A Dama da Ilha por Patricia Cabot - Versão HTML

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não precisava acenar com o título, como se fosse uma bandeira,

para conseguir respeito. E certamente não era o bêbado

imprestável e indeciso que ela imaginava.

Por Deus, haveria de provar isso a ela, nem que tivesse

que salvar mais vezes barqueiros embriagados nessa costa

rochosa.

– Stanton. – Adam MacAdams, o novo melhor amigo de

Stanton, o mais velho e desdentado dos pescadores,

interrompeu sua meditação, segurando-o pela nuca. – Deixe-me

pagar outro drinque para o senhor – disse, arrastando as

palavras com a língua enrolada.

– Não, muito obrigado – Reilly recusou com cortesia. – Já

bebi o bastante.

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– Só mais um. O senhor salvou meu companheiro Stuben.

Não vai permitir que eu lhe pague uma dose em agradecimento?

– Não fui eu quem o salvou, mas sim a senhorita Brenna.

– Só mais um drinque – MacAdams insistiu.

Reilly nunca fora tão bem-recebido em nenhum lugar.

Seus amigos ingleses estavam muito enganados. Os habitantes

das Terras Altas eram criaturas muito civilizadas. E o povo da

ilha de Skye era o mais bondoso e amigável de todos.

– Está bem, só mais um – Reilly aceitou, com lágrimas nos

olhos. – Mas só se eu puder fazer o brinde.

– Fique à vontade – MacAdams consentiu. – Faça o brinde.

Reilly ergueu seu copo no alto.

– Gostaria de brindar à dama mais bela, gentil e doce do

mundo, a autora desta carta – todos se viraram para olhar o

papel de carta cor-de-rosa que secava perto da lareira. À

graciosa, adorável e devota mulher com quem pretendo me

casar, se ela me quiser, é claro: a respeitável senhorita

Christine King.

– À senhorita King – os pescadores entoaram.

Todos esvaziaram seu copo, e Reilly voltou-se para

MacAdams.

– Agora me diga qual é o problema com a Cabana do

Riacho.

A resposta não veio, porque todos os seus novos amigos

haviam adormecido antes que ele terminasse o discurso.

Reilly, com uma reação de companheirismo reconfortante,

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decidiu que seria falta de cavalheirismo não se juntar a eles

naquele cochilo hospitaleiro... independentemente do que

Christine pensasse a respeito disso.

1 Rainha celta (circas 6 d.C.) que liderou uma revolta

contra a ocupação do Império Romano.

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3

O castelo era muito antigo, mas ao longo dos séculos

foram feitos alguns acréscimos. O curioso é que as partes mais

modernas – datadas talvez de 1650 – começaram a se deteriorar

primeiro. As paredes vinham se estragando por décadas a fio, e

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não havia alicerces. A cada primavera, as masmorras se

inundavam. Como não havia mais prisioneiros nas celas

subterrâneas, o transtorno não era relevante, mas os ninhos de

ratos que se alojavam entre os barris de vinho no porão eram

levados pela água para a parte residencial do castelo.

Esse fato aborrecia os criados, mas não o dono do castelo.

Brenna acreditava que, se um rato do tamanho de um pônei se

aconchegasse no peito de Lorde Glendenning, ele só se irritaria

se o animal o impedisse de levar à boca o caneco de cerveja.

Brenna, da entrada, fitou o conde adormecido e lamentou

que não fosse primavera.

Não que lhe agradasse encontrar animais nocivos nos

corredores escuros e bolorentos do castelo de Glendenning. De

maneira nenhuma. Mas ela preferia que Iain MacLeod, décimo

nono conde de Glendenning, não fosse tão tolerante com os

ratos em sua propriedade, caso ela resolvesse jogar um desses

animais nojentos no pescoço dele, o que ele bem merecia.

Sem roedores à mão, Brenna cruzou o recinto e deu um

chute nas canelas do conde estendidas perto da lareira.

Os pés enormes de Lorde Glendenning bateram no chão de

pedra fazendo um grande barulho, acordando os cães

aconchegados diante do fogo. Os cães se levantaram e

começaram a latir furiosamente. O conde procurou a espada

nas dobras do manto em que estava enrolado e gritou:

– Pare aí, ladrão! Tenho uma arma e sei como usá-la!

Ele finalmente brandiu a antiga e ameaçadora espada de

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lâmina larga – que diziam estar em sua família desde os tempos

do rei Arthur –, mas a pessoa para quem ele apontava a espada

não parecia impressionada. Na verdade, Brenna afastou – com o

polegar e o indicador – a ponta encostada em seu pescoço.

– Milorde não poderia, ao menos, ter me contado que

pretendia contratar um novo médico?

Parecia que o conde havia acordado. Piscou as pestanas

escuras que escondiam os olhos azuis-claros que despedaçavam

muitos corações femininos.

