A Criação do Douro por Ricardo Manuel Ferreira de Almeida - Versão HTML

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A Criação do Douro

A Criação do Douro

Ricardo Ferreira de Almeida

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A Criação do Douro

PERSONAGENS

Frei Mansilha, frade dominicano de Lobrigos

Luís Beleza de Andrade, proprietário de Valdigem

Bartolomeu Pancorbo, comerciante do Porto

Acácio Serra, comerciante brasileiro de vinhos

Joseph Dumont, comerciante do Porto

Padre Malagrida, Jesuíta

Sebastião José de Carvalho e Melo, Marques de Pombal Dom José I, Rei de Portugal

Vendeiro

Camareiro

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A Criação do Douro

PARTE I (1 de Março de 1756. Todos na sala de Beleza de Andrade. Esperam a sua presença, após terem entrado segundo ordem marcada pelo encenador. Preocupação e algum incómodo)

BELEZA DE ANDRADE

(entrando) Meus amigos, ainda bem que puderam vir. Tenho um assunto muito importante a debater convosco.

MANSILHA

É assim tão grave para nos ter chamado logo aos quatro e assim, tão apressadamente? Estava a preparar a lição de amanhã e vim apavorado, contando encontrar um grave mal.

BELEZA DE ANDRADE

Pois parece que acertou ou pressentiu o problema… É um tema de enorme gravidade… (puxa uma cadeira) E relaciona-se com todos nós, uns mais do que outros…

PANCORBO

Diga-nos então do que se trata.

BELEZA DE ANDRADE

(hesitando) Vocês estão atentos ao que se passa à vossa volta?

PANCORBO

Eu procuro informar-me minimamente sobre os assuntos que dizem respeito ao reino, além dos assuntos meramente pessoais. Já não tenho a vossa idade e este corpo começa a ceder…

(pausa) Não me diga que nos chamou para uma conspiração?!

BELEZA DE ANDRADE

Bem mais sério do que isso… É um assunto bem mais importante que esse.

ACÁCIO

Mulheres?

BELEZA DE ANDRADE

Não… a economia local… O Douro vive uma situação exasperante… Não há uma quinta ou aldeia que não sinta na pele esta crise que se abateu sobre todos nós. A maior parte dos homens e mulheres que andam à jeira chegam ao fim do dia e pouco têm para comer. Os mais afortunados, a quem ainda não lhes vai faltando pão e hortaliça, fazem apenas uma refeição diária, procurando guardar algum pedaço para os filhos, escanzelados como os cães.

DUMONT

Mas o que é que podemos fazer para inverter o rumo das coisas, e assim, de um momento para o outro? Como sabe, o meu negócio é a comercialização de vinhos e esses assuntos de governo dos súbditos são competência exclusiva da coroa…ou, pelo menos, deviam ser…

BELEZA DE ANDRADE

Os quatro pouco podemos fazer se continuarmos calados e presos dentro destas paredes. Mas se nos mobilizarmos e formos passando palavra aos lavradores sobre aquela ideia que tivemos há uns meses atrás, aqui nesta mesma sala, talvez o possamos inverter …

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A Criação do Douro

MANSILHA

A que ideia se refere? Costumamos falar em tanta coisa…

BELEZA DE ANDRADE

Estou a pensar naquele projecto que ainda hoje, esta mesma noite, me continua a tirar o sono… Por todo o lado onde passo, é uma dor de alma ver tanta gente a mendigar à porta das igrejas por uma côdea de pão… isto, os mais desavergonhados, porque os outros fecham-se em casa a remoer a fome nos estômagos vazios…

PANCORBO

Compreendo a sua preocupação e todos esses pensamentos humanistas, mas nós pouco podemos fazer por esses desgraçados… os meus trabalhadores encontram-se na mesma situação mas, coitados, nenhuma culpa têm do que está a acontecer à nossa lavoura… parece que o destino se voltou contra nós, um pouco por todo o lado…

ACÁCIO

Além disso, dar-lhes mais significava tirar do nosso bolso…

MANSILHA

Ainda não nos falou dessa tal ideia…

BELEZA DE ANDRADE

Imaginem que o meu sonho se tornava realidade.

