A Classe por Carlos da Terra - Versão HTML

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A Classe Carlos da Terra A Classe

Os meninos da minha classe pensam que eu sou bobo.

Não há um dia sequer que eu não tente esquivar de ir à escola,

mas minha mãe me leva a força.

Reclamo das brincadeiras desagradáveis dos meus colegas de

classe e ela me diz que isso é assim mesmo; diz que é para eu relevar essas

coisas, por serem próprias da adolescência.

Mas eu já não sou criança; tenho 14 anos e já posso, muito bem,

trabalhar e tomar minhas decisões.

Tem um tal de Alberto, lá, que já me humilhou várias vezes. Ele

se julga o maioral.

O problema é que ninguém leva em consideração as notas

mensais, porque se assim fosse, eu seria um dos principais alunos da sala, mas

ao privilegiarem vagabundos, que apenas obtém notas suficientes para passar de

ano, deixam-me em situação de inferioridade.

O Alberto é um sujeito desagradável, mas eu não deixo que ele

perceba que eu penso isso sobre ele. Pelo contrário; trato-o sempre muito bem, e

em qualquer discussão com os demais colegas eu fico sempre do lado dele,

embora, na quase totalidade das vezes eu o considere errado.

À noite, quando

vou dormir, meus dentes ficam

cerrados e eu, frequentemente,

acordo sobressaltado com os

punhos cerrados e socando o

travesseiro como se o travesseiro

fosse o Alberto.

Não

adianta

reclamar na diretoria porque eles apenas o advertem e tudo volta a ser como

estava, piorando ainda um pouco mais para o meu lado, porque aí vão me chamar de maricas.

Certa vez a escola planejou de levar nossa classe a um passeio

em um grande parque ecológico. Todos iriam de ônibus, embora o parque não

ficasse a mais de 20 km da escola.

Eu avisei que não iria, mesmo porque não estaria disposto a ser,

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A Classe Carlos da Terra mais uma vez, alvo de chacotas do Alberto, na frente das meninas.

E por falar em meninas, certa vez ele me roubou uma quase

namorada. A menina conversava comigo, sempre na hora do recreio, quando ele

se aproximou e começou a me diminuir na frente dela, dizendo que eu nem

gostava de mulheres.

É lógico que gosto muito de mulheres e é também lógico que

fiquei com muita raiva, mas logo a coisa virou uma brincadeira e não passou

disso, apesar da menina não mais me procurar na hora do recreio.

Eu tenho sim, capacidade e idade suficiente para resolver isso

com o Alberto, mas não sei se seria uma coisa direita.

Enfim eu não fui ao passeio no parque ecológico para não ter,

como eu disse, de passar por outras humilhações.

Mas o curioso foi o sonho que tive na noite anterior à do passeio.

Eu sonhei que tudo amanheceu como nos outros dias, embora o

dia estivesse bastante nublado, plúmbeo, com um prenúncio de tempestade.

Mas no que tange à rotina, exceto pela falta de aula, tudo me

parecia muito normal.

E então, no sonho, eu peguei minha bicicleta Caloi, de alumínio,

muito leve e veloz e saí para dar um passeio.

Vislumbrei um local completamente arborizado e com moitas

altas de capim e arbustos e uma queda de cachoeira muito alta, com pedras

pontudas em baixo da queda d'água e também pelos lados.

De repente, quem é que me aparece sozinho e vagueando pelas

moitas?

Nada mais, nada menos do que meu “amigo” Alberto, sozinho e

com um balde na mão.

Ele ficou muito surpreso com minha presença e eu expliquei que

foi um acaso, que eu não sabia que era ali o parque ecológico e que eu apenas

saí para dar uma volta e, me perdendo fui parar lá.

Ele acreditou na hora porque sempre me julgou um idiota.

Então, como eu sabia da arrogância do Alberto, que, antes de

querer estudar para se formar um engenheiro, ou um médico ou um professor ou

seja lá o que for, como eu mesmo estava estudando para isso, ele mais queria era

aparecer para as meninas como se fora um gladiador ou um valentão.

Foi quando eu lhe disse o seguinte...

– Alberto... eu obedeço minha mãe e jamais subo essa

ribanceira.

– Porquê, tem medo de cair? Disse ele com sarcasmo

Eu fiz aquela cara de bobo e completei com uma frase que até

ele mesmo se surpreendeu.

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A Classe Carlos da Terra

– Não! É o vento! Minha mãe acha que é perigoso e podem

ocorrer problemas para pessoas com a saúde debilitada, por exemplo, que tenham tido pneumonia. Me parece que esse é , exatamente, o seu caso, não é?

Você já faltou na escola muitas vezes por causa da pneumonia, não foi?

