A Chave da Harmonia 2 por Marcello Salvaggio - Versão HTML

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MARCELLO SALVAGGIO

A CHAVE DA

HARMONIA

Livro Dois : Karma

1

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2

Revisado por Saint-Clair Stockler

3

Resumo do livro 1:

Em Rachaduras na Ordem, o primeiro livro de A Chave

da Harmonia, na época dos reinos élficos, uma era

esquecida da humanidade, Odin, príncipe de Tudnan,

deixa a terra de sua família para conhecer o mundo,

chegando ao reino de Warman, onde se encontra com

aquele que será durante um longo tempo seu maior amigo

e companheiro de aventuras, Gilgash, um lomai, membro

de uma espécie que dará origem ao homo sapiens.

Depois disso conhece Eluen, filha de Malin, o

curandeiro que lhe salva a vida após uma luta violenta

contra enviados do rei Ymun de Asir, que pretende

seqüestrar ou matar o príncipe para incitar Tudnan à

guerra.

Ymun, de uma família de guerreiros, foi eleito por meio

das promessas de frear a decadência do país e colocando

a culpa nas outras espécies, como gnomos e lomais, e nas

famílias de plantadores; tem em seu poder o irmão de

Eluen, Baden, que tentou se rebelar contra a situação e

acabou preso e torturado.

Odin se compromete a ajudar sua amada a salvar seu

irmão, cuja consciência, assim como seu corpo, foi tão

mutilada que até a exteriorização consciente de seu corpo

astral se tornou impossível.

Noivam, com a aprovação dos pais do príncipe, Valin e

Soren, reis de Tudnan, uma enorme cidade suspensa,

repleta de lagos cristalinos e imensos parques circulares,

no solo ou suspensos no ar, acessíveis por escadarias de

pedras douradas.

Ardan, um arqueiro-espião de Ymun, tenta matar Odin e

acaba acertando Malin. Ao perder o controle sobre si e

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matar o inimigo, o príncipe manifesta pela primeira vez o

lado obscuro de sua alma, explicitado pelas visões de um

corvo e de um lobo branco de olhos azuis.

Eluen traça com um galho, na terra, as runas do deus

Eljai para evocá-lo e salvar seu pai; obtém êxito e este

lhe diz que de qualquer maneira a ajudará, porém lhe

pede para que abra os olhos de Ymun, resolvendo os

conflitos do reino com a menor quantidade possível de

sangue derramado, e afirma que a orientará dali em

diante mesmo sem que ela perceba.

A filha de Malin então entra para Ordem de Disirah,

onde pode acompanhar tudo mais de perto e agir.

Lá suas principais amizades se tornam a comandante

Svava e a própria Disiran, a líder da Ordem, Vanadis de

Vanadis, que desconfia de Ymun e discorda de seus

meios. Por outro lado, enfrenta a inveja de Samen, que

por várias vezes a segue, até descobrir que continua a se

encontrar com Odin; contudo, a rival se mantém em

silêncio após ser ameaçada por Gilgash e por não possuir

provas concretas.

O príncipe e o lomai conseguem roubar o tesouro do rei,

obtido por meios ilícitos como assaltos encomendados,

além dos impostos abusivos, libertando o dragão que o

guardava do jugo do gnomo Andvari, que o dominava

por meio de um anel.

Svava, uma telepata avançada, que lê mentes como

ninguém, revela a Vanadis a verdade sobre a filha de

Malin, mas tanto a comandante quanto a Disiran a

aprovam e se tornam suas aliadas ativas na luta contra

Ymun, contribuindo na intenção de desmascará-lo em

praça pública.

5

6

(...) após atear

fogo à própria

casa, é preciso ter

recursos para

apagá-lo; cada

ação tem sua

devida

conseqüência. - de

A Profecia

Universal; capítulo

III: Poder.

7

Honra e revolta

A praça central de Warman, de piso formado por

pedras circulares brancas e escarlates que produziam, se

vistas de cima, um panorama de círculos concêntricos,

exibia naquela hora do dia, com suas torres de rocha

acinzentada repletas de guardas, que usavam capacetes

arredondados e vestes semelhantes a togas metálicas,

dezenas de barracas, carruagens e tendas de comércio

ambulante, vendendo os artigos mais disparatados, com a

presença de milhares de elfos e alguns anões e lomais,

que vendiam, compravam, barganhavam, pechinchavam

ou simplesmente encontravam lá um ponto de encontro

para conversar, brincar e namorar. Chegou desapercebido

um carro puxado por quatro elfos encapuzados, que

trajavam túnicas velhas amareladas, quase idênticas entre

si, grossas, compridas e de mangas longas, quase

encobrindo os sapatos marrons nos pés; só em um deles

sobressaíam os cabelos prateados lisos que fugiam do

capuz, mas como estava cabisbaixo era impossível ver

seu rosto. Havia uma tenda de pano bege sendo levada,

por isso não se via o que continha, mas ninguém se

importava; muitos anônimos faziam o mesmo e a

fiscalização inexistia. Pararam no centro da praça,

justamente no olho dos círculos. Ninguém ainda parecia

dar importância, até um dos encapuzados subir,

desmontar a estrutura superior e revelar ali um baú de

dimensões respeitáveis, sobre o qual estavam sentadas

duas elfas e um lomai, e ao lado alguns elfos deitados,

amarrados e amordaçados. As pessoas começaram a

parar para olhar e a comentar:

8

— Mas o que será isso? Veja só aqueles lá

caídos...

— Será algum tipo de protesto?– Alguns guardas

principiaram a ficar mais atentos.– Mas aquela ali...

Estou reconhecendo aquela elfa! Não é a Disiran?

De fato eram Eluen e Vanadis, acompanhadas por

Gilgash, que ficou de pé. O outro tirou o capuz e se

revelou: Odin de Tudnan. E os outros três os suras Balin,

Eosen e Durin.

— São os suras desertores!– Comentou um dos

guardas; contudo, nenhum teve coragem de avançar.

— Povo de Warman...– Vanadis lançou ao ar sua

poderosa voz, silenciando aos poucos todo o lugar à

medida que percebiam sua presença. – Como bem sabem,

sempre foi o meu dever defender esta nação. Para quem

ainda não se deu conta, sou Vanadis de Vanis e estou

aqui para que mesmo os que apóiam Ymun me ouçam.