– Brenna, é você?

– Claro que sou eu. – Ela se curvou, passou por baixo da

espada e esticou diante do fogo os dedos gelados pela

cavalgada. Os cães, reconhecendo uma amiga, pularam sobre

ela, pedindo carinhos com o focinho e lambendo seu rosto.

– Parem! – ele gritou com os animais, mas, como de

costume, não foi obedecido.

Brenna se sentou de costas para o fogo e disse com voz de

comando:

– Não! Sentados!

Os cães obedeceram.

– O que você está fazendo aqui? – Lorde Glendenning

tornou a embainhar a espada. – Por acaso mudou de ideia? –

Ele afastou do rosto os cabelos negros e longos e examinou a

expressão dela sob a luz fraca das chamas que já estavam

diminuindo. – Por Deus, é isso mesmo. Finalmente você criou

juízo. Bem, isso merece uma celebração. Raonull! – O conde

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atirou a cabeça para trás e berrou mais alto do que os sonoros

uivos de seus cachorros. – Raonull! Acorde e traga vinho!

– Pare com essa gritaria – disse Brenna e, por instinto,

começou a tirar carrapichos dos pelos do cão mais próximo

dela. O cão adorou a atenção e descansou a cabeça pesada em

seu colo. – Será que milorde perdeu todo o bom senso que Deus

lhe deu? Não mudei de ideia. Quero saber apenas por que

contratou um médico sem falar com ninguém.

O conde pareceu desconcertado.

– Contratar... – Ele piscou algumas vezes. – Ah, você

descobriu, não foi?

– Descobrir? – Brenna sacudiu a cabeça. – Não foi preciso.

O camarada entrou na taverna de Moira há meia hora.

Francamente, milorde. Como pôde fazer uma coisa dessas? Pelo

menos podia ter me alertado...

– Há meia hora? – Perplexo, Glendenning largou-se na

poltrona de tapeçaria onde dormia até pouco tempo atrás. – Mas

ele só deveria vir na quarta-feira.

Brenna revirou os olhos.

– Milorde, hoje é quarta-feira.

– Ah.

Iain MacLeod olhou para as grandes mãos calosas, como

se elas pudessem salvá-lo da situação constrangedora. Brenna

fitava-o com calma. Embora o conde raramente tivesse uma

atitude que lhe agradasse, ela sabia que não se tratava de uma

ofensa consciente, mas sim de uma maneira tola de agir. De

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fato, muitas vezes ele saía de sua rotina apenas para

contentá-la. E não era culpa dele se essas tentativas

fracassavam.

Era o que Brenna dizia a si mesma toda vez que tinha

vontade de estrangular aquele grosso pescoço.

– Milorde poderia – disse Brenna, repreendendo-o com

certa dose de carinho, enquanto acariciava as orelhas de um

dos cachorros – ao menos ter me avisado.

Lorde Glendenning franziu a testa. Ele era um homem

bonito. Na verdade, o mais bonito que Brenna já vira... Ao

menos, até conhecer Reilly Stanton, pois agora já não tinha

certeza.

Ainda assim, poderia afirmar que Lorde Glendenning

estava ciente de sua boa aparência – o que talvez não pudesse

ser dito a respeito do doutor Stanton – e o efeito devastador que

ele exercia sobre damas jovens e mais velhas. O conde usava,

sem remorso e sempre que possível, esse poder em seu próprio

benefício.

Brenna sabia muito bem que a boa aparência do conde era

enganadora. Sob uma expressão angelical, havia um coração

diabólico. Sem se deixar intimidar por sua carranca, ela

também franziu a testa.

– Essa não é uma batalha justa, não é verdade? – disse

ela, severa. – Milorde poderia, ao menos, ter-me avisado.

O conde ergueu o queixo quadrado e com covinha, azulado

pela barba sem fazer.

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– Eu pretendia avisá-la – respondeu ele com agressividade

– mas... esqueci.

– Entendo. – Brenna anuiu. – Milorde esqueceu. É claro,

que estupidez a minha! Pensei que milorde houvesse agido com

o propósito de me pegar desprevenida e me deixar vulnerável...

às suas sugestões.

– Mas que droga, Brenna! – O conde se levantou e

começou a andar de um lado para outro ao longo do recinto,

muito grande e que em tempos passados fora o grande hall do

castelo. Bandeiras antigas e rasgadas ostentavam o brasão

daquele ramo da família MacLeod – dois leões lutando em uma

campina – ainda estavam penduradas nas vigas do teto de mais

de seis metros de altura. – O que esperava que eu fizesse?

– Que procedesse como um homem – Brenna respondeu –

e não como um menino mimado.