DUMONT

Ainda não sabemos nada sobre ele… e continuamos à espera…

BELEZA DE ANDRADE

Imaginem uma grande área de produção à qual poríamos o nome deste rio… a região do Douro… Aí produziríamos o nosso vinho, lutando por um objectivo comum…

ACÁCIO

Dar o nome do rio a uma região? Isso está mal explicado. Região de quê e para quê?

BELEZA DE ANDRADE

O nome era simbólico, mas aproveitávamos o que existe: o vinho, o nosso.

PANCORBO

O vinho do Douro?

BELEZA DE ANDRADE

Sim, o vinho do Douro. Produzindo em quantidades cada vez maiores e com esse nome, talvez dos mais famosos do reino.

DUMONT

Já conheceu melhores dias…

BELEZA DE ANDRADE

Meus amigos, foi para isso que vos chamei aqui. Já pensaram que a procura de um vinho de qualidade dará trabalho a muitos e resolverá esta crise miserável? Que acham?

PANCORBO

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A Criação do Douro

Eu acho muito bem… é sempre bom mercar produtos de origem reconhecida e de boa casta…é o que se procura hoje em dia… mas como nos dias de hoje o vinho do Douro está, desculpe, mas eu não me comprometo…

DUMONT

(curioso) E essa área de produção, ou região… ou o que se lhe quiser chamar… temos de ter em atenção que as opiniões se dividem e as vontades não são semelhantes… uns querem muito, outros menos… (pausa para pensar) parece-me complicado…Olha, os ingleses!

BELEZA DE ANDRADE

Esses são uns dos muitos que teremos de vencer! Há menos de um ano, tentei colocar do meu vinho na Rússia e por três vezes me negaram mestres e pilotos de navio.

DUMONT

Pois eu acho que a ideia não irá agradar principalmente a esses senhores… (irónico) mas não há que lamentar os acordos feitos pelo senhor Marquês de Alegrete e pelo senhor John Methuen há cinquenta anos atrás… Em contrapartida, o vosso reino terá, para todo o sempre, como delibera o acordo, dos melhores exemplares de lambswool… oh, que excitante…

MANSILHA

Eu creio que só conseguimos proteger o nosso produto se trouxermos para o nosso lado quem produza, constituindo uma grande união que lute pelo interesse colectivo. Mas tudo tem de ter regras…

PANCORBO

Pois sim. Mas olhando para o estado das coisas, torna-se muito difícil fazer cumprir as regras…

MANSILHA

Não seja céptico caro amigo…

PANCORBO

Não seja céptico? Pelas terras onde ando, toda a gente me diz o mesmo. Uma vez que os ingleses querem do nosso vinho aromático ou de embarque, há que lhes encher bem as medidas, dizem eles. Nem que para isso se utilizem todos esses estratagemas menos lícitos que nós muito bem conhecemos. E das praias de Miragaia, o vinho continua a sair em direcção a Lisboa. E daí, outro destino toma. Em todo o lado o apreciam e lutam para provar um cálice que seja. Não há melhor exemplo que o de Inglaterra.

ACÁCIO

Pois, mas aí vale o Tratado feito com eles… e os ingleses são os principais interessados em dominar o comércio vinícola…

DUMONT

(irónico) A propósito… vocês sabem que as autoridades inglesas substituíram a classificação do vinho português de “produto com propriedades terapêuticas” para “produto venenoso”? E

grande parte dele nem chega a ir à mesa, pois é salgado e inutilizado logo ali na alfândega…

ah… que grande povo, esses gloriosos ingleses!

BELEZA DE ANDRADE

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A Criação do Douro

Ora aí é que está! Se não nos precavermos contra a corrupção do nosso produto, um dia destes ninguém o quer, nem em pipas nem em copos! Há para aí agricultores que começam a não ter por onde escoar as suas pipas… mais cedo ou mais tarde, serão vocês…

DUMONT

(saboreando um copo) Mas que grande tratado… (reflectindo) O Douro é enorme, parece que nunca se esgota… até é pecado viciar este precioso néctar com essas drogas que se vêem para ai… tudo por causa dos senhores ingleses…

BELEZA DE ANDRADE

Realmente… Vejam só… (observando um mapa) As cercanias da Régua até ao Vale de Godim, São João e São Miguel de Lobrigos do amigo Mansilha, a zona da Régua até ao Pinhão. Isto falando desta margem, porque da outra vai até às encostas de Cambres, a Valdigem, Samodães e Penajóia… Tudo isto, região de vinho. Do nosso.

