A Cidade Perdida por Jeronymo Barbosa Monteiro - Versão HTML

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A Cidade Perdida (1948)

Jeronymo Barbosa Monteiro (1908 – 1970)

Fontes digitais

Digitalização da edição em papel

Coleção Terramarear - Vol. 70

Companhia Editora Nacional - 1948

Versão para eBook

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© 2008 Jeronymo Monteiro

USO NÃO COMERCIAL * VEDADO USO COMERCIAL

ota Editorial

Antes que qualquer relógio marque o último segundo adicional

de 2008, assinalemos duas datas que não poderiam passar em brancas

nuvens: os 100 anos de nascimento de Jeronymo Monteiro e os 60 da

primeira edição de A Cidade Perdida, volume 70 da Coleção

Terramarear.

Para os apreciadores de ficção científica, Jeronymo Monteiro é

nome que dispensa apresentações. Para os que não o são, basta dizer

que se trata do mais importante escritor do gênero no Brasil. Tão

importante que, na década de 1990, a Isaac Asimov Magazine (edição

brasileira da Asimov’s Science Fiction) criou um “Prêmio Jerônymo

Monteiro” em homenagem ao escritor. É, simplesmente, considerado

como o pai da ficção científica brasileira.

Quando publicou A Cidade Perdida, em 1948, Monteiro não era

um novato, nem nas letras, nem no gênero literário que o consagrou. No

volume constam, como “obras do mesmo autor”: o País das Fadas

[1930 - Cia. Melhoramentos de São Paulo], O Irmão do Diabo

(narrativa da aventura de Walter Baron) [1937 - Cia. Editora

Nacional], O Homem da Perna-Só [1943 - Anchieta Editora], O

Tesouro do Perneta [1943 - Anchieta Editora], A Ilha do Mistério

[1943 - Anchieta Editora], Os azi na Ilha do Mistério [1943 -

Anchieta Editora], O Palácio Subterrâneo nas Antilhas [1943 -

Anchieta Editora] e 3 Meses no Século 81 [1947 - Livraria do Globo].

Em tempos de internet e da facilidade de buscas, que esta

publicação seja um aperitivo e apresentação, ao eventual leitor que

desconhecia o Autor, de um dos mais importantes escritores

brasileiros... E que a curiosidade o leve a procurar mais sobre ele. E,

creiam-me, há muito, muito mesmo a descobrir.

Só como aperitivo, registro a notícia sobre um de seus contos, O

Copo de Cristal, incluído no livro Os Melhores Contos Brasileiros de

Ficção Científica, organizado e editado por Roberto de Sousa Causo,

lançado em 2008.

“...o conto foi escrito em maio de 1964, um mês após a tomada

do poder pelos militares, e sua existência contesta o senso comum de

que os autores da década de 1960 se abstiveram de criticar o golpe de

Estado (....). Tendo sido adaptado para a televisão por Zbigniew

Ziembinski em 1970 e veiculado pela Rede Globo, O Copo de Cristal

apareceu primeiro na coletânea Tangentes da Realidade em 1969, um

ano após o Ato Institucional Número 5.” - Fonte: Blog Insônia, de Tiago

Castro.

Marco A. M. Bourguignon, em Um Pequeno Resgate da

História da Ficção Científica Brasileira [www.scarium.com.br/artigos

/hfc.html], registra:

“Foi com o paulista Jeronymo Monteiro (1908-1970)

que a “ficção científica brasileira” passou a existir como

universo literário à parte da literatura, criando regras e métodos

próprios, além de formar um público específico. Em 1947,

Monteiro publicou, “Três Meses no Século 81” e, em 1948, “A

Cidade Perdida”. Antes disso, até o final da década de 30, não

existia no Brasil um movimento literário em prol da ficção

científica, envolvendo escritores e leitores. Antes havia surgido

alguns textos casuais de autores da literatura, como: Gastão

Cruls, Menotti del Picchia, Érico Veríssimo, Adazira

Bittencourt e Monteiro Lobato. Mas ainda não havia uma

tradição literária em ficção científica. Eram apenas ambientados

em universos remotos habitados por seres fantásticos além, é

claro, de ambientes utópicos e de aventuras.”

Jeronymo Monteiro travava uma batalha em várias

frentes da literatura popular: seriados para rádios, novelas

policiais e histórias infantis. Em 1964, fundou a “Sociedade

Brasileira de Ficção Científica” e nos últimos anos de sua vida

foi editor do “Magazine de Ficção Científica” (edição

brasileira da conceituada revista estadunidense “The Magazine

of Fantasy and Science Fiction”). Seu primeiro sucesso foi

“Aventura de Dick Peter”, uma série de livros baseados em um

dos seus seriados de rádio, eram histórias sobre um detetive

novaiorquino. A partir de 1947, Monteiro publicou uma série de

romances de FC, editou uma antologia: “O Conto Fantástico”,

Civilização Brasileira, 1959 e manteve por muito tempo uma

coluna crítica sobre Ficção Científica no jornal “A Tribuna”, de

Santos (SP).

A Cidade Perdida, que me conste, teve três edições, a última,

revista pelo Autor, em 1987, pela Editora Contexto, há muito esgotada.

A presente, em eBook, comemorativa, apenas reproduz a 1ª edição.

Boa leitura!

Teotonio Simões

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OTA DE COPYRIGHT

Esta edição é feita em “fair use”, em benefício de um direito

moral do autor infelizmente não contemplado pela Lei 9.610 de

19/02/1998 [Lei dos Direitos Autorais].

Ela não menciona, entre os Direitos Morais do Autor (Artigo 24)

o mais importante dentre eles, como qualquer autor sabe: o de ter sua

obra divulgada, em vida e, principalmente, após sua morte.

Caso haja, nesta publicação, a violação de qualquer direito

patrimonial (o que não acreditamos, visto a obra não ter sido reeditada

recentemente e a presente edição estar sendo disponibilizada com

cessão pública, que aqui fica declarada, de todo e qualquer direito

patrimonial sobre ela), os detentores legítimos de tal direito, caso se

sentiam lesados, estão cordialmente convidados a enviar e-mail para

livros@ebooksbrasil.org para que o presente título seja prontamente

retirado da apreciação pública e possamos informar aos apreciadores da

obra de Jeronymo Monteiro onde poderão adquiri-lo.