– Não sei por que diz essas coisas. – Ele se virou tão

depressa que a capa longa que usava ondulou atrás dele como

uma nuvem de tempestade. – Estou agindo segundo o melhor

interesse de meu povo...

– Contratando um médico por um anúncio no Times de

Londres? – perguntou Brenna com sarcasmo. – Milorde tem

certeza de que esse homem é qualificado para o posto? Ele pode

ser um charlatão...

– Ele não é um charlatão. Ele me enviou várias cartas de

recomendação, todas excelentes. Brenna, ele estudou em

Oxford. É membro da Royal University...

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College – Brenna o corrigiu.

O conde deu de ombros.

– Ele tinha uma clínica em Londres há mais de um ano.

Alguns de seus pacientes eram nobres do reino. Uma delas era

uma viscondessa...

– Ah, e Deus sabe por que um médico de sucesso em

Londres aceitaria a oportunidade de jogar tudo fora e vir

trabalhar por uma miséria na área mais isolada e infestada de

pragas de toda a Europa?

Glendenning fitou-a com um olhar dardejante. Ele era,

infelizmente, imune ao sarcasmo.

– O que está pretendendo dizer?

– Estou dizendo que milorde foi enganado. Se ao menos

houvesse me consultado...

– O que a faz pensar que fui enganado? O que há de

errado com esse médico?

Brenna piscou. Na verdade, em certos assuntos, ele era

ingênuo como uma criança.

Mas bem crescido em outros.

– Bem, não há nada de errado com ele – ela afirmou. – Não

da maneira como milorde está pensando.

– Não? – Glendenning fez pouco-caso. – Da maneira como

você falou, pensei que, no mínimo, ele fosse corcunda.

– Ele não é corcunda – Brenna afirmou.

Longe disso. O doutor Stanton lhe parecia, pelo breve

encontro que haviam tido, um jovem vigoroso. Bastante

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vigoroso... pelo que pudera constatar. Não era comum Brenna

entrar na Lebre Ferida e se ver diante de um Apolo, mas foi isso

que aconteceu naquela tarde.

Pior ainda, um Apolo sem camisa, de ombros largos,

abdome plano, músculos rijos, pele acetinada e brilhante como

bronze. Brenna sentira-se compelida a desviar os olhos daquela

visão, ainda mais quando uma inspeção mais de perto revelara

uma floresta densa de pelos negros, que pareciam sedosos na

parte mais larga do peito e que se afunilavam no abdome, que

aparentava ser duro como uma rocha, e desapareciam de

maneira provocante no cós do calção.

Mais difícil de ignorar foi o fato de o médico ser tão alto

quanto o único homem em Skye que a superava em altura, além

de seu pai: o infame Lorde Glendenning. Mas o doutor Stanton

não tinha apenas a mesma altura do conde. Oh, não. Era

também tão forte quanto ele, como atestaram os músculos de

seus braços, quando ele os cruzou na altura do peito. Brenna

não podia imaginar por que um médico precisava de músculos

como aqueles, mas ele puxara Stuben de dentro da água, tarefa

que normalmente exigiria quatro homens.

Brenna sentira dificuldade em não demonstrar admiração,

embora não pudesse dizer o mesmo a respeito das criadas da

taverna, que haviam se comportado de maneira indecente

diante do recém-chegado... principalmente Maeve, que

praticamente arfava toda vez que olhava para ele. Nem se

poderia culpá-la. O doutor Stanton era uma visão mais do que

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agradável, com o corpo musculoso, mas delgado, e os ombros

largos e firmes, pra não falar dos olhos negros alegres e do riso

fácil.

Então o que, em nome de Deus, ele fora fazer em Skye?

– Ele deve estar envolvido em problemas em Londres –

Brenna afirmou.

– Problemas? – O conde olhou por sobre o ombro na

direção do aparador, onde estava o uísque. – Sobre o que você

está falando? Que tipo de problemas?

– Não sei – Brenna admitiu. – Mas nenhum homem

inteligente, como o doutor Stanton parece ser, viria para cá para

iniciar uma clínica. Não quando já possuía uma tão lucrativa

em Londres. Seria uma completa loucura. Portanto, só posso

supor que ele tenha cometido algum ato terrível e teve a licença

cassada. É a única explicação.

– Nada disso – indignou-se o conde e serviu dois copos. –

Eu mesmo escrevi para o Royal College of Physicians, a

associação médica inglesa, e me asseguraram que ele era um

excelente candidato para o posto, mas era questionável o motivo

pelo qual ele o aceitava.

– Ah! – Brenna deu um grito que assustou os cães. – Então

é isso! Ele não está em seu juízo perfeito.

Glendenning serviu a ela uma dose de uísque e mostrou-se

novamente preocupado.

– Você teve impressão de que ele é desequilibrado?