PANCORBO

(confessando) Bem… isto cá para nós… devo admitir que este excesso de produção estraga-nos o vinho e o negócio. Se antes gostavam do que eu vendia, agora torcem o nariz… os que sabem mais… sim, porque os outros bebem-no que é um regalo… e nem suspeitam da mistura de baga de sabugueiro ou de outras castas mais pobres, nem mesmo de especiarias…mas antes que o negócio vá por água abaixo, concordo que temos de intervir.

MANSILHA

E o que lhe parece a si, senhor Acácio, esta ideia?

ACÁCIO SERRA

(enchendo o copo) Bem, eu estou de acordo com aquilo que se disse até agora. É necessário que se imponham regras, pois só dessa forma é que este vinho poderá voltar a alcançar o antigo sucesso que já conheceu.

MANSILHA

E em que tipo de regras está a pensar?

ACÁCIO SERRA

A Feitoria Inglesa do Porto já protesta, dizem que querem devolver o verdadeiro ser ao vinho do Douro. Mas, a partir desta noite, todos nós somos potenciais concorrentes dos ingleses.

DUMONT

E o Brasil gosta do nosso vinho?

ACÁCIO SERRA

Os brasileiros são doidos por este vinho, já desde a altura em que o meu pai comerciava nas capitanias de São Paulo, Rio de Janeiro, Baia e Pernambuco. Há cerca de dez anos atrás, foram exportadas cerca de 3418 pipas para o Brasil. A partir de então, tem vindo a decrescer…

DUMONT

Eu e o meu amigo Bartolomeu temos alguma experiência, por sinal bem desagradável, neste ramo e sabemos que mercar vinho não é fácil. Outros dirão o mesmo acerca do seu produto, mas foi sempre arriscado apostar na má qualidade…

PANCORBO

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A Criação do Douro

É verdade… Tentamos imiscuir-nos neste negócio, mercando com o Báltico… mas a escassez de cabedais, deitou tudo a perder… fomos à falência… e agora, há vinho a mais e não presta!

Se criássemos uma Companhia que agrupasse todas as nossas vinhas, seria bem melhor…

BELEZA DE ANDRADE

Ora aí está! É mais que altura de pormos este projecto em marcha!

PANCORBO

Qual?

BELEZA DE ANDRADE

Este que tenho estado a falar e que vocês não dão ouvidos! A criação de uma zona demarcada que produza exclusivamente vinhos finos de exportação!

DUMONT

Isso não me soa mal…

BELEZA DE ANDRADE

E não só! Proteger os vinhos finos de exportação, preservar e garantir a qualidade dos vinhos durienses, de embarque e consumo, subtrair aos ingleses o controlo da comercialização de vinho do porto e, por último, fomentar a viticultura no Douro.

MANSILHA

(tirando-lhe o copo) Caro amigo, não fiquemos apenas pelos projectos. Discutir apenas, e fechados nesta casa, não adianta. Temos de falar com os responsáveis deste reino!

DUMONT

Que me diz?

MANSILHA

Temos de ir a Lisboa.

ACÁCIO SERRA

A Lisboa? Fazer o quê?

MANSILHA

(meditativo) Esta nossa conversa despertou-me para um projecto mais ambicioso. Confesso que se não nos tivéssemos reunido hoje aqui, os meus pensamentos não teriam ido tão longe.

Pois bem: convido-vos a todos a acompanharem-me a Lisboa, onde, na presença de El-Rei Dom José e de seu ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, irei expor estas nossas ideias!

BELEZA DE ANDRADE

Não está mal pensado… mas será que eles nos irão receber? A nós e a dois comerciantes do Porto? E o terramoto?

PANCORBO

Pois… o terramoto… Ainda não passou um ano… Lisboa deve estar um caos! Diz-se que morreram perto de 20.000 almas!

