz desfalecia... ele deixava que acordasse para continuar. . A carne cheirava... De madrugada, furou-lhe os olhos...

DONA EUDÓXIA

Oh!

O PESCADOR

(Calmo) Ele tinha deixado os olhos pro fim... Até que o outro morreu. Já nem parecia gente.

DONA RITOCA

E a mulher?

O PESCADOR

O Xicão matou-a logo em seguida. Enterrou-a na fazenda. Mas o corpo do rapaz ficou pros urubus.

O BOTICÁRIO

Ah! O Xicão era um homem.

O PESCADOR

Um sujeito às direitas.

JOAQUIM AGUACEIRO

Vêem que o Matias ainda foi bem manso.

O BOTICÁRIO

(Puxando o relógio) Já são quase horas do trem...

DONA SINFONIA

Ela é capaz de não ir.

GERALDINO

Vai, sim.

DONA EUDÓXIA

E se ela disser o nome?

GERALDINO

Não diz, não. Mulher quando bate o pé. . (O Pescador faz um gesto de quem não compreende.)

CENA VI

(Os mesmos, o Acendedor de Lampiões) (Ele vai entrando devagar e acende lentamente o lampião.) JOAQUIM AGUACEIRO

Oh! Velho Aprígio!

O

ACENDEDOR DE LAMPIÕES

Boas noites!

O BOTICÁRIO

Acenda bem, Aprígio. . que nós precisamos ver direito...

O

ACENDEDOR DE LAMPIÕES

(Acendendo) Pronto.

JOAQUIM AGUACEIRO

Que luz desgraçada!

GERALDINO

Qual, meu velho! Sua luz não presta!

O PESCADOR

Não se vê nada.

O

ACENDEDOR DE LAMPIÕES

Minha luz é muito boa... Vocês é que não sabem ver.

O PESCADOR

Está bom... Não se zangue... Pare um tiquinho conosco para apreciar uma coisa bonita!

O

ACENDEDOR DE LAMPIÕES

Não posso parar. Tenho que seguir caminho... Há muita gente no escuro que espera pela luz...

O PESCADOR

Então, boa noite!

O

ACENDEDOR DE LAMPIÕES

(Saindo) Boa noite!

CENA VII

(Os mesmos, menos o Acendedor de Lampiões, depois, o Filho)

O BOTICÁRIO

(Murmura) Velho maluco! (Ouve-se o sino da estação e, ao longe, o arfar surdo do trem.) DONA RITOCA

O trem vai chegar!

DONA SINFONIA

E ela não embarca!

O BOTICÁRIO

Embarcará, sim, à última hora... correndo...

JOAQUIM AGUACEIRO

De vergonha...

DONA SINFONIA

Eu nem hei de olhar para ela!

DONA RITOCA

(A Dona Eudóxia) Dê-me o seu xale, Dona Eudóxia. Estou sentindo frio... (Dona Eudóxia).

vai buscar o xale, que estava numa mesa perto da porta. Dona Ritoca entra com ela.).

GERALDINO

(De repente) Ela está saindo! (Aponta para a casa. Com efeito, a porta abriu-se. Todos olham com ânsia. Mas quem sai da casa é um rapazinho em mangas de camisa. Desce lentamente os degraus da porta e, sem olhar para ninguém, vai encostar-se ao muro que separa o jardim da rua, com a cabeça descansando nos braços.) DONA SINFONIA

(Baixo) É o Julinho.

O BOTICÁRIO

O Julinho, sim. (Sussurro geral.)

DONA SINFONIA

Que é que ele veio fazer?

O MOLEQUE JENIPAPO

(Surgindo de repente) Ela já vem! Ela já vem! (Movimento de todos.)

JOAQUIM AGUACEIRO

Você viu?

O MOLEQUE JENIPAPO

Espiei, sim. Ela acabou de preparar a trouxa. Vai sair.

DONA SINFONIA

(Gritando para dentro) Ritoca! Ritoca! Ela vai passar! (Aparecem Dona Ritoca e Dona Eudóxia, em seguida.) GERALDINO

Quer sentar, Dona Ritoca?

DONA RITOCA

Em pé vê-se melhor. (Ouve-se o silvo do trem que está chegando.)

O BOTICÁRIO

Ela é capaz de perder o trem.

DONA EUDÓXIA

Qual! Esses trens... a gente nunca perde...

DONA SINFONIA

(Chamando) Venha aqui, Ritoca!

DONA EUDÓXIA

E ela não verá mais os filhos?

O BOTICÁRIO

Nunca!

O PESCADOR

(Só para si) Mas por que é que ela não disse o nome?

TODOS

Oh! Oh! Oh!

CENA VIII

(Os mesmos, Maria das Dores).

(Abre-se de novo a porta, e, destacando-se, no fundo luminoso da sala, aparece no limiar o vulto de Maria das Dores. Um grande xale preto cobre-lhe a cabeça e cai até os joelhos. Na mão, uma pequena trouxa. Ela começa a caminhar, rígida, de rosto fechado, sem olhar para ninguém. Ouve-se um sussurro no grupo. Mas alguém faz “Pst” e o silêncio torna-se geral. Todas as personagens estão na penumbra. Só o velho mendigo iluminado pela luz do lampião. Quando Maria das Dores passa por ele, ele ergue-se e tira o chapéu. Então, no meio do silêncio mortal, ouve-se um soluço abafado e desesperado. E o filho que está chorando, encostado ao muro. Ela tem um longo estremecer do corpo todo. Atrasa insensivelmente o passo um segundo, mas continua a caminhar sem um gesto e sem se voltar. Todos a acompanham com os olhos. Ouve-se novamente o silvo da locomotiva. Então, a voz do velho mendigo eleva-se na noite, grave e lenta.)

O MENDIGO

Deus é que sabe... Deus é que sabe...

FIM

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