A Descoberta das Bruxas por Deborah Harkness - Versão HTML

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A DESCOBERTA

DAS

BRUXAS

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Deborah Harkness

A DESCOBERTA

DAS

BRUXAS

Para Lexie e Jake,

e ao futuro brilhante que terão.

Começa com ausência e desejo.

Começa com sangue e medo.

Começa com uma descoberta das bruxas.

1

volume com capa de couro não possuía nada de extraordinário.

O Aos olhos de qualquer historiador não seria diferente das

centenas de outros manuscritos da Biblioteca Bodleiana, de

Oxford: antigo e usado. Mas o peguei e logo pressenti que havia alguma

coisa diferente nele.

A sala de leitura Duke Humfrey estava vazia naquela tarde de fim de

setembro, pois já tinha terminado a invasão de estudiosos que a visitavam

no verão e ainda não começara a loucura do início das aulas, de modo que

as solicitações de material da biblioteca eram rapidamente atendidas.

Mesmo assim, me surpreendi quando Sean me parou no balcão de

solicitações.

– Dra. Bishop, os seus manuscritos já estão disponíveis – ele sussurrou,

com um tom ligeiramente malicioso, ao mesmo tempo em que sacudia a

parte da frente de um suéter cor de argila que estava salpicado de pó dos

velhos barbantes de couro. Enquanto sacudia o pó, uma das mechas do seu

cabelo castanho-alourado pendeu em sua testa.

– Obrigada – disse-lhe, com um sorriso agradecido. O meu desrespeito

às regras que limitavam a quota diária de livros a serem solicitados era

flagrante. Sean, companheiro de copo em pubs do tempo de estudante,

satisfazia os meus pedidos por mais de uma semana com o maior

descaramento. – E pare de me chamar de dra. Bishop. É como se você

estivesse falando com outra pessoa.

Ele riu e deslizou os manuscritos – todos com belas amostras de

ilustrações alquímicas das coleções da biblioteca sobre o tampo desgastado

de uma escrivaninha de carvalho e devidamente protegidos por uma grossa

pasta de papel-cartão.

– Oh, ainda falta um.

Ele se ausentou do balcão por alguns instantes e retornou com um

grosso manuscrito in-quarto envolto em um pedaço de couro de bezerro.

Colocou o manuscrito no topo da pilha e se deteve para inspecioná-lo. A

armação de ouro dos óculos de Sean reluzia sob a luz difusa de um velho

abajur de bronze acoplado a uma estante.

– Faz algum tempo que ninguém solicita este. Farei uma nota dizendo

que ele precisa de uma pasta depois que o devolver.

– Quer que o lembre disso?

– Não. A nota já está escrita aqui. – Ele apontou para a própria testa.

– Sua cabeça deve ser bem mais organizada que a minha. – Abri um

sorriso largo.

Enquanto ele procurava o meu cartão da biblioteca, ele me olhava com

timidez, mas depois se lembrou que o colocara entre a capa e as primeiras

páginas.

– Parece que este não quer sair – comentou.

Algumas vozes abafadas tagarelaram no meu ouvido, quebrando o

silêncio habitual do lugar.

– Ouviu isso? – Olhei em volta, intrigada com aquele estranho rumor.

– O quê? – ele disse, tirando os olhos do manuscrito.

Meus olhos foram atraídos pelo brilho dourado que contornou o

manuscrito. Um brilho que não passava de uma pálida cintilação se

comparado com o brilho iridescente que saía das páginas. Pisquei os olhos,

surpreendida.

– Nada.

Um ímpeto me fez puxar o manuscrito e minha pele se arrepiou quando

entrou em contato com o couro. Sean ainda estava com o cartão na mão,

que acabou se soltando rapidamente. Empilhei os volumes nos braços,

apoiando-os com o queixo, e fui invadida por um cheiro estranho que se

sobrepôs ao odor de lápis apontado e de cera de assoalho da biblioteca.

– Você está bem, Diana? – perguntou Sean, preocupado.

– Claro que sim. Só estou um pouco cansada – retruquei, afastando os

livros do meu nariz.