DUMONT

E que os incêndios duraram cinco dias… Quarteirões inteiros desmembraram-se. Enquanto lembravam os mortos à hora da primeira missa da manhã, os lisboetas foram encurralados por toneladas de pedra e madeira. Os que ainda conseguiram fugir para as margens, foram 7

A Criação do Douro

engolidos pelas vagas e pela areia molhada, indo parar ao Tejo… a maré encheu e vazou em menos de cinco minutos!

MANSILHA

Sei que a Coroa trabalha arduamente na reabilitação da capital do reino. O Marquês de Pombal tomou as rédeas da crise e disse “Cuidemos dos vivos e enterremos os mortos!”

Mandou enforcar os salteadores, sem julgamento, para evitar as pilhagens e chamou para trabalhar consigo o General Manuel da Maia, o coronel Carlos Mardel e o capitão Eugénio dos Santos, engenheiros e topógrafos, gente de conhecimento… muito em breve, Lisboa estará bonita como sempre foi.

ACÁCIO SERRA

E onde os vamos encontrar se a cidade está destruída? Se for, vou armado!

MANSILHA

Nas barracas do Palácio da Ajuda. Eles receber-nos-ão, estou certo!

PANCORBO

Se é assim tão fácil, ofereço a minha carruagem e os meus melhores cavalos para nos transportarem! Pago metade da despesa e os custos dos meus aposentos… já não sou novo como os senhores…

BELEZA DE ANDRADE

Eu ofereço víveres e alguns almudes de vinho…e faço questão que cheguem a Lisboa vazios!

E mais estas sessenta moedas em ouro.

ACACIO SERRA

Sendo assim, eu vou também. Dali tomarei um barco para o Brasil.

DUMONT

(pegando num copo) Eu ofereço a minha companhia… quando partimos?

MANSILHA

Na próxima segunda feira… estou a contar chegar a Lisboa no dia 9 de Setembro.

DUMONT

E o que vamos dizer ao Rei Dom José e ao seu Ministro?

MANSILHA

Descansem… ouvi-vos a todos, tenho vindo a pensar sobre isto e tenho meu discurso preparado, mas quero aperfeiçoa-lo com a ajuda do meu amigo Luís Beleza de Andrade!

Proponho que façamos um brinde!

BELEZA DE ANDRADE

Vamos brindar a quê?

MANSILHA

À futura Região Demarcada do Douro!

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A Criação do Douro

PARTE II 7 de Setembro de 1756, Golegã. Uma venda. Entram todos.

PANCORBO

Finalmente, às portas de Lisboa. Estou farto de pó e com os ossos todos moídos. Agora, quero comer o melhor prato de carne que aqui houver e não saio desta terra sem tomar um banho quente e longo.

BELEZA DE ANDRADE

Infelizmente o vinho que trouxemos, acabou… gastámo-lo todo durante as nossas conversas até altas horas da madrugada. Mas deixe que lhe diga que a sua ideia de reunir um grupo de arrais para o transporte das pipas não está mal pensada…

PANCORBO

Eu confesso que esperava por oportunidade destas há muito tempo e finalmente, parece que apareceu. Tenho uma fé especial de que vamos conseguir….

MANSILHA

É claro que vamos conseguir… tenho rezado muito, depois das nossas conversas regadas a vinho fino….

VENDEIRO

(entrando) Vossas senhorias vêm para jantar?

ACÁCIO SERRA

Sim. Para jantar e bem! Traga-nos a melhor carne que tiver, grelhada!

VENDEIRO

Com certeza… (intrigado) Vejo que não são destas bandas…

ACÁCIO SERRA

Eu sou brasileiro.

MANSILHA

Não, não somos… somos do Douro… conhece o Douro?

VENDEIRO

Quer-me parecer que é um rio…

BELEZA DE ANDRADE

Sim, um rio. E bonito!

DUMONT

E grande!

VENDEIRO

Se é bonito ou grande, não o posso dizer… mas que me tem dito toda a gente que não há vinho de embarque melhor em Portugal, isso sei…

BELEZA DE ANDRADE

Vamos fazer uma coisa. Se se esmerar na confecção desse grelhado, provará connosco um cálice de vinho fino, o ultimo que nos resta de tantos dias de caminho! Combinado?

