A Dama da Ilha por Patricia Cabot - Versão HTML

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Lyming, Escócia, fevereiro de 1847.

O barqueiro estava morto.

Não havia dúvida quanto a isso. O sujeito estava gelado e sem

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pulsação. As pupilas estavam dilatadas, vítreas e fixas. Reilly

Stanton nem precisava ter licença médica para saber que ele já

não estava entre os vivos.

No entanto, Reilly não era o único que precisava de

convencimento. O pescador enrugado que se abaixara ao seu

lado não parecia acreditar no óbvio.

– O que ele tem? – o velho perguntou, e sua respiração se

transformou em vapor no ar frio do inverno.

– Isso mesmo, o que ele tem? – A pergunta do pescador foi

repetida por vários companheiros que tinham ido espiar o

cadáver, assim como Reilly, que tivera a infeliz ideia de

mergulhar na água gelada para resgatar o afogado.

– Sinto dizer – Reilly declarou, erguendo a cabeça molhada

do peito ensopado do morto –, mas ele se foi.

– Se foi? – O mais velho dos pescadores pestanejou. – O

que está querendo dizer com isso?

– Bem, ele expirou. – Os que o rodeavam continuavam a

encará-lo sem entender. A palavra ―expirar‖ sempre era bem

recebida pelas famílias dos pacientes de Reilly em Mayfair.

Contudo, tal delicadeza era evidentemente um desperdício para

aqueles homens tão rústicos. Por isso, Reilly teve que explicar

melhor, batendo os dentes por causa do frio. – Seu amigo

morreu.

– Morreu? – o velho trocou olhares de incredulidade com

os outros. – Stuben morreu?

Reilly se ajoelhou – um feito admirável, pois seu calção,

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antes em boas condições, estava duro por causa da água

salgada gelada – e fitou com ansiedade a taverna ao longe. Pelo

menos, o que parecia ser uma. Era a estrutura mais próxima do

píer onde se encontravam e, em meio ao nevoeiro, Reilly pôde

ver uma placa balançando em cima da porta e luzes

convidativas atravessando as janelas. Reilly não se importava

que fosse uma cervejaria ou um prostíbulo, contanto que

chegasse lá o mais depressa possível para se secar e aquecer

diante de uma lareira, de preferência com um copo de uísque na

mão.

Mas, antes, teria que resolver o problema do barqueiro.

– Não pode ser – o pescador desdentado insistiu. – Stuben

não pode ter morrido. Ele nunca morreu.

– Ora, mas essa é a natureza da morte, não acha? – Reilly

procurou sorrir com simpatia. – Costumamos fazer isso uma

única vez.

– Mas não Stuben. – Cabeças grisalhas anuíram

enfaticamente ao redor do cadáver. – Ele já caiu na água várias

vezes, mas nunca morreu.

– Bem. – Reilly tentou imaginar alguns de seus colegas

mais instruídos – Pearson, por exemplo, com seu indefectível

charuto, ou Shelley, com aquela bengala ridícula de cabo de

prata, da qual não precisava – em pé naquele píer desolado,

discutindo o significado da morte com aquele grupo estranho.

Não conseguiu.

Ora, Pearson e Shelley eram dotados de sensatez suficiente

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para não aceitar aquele emprego e não possuíam nenhum traço

da impetuosidade de Reilly.

– Bem, cavalheiros. Acho que ele não teve a mesma sorte

dessa vez. Sinto muito pela perda que os senhores tiveram. Mas

ele estava obviamente embriagado...

Aquela era uma descrição generosa. O barqueiro estava

tão bêbado que Reilly pensara em perguntar se não havia outro

barco que ele pudesse alugar para o trajeto. Mas não chegara a

se manifestar. O que poderia ser pior do que um barqueiro

embriagado? Um barco encalhar ou afundar?

E se ele acabasse afundando nas águas geladas e

turbulentas da costa das Terras Altas da Escócia? E daí? De

qualquer forma, não tinha muito pelo que viver. Christine, em

Londres, ficaria sabendo de seu afogamento e teria que viver

suportando a ideia de que Reilly Stanton morrera se esforçando

para conquistar seu amor...

Era evidente que, ao ver o homem estúpido perder o

equilíbrio e cair no mar no instante em que atracavam, Reilly

não considerou a própria segurança. Muito menos o que a

senhorita Christine King pensaria. Pulara imediatamente na

água gelada e puxara o camarada, já morto, para a margem.

E apenas àquela altura, ensopado e tremendo como um

cão, ocorreu a Reilly que perdera outra maravilhosa

oportunidade para fazer Christine arrepender-se do que fizera.

Ele chegara tão perto de uma morte romântica! Quase podia

ouvir o que diriam as damas de Mayfair:

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―Querida, você não soube? O jovem doutor Stanton, o

oitavo marquês de Stillworth, morreu nos confins das ilhas

Hébridas, tentando salvar a vida de outro homem. Não posso

imaginar o que a desumana Christine King estava pensando,

quando dispensou um homem como ele. Christine devia estar

louca. Um cavalheiro altruísta, generoso, nobre... e belo, pelo

que me disseram. A pobre moça está fora de si de tanto

sofrimento.‖

Talvez a descrição fosse exagerada. E como o velho idiota

morrera, apesar de seu maior esforço, Reilly nem podia escrever

para casa e mencionar, mesmo que casualmente, como tentara

salvar uma vida no primeiro dia de trabalho.