Saí apressada por aquela insólita biblioteca quinhentista, passando por

fileiras de escrivaninhas elisabetanas de três prateleiras e com tampos

rabiscados. Janelas góticas ladeavam as fileiras, desviando a atenção dos

leitores para o teto, onde os detalhes do timbre da universidade se

realçavam com tinta dourada brilhante: três coroas e um livro aberto com a

frase “Deus é a minha iluminação”.

Naquela noite de sexta-feira, minha única companhia na biblioteca era

Gillian Chamberlain, uma outra acadêmica americana. Gillian, uma

classicista que lecionava na Bryn Mawr, passava o tempo se debruçando em

tiras de papiro protegidas por placas de vidro. Passei às pressas por ela,

evitando olhá-la, mas o rangido do assoalho velho me denunciou.

Minha pele se arrepiou, como sempre se arrepiava quando uma outra

bruxa me olhava.

– Diana – ela me chamou em meio à penumbra.

Suspirei, e parei.

– Oi, Gillian. – Mantive-me afastada o máximo possível da outra bruxa,

com um forte sentimento possessivo pela minha pilha de manuscritos,

posicionando meu corpo de modo que os manuscritos ficassem fora do

campo de visão dela.

– Como está se preparando para o Mabon?

Gillian vivia me cercando, dizendo que eu devia me juntar às outras

irmãs enquanto estivesse na cidade. Faltavam poucos dias para as

celebrações wiccanianas do equinócio de outono, e ela redobrava os

esforços a fim de me atrair para o conciliábulo de Oxford.

– Trabalhando – respondi prontamente.

– Você sabe que as bruxas daqui são realmente muito boas – ela falou

com um tom de reprovação. – Você devia se juntar a nós na segunda-feira.

– Obrigada pelo convite. Vou pensar a respeito – eu disse, já me

dirigindo para o Selden End, um arejado anexo do século XVII

perpendicular ao eixo principal da Duke Humfrey. – Estou pesquisando

alguns documentos para uma conferência, portanto não alimente

expectativas. – Tia Sarah sempre me alertou que era impossível mentir para

outra bruxa, mas isso nunca me impedia de tentar.

Gillian emitiu um ruído simpático, mas ela me seguiu com os olhos.

De volta a meu lugar habitual em frente às janelas em arco com

caixilhos de chumbo, resisti à tentação de largar os manuscritos de qualquer

jeito na mesa para limpar as mãos. Mas eles eram muito antigos e seria

melhor colocá-los na mesa com cuidado.

No topo da pilha, estava o manuscrito que quase engolira meu cartão.

Em sua lombada, gravado em dourado, o brasão que pertencia a Elias

Ashmole, colecionador e alquimista do século XVII, cujos livros e

documentos foram transferidos para a Biblioteca Bodleiana no século XIX

por intermédio do Museu Ashmoleano, com a gravação do número 782. Eu

me estiquei e toquei no couro marrom.

Um suave choque me fez afastar os dedos rapidamente, mas não rápido

o bastante. Uma comichão subiu pelos braços, arrepiando os poros da pele, e

depois se espalhou pelos ombros, retesando os músculos das costas e do

pescoço. Sensações que logo se dissiparam, mas me deixaram com um

sentimento estranho de insatisfação. Abalada com isso, me afastei da

escrivaninha.

Mesmo a uma distância segura, aquele manuscrito era um desafio –

ameaçava as paredes que eu erguera para separar minha carreira acadêmica

da minha posição de última representante da linhagem de bruxas Bishop.

Em Oxford, com um doutorado suado e títulos e promoções a caminho, e

com uma carreira começando a florescer, eu renunciava à herança familiar,

baseando a minha vida na razão e na capacidade acadêmica e não em

premonições e feitiços inexplicáveis. Eu estava em Oxford para completar

um projeto de pesquisa. Depois de concluí-lo, minhas descobertas seriam

publicadas e avalizadas por extensivas análises e notas de rodapé, e

apresentadas a meus colegas humanos, sem qualquer espaço para mistérios e

sem qualquer brecha para que o sexto sentido de alguma bruxa acabasse

captando alguma coisa no meu trabalho.