VENDEIRO

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A Criação do Douro

Oh meu senhor! Claro que está combinado! Já não provo desse vinho há quase 30 anos…

quando me casei, bebi umas pinguitas antes das núpcias…

ACÁCIO SERRA

Então, não faltam boas recordações associadas a este vinho...

VENDEIRO

Sim… por tudo…

BELEZA DE ANDRADE

Vejo que é bom homem e bem-disposto! Traga-nos lá essa carne que esta noite ainda temos de deixar os cavalos naquela mala-posta de cima…Sempre é verdade que os cavalos daqui são bons?

VENDEIRO

Desde a altura da Venda da Galega que temos dos melhores que há em todo o reino.

DUMONT

Meu amigo, despache-se com essa carne que morro de fome…

MANSILHA

(alegrando-se) Se tudo correr bem por Lisboa, no futuro, este será o vinho com que se brindará a fartura, o sucesso…

PANCORBO

E que se beberá nas eucaristias…

MANSILHA

Não seja por isso… já se bebe…

BELEZA

Este será o vinho com que se brindará a paz.

ACÁCIO SERRA

Este será o vinho com que se brindará a amizade entre portugueses e brasileiros…

DUMONT

E porque não começamos agora e brindamos a amizade entre franceses e brasileiros? Vá, senhor brasileiro, encha-me o copo…

ACÁCIO SERRA

Gosta dele bem cheiinho?

DUMONT

Claro! (bebem todos) Será mesmo que D. José nos vai receber?

MANSILHA

Homem! Claro que sim! Porque razão havia de o negar?

DUMONT

Não é só a reconstrução de Lisboa que lhe ocupa grande parte do tempo. Creio que se não apresentarmos a el-rei planos concretos que solidifiquem as nossas ideias e motivos, esta viagem não passará de um simples passeio sem qualquer proveito…

PANCORBO

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A Criação do Douro

Não seja assim meu caro amigo… estamos na Golegã, em pleno Ribatejo e às portas de Lisboa. Se sairmos ao raiar do dia, o mais tardar ao fim da tarde de amanhã teremos passado a Serra de Monsanto e estaremos na Ajuda. D. José vai receber-nos, tenho a certeza.

BELEZA DE ANDRADE

Eu gostava de passar pela Ribeira. Queria espreitar os barcos de carga que atracam no Porto de Lisboa, mas creio que o terramoto destruiu tudo o que havia de bonito… será melhor entrar pela Ribeira de Loures e ir descendo…

PANCORBO

Meu amigo, isso não é o mais importante agora, saber se há barcos ou faluas. Temos de nos concentrar na nossa apresentação perante Dom José e o seu Ministro. O senhor padre tem alguma ideia daquilo que vai dizer?

MANSILHA

Como sabem, a nossa região não pode preterir os produtores de vinho mais antigos. Acho justo que quem produziu desde sempre seja incluído. Deste modo, aquela área que fica abaixo do Rio Corgo, a volta de Lobrigos e Cambres, terá de ser abrangida. Estes “vinhos de pé”, assim como os envelhecidos de Lamego, não poderão em caso algum ficar para trás.

PANCORBO

E acima do Corgo?

BELEZA DE ANDRADE

Cada coisa a seu tempo. Se me permite caro amigo, esses ficarão para mais tarde. Vamos por ora valorizar os que já existem e sobretudo os mais antigos. Concordo com o amigo Mansilha.

Além disso, acima do Pinhão e a partir das margens do Rio Tua, no Cachão da Valeira, não se consegue passar. Proponho que nessa zona de Alijó continue a produzir apenas vinhos de ramo.

PANCORBO

Essa zona é má. Está cheia de terrenos baldios e maninhos, de lobos e porcos monteses. Só arroteando e surribando se poderá fazer alguma coisa útil.

ACÁCIO SERRA

Mesmo que isso aconteça, quem passa o Cachão da Valeira? Ninguém!

