A Causa Secreta por Machado de Assis - Versão HTML

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A Causa Secreta, de Machado de Assis

Fonte:

ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II.

Texto proveniente de:

A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>

A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo

Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por:

Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística

(http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/literat.html)

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A Causa Secreta

GARCIA, EM PÉ, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de

balanço, olhava para o tecto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um

trabalho de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada.

Tinham falado do dia, que estivera excelente, — de Catumbi, onde morava o

casal Fortunato, e de uma casa de saúde, que adiante se explicará. Como os

três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de

contar a história sem rebuço.

Tinham falado também de outra cousa, além daquelas três, cousa tão feia

e grave, que não lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da

casa de saúde. Toda a conversação a este respeito foi constrangida. Agora

mesmo, os dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há

no rosto de Garcia uma expressão de severidade, que lhe não é habitual. Em

verdade, o que se passou foi de tal natureza, que para fazê-lo entender é

preciso remontar à origem da situação.

Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No de 1860,

estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez, à

porta da Santa Casa; entrava, quando o outro saía. Fez-lhe impressão a

figura; mas, ainda assim, tê-la-ia esquecido, se não fosse o segundo

encontro, poucos dias depois. Morava na rua de D. Manoel. Uma de suas

raras distrações era ir ao teatro de S. Januário, que ficava perto, entre essa

rua e a praia; ia uma ou duas vezes por mês, e nunca achava acima de

quarenta pessoas. Só os mais intrépidos ousavam estender os passos até

aquele recanto da cidade. Uma noite, estando nas cadeiras, apareceu ali

Fortunato, e sentou-se ao pé dele.

A peça era um dramalhão, cosido a facadas, ouriçado de imprecações e

remorsos; mas Fortunato ouvia-a com singular interesse. Nos lances

dolorosos, a atenção dele redobrava, os olhos iam avidamente de um

personagem a outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na peça

reminiscências pessoais do vizinho. No fim do drama, veio uma farsa; mas

Fortunato não esperou por ela e saiu; Garcia saiu atrás dele. Fortunato foi

pelo beco do Cotovelo, rua de S. José, até o largo da Carioca. Ia devagar,

cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em algum cão que

dormia; o cão ficava ganindo e ele ia andando. No largo da Carioca entrou

num tílburi, e seguiu para os lados da praça da Constituição. Garcia voltou

para casa sem saber mais nada.

Decorreram algumas semanas. Uma noite, eram nove horas, estava em

casa, quando ouviu rumor de vozes na escada; desceu logo do sótão, onde

morava, ao primeiro andar, onde vivia um empregado do arsenal de guerra.

Era este que alguns homens conduziam, escada acima, ensangüentado. O

preto que o servia acudiu a abrir a porta; o homem gemia, as vozes eram

confusas, a luz pouca. Deposto o ferido na cama, Garcia disse que era

preciso chamar um médico.

— Já aí vem um, acudiu alguém.

Garcia olhou: era o próprio homem da Santa Casa e do teatro. Imaginou

que seria parente ou amigo do ferido; mas rejeitou a suposição, desde que

lhe ouvira perguntar se este tinha família ou pessoa próxima. Disse-lhe o

preto que não, e ele assumiu a direção do serviço, pediu às pessoas estranhas

que se retirassem, pagou aos carregadores, e deu as primeiras ordens.

Sabendo que o Garcia era vizinho e estudante de medicina pediu-lhe que

ficasse para ajudar o médico. Em seguida contou o

que se passara.

— Foi uma malta de capoeiras. Eu vinha do quartel de Moura, onde fui

visitar um primo, quando ouvi um barulho muito grande, e logo depois um

ajuntamento. Parece que eles feriram também a um sujeito que passava, e

que entrou por um daqueles becos; mas eu só vi a este senhor, que

atravessava a rua no momento em que um dos capoeiras, roçando por ele,

meteu-lhe o punhal. Não caiu logo; disse onde morava e, como era a dois

passos, achei melhor trazê-lo.