Pois o destino de nosso país, independentemente do

governo que estiver no controle e dos interesses políticos

e econômicos, está tomando caminhos tortuosos; de uns

tempos para cá, resolvi investigar as atividades do rei e

de seus colaboradores, passando a limpo tudo o que se

encontrava em fase de rascunho. Com isso, descobri

muitas coisas. E, entre estas, que estamos sendo roubados

não só pelos meios “lícitos”, se é correto dizer isso, como

por meios ilícitos. Gilgash, tire a mordaça deles...– E foi

o que o lomai fez; aqueles elfos derrubados eram alguns

dos ladrões do rei Ymun, levados por disiras pertencentes

à divisão de Eljai que ainda colaboravam com a ex-

Disiran, guiadas telepaticamente por esta à caverna onde

estava o grupo de Odin, tal como fora combinado com

Eluen. Os delinqüentes começaram a se expor; falaram,

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para o assombro até dos guardas da praça, sobre as

percentuais que recebiam do rei em troca de assaltos e

outros crimes patrocinados.– E não é apenas isso –

Depois de alguns minutos, Vanadis retomou seu

discurso.– Além de tudo, ele pediu para nós, disiras,

guardarmos seu tesouro particular, que ficou sob a

custódia de Andvari.– E Eluen interveio para expor os

verdadeiros motivos de ter deixado o tesouro escapar:– E

tudo isso foi feito para que pudéssemos devolver a vocês

o que é de direito.– Assim finalizou seu discurso, abrindo

o baú.

— Além do mais, um estrangeiro pacífico e

honrado, que agora contribui para que o povo de Warman

tenha de volta o que lhe pertence, não foi tratado da

maneira correta. Tudo devido às ambições bélicas de

Ymun, que insiste em provocar Tudnan. Sua intenção de

expandir o país é equivocada; em vez de aproveitar os

recursos internos, gastá-los para buscar o externo!

Justamente o contrário do que Tudnan, a terra do príncipe

Odin, sempre fez.– E Vanadis passou a palavra para

Odin, que se adiantou, deixando boquiabertos os

presentes no local.

— Logo que cheguei aqui, fui agredido. Foram

enviados suras para me prender ou matar sem o menor

motivo. Aliás, motivos seu rei tinha: ambições, planos de

chantagem; porém nenhuma causa nobre. Contudo,

apesar de ter motivos para odiar Warman e para pedir ao

meu pai que desse a este reino um justo castigo, minha

noiva me fez amar estas terras. Nunca teria coragem de

causar qualquer mal ao povo de Warman, afinal é a terra

da pessoa que mais amo. Por isso, resolvi ajudá-los a se

libertarem desta tirania.

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— Não pode ser uma tirania! Os Asir foram

legitimamente eleitos!– Bradou um defensor do regime.

— Mas eles estão fazendo jus à população que

representam? Quem age de maneira equivocada e

desonesta passa a tornar legítima é a sua destituição.

— Podemos falar por nós também.– Eosen se

expôs.– Não teríamos motivos para abandonar o conforto

e a riqueza, nós que sempre estivemos no poder de certa

forma, independentes de qualquer casa eleita, e ir viver

em uma caverna fedida para fazer planos revolucionários

se o governo que aí está não fosse realmente prejudicial

ao nosso próprio futuro.

— Vejam quantas riquezas!– Balin subiu no

carro, tirou do baú e mostrou à multidão jóias feitas de

ouro e pedras preciosas. – É possível que alguém aqui, se

vier até nós, possa reconhecer coisas de sua propriedade.

— E além de tudo, isto aqui!– Odin pegou a lança

Gungnir.– Que Ymun planejava usar numa eventual

guerra contra o meu país.

Tiveram início os primeiros sinais de irritação

coletiva: parte dos presentes começou a atirar objetos nas

torres de vigilância, de pedras a frutos podres; outros

principiaram a agredir os que apoiavam explicitamente os

Asir.

— Por favor, violência agora é desnecessária.

Precisamos nos unir!– No entanto, o apelo de Eluen

passou surdo. A revolta fermentou e os guardas tiveram

que agir.

— Isso era esperado.– Disse Vanadis, e soltou um

assovio em alto volume; outras disiras ainda leais, ocultas

na multidão, surgiram para apartar as brigas.– Agora o

jeito é confiar nelas. Vamos para o Castelo Duplo.

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— Espero que elas consigam mesmo dar conta.–

A filha de Malin parecia aflita.– O povo respeita a Ordem

de Disirah. Logo vão parar para nos seguir.– E dito e

feito: pouco depois da carruagem rumar para outra

direção, ondas humanas fluíram logo atrás.

— Cuidem de suas vidas; não se oponham ao

inexorável.– Disse uma disira, com sua lança próxima do

pescoço de um soldado.

Com o carro arrastado pelo príncipe Odin e pelos

outros três à frente, foi seguindo o mar humano, agora

sem tempestades, e que cada vez engrossava mais, até

chegar às portas do castelo. Ao ficar ciente do que

ocorria por meio de seus informantes, espalhados por

toda a capital, Ymun ardera em indignação e medo.

— Não me surpreende a presença nisso daquele

maldito Odin. O que me deixa mais revoltado, embora

não seja uma surpresa, é a traição da Disiran. Não

esperava que ela fosse tão longe, mesmo sendo uma

Vanis.– Na sala do trono, falava com sua esposa e com

Badar.

— Você devia ter se preparado melhor, Ymun.–

Foram as palavras dela; ao lado, o sura a fitou de rabo de

olho com seriedade.

— Não me importo mais com nada. Se serei

tachado de louco, de assassino, se vou perder o meu

posto; só quero vingança agora. Vão pagar pelo que me

fizeram.

— De que maneira, Majestade?– Indagou Badar.

— Você e Gomen, que ainda permanecem fiéis a

mim, lutem contra Odin e a corja de traidores.

— Para isso temos que permitir que entrem. Mas

e quanto ao povo?

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— Abram as portas do castelo. Deixem que todos

entrem! Eu também terei de lutar.

— Não vale a pena se sacrificar, Majestade.

Desculpe-me se não cabe uma opinião agora, mas o que

se dará será um suicídio físico e político. Além de nós

três, somados a alguns soldados, termos chances

reduzidas contra Odin, a Disiran, Eosen, Durin e Balin

todos juntos, sua legitimidade será afetada.

— Badar tem razão. É melhor renunciar a cometer

uma loucura dessas. É um delírio.– Disse a esposa de

Ymun, fitada com raiva por seu marido.

— Vocês não sabem o que é governar um país. A

essa altura, já tendo perdido a popularidade, não me

importo mais de morrer se for para eliminar ao menos

alguns dos que me traíram ou o estrangeiro maldito que

causou tudo. Isso é para que vocês vejam que não sou um

obcecado pelo poder; queria fazer de Warman

efetivamente um país forte. Já que não posso realizar

isso, buscarei uma maneira de me vingar. Meu alvo

principal é a queridinha de Odin. Mesmo que ele acabe

com a minha vida, irá sofrer para sempre com a morte

dela; Badar, você e Gomen, matem qualquer um que

entrar no castelo.

