A Coroa de Orquídeas e outros contos de a vida como ela é... por Nelson Rodrigues - Versão HTML

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1993

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CONTRA CAPA

Elas começam como comédias — e terminam como tragédias. Essa

é a linha das cinquenta histórias de A coroa de orquídeas, a segunda

antologia da série A vida como ela é..., de Nelson Rodrigues, e tão

sensacional quanto a primeira. Durante dez anos, de 1952 a 1962, Nelson

escreveu diariamente uma história de A vida como ela é... para o jornal

Última Hora, do Rio. Republicadas nas diversas edições regionais do

jornal, descobriu-se que esse autor tão carioca, embora pernambucano de

origem, era o mais universal dos escritores brasileiros. As histórias de A

coroa de orquídeas só inciden-talmente se passam num Rio dos anos 50, no

tempo em que ali ficava o Distrito Federal, em que os carros eram Buicks,

Cadillacs e os primeiros Fuscas — e em que os encontros amorosos

sempre terminavam em paixão e sangue. Na verdade, elas se passam

naqueles dois únicos territórios que não conhecem lugar ou época: os

corpos e almas de seus protagonistas.

Seleção de Ruy Castro

ORELHAS DO LIVRO

Para todos os efeitos, Nelson Rodrigues é considerado o nosso

maior autor teatral. Entenda-se, por autor teatral, aquele que produz

textos para o teatro, ou seja, o palco propriamente dito. Há também o

Nelson Rodrigues cronista, memorialista e romancista de um só romance,

desde que se despreze as obras publicadas sob pseudônimo. Neste

universo de produção literária, onde se enquadra a série de A vida como

ela é... — da qual A coroa de orquídeas faz parte —, responsável por sua

popularidade mais devastadora?

Como textos publicados em jornal, poderiam ser contos ou

crônicas. Vou além: é o teatro de Nelson Rodrigues que aqui

encontramos, abstraída a materialidade do palco. O teatro de Nelson

invade aqui o texto do jornal: o cenário dessas pequenas cenas é sempre o

mesmo: a casa com portão, a rua, a vizinha. Os personagens moram na

Zona Norte e pecam na Zona Sul. Trabalham em edifícios, no centro. Este

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cenário não muda. Como nos filmes primitivos de Chaplin, é sempre o

mesmo. Além do cenário, há o diálogo, que é o mesmo que Nelson

sempre empregou em seus textos explicitamente teatrais. E — vantagem

das vantagens — na série de A vida como ela é... temos acesso às rubricas

que, nos textos para o teatro formal, são confiscadas pelos produtores,

diretores e atores. Essas marcações, que o espectador perde no teatro e só

chega a elas através da manipulação alheia, nesse teatro impresso cada

detalhe nos chega com toda a sua frescura, sua luminosidade brutal e

instantânea. O leitor é admitido ao fundo mais profundo do texto

rodrigueano, sem necessidade de passar pela leitura de outros que dará

ou não dará a cada cena o impacto visual-literário pretendido pelo autor.

Essas marcações são os punti luminosi de uma obra vasta e cada vez mais

penetrante no subsolo de nossa cultura, de nosso modo de caminhar pela

vida como ela é.

Carlos Heitor Cony

Nelson Rodrigues nasceu no Recife, PE, em

1912, e morreu no Rio, em 1980. Dele, a

Companhia das Letras já publicou: O

casamento (romance), A vida como ela é... — O

homem fiel e outros contos, O óbvio ululante:

primeiras confissões (crônicas), A sombra das

chuteiras imortais (crônicas de futebol) e este A

coroa de orquídeas — e outros contos de A vida

como ela é... Próximo lançamento: A menina

sem estrela (memórias). A editora lançou

também O anjo pornográfico: a vida de Nelson

Rodrigues, por Ruy Castro.

ÍNDICE

A COROA DE ORQUÍDEAS, 9

UM CASO PERDIDO, 15

QUEM MORRE DESCANSA, 21

ESCORPIÃO DE BANHEIRO, 27

A INOCENTE, 32

DESASTRE DE TREM, 38

O PASTELZINHO, 44

DIVINA COMÉDIA, 49

MULHERES, 54

HUMILHAÇÃO DE HOMEM, 60

TOQUINHOS DE BRAÇOS, 65

BANHO DE CLEÓPATRA, 71

O INFERNO, 75

ASSASSINO, 81

O RAFFLES, 86

UM CADILLAC POR UM BEIJO, 91

GRANDE PEQUENA, 96

O GRANDE VIÚVO, 101

FOME DE BEIJOS, 106

A MULHER DAS BOFETADAS, 111

O SACRILÉGIO, 115

AMIGO DE INFÂNCIA, 121

JUSTO PELO PECADOR, 126

ESPOSA BEM TRATADA, 131

PAI POR UM CHEQUE, 135

DIABÓLICA, 140

VINTE E CINCO ANOS DE CASADOS, 145

A ETERNA DESCONHECIDA, 150

NAMORADA CAOLHA, 155

PACTO DE PECADO E DE MORTE, 159

O DESGRAÇADO, 163

RAINHA DE SABÁ, 167

O PRIMEIRO PECADO, 173

CANSADA DE SER FRIA, 178

O DILEMA, 182

ÚNICO BEIJO, 187

O PROFESSOR BONITO, 192

DOENTE DO PULMÃO, 197

A FRALDINHA AMEAÇADORA, 202

A GRINALDA, 208

VIÚVA ALEGRE, 213

CHICO-BÓIA, 218

MARGARIDA, 223

VENENO, 228

MORRER COMO UM CÃO, 234

O PIRRALHO, 240

TRAÍDO POR SER BOM, 246

UM MISERÁVEL, 251

A MORTA, 257

POUCO AMOR NÃO É AMOR, 262

A COROA DE ORQUÍDEAS

Quando a mulher entrou em agonia, ele caiu em crise. Atirou-se em

cima da cama, aos soluços. Foi agarrado, arrastado. Debatia-se nos braços

dos parentes e vizinhos; esperneava. E houve um momento em que, no

seu desvario de quase viúvo, cravou os dentes numa das mãos próximas.

A vítima uivou:

— Ui!

Então, na sala, cercado e contido, chorou alto, chorou forte. Seu

gemido grosso atravessava o espaço e era ouvido no fim da rua.

Enquanto isso, o amigo mordido, na cozinha, exibia a mão: “Tirou um

naco de carne!”. Alguém perguntou baixo, com admiração: “Mas os

dentes dele não são postiços?”. Eram. E, em torno, houve um espanto

profundo. Ninguém compreendia que um indivíduo que usava na boca

uma chapa dupla pudesse morder com tanta ferocidade e resultado. E,

súbito, veio espavorido lá de dentro um irmão da moribunda. Pousou a

mão no ombro do Juventino. Pigarreia e soluça:

— Morreu.