―Quando‖ sua sorte iria melhorar?

– Sinto muito pelo senhor Stuben – Reilly afirmou para os

amigos do barqueiro –, mas se serve de consolo, ele não sentiu

nada quando morreu. Estava completamente embriagado. Se os

bondosos cavalheiros não se importarem, estou molhado, com

muito frio e gostaria de sair desse vento...

– Aí está o problema. – Várias cabeças grisalhas se

sacudiram. – Tirá-lo desse vento. Alguém precisa avisar a

senhorita Brenna.

– Já foi feito – um homem desdentado garantiu. – Mandei o

menino chamá-la, assim que vi Stuben afundar.

– Bom rapaz. – O pescador mais velho suspirou. – Bem, eu

o seguro pela cabeça e você, pelos pés. Pronto? Um, dois e já!

Reilly ficou em pé. O vento gelado lançava jatos de sal para

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todo lado enquanto os homens de mãos encarquilhadas

seguravam o corpo do homem e o levantavam. Então a

procissão solene se moveu bem devagar até a construção mais

próxima, a mesma que Reilly esperava que fosse uma taverna.

Reilly, sozinho no cais, relanceou um olhar ao redor.

Atingida pelas ondas e pelo vento, a balsa chocava-se

ruidosamente contra a lateral do ancoradouro. Suas sacolas e a

arca ainda estavam na embarcação. Ele era o único passageiro,

isto é, além das garrafas vazias do barqueiro que rolavam de um

lado para outro. Exceto pelos amigos do defunto e de um bando

de gaivotas, nada mais havia por perto. Reilly não contava que

viessem esperá-lo, pois a comunicação com o continente era

péssima, mas pelo menos poderia haver alguém para carregar a

bagagem...

Bem, pouco importava. Afinal, houvera uma morte. Supôs

que, por enquanto, seus pertences estariam a salvo.

Embrulhou-se melhor na capa – embora o tecido incrustado de

gelo pouco servisse para protegê-lo do frio – e seguiu atrás do

cortejo do defunto. Caminharam rumo à única construção

visível através do nevoeiro e, que, pelas luzes que apareciam

nas janelas, prometia pelo menos um bom fogo.

Reilly acompanhou os passos dos homens, e quando um

se queixou de cansaço, ele segurou a cabeça do morto.

Nisso, outro pescador apertou o peito do homem e se

afastou. Reilly teve que segurar não apenas a cabeça, mas

também o tórax do morto.

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Um terceiro pescador se curvou, atacado por uma

alarmante tosse espasmódica. Não demorou muito para que

Reilly jogasse o barqueiro nas costas, sob gritos de incentivo e

aplausos dos camaradas. Felizmente, esse fato não chegaria ao

conhecimento de Christine. Sua morte teria sido romântica,

mas essa situação em particular não.

Ele cambaleou em direção à taverna – era mesmo uma

taverna, embora o nome na placa que balançava ao vento não

fosse encorajador – Lebre Ferida. Mas assim que a porta foi

aberta, Reilly mergulhou em uma onda de calor seco que

recendia a cerveja e ficou aliviado que, o que quer que fosse

aquilo, a Lebre Ferida era no mínimo quente, seca e estava

aberta.

O lugar estava cheio de gente. Um dos homens que o

acompanhavam anunciou que Stuben havia se embriagado

novamente e caíra na água, de onde o estranho o retirou. Houve

um murmúrio coletivo de excitação, seguido por uma torrente

de movimentos, quando os homens se apressaram a tirar os

canecos do caminho das mulheres que se preparavam para

colocar um pranchão sobre vários bancos que alguém arrumou

perto da lareira.

– Ponha-o aqui – ordenou uma mulher volumosa de

avental imaculado e touca. – Bem aqui, na mesa.

Reilly aquiesceu, embora mesa não fosse o termo que ele

escolheria para descrever a estrutura improvisada onde ele

deixou o defunto. No mesmo instante, a mulher se apressou a

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tirar as roupas encharcadas do barqueiro, dando ordens em voz

alta.

– Flora, traga uma garrafa de uísque! Maeve, os lençóis

estão no armário de cima. Nancy, na cozinha dos fundos há

uma caçarola com água quente. Pegue-a e traga alguns panos.

Já mandaram avisar a senhorita Brenna?

– Mandei o garoto atrás dela – um dos pescadores

assegurou.

– Ótimo – A mulher ficou satisfeita.

De novo a senhorita Brenna?, Reilly pensou. Quem seria

essa moça? E que nome horrível! Sua opinião era partilhada

pelos amigos Pearson e Shelley, que haviam declarado que

Brenna era o nome mais odioso da língua inglesa, talvez com

exceção de Megan. Haviam decidido, quase com certeza, que

qualquer mulher batizada com o nome de Brenna teria queixos

múltiplos, dentes centrais exageradamente grandes e fisionomia

cavalar. E durante a investigação não muito científica da

veracidade daquela teoria, esperavam que alguém provasse o

contrário.