BELEZA DE ANDRADE

Sempre foi uma espinha atravessada na nossa garganta. Se ao menos pudéssemos galgar aqueles rápidos, a região poderia alargar-se para montante. E isto significava mais área de cultivo, mais produtores, mais vinho…. Até lá, só à sirga ou com auxílio de bestas e homens!

ACÁCIO SERRA

E não é só esse obstáculo que impede o tráfego. É também a existência de pesqueiras, caneiros que dificultam a navegação. Para não falar no tempo em que se demora a subir o rio… quando não há vento…

PANCORBO

E mais trabalho para todos.

MANSILHA

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A Criação do Douro

Isso são conjunturas a longo prazo. Quem vier resolverá bem esse problema. Por ora resta-nos comer, beber e dormir. Amanhã estaremos em Lisboa. Temos de ser rápidos e incisivos.

Espero dar a novidade ainda antes que chegue Outubro.

DUMONT

Proponho um brinde a el-rei Dom José!

BELEZA DE ANDRADE

Proponho um brinde ao Douro! E que nos valham todos os santos!

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A Criação do Douro

PARTE III Discurso do Padre Malagrida sobre o Terramoto.

Caros irmãos: Vivemos um tempo terrível onde a vontade dos homens se quer sobrepor à vontade do divino, não cuidando em medir as distâncias e proporções na avaliação do mundo e tudo o que o compõe. Obviamente que aqueles que se lhe procuram equiparar escondem a figura hirsuta do demo, interessado em semear o pânico e a morte no nosso amado país. E

não é necessário ir muito longe nem fazer grandes exercícios de memória para achar elementos que comprovem a sua presença. Há bem pouco tempo essa desgraça que se abateu sobre Lisboa foi a manifestação mais exacta da sua presença. E porquê? Pela forma opulenta como se vive em Lisboa… a música, as danças luxuosas, o teatro, as comédias obscenas, as touradas, a iniquidade com que os lisboetas ocupam os tempos livres, a tanger violas e recitar poesia… tudo isso despertou a ira de Deus! Repudio todos aqueles que dizem que toda esta catástrofe foi obra do acaso, da natureza, que nem o próprio diabo poderia inventar uma falsa ideia tão passível de nos conduzir à ruína irreparável!

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A Criação do Douro

PARTE IV

NO PALÁCIO DA AJUDA

CAMAREIRO

El-Rei Dom José irá receber-vos em breve.

BELEZA DE ANDRADE

Estou nervoso….

MANSILHA

Sossegue caro amigo…vamos esperar aqui um pouco.

BELEZA DE ANDRADE

Esta situação em que se encontra a nossa capital… isto pode ter sido uma má aposta…

DOM JOSÉ

(entrando) Quem vem de tão longe para falar comigo?

MANSILHA

(com uma vénia) Sua majestade, permita-me que faça as devidas apresentações. O meu nome é João Mansilha, habitante no Porto e natural de Lobrigos, em Santa Marta de Penaguião. Este meu amigo chama-se Luís Beleza de Andrade. Ambos somos proprietários de terrenos no Douro e profundos conhecedores dos males de que enferma a nossa região. Se Lisboa vive este caos tremendo que vos obriga a viver nestas barracas de primoroso acolhimento, após essa tragédia inenarrável que pôs em confronto Deus e a Natureza, não é menos verdade que o Douro, a nossa região, fenece também aos poucos e poucos. Se não nos acode em tempo útil, temo pela vida de muitos dos seus súbditos assim como da economia do reino.

DOM JOSÉ

Hum… do Douro, dizeis vós… Que bela região… apenas a conheço pelos aromas que me chegam em garrafas… mas deixe que lhe diga que já conheceram dias melhores… hoje em dia parecem-me tudo de muito fraca qualidade…

MANSILHA

E precisamente isso que nos traz cá e nos preocupa há já bastante tempo, sua alteza.

DOM JOSÉ

Mas em que vos posso ser útil? Expliquem-se melhor caros senhores!

MANSILHA

Temos estado a pensar num empreendimento que, bem gizado e melhor conseguido, iria trazer a fortuna para todos. Percorremos esta distância toda por vos pormos a par de tudo. Connosco vieram um velho comerciante biscainho, Bartolomeu Pancorbo e seu sócio, Senhor Dumont…

SEBASTIAO JOSÉ

(interrompendo a conversa. Até então estivera de costas e discutir uns projectos) Um francês? Que faz um francês em Lisboa?