Índice

Explicação Indispensável

Capítulo I

Capítulo II

Capítulo III

Capítulo IV

Capítulo V

Capítulo VI

Capítulo VII

Capítulo VIII

Capítulo IX

Capítulo X

Capítulo XI

Capítulo XII

Capítulo XIII

Capítulo XIV

Capítulo XV

Capítulo XVI

Capítulo XVII

Capítulo XVIII

Capítulo XIX

Capítulo XX

Capítulo XXI

Capítulo XXII

Capítulo XXIII

Capítulo XXIV

Capítulo XXV

Capítulo XXVI

Capítulo XXVII

Capítulo XXVIII

Capítulo XXIX

DEDICATÓRIA

Ao Flávio Xavier de Toledo,

fiel companheiro na inefável

aventura...

EXPLICAÇÃO

I DISPE SÁVEL

Tanto Salvio como eu estamos certos de que entre os ocasionais

leitores deste livro há de se encontrar algum atlante. É a esse provável

leitor que vão especialmente dedicadas estas linhas.

Nada devem recear os atlantes que habitam ainda o coração do

Brasil. O que se revela de seu segredo neste livro será tomado pelo

leitor comum como desbragada fantasia. Ninguém vai acreditar no que

está escrito lá pelas últimas páginas, de tão inverossímil que parece,

embora seja a perfeita expressão da verdade. Por isso, a nossa

indiscrição não causará nenhum transtorno e nem instigará indesejáveis

visitas a Atlantis-a-Eterna. Sabemos que nenhuma visita conseguiria se

aproximar além do ponto permitido pelos guardas dos postos

avançados. Sem a permissão do Grande Sacerdote, jamais conseguiriam

chegar até onde chegamos.

Além disso, queremos dizer que, revelando o que descobrimos

nesta maravilhosa viagem, estamos nos desincumbindo de uma clara

imposição do Destino. Estamos certos de que o Primeiro Orientador

espera que o façamos, embora tudo pareça indicar o contrário.

Ademais... gostaríamos de ter ficado para sempre em Atlantis-

a-Eterna. Não pudemos. Mas pretendemos voltar e tudo faremos para o

conseguir. É verdade que Salvio está muito mudado, dirigindo um jornal

radiofônico e todo entregue a negócios de imóveis. Mas não importa.

Qualquer coisa me diz que iremos terminar os nossos dias de vida

naquele lugar maravilhoso, ao lado de Quincas e de Vanila. Salvio

tem-me dito que não conseguiremos nem chegar ao primeiro Posto

Avançado. Mas não importa. Tentaremos. Eu sei que vale a pena!

CAPÍTULO 1

“PARTIREMOS AMA HÔ

Acordei com aquelas batidas fortes na janela. Liguei a luz. Não

eram ainda cinco horas! Tive intenção de não fazer caso, mas como as

batidas continuassem, tive mesmo que abrir a porta e dei com a

reluzente careca cor de rosa de Salvio.

— Partiremos amanhã! — cumprimentou ele. E sem dúvida, era

esse um esquisito começo de dia.

— Entre. Vamos ver... Como é que disse? Partiremos amanhã?

Mas para onde?

— Aqui está o roteiro. Tudo calculado, tudo em ordem.

— Espere. Sente-se aí, enquanto me arrumo.

A irrupção de Salvio àquela hora da manhã e a esmagadora

notícia de que iríamos partir no dia seguinte, alteraram, de certo modo,

o meu ponto de vista.

Quando voltei à sala, ele comparava um roteiro feito a lápis,

com o grande mapa do Brasil que está pendurado à parede por cima da

minha mesa. Olhei também.

E subitamente tudo aquilo — a viagem, as inscrições rupestres,

os símbolos, a kabala hebraica, o Templo do Sol, o imenso sertão —

tudo aquilo se me afigurou tão inatingível, tão problemático, tão remoto,

que me invadiu uma onda de desânimo.

— Salvio... você não acha que é asneira?

— O que? Este mapa?

— O mapa, não. Tudo. A viagem, o Templo do Sol... Salvio

olhou-me com espanto e dúvida.

— Que é isso? Que houve com você?

— Nada. Mas raciocine. Pense um pouco... Esse imenso

sertão!... Florestas, pântanos, rios, perigos de toda espécie!

— Venceremos tudo, Jeremias!

— Bem... Vamos que seja assim. E você espera seriamente

encontrar, lá no inferno, o Templo do Sol?

— Tenho certeza absoluta. Há um Templo do Sol situado entre

os rios Xingu e Tapajós, entre os paralelos 5 e 10 e quase sobre o

meridiano 55 Oeste de Greenwich. Tenho certeza!

— Espere... Se houvesse qualquer coisa realmente notável lá

onde você diz, já a teriam descoberto. Centenas de exploradores têm

percorrido o nosso sertão em todos os sentidos.

— Não é bem assim. Os exploradores têm apenas percorrido

alguns dos grandes rios do interior do Brasil, sem jamais penetrar muito

longe pelas margens. E entre o Tapajós e o Xingu há um mundo, onde

caberiam folgadamente vários Estados europeus. Nenhum explorador

percorreu essa imensa extensão de terra. Ou você pensa que sim?

— Então, você me está ajudando. Se exploradores

experimentados, habituados aos rigores das selvas, não puderam

explorar esse mundo, como iremos nós fazê-lo? E, ainda mais, como

poderemos ir dar com o Templo perdido nessa vastidão?

— Nós o faremos. Porque vamos com roteiro certo e indicações

seguras.

— Ora! Você tem a coragem de chamar “indicações seguras” a

esses arabescos que encontramos e sobre cuja origem ignoramos tudo?

— Perfeitamente. Eu creio. Tenho confiança absoluta nas

indicações que possuímos.

— Você está entusiasmado demais.

— Não estou. Tenho sérios motivos para crer, e, além disso,

você sabe que possuo certos conhecimentos...

— Ora... Que conhecimentos?

Pareceu-me que Salvio ia perder a paciência Mas controlou-se,

e, depois de rápido suspiro, prosseguiu:

— Jeremias não posso entrar em detalhes. Sou depositário de

segredos que a posição que ocupo me impede de revelar. Mas você

precisa ter confiança em mim. Afinal, eu participarei da sua sorte, você

não irá sozinho. Por que, então, eu haveria de o induzir a praticar

loucuras? Ouça: A tradição das religiões ocultas de que os iniciados têm

conhecimento ensina que existe um Templo oculto no mais recôndito

recesso da América do Sul... Eu não queria e não devia dizer-lhe isto,

mas enfim... — depois de longa pausa, e como que impelido por uma

força interior, Salvio continuou: — Nesse templo estão guardados os

tesouros dos antigos sacerdotes do Culto Solar. Até os enfeites sagrados

usados por eles na hora do sacrifício, como braceletes, peitorais, cintos

e vários apetrechos, a maioria em oricalco, aí estão. Não se esqueça de

que, logo após a descoberta do Brasil, foram vistos alguns aborígenes

com enfeites desse gênero, segundo afirma Clemente Branderburger na

sua “Nova Gazeta da Terra do Brasil”, em 1515.