Contudo, eu tinha solicitado um manuscrito alquímico, sem outra

intenção senão a de me servir de ajuda na pesquisa, e aparentemente ele

também possuía um poder sobrenatural impossível de ser ignorado. Minhas

mãos coçavam pela ansiedade de abrir o manuscrito e saber mais. Mas eu

refreava o impulso: minha curiosidade era intelectual, só tinha a ver com

minha posição acadêmica? Ou era fruto da ligação da minha família com a

feitiçaria?

Enchi os pulmões com o ar familiar daquela biblioteca e fechei os olhos,

na esperança de clarear a mente. Para mim, a Bodleiana era até então um

santuário, um lugar desvinculado das Bishop. Com as mãos trêmulas

debaixo dos braços, encarei o manuscrito Ashmole 782 em meio a um

crescente crepúsculo e me perguntei sobre o que fazer.

No meu lugar, mamãe saberia instintivamente o que fazer. As bruxas da

família Bishop eram em sua maioria talentosas, mas Rebecca, minha mãe,

era especial. Todos diziam isso. Seus dons sobrenaturais se manifestaram

muito cedo, ela ainda estava na escola primária e já dominava a magia com

maestria superior à das bruxas mais experientes do conciliábulo local, com

uma compreensão intuitiva dos feitiços, uma extraordinária percepção e

uma surpreendente capacidade de enxergar o que estava por trás das

pessoas e dos fatos. Tia Sarah, irmã caçula de mamãe, também era uma

bruxa habilidosa, se bem que com talentos mais comuns: mãos hábeis para

poções e um perfeito domínio da herança de feitiços e encantamentos da

feitiçaria tradicional.

Claro que meus colegas historiadores desconheciam a história de minha

família, mas em Madison, uma cidade distante do interior de Nova York

onde passei a viver com tia Sarah desde meus sete anos, a família Bishop era

conhecida por todos. Após a guerra revolucionária, meus ancestrais se

mudaram de Massachusetts. Na ocasião, já tinha se passado mais de um

século desde a execução de Bridget Bishop, em Salem. Nem por isso os

falatórios e as fofocas deixaram de seguir a família até a nova terra. Depois

de se mudarem e se estabelecerem em Madison, as Bishop tiveram que se

esforçar muito para mostrar o quão útil podia ser a presença de bruxas na

vizinhança, curando os doentes e prevendo as condições climáticas. Com o

tempo, a família criou raízes na comunidade, raízes que de tão profundas

resistiam às inevitáveis crises da superstição e do medo humano.

Mas mamãe era curiosa em relação ao mundo, e isso acabou por levá-la

para além da segurança de Madison. Primeiro, ela foi para Harvard, onde

conheceu um jovem feiticeiro chamado Stephen Proctor. Ele também tinha

uma longa linhagem mágica e queria uma experiência de vida longe da

história e da influência de sua família da Nova Inglaterra. Rebecca Bishop e

Stephen Proctor formavam um casal encantador, com a franqueza

tipicamente americana de mamãe fazendo um contraponto para o jeito mais

formal e antiquado de papai. Eles se tornaram antropólogos e mergulharam

em culturas e crenças estrangeiras, compartilhando ao mesmo tempo as

paixões intelectuais e a devoção que nutriam um pelo outro. Depois que

asseguraram uma posição acadêmica para lecionar – mamãe, na

universidade onde estudara, e papai, na Wellesley College –, os dois saíram

em viagem de pesquisas e acabaram formando uma nova família em

Cambridge.

Guardo poucas lembranças de minha infância, mas sempre vívidas e

surpreendentemente claras. Lembranças que representam meus pais: a

sensação do veludo cotelê nos cotovelos de papai, o aroma de lírio-do-vale

do perfume de mamãe, o tilintar das taças de vinho nas noites de sexta-feira

depois que me colocavam para dormir e jantavam à luz de velas. Mamãe

contava histórias para me fazer dormir, e a pasta de couro marrom de papai

fazia barulho quando ele a jogava na porta de entrada. Lembranças que

talvez sejam familiares para a maioria das pessoas.