– Você é mesmo um tolo – me disse ele rindo sarcasticamente –

eu não sou fracote e não é qualquer doencinha que me faz recuar.

– Bem, Alberto, eu vou até lá, mas acho melhor você não ir.

Não lhe desejo nenhum mal.

– É claro que vou! Nem você e nem ninguém pode me impedir.

– Se é assim, vamos mas, não desgrude de mim e siga minhas

instruções porque eu já conheço bem esse lugar e ele é perigoso.

Novamente ele deu o seu riso sarcástico, como quem diz assim:

“quem é você para me proteger ou para me instruir?”

Subimos então, em direção ao cume, no alto da enorme

cachoeira que tinha – calculando-se a grosso modo – no mínimo sessenta metros

de altura, com toda a volta de pedras e caminhos acidentados e enlameados pela

umidade da mata e pela recente garoa.

Eu estava de botas, com solado apropriado mas o Alberto não!

Ele estava com sapatos de sola lisa, muito impróprios para a escalada.

E eu bem que o avisei sobre isso, mas ele me mandou calar a

boca e disse que ele mesmo sabia cuidar de si.

Durante a subida pela encosta, por várias vezes eu lhe dizia...

– Alberto... você é corajoso, mas será que sua constituição

física aguenta essa subida e essa ventania? Acho que devemos voltar.

– Ele ria e respondia irritado:

– É claro que aguento. Deixe de besteiras e vamos prosseguir.

Em uma pinguela, que eu já conhecia muito bem, Alberto

escorregou mas bem depressa eu o segurei pela mão e o coloquei novamente no

caminho seguro.

Ele sequer agradeceu e disse que iria segurar no toco mais

abaixo. Que não precisava eu tê-lo segurado, foi quando eu lhe disse que eu

tinha a obrigação de protegê-lo porque ele estaria ali por minha causa.

Isso o deixou irritadíssimo e foi quando ele me mandou calar a

boca e prosseguirmos. Eu abaixei a cabeça e continuamos a trajetória ao topo do

morro.

Chegamos a uma parte íngreme e muito acidentada do morro, já

quase no topo, quando intencionalmente eu deixei cair o meu relógio de pulso.

Comecei a lamentar e dizer que era uma pena que não

estivessem ali outros colegas de classe, porque, certamente alguém com mais

saúde, poderia ter a coragem de descer e pegar o relógio.

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A Classe Carlos da Terra Continuei dizendo que eu achava que ele teria coragem, mas não

iria lhe pedir isso em consideração à sua saúde, por causa da pneumonia.

Alberto ficou irritadíssimo e falou em tom autoritário.

– Tire sua cinta e cala um pouco essa boca, Givanildo! Você me

segura que eu vou descer e pegar o relógio.

Fiz de conta que estava contrariado, mas tirei a cinta e,

novamente, recomendei muito cuidado.

Ele ficou mais irritado ainda e tirou a cinta de minha mão.

– Cale a boca, já lhe disse; e segure firme nesta ponta.

E começou a descer em direção ao relógio que estava caído na

beirada da íngreme montanha, onde não havia um lugar sequer para se segurar

ou apoiar os pés, mas eu conhecia muito bem esse lugar porque já estivera ali

muitas outras vezes.

Quando o Alberto começou a descer para pegar o relógio, eu

comecei a lhe dizer que gostava muito dele e que ele jamais pensasse que eu

guardei qualquer mágoa por ele ter me humilhado na frente daquela menina que

sempre me procurava na hora do recreio.

Ele riu e disse que nem lembrava mais disso. Eu ri também.

Segurando em uma ponta ele soltou rapidamente uma das mãos

e me passou o relógio.

Quando ele se aprontava para subir, me pediu para puxar a cinta.

Então eu lhe mostrei que havia trazido uma cinta igualzinha

aquela.

Eu tinha duas, para o caso de perder uma.

Ele estranhou a minha conversa e disse:

– Vamos... me puxa logo que estou ficando muito cansado.

Eu disse assim:

– Cansado, você? Mas não é o fortão que não tem medo de

nada?

– Deixe de história e me puxe logo.

– Sabe de uma coisa Alberto... eu não gosto dessa cinta. Não a

quero mais.

Soltei a cinta e voltei para minha bicicleta.

No dia seguinte, acordei e fui para a escola normalmente,

achando estranho ter sonhado tanto.

É engraçado... os dias foram passando e, passada uma semana

inteira, o Alberto não havia aparecido na escola.

A gozação diminuiu bem... a menina voltou a falar comigo no

recreio, mas eu não sei o que aconteceu com o Alberto.

Talvez ele ainda apareça. Ele não é um mau sujeito!

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