– Bem... não. – Infelizmente, ele lhe parecera bem lúcido.

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Brenna franziu a testa, deixou de lado a bebida, fora do alcance

dos cães e voltou a se animar. – Mas devo dizer que ele pulou

na baía atrás de Stuben.

O conde deu uma risada de triunfo.

– Aí está – ele declarou, satisfeito. – Isso explica tudo. Ele é

um ―daqueles‖ .

– Daqueles? – Brenna ficou curiosa.

– Ele não estava pregando religião na taverna de Moira?

– De maneira nenhuma. Mas de quem milorde está

falando?

– Stanton! – berrou Glendenning, e o nome ecoou nas

vigas do telhado. – De quem mais poderia ser? Brenna, você

terá que admitir que a razão para o camarada ter aceitado o

cargo é praticar o bem, ajudar os menos afortunados e tudo o

mais. Você conhece o tipo. Um fanático. Um defensor das boas

causas. Londres está repleta deles.

– Ah, com certeza. – Brenna ironizou. – É tão comum

médicos especialistas e bem pagos deixarem a cidade onde se

distinguiram para se estabelecer em minúsculas aldeias

costeiras das Hébridas, onde receberão uma ninharia de

salário... Ah, milorde na certa esqueceu. – Ela sacudiu a cabeça.

– Eu morei em Londres e sei como são esses homens. São os

mesmos que, como lhe falei, impediram meu pai de exercer a

medicina. Nenhum deles sacrificaria a vida confortável por – ela

olhou ao redor – isto.

Isto – repetiu Glendenning, parecendo magoado – é o

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castelo mais antigo de Skye, como você também sabe. De

qualquer forma, ainda está em pé.

– Tem razão, sem dúvida.

Satisfeito por Brenna não ter feito pouco-caso de sua

propriedade, o conde levantou o copo de uísque em sua direção.

– Brenna, você pode caluniar o médico à vontade, mas ele

disse que viria, está aqui e não vou mandá-lo de volta. Ele fica.

– Então – ela retrucou, rápido –, onde ele vai ficar?

O conde parou de rir e assentou o copo com energia na

mesinha ao seu lado.

– Você sabe muito bem onde – ele afirmou com voz

profunda.

Brenna concordou com um gesto de cabeça e sentiu-se

diminuída. Era isso. Ele não chegara a dizê-lo, mas era óbvio

que acontecera justamente o que ela mais temia, porém não

podia acreditar que o conde fosse realmente capaz de fazê-lo.

Apesar de todas as fanfarronadas, Glendenning era um homem

simples, incapaz de trapaças ou desculpas. Ou, pelo menos, era

o que ela imaginava até então.

– Isso muda um pouco as coisas, não é?

O conde parecia inquieto mas determinado.

– Mas não muda uma delas. – Ele parou a poucos passos

de Brenna e cruzou os braços musculosos na altura do peito. –

Você já deveria saber que sempre consigo o que quero.

Brenna deu de ombros.

– Só se passar por cima de meu cadáver.

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Ele rangeu os dentes e a contração dos músculos da

mandíbula foi visível à luz das chamas.

– Ora, Brenna, seja razoável.

– Eu tenho sido, mas isso que milorde acaba de fazer é

desprezível, até mesmo para alguém como o senhor.

– Veja – disse ele, franzindo o cenho, aborrecido. – Creio

que tenho sido paciente, dadas as circunstâncias. Mais paciente

do que qualquer outro homem teria sido, Brenna. Não pretendia

que você descobrisse o fato dessa maneira, na taverna de Moira,

mas devo dizer que me arrependo. Isso não está certo.

– Não, por Deus, não está, e não pense que não posso...

– O que já fiz está feito – Glendenning bateu um dedo no

próprio peito. – Estou agindo corretamente. Você é que está

fazendo confusão.

Eu? – Brenna ficou de pé num salto e de novo assustou

os cachorros. – Eu fazendo confusão? Essa é boa. Milorde sabe

que mais de mil vezes me ofereci para pagar-lhe um aluguel e

nunca recebi sua atenção.

– Brenna, você está atrapalhando tudo! Olhe para si

mesma. Você usa calças!

– Então é isso? – Ela passou por cima de um dos cães e

parou diante do conde, de cabeça erguida. – Nenhuma

discussão? Nenhuma negociação?

O conde parecia um pouco inquieto, e ela entendeu que

devia ser pela sua proximidade dele. No entanto, não podia

recuar.

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– Já tivemos negociações suficientes. Você conhecia minha

posição e agora sabe que venci. Sinto muito ter que agir dessa

maneira, mas você não me deixou escolha. Então diga, quando

posso esperá-la?

Brenna não pôde deixar de rir.

– Milorde deve estar brincando!