DUMONT

Acompanho os meus amigos senhor…

14

A Criação do Douro

SEBASTIAO JOSÉ

Tão tardiamente em Lisboa, um francês… veio ver como está a nossa capital? Decerto sabe que o seu país não deu qualquer ajuda para a reconstrução… vem tentar minimizar a situação?

DUMONT

Bem… eu…

DOM JOSÉ

Senhores, apresento-vos Sebastião José de Carvalho e Melo. É o meu ministro. (para Dumont) Não fique assustado, ele é sempre assim. (para Sebastião) Venha, quero que acompanhe esta discussão com os nossos súbditos a propósito de um tal projecto de…

MANSILHA

Criação de uma região demarcada…

SEBASTIÃO

Uma região demarcada? O que é isso?

BELEZA DE ANDRADE

Uma região onde se produza em exclusividade um único produto. No nosso caso, o vinho fino.

SEBASTIÃO JOSÉ

Hum…. Parece-me boa a ideia… Mas temo não ter tempo para discutir tal assunto agora.

(mudando de assunto) Majestade, peço-lhe que atente neste plano de recuperação de Lisboa. (estende um mapa) As fachadas dos edifícios serão lisas e terão como único ornamento as varandas em ferro, pintadas de cores diferentes. E, novidade das novidades, os passeios serão calcetados com uma pedra miudinha, de basalto! Além disto tudo, este plano compreende ainda uma estátua no antigo Terreiro do Paço em vossa honra. Permita-lhe que lhe mostre este esboço…

DOM JOSÉ

(observando) Uma estátua? Para que é que eu quero isso? E uma nova Casa da Ópera? Não há planos para uma nova Casa da Ópera? Não consigo passar sem música… ai… Bach…

Handel… Vivaldi… Purcell… quem me dera tê-los conhecido… eu quero lá saber de estátuas!

Construa-me uma Casa da Opera! (à parte) E veja se me consegue trazer uma tal de Zamparini…

SEBASTIÃO JOSÉ

Com certeza majestade, tudo a seu tempo… mas agora é tempo de tratar de Lisboa…

DOM JOSÉ

E estas ruas? Para quê ruas tão largas?

SEBASTIÃO JOSÉ

As ruas terão esta dimensão e serão divididas pelas corporações profissionais, pois achamos necessário estimular o desenvolvimento da indústria no nosso reino! Acredite que há-de chegar a altura em que as irão achar estreitas! Pense no futuro majestade, pense no futuro!

DOM JOSÉ

Está bem… faça lá como entender… mas veja-me uma casa da música… (retomando a atenção) Ficamos a meio da nossa conversa… Falavam de uma região…

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A Criação do Douro

PANCORBO

(tomando a palavra) Majestade, peço que me escute. Tenho 61 anos de idade e em toda a minha vida não encontrei projecto com a grandiosidade que este tem e no qual aponho uma fé muito especial. Tenho uma propriedade em Valbom e em associação com o meu amigo Dumont e o meu filho, mercamos vinho com o Brasil já que com o Báltico não tivemos sorte. O

pior é que os ingleses desde sempre…

SEBASTIÃO JOSÉ

(interrompendo) Que têm os ingleses?

PANCORBO

(decido) Os ingleses estão a impedir por todos os meios que nós, portugueses, tomemos as rédeas do nosso negócio, aquele para o qual estamos melhor habilitados. E não foram uma nem duas vezes que isso aconteceu!

SEBASTIÃO JOSÉ

(quase ressentido) Caso não saiba caro senhor, os ingleses são nossos aliados desde o casamento de D. João I com Dona Filipa de Lencastre, uma Plantegeneta… corria o sangue dos cruzados nos seus ínclitos filhos…

PANCORBO

Não ponho em causa a politica externa do reino nem as decisões do Senhor Nosso Rei Dom José, diante do qual entrego a minha espada e a minha vida se achar necessária, mas o facto incontestável é que os ingleses procuram impedir por todas as formas que o comércio e a economia regional duriense se desenvolvam. Saberá vossa excelência melhor do que eu a razão desse comportamento…

DOM JOSÉ

Mas o que é que fazem esses ingleses afinal?