As roupas do barqueiro foram retiradas, e ele ficou

exposto, nu, diante dos que se encontravam na Lebre Ferida – o

que, Reilly reparou, incluía as criadas, sendo algumas delas

muito jovens. Era espantoso que as moças não pareciam

chocadas diante do corpo masculino em trajes de Adão. Mesmo

quando ele foi submetido à indignidade de ser envolvido em

panos tirados de uma vasilha com água quente que Nancy

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segurava, nenhuma dessas jovens empedernidas das Terras

Altas lançou um segundo olhar sobre ele.

– Hum – Reilly conseguiu balbuciar depois de parar de

tremer, ao mesmo tempo em que o morto era coberto dos pés à

cabeça com roupas quentes.

A mulher, na certa a dona do local, olhou-o de viés e então

disse:.

– Maeve, não fique aí parada como uma tonta. Tire as

roupas molhadas do cavalheiro e cubra-o com uma manta.

Reilly ficou alarmado quando a tal moça caminhou em sua

direção. Recuou depressa e ergueu as mãos.

– Hum, não, não. Não é... quero dizer, estou bem. De

verdade. Senhora, penso que alguém deveria dizer-lhe que esse

homem...

Mas Reilly, cujas visitas anteriores à Escócia haviam se

limitado a expedições esporádicas de caça, durante as quais

tivera pouco ou nenhum contato com os nativos, não estava

preparado para se defender da determinação ingênua de uma

típica criada gaélica. Em segundos, Maeve tirou sua capa e o

casaco, o que o fez suspeitar que ela estava acostumada a tirar

a roupa de fregueses relutantes... com propósitos inequívocos.

Quase a ponto de recorrer à violência, Reilly não teve como

deter

Maeve de seu objetivo, que parecia ser deixá-lo nu como o

defunto que estava diante deles... Pelo menos até ele se

encontrar no outro lado do recinto, literalmente encurralado em

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um canto, sem colete nem camisa, enquanto sentia um par de

dedos ansiosos e prontos para soltar-lhe o calção...

– Isso já basta. – disse Reilly, apertando os pulsos da moça

que pretendia despi-lo.

Maeve piscou e olhou para cima, com expressão travessa e

nada envergonhada.

– Ela disse que era para eu tirar suas roupas molhadas – a

criada o lembrou.

– Eu sei – Reilly disse. – Bem, se você não se importa,

gostaria de ficar com minhas calças.

– Não acho que deva fazer isso – Maeve contestou. – O

senhor pode ficar com dor de garganta.

– Ou com reumatismo – disse outra voz feminina.

Foi então que Rilley notou os olhares embevecidos da

jovem Nancy, a que recebera ordens para trazer água quente.

– Isso mesmo – Maeve disse com firmeza. – Ou

reumatismo. O senhor não quer acabar doente... – Maeve fitou o

peito desnudo. – Não seria justo para um belo homem como o

senhor.

Convencido de que havia entrado em um antro de

lunáticos, Reilly deu um puxão no pulso de Maeve. Depois tirou

os dedos da jovem do cós de suas calças, preservando o pouco

que lhe restara de dignidade.

– Vou me arriscar – disse ele, resoluto, afastando de si

Maeve.

Já só de calção e botas, ambos ensopados, Reilly percebeu

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que o medo de ser emasculado diante de toda a aldeia não tinha

fundamento: ninguém, exceto Maeve e Nancy, prestava atenção

nele. Os fregueses da Lebre Ferida estavam mais empenhados

em esvaziar o conteúdo dos canecos de cerveja do que em olhar

para o homem seminu em um canto, talvez mais interessante

do que o morto sem roupas estendido na prancha no meio do

recinto.

Todos, exceto a proprietária da taverna, que falava com o

barqueiro:

– Vamos, Stuben, acorde.

Reilly, estranhamente comovido pela recusa tenaz da

mulher em admitir o óbvio, disse:

– Madame, sinto informá-la da verdade. O senhor Stuben

está morto.

A mulher parou com a mão no ar, segurando o pano

quente com que estava prestes a cobrir o baixo-ventre do

defunto.

– Morto? – ela repetiu.

A palavra chamou a atenção dos fregueses. De repente,

todos viraram a cabeça na direção de Reilly.

– Sim... sim. – Pelo menos, conseguira atrair a atenção de

todos, apesar do constrangimento de estar seminu. A manta

sugerida ainda não chegara.

No entanto, tinha um dever a cumprir.

– Isso mesmo, madame, morto. Desde que o tirei da água,

ele está sem pulso e não respira. Odeio ter de lhe dizer que seus

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esforços, embora valiosos, agora serão inúteis.

Àquela altura, Reilly notou que ao perceberem que o

homem deitado na maca não estava mais vivo, alguns fregueses

pareciam muito mais interessados. Reilly supôs que um

barqueiro morto devia ser muito mais valioso do que um vivo.