— Ora, Salvio. Você...

— Espere. A mesma tradição, que conheço muito bem, e que é

o meu principal ponto de apoio, afirma o seguinte: “O CAMINHO

PARA O TEMPLO SÓ SERÁ ENCONTRADO POR AQUELE QUE

DECIFRAR O MISTÉRIO.”

— Não. É por isso mesmo. Francamente, é muito mistério. Não

vejo nada claro. É só isso: triângulos, círculos, “runas”, “mamtrams”

“lótus de mil pétalas”, decifrações... Não!

Foi então que, pela segunda vez, vi Salvio exaltar-se.

— Cale a boca, ignorante! Você nada vê, nada sente, nada

entende e nada sabe. Mas tem que acreditar em mim, porque eu entendo,

vejo e sei.

— Pois então, vá sozinho. Eu, positivamente, não vou!

Salvio ergueu-se dum pulo. Sua careca estava violácea e seus

olhos pareciam querer saltar sobre mim. Fulminou-me com um olhar e

uma palavra:

— IDIOTA!

Recostei a cabeça no espaldar da poltrona e fechei os olhos.

Ouvi seus passos pesados afastarem-se. A porta bateu com força.

Depois, foi o portão que bateu e se abriu novamente, em recuo,

rangendo.

Eram seis horas.

***

O dia estava lindo, e a lembrança de ir até à cidade não era má.

Na praça do Patriarca era convidativa a escadaria da galeria

subterrânea. E, quando eu chegava em baixo, coincidia estar chegando,

também, o ônibus de Santo Amaro. Ia partir vazio. Pulei dentro dele.

Parece aventura andar num ônibus vazio em São Paulo.

O meu pensamento era ir até Santo Amaro e almoçar junto à

represa, mas quando passava por Brooklin, lembrei-me do Mateus, e

saltei. Era gostoso caminhar sem pressa pela estrada em direção do

Morumbi. O ar da manhã estava fresco. Da terra subia agradável cheiro

inclassificável. Os pássaros piavam, e operários cruzavam comigo,

apressados. Eles decerto não tinham, como eu, um problema idiota na

cabeça. Não pensavam em penetrar sertões desconhecidos à procura de

incríveis Templos do Sol...

As poças de água lamacenta eram lindas na sua tranqüilidade de

expectativa. O matagal que marginava a estrada, intrincado e sujo, era

ridícula sugestão das matas virgens que me acenavam de longe. Apanhei

morangos silvestres que me souberam maravilhosamente bem, e olhei

admirado os joás cor de fogo que enfeitavam o verde escuro da

folhagem.

Quando apareceu a ponte que atravessa o rio, a casa de Mateus

estava perto. A sebe que a rodeia é baixa. As janelas estão todas

abertas, o que indica que ninguém mais dorme lá dentro. Dois garotos,

sujos, brincam no monte de areia que sobrou da construção, e lá no

fundo do quintal, Mateus, com calças velhas e rasgadas e calçando

tamancos, está arrumando o arame de estender roupa.

Decerto, Mateus também não se preocupa com misteriosos

Templos do Sol, e não pensa em impossíveis viagens pelo sertão central

do Brasil.

Dei um berro:

— Olá! Mateus!

Ele voltou-se vivamente e sua cara riu toda.

— Jeremias! A esta hora! Entre! — E para dentro: —

Mariquinha, arrume um café para o compadre Jeremias!

E depois, limpando as mãos nas calças esfarrapadas:

— Mas que diabo foi isso? Você às sete da manhã aqui neste

fim de mundo! Que é que anda fazendo pelo mato a uma hora destas?

— Passei uma noite atribulada. Queria me distrair um pouco,

respirar ar puro... Acho que estou envenenado.

— Álcool, já sei...

— Não, meu caro. Pior do que isso. Idéias!

— Ah... então, fez muito bem. Depois do café vamos ao rio

pescar uns acarás para o almoço. Venha.

D. Mariquinha, mineira bonita, um tanto estragada pela vida,

acabava de preparar o café na pequena cozinha, com os quatro filhos

menores embaraçando-lhe os passos, reclamando e discutindo.

Tomamos o café em canequinhas de lata. Na casa de Mateus tudo é de

lata. As panelas são de latas de banha; as canecas, latas de leite

condensado; os pratos, latas de marmelada. É um paraíso primitivo e

bom, com a natureza emboscada em todos os cantos: nele próprio, na

sua boa companheira, nos cinco irrequietos filhos, nos escassos móveis

e na alegria saudável que polvilha tudo. Mateus é um rapaz que

aprendeu a viver a vida com simplicidade e sem desejos desmedidos —

como esse de procurar Templos do Sol...

Do degrau da soleira só se viam as árvores do terreno vizinho, o

grande céu azul e o morro do Morumbi, que cansava a vista numa

subida estafante.

— Mateus, me diga uma coisa. Você acredita que haja no centro

do Brasil algum vestígio de civilizações antigas?

A pergunta estava tão fora de qualquer cogitação do velho

amigo, que ele não a entendeu bem.

— Como é? Civilizações de onde?

— Pergunto se você acredita que possa haver vestígios de um

passado grandioso, com civilizações e grandes povos lá no meio das

matas do Brasil.

— Ah! Naturalmente! Decerto que os índios que foram

encontrados aqui devem ter um passado.

— Sei. Mas que espécie de passado?

— Um passado civilizado, é claro. Se eles não tivessem

possuído uma grande civilização não estariam no estado em que foram

encontrados.

— Ora essa! Que idéia absurda a sua!

— Mas é claro! Só quem já teve uma civilização muito grande e

artificial é que pode acabar sendo o que são os nossos índios. É preciso

cansar-se de tudo na vida, do luxo, das festas, dos artifícios, para se

chegar a compreender bem as delícias da vida simples junto à

Natureza... E os nossos índios já passaram por tudo isso. Eis porque

eles não “topam” a nossa civilização, por mais que a gente os queira

“civilizar”. Nós estamos é arruinando a vida deles, matando-os,

destruindo-os. Se fôssemos humanos e inteligentes; se soubéssemos

respeitar os direitos alheios — deixaríamos esses homens viver em paz

a vida que melhor lhes aprouvesse. Mas não. Teimamos em obrigá-los a

adotar o nosso artificial e deletério sistema de vida...