– Não estou. – O conde tentava ser duro, para manter um

comportamento digno. – Nunca falei tão sério.

– Pode ser, mas não está sendo esperto. Milorde sabe que

tenho outras opções.

– Opções? – O conde se alarmou. – Quais ―opções‖ ?

– Posso deixar Skye.

Para crédito do lorde, ele se manteve calmo, sem entrar em

pânico.

– Você poderia, mas tem de admitir, Brenna, que em outro

lugar que não Skye você...

– Eu o quê?

– Bem... Não se encaixaria.

Brenna lançou-lhe um olhar fulminante. Ele era

intolerável! Mesmo que estivesse certo.

– Milorde pensa assim porque uso calças e não saberia

usar um vestido? Sei muito bem me vestir como mulher,

milorde. E estou lhe avisando. Se milorde não desistir desse seu

plano ridículo, vestirei uma saia e irei embora desta ilha

miserável...

Brenna não obteve a resposta desejada. Em vez de recuar,

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o conde se adiantou, segurou-a pelos ombros com os dedos

calosos e puxou-a de encontro ao peito.

– Agora me escute. – Disse ele sacudindo-a com tanta força

que fez seus longos cabelos avermelhados caírem sobre seu

rosto. – Você não vai a lugar nenhum, entendeu?

Os olhos azuis do conde se tornaram frios como o gelo que

cobria o riacho.

– Se pensa que pode fugir na balsa, darei um jeito de

descobrir quando o fará – o conde assegurou. – Acha que eu não

faria isso? Afinal, sou o senhor desta pequena aldeia. Se for

preciso, eu a arrastarei de volta.

―Brenna, como sempre, você falou demais‖, ela pensou,

sentindo o coração disparar e engolindo em seco.

– Francamente, milorde – ela conseguiu dizer, com calma

–, será que precisa comportar-se com tanta brutalidade? É bem

melhor quando milorde age com mais comedimento.

– Minhas atitudes intempestivas são provocadas por você –

ele a acusou. – Você sabe disso, Brenna.

Nisso, ele pensou que uma expressão mais física de seu

ardor talvez fosse mais persuasiva que as palavras. Assim,

apertou Brenna de encontro ao peito e encostou os lábios nos

dela, confiante em que, dessa maneira, lhe transmitiria um

pouco de sua paixão.

O efeito foi desperdiçado. Brenna começava a se assustar

com essa demonstração de emoções incontidas.

E ela então fez o que achou razoável nessas

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circunstâncias. Atingiu o conde na orelha com a lateral de seu

punho. Surpreso, ele afastou a boca e o rosto. Brenna

aproveitou para dar-lhe um soco no olho direito.

O conde gritou e soltou-a de imediato. Cambaleou,

segurando a face.

– Pelo amor de Deus, Brenna – ele gritou. – Por que fez

isso?

Brenna esquivou-se dele e ficou do outro lado da sala,

rodeada pelos cães, que uivavam, nervosos.

– Milorde sabe perfeitamente o motivo – ela não se

incomodou com a voz trêmula. – Se pretende se comportar como

um bruto, será tratado como tal.

– Mesmo assim, você não precisava bater com tanta força –

o conde retrucou, deprimido.

– Ora, milorde também não devia ter me agarrado daquela

maneira.

– Eu sei. É que... – o conde se deixou cair em sua poltrona

e pegou o copo de uísque – ...estou louco de amor por você.

– Não está, não. – Brenna sentia por ele certa simpatia. Ele

não passava de uma criança grande. – Milorde pensa que está,

mas continua confundindo amor com desejo.

– Você sempre diz isso, mas não é verdade – o conde

teimou.

Brenna deu um suspiro. Não adiantava argumentar com

Glendenning, quando ele estava daquele jeito. Devia ter ido

embora, assim que reconhecera os sinais. No entanto, fez uma

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última tentativa.

– Milorde vai mandar o doutor Stanton de volta para

Londres ou não?

– Não vou mandar ninguém de volta – ele respondeu,

sombrio. – O que acha disso?

O conde ficou sem saber o que ela estava pensando, pois

Brenna se virou e saiu do castelo. Ah, como ela desejava que as

chuvas da primavera viessem mais cedo e que Lorde

Glendenning fosse devorado pelos ratos durante seu sono

odioso.

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4

-D outor Stanton?

Reilly estremeceu, mas não abriu os olhos nem levantou a

cabeça.

– Doutor Stanton, o senhor está bem?

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Reilly abriu devagar uma pálpebra e fechou-a

rapidamente. Na certa, ainda estava sonhando. Ele, Pearson e

Shelley haviam bebido em excesso na noite anterior e agora

estava pagando por isso. Mergulhara num daqueles pesadelos

abomináveis sobre poetas românticos, consequência, sem

dúvida, de outra daquelas tediosas leituras poéticas a que

comparecia por insistência de Christine.