— Perdão, Majestade, não sou um assassino.

— Seu idiota! É por sua legítima defesa. Você

sempre me apoiou, acha que irão poupá-lo? Não seja

ingênuo. Pense na sua esposa e em sua filha. Depois, se

quiser, pode fugir; não precisa morrer aqui.

— Assim como não sou um assassino, não sou

um covarde. Se ficar, será para vencer ou morrer.

— Faça como quiser, a vida é sua. Pode chamar

Gomen.– E, enquanto Ymun se esparramava no trono,

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talvez a última esparramada que poderia dar no que ainda

julgava seu, sua esposa bufou e Badar foi se retirando. Os

cônjuges não se olhavam.

“Talvez hoje você tenha a sua revanche, Svava.”,

refletiu o primogênito dos Alfis; em sua mente

predominavam as imagens e vozes de sua irmã, de sua

companheira e de sua filha, porém como balbucios

vagos, sem palavras definidas, e gestos abstratos. As duas

últimas também estavam no castelo...Que Menah

adorava. “Só não admito que seja você a me matar.”,

pensou na irmã. “Mas tenho consciência de que a minha

sobrevivência é impossível, e não pelos meus oponentes,

e sim por mim. Seria improvável se minha índole fosse

passiva, se me rendesse e depois de derrotado aceitasse

que meus inimigos poupassem a minha vida. Só que não

conseguiria viver dessa maneira e passaria os dias e as

noites pensando em como apagar a humilhação,

treinando sem parar para alcançar uma meta talvez

inatingível. Onde ficaria a minha família no meio disso?

Não quero uma vida assim para Shara nem para mim;

nem que meus pais pensem que sou uma vergonha por ter

ficado ao lado de um governo corrupto. Ao menos, com a

morte, sobreviverá a concepção que lutei por ideais,

ainda que equivocados, e que estava confuso, como de

fato estou. Seria mais fácil arrancar a cabeça de Ymun

com as minhas próprias mãos; entretanto, é um pouco

tarde para mudar de lado. Não sou daqueles que troca de

parte como se o passado fosse insignificante; não gosto

de trocar nada. Na minha vida, prezo a estabilidade; sou

conservador. Me dói que a Disiran tenha se metido na

política, em vez de se focar apenas no culto aos adanas e

na proteção do reino, por mais que ela tenha um caráter

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nobre e esteja certo de que pouparia a minha vida se eu

fosse um covarde; se mal venci Svava, também sei assim

como Menah que não poderia vencer Vanadis. E admito

isso para mim apenas, com ódio do meu ser impotente; e

se eu não posso, muito menos Ymun ou Gomen. É

doloroso ver suras que abandonaram seus postos para se

juntarem a um estrangeiro! Gostaria que eles encerrassem

suas vidas nas minhas mãos, que tivessem o justo

castigo; mas três ao mesmo tempo é demais até para

mim, embora não acredite que sejam tão vis a ponto de

lutarem em conjunto contra um só oponente. A minha

honra me faz arder de revolta e indignação; tenho que

preservá-la, mesmo às custas de minha própria vida. A

morte não me assusta; o abismo, se estou equivocado, a

aniquilação do espírito, se houver algo pior, ou a glória

ao lado dos adanas, se estou certo, são caminhos que não

dependem da minha escolha mas de minhas ações; aceito

o que vier com a natureza, pois sei que será justo. Talvez

o que eu vá cometer agora defina de uma vez a minha

perdição...Ou não. Deixo para os adanas a definição do

que é justo. Vou fazer o que é necessário”.

Embora seu rosto permanecesse impassível, uma

máscara sutil sobre a face de seu espírito deixava escapar

lágrimas ensangüentadas pelas frestas sobre seus “olhos”;

vultos sombrios se acumulavam em volta de sua aura e

pesavam sobre seu corpo, fazendo com que se sentisse

mais lento e incomodado, as asas de sua armadura

negando qualquer espécie de vôo. “Shara não viverá com

o fantasma de um pai que a abandonou para seguir um

vago ideal. E não merece ser maltratada pela mãe que

tem. Menah, você sempre achou que estava tudo sob o

seu controle, que eu a amava e a ouvia, que acatava as

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suas vontades; no entanto, não sou tão idiota nem o

mundo tão submisso, tanto que não encontrou a Disiran

quando quis acabar com ela. E usando uma inocente para

isso! A verdade é que a vida de Shara já foi maculada.

Quem sou eu para purificá-la? Eu em especial ninguém;

meu significado estará em ser um portador, um aliado; a

vida me espera.”

Uma dor de cabeça latejava do lado esquerdo de

sua caixa craniana; sem um capacete desde que o seu

anterior fora destruído por Svava, preferia ficar assim.

“Você vai comigo só pra me dar prazer do outro lado,

Menah. Se isso não for possível, me conformarei. Só não

me arrependerei de ter tentado.” E, ao entrar no quarto

onde se encontravam sua esposa, bem acordada, lendo ou

fingindo ler uma tábua para aliviar a agonia, e sua filha,

cochilando em um pequeno leito em meio a cobertas

celestes, entre paredes de pedras escuras iluminadas por

tochas, esparramou seu olhar para deslizá-lo com ternura

até a pequena, inicialmente ignorando a maior, apenas

percebendo sua presença.

— Vamos embora, Badar. Não temos outra

escolha, é loucura permanecer em Warman!– Como

poucas vezes desde que a conhecera, viu Menah

suspender uma atividade e ir até ele para se aconchegar

em seu peito.– O povo está descontrolado e podem nos

matar por estar do lado errado.

— É o lado no qual estou. Não sei se é certo ou

errado, mas não pretendo fugir nem mudar de última

hora.– Encarou-a com seriedade, enquanto os olhos dela

transmitiam medo e uma falsa doçura.

— Badar, você por acaso é idiota?– O amargor,

verdadeiro, prevaleceu após alguns segundos de silêncio

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transtornado.– Sempre achei que fosse um pouco, mas

chegar a um nível desses?– A calma era retida, tingida,

segurada, não segura.– Pense um pouco em mim e na

Shara. O que será de nós?

— Você me falando para pensar em Shara?! Bem

você que quis entregá-la para as disiras só para satisfazer

as suas ambições!