Várias pessoas espichavam o pescoço para ver as reações. Primeiro,

Juventino levantou-se, esbugalhando os olhos. Depois que assimilou o

fato, desprendeu-se de vários braços, num repelão. Dava socos no próprio

peito e estrebuchava:

— Me dêem um revólver! Quero meter uma bala na cabeça!

DOR AUTÊNTICA

Essa dor agressiva e autêntica arrepiava. E havia, disseminado no

ar, o medo de que o infeliz ferrasse os dentes em alguma mão ainda

intacta. Durou o paroxismo de dez a quinze minutos. Por fim, a própria

exaustão física serviu de sedativo. Gemia baixo. Mas, quando o sogro o

convocou para ver a esposa, recuou como diante de uma blasfêmia. Num

tremor de maleita, rilhando os dentes, soluçou:

— Não vou! Não quero!

Era a sua antiga e irredutível pusilanimidade diante da morte.

Desde criança tinha medo de qualquer defunto, fosse conhecido ou

desconhecido, parente próximo ou remoto. A idéia de ver a mulher morta

o arrepiava. Defendia-se: “Não!”. E corrigiu: “Agora, não!”. Com o

coração disparado, não pôde evitar a seguinte e quase irreverente

reflexão: “Por que não pintam os cadáveres?”. Perguntaram:

— O enterro vai sair daqui?

Virou-se:

— Claro!

Um dos vizinhos, o mesmo que fora mordido na mão, vacila e

sugere:

— Não será mais negócio capelinha?

— Por quê?

E o outro, alvar:

— É mais prático. Mais cômodo.

Então, o viúvo exaltou-se. Enfiou o dedo na cara do vizinho:

— Considero um desaforo essa mania de capelinha! É uma falta de

respeito! Ora veja!

SAUDADE

Um vizinho e um cunhado partiram, de táxi, para tratar do

atestado de óbito e do enterro. Então, andando de um lado para o outro,

numa excitação de possesso, Juventino surpreendeu e confundiu os

presentes com uma série de confidências, legítimas umas, extravagantes

outras. Na sua euforia retrospectiva, deblaterava:

— Nunca houve marido tão feliz como eu! Duvido!

Elogiou a mulher de alto a baixo, chamou-a de “anjo dos anjos”,

“flor das flores”. E, súbito, diante dos vizinhos atônitos e maravilhados,

baixa a voz:

— Era tão séria que namorou um ano comigo, noivou dois e só

topou beijo na boca depois do casamento! Quer dizer, mulher batata!

Havia um aspecto de sua vida conjugai que ainda o envaidecia: o

recato da mulher. Sempre conservaria, perante o marido, um mínimo de

cerimônia. Cutucou o vizinho e segredou: “Teve pudor de mim até o

último momento!”. Pausa, arqueja e conclui:

— Nunca tomou injeção que não fosse no braço!

Parecia evidente que esse pudor frenético o deleitava, ainda agora.

Numa brusca cólera, desafiou os circunstantes:

— Isso é que era mulher no duro, cem por cento! O resto é conversa

fiada!

CÂMARA-ARDENTE

As providências de ordem prática estavam sendo tomadas. Uma

hora depois ou pouco mais, apareceram os funcionários da empresa

funerária. Armara-se a câmara-ardente na sala de visitas. Em dado

momento, o viúvo teve de levantar-se para atender o telefone. Era o

cunhado. Estava na casa de flores e desejava fazer uma consulta até certo

ponto delicada. Perguntou:

— Tua coroa pode ser de orquídeas?

Admirou-se no telefone:

— Pode. Por que não?

Pigarreia o cunhado:

— Mas é puxado!

— Quanto?

O outro disse uma quantia. Juventino esbravejou:

— Ladrões!

Vacila. Lembra-se de que a doença da mulher já lhe custara uma

fortuna; contraíra dívidas, tinha na farmácia uma conta estratosférica.

Acabou optando por outra solução:

— Vamos fazer o seguinte; orquídea é uma flor besta, sofisticada.

Arranja uma coroa mais em conta.

Do outro lado da linha, veio a pergunta: “Qual é a dedicatória?”.

Hesita novamente. Decide-se:

— Põe assim: “À Ismênia, saudade eterna do teu Juventino”.

ÀS COROAS

Do telefone, veio para a sala. Até então, fiel à própria covardia, não

fora espiar o rosto da mulher no caixão. E o pior é que seu medo estava

mesclado de curiosidade. Costumava dizer, numa frase rebuscadíssima,

que o verdadeiro rosto da mulher aparece só no amor ou na morte. Mas o

diabo era o seu preconceito contra a morte. Acendendo um cigarro,

pensava: “Os defuntos são muito feios!”. Por outro lado, ocorria-lhe que,

com ou sem pusilanimidade, teria de beijar a esposa antes de sair o

enterro. Na sua meditação de viúvo, cogitou de uma solução que lhe

parecia praticável, qual seja: a de beijar sem ver, isto é, beijar fechando os

olhos.

Mais uns quarenta minutos e começam a chegar as coroas. Uma das

primeiras foi a sua. Correu, sôfrego; leu a legenda fúnebre, em letras

douradas. As orquídeas tinham sido substituídas pelas dálias. E

Juventino, recuando dois passos, considerava o efeito. Não pôde furtar-se

a um sentimento de satisfação. Disse de si para si: “Bacana!”. À medida

que iam chegando mais flores, ele se convencia de que a sua coroa não

fazia feio no meio das outras. Pelo contrário. Se não fosse a melhor, podia

figurar entre as melhores.

SURPRESA

Às onze horas, a casa estava apinhada. Tinha vindo gente até de

Vigário Geral. O inconsolável viúvo era abraçado por uma série de

parentes, inclusive alguns que ele julgava mortos e enterrados. Às onze e

meia, Juventino passa por uma nova crise. E uma coisa o atribulava de

maneira particular e dolorosíssima: a doença da mulher. Aos soluços,

interpelava os presentes:

— Como é possível morrer de pneumonia? Se fosse câncer, vá lá.

Mas pneumonia! — Virou-se para um vizinho; estrebucha: — Sabe que eu

estou desconfiado que penicilina é um conto-do-vigário?

Neste momento, todos os olhos se voltaram para a direção da

porta. Acabava de entrar uma coroa. Era, porém, uma coisa realmente

insólita e gigantesca. Dir-se-ia uma coroa de chefe de Estado, de rainha

ou, no mínimo, de ministro. Toda feita de orquídeas, ofuscou

automaticamente as demais. Atônito, Juventino balbuciou: “Parei!”.

Trôpego, a boca torcida e já distraído da própria dor, veio rompendo os

grupos, no seu espanto e na sua curiosidade. E, com a mão trêmula,

desenrolou a fita. Soletrou, a meia voz, para si mesmo: “À inesquecível

Ismênia, com todo o amor, de Otávio”.

Antes de mais nada, aquele “inesquecível” foi nele uma espécie de

punhalada material. Ocorria-lhe uma reminiscência cinematográfica:

Rebecca, a mulher inesquecível. Virou-se para os presentes, que pareciam

também impressionadíssimos. Perguntava de um para outro:

— Otávio? Quem é Otávio? Vocês conhecem algum Otávio?