Interrompi-o, espantado:

— É assim que você pensa, Mateus?

— Naturalmente. Quem compreende a vida, tem que pensar

assim. Você não vai me dizer que esta sordidez em que vivemos, esta

trama intrincada de maldade, inveja, injustiça, crueldade e ódios — é a

vida para que fomos criados...

— Está bem, Mateus. Vamos pescar.

O rio Pinheiros foi desviado do seu antigo curso. Agora, o

braço, meio estagnado, move-se lentamente demais para merecer o

nome de rio, e está preso entre profundos barrancos. Na água serena e

turva há grande quantidade de acarás, e o acará torradinho é muito

gostoso.

CAPÍTULO 2

“ESTE MU DO ÃO É DO

MEU CO HECIME TO!”

Pescar é, com certeza, a mais agradável das ocupações. Talvez

por ser o melhor pretexto para se permanecer à margem de um rio,

embebido o pescador no suave fluido da natureza. Quanto a mim, não há

estado de irritação capaz de resistir a duas ou três horas de pescaria em

manhã ensolarada. Já tínhamos duas dúzias de acarás enfiadas no cipó,

quando Mateus voltou ao assunto:

— Mas o que é que houve, Jeremias?

— Você conhece o Salvio?

— Aquele seu amigo careca que anda metido numa religião

esquisita?

— Esse mesmo. Ele quer que eu o acompanhe não sei para

onde, a fim de descobrir um Templo do Sol, e os restos de antiga

civilização, que, diz ele, deve ter existido no Brasil em séculos

passados.

— Maravilhoso! E você não quer ir?

— Nem sei... E o pior é que eu é que tenho a culpa de tudo...

Esta madrugada, ele foi me acordar para dizer que devemos partir

amanhã, que já tem o roteiro pronto e não sei que mais...

— E você...

Não respondi. Um galho que derivava girando, levou-me o olhar

para longe. Só quando ele desapareceu na curva é que voltei ao assunto:

— Você se recorda de um tio meu, chamado Adolfo, que foi

para as Guianas há uns dez anos?

— Sim. Você me falou dele. Que é que tem com isso?

— Bem... é uma história muito longa. Tio Adolfo morreu na

Venezuela, há um ano, e eu recebi uma velha mala que ele deixou.

Dentro dela, com outras bugigangas, vinha um pedaço de grade de ferro

batido, muito antiga, e de desenho realmente curioso. Nunca fiz conta

daquilo. Ao contrário, sem compreender que motivo poderia ter levado

meu tio a guardar pedaços de ferro velho, por várias vezes estive

tentado a atirar fora a grade. Um dia, porém, tudo mudou com respeito

ao “ferro velho”. Foi o seguinte: encontrei-me com Salvio na cidade,

depois de muito tempo sem nos vermos. Você sabe. Conversa vai,

conversa vem, falamos no tempo em que trabalhamos juntos na

Sorocabana, recordamos os companheiros que nos deixaram saudades

e, afinal, Salvio carregou-me para o quarto onde mora, lá para os lados

do Paraíso. No quarto dele só havia livros. Livros por todos os cantos,

nas estantes, dentro do guarda-roupa, em cima das mesas e empilhados

no chão. E o interessante é que os livros dele são daqueles que a gente

vê, pega, apalpa, folheia e não quer largar mais. Todos estavam

indicando que Salvio tem espírito investigador, dedicado a estudos

pitorescos, apaixonantes e talvez... estranhos. Bem sei que nem todos

aprovam o gênero de especulações a que Salvio se entrega, mas ele é

sincero. Alguns espíritos menos arejados talvez até nutram certo receio

perante suas preocupações e suas idéias. Mas esses são tolos. Na

verdade, não há nada de misterioso ou perigoso na especialidade que

Salvio abraçou. Eu sabia, já, certas coisas, mas só nesse dia é que pude

compreender melhor o nosso amigo, e percebi, então, quão totalmente

alheios a tudo quanto eu já pensara eram os estudos a que ele se

dedicava. É incrível como neste mundo há coisas importantes das quais

nunca suspeitamos sequer e que, no entanto, enchem a vida de

multidões!

Mateus ouvira o meu longo discurso sem se manifestar, mas,

nesse momento, deu um aparte bem ilustrativo.

— Bem sei. Suponhamos uma pessoa que goste de flores. Ela

ficará encantada diante de um lindo jardim florido. Um dia, alguém lhe

apresenta um exemplar de “cattleya labiata”. Com certeza, essa pessoa

ficará espantada diante das magníficas flores de vinte centímetros de

diâmetro. Depois, esse alguém lhe dirá: isto é uma orquídea, uma

“cattleya labiata” do Norte do Brasil. As orquídeas são plantas

extraordinárias, que muita gente chama, erradamente, de parasitas. Elas

não sugam a seiva das árvores onde vivem. Podem prosperar sobre

pedras, ou em vasos de xaxim, que, evidentemente, não têm seiva

alguma para oferecer. Vivem graças aos microrganismos que em suas

raízes transformam os elementos do ar e da água em matéria

assimilável. Têm um gênero de vida completamente diferente do de

todos os outros vegetais conhecidos e armazenam nos pseudobulbos

reservas de energia para resistir aos maus períodos. Não é um mundo

novo para aquela pessoa que ama as rosas e os cravos?

— Evidentemente, Mateus. É exatamente o que quero dizer a

respeito de Salvio e dos seus livros e estudos. Eu, positivamente, não

conhecia aquilo. Ele possuía, dentro de seu quarto, um mundo

completamente novo para mim. Algumas horas de convivência no seu

quarto sossegado fizeram com que o conhecesse melhor do que em

vinte anos de coleguismo e conversa de mesas de bar. Mas você quer

ver o mais interessante? Apanhei, de entre os seus livros, um volume não

sei de que autor, que tratava dos selvagens do Brasil. Era fartamente

ilustrado. Ora, os nossos indígenas sempre mereceram a minha mais

comovida simpatia, embora eu não tivesse tido oportunidade de os

conhecer melhor. Examinando, muito interessado, as gravuras, parei

diante de uma delas e disse:

— Veja, Salvio! É evidente! Não pode haver dúvida alguma! Os

nossos índios são descendentes dos orientais, dos mongóis... veja! Veja

isto!

Em vez de olhar a página do livro, Salvio olhou-me sorrindo

paternalmente e disse:

— E por que não podia ser o contrário, Jeremias?