— Minhas ambições? Como se não fossem as

suas também! Você deu o seu aval! Não tire o corpo fora

agora. Está fugindo das suas responsabilidades, Badar?–

O nervosismo se explicitou, junto com a provocação.–

No fundo você não passa de um covarde, não é mesmo?

— Se fosse covarde, não estaria pensando em

fazer o que tem que ser feito.

— Se quer morrer, morra então! Mas nós duas

vamos embora. Você é um covarde sim, porque quem se

joga nos braços da morte é alguém que desistiu, que se

conformou, que prefere deixar para resolver as coisas em

uma outra existência ou achando que assim tudo se apaga

e os problemas somem! Falta coragem para encarar os

problemas que a vida esfrega na nossa cara!

— Vocês não vão a lugar algum.– Agora com

medo dele, ela tentou recuar, mas foi puxada e beijada à

força; ao término do beijo, encararam-se com ódio.– Em

uma coisa você sempre esteve certa de pensar: sou seu,

estou amarrado a você. Não controlo o que sinto, a sua

energia é um veneno que tomou conta do meu corpo. Dói

na minha cabeça, a minha coluna arde; somos um só, na

paixão e na raiva. Mas o que já foi seu triunfo, seu

domínio, será também a sua perdição, pois se não posso

existir mais sozinho, imagine viver.

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— Você é louco, seu desgraçado!– Cuspiu-lhe na

cara em meio a respirações tensas, mas ele sequer limpou

o rosto, não a soltou e ela começou a gritar.

— Não adianta berrar. Admita que um pouco

você gosta. Afinal, me venceu!– Beijou-a enquanto

puxava seus cabelos e ela se debatia; aos poucos, no

entanto, Menah foi perdendo as forças, pois os vasos

sanguíneos de seu cérebro estavam sendo arrebentados,

um a um, pelos poderes mentais de seu marido.– Logo

tornaremos a nos ver e você poderá jogar na minha cara a

sua vitória, fazer troça, o que quiser. Irá me rasgar

enquanto me beija. Só tenha um pouco de paciência e me

espere.– Disse, antes de soltar o corpo no chão, este sem

vida, porém com uma inegável expressão de prazer. Ele

preferiu deixar daquele jeito, sem fechar os olhos dela.

Da sua parte, Shara acordara e presenciara tudo.

Quando o pai se aproximou, limitou-se a fixar os olhos

arregalados nele, cheios de medo e de certezas, não de

dúvidas. Ele fechou os seus, pois se os mantivesse

abertos não teria coragem; não a viu morrer. Concentrou-

se e, quando os reabriu, ela já estava morta, esparramada

sobre as cobertas, silenciosa, tão cândida quanto a leve

camisola que vestia; a pequena também fechara seus

olhos. “Torço para que receba uma nova existência,

melhor do que a que teve comigo. Mereço pessoas como

a sua mãe; o seu destino, tenho certeza, é muito melhor

do que isso. Vá em paz, filha, rumo às estrelas, que estão

cheias de vida, como você.”, antes de sair, Badar ficou

algum tempo parado...

Enquanto o povo entrava por outros cantos,

conduzido pelos ex-suras e por Vanadis e Gilgash, Eluen

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descia com Odin aos calabouços do castelo; Baden estava

próximo. E não só os restos de seu irmão, mas ele em si,

restaurado, vivo, curado; difícil minimizar a ansiedade.

Os outros prisioneiros fitavam-nos com esperança

e Odin os libertava à medida que vencia os guardas e

roubava-lhes as chaves; mesmo assim, a maioria não

tinha forças para se mexer. Trataria de convocar médicos

depois, talvez até Malin, que com toda a certeza viria,

nem que fosse por gratidão. Não obstante, como o

problema não era apenas de liberdade, o sura torturador

os esperava.

— Hmmm, dois belos exemplares...– Agachado

no chão, portava uma lança de ponta falciforme. – Parece

que estou com sorte hoje!

— Você que é Gomen? – Indagou Eluen,

parando para encará-lo. Odin ficou logo atrás.

— Não faça perguntas tolas. Estando aqui e não

sendo um preso, é óbvio quem sou. Espero que não me

decepcione e a sua beleza interior seja condizente com a

externa.

— Não estou interessada em satisfazer você. Só

vim resgatar o meu irmão, que se chama Baden.

— Sei quem é: aquele exemplar odioso. Então se

você é a disira da qual Ymun várias vezes me falou,

aquele ali deve ser Odin de Tudnan.– Olhou para o

príncipe e ficou de pé.

— Deveria sentir apenas nojo, raiva e querer

acabar com a sua vida, fazendo você sofrer muito. Mas

tenho outra missão a cumprir. Saia do meu caminho e me

deixe encontrar meu irmão.

— Perdão por ter duvidado no início. Estou me

dando conta de como você é bela; amor fraterno,

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sentimentos nobres: isso tudo me deixa profundamente

melancólico. Terei que matá-la lentamente.

— Antes disso, deveria tentar me matar.– Odin

percebeu que ainda era observado e se adiantou, fixando

seu olhar no torturador.– Se conseguir, até deixo você

acabar com ela.

— Além de tudo, sabe brincar! Outra bela alma

num belo corpo. Não tenho preferências quanto à ordem;

pode vir primeiro se quiser, príncipe.

— Vou ser o primeiro e o último. Ela passa.

— Sem problemas! Depois, na volta, cruzará com

o seu corpo sem membros; ainda não um cadáver porque

não posso matá-lo rapidamente, seria frustrante!

— Você é insano. Não sei se sinto pena ou ódio

pelo seu passado sangrento.

Tendo seu corpo atravessado por um calafrio

contínuo, Eluen passou devagar, deixando Odin a sós

com Gomen, que permaneceu imóvel e nem a olhou

quando ela o ultrapassou e seguiu em frente; suas

atenções estavam todas voltadas para o príncipe.

— Não trouxe a Gungnir que roubou de Andvari?

— Não será preciso usá-la para acabar com

alguém como você.

— Espero que não se arrependa depois.– Rápido

como uma flecha, por pouco não fincou sua foice no

coração de Odin, que, muito confiante, conseguiu evitar o

golpe por um fio; a seqüência foi de esquivas contínuas,

até o príncipe perceber rasgos em sua roupa, com cortes

embaixo destes que começaram a exibir algum sangue

fresco. “Como pode? Ele nem me tocou!”, questionou-se.

“Essa arma é só um disfarce; ele também sabe manipular

o ar e pretende me distrair com brinquedos de metal”, e

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concentrou em suas mãos pequenos rodamoinhos de

vento, que ao serem lançados fizeram a lança voar para

longe das mãos do sura; contudo, a veste do príncipe se

rasgou na região do peito e um corte maior ficou exposto.