Não, ninguém conhecia. Mas ele corria, um por um, todos os

parentes: “Mas como é possível? Que negócio é esse?”.

DRAMA

A obsessão passou a dominá-lo: voltou para perto da coroa e leu,

releu a legenda. Apertava a cabeça entre as mãos: “Todo amor por quê?”.

Concentrou-se. Procurava descobrir, no fundo da memória, alguém que

tivesse este nome, E uma coisa o enfurecia: aquela coroa espetacular, tão

mais bonita e até mais cara que as outras. Fazia seus cálculos, em voz alta:

— O cara que mandou isto gastou os tubos. E por quê, meu Deus,

por quê?

Houve um momento em que o próprio Juventino se julgou também

um milionário, mas da loucura. Meteu-se num canto; já não falava mais

com ninguém, feroz e incomunicável. Quase ao amanhecer, alguém veio

oferecer um cafezinho. Saltou: “Vai-te para o diabo que te carregue!”.

Passam-se os minutos, as horas. Todos os que chegam pasmam

para a fabulosa coroa. Finalmente, na hora de fechar o caixão, a própria

sogra, soluçando, vem chamar o genro: “Você não vai beijar fulana?”.

Ergueu-se. Antes, foi ao escritório apanhar não sei o quê. Atravessou por

entre os parentes e vizinhos. Estava diante do caixão. E, súbito, mete a

mão no bolso e... Só viram quando ergueu um punhal e o afundou na

defunta, aos berros de:

— Cínica! Cínica!

A lâmina penetrou por entre as duas costelas. E a morta parecia rir.

UM CASO PERDIDO

A princípio, a família foi contra:

— Esse sujeito não presta! É um bestalhão! Um conversa-fiada!

Talvez fosse isso e muito mais. Para começar não trabalhava, nem

queria nada com o trabalho. Além disso, bebia, jogava, vivia metido com

desclassificados de ambos os sexos, em pagodes espetaculares. Apontava-

se, mesmo, uma fulana, de péssimos antecedentes, que, segundo se dizia,

o sustentava. Os parentes de Edgardina tentaram dissuadi-la da paixão

inconveniente e escandalosa:

— Homem é o que não falta. Escolhe outro, escolhe um que valha a

pena.

— É de Humberto que eu gosto. Os outros não me interessam.

Amava-o desde menina; e, através dos anos, não achara graça em

mais ninguém. Podiam dizer o diabo do rapaz que ela mesma explicava:

“Entra por um ouvido, sai pelo outro”. A rigor, só ficou impressionada

uma vez, uma única vez. Foi quando lhe disseram que o namorado vivia

às custas da tal fulana. Edgardina saltou: “Mentira! Calúnia!”. Mas,

apesar da reação inicial, muito veemente, a dúvida ficou. Acabou fazendo

ao bem-amado uma pergunta frontal:

— Que negócio é esse que me contaram?

— Que foi?

Ela, sem tirar os olhos dele, disse:

— Que você toma dinheiro de mulher.

A CONFISSÃO

Imprensado pela pequena que, na verdade, era seu primeiro e

grande amor, Humberto teve, diante de si, dois caminhos: ou negar

ferozmente ou... Ia negar, em pânico. Mas quando abriu a boca, deu uma

coisa nele, uma espécie de heroísmo súbito, quase histérico. De olhos

esbugalhados, os beiços trêmulos, transpassou a pequena com a

revelação:

— É verdade, sim. Tomo dinheiro de mulher. Sempre tomei.

A menina cobriu-se de uma palidez mortal, como nos velhos

romances. Mal pôde suspirar:

— Humberto!

Foi uma cena magnífica e atroz. Ele, que pegara embalagem, foi até

o fim, contou tudo, sem omitir nada. Disse que, sem emprego, sem

níquel, aceitava dinheiro de uma, de outra. Batia nos peitos, atirava

patadas no assoalho. Por fim, flagelou-se, cruelmente, aos olhos da

pequena; chamou-se de “canalha”, “patife”, “caso perdido”. E terminou,

num desafio frenético:

— Você sabe tudo. E agora pode me cuspir na cara. Cospe! Anda,

cospe!

Ofereceu o rosto. E como Edgardina, petrificada, não dissesse uma

palavra, não esboçasse um gesto, ele caiu em uma crise medonha de

choro. Então, a menina, que era um anjo autêntico, teve uma dessas

comoções que não se esquecem, uma dessas piedades incoercíveis. E, se já

o amava antes, agora muito mais. Aos seus olhos, a confissão do bem-

amado o purificara de tudo e de todos. Disse mais:

— Não interessa o que você fez, meu filho. Eu gosto de você,

pronto, acabou-se.

E ele:

— Você é um anjo. Se não fosse você, eu metia uma bala na cabeça,

já, imediatamente!

Então, mais calmos, os dois combinaram tudo: data do casamento

etc. etc. No fim, Edgardina impôs apenas uma condição:

— Você vai me prometer uma coisa.

— O quê?

— Que nunca mais aceita dinheiro de mulher. É tão feio!

— Te juro! Te dou minha palavra de honra!

O CASAMENTO

E, de fato, a partir da confissão, Humberto foi outro homem.

Deixou de beber, de jogar e quando entrava num café e vinha o garçom,

ele, erguendo o rosto numa espécie de desafio às potências do álcool,

dizia:

— Água mineral!

E fez mais: devolveu à tal fulana que o sustentara um relógio, um

anel com suas iniciais, um cinto com fivela de prata, um porta-chaves

caríssimo. Rompeu, em termos definitivos, com todas as suas antigas

ligações. Os amigos tentavam seduzi-lo:

— Deixa de ser besta!

Mas ele, embora com água na boca, tinha um repelão furioso: “Esse

negócio, para mim, acabou. Estou noivo, vou me casar, stop”. Foi uma

mudança tão patética que o próprio futuro sogro, que era um espírito de

porco, se deixou impressionar: “Parece que meu genro tomou vergonha”.

E o resto da família em coro:

— Tomara! Tomara!

Dois dias antes do casamento, Humberto ia chegando em casa

quando deu de cara com a fulana que o sustentara. A alma caiu-lhe aos

pés. Em pânico, olhou para todos os lados: “Imagine, se vissem”.

Arrastou-a para um canto discreto; e, lá, discutiram, em voz baixa. A

mulher fez uma súplica desesperada, que o horrorizou. Insistiu, cravando

as unhas nas mãos do rapaz:

— Só essa vez! Só essa vez!

— Você está maluca? Não pode ser! Vou me casar amanhã!

A outra agarrava-se a ele:

— É a despedida, Humberto! — E teimava no argumento: — “Pela

última vez!”.

Na verdade, o que a tentava, naquele momento, era o noivo alheio,

o noivo da outra, na antevéspera do casamento. E ele, que era um fraco

diante da mulher em geral, mesmo das feias, mesmo das sem graça,

quase sucumbiu àquele assalto noturno. Lembrou-se, porém, de

Edgardina e, fazendo das tripas coração, desprendeu-se histericamente,

arremessou-se para dentro de casa.