Essas poucas palavras, ditas por uns lábios sorridentes, na

quietude silenciosa do quarto, enquanto a chuva caía insistente lá fora —

foram como uma catapulta que se põe em movimento.

— O contrário? O contrário? Como?

— Sim. Simplesmente o contrário. Por que não hão de os

mongóis, os orientais e o resto dos homens ser descendentes dos nossos

indígenas, ou melhor, um ramo colateral da raça ameríndia?

— Ora, Salvio... parece brincadeira. Eu tenho lido alguma coisa

a esse respeito. Sei que os chineses são bem mais antigos do que os

guaranis...

— Mas por que são mais antigos?

— Porque tudo o prova. A sua história milenar, a sua tradição...

— Mas é que os nossos índios podem ter uma história que, de

tão milenar, se perdeu na noite dos tempos. A dos chineses, é tão nova

que ainda pode ser perfeitamente lembrada...

— Ora... e as inscrições rupestres... você sabe que nas rochas do

interior do Brasil se encontraram inscrições que indicam a visita feita ao

Brasil por povos de outras terras, antes de 1500. Decerto, alguns desses

visitantes é que deram origem aos nossos indígenas...

— E, se assim fosse, por que não teriam eles continuado as

civilizações de suas pátrias, civilizações tão grandes que permitiram a

travessia do oceano e deram origem a uma escrita...?

— Bem... Quer dizer que eles regrediram, e esqueceram tudo...

com exceção de alguns, que, fixando-se na orla do Pacífico,

conseguiram progredir, como os Aztecas, Toltecas, Incas, etc.

Durante minha fala, Salvio conservara o sorriso nos lábios e me

olhava com ar de paternal condescendência, como quem olha um

menino que, com um canivete e uma tora de peroba, trabalha na certeza

de que vai fabricar um violino.

Protestei:

— De que ri? Não foi isso mesmo?

— Jeremias — começou Salvio pausadamente, sem alterar a

voz, como era seu costume falar — você vai ouvir umas coisas que lhe

quero dizer. Talvez seja maçante, mas você precisa ouvir para não

tornar a dizer tolices e para ajudar a repor as coisas nos seus devidos

lugares. Você acaba de dizer o que todo mundo diz e todo mundo

aceita, porque foi divulgado com foros de veracidade científica. Mas,

como todos os que repetem o que ouvem, não usou o cérebro, não

tentou raciocinar. Diga uma coisa: você sabe, por acaso, que o nosso

Brasil está situado no “continente mais antigo do mundo”?

— Sim... tanto que Conan Doyle, quando quis arranjar um

cenário adequado para a sua história do “Mundo Perdido”, com animais

antediluvianos ainda vivos, escolheu o planalto central do Brasil.

— Isso é fantasia, Jeremias. É claro que Conan Doyle sabia de

alguma coisa, mas a verdade científica, meu caro Jeremias, é que o

planalto central do Brasil é formado pelas rochas pertencentes ao

período chamado, em geologia, “de transição”; rochas que não foram

cobertas por nenhuma formação mais recente.

— Mas... isso...

— Espere. Não há, em nenhum outro ponto do nosso planeta,

tão grande extensão de terreno que ofereça igual aspecto. E essas

rochas de transição assim, à flor da terra, provam, simplesmente, que o

planalto central do Brasil já emergira das águas havia muitos e muitos

séculos quando outras partes começaram a surgir e secar ao ar. Decerto,

você sabe que as rochas se formam pelos depósitos sedimentares que se

vão acumulando no fundo das águas...

— Bem. Mas...

— Cale-se! Agora, está falando a Ciência! O solo da maior parte

do nosso país é constituído de rocha primitiva, arcaica. No planalto

central aflora, por todos os cantos, o “cristalino”, rocha que constitui os

legítimos alicerces do globo. No Amazonas afloram rochas do período

permeano e até o siluriano, o mais antigo dos terrenos paleozóicos, foi

assinalado nos saltos de vários rios do Amazonas e do Pará. Isto

confirma o que eu já disse: que esta parte do globo estava já exposta ao

ar, e, talvez, coberta de vegetação primitiva, enquanto as outras partes,

ainda mergulhadas na água, continuavam recebendo novas camadas de

sedimento e que, milênios mais tarde, emergindo, formariam os outros

continentes, o “velho mundo” etc, mas, na verdade, os novos

continentes, de constituição geológica mais recente do que a do solo

brasileiro. Pense bem sobre isto, e não esqueça nunca: se a nossa terra

surgiu das águas milênios antes das outras, deve, também, ter recebido a

semente da vida milênios antes delas. Foi um adiantamento que

tomamos e que ninguém nos poderá mais tirar.

— Espere. Isso é história antiga demais. Que é que tem que ver

com os chineses e os mongóis?

— Chegaremos lá. Como vê, o “novo mundo” que Colombo e

Cabral descobriram era, precisamente, o mais antigo dos mundos e,

como o demonstrou Le Plongeon, depois de onze anos de

conscienciosas pesquisas — era também o berço da raça humana e,

portanto, o berço da civilização, pois que, nascendo primeiro aqui o

homem aqui deve ter evoluído primeiro.

— Bem...

— Isso, Jeremias. Bem! Muito bem, até! Você compreenderá

tudo claramente, dentro em breve. Até poucos anos atrás, os cientistas

acreditavam que o “homo” tivesse aparecido só no período quaternário,

enquanto desapareciam os animais monstruosos que se convencionou

chamar “antediluvianos”, e que seriam próprios do terciário. Eles

teriam morrido durante a Idade Glacial que aniquilara todos os vegetais

de que se nutriam. Pois bem, você sabe que os períodos geológicos se

contam por milhões de anos.

— Mas o aparecimento do homem no quaternário é um fato

provado. Quatrefages...

— Provado, não. É, apenas, um fato “sustentado”. Ouça isto:

Homens de reconhecida probidade científica, como Peter Lund, Anibal

Matos, Pedberg, Morton, Ameghino, Hrdlicka, e outros, pesquisando

com critério em diferentes pontos da América do Sul, encontraram

vestígios insofismáveis da existência de uma civilização muito, mas

muito, anterior às famosas civilizações chinesa, egípcia, persa, romana

ou qualquer outra das já estudadas e pesquisadas pelo homem. E, o que

é mais significativo, provaram que o homem já existia na América do

Sul pelo menos ao fim do período terciário. Isto é: o homem já vivia no

nosso continente alguns milhões de anos antes da época em que se

acreditava tivesse ele surgido. Compreende isso, Jeremias? É

muitíssimo importante! Na Lagoa Santa, nas Furnas de São Leopoldo,

no Estado de Minas Gerais, encontraram-se oitenta esqueletos do “homo

americanus” de mistura com ossadas de grandes herbívoros que só

existiram pela época Terciária. Quer dizer, até que se prove o contrário,

que esses homens e esses animais foram contemporâneos e, portanto, o

“homo americanus” é terciário! Mas há mais, ainda, ouça: o gliptodonte

viveu na era Terciária e era um monstruoso animal, couraçado como o

tatu dos nossos dias. Pois foram encontradas, aqui, na América do Sul,

carapaças de gliptodontes cobertas com traços e arabescos

evidentemente feitos por mão humana, e embaixo de uma dessas

carapaças encontraram o esqueleto de um dos primitivos habitantes da

América. Isto tudo, em terrenos da era Terciária. É concludente,

indiscutível.