– Doutor Stanton? Vi o senhor espiando com um olho. Sei

que não está dormindo.

Reilly escutou um barulho, como se alguém muito grande

houvesse se sentado em uma cadeira fraca para seu peso.

– Levante-se e venha tomar o café da manhã comigo.

Reilly deu um suspiro e abriu os olhos. Se arrependeu

imediatamente e desejou fechá-los de novo.

Não se tratava de um sonho. Lorde Byron estava sentado

ao seu lado.

Bem, não era Byron, que morrera havia uns vinte anos,

mas alguém parecido com ele... ou melhor, alguém que

pretendia rivalizar com ele. Aquele homem tinha ombros largos

e quadris estreitos, sem o menor traço de gordura. Era

musculoso, e o cabelo, exageradamente longo e negro, lhe caía

na testa; os braços peludos apareciam porque ele enrolara para

cima as mangas da camisa branca. Como estava sem gravata,

pelo colarinho aberto, também se notavam os pelos.

Estava de barba feita, mas alguns pelos já cobriam o rosto

magro e bem-delineado. Apesar da penumbra – Reilly supôs que

50

fosse madrugada – era possível notar que o homem era bastante

viril.

Exceto pela saia que usava.

Mas não era uma saia. Era um kilt. E a quantidade de

pelos que apareciam dos joelhos para baixo da barra da

vestimenta era fenomenal.

– Quem é o senhor? – disse Reilly arrastando as palavras,

uma prova de que bebera muito.

– Glendenning – o homem respondeu com voz tão

profunda que parecia reverberar como um trovão no crânio de

Reilly, levando-se em conta a fragilidade de seu cérebro naquela

altura dos acontecimentos. – Iain MacLeod, conde de

Glendenning. Vim o mais cedo que pude. O maldito nevoeiro

impediu que eu viesse antes. Parece que o senhor se entreteve

de maneira satisfatória durante minha ausência.

Com a visão borrada, Reilly olhou ao redor. Adam

MacAdams e seus amigos estavam jogados ao redor do bar em

diversos estágios de inconsciência. Apenas Stuben, o

ressuscitado, encontrara um local confortável para dormir,

estendido no sofá que a senhora Murphy preparara como cama

para Reilly.

– Que... – Reilly estremeceu e abaixou o tom de voz. – Que

horas são?

– Quase seis. Parece que o senhor e seus amigos se

divertiram muito – ele afirmou.

Reilly

observou

os

parceiros

embriagados,

que

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ressonavam. Estranho, eles pareciam bem menos velhos e feios

à noite do que à pequena claridade do amanhecer.

– Creio que sim – Reilly admitiu, relutante, pois na verdade

não se lembrava de nada. – Só não entendo por que a senhora

Murphy não os despediu na hora de fechar.

– Hora de fechar? – Lorde Glendenning sorriu, e Reilly se

reclinou mais na cadeira, espantado pelo tamanho dos dentes

na boca do conde, que lembravam os de um lobo. – Não existe

hora de fechar em Skye. Moira deixa que bebam até cair, quase

todas as noites. Aposto que a maioria deles não aparece em

casa há mais de um mês.

Reilly fez uma careta. Isso explicava o cheiro daquele

lugar.

– Não que eles façam muita falta – Glendenning continuou.

– Algumas das esposas são muito bonitas. – Ele piscou para

Reilly. – Aqueci muitas camas, enquanto esses idiotas ficavam

sentados neste bar, bebendo até cair.

Reilly ficou horrorizado, não pelo fato de Lorde

Glendenning admitir despreocupadamente o adultério, mas por

ele achar normal dormir com as esposas daqueles homens

idosos. A situação em Skye era bem pior do que ele fora levado

a acreditar.

Glendenning notou o espanto de Reilly e sorriu.

– Sei o que lhe passa pela mente, mas garanto que se

engana. Está vendo o velho MacAdams?

Reilly anuiu com um gesto de cabeça.

52

– Ele tem uma mulher que não tem ainda trinta anos e por

que não? Ele mesmo tem pouco mais de trinta e cinco.

Reilly ficou boquiaberto.

– Meu Deus... ―eu‖ tenho trinta e...

– É o mar. – Glendenning deu de ombros. – Muitas horas

ao ar livre, sob a ação do sol, vento, da brisa salgada, o mau

tempo... Uma vida dessas envelhece um homem muito antes da

hora.

Reilly sacudiu a cabeça.

– Jamais teria pensado nisso, nem em um milhão de anos.

– Claro que não. Por que isso lhe ocorreria? – Glendenning

olhou em volta. – Nenhuma das moças se levantou? Pensei que

podíamos conversar durante o desjejum.

Reilly também olhou para os lados.