Ofegante, descabelado, fechou as portas atrás de si, arriou as

trancas. Já então a fulana, do lado de fora, uivava:

— Te dei muito dinheiro, cachorro! Olha, não me troco pela

lambisgóia da tua noiva!

Caras espavoridas apareciam em várias janelas. No dia seguinte,

Humberto contou tudinho à noiva. Descobrira que era negócio dizer a

verdade e, mesmo, exagerar a verdade. A noiva, maravilhada com esta

sinceridade, deu-lhe um beijo na testa.

O DESTINO

O rapaz não tinha emprego. Mas o sogro foi de uma

magnanimidade impressionante. Chamou-o:

— O negócio é o seguinte: para mim, tanto faz que meu genro

trabalhe ou deixe de trabalhar. Contanto que trate bem a minha filha.

Dito e feito. Casaram-se e nunca faltou nada naquela casa. Todos os

dias, de manhã, Edgardina, da maneira mais delicada e sutil possível,

enfiava no bolso da calça do marido uma cédula, ora de vinte, ora de

cinqüenta, ora de cem mil-réis.

Justiça se faça a Humberto: aceitava a situação com esplêndida

naturalidade. Lá fora, nas esquinas, nos cafés e nas residências, dizia-se o

diabo do rapaz. Era chamado de “palhaço”, de “sem-vergonha”, de

“sujo”. Edgardina soube; solidarizou-se com o marido:

— Não liga, meu filho. O que eles têm é inveja.

Feliz, realizada, contava para os amigos: — “Bebeto é da seguinte

teoria: — entre homem e mulher, não há perversão. Vale tudo!”.

A pequena estava, então, no quinto mês de gravidez. Não deixava

o marido fazer nada: ela pagava as contas, dirigia a casa. Dir-se-ia o

homem ali dentro. Humberto não queria saber de nada, não assumia

responsabilidade alguma, no horror de qualquer iniciativa. Dizia sempre:

— Isso é com minha mulher. Não tenho nada com isso.

Queria sossego. E quando o sogro, com a autoridade de quem corre

com as despesas, exigiu um neto, Humberto relutou. Teve medo do parto,

do filho; confidenciou com a mulher: “As crianças são muito levadas. Dão

um trabalho danado”. Mas o sogro fez pé firme; queria um neto de

qualquer maneira. Incapaz de resistências prolongadas, Humberto

aquiesceu, afinal. E quando o velho soube que Edgardina ia ter neném,

meteu a mão no bolso, tirou uma cédula de quinhentos e mandou a filha

dar ao genro.

O fato é que a perspectiva do filho tirou o sossego do rapaz. Vivia

atribulado com as possíveis doenças que o guri pudesse ter. Gemia:

“Imagine se ele apanha uma coqueluche braba”. Enfim, passaram-se os

meses e chegou o grande dia. Apavorado, Humberto viu a mulher pôr a

boca no mundo: “Uai!”. O sogro berrou: “Vai buscar a parteira, que é pra

já!”. Ele arremessou-se pelas escadas abaixo, à procura da profissional

que morava duas quadras adiante. E não voltou, nunca mais.

ANOS DEPOIS

O parto foi feito de qualquer maneira. Uma vizinha improvisou-se

em parteira, enquanto a outra, a autêntica, não aparecia. E a criança

nasceu perfeitíssima. Então começaram a procurar o pai.

Foram à polícia, ao hospital, ao necrotério. Nada. A hipótese de

fuga ou suicídio era absurda. Humberto vivera, em casa, como um paxá.

Um mês depois, já não havia mais dúvida: estava morto. Não se sabia

onde, mas era óbvio. E então, a viúva, no seu luto fechado, começou a

fazer questão do cadáver. Exigia, em brados medonhos:

— Quero o corpo! Quero o corpo!

Havia um rio próximo. Supôs-se que o rapaz se tivesse afogado. E,

no mínimo, as águas o levaram para outras e longínquas terras.

Edgardina teve que se conformar; mas ficou, na sua alma, o

ressentimento de viúva espoliada no seu defunto. Imersa numa fúria

petrificada, dizia: “Eu não enterrei meu marido”.

E os anos, sem que ela percebesse, foram passando, um a um.

Edgardina sempre de preto; e feliz, envaidecida, porque a dor não

arrefecia no seu coração. Doze anos depois, consentiu, enfim, em ir, pela

primeira vez, a um circo, que estava de passagem.

Foram os dois: ela, de luto, e o filho, com doze anos, vestido à

marinheira. Assistiam à função quando, de repente, a bateria da charanga

cria a ilusão do perigo, do abismo. É um número mundial de

equilibrismo. Um benemérito surge no arame, de sombrinha aberta.

Edgardina crispa-se na cadeira. Não é possível, não pode ser... Sopra,

afinal, ao ouvido do filho:

— Teu pai... Teu pai...

Rompe, no circo, o grito da criança:

— Papai! Papai!

O equilibrista estaca; olha, apavorado. Larga a sombrinha, larga

tudo, desaba lá de cima. Depois, no hospital, houve cenas delirantes.

Humberto estava de perna engessada e suspensa. Quis saber se o filho já

tivera coqueluche. Quando informaram que sim, gemeu:

— Ótimo... Ótimo...

Fizeram espetacularmente as pazes.

Mas nunca se soube por que desaparecera, naquela noite, doze

anos atrás.

QUEM MORRE DESCANSA

Ela batia à máquina quando Norberto apareceu. Fez a pergunta:

— Pode-se bater um papinho contigo?

— Quando?

— Depois do serviço?

— OK. E onde?

Ele vacilou: “Olha, eu te espero naquele bar da esquina”. Julinha,

com o coração disparado, balbuciou: “Eu estarei lá. Batata”. E não

trabalhou mais direito. Findo o expediente, correu no reservado das

moças, e espiou-se no espelho; retocou a pintura dos lábios e passou pó

no nariz; muito lustroso. Norberto a esperava, num canto do bar, com

uma garrafa na frente. Deu-lhe a cadeira e requisitou o garçom.

Perguntou à pequena:

— Você toma o quê?

Julinha, que não estava passando bem do estômago, pediu: —

“Água tônica”. Enquanto o garçom ia e vinha, Norberto foi direto ao

assunto: — “Você sabe, não sabe, que eu sou casado?”. Suspirou:

— Sei.

E ele:

— Muito bem. Sabe, também, que eu gosto muito de você?

Disse que não tinha certeza, mas desconfiava. Ele insistiu: — “Pois

gosto e muito, mais do que você pensa”. E, súbito, fez-lhe a pergunta que

a surpreendeu e deixou sem fala: — “Quer casar comigo?”.

A ESPOSA

Durante alguns momentos, ela não soube o que dizer, não soube o

que pensar. Balbuciou:

— Quer dizer, queria. Mas como? E sua mulher?