Como você pode imaginar, eu estava esmagado com essas

revelações. Exclamei:

— Isso é que é sabedoria! Estou positivamente aturdido. Esse

mundo não é do meu conhecimento!

— Acredito, É natural. E, agora, raciocinemos um pouco. Se o

homem apareceu na América antes de aparecer em qualquer outro lugar,

porque aqui se encontravam as condições necessárias ao seu

aparecimento, temos que em outros continentes apareceram as

condições necessárias à vida humana. É lógico, portanto, que o homem

seguiu com o tempo. Só milhares de anos mais tarde é que acreditar que

o seu processo evolutivo normal pros-americano se passasse para esses

lugares, e que, aqui no seu berço natal, mercê da evolução cumprida, já

estivesse a caminho da civilização, enquanto raças diferentes,

inteiramente selvagens, apareciam nos diversos pontos do mundo...

— Tem razão. Isto é bastante claro...

— Mas ainda há mais. Nas camadas inferiores do quaternário,

aqui na América, foram encontradas cabeças de javali artisticamente

lavradas, como cita Perez Verdía. É fácil tirar a conclusão. Se nos

primeiros tempos do quaternário o homem era capaz de se entregar a

manifestações artísticas, é que já possuía milhares de anos de evolução,

não é claro?

— Sim. É bem claro. Estou compreendendo admiravelmente.

Como se abrem novos horizontes!

— Agora, vejamos outro aspecto da mesma questão. Todos os

pesquisadores da arqueologia sul-americana verificaram que existem, de

norte a sul do continente, testemunhos de todo gênero, deixados por

uma civilização desaparecida, como sejam: ruínas de templos, palácios,

pirâmides, hipogeus, túmulos, monumentos de estilo original, cujas

linhas arquitetônicas não se parecem com as dos monumentos egípcios

ou greco-romanos. Aqui em São Paulo, no antigo município de Batalha,

fizeram-se ricas descobertas arqueológicas. É conhecida a célebre

“esfinge” do Paraná. Em Boa Vista, no Rio Grande do Sul, foram

descobertas as bases de uma construção monumental. Há ídolos

zoomorfos e antropomorfos na Serra de Sincorá. Há ruínas de uma

cidade monumental na Bahia. E há, além de tudo, inscrições rupestres,

petróglifos, símbolos e sinais antiquíssimos gravados em milhares de

rochas, por todo o interior do Brasil.

— Mas, espere! Se tudo isso é verdade, por que a ciência oficial

teima em considerar o Oriente como berço do homem e das

civilizações?

— Ora... Porque, para o comodismo nacional é mais fácil

declarar que uma forma estranha na pedra é simples “capricho da

Natureza”, do que organizar exaustivas e custosas pesquisas bem

dirigidas. E porque, uma vez estabelecido que o Oriente, a Ásia, foi o

berço da humanidade, a ciência dificilmente quererá voltar atrás, e será

preciso imenso trabalho para induzi-la a isso. Ora, como aqui não nos

incomodamos absolutamente com tais problemas, vai tudo no melhor

dos mundos e se afasta a trabalheira enfadonha de abandonar o que está

feito para se recomeçar sobre novas bases. Acredito, no entanto, que

apesar de toda a resistência e do profundo letargo do interesse nacional,

a verdade vai abrindo caminho, porque as provas se acumulam de tal

maneira que, dentro de alguns anos, todo o mundo terá que se curvar à

evidência. Talvez os nossos sábios resolvam, também, tomar a coisa

mais a sério...

Durante alguns minutos nos mantivemos em silêncio. Eu pensava

naquilo tudo — um mundo novo, vibrante, apaixonante, repleto do

perfume místico do passado, de um passado longínquo, tão longínquo

que a imaginação vacila em localizá-lo em qualquer época ao longo do

tempo. Depois, reatei o fio da conversa:

— Salvio, você falou, ainda há pouco, em inscrições rupestres,

petróglifos e símbolos...

— É verdade. Pelo interior do Brasil, especialmente no

Nordeste, nos arredores de Natal, encontram-se pedras gravadas com

símbolos estranhos. O interessante é que muitos desses símbolos,

embora feitos há milênios — os nossos selvagens não só não os sabem

decifrar, como não têm memória alguma sobre eles e também não fazem

nada semelhante — são muito parecidos com os que se encontram nas

escritas sagradas de vários povos dos chamados “antigos”, da Ásia, da

África; e muitos deles se assemelham, mesmo extraordinariamente, a

signos de kabala hebraica. São comuns, por exemplo, nas inscrições

rupestres do Brasil, os caracteres rúnicos.

— Rúnicos? Que quer dizer?

— “Runa” é o vocábulo que significa “homem”, e a kabala o

inclui até hoje.

— Isto traz em si possibilidades grandiosas! — exclamei,

percebendo, num relance, a tremenda importância daquela observação.

— Sem dúvida. E vejo que você está começando a apreender o

fundo da coisa...

— Sim. Estou entrevendo algo de grande importância, muito

empolgante, mas sinto-me incapaz de pensar sozinho... Você... que é

que pensa de tudo isso, afinal?

— O que eu penso é muito simples, Jeremias, mas, no atual

estado dos conhecimentos estabelecidos, poderá parecer loucura. Só o

conto a você porque somos amigos, e, mesmo que lhe pareça absurdo,

você não vai me matar...

— Diga logo. Esse preâmbulo me faz esperar algo muito

importante.