– Creio que não. Não se preocupe, não estou com...

– Mas eu estou. – Glendenning se levantou com as juntas

reagindo em protesto e foi até a escada dos fundos. – Vamos ver

se consigo convencer uma delas a fritar alguns ovos. Quando

quero, sei ser bastante persuasivo. – Olhou por sobre o ombro e

piscou, antes de desaparecer escada acima.

Reilly, com expressão impassível, esperou o conde sumir,

levantou-se depressa e pegou a carta de Christine de cima da

lareira já fria. Como pudera deixar uma coisa tão importante

pendurada à vista de todos como se fosse uma simples receita

ou uma carta de recomendação? A mensagem da noiva

desmanchando o compromisso não era algo que um homem

53

devesse ostentar. Ainda bem que a água do mar apagou a

maioria das palavras de Christine. Não que fizesse diferença. Há

muito, ele havia memorizado o texto. Mesmo assim, não havia

necessidade de partilhar sua intimidade com desconhecidos

com quem teria apenas uma relação profissional.

Foi até sua arca, que a senhora Murphy mandou buscar

no barco de Stuben e deixara sob o bar, levantou a tampa, pôs

a carta dentro, tirou o diário junto com a tinta e a pena suja.

Sentou-se, abriu o diário, verificou a última anotação e

escreveu:

15 de Fevereiro, 1847.

Bebi muito a noite passada e estou enjoado, com vontade

de vomitar. Christine tinha razão. Sou mesmo um bêbado

imprestável. Como poderei provar que ela estava errada?Além de

parar de beber, é claro.

Não consegui salvar a vida de um homem ontem à noite. Ele

ressuscitou diante de toda a aldeia por obra de uma amazona de

calças. Ela se chama Brenna, mas é diferente de todas as

Brennas que conheci.

Reilly fez uma pausa, pensando em como descrever aquela

mulher tão atraente e ao mesmo tempo tão rude. Decidiu que,

por causa da dor de cabeça, aquela tarefa estava além de suas

possibilidades no momento. Resolveu escrever sobre Iain

MacLeod.

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Lorde Glendenning se parece assustadoramente com Lorde

Byron. É preciso ter receio de olhar para seus pés, caso se pense

em dar uma surra nele. Ninguém ainda mencionou o prato

haggis , feito com miúdos de carneiro picados. Pearson e Shelley

se enganaram de novo.

Parece haver algum problema a respeito da cabana.

Escutou alguns ruídos sugestivos e olhou para cima.

Guardou o diário e se sentou no bar, pensando se o café faria

sua dor de cabeça melhorar. Nisso o conde retornou, seguido

por Flora, que, aos risinhos, ainda se esforçava para abotoar o

vestido. O que o fez entender com clareza que Glendenning era

o responsável pela gravidez de Flora e imaginar quantos

bastardos aquele homem gerara entre as criadas da Lebre

Ferida.

– A senhorita Flora concordou em preparar algo para nós,

doutor – o conde explicou, com sua voz retumbante. – O que

acha de nos sentarmos a esta mesa e esperar o desjejum digno

de um rei que ela prometeu fazer?

A ideia de comer deixou Reilly nauseado, mas ele

acompanhou Glendenning até a mesa indicada, depois de

passar com cuidado por cima de um de seus novos amigos –

cujo nome ele não podia lembrar – que dormia no chão.

– Muito bem. – Glendenning ergueu o copo de cerveja que

Flora servira. – Primeiro faremos um brinde, doutor Stanton, à

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sua saúde. Seja bem-vindo a Skye.

Reilly olhou enjoado para a própria cerveja. Uma leve

camada de espuma cobria o alto do copo.

– Certo. A Skye.

Reilly bebeu o líquido espesso e fermentado.

A náusea que o invadiu o fez imaginar que vomitaria em si

mesmo, na mesa e sobre o conde. O que certamente não

causaria uma boa impressão em seu novo empregador, ele

pensou.

E, de repente, ele se sentiu melhor. A cerveja sossegou seu

estômago, e a dor de cabeça desapareceu.

O alívio deve ter se manifestado em sua fisionomia, pois o

conde achou graça.

– Tinha certeza de que isso resolveria o problema. É

preciso beber para curar a ressaca. Nunca falha.

Reilly olhou para a cerveja com admiração.

– Mal posso acreditar. A senhora Murphy devia patentear a

ideia e vender a cerveja como um tônico. Certamente os

americanos comprariam na hora.

Glendenning levou um dedo aos lábios.

– Ficou maluco, doutor? Ela nos deixaria, e onde iríamos

passar as noites?

– Correto. – Reilly concordou com a sagacidade do

raciocínio. – Tem razão.

Glendenning se coçou num lugar que não seria tão

acessível, se não estivesse usando um kilt.