— Já entendi como o seu poder funciona.

— Mesmo assim, será que é capaz de evitar os

ataques?– Odin imaginou que seriam ventos cortantes

numa velocidade muito alta, difíceis de sentir ou

enxergar.– E saiba que não me limito só a isso.

— Use logo todos os seus recursos, ou poderá se

arrepender depois.

— Seu desejo será atendido.– E o sura começou a

correr para os lados, sem se dirigir diretamente para o

príncipe, que formou uma barreira de ar à sua frente para

bloquear qualquer ataque baseado nesse elemento;

contudo, sentiu uma dor repentina no abdômen e ao olhar

para a região viu mais um rasgo e um ferimento aberto.

“Não pode ser...”, custou a acreditar; porém a dor de

outros cortes foi se espalhando por seu corpo.– E então, o

que acha dos meus “ventos”?– Gomen ironizou. “A

minha análise estava errada; e ele percebeu isso, é um

inimigo muito astuto! Preciso me concentrar mais para

descobrir o que de fato me atinge”. Por mais que fosse

difícil se focar devido à rapidez do adversário, Odin não

teve alternativa além de intensificar sua aura e expandi-la

em todas as direções, o que por fim derrubou o sura,

lançado contra uma parede pela energia mista de luz e ar,

cândida rutilante, que começou a provocar rachaduras no

local e apavorou os presos que não tinham forças para

escapar e acompanhavam o combate passivamente. O

receio do príncipe de Tudnan era de machucá-los ou

coisa pior, mas não podia mais se conter contra um

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adversário daquele nível. “Se tudo isso desabar, temo que

muitos aqui não conseguirão resistir.”

— Vamos, Gomen. Só sabe rasgar roupas e judiar

de quem está acorrentado?– Lançou a provocação ao

inimigo, que se levantou pouco depois, com sua máscara

danificada. Moveu os braços e Odin sentiu uma energia

ligada ao elemento terra. Mas como podia ser, com tão

pouca solidez? Esquivou-se por pouco do contra-ataque e

por fim conseguiu ver do que se tratava: eram metais

afiados, sutilizados primeiramente num nível que se

tornavam quase objetos do plano astral, imperceptíveis

aos olhos comuns e mesmo a uma clarividência distraída,

e adensados milímetros antes que tocassem seu alvo.

Punhais, adagas, lanças, espadas: o torturador era

bastante habilidoso em extrair os átomos de ambientes

físicos e astrais e transformá-los no instante exato em

algo cortante.

Enquanto isso, Eluen chegara à cela de Baden,

que não apresentava sinais de consciência, fisicamente no

mesmo estado em que o vira da última vez, talvez um

pouco pior; tentou uma comunicação telepática com ele,

só que seu irmão não passava de algo inanimado, sem

vontade própria; seria injusto dizer que chegasse próximo

da condição de um vegetal. Seu coração registrava menos

de dez batimentos por minuto, pouco respirava, não via,

nem ouvia, muito menos sentia; menos mal que tinha

uma irmã firme em seu intento, que não derramara

lágrimas nem se desesperara, séria e serena, calma e

compenetrada, que espalhou pelo ambiente, na

disposição correta, os símbolos de Eljai previamente

gravados em pedaços de argila: chegara a hora.

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Entrementes, antes que pronunciasse qualquer

fórmula mágica, o ambiente se tornou luminoso e

dourado sem a necessidade da intervenção de alguma luz

externa, como se tivesse sempre sido daquela maneira;

não era...Tanto que a filha de Malin se espantou. Olhou

para as runas e ficou chocada ao perceber que se

desmanchavam; um calor forte tomou conta de seu corpo.

— Não pode ser! Isso não pode estar

acontecendo!– Não se dera conta da qualidade do

fenômeno; lágrimas quentes escorreram por seu rosto,

começou a andar e a se mexer desesperadamente e levou

um susto quando viu, na entrada da cela, um indivíduo

familiar e ao mesmo tempo estranho:

— Você não precisa mais de artifícios para me

chamar, Eluen.– Ele ora parecia de fogo, ora tinha uma

forma claramente humana.– Abandone as orações e os

ritualismos.

— Eljai...– Ela jamais teria esquecido aquela voz;

ficou imóvel, com as mãos jogadas ao lado do corpo.–

Que alívio...Achei que tudo estivesse perdido!

— Pelo contrário. Parabéns, Eluen! Você está

prestes a concluir a sua missão. E o estado de consciência

que tinha quando entrou aqui é o ideal. Pena ter se

desequilibrado depois, mas compreendo que mudanças

bruscas às vezes assustem e você quer muito o seu irmão

de volta; pois bem, vamos dar início ao nosso trabalho.

— Pena que naquele dia com Svava não consegui

chamar o Senhor...– Enxugou as lágrimas, mantendo a

cabeça erguida.

— Talvez tenha sido o melhor para ela, quem

pode garantir? Não vamos lamentar o passado. É hora de

23

deixar o presente desabrochar! Sem mágoas, sem

revolta...Pela sua própria honra.

— Assim seja.– Ela fechou os olhos, teve a

impressão de sua testa se unir à dele e, numa explosão

fúlgida, tudo em volta se derreteu.

Mesmo o sura torturador, que àquela altura ainda

lutava com Odin, não pôde deixar de olhar para trás para

vislumbrar o que parecia ser a invasão de um sol nos

calabouços do castelo de Irul.

— Está terminando para você e os seus aliados,

Gomen.– O príncipe já conseguia enxergar com clareza e

desviar de todos os ataques. A máscara do inimigo,

rachada, deixava entrever seus lábios grossos e

vermelhos. Olhou para os lados e viu, impávido, suas

vítimas, algumas antes sem pernas ou braços, sem beiços,

rasgadas, feridas no corpo e na alma, acorrentadas, se

levantarem livres, com as energias renovadas e seus

corpos reconstituídos.

— É loucura! Devo estar tendo alucinações! Ou

você é capaz de gerar delírios em minha mente?

— Seria bem lógico você ficar louco depois do

mal que já fez aos outros. Porém seu coração é gelado, o

seu espírito indiferente, por isso não seriam a dor e o

sofrimento alheios que o enlouqueceriam. Você pode sim

ficar louco agora, ao ver a Realidade e que seus esforços

e objetivos de vida foram em vão.