Mas Norberto estava preparado para a pergunta: — “O negócio é o

seguinte, meu anjo: minha mulher está muito mal”. E era verdade. A

mulher de Norberto era muito franzina, um peito cavado, asmática, tinha

uma vida de sacrifício. No inverno, pagava todos os pecados, qualquer

resfriado bobo a deixava sem ar e tinha sufocações tremendas. Vivia em

casa, estiolando-se, cada dia pior. Há coisa de oito meses, fizera uma

radiografia do estômago. Constatara-se a úlcera; e, depois, uma do

pulmão que revelara a tuberculose. Chocada com essas variedades de

doenças, de provações, Julinha deixou escapar a exclamação: — “Que

horror!”. Norberto prosseguiu:

— Queres ver uma coisa? Hoje eu a deixei pondo sangue pela boca.

E não se sabe se a hemorragia é da úlcera do estômago ou do pulmão.

— Coitada!

— O médico já avisou que ela não dura muito. Uns três ou quatro

meses. E talvez morra antes, de um colapso. Uma calamidade. Mas o que

eu queria te dizer era o seguinte: tu gostas de mim e eu de ti; e te dou

minha palavra que, logo que possa, me casarei contigo. Tu esperas?

Julinha ergueu o rosto e disse, com muita doçura:

— Espero.

O OUTRO

A partir de então, sua vida foi uma espera de todos os dias, horas e

minutos. Havia no escritório um outro companheiro interessado em

conquistá-la. Era o Queiroz. Tomara-se de amores pela menina e, muito

obstinado, não a deixava em paz. Não fosse a súbita declaração de

Norberto, que ela preferia, e talvez tivesse admitido um namoro, a título

experimental, com o Queiroz. Mas Norberto, vendo o assédio do outro, se

antecipara. E, no dia seguinte, quando o Queiroz reiterou um antigo

convite para um “cineminha”, a garota pôs as cartas na mesa:

— Tem santíssima paciência, mas não pode ser. Eu gosto de outro.

— Não acredito!

E ela: “Te juro”. Como o rapaz teimasse na incredulidade, fez o

juramento extremo: “Quero ver minha mãe morta, se não é verdade”.

Atônito, ele balbuciou a pergunta: “Mas quem é o cara?”.

— Segredo.

— Ué!

Julinha acabou se irritando: “Além disso, eu não tenho que dar

satisfação de minha vida”. O rapaz saiu dali amargo, depois de rosnar:

“Esse negócio está me cheirando a homem casado”. E o fato é que, desde

então, ele passou a vigiar ferozmente a pequena. Soube que Norberto e

Julinha tinham sido vistos, depois do serviço, no bar da esquina.

Esbravejou:

— Cachorro!

O MARTÍRIO

Sempre que chegava ao emprego, Julinha olhava para a mesa de

Norberto. Quando ele não vinha, perguntava a si mesma: “Será que ele

não veio porque a mulher dele morreu?”. Corria ao contínuo:

— Quedê seu Norberto?

— Foi tomar café.

Ela sabia então que a outra estava viva. Por causa do controle do

Queiroz, os dois procuravam disfarçar tanto quanto possível. Com sua

lógica de mulher, Julinha ponderava: “Afinal de contas, você é um

homem casado e eu sou uma moça de família”. Por outro lado, o sigilo

que era obrigada a manter constituía um elemento de mistério, interesse,

excitação. E assim, dias após dias, Julinha acompanhava à distância o

martírio da outra. Às vezes, Norberto ia à rua telefonar para ela e

dramatizava: “Minha mulher está que é só pele e osso. Não sei como

ainda vive”. A princípio, Julinha tinha escrúpulos de esperar e mesmo

desejar a morte da infeliz. Mas, com o correr dos dias, o hábito de falar no

assunto a sensibilizou. E, um dia, surpreendeu-se a si mesma: “No duro,

no duro, me responde. Ela vai até quando, mais ou menos?”. Norberto fez

os cálculos:

— Uns quinze dias.

Em casa, no quarto, Julinha pôs-se a imaginar:”Quinze dias. Mais

uns seis meses etc. Daqui a um ano posso estar casada”. Mas os quinze

dias se passaram. E nada. No telefone, ela perguntou, com uma irritação

que procurava dissimular: “Como é, fulano? Você disse quinze dias e

quando acaba...”. Do outro lado do fio ele desabafava:

— Pois é. Que espeto! Sabe que eu estou besta com a resistência? O

médico disse hoje que, assim, nunca viu.

Julinha suspirou: “Paciência. Paciência”. Mas já começava a admitir

mesmo que o estado da outra não fosse tão grave assim. E, por fim,

interpelou Norberto: “Quem sabe se você não está me tapeando?”. Ele

jurou que não, deu a palavra de honra. Julinha, deprimida, fez a

revelação:

— Olha que eu já estou fazendo despesas com o enxoval. Comprei

muita coisa. Veja lá!

Ele, seguro de si e do destino, foi categórico: “Ótimo, ótimo. Pode ir

comprando tudo. É bom, sim. E o vestido de noiva eu faço questão de te

dar. Quero um bacana”.

AGONIA

Mais quinze dias e a esposa de Norberto, apesar da úlcera, da

tuberculose e da asma, resistia. Ele, desesperado e sentindo que a

pequena duvidava, propôs-lhe: “Vamos fazer o seguinte: vou arranjar um

pretexto do serviço e te levo lá em casa. Queres?”. Julinha, que já se

julgava vítima de uma mistificação, disse: “Pois quero”. No dia seguinte,

entrava na casa da rival. E seu estômago se contraiu quando viu a outra

no fundo da cama. Era, de fato, um esqueleto. Um esqueleto com um

leve, muito leve, revestimento de pele. Parecia incrível que aquela

criatura ainda estivesse respirando, ainda vivesse. Na primeira oportu-

nidade, Norberto soprou-lhe:

— Não te disse? Batata, meu anjo. É um fenômeno de resistência.

Qualquer dia, morre.

Coincidiu que o médico aparecesse e, falando com Norberto e

Julinha, foi terminante: “É um milagre, sua mulher já devia estar morta”.

Julinha, impressionada, sugeriu: “Deve ser um sacrifício a vida dessa

criatura. Um martírio”. O médico admitiu com a voz cava:

— Natural.

E continuou a espera. Então, pouco a pouco, Julinha se desesperou.

Começava a admitir na sua meditação que a outra não morresse nunca,

que se tornasse definitivamente uma múmia. O Queiroz, teimoso, não

cessava o assédio. E, sem querer, ela já o tratava de outra maneira, quase

com afeto. Ele era positivo: “Eu me caso contigo em dois meses”. Julinha

adotou uma atitude que não deixava de ser um estímulo. Disse: “Deixa o

barco correr”. Dias depois, foi mais longe:

— Te dou a resposta dentro de um mês.

A MORTE

Esperava que, dentro desse prazo, a outra morresse. Pois bem.