— Você ouvirá e julgará. Penso que no planalto central do Brasil

deve ter-se desenvolvido, em épocas muito primitivas, uma civilização,

que seria o ponto de partida para todas as decantadas civilizações do

mundo. Daqui teriam saído os homens que, fundando a Atlântida, se

tornariam os mais famosos e misteriosos seres da nossa raça. Da

Atlântida eles se teriam passado para a África, com os elementos que

deram nascimento à decantada civilização egípcia. A civilização

sul-americana, como todas as outras, devia ter-se baseado num princípio

religioso, e este só podia ser o culto solar, porque nada impressionou

tão profundamente o homem primitivo como o sol, porque bem logo ele

aprendeu a reconhecer que é do sol que nos vem toda a vida. E a

tradição nos ensina que os templos do sol eram, comumente,

subterrâneos... Afinal, o melhor é parar por aqui. Isto não passa de

imaginação.

Eu estava ficando perturbado, porque me lembrava de uma

coisa.

— Estou me lembrando...

— De quê?

— É a respeito de símbolos. Tenho algo que talvez seja

importante.

— Você tem?

— Tenho.

— Mas tem o quê?

— É um trabalho em ferro batido que recebi da Venezuela,

numa mala que meu tio me mandou, um tio que foi para as Guianas há

muitos anos.

Salvio mexeu-se nervosamente na cadeira.

— Espere. Você diz que tem um trabalho em ferro batido... que

espécie de trabalho? Que tem que ver com o que estivemos

conversando?

— Não sei precisamente. Mas são uns desenhos... Um círculo,

uma cruz... creio que tem também um sol e meia lua...

Salvio quase pulou. Mas tratou de se dominar e, já sereno, falou:

— Pode ser que você esteja enganado, Jeremias, e que esse

trabalho não tenha valor algum. Mas também pode ser que suceda

exatamente o contrário. Preciso ver isso. Preciso ver com urgência!

***

Mateus ouvira a minha longa narração em silêncio e pescando

conscienciosamente. Era como se eu tivesse estado falando sozinho e,

na realidade, falara para mim mesmo como num sonho, recordando com

prazer as minúcias daquele primeiro encontro com Salvio depois de dez

anos de ausência.

— E depois? — perguntou ele quando viu que o meu silêncio se

tornara longo demais.

— Depois? Salvio fez questão de ver a grade de ferro naquela

noite mesmo. Já era madrugada quando chegamos à minha casa. Logo

que viu o pedaço de ferro ficou louco. Atirou-se a ele e, até romper o

dia, esteve debruçado sobre a mesa, interpretando, estudando, falando

sozinho. Eu adormeci de cansaço, mas ele me acordou, quase às nove

horas, dizendo:

— Jeremias. Isto é o maior achado de todos os tempos. Posso

levar comigo, para estudar melhor?

Concordei logo. Eu queria era deitar-me, descansar. Isso foi há

dois dias. E hoje pela manhã ele me apareceu em casa, ás cinco horas,

berrando: “Partiremos amanhã!”

— Partirão para onde?

— Sei lá! Quantos peixes você pescou?

— Perdi a conta. Mas já temos demais. Vamos embora, que a

Mariquinha ainda tem que prepará-los para o nosso almoço.

Os acarás estavam deliciosos.

Depois do almoço, voltamos para a cidade. Mateus dirigiu-se

para a Repartição onde trabalha e eu, em singular disposição de espírito,

dirigi-me à casa de Salvio.

CAPÍTULO 3

DA DISCUSSÃO... ASCE A

LUZ

Este capítulo trata ainda de arqueologia e opiniões científicas. O

leitor poderá pulá-lo, se quiser, passando logo ao 4, onde começa a

ação. Mas, como é um capítulo curto, se puder lê-lo, melhor. Sempre se

esclarecem algumas coisas nele.

***

Salvio recebeu-me em seu quarto como se nada de anormal se

tivesse passado. Conversamos, nos primeiros minutos, sobre coisas sem

importância. Depois, intencionalmente, ele perguntou:

— E então?

— Não estou muito convencido ainda. Acho absurdo que uma

grade de ferro que não se sabe de onde veio tenha uma inscrição capaz

de levar dois homens a fazer uma viagem como essa. E há alguns

pontos obscuros, que desejo ainda discutir com você.

— Está certo. Mas ouça: Quando Champollion descobriu a

célebre pedra “Rosetta” e com ela encontrou a chave para decifração

dos hieróglifos, todos acharam que ele estava maluco. Não quero fazer

analogias, mas é evidente: associo todos os elementos de que dispomos

sobre a pré-história do Brasil e as tradições religiosas do passado, para

chegar a uma conclusão lógica — e você vem me dizer que é loucura o

que estou fazendo...

— Mas, escute...

— Espere! Você não compreende, então, que é necessário fazer

concessões às lendas e à tradição para chegar a alguma Verdade que

tem raízes muito fundas no Passado? Você não sabe que todas as lendas

assentam sobre fatos verídicos? Alteram, modificam ou deturpam a

verdade inicial, mas a essência dos fatos primitivos lá está, intacta no

fundo da versão fantasista. E, se não sabia, fique sabendo agora do

seguinte: a arqueologia brasileira registra enorme quantidade de

inscrições rupestres de caráter mágico. Mesmo os colecionadores

dessas inscrições podem ignorar isso. Mas eu, como muitas outras

pessoas, sei-o perfeitamente. A magia e a história dos povos primitivos

estão tão intimamente ligadas que é impossível estabelecer-se as suas

fronteiras...

— Ora! E você teimando! O Angyone Costa, que é autoridade

em arquelogia, diz que as inscrições rupestres do Brasil não têm

significação alguma. Segundo ele, não passam de divertimento dos

índios, ou marcações dos bandeirantes.

— A opinião dele, da qual eu, e muitos outros comigo,

discordamos. Considere que as inscrições estão gravadas em rochas

duríssimas, que têm resistido à ação dos séculos. Para se gravarem

traços e figuras nestas rochas, foi preciso aos indígenas usar de outras

pedras que o atrito ia gastando. Há inscrições que devem ter levado

muitos meses para se completarem. Você acha, acaso, que isso é

divertimento? A verdade é que elas eram feitas por uma seita especial

de sacerdotes, ou “sábios”, que só faziam isso, com um fim

determinado. Qualquer um percebe que há algo mais sério aí. Além

disso, não se pode aceitar um dilema disparatado como esse: “de índios,

ou de bandeirantes”. E por que não há referência alguma, nas histórias

das bandeiras, a essas inscrições? Por que os bandeirantes que voltavam

não falaram, jamais, dessa prática?

Eu começava a vacilar, mas, como para justificar a minha

atitude da madrugada, teimei:

— Bem. Mas não e só Angyone. O Anibal Matos também acha

que as nossas inscrições não têm significação alguma, a não ser quando

indicam fontes, pouso de caça, grutas e outras coisas de utilidade

imediata nos matos.