— Seja como for, posso repetir tudo.– Podia-se

ver o sorriso insano por baixo da máscara destruída.– É

um imenso prazer ter toda a beleza do mundo novamente

à disposição. Isso me deixa eufórico! Pois irei derrotar

você e depois poderei chorar pelas tentativas inúteis do

resto de conservar a força e a beleza; se queriam tanto se

24

preservar, por que se rebelaram? Arquem com as

conseqüências! Os que são feios tratarei de matar neste

exato instante.– E ia lançar, para todos os lados,

estilhaços cortantes dos mais diversos tipos, que Odin no

entanto imobilizou no ar com a sua psicocinese, algo

aprendera com Gilgash.– Pare de me atrapalhar...–

Gomen sussurrou com ódio, sentindo-se bloqueado.

— Não há pior castigo para um envenenador do

que ter sua bebida trocada pela de sua vítima e morrer

pelo próprio veneno.– Forçou um pouco mais os poderes

mentais e as lâminas agiram no sentido inverso,

voltando-se contra aquele que as criara. Gomen urrou de

dor enquanto era perfurado e feito em pedaços. Ao

imaginar seu corpo esfacelado, recortado, disforme, ele

que era triste por ser belo e pretendia morrer bem

devagar, suicidando-se lentamente quando julgasse ser o

momento, ficou com um terrível ódio de si mesmo que

acelerou sua morte.

Na cela, Baden ressurgia. Os cabelos loiros

esverdeados até a altura dos ombros, os olhos azuis

marinhos, o rosto delicado, o corpo esbelto; ainda estava

de cabeça baixa e com os olhos fechados, caído no chão,

vendo o preto no preto, quando Eluen levantou seu

queixo e o chamou:

— Acorde, Baden! Acorde, meu irmão...– E ele

abriu lentamente as pálpebras, relembrando a sensação de

estar vivo.

— Eluen...O que aconteceu?– A primeira visão

não poderia ser melhor.

— Você não se lembra? Prometi que iria salvar

você. Hoje vim cumprir a promessa!– Os dois se

25

abraçaram e depois ficaram com as testas quentes

encostadas uma na outra.

— Não se esqueça de que nunca está sozinha.–

Eljai tornou a falar; envergonhada, ela se lembrou que

Ele estava ali e do quanto fora decisivo em tudo. Baden

franziu o cenho ao ver aquele indivíduo luminoso que,

olhando bem, não parecia um elfo.

— Quem é ele?– Indagou o filho de Malin.

— Antes que você responda por mim, esclarecerei

algo.– Interrompeu Eluen; ao irmão isso não agradou

muito, pois queria vê-la falar e ouvir sua voz; estava com

muita saudade. Mas logo se conformou, pois aquele não

parecia um ser capaz de grosserias e interviera por

precisão; poderia ouvir a voz dela em muitas outras

ocasiões.– Sou de fato quem vocês chamam de Eljai. Mas

já é hora de saberem que não sou um deus ancestral ou

criador, que isso fique bem claro. Essa distorção ocorreu

há muito tempo, quando fui divinizado por ter

contribuído para a formação da espécie élfica. De certa

forma sou um criador, como vocês e todos os que têm a

Centelha da Divindade em si o são, mas não da maneira

tradicionalmente imaginada.– Eluen ficou com a

respiração presa durante as revelações, soltando-a quando

de repente percebeu isso; Baden se sentia atordoado, pois

acabara de despertar e já recebia tantas informações

estranhas... – O meu verdadeiro nome é Seraph Ishtar e

sou um kumara, um habitante espiritual do planeta

Vênus.– Foi quando Odin apareceu. Não tão surpreso

com aquela presença, deduziu que fosse Eljai e se

inclinou respeitosamente.– Ah, que bom que chegou,

príncipe de Tudnan.– Seraph voltou a falar depois de

uma breve pausa, respeitada pelos filhos de Malin.– Sei

26

que será muito difícil compreender o que tenho a lhes

dizer. Mas é importante que todos fiquem cientes,

principalmente você.– Adentrou nos olhos do filho de

Valin quando este tornou a erguer sua cabeça. A

princípio, Odin sentiu uma leve vertigem; depois

conseguiu se firmar.– Há milhões de anos, este planeta

passou por um cataclismo. Esses geralmente são eventos

cíclicos, mas aquele foi um pouco mais do que isso; eu e

alguns irmãos meus tivemos que vir à Terra e, para

adaptar seus habitantes inteligentes à nova ordem que

viria, introduzimos um pouco de nossa programação

espiritual nos antigos lemurianos mu ai, hoje extintos, o

que deu origem a vocês, elfos...Não aos australopitecos,

que são frutos de experiências sem mescla genética que

fizemos com chimpanzés; mas ao colocar uma certa dose

dos DNAs lemurianos shal e mu ai em australopitecos,

geramos os lomai; ao realizarmos algumas mudanças nos

lomais, reduzindo a quantidade de DNA lemuriano,

surgiram os gnomos; e, com um pouco mais do código de

lemurianos mu ai nos gnomos, sem nada da espécie shal,

somado a características vegetais e não animais,

apareceram os duendes. Sei que não sabem ainda, a não

ser intuitivamente, o que é o DNA...E você não se

assuste:– Olhou bem para Odin, que parecia o mais

perplexo. Aquele ali não era Eljai? Do que estava

falando? Tantas mudanças rápidas que mal

cumprimentara Baden e ainda não se dera conta de que

em breve poderia se casar com Eluen!– Você

especialmente não. Vou fornecer as informações de uma

maneira mais clara, rápida e homogênea. Vocês estão

preparados para isso.– E as mentes dos três ficaram

inesperadamente vazias e límpidas, numa serenidade que

27

gerou luz, sem desesperos pelo repentino nem angústias;

não havia o nada: as intenções se definiam com precisão.

Na claridade, o conhecimento foi transmitido em bloco;

inicialmente viram imagens de eras antigas,

posteriormente se sentiram como se estivessem lá,

presenciando os acontecimentos. Vivenciaram, no espaço

de um instante, uma parte da história da Terra. Quando

os pensamentos e o diálogo mental retornaram, com

alguns questionamentos menores, tornaram a ouvir a voz

de Eljai, ou melhor, Seraph Ishtar. E haviam

permanecido com os olhos abertos.– Agora

compreenderam?

— Se esse foi o nosso passado, qual será o nosso

futuro?– Inquiriu Odin, que dos três parecia o mais

estável internamente porque nunca alimentara crenças

fixas.

— O que vocês construírem ou destruírem. Só

tenham em mente, se querem construir, que nunca estão

sozinhos.– E o kumara irradiou seu tremendo sol interior,

sua estrela da manhã, que se tornou exterior e obrigou os

elfos a fecharem os olhos diante de tanta luminosidade.