– Morto? – Ela tornou a repetir, olhando a expressão

cadavérica do homem estendido. – Stuben? Mas ele nunca

morreu antes.

Reilly arqueou uma sobrancelha.

– Isso mesmo – ele disse e se pôs a imaginar se todo

mundo ali naquele lugar era louco e se ele, sendo o único

médico na aldeia, teria que fazer algo a esse respeito. – Dessa

vez, creio que o mergulho dele foi fatal. – Sinto muito ser o

portador de más notícias. Fiz o que era humanamente possível

para salvá-lo, mas a água estava muito fria e ele era bem idoso.

Reilly achou mais sensato não mencionar o estado de

embriaguez do homem. Afinal, havia senhoras presentes.

– Ele já não era tão forte para sobreviver dessa vez. Bem,

se não for pedir demais, eu gostaria que a senhora mandasse

alguém buscar minhas coisas na balsa. Gostaria de trocar...

Ele foi interrompido por um baque violento na porta da

frente. Ela se abriu, e uma jovem alta entrou, vestida com uma

capa escura cuja barra esvoaçava ao vento.

– Ah, senhorita Brenna! – A proprietária da Lebre Ferida

demonstrou um alívio imenso. – Graças a Deus que está aqui!

Então essa era a tal senhorita Brenna de quem todos

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falavam! Bem, ele não se sentiu desapontado. Ela era alta o

suficiente para ser uma Brenna. Apenas alguns centímetros

menor que ele, que se vangloriava de ter mais de um metro e

oitenta de altura. A capa escondia sua silhueta e o capuz, a

face. Reilly não pôde comprovar se o resto se adequava ao

nome, mas ela certamente parecia uma amazona. Pearson e

Shelley ficariam satisfeitos em saber disso.

– Stuben voltou a beber – um dos pescadores a informou. –

E esse aí disse que ele está morto.

– Quem?

A voz era exatamente a que ele esperava de uma Brenna.

Profunda e nada feminina. Reilly congratulou a si mesmo por

ser um excelente juiz em matéria de feminilidade, mas quando a

jovem tirou a mão enluvada das dobras do casaco e afastou o

capuz para trás...

... Por pouco não lhe causou um ataque apoplético. Não

viu nenhum queixo duplo, nem o menor traço de expressão que

lembrasse um equino, exceto talvez pela vasta cabeleira de cor

de cobre que caía solta, em cachos indomáveis do alto de sua

cabeça. Na verdade, essa Brenna em particular era bela e

atraente.

Isso ele era bem capaz de atestar, levando em conta que

sob a capa a jovem usava, um segundo olhar o confirmou, um

par de ―calças de homem‖.

Sim, ―calças masculinas‖ que se colavam sugestivamente

em suas coxas delgadas e estavam presas na altura da cintura

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por uma tira de couro por cima de um suéter verde, grosso. Nos

pés, a jovem trazia um par de botas fortes, também de couro.

O suéter e as botas escondiam alguns atributos chave,

mas as calças eram magníficas. Reilly nunca havia visto uma

mulher de calças. Estava certo de que Christine teria preferido

usar um saco de batatas a vestir calças.

Ainda assim, era uma inovação da moda que, mesmo não

tendo alcançado Paris ou Londres, lhe agradava bastante. Na

verdade, sentiu-se dominado pelo impacto e levou alguns

minutos para perceber que a jovem estava falando.

Quem disse que Stuben estava morto? – ela perguntou

numa voz grave que não combinava com a aparência

extremamente feminina.

Uma dúzia de dedos apontaram na direção de Reilly, e um

segundo depois ele se viu analisado pelos olhos mais azuis e

astutos que já vira. Sem chapéu na cabeça para

cumprimentá-la – Maeve se apropriara dele, da capa e do paletó

– só pode fazer uma pequena reverência até a cintura,

tristemente consciente de seu estado de quase nudez.

– Fui eu. – disse Reilly, se sentindo acovardado, o que era

estranho, diante do brilho daquele olhar. – Eu o tirei da água.

Estava sem pulso e gelado...

– Quem é o senhor?

Reilly notou que Brenna falava um inglês perfeito, ao

contrário dos outros aldeões, que tinham um forte sotaque

escocês.

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– Reilly Stanton. Fui eu quem aceitou o posto...

Brenna já passara os olhos por ele e se encaminhou até o

defunto.

– ...que os senhores anunciaram. – Reilly a viu virar o

barqueiro de lado e ir para trás dele. – O de médico. Estou aqui

para começar meu trabalho. – Percebeu que ninguém o

compreendia. – Obtive a licença de médico no Royal College of

Physicians. Sou membro dessa instituição, como também de

Oxford, e estudei em Paris... Bem, talvez não me tenham

ouvido, mas aquele cavalheiro está mesmo...

Para seu descrédito, a jovem deu nas costas do barqueiro –

entre as omoplatas – um soco que teria acordado qualquer um

que tivesse um sopro de vida.

– ...morto – Reilly confirmou. – Desculpem-me. Fiz o que

pude.

No mesmo instante, o barqueiro abriu a boca e lançou um

jato de rum e água salgada no chão, sujando as botas de quem

estava por perto, inclusive as de Reilly.