MANSILHA

Como detêm o monopólio, fazem o que lhes apetece…

BELEZA DE ANDRADE

A mim impediram-me de usar arrais quando procurei vender o meu vinho fora do seu círculo comercial, o que eles controlam.

DOM JOSÉ

Dizeis que os ingleses prejudicam o vosso negócio?

BELEZA DE ANDRADE

Sim, majestade.

SEBASTIÃO JOSÉ

Perdoe-me interromper majestade, mas, em traços gerais, o que é que vocês pretendem afinal?

MANSILHA

Permita-me que explique, muito resumidamente. Em primeiro lugar, proteger os vinhos finos de exportação, preservando a qualidade dos vinhos durienses, de embarque e de consumo. É

claro que tal só pode ser possível se lhes conseguirmos subtrair o controlo da comercialização 16

A Criação do Douro

desse vinho. Mas não ficamos a perder, uma vez que com todas estas medidas o que se pretende é fomentar a viticultura no Douro.

DOM JOSÉ

Hum…. Isso não me parece nada mal… Que acha?

SEBASTIÃO JOSÉ

Bem…. Em termos económicos não está mal pensado… mas respondam me a uma questão: como é que pensa iniciar a produção, logo, de forma tão rápida?

BELEZA DE ANDRADE

Numa primeira fase, precisamos de abrir linhas de crédito a juros baixos. Resolvida esta questão, deve ser determinada a certificação dos vinhos genuínos do Douro no seu percurso até ao cais do Porto, de modo a interferir com os circuitos ingleses.

SEBASTIÃO JOSÉ

(cogitando) Hum…. Isso não está mal pensado…

MANSILHA

(incisivo) A melhor forma de resolvermos o problema que assola a nossa região é permitir o avanço deste nosso projecto. Aliás, era de nosso maior interesse que nos acompanhasse senhor Ministro para ver com os seus próprios olhos a miséria em que mergulhamos.

SEBASTIAO JOSÉ

Hum… não creio que isso possa ser possível… tenho trabalho a fazer aqui…

DOM JOSÉ

Como não pode ser possível? Vá, ordeno-lhe que vá.

SEBASTIÃO JOSÉ

E a reconstrução de Lisboa?

DOM JOSÉ

Cá trataremos disso! Enquanto vai, tem tempo para arejar as ideias e pensar rapidamente numa nova casa da Ópera. Entretanto, cuida dos assuntos do meu reino, mesmo nas suas regiões zonas mais longínquas.

SEBASTIÃO JOSÉ

Mas…

DOM JOSÉ

Com isto me despeço, pois tenho uma caçada à minha espera. Senhores, até uma próxima vez!

SEBASTIÃO JOSÉ

Bem, o nosso rei manda. Irei convosco. Sendo assim, espera-nos muito trabalho.

MANSILHA

Ora essa! O trabalho foi todo feito durante a nossa viagem até cá baixo, desde os inícios de Agosto. A nossa proposta é esta, contando com a sua inevitável apreciação no terreno.

SEBASTIÃO JOSÉ

Hum… “Mappa das Terras Vizinhas ao Rio Douro que produzem vinhos que costumam conduzir-se à Cidade do Porto para embarque e ramo”… é um bom nome… Epicentro na 17

A Criação do Douro

Régua, passando aos vales de Godim, São João e São Miguel de Lobrigos, a zona ribeirinha entre a Régua e o Pinhão e as encostas de Cambres, Valdigem, Samodães e Penajóia… muito bem gizado… confesso que não conheço nenhuma destas terras que aqui me mostraram, mas estou ansioso por lhes por os pés em cima! Quando partimos?

BELEZA DE ANDRADE

Hoje mesmo, se quiser!

SEBASTIÃO JOSÉ

Se calhar, dentro de dias! Por ora, apreciem a reconstrução de Lisboa e vejam como levantamos a nossa capital das cinzas. Segue-se o Douro… iremos transformar a vossa região na mais bela e rica do mundo!

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