— Espere, Seraph! Ainda temos algumas

perguntas!– Mas era tarde...Ou não era a hora. E ao

reabrir os olhos Baden só pôde tocar vagas partículas de

luz. Após alguns segundos de silêncio, tornou a falar,

porém não para inquirir:– Não sei se vai ouvir o que

tenho que dizer, se já está muito longe, mas como não

estamos sozinhos e a minha intenção é alcançá-lo, deixo

no universo o meu obrigado por tudo.

— Faço minhas as palavras do meu irmão.– Eluen

complementou, abraçando-o pelas costas.

28

— E eu as do meu novo amigo e as de minha

esposa.– Disse Odin, fitando de frente tanto Baden, mais

sério, porém tranqüilo, quanto Eluen, que abriu um

sorriso desmedido; afinal ouvira a palavra tão aguardada:

“esposa”.

“Menah deve ter me traído. Não havia meio de

Shara ser filha de duas criaturas tão vis! Como conheci a

mãe, ao menos o pai deve ter sido nobre, bondoso, sem

crueldade; eu a amava, filha. Ao menos pelo fato de tê-la

criado, posso considerá-la como minha filha; por você

aceito morrer”, chamas não só de insanidade se juntavam

em volta de Badar, que ateara fogo à parte do castelo que

protegia, além de não ter piedade dos que se

aproximavam; as tochas manipuladas por sua mente se

viravam e rodavam para derramar o fogo, tapetes e

móveis eram consumidos e quem se encontrasse por

perto teria o mesmo destino. Seus olhos coruscaram com

o despontar de Vanadis, Gilgash e seus ex-companheiros

entre as labaredas.

— O que está fazendo, Badar? Perdeu a sanidade

junto com sua honra?– Indagou Balin, recebendo de volta

apenas o olhar incandescente, que se mantinha.

— Pelo visto endoidou de vez, o coitadinho. Já

não era muito certo da cabeça...– Comentou Eosen.

— Então este que é Badar, o irmão de Svava?–

Inquiriu Vanadis.

— É ele mesmo.– Durin confirmou; Gilgash ficou

um pouco para trás. Tratava-se de um problema a ser

resolvido entre eles; só interferiria em caso de

necessidade extrema.

29

— Não foi por ela que deve ter perdido a

sanidade...– A ex-Disiran liberou um suspiro.

— Onde está a minha irmã?– Por fim, Badar se

pronunciou.

— É a verdade...Ele ainda não sabe.– Durin

deteve uma reação intempestiva de Vanadis, que se

preparara para dar uma resposta ríspida.

— Do que não sei?

— Svava está morta.– Balin foi direto ao ponto;

no instante seguinte, os olhos dele passaram a brilhar

com um fulgor improvável.– Morreu em decorrência dos

seus ataques psíquicos, pouco depois da luta entre vocês

ser interrompida.

Vieram os questionamentos na mente de Badar:

“Devo ficar feliz ou entristecido? Tive a intenção de

matá-la durante a luta, por que ficaria triste? No entanto,

como seria a minha reação se a visse morta? Talvez

sentisse um certo choque, por ver o mesmo sangue que o

meu derramado no chão; mas de que vale o sangue se ela

não passava de uma estranha, se não tinha nada em

comum comigo, se não convivíamos? Mostrar que como

sura sou superior a uma disira; deixar o nome da minha

família limpo: podem ser motivos de felicidade. Só não

entendo que felicidade é essa que se esvai quando ouço o

nome dela, imagino meus pais cabisbaixos e penso que

fui eu que lhe arrebentei os vasos do cérebro. Assim

como eu não queria que ela me matasse, ela

provavelmente não desejava ser morta por mim”.

— E o que pretendem fazer?– Não demonstrou

abalo diante dos invasores.– Busca vingança, Disiran?

— Não sou baixa. Sei que a vida da minha amiga

não será devolvida com a sua morte. Se nos deixar passar

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e for embora deste país, não voltar nunca mais, deixo

você viver.– Replicou Vanadis.

— Quem lhe disse que quero continuar a viver?

— Vai me dizer agora que está sofrendo pela

morte da sua irmã?

— Claro que não. Mas desejo morrer pela minha

honra como guerreiro; não fugirei.

— Deixa disso, doidinho! Você nem derrotou

direito uma comandante; quer vencer logo a Disiran?–

Partiu a provocação de Eosen.

— Você não me ouviu, idiota?! Eu aceito morrer.

— Não subestimem Svava. Ela era uma grande

guerreira. A hierarquia nunca é garantia de vitória em

uma batalha.– Vanadis se opôs à discussão.– Nem

sempre fui a Disiran. E desde que me tornei, aprendi a

sempre respeitar meu oponente, seja quem seja. Pois

bem, Badar: aceito seu desafio.

— Não é um desafio; mas vou atacar para matá-

la, mesmo que depois seja morto pelos outros.

— Então você só está certo da sua derrota geral,

não da individual.

— Vocês sei que não se importam com honra.–

Voltou-se para os antigos companheiros.– Podem me

atacar e me matar depois, caso eu a derrote.

— Realizaríamos a sua vontade com imenso

prazer...– Eosen zombou.

— Mas isso não irá ocorrer.– Foi a aposta de

Durin; Gilgash estava ansioso para observar os poderes

mentais do sura. Bastante a respeito lhe fora falado.

O confronto teve início com o primogênito dos

Alfis exercendo uma forte pressão mental em Vanadis,

com a finalidade de arrebentar seu crânio; era diferente

31

da luta contra Svava. Estava naquele momento presente

empregando o máximo de suas forças, afinal pensava que

seriam seus últimos instantes; devia encerrar sua vida

sem remorsos de que não usara todo seu potencial.

Mesmo que morresse, levaria algum ou alguns de seus

inimigos consigo. E a ex-Disiran pareceu resistir por

alguns segundos, porém logo seu rosto se contorceu de

esforço e dor, fechou os olhos, começou a suar e, quando

as testas dos dois brilharam mais intensamente, o

diadema dela arrebentou para o espanto de Eosen e

Gilgash, que foi o que ficou mais boquiaberto com os

poderes de Badar, que passou a sorrir e, amplificando

ainda mais a força de sua mente, conseguiu fazer com

que uma veia aparecesse na testa de sua adversária e uma

hora o sangue espirrasse para fora; não demorou para ela

cair morta aos seus pés, com os olhos arregalados, a boca

escancarada e a poça vermelha pegajosa embaixo da

cabeça, se espalhando pelo chão, grudando nos belos

cabelos.

— Não vou conseguir acabar com todos. Mas

uma já levei comigo. Que venha o próximo!– Apesar de

ofegante, provocou seus oponentes, que não avançaram;

pareciam apavorados e ele sorria.