Piscando como um bêbado, aquele que estava morto

sorriu, acanhado.

– Sinto muito – o homem se desculpou.

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-Q uem anunciou? – ela lhe perguntou.

Reilly afastou o olhar incrédulo do homem que acabara de

―ressuscitar‖ e fitou a jovem postada diante dele. Brenna era

bem alta e bastaria que levantasse um pouco o queixo para

olhá-lo diretamente nos olhos. Lembrou-se que, ao contrário, a

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cabeça de Christine não chegava nem à metade de seu peito.

– De que anúncio está falando, senhor Stanton? – ela

insistiu.

– Mas ele estava morto – Reilly se ouviu dizendo. – Aquele

homem estava morto. Auscultei o peito dele. Não havia mais

nenhum batimento cardíaco.

Brenna olhou de esguelha para o barqueiro que, feliz por

ser o centro das atenções, recebia os cumprimentos dos amigos

e vizinhos e se mostrava muito satisfeito pelo copo com bebida

quente que alguém lhe entregara.

– Ah, o frio em geral paralisa o coração dele por instantes.

Basta um ou dois bons socos para ele voltar a bater.

Reilly sacudiu a cabeça.

– Não me admira que todos tenham dito que ele nunca

havia morrido antes. Quantas vezes a senhorita o trouxe de

volta do inferno?

– Uma ou duas – ela respondeu.

Ele sorriu.

– Desconfio que deva ter sido bem mais do que isso.

Admito que nunca vi caso semelhante em nenhum livro,

enquanto estive em Paris...

– Ah! – Ela riu e revirou os olhos. – Ah! Paris.

Era evidente que Brenna não era grande apreciadora da

capital da França.

– Saiba que – Reilly afirmou, com orgulho ferido – estudei

medicina com algumas das mentes mais brilhantes de Paris.

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– Garanto que essas mentes brilhantes não lhe ensinaram

a lidar com casos como o de Stuben, não é?

Reilly franziu a testa.

– Não tenho por hábito esmurrar as costas de meus

pacientes.

– Talvez o senhor devesse tentar – Brenna sugeriu com

doçura. – Assim não perderia muitos deles.

Ele a fitou com olhar intenso, disposto a mudar de opinião

a respeito dela. Brenna era sedutora, mas também era um

pouco...

– Ou quem sabe o senhor está acostumado a perder

coisas. A jovem de olhos azuis fitou os ombros desnudos, o

centro do peito cheio de pelos e parou sugestivamente no cós do

calção.

Reilly percebeu que corava, o que não acontecia havia

muito tempo. Sentiu também uma urgência ridícula de

proteger-se daquele olhar penetrante.

Sem querer demonstrar que ficara embaraçado, cruzou os

braços na altura do peito e disse:

– A perda de uma camisa não é nada em comparação com

uma vida salva. – Mesmo que se trate da vida de um idiota

bêbado.

Ele não pronunciou a segunda frase em voz alta, mas

achou que Brenna – que arqueara uma sobrancelha – pensava o

mesmo. Ou então ela poderia estar apenas refletindo sobre o

fato de que fora ela, e não ele, quem salvara a vida infeliz de

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Stuben.

Mesmo assim, ela evitou comentários.

– Senhor Stanton, qual foi o anúncio que o trouxe aqui?

– Doutor Stanton, por favor. Foi o publicado no The Times,

procurando um médico.

The Times. – Brenna continuou com a sobrancelha

erguida, parecendo duvidar.

A dúvida era constrangedora, ainda mais associada à

maneira indecorosa que ela havia fitado seu peito descoberto.

Reilly olhou em volta, em busca de suas roupas e viu que

Maeve, aparentemente esquecida do uísque e da manta

prometidos, pendurava-as diante da lareira.

– Recebi uma resposta à minha carta de intenção. – Ele

atravessou a sala, pegou o colete e procurou dentro do bolso.

Tudo o que estava congelado no píer havia derretido no

calor da taverna, e Reilly demorou algum tempo para tirar um

pedaço de papel ensopado das profundezas do bolso igualmente

molhado. Levantou-o contra a luz e viu que não se tratava do

que ele queria. Era a carta de Christine, que ele guardava de

encontro ao coração, desde o dia fatídico em que a recebera.

Àquela altura não passava de uma folha de papel de carta

cor-de-rosa que havia sido desdobrada e dobrada várias vezes,

com algumas frases manuscritas, perceptivelmente uma letra

feminina, a de Christine.

Brenna tornou a levantar uma sobrancelha ruiva.

– ―Isto‖ não me parece um anúncio do The Times – ela

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afirmou.

Reilly enfiou o pedaço de papel rosa no bolso e tirou outro.

– Aqui está. É a resposta à carta que escrevi depois de ver

o anúncio. É de Iain MacLeod, Conde de Glendenning...