Outras lembranças dos meus pais não são tão familiares assim. Parece

que mamãe nunca lavava roupas, mas as minhas estavam sempre limpas e

bem-passadas. Os bilhetes de permissão para passear no zoológico que eu

esquecia em casa sempre apareciam na minha carteira justamente na hora

em que a professora chegava para pegá-los. E mesmo quando o gabinete de

papai estava muito bagunçado (geralmente era como se tivesse sido

bombardeado) quando eu entrava lá para um beijo de boa-noite, na manhã

seguinte tudo aparecia impecavelmente arrumado. No jardim de infância,

perguntei à mãe da minha amiga Amanda por que se preocupava tanto em

lavar a louça com água e sabão, se bastava colocar tudo dentro da pia,

estalar os dedos e sussurrar umas poucas palavras. A sra. Schmidt riu da

minha estranha ideia sobre os trabalhos domésticos, mas com os olhos já

nublados pela confusão.

Naquela noite, meus pais me aconselharam a tomar cuidado com o que

falasse de magia e com quem falava. Mamãe explicou que os humanos eram

muito mais numerosos e se sentiam ameaçados com nosso poder, temendo

que isso fosse a maior força terrena. Na ocasião, não tive coragem de

confessar que a magia – especialmente a da minha mãe – também me

apavorava.

Durante o dia, mamãe se parecia com qualquer outra mãe de

Cambridge: um pouco despenteada e desorganizada, e perpetuamente

esgotada pelas pressões da casa e do trabalho. Cabelo louro no corte da

moda, embora com roupas que tinham parado em 1977 – longas saias

rodadas, calças e camisetas largas, blazer e roupas masculinas iguais às de

Annie Hall, tudo adquirido nos muitos brechós de Boston. Nela não havia

nada que nos fizesse olhar duas vezes para ela na rua ou no supermercado.

Na privacidade da nossa casa, com as cortinas cerradas e a porta

trancada, mamãe se transformava em outra pessoa. Seus movimentos eram

seguros e confiantes, tranquilos e equilibrados. Às vezes, ela parecia mesmo

flutuar. Quando andava pela casa, cantando e recolhendo livros e bichinhos

de pelúcia, pouco a pouco a face de mamãe se transfigurava em algo

sobrenatural e lindo. Quando a magia a iluminava, era impossível deixar de

olhá-la.

– Mamãe tem fogos de artifício dentro dela.

Era assim que papai explicava o fenômeno, com um sorriso largo e

indulgente. Mas aprendi que os tais fogos não eram apenas brilhantes e

vibrantes. Eram fogos imprevisíveis e também podiam assustar e

amedrontar.

Uma noite papai estava fora para uma palestra e mamãe resolveu polir a

prataria, e acabou hipnotizada por uma tigela de água que estava em cima

da mesa de jantar. À medida que ela mirava, a superfície vítrea se cobria de

uma névoa que começou a rodopiar até engendrar pequeninas formas

fantasmagóricas. Engoli em seco, admirada, quando as formas se

agigantaram e encheram a sala de seres fantásticos. Logo depois, elas

estavam rastejando pelas cortinas e subindo até o teto. Gritei e pedi socorro

à mamãe, mas ela continuou olhando fixamente a água. Uma concentração

que se manteve até que algo meio humano e meio animal se aproximou de

mim e beliscou meu braço. Isso a fez sair do transe, e ela explodiu em meio a

um jato irado de luz vermelha que afugentou os espectros, deixando um

odor de penas queimadas na casa. Logo que entrou em casa, papai sentiu

um cheiro estranho e se preocupou. Ele nos encontrou encolhidas na cama.

Ao vê-lo, mamãe irrompeu num pranto exaltado. Nunca mais me senti

segura na sala de jantar.

Nos meus sete anos o resto de sensação de segurança que eu ainda

podia ter se evaporou quando meus pais foram para a África e não voltaram

vivos.

Repeli esses pensamentos e me concentrei novamente no dilema que

me encarava. O manuscrito na mesa da biblioteca sob a luz do abajur. De

sua magia, emanava alguma coisa sombria que me dava um nó por dentro.