— Não acha que é um pouco cedo para cantar

vitória?– Espanto; não sentiu mais as mãos, gelou por

dentro e por fora e dessa vez foi sua testa que quase

esguichou sangue quando Vanadis começou a se

levantar:

— Impossível! Você não pode ser imortal!

— Quem disse que não?– Ela sorriu com ironia,

o rosto sujo de sangue, e começou a empurrá-lo com a

sua energia, que se parecia com um rebojo violeta que

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tomou conta do chão e foi absorvendo o fogo em volta,

ao invés de apagá-lo. O diadema reapareceu na testa,

intacto.

— Agora compreendo: foi uma ilusão. Achei que

a tinha matado, mas na verdade nada aconteceu.

— O diadema que uso bloqueia agressões

mentais. Mas não serviria de nada se eu não tivesse poder

psíquico e treino suficientes para mantê-lo ativo; e o que

você viu foi pura obra minha.

— Diziam que minha irmã era a mais

desenvolvida mentalmente entre as disiras, mas não se

compara a você. Não à toa que é a Disiran.

— Para me tornar o que me tornei, tive que

estudar e praticar um pouco de tudo. Mas Svava era mais

especializada em alguns aspectos, tinha uma

clarividência fora do comum.

— Ha! Não há mesmo esperança para

mim...Estou numa luta perdida!– Sua seriedade aparente

englobava um tanto de sarcasmo e bastante melancolia.

— Espero que Svava me perdoe por enviá-lo para

a dimensão na qual ela se encontra, embora isso possa ser

relevado porque há muito espaço e as probabilidades de

reencontro são baixas, a menos que ela queira, pois vocês

não farão parte do mesmo plano: seus sentimentos,

pensamentos e personalidades são antagônicos. Que seja

como há de ser...– O remoinho daquela espécie de

plasma roxo luzidio, cada vez mais incandescente, se

expandiu para perto de Badar, que tentou uma última

resistência criando réplicas de si mesmo, porém estas

foram absorvidas, uma a uma, junto com o original, fosse

qual fosse. As expressões de todos, ao serem sugados,

foram de um certo desafogo.

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— O duelo mental me deixou realmente

impressionado.– Comentou Gilgash.

— Você conseguiu ver alguma das ilusões?–

Durin lhe perguntou.

— Eu a vi cair ensangüentada no chão, sabendo

que era uma miragem. Fiquei embasbacado com a

impressão de realidade que causou na mente do antigo

companheiro de vocês.

— Eu também vi, mas tomei um susto! Achei que

não fosse de mentirinha.– Eosen comentou.

— Isso quer dizer que você também tem um certo

poder mental, ainda não bem canalizado.

— Não consegui ver nada de incomum.– Balin

fez seu comentário.

— Vamos parar de falar sobre isso. Badar já não

vive mais entre nós. Precisamos avançar para cuidar do

que há.– Pouco à frente, sem apresentar mais nenhuma

energia espiritual, ela falou sem se voltar para os quatro;

o cenário ao redor estava silencioso e obscuro, as tochas

apagadas, jogadas pelos corredores, com rastros de

destruição por toda parte.

“É uma líder nata e plena, tanto na postura

quanto na força, na voz e na determinação”, refletiu o

lomai. “Será que atrás disso não existe uma ponta de

orgulho? Não pode ser perfeita.”

— Um homúnculo meu pode gerar a luz que

precisamos para avançar.– Durin se adiantou.

— Então me guie até Ymun. Pois além disso você

conhece o caminho.– Vanadis se voltou para ele e abriu

espaço para que o ex-sura fosse à frente. Quanto a Badar,

de fato, não existia mais nada de orgânico; somente sua

armadura vazia. Estranhamente, quando o grupo partiu,

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um wyvern demonstrou que era possível se embrenhar no

castelo sem ser percebido e permaneceu um pouco ali,

prestando uma última homenagem. Não estava sozinho,

pois ao seu lado, semi-transparente, despontava a figura

da pequena Shara, com os cabelos a ensombrar-lhe o

rosto...

A ex-Disiran e seus companheiros prosseguiram

para chegar ao salão do rei; e Odin, Baden e Eluen, por

outros caminhos, também iam. O restante das pessoas

que circulava pelo castelo ou do lado de fora e protestava

era mantido em ordem pelas disiras fiéis a Vanadis, que

impediam os excessos. Ymun, com a esposa por perto,

esperava sua hora. Dedilhando continuamente onde

apoiava os braços em seu trono, a imaginar seus inimigos

despencados, como cadáveres, estarrecidos, aos poucos

ficando frios; via à sua frente uma coluna precipitada,

com sua base, a única parte ainda atrelada ao solo,

corroída por musgos miseráveis. Ouviu algumas risadas

zombeteiras, à distância; seus pulsos começaram a ficar

moles e decidiu se levantar sair dali. Sua companheira o

fitava com tristeza, enquanto ele evitava olhá-la,

preferindo se amaldiçoar. As portas estavam fechadas.

Quando Vanadis entrou, ao lado de Durin,

Gilgash ouviu no ato os pensamentos e sentiu as

intenções hostis. “Tenho que matá-la no primeiro

golpe!”; achando que seus companheiros se distrairiam

ao ver a esposa do rei, que engoliu seco, ainda sentada no

trono, ele resolveu avisar:

— Cuidado, Vanadis! Ymun vai atirar algo em

você!– Contudo, não teria sido rápido o bastante. E não

foi, pois a maça de esporas envenenadas já fora atirada

para atingir a cabeça da líder das disiras em cheio, mas

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ela também pressentira o ataque e paralisou a arma no ar,

enquanto sua aura violeta tornava a aparecer, desta vez

mais evanescente, espalhando-se por todo o salão feito

um tipo de gás tóxico e tornando pesados a respiração e

os movimentos de quem se encontrava no local, menos

no caso dela. O rei de Warman, escondido atrás de uma

cortina azul-escura opaca, começou a tossir e se

denunciou, indo de joelhos ao chão.

— Por favor, poupem a vida do meu marido!–

Naquele instante a companheira de Ymun ficou de pé e

liberou seu pedido em voz alta, ainda um pouco

desajeitada no lugar onde se achava. Foi se afastando do

assento real e, tossindo um pouco, aproximou-se do

grupo.

— É melhor parar com essa névoa. Ymun já foi

vencido.– Disse Durin.

— E a minha garganta está queimando e o meu

nariz irritado.– Reclamou Eosen.

— Têm razão, não há mais necessidade.– A ex-

Disiran apagou sua aura e a maça, até aquele momento