— Conhecia-o antes? perguntou Garcia.

— Não, nunca o vi. Quem é?

— É um bom homem, empregado no arsenal de guerra. Chama-se Gouvêa.

— Não sei quem é.

Médico e subdelegado vieram daí a pouco; fez-se o curativo, e tomaram-

se as informações. O desconhecido declarou chamar-se Fortunato Gomes da

Silveira, ser capitalista, solteiro, morador em Catumbi. A ferida foi

reconhecida grave. Durante o curativo ajudado pelo estudante, Fortunato

serviu de criado, segurando a bacia, a vela, os panos, sem perturbar nada,

olhando friamente para o ferido, que gemia muito. No fim, entendeu-se

particularmente com o médico, acompanhou-o até o patamar da escada, e

reiterou ao subdelegado a declaração de estar pronto a auxiliar as pesquisas

da polícia. Os dous saíram, ele e o estudante ficaram no quarto.

Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranqüilamente,

estirar as pernas, meter as mãos nas algibeiras das calças, e fitar os olhos no

ferido. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a

expressão dura, seca e fria. Cara magra e pálida; uma tira estreita de barba,

por baixo do queixo, e de uma têmpora a outra, curta, ruiva e rara. Teria

quarenta anos. De quando em quando, voltava-se para o estudante, e

perguntava alguma coisa acerca do ferido; mas

tornava logo a olhar para ele, enquanto o rapaz lhe dava a resposta. A

sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de

curiosidade; não podia negar que estava assistindo a um ato de rara

dedicação, e se era desinteressado como parecia, não havia mais que aceitar

o coração humano como um poço de mistérios.

Fortunato saiu pouco antes de uma hora; voltou nos dias seguintes, mas a

cura fez-se depressa, e, antes de concluída, desapareceu sem dizer ao

obsequiado onde morava. Foi o estudante que lhe deu as indicações do

nome, rua e número.

— Vou agradecer-lhe a esmola que me fez, logo que possa sair, disse o

convalescente.

Correu a Catumbi daí a seis dias. Fortunato recebeu-o constrangido, ouviu

impaciente as palavras de agradecimento, deu-lhe uma resposta enfastiada e

acabou batendo com as borlas do chambre no joelho. Gouvêa, defronte dele,

sentado e calado, alisava o chapéu com os dedos, levantando os olhos de

quando em quando, sem achar mais nada que dizer. No fim de dez minutos,

pediu licença para sair, e saiu.

— Cuidado com os capoeiras! disse-lhe o dono da casa, rindo-se.

O pobre-diabo saiu de lá mortificado, humilhado, mastigando a custo o

desdém, forcejando por esquecê-lo, explicá-lo ou perdoá-lo, para que no

coração só ficasse a memória do benefício; mas o esforço era vão. O

ressentimento, hóspede novo e exclusivo, entrou e pôs fora o benefício, de

tal modo que o desgraçado não teve mais que trepar à cabeça e refugiar-se

ali como uma simples idéia. Foi assim que o próprio benfeitor insinuou a

este homem o sentimento da ingratidão.

Tudo isso assombrou o Garcia. Este moço possuía, em gérmen, a

faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da

análise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas

morais, até apalpar o segredo de um organismo. Picado de curiosidade,

lembrou-se de ir ter com o homem de Catumbi, mas advertiu que nem

recebera dele o oferecimento formal da casa. Quando menos, era-lhe preciso

um pretexto, e não achou nenhum.

Tempos depois, estando já formado e morando na rua de Matacavalos,

perto da do Conde, encontrou Fortunato em uma gôndola, encontrou-o ainda

outras vezes, e a freqüência trouxe a familiaridade. Um dia Fortunato

convidou-o a ir visitá-lo ali perto, em Catumbi.

— Sabe que estou casado?

— Não sabia.