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– Após o café da manhã, sairemos para avaliar o

dispensário. Pode imaginar que esteve fechado desde que o

último cirurgião...

– Médico – Reilly o corrigiu.

– Como é? – Glendenning olhou-o com espanto.

– Médico. – Reilly tomou mais alguns goles de cerveja. Ele

se sentia bem melhor. Ora, não demoraria muito para ter

Christine de volta. Seria preciso apenas curar algumas pessoas

da cólera e provar como a medicina era importante para ele.

Muito mais importante, apesar da opinião contrária de

Christine, do que ser marquês de Stillworth. Ele voltaria para

casa no próximo Natal e ela imploraria para que a aceitasse de

volta. – No anúncio, milorde procurava um médico.

– Certo. – Glendenning afastou do rosto algumas madeixas

de seus cabelos excessivamente longos.

Reilly supôs que Christine ia considerar o conde um

homem muito atraente, opinião talvez partilhada por outras

mulheres. Mas, para ele, Glendenning era lamentável, com

aqueles seus joelhos peludos batendo nos seus o tempo todo

sob a mesa e a mania incessante de se coçar que era grotesca.

Ora, era de se supor que ele próprio não estivesse com uma

aparência muito boa. A barba de um dia já lhe irritava o rosto, e

os cabelos já haviam se soltado da tira de couro com que os

prendia. Ainda assim, esperava que seu aspecto fosse bem

melhor que o de Glendenning, que dava a impressão de se

achar um herói de romance. Não se surpreenderia se o conde

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cavalgasse um garanhão negro.

– Certo, médico – o conde murmurou. – Por isso temos que

chamá-lo de doutor Stanton e não de senhor Stanton?

Reilly anuiu.

– O doutor terá que perdoar as pessoas se elas, de início, o

chamarem de senhor Stanton, pois não? Nosso último médico

não se incomodava quando o chamávamos de senhor Donnegal.

Reilly anuiu de novo.

– Soube que o senhor Donnegal não está mais entre nós.

– É verdade...

– Ouvi dizer que foi a cólera.

Glendenning fitou-o com expressão indecifrável.

– Sim, foi a cólera, mas não da maneira como está

imaginando...

– Oh, não se preocupe – Reilly interrompeu-o. – Não dou

valor excessivo à minha vida. Milorde verá que não terei o

menor problema em tratar de pacientes com cólera.

Na verdade, Reilly teve de se esforçar para não demonstrar

alegria. A noção de lutar contra uma epidemia de cólera, o que

poderia desencadear mau presságio no coração de outro

médico, era motivo de excitação para o doutor Stanton. Afinal, a

cólera era uma doença tão alarmante e devastadora que

chegava a impressionar até a excessivamente crítica senhorita

King. Se ele morresse em consequência de seu esforço para

salvar algumas vidas, pareceria ainda mais dedicado à

humanidade.

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Flora

apareceu

para

servi-los,

carregando,

com

dificuldade, uma bandeja enorme com uma quantidade

assustadora de comida. Felizmente isso distraiu Lorde

Glendenning, e ele não perguntou mais nada sobre a declaração

extraordinária de Reilly.

– Obrigado, meu amor. – O conde estendeu um

guardanapo sobre a camisa branca.

Reilly se levantou depressa, tirou a bandeja pesada das

mãos de Flora e tornou a se sentar. Foi então que reparou que

havia se tornado objeto de olhares incrédulos tanto da criada

quanto do Lorde.

– Obrigada, senhor – Flora agradeceu, espantada e

ruborizando.

– Ah, sim... obrigado, doutor. – Glendenning parecia

aborrecido por Flora ter enrubescido. – Eu a teria ajudado, mas

machuquei o polegar outro dia...

– Darei uma espiada nisso – Reilly se ofereceu, enquanto

punha uma porção de ovos no prato.

– Ah, já sarou – o conde disse.– Está apenas um pouco

sensível.

– Com certeza – disse Reilly com suavidade, mas refletiu

que o relacionamento entre eles era muito recente para

caçoadas e mudou de assunto. – Sobre a cabana, milorde...

– Ah, sim. – O conde encheu a boca com ovos e continuou

a falar, atirando partículas do alimento para todos os lados. – A

Cabana do Riacho. Temos uma ligeira dificuldade no

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momento...

– Verdade? – Reilly acompanhou um bocado de ovos

mexidos que fora cuspido e descia lentamente pela parede. –

Não estou nem um pouco preocupado com minhas

acomodações. Contanto que eu tenha um teto para me abrigar,

está ótimo. Se o local estiver desarrumado...

– Não se trata disso – o conde garantiu. – É que ainda não

pudemos nos livrar da atual moradora.

Reilly arqueou as sobrancelhas.

– Atual moradora, milorde?