Dos lábios da moça saiu uma palavra de tamanha baixeza

que Reilly se lembrou de tê-la ouvido apenas uma vez no cais de

East London, nas primeiras noites após Christine ter rompido o

noivado, quando Pearson e Shelley haviam insistido em que ele

fosse se encontrar com uma prostituta para aliviar a dor do

coração partido. A voz de Brenna, profunda e peculiar,

repercutiu pelo recinto até alcançar os ouvidos da proprietária

da taverna, que imediatamente saiu de perto do barqueiro.

– O que houve, senhorita Brenna? – A mulher estava

preocupada. – Ele a desrespeitou? – Ela fitou Reilly com

reprovação. – Tenha modos, senhor. Este é um estabelecimento

respeitável, e não quero ver meus visitantes insultados.

Agradeço sua boa vontade por haver carregado Stuben até aqui,

mas isso não lhe dá o direito de desrespeitar a senhorita

Brenna...

– Ouça bem, senhora – disse Reilly, surpreso. – Não

encostei um dedo na senhorita Brenna e sinto-me ofendido com

a insinuação de que me comportei de maneira que possa ser

considerada desagradável...

Ele parou de falar quando a parte supostamente ofendida

tirou a garrafa de uísque das mãos da mulher mais velha e

bebeu – com os mesmos belos lábios que haviam proferido

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aqueles palavrões – um gole generoso da boca da garrafa.

Reilly nunca vira uma mulher beber uísque, quanto mais

do gargalo de uma garrafa. Christine ocasionalmente bebia

vinho e nada mais forte, e sempre numa taça de cristal.

Ainda assim, embora estivesse chocado, o fato não lhe

desagradou. Esse era o comportamento que se podia esperar de

alguém que tinha o infortúnio de se chamar Brenna.

Ela tirou a garrafa da boca e devolveu-a para a

proprietária da taverna.

– Perdoe-me, senhora Murphy – ela disse sem se mostrar

envergonhada. – Não foi esse aí. Foi ele novamente.

A senhora Murphy parecia aborrecida não pelos modos de

Brenna, mas pela informação que recebera.

– Ah, querida.

– É melhor eu ir embora... – Ela fechou a capa, para

desapontamento de Reilly, que não podia mais apreciar suas

belas coxas – ...e ver se posso dar um jeito nisso.

– Oh, Deus. – A senhora Murphy inspirou fundo. –

Francamente, senhorita Brenna, acho que não deve ir sozinha...

– Nada me acontecerá. – disse ela, sacudindo os cabelos

ruivos. – Mantenha o senhor Stuben aquecido, mas com chá e

não com uísque. Entendeu, senhora Murphy?

– Entendi – a outra murmurou. – Tenha cuidado,

senhorita Brenna. A neblina está muito densa e o vento, gelado.

Brenna fez um gesto de pouco-caso com a mão.

– O doutor Stanton parece estar precisando de um uísque

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– foi seu último comentário antes de apontar Reilly com a linda

cabeça, enquanto se dirigia para a porta. – E ele também

necessita de uma camisa seca, se a senhora encontrar uma

grande o suficiente.

Reilly imaginou que fora brevemente demitido.

– Eu disse... – ele gritou. – Ainda não acabei... – a porta da

Lebre Ferida bateu com força – ...de falar com a senhorita.

– Não se importe com a senhorita Brenna – disse a

senhora Murphy em tom maternal. Ela se aproximou e

finalmente pôs a manta nos ombros dele. – Agora cuidaremos

do senhor e o secaremos. O senhor deve estar congelando. A

senhorita Brenna tem razão ao dizer que será difícil encontrar

na aldeia uma camisa grande o suficiente para seu tamanho...

exceto as de Lorde Glendenning, mas ele não tem por costume

emprestar as camisas. Tome um copo de uísque para se

aquecer até que suas roupas sequem. – Ela serviu a bebida da

mesma garrafa que Brenna havia bebido.

Reilly pegou o copo sem perceber. Seu pensamento estava

na jovem que havia partido tão de repente. Ele limpou o vapor

condensado da vidraça com uma ponta da manta e viu-a

montar em uma égua cinzenta cujas pernas eram pouco mais

longas que as de Brenna.

Ele nunca havia visto uma mulher cavalgar com uma

perna de cada lado. Na verdade, conhecera poucas cavaleiras.

Sua mãe e irmãs preferiam usar uma carruagem para ir ao

parque e voltar. E Christine tinha horror a cavalos. Não sabia

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montar e sequer tinha traje de montaria.

Bem, a amazona Brenna também não usava traje de

montaria, nem montava de lado como as mulheres. Ela cutucou

a égua com os calcanhares e, de repente, a amazona e sua

montaria desapareceram no nevoeiro.

– Como a rainha Boadicéia1 – disse Reilly, exprimindo em

voz alta, sem querer, seu encanto.

– É verdade – a senhora Murphy respondeu sem

entusiasmo. – Como o senhor disse. Afinal, o senhor pretende

separar-se de suas calças ou elas se tornaram parte de sua

pele? Se quiser me dar suas botas, pedirei a Nancy que as

recheie. Assim o couro não perderá o belo formato.

Reilly se sentou e, sem hesitar, começou a tirar o calçado.

– Quem é aquela mulher? – ele perguntou. – Ela não é

daqui, é?