— Casei-me há quatro meses, podia dizer quatro dias. Vá jantar conosco

domingo.

— Domingo?

— Não esteja forjando desculpas; não admito desculpas. Vá domingo.

Garcia foi lá domingo. Fortunato deu-lhe um bom jantar, bons charutos e

boa palestra, em companhia da senhora, que era interessante. A figura dele

não mudara; os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias; as

outras feições não eram mais atraentes que dantes. Os obséquios, porém, se

não resgatavam a natureza, davam alguma compensação, e não era pouco.

Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoa e modos. Era esbelta,

airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não

passar de dezenove. Garcia, à segunda vez que lá foi, percebeu que entre

eles havia alguma dissonância de caracteres, pouca ou nenhuma afinidade

moral, e da parte da mulher para com o marido uns modos que transcendiam

o respeito e confinavam na resignação e no temor. Um dia, estando os três

juntos, perguntou Garcia a Maria Luísa se tivera notícia das circunstâncias

em que ele conhecera o marido.

— Não, respondeu a moça.

— Vai ouvir uma ação bonita.

— Não vale a pena, interrompeu Fortunato.

— A senhora vai ver se vale a pena, insistiu o médico.

Contou o caso da rua de D. Manoel. A moça ouviu-o espantada.

Insensivelmente estendeu a mão e apertou o pulso ao marido, risonha e

agradecida, como se acabasse de descobrir-lhe o coração. Fortunato sacudia

os ombros, mas não ouvia com indiferença. No fim contou ele próprio a

visita que o ferido lhe fez, com todos os pormenores da figura, dos gestos,

das palavras atadas, dos silêncios, em suma, um estúrdio. E ria muito ao

contá-la. Não era o riso da dobrez. A dobrez é evasiva e

oblíqua; o riso dele era jovial e franco.

" Singular homem!" pensou Garcia.

Maria Luísa ficou desconsolada com a zombaria do marido; mas o médico

restituiu-lhe a satisfação anterior, voltando a referir a dedicação deste e as

suas raras qualidades de enfermeiro; tão bom enfermeiro, concluiu ele, que,

se algum dia fundar uma casa de saúde, irei convidá-lo.

— Valeu? perguntou Fortunato.

— Valeu o quê?

— Vamos fundar uma casa de saúde?

— Não valeu nada; estou brincando.

— Podia-se fazer alguma cousa; e para o senhor, que começa a clínica, acho

que seria bem bom. Tenho justamente uma casa que vai vagar, e serve.

Garcia recusou nesse e no dia seguinte; mas a idéia tinha-se metido na

cabeça ao outro, e não foi possível recuar mais. Na verdade, era uma boa

estréia para ele, e podia vir a ser um bom negócio para ambos. Aceitou

finalmente, daí a dias, e foi uma desilusão para Maria Luísa. Criatura

nervosa e frágil, padecia só com a idéia de que o marido tivesse de viver em

contato com enfermidades humanas, mas não ousou opor-se-lhe, e curvou a

cabeça. O plano fez-se e cumpriu-se depressa. Verdade é que Fortunato não

curou de mais nada, nem então, nem depois. Aberta a casa, foi ele o próprio

administrador e chefe de enfermeiros, examinava tudo, ordenava tudo,

compras e caldos, drogas e contas.

Garcia pôde então observar que a dedicação ao ferido da rua D. Manoel

não era um caso fortuito, mas assentava na própria natureza deste homem.

Via-o servir como nenhum dos fâmulos. Não recuava diante de nada, não

conhecia moléstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a

qualquer hora do dia ou da noite. Toda a gente pasmava e aplaudia.

Fortunato estudava, acompanhava as operações, e nenhum outro curava os

cáusticos.

— Tenho muita fé nos cáusticos, dizia ele.