— Não é bem assim. Anibal Matos admite que as inscrições

possam ter significado diferente e diz que algumas podem ser apenas

isso que você referiu. Ele aceita as conclusões da pré-história no pé em

que elas se apresentam porque, como Ladislau Neto, não quer se

antecipar às descobertas que só explorações estafantes e bem

orientadas, com estudos minuciosos, podem realizar. Quando a

arqueologia for tomada a sério em nossa terra, e todos os pontos de

prováveis jazidas pré-históricas forem investigados com a atenção que

merecem — então saberemos coisas que agora nos parecem absurdas,

mas que, à medida que forem surgindo, nos parecerão, então,

perfeitamente normais. Além disso, note que as pedras gravadas com

inscrições não se encontram só nas matas. Também se encontram nas

praias, nos campos, nas margens dos rios. E outra coisa: os bandeirantes

teriam a preocupação de indicar pontos de caçadas e de pouso mais

especialmente lá pelos lados da Paraíba, do Rio Grande do Norte e de

Pernambuco, esquecendo-se disso em outros lugares?

— Pois sim. Tudo isso é bonito. Mas a verdade é que muitos

sábios se interessam pela pré-história brasileira e nada do que você diz

ficou provado até agora.

— Muitos sábios? Ora essa! Diga “poucos”. E bem poucos, até!

Peter Lund, por exemplo, interessou-se pela nossa pré-história e

recolheu material de grande valor, imenso mesmo, para um só homem.

Ele estabeleceu, por exemplo, a existência do “Homem Lagosantense” e

levantou o véu de um passado muito mais remoto para o homem

americano, do que ninguém ousaria esperar. Anibal Matos e seus

continuadores descobriram o “Homem de Confins”, também de

veneranda antiguidade. No Baixo Amazonas foi descoberta essa

preciosa cerâmica marajoara, que é indício indiscutível de grandiosa

civilização...

— Civilização que só produziu cerâmica?

— Você não gosta mesmo de usar o cérebro, Jeremias! Tudo

tem que lhe ser explicado minuciosamente! Havia, ao longo do baixo

Amazonas, até a sua imensa foz, uma grande civilização. Enchentes

catastróficas do rio, ou outras coisas tão sérias quanto essa, destruíram

tudo. Os que se salvaram do desastre não tinham, decerto, meios para

reconstruir a civilização desaparecida, mas podiam reproduzir a arte da

cerâmica, cuja matéria-prima não faltava. Considere que quando um

povo começa a se preocupar com a arte, a beleza, o enfeite dos seus

objetos de uso — já avançou muito em civilização material. Concorda

comigo?

— Concordo. Mas, quanto às inscrições, nenhum sábio achou

ainda relação entre elas e as passadas civilizações de que você fala.

— Claro. Não se encontrou a chave ainda. E nem se fez

empenho em encontrá-la. Os sábios da Europa não nos dão ouvidos. Os

especialistas na matéria não nos dão importância. Não querem examinar

os elementos constantemente renovados que se apresentam para provar

que o nosso continente é o mais antigo e que os amerígenas, os homens

de raça vermelha da América, vêm da Era Terciária e são, portanto, os

primeiros habitantes humanos do globo terrestre.

— Isso é pouco positivo. É matéria demasiado discutível. Não

existem provas insofismáveis. O crânio de Neanderthal...

Salvio interrompeu-me bruscamente.

— Qual crânio de Neanderthal, qual nada! Você é que está

impossível! Até ontem, não discutia coisa alguma. Aceitava o que eu lhe

dizia e parecia disposto a ir ao fim do mundo! Agora, de repente, deu

para duvidar até do que está entrando pelos olhos! Pois fique sabendo

que, queira-o ou não o queira a ciência oficial, o “homo americanus” foi

o mais antigo do globo, e que, por isso mesmo, pouco se está

incomodando com as opiniões em contrário do sr. de Quatrefages, ou de

quem quer que seja!

É fácil ver que Salvio ia se exaltando, e se eu opunha resistência

era apenas para continuar coerente com o arroubamento daquela

madrugada. Em verdade, acreditava no deslumbrante passado da

América, e estava de acordo com o meu amigo. Ia ceder, portanto,

quando me lembrei de levantar mais uma dúvida:

— Está bem, Salvio. Concordo. Mas responda a mais uma coisa

só: os petróglifos brasileiros têm realmente um significado oculto?

— Não. Absolutamente, não têm.

— Não!?

— Claro que não. Têm significado “desconhecido” para nós.

Mas quem os fez não teve a intenção de ocultar coisa alguma, muito ao

contrário. Quando descobrirmos a chave, a nossa “pedra de Rosetta” —

tudo ficará claro.

— E por que ainda não se descobriu a chave?

— Bem... É preciso notar que a escrita pré-histórica brasileira

não se assemelha a nenhuma das outras já estudadas. Se tivesse

semelhança, a sua significação não seria mais segredo.

— É claro.

— Isto é extremamente importante, e devia apaixonar todos os

criptógrafos do mundo. Sabe a que conclusões já chegaram os que se

dedicaram ao assunto? Que a escrita pré-histórica brasileira deve ser

considerada a mãe de todas as outras escritas do mundo, porque todas

estas apresentam certos caracteres quase-fixos da nossa...

— Claro. Continue.

— Entre as escritas mais antigas estudadas — os caracteres

sabeanos, cretenses, megalíticos, etruscos, pré-históricos do Egito,

berberes, sumerianos, bem como os antigos alfabetos gregos, fenícios,

hebraicos e ibéricos — encontram-se inúmeros sinais, uns idênticos e

outros semelhantes aos 75 caracteres pré-históricos do Brasil, referidos

e estudados por Alfredo Brandão. Veja, agora, a conclusão lógica a que

isto conduz: “Em todos os alfabetos e caracteres escritos do mundo

antigo, embora não sendo eles iguais entre si, encontram-se muitos

iguais aos caracteres pré-históricos brasileiros”.

— É assombroso! Positivamente assombroso!

— É a pura verdade, verificada. Aliás, o confronto não traz

grandes dificuldades. Qualquer um o pode fazer. É evidente, pois, que a

escrita-mãe, de onde todas as outras derivaram e que gerou todos os

alfabetos do mundo — é aquela que foi usada pelos antigos habitantes

da América do Sul, e cujos vestígios até hoje podem ser encontrados.

Daqui saíam os grupos que, fixando-se em outros pontos da Terra,

levavam consigo esse importante conhecimento que, depois, evoluía e se

modificava segundo as necessidades e contingências peculiares a cada