– Está se referindo à senhorita. Brenna? – A senhora

Murphy viu que ele tinha dificuldade para tirar as botas.

Abaixou-se e levantou um dos pés dele.

– Ela nasceu em Londres, não é?

A bota foi solta com um grande barulho de sucção. A

senhora Murphy desequilibrou-se para trás e um jato de água

do mar saiu do calçado que antes fora bonito.

– Sinto muito – Reilly se desculpou ao ver a poça de água

no chão. – Se a água causar um dano permanente, pagarei pelo

prejuízo. Então, ela é de Londres?

A senhora Murphy mandou que duas de suas criadas

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limpassem o chão. Sem aparentar que ouvira a pergunta,

começou a tirar a outra bota.

– Ela é de Hampstead, não é? – Reilly tirou alguns

apontamentos da carteira.

A segunda bota saiu, e as criadas se apressaram em

limpar a água que se espalhava. Reilly mexeu os dedos quase

congelados dentro das meias molhadas.

―O que uma jovem de Hampstead estaria fazendo aqui?‖,

ele se perguntou. ―Seria casada com um sujeito da região? Mas

por que então a chamavam de senhorita Brenna? ”.

Não que isso lhe importasse. Não estava naquela ilha para

desvendar o estado civil de mulheres que tinham a má sorte de

chamar-se Brenna... Mesmo que fossem muito bonitas,

vestissem calças e montassem de pernas abertas. Ainda mais

uma que demonstrara antipatia por ele. E que era tão segura de

si.

Nada disso. Estava naquela ilha para provar à ex-noiva

que não era nenhum amador nas artes médicas. Tinha as

melhores intenções, pretendia salvar vidas. Por isso abandonou

sua clínica em Londres, onde seus pacientes tinham o hábito

frustrante de adoecer com males que não lhes ameaçavam a

vida. Como poderia provar a seriedade de seu compromisso com

a profissão médica, se não havia doentes para serem salvos?

Por Deus, ele haveria de provar competência, nem que

tivesse que aturar mil senhoritas Brenna...

– Lyming – a dona da Lebre Ferida anunciou.

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– Como? – Reilly olhou para a mulher.

– A senhorita Brenna. – A senhora Murphy anuiu. – Ela

nasceu e foi criada aqui.

Reilly não ocultou o espanto.

– Ela é de Lyming?

– É. – A mulher parecia não ter entendido o assombro dele.

Foram necessários alguns segundos para Reilly digerir a

informação. Então não conteve a curiosidade.

– Como isso é possível? Ela é muito bem-educada e tem

conhecimentos médicos. Ora, ela é muito jovem para ser

parteira, não é? Ela não deve ter mais de vinte anos. A senhora

Murphy ouvia tudo atentamente, mas não parecia disposta a

responder. Em vez disso, ela lhe fez uma pergunta.

– Senhor Stanton, onde está sua arca? Talvez possamos

encontrar nela uma camisa. E uma muda de calças.

A questão bem colocada o distraiu do interrogatório que

pretendia continuar.

– Tenho uma na barca, além de algumas sacolas com

equipamentos médicos. Talvez fosse melhor levar tudo direto

para a casa.

– Casa, senhor? – A mulher se espantou.

– Sim, senhora. Lorde Glendenning escreveu que a

moradia estava incluída no cargo. Disse que se tratava de uma

casa. Ou melhor, creio que ele citou uma cabana. Cabana do

Riacho, é isso.

As moças que limpavam o chão se detiveram de imediato,

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igualmente surpresas.

– O senhor tem certeza de que ele disse Cabana do

Riacho? – A senhora Murphy o fitou com incredulidade.

– Absoluta – Reilly confirmou. – Lembro-me de ter

estranhado o nome curioso e ter esperança de que o local fosse

perto de um rio, caso a moradia estivesse sujeita a incêndios.

Só ele riu. Ou ninguém tinha senso de humor ou seu

comentário não tinha graça. Na verdade, Christine sempre

insistira em que suas gracinhas eram, na maioria das vezes,

inoportunas, e talvez aquela fosse uma dessas ocasiões. As

criadas, após um olhar severo da patroa, levantaram-se e

trataram de voltar às funções habituais de servir os fregueses.

Stuben já vestira roupas secas, que provavelmente eram

guardadas na taverna prevendo acidentes como os daquele dia.

– Não se preocupe, senhor – disse a senhora Murphy com

um sorriso bondoso. – A cabana é adorável, mas...

– Ora, senhora. É evidente que falta esclarecer algo. O

local está condenado? Ouvi falar da epidemia de cólera que

atingiu a ilha no verão passado. A Cabana do Riacho ficou de

quarentena?

– Não, não – a senhora Murphy apressou-se a responder.

Não foi bem isso. É que...

– Vamos lá, Moira. Conte para ele – um dos homens gritou

do bar.

– É que... – a senhora Murphy estava hesitante. – É muito

tarde irmos para lá agora, pois o nevoeiro está muito intenso.

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Mandarei alguém buscar suas coisas, e o senhor passará esta

noite aqui. Flora ficará com Maeve, não é?