Passou-se o mês e nada. Perdeu a paciência: “Não interessa. Estou

bancando a palhaça”. O Queiroz, que contava os dias na folhinha,

esperou-a sôfrego: “Como é? Já decidiste?”. Julinha teve um fundo

suspiro:

— Já.

— E então?

— Sim.

Combinaram ali mesmo, em voz baixa, tudo. Ele, agitado, queria o

máximo de rapidez, e batia sobretudo numa tecla: “Dois meses, no

máximo”. Esfregou a mão, feliz, quando soube que Julinha já preparara

muita coisa do enxoval. Acabou soprando: “Vem cá um instantinho”.

Levou-a ao corredor e deu-lhe um beijo na boca. Voltando ao escritório,

saiu de mesa em mesa, anunciando: “Estamos noivos”. Foi uma farra

entre os colegas. De repente, bate o telefone: Julinha atende e... Teve um

choque, quando reconheceu a voz de Norberto. Falando baixo, com a

boca encostada no telefone, Norberto anunciava:

— Minha mulher entrou em agonia. Agora é batata. Questão de

minutos. Um beijo pra ti. — E desligou.

Por alguns instantes ela não soube o que fazer. Numa alegria

lancinante, tinha os olhos marejados, já esquecida do compromisso com o

Queiroz. E, quando este veio lhe falar, ela não teve o mínimo tato. Disse-

lhe à queima-roupa: — “Olha, nada feito. Você me desculpa” etc. etc.

Ele, branco, ainda insistiu: — “Você não pode fazer isso comigo. Eu

não sou nenhum moleque”. Mas quando se convenceu que a tinha

perdido, não teve dúvidas. Era nortista, afundou-lhe o punhal num dos

seios. Julinha expirou, ali mesmo, antes que a assistência chegasse.

Pouco depois, batia o telefone. Era de novo Norberto, que vinha

avisar que a esposa morrera, afinal. Mas ninguém, ali, teve cabeça para

atender. Norberto acabou desistindo. Voltou para junto da esposa morta,

com a natural compostura de um viúvo. E fez, para os presentes, o

seguinte comentário:

— Quem morre descansa.

ESCORPIÃO DE BANHEIRO

Viviam como cão e gato. E eram brigas diárias e tremendas. Numa

das vezes, foi até interessante: — Belchior deu um murro, de mão

fechada, na testa de Elvira. A pequena virou por cima das cadeiras.

Ergueu-se, ainda vesga da pancada e da queda. Mas Mo teve dúvidas

maiores: — apanhou o aparelho de rádio e o varejou contra Belchior. Este

abaixou-se e o projétil acertou em cheio na cristaleira, com um estrondo

inimaginável. A esta altura dos acontecimentos, os vizinhos em massa

invadem a casa. A própria radiopatrulha encostava na porta. Subjugados,

os cônjuges ainda esperneavam. Belchior dava arrancos frenéticos:

— Te arrebento! Te parto a cara!

E ela, feito uma fúria:

— Palhação! Cretino!

Para os vizinhos, a pancadaria recíproca e cotidiana era motivo de

fascinação e, além disso, de náusea. Há cinco anos levavam essa vida e

ninguém entendia que continuassem juntos. Ponderaram:

— Vocês não combinam. Por que não se separam?

Ambos concordavam:

— É o golpe! É o golpe!

Mas a separação vinha sendo adiada através das semanas, dos

meses e dos anos. Dir-se-ia que, apesar das incompatibilidades, existia

entre os dois um vínculo qualquer, misterioso e fatal. Por fim, tanto os

parentes de Belchior como os de Elvira já rosnavam:

— Isso é falta de vergonha! De brio! No duro que é!

MARINA

Até que, um dia, Belchior conheceu Marina. Com esse nome de

letra de Dorival Caymmi, era um amor de pequena, miúda e linda, doce

de sentimentos e de modos e, de resto, educadíssima. Acostumado com

Elvira, que era violenta, desbocada e neurastênica, adorou a suavidade de

Marina. No segundo ou terceiro encontro, a menina pergunta: — “Você é

casado?”. Ele hesita na resposta. Mas toma coragem e diz:

— Olha, meu anjo. Quero ser leal contigo. Não sou casado, mas

vivo com uma pessoa assim, assim, separada do marido. Compreendeu?

— Compreendi.

E ele:

— Aliás, quero te dizer o seguinte: — essa pessoa é uma jararaca,

uma lacraia, um escorpião de banheiro. Não gosta de mim, nem eu dela.

Antes de te conhecer, eu já estava resolvido a chutá-la. E, agora que te

conheço, mais do que nunca, naturalmente.

Marina deu-se por satisfeita. No dia seguinte, Elvira sai depois do

almoço. Quando volta, ao cair da noite, vê escrita, na parede, a lápis, com

a letra do marido, a seguinte mensagem: “VAI-TE PARA O DIABO QUE TE

CARREGUE. ADEUS!”.

Elvira, que abominava o companheiro, devia achar o fato uma

delícia. Em vez disso, porém, rolou no chão, espumando em ataques.

Quando os vizinhos entraram de roldão, atraídos pela gritaria, ela

apontou a parede: — “Olha o que aquele cachorro escreveu!”. Os

vizinhos lêem e relêem atônitos. Elvira soluça:

— Mas ele há de voltar! — E repetia com uma certeza fanática: —

Há de voltar!

FELICIDADE

Consumada a separação, a felicidade de Belchior foi uma dessas

coisas convulsas e patéticas. Como primeira medida, bateu o telefone

para Marina:

— Estou livre! Livre!

Do outro lado da linha, a pequena chorava:

— Deus te abençoe!

De noite, Belchior, ainda delirante, reuniu os amigos no bar. Bebeu

toda a noite. Fez, aos berros, as confidências mais comprometedoras. Em

dado momento, com o olho injetado e a boca torcida, esbravejava, numa

reminiscência de leitura:

— A consciência não existe! A única consciência que eu reconheço é

o medo da polícia! — Alarga o colarinho, afrouxa o laço da gravata e

uiva: — Foi o medo da polícia que me impediu de matar Elvira!

Voltou para casa carregado e vomitando nos amigos.

O ANJO

Lera na adolescência um romance ordinaríssimo, que se chamava

Anjo de redenção. E agora, vendo Marina e sua meiguice consoladora, fez

sua tentativa literária ao dizer: — “Tu és o meu anjo de redenção!”. Ela

baixou os olhos, arrepiada, e disse:

— Eu faço o que posso!

Apresentou a menina aos pais. E, depois, veio sôfrego saber a

opinião dos velhos. A mãe beija-o na testa:

— Uma simpatia!

E o pai, grave:

— Dessa gostei!

Mais quinze dias e houve o pedido oficial. Na tarde em que ficaram

noivos, Belchior leva a pequena para a varanda; dramatiza: — “Quando

te conheci, estava na seguinte situação: ou matava ou me matava. Tu me

salvaste a vida”.