A comunhão dos interesses apertou os laços da intimidade. Garcia tornou-

se familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a pessoa e a

vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão como que

lhe duplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o

agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao

canto da janela, ou tocava ao piano umas músicas tristes. Manso e manso,

entrou-lhe o amor no coração. Quando deu

por ele, quis expeli-lo para que entre ele e Fortunato não houvesse outro laço

que o da amizade; mas não pôde. Pôde apenas trancá-lo; Maria Luísa

compreendeu ambas as coisas, a afeição e o silêncio, mas não se deu por

achada.

No começo de outubro deu-se um incidente que desvendou ainda mais aos

olhos do médico a situação da moça. Fortunato metera-se a estudar anatomia

e fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e

cães. Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes, mudou o

laboratório para casa, e a mulher, compleição nervosa, teve de os sofrer. Um

dia, porém, não podendo mais, foi ter com o médico e pediu-lhe que, como

cousa sua, alcançasse do marido a

cessação de tais experiências.

— Mas a senhora mesma...

Maria Luísa acudiu, sorrindo:

— Ele naturalmente achará que sou criança. O que eu queria é que o senhor,

como médico, lhe dissesse que isso me faz mal; e creia que faz...

Garcia alcançou prontamente que o outro acabasse com tais estudos. Se os

foi fazer em outra parte, ninguém o soube, mas pode ser que sim. Maria

Luísa agradeceu ao médico, tanto por ela como pelos animais, que não podia

ver padecer. Tossia de quando em quando; Garcia perguntou-lhe se tinha

alguma coisa, ela respondeu que nada.

— Deixe ver o pulso.

— Não tenho nada.

Não deu o pulso, e retirou-se. Garcia ficou apreensivo. Cuidava, ao

contrário, que ela podia ter alguma coisa, que era preciso observá-la e avisar

o marido em tempo.

Dois dias depois, — exatamente o dia em que os vemos agora, — Garcia

foi lá jantar. Na sala disseram-lhe que Fortunato estava no gabinete, e ele

caminhou para ali; ia chegando à porta, no momento em que Maria Luísa

saía aflita.

— Que é? perguntou-lhe.

— O rato! O rato! exclamou a moça sufocada e afastando-se.

Garcia lembrou-se que na véspera ouvira ao Fortunado queixar-se de um

rato, que lhe levara um papel importante; mas estava longe de esperar o que

viu. Viu Fortunato sentado à mesa, que havia no centro do gabinete, e sobre

a qual pusera um prato com espírito de vinho. O líquido flamejava. Entre o

polegar e o índice da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta

pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No momento

em que o Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em

seguida desceu o infeliz até a chama, rápido, para não matá-lo, e dispôs-se a

fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado a primeira. Garcia

estacou horrorizado.

— Mate-o logo! disse-lhe.

— Já vai.

E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que

traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira

pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O

miserável estorcia-se, guinchando, ensangüentado, chamuscado, e não

acabava de morrer. Garcia desviou os olhos, depois voltou-os novamente, e

estendeu a mão para impedir que o suplício continuasse, mas não chegou a

fazê-lo, porque o diabo do homem impunha

medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia. Faltava cortar a

última pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com

os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio cadáver. Ao

descê-lo pela quarta vez, até a chama, deu ainda mais rapidez ao gesto, para

salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida.

Garcia, defronte, conseguia dominar a repugnância do espetáculo para

fixar a cara do homem. Nem raiva, nem ódio; tão-somente um vasto prazer,

quieto e profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata ou a

vista de uma estátua divina, alguma coisa parecida com a pura sensação

estética. Pareceu-lhe, e era verdade, que Fortunato havia-o inteiramente

esquecido. Isto posto, não estaria fingindo, e devia ser aquilo mesmo. A

chama ia morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda

um resíduo de vida, sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para cortar-

lhe o focinho e pela última vez chegar a carne ao fogo. Afinal deixou cair o

cadáver no prato, e arredou de si toda essa mistura de chamusco e sangue.