Flora, com a grande barriga sob o avental sujo, revirou os

olhos em resposta e começou a subir uma escada em mau

estado que ficava nos fundos.

– Escute – disse Reilly, assustado. – Não há necessidade de

a senhorita... senhora Flora mudar de cama. Não pretendo dar

trabalho.

– Claro que não. – A senhora Murphy parecia alarmada

com a sugestão. – Não há problema se Flora mudar de cama.

– Isso é o que a senhora diz – Flora murmurou alto o

suficiente para ser ouvida pela patroa, que foi atrás dela de mão

erguida.

– Chega, mocinha – disse a senhora Murphy, que foi

segura por Reilly antes de abaixar a mão.

– Eu já lhe disse, senhora – insistiu Reilly, com fingida

alegria. Em sua opinião, nada era mais asqueroso do que um

patrão bater num empregado, exceto, é claro, maridos que

batiam nas esposas. – Não seria nada cavalheiresco tirar uma

jovem de seu quarto. Nem quero ouvir falar nisso, ainda mais

por se tratar de uma em estado tão delicado. Se meus colegas

ouvissem falar disso, eu seria expulso da associação.

Aquela era uma mentira deslavada. Muitos profissionais

que conhecia não se incomodariam em tirar uma mulher

grávida da cama para o próprio conforto. Aliás, a maioria

acharia ter esse direito só por ser médico, o que Reilly não

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conseguia entender.

Como a senhora Murphy na certa não conhecia muitos

médicos, também não podia constatar esse fato tão estranho.

– Prezada senhora – Reilly afrouxou o aperto no pulso, mas

não o soltou –, se tiver a generosidade de mandar trazer minhas

coisas para cá, eu me acomodarei no sofá e pronto.

A senhora Murphy não foi a única a olhá-lo com espanto.

Maeve, Nancy e até Flora o fitavam como se ele fosse um

espécime desconhecido.

E, para elas, talvez fosse. A clientela habitual da Lebre

Ferida não se preocuparia com o lugar onde ia dormir uma

jovem grávida nem se importaria se ela apanhasse da dona.

Por outro lado, os olhares das mulheres poderiam não se

dever à gentileza de Reilly, mas sim ao fato de a manta ter

escorregado quando ele segurou o pulso da senhora Murphy.

Seu peito nu ficara exposto mais uma vez, para o deleite de

quem o inspecionava.

A senhora Murphy foi a primeira a afastar os olhos daquilo

que as embevecia.

– Bem – disse ela, devagar. – Não sei. Lorde Glendenning

certamente não vai gostar disso...

– Ora, se ele não gostar – Reilly contestou –, não seria o

caso de fazer um convite para eu me hospedar no castelo de

Glendenning?

A senhora Murphy anuiu sem entusiasmo.

– Sim, ele poderia tomar essa atitude.

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– Então está resolvido. – Reilly soltou o braço gordo da

mulher, segurou a manta e protegeu-se dos olhares lascivos das

moças. Depois pegou o copo de uísque que esquecera de beber e

ergueu-o em um brinde na direção de Flora. – A saúde das

jovens damas...

Ele fitou de viés o barqueiro – que voltara a desfalecer,

devido ao grande número de drinques que os companheiros lhe

haviam oferecido – e deitou a cabeça para trás enquanto bebia o

uísque de uma só vez.

A bebida era deliciosa, de boa qualidade, embora forte o

bastante para provocar ardência na vista. O líquido ardente

desceu pela garganta, aquecendo-o em todos os locais que ele

pensava que tinham se congelado para sempre. Refletiu que

Pearson e Shelley deviam pagar de duas a três coroas por cada

copo da bebida que ele estava tomando de graça, em retribuição

por haver salvado do afogamento um barqueiro semimorto.

Ah, e eles que o haviam incentivado a não deixar Londres!

Depois de ingerir várias doses de uísque e de vestir roupas

secas tiradas da arca, ele se lembrou de um dos motivos de

Christine ter rompido o noivado – pelo menos um dos citados na

carta que, quase ilegível, estava pendurada em um gancho

acima da lareira – que era sua embriaguez crônica, embora a

última palavra fosse um exagero. Afinal, ele até bebia menos do

que outros homens que conhecia.

Mas a doce e piedosa Christine, que nunca perdia uma ida

à igreja aos domingos e pertencia a mais sociedades – da

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temperança, missionárias e abolicionistas – do que se podiam

contar nos dedos, achava que uma ou duas doses à noite era

uma quantidade excessiva.

Era possível que ela estivesse certa. Quanto mais ele bebia

– a Lebre Ferida tinha uma atmosfera de bacanal difícil de

resistir –, menos ele se lembrava do propósito de ter ido para

aquele lugar deserto.

E não era para competir com os bêbados locais, como

parecia estar fazendo, mas para executar boas ações, para se

sacrificar pelos outros, para provar a Christine King, de uma

vez por todas, que Reilly Stanton – Lorde Reilly Stanton, pois

afinal não era o oitavo marquês de Stillworth? Se é que isso

valia alguma coisa – era um homem de coragem e convicção que