O IDÍLIO

Pareciam feitos um para o outro. De quinze em quinze minutos,

Belchior descobria uma nova afinidade com a menina. De resto,

coincidiam em tudo, de uma maneira impressionante. Gostavam dos

mesmos filmes, das mesmas músicas, das mesmas paisagens e dos

mesmos doces. Ele, que fora tão infeliz na sua anterior experiência

sentimental, a ponto de quebrar a cabeça da amante com um rádio de

pilha — agora parecia navegar num mar ou, por outra, num lago azul.

Viviam sem rixas, sem bate-bocas, numa calma talvez parecida com o

tédio. Pouco a pouco, porém, sem que Belchior percebesse, uma certa

melancolia se insinuou na sua alma. A noiva acabou estranhando:

— Estou te achando meio assim, triste.

— Eu?

— Você. Anda meio esquisito. Que é que há?

Protestou, rubro:

— Esquisito por quê? Pelo contrário. Nunca me senti tão bem. —

Pigarreia e exagera: — “Eu sou o sujeito mais feliz do mundo. Tenho

você, quer dizer, tenho tudo”.

A OUTRA

E, de fato, Belchior era ou devia ser o sujeito mais feliz do mundo.

Amava e era amado, livrara-se de uma mulher histérica e desequilibrada,

que lhe arruinava a vida, a alma, o fígado. Pois bem. Apesar disso, ou por

isso mesmo, deu para andar deprimido, insatisfeito. Explicava

vagamente: — “Deve ser esgotamento”. Nas proximidades do casamento,

encontrou-se com um velho amigo, o Peçanha. Este o chamou de lado:

— A Elvira anda jurando que você volta! Diz que quer ser mico de

circo se você não voltar!

Pulou, malcriadíssimo:

— Ela é besta! Não quero ver essa cara nem pintada! Isola!

Estaria certa? Estaria errada? Ninguém podia saber. Havia, porém,

quem julgasse ver, no caso Belchior e Elvira, um desses sombrios

mistérios do sexo, sem explicação possível.

NOITE DE NÚPCIAS

Finalmente, há o casamento. Na igreja, quando Marina passou a

caminho do altar, houve um deslumbramento. Na sua graça frágil e

intensa, era uma imagem realmente inesquecível. Após a cerimônia,

voltam os dois para a casa dos pais de Marina, onde passariam a residir.

Às onze horas, despede-se o último convidado; os velhos, depois de

abençoarem o casal, recolhem-se. Marina, transfigurada, sussurra:

“Espera um pouco que eu te chamo, Belchior. Espera”. Nesse instante,

bate o telefone e Belchior, surpreso e inquieto, vai atender. Era Elvira.

Está dizendo:

— Olha! Eu te espero. A chave está debaixo do tapetinho. Vem,

agora!

E desligou. Belchior encostou-se à parede, com a vista turva e as

pernas bambas. Houve, nele, uma brusca e violenta nostalgia da mulher

que era o seu ódio e seu desejo. Naquele justo momento Marina

entreabriu a porta e avisou:

— Pode vir, meu bem!

Ele, porém, não pensava mais na noiva. Dir-se-ia um magnetizado.

Sem rumor, desliza pela escada, rente à parede. Meia hora depois, desce

de um táxi na porta da antiga residência. Insinua a mão debaixo do

capacho, apanha a chave. Entra. Em pé, no meio da escada, com o

quimono rosa em cima da camisola, os pés nas sandálias de arminho,

Elvira o espera. Não há uma palavra entre os dois. Belchior enlaça a

pequena e, com raiva e gana, a beija muitas vezes. Então, Elvira ri,

pendendo a cabeça: — “Meu!”.

E foi esse orgulho que a perdeu. As mãos de Belchior descem e se

fecham sobre o pescoço macio. Aperta até o fim, sem saber que a

estrangulava, sem saber que a estava matando. Depois, abraçado ao

cadáver, diz arquejante:

— Não te enterrarei nunca! Ficarás comigo aqui!

E pousa a cabeça sobre o coração que não bate mais.

A INOCENTE

Sempre enxergara otimamente. Dizia mesmo:

— Graças a Deus, tenho uma vista fantástica!

A namorada fazia insinuação:

— Você, meu filho, enxerga até demais!

Riam os dois. A menina o acusava de ver maldade onde não havia

tal. Num ciúme danado de tudo e de todos, Balduíno fazia toda sorte de

reclamações.

— Pensa que eu não vi, hein?

E ela:

— Mas viu o quê, filho de Deus?

— Você olhando para aquele cara!

— Ah, que blasfêmia! Olha, Balduíno, olha que Deus castiga!

Um dia, ele começou a ter uma série de perturbações visuais. Eram

pequenos pontos na visão que, com o correr dos dias, se multiplicavam.

Assustou-se. E vamos e venhamos: quem não tem medo de ficar cego?

Correu para o oculista. Escolheu um bem caro, na prevenção de que a

tabela alta lhe significasse uma esmagadora eficiência clínica. O homem o

submeteu a um milhão de exames.

No fim de tudo, chegou à conclusão:

— Vamos tirar os dentes!

— Todos?

— Todos.

Assoviou:

— Papagaio!

Em quatro ou três sessões, ficou com a boca vazia; uma boca de

velha. E o pior ainda não foi isso: o pior é que não havia um só foco

dentário, um único granuloma, nada. Ficou furioso: disse horrores e foi

em cima do especialista. Com a mão na frente, escondendo publicamente

os beiços murchos, concluiu:

— Fizeram comigo um papel sujíssimo.

UM HOMEM TRISTE

Não apareceu mais para a namorada. Ela mandava recados,

verdadeiros sos, mas Balduíno foi irredutível. Desenvolveu-se, nele, uma

altivez, uma dignidade, um pudor de desdentado. A mão estava sempre

na frente, servindo de folha de parreira. Aprendeu a difícil arte de não

sorrir, em hipótese nenhuma. Ninguém mais triste, ninguém mais

fúnebre. Ele, subjugado pelo complexo de desdentado, não olhava para as

mulheres. Ia de casa ao trabalho e vice-versa, numa vergonha que já era

doença. Que poderia mesmo transformar-se em loucura. Reclamavam:

— Toma jeito, rapaz! Sossega!

Ele, porém, sem nada dizer, tramava a própria salvação. Recorreu a

um dentista, sempre na base de que “o mais caro é o melhor”. Quando

soube que o dr. fulano cobrava trezentos cruzeiros a hora, esfregou as

mãos de contente. E fez o comentário:

— Esse é dos meus!

Lá compareceu, no sonho de uma dentadura dupla. Fizeram um

orçamento principesco: doze contos! Segundo seus cálculos, uma

dentadura de doze contos seria a mais cara do Rio de Janeiro. Calculava:

“Vou ficar com uma boca de anjo!”. O dentista chamou um protético,

tiraram os moldes, e Balduíno, na cadeira do dentista, pedia uma

dentadura genial, que fosse uma obra de arte, para já. Ponderaram:

— Não pode ser assim, não, que diabo!

— Ué!

— Claro! Primeiro tem que deixar as gengivas murcharem. Depois,

então, é que tiraremos o molde.