Ao levantar-se deu com o médico e teve um sobressalto. Então, mostrou-

se enraivecido contra o animal, que lhe comera o papel; mas a cólera

evidentemente era fingida.

"Castiga sem raiva", pensou o médico, "pela necessidade de achar uma

sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste

homem".

Fortunato encareceu a importância do papel, a perda que lhe trazia, perda

de tempo, é certo, mas o tempo agora era-lhe preciosíssimo. Garcia ouvia só,

sem dizer nada, nem lhe dar crédito. Relembrava os atos dele, graves e

leves, achava a mesma explicação para todos. Era a mesma troca das teclas

da sensibilidade, um diletantismo sui generis, uma redução de Calígula.

Quando Maria Luísa voltou ao gabinete, daí a pouco, o marido foi ter com

ela, rindo, pegou-lhe nas mãos e falou-lhe mansamente:

— Fracalhona!

E voltando-se para o médico:

— Há de crer que quase desmaiou?

Maria Luísa defendeu-se a medo, disse que era nervosa e mulher; depois

foi sentar-se à janela com as suas lãs e agulhas, e os dedos ainda trêmulos,

tal qual a vimos no começo desta história. Hão de lembrar-se que, depois de

terem falado de outras coisas, ficaram calados os três, o marido sentado e

olhando para o teto, o médico estalando as unhas. Pouco depois foram

jantar; mas o jantar não foi alegre. Maria Luísa cismava e tossia; o médico

indagava de si mesmo se ela não estaria exposta a

algum excesso na companhia de tal homem. Era apenas possível; mas o

amor trocou-lhe a possibilidade em certeza; tremeu por ela e cuidou de os

vigiar.

Ela tossia, tossia, e não se passou muito tempo que a moléstia não tirasse

a máscara. Era a tísica, velha dama insaciável, que chupa a vida toda, até

deixar um bagaço de ossos. Fortunato recebeu a notícia como um golpe;

amava deveras a mulher, a seu modo, estava acostumado com ela, custava-

lhe perdê-la. Não poupou esforços, médicos, remédios, ares, todos os

recursos e todos os paliativos. Mas foi tudo vão. A doença era mortal.

Nos últimos dias, em presença dos tormentos supremos da moça, a índole

do marido subjugou qualquer outra afeição. Não a deixou mais; fitou o olho

baço e frio naquela decomposição lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a

uma as aflições da bela criatura, agora magra e transparente, devorada de

febre e minada de morte. Egoísmo aspérrimo, faminto de sensações, não lhe

perdoou um só minuto de agonia, nem lhos pagou com uma só lágrima,

pública ou íntima. Só quando ela expirou, é que ele ficou aturdido. Voltando

a si, viu que estava outra vez só.

De noite, indo repousar uma parenta de Maria Luísa, que a ajudara a

morrer, ficaram na sala Fortunato e Garcia, velando o cadáver, ambos

pensativos; mas o próprio marido estava fatigado, o médico disse-lhe que

repousasse um pouco.

— Vá descansar, passe pelo sono uma hora ou duas: eu irei depois.

Fortunato saiu, foi deitar-se no sofá da saleta contígua, e adormeceu logo.

Vinte minutos depois acordou, quis dormir outra vez, cochilou alguns

minutos, até que se levantou e voltou à sala. Caminhava nas pontas dos pés

para não acordar a parenta, que dormia perto. Chegando à porta, estacou

assombrado.

Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lenço e contemplara por

alguns instantes as feições defuntas. Depois, como se a morte

espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Foi nesse momento que

Fortunato chegou à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da

amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero. Não tinha ciúmes, note-

se; a natureza compô-lo de maneira que lhe não deu ciúmes nem inveja, mas

dera-lhe vaidade, que não é menos cativa ao ressentimento.

Olhou assombrado, mordendo os beiços.

Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver; mas

então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam

conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e

irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo

essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente

longa.

FIM

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