A ESTRÉIA

No dia que saiu do gabinete com o aparelho, parecia ter um ovo na

boca. Gemia:

— Como dói esse troço!

Fora, porém, divertido. O dentista explicara que nos primeiros dias

era assim mesmo. De qualquer maneira, e embora com o céu da boca em

petição de miséria, andou pela cidade com outra aparência. Olhava de

cima os demais, como se viajasse num andor. Essa sensação de andor não

o abandonou mais. Seu horário normal de entrar em casa era nove horas.

Apareceu às onze, depois de circular vastamente. Ainda não podia falar

direito, mas usou o sorriso de maneira abundante. Uma moça que, aliás,

ia acompanhada, talvez pelo marido, retribuiu o seu olhar. Ele voltou

para casa com uma certa pena, e fazendo a seguinte reflexão: “Ah, se não

estivesse acompanhada!”. Tece que mostrar à família os dentes novos.

Mandavam:

— Ri!

Ele ostentava, deleitado, a superabundância de dentes. Numa

última dúvida, fez uma enquete com o pessoal:

— Está parecendo postiço, está?

Houve uma unanimidade feroz. Todos afirmavam que não, que

não pareciam absolutamente postiços. E uma coisa o empolgava de

maneira particular: — o preço do serviço, que atingia o total invejável de

duzentos contos.

CONQUISTADOS

Mudou por completo. Dir-se-ia outra pessoa, seja física ou

psicologicamente. Ria de tudo, ria por coisa nenhuma. Às vezes, diante

de uma piada boba ou idiota, fazia um escândalo:

— Essa é a maior! Essa é a maior!

Queria um pretexto para o riso escancarado.

As senhoras, meio assustadas com essa exuberância, diziam assim:

— Você deve gostar de uma boa pândega!

Ele não dizia que sim, nem que não. Antes, fugia das mulheres, não

as olhava. Agora, em função dos dentes novos, não podia ver uma

pequena: ou dava em cima ou dizia que dava em cima. Não importava

muito o namoro, a conquista. O que interessava realmente era a

possibilidade de surgir como um galã irresistível ante os conhecidos.

Soprava para um, para outro:

— Viste aquela?

— Vi.

— Que tal?

E o amigo:

— Um espetáculo!

Ele suspirava:

— Não me dá uma folga. O dia todo. Assim não é possível.

Qualquer mulher que passasse por ele, já sabe. Apregoava logo:

— Que bola ela me deu, viste?

Fazia questão, sobretudo, das sérias, das inatacáveis e, em especial,

das casadas. Contava episódios arrepiantes em meio da admiração geral.

Alguém argumentava:

— Mas não é possível, não pode ser!

— Por quê, ora essa?

E o outro:

— Porque eu conheço aquela senhora, é honestíssima. Doida pelo

marido!

Balduíno recostava-se na cadeira: atirava, no meio dos parvos, a

sua teoria predileta:

— A mulher é séria até o momento em que deixa de ser!

BATOM NO LENÇO

Na rua José Antunes, onde ele morava, veio residir d. Branca,

casadinha de fresco. Era doce, linda e tudo o mais que se possa atribuir a

uma jovem em lua-de-mel. Com cinco dias de casados, ela e o marido

quase não saíam. Uma vez ou outra, quando o esposo não estava em casa,

d. Branca surgia um momento na janela. Numa dessas vezes, coincidiu

que Balduíno passasse. De noite, na esquina, ele deblaterava:

— É o cúmulo!

— O quê?

Parecia realmente enjoado:

— Eu não diria nada se, enfim, tivesse mais tempo de casada... Mas

não fez nem quinze dias e quando acaba...

Contou, para o auditório embevecido, a história abominável:

— Só vocês vendo a bola, meninos, que ela me deu! Uma Pouca-

vergonha! Por isto é que não me caso; porque não sou besta!

Durante seis meses não fez outra coisa. Deixou mesmo de se

interessar pelas outras mulheres. Era como se só existisse a pobre da d.

Branca na face da Terra. Cada noite trazia uma novidade e concluía

sempre com um comentário:

— Não se pode fiar em mulher nenhuma! É tudo a mesma coisa!

Seu maior êxito, porém, foi quando exibiu, para a roda de amigos

desocupados, o lenço sujo de batom. Lambia os beiços, o miserável;

chamava os amigos para ver e sondava:

— Vê se o batom já saiu, vê!

Os outros, em brasas, queriam saber:

— Mas que foi? Que foi?

Ele, teatral, revelou, baixando a voz e olhando para os lados, que

dera um beijo tremendo na infeliz senhora. Queriam detalhes,

perguntavam que tal etc. E ele, já num princípio de tédio, de fastio

daqueles lábios de mulher:

— Mais ou menos.

O CÂNCER

Por pura coincidência ou castigo sobrenatural? Eis o que ninguém

saberá jamais. O certo é que a notícia correu: “Balduíno está com câncer

na língua!”. Foi a tudo quanto era médico, mas não evitou a operação.

Um dia, o marido de d. Branca invadiu o quarto do moribundo. Recebera

uma carta anônima e, dentro do envelope de ofício, um lenço sujo de

batom. Fora de si, queria saber se era verdade ou se... Balduíno estava de

novo sem os dentes, a boca de velho. O marido perguntava: “É verdade?

Diga! É verdade?”.

Sem língua, não podia falar. Pediu um lápis; já no limite entre a

vida e a morte, escreveu:

— É verdade.

Estava morrendo sem dentes e sem língua. O marido partiu. A

esposa estranhou que ele chegasse cedo e ia fazer uma observação amiga

qualquer. O pobre-diabo, então:

— Teu amante confessou.

D. Branca quis gritar, fugir, mas nem uma coisa, nem outra. Imóvel

e muda, recebeu quatro tiros. Seu medo se extinguiu na morte.

DESASTRE DE TREM

Quando se conheceram ele foi franco:

— Eu sou muito bom, mas tenho um defeito.

— Qual?

Ele pareceu vacilar antes de responder:

— Sou ciumento.

E o era, de fato. Um ciumento sóbrio, que não dava a perceber, mas

que se mordia por dentro. Por isso mesmo, por causa desse

temperamento, é que não se casara nunca. Explicava aos amigos: — “Eu

me conheço. Sei o gênio que tenho”. Completara quarenta e cinco anos

em solidão. Dir-se-ia um solteirão solícito e irremediável. Mas, um dia, foi

a uma festa e lá conheceu Valquíria, jovem viúva de vinte e dois anos. As

amigas da pequena cochichavam, entre si: “Vinte e dois, fora os que

mamou”. Mas o fato é que aparentava essa idade ou pouco mais. E,

conversa vai, conversa vem, houve um grande interesse, profundo e

recíproco. Valquíria era baiana e morena, muito viva, muito alegre. Dias

depois, Antoniel dizia: “Se não fosse a diferença de idade...”. O fato é que

estava apaixonado e, pela primeira vez na vida, Valquíria parecia animá-