Encostei os dedos naquele couro macio. Dessa vez, a sensação de arrepio se

tornou familiar. Lembrei vagamente de uma experiência parecida que tive

um dia ao folhear alguns documentos no gabinete de meu pai.

Eu me afastei resolutamente daquele volume envolto em couro e me

voltei para algo mais racional: procurar uma lista de textos alquímicos que

tinha feito antes de deixar New Haven. Encontrei em cima da minha mesa,

junto a documentos soltos, cartões, recibos, lápis, canetas e mapas da

biblioteca, organizada com primor pela coleção e pela numeração que um

funcionário deu aos textos à medida que entravam na Biblioteca Bodleiana.

Eu vinha trabalhando metodicamente nessa lista desde a minha chegada

algumas semanas antes. A descrição do manuscrito Ashmole 782, copiada

do catálogo, dizia o seguinte: “Antropologia, ou um tratado com uma breve

descrição do homem em duas partes: uma, anatômica; outra, psicológica.”

Como a maioria das obras estudadas por mim, não havia nada no título que

realmente indicasse o conteúdo.

Meus dedos poderiam me revelar o que havia dentro do livro, sem

mesmo abri-lo. Tia Sarah sempre usava os dedos para ver o que havia

dentro de um envelope de correspondência antes de abri-lo, para ver se era

alguma conta que não queria pagar. Dessa forma, poderia alegar

desconhecimento na chegada de uma segunda via e quando ela já tivesse

dinheiro para pagar a conta de luz, por exemplo.

Os números dourados da lombada piscavam.

Sentei-me para ponderar sobre as opções.

Ignoro a magia, abro o manuscrito e o leio, como qualquer acadêmica

humana?

Ponho o volume enfeitiçado de lado e dou no pé?

Sarah daria um risinho se soubesse do meu embaraço. Ela sempre frisou

que meus esforços para manter a magia a distância eram inúteis. Mas é o

que venho fazendo desde o funeral dos meus pais. Lembro que entre os

convidados algumas bruxas me observavam dos pés à cabeça enquanto me

davam tapinhas de estímulo, atrás de sinais que indicassem que o sangue

dos Bishop e dos Proctor corria nas minhas veias, prevendo que algum

tempo depois eu assumiria o lugar da mamãe no conciliábulo local. Algumas

cochichavam suas dúvidas quanto à sensatez dos meus pais por terem se

casado.

– Poder demais – elas diziam em voz baixa, sem saber que eu ouvia. –

Eles se limitavam a chamar a atenção... nem sequer observaram o

cerimonial da antiga religião.

Isso foi o bastante para que eu atribuísse a morte dos meus pais ao

poder sobrenatural que possuíam, e para que buscasse uma forma diferente

de vida. Comecei a dar as costas a tudo que tivesse a ver com magia e a me

jogar de cabeça nas coisas da adolescência humana – cavalos, rapazes e

romances melosos – na tentativa de desaparecer entre os habitantes comuns

da cidade. Tive alguns problemas na puberdade, com depressão e ansiedade.

Tudo isso era bem normal, garantiu o médico humano para minha tia.

Sarah não disse nada ao médico sobre as vozes nem sobre minha mania

de pressentir a chamada do telefone alguns segundos antes, e ela também

não disse que, durante a lua cheia, era obrigada a encantar portas e janelas

para que eu não saísse caminhando como sonâmbula pela mata. Ela também

não disse que, quando eu me zangava, as cadeiras da casa se moviam para

formar uma precária pirâmide que despencava no chão depois que eu me

acalmava.

Quando fiz treze anos, titia decidiu que já era hora de canalizar meu

poder para o aprendizado dos fundamentos da feitiçaria. Acender velas com

a recitação de algumas palavras ou encobrir as espinhas do rosto com uma

poção tradicional eram os primeiros passos de uma bruxa adolescente. Mas

me mostrei incapaz de dominar os mais simples feitiços. Além de queimar

todas as poções que aprendia com minha tia, eu teimava em não me

submeter aos testes que ela aplicava a fim de ver se eu herdara a poderosa

segunda visão da minha mãe.

Tanto as vozes como os pequenos incêndios e outras erupções

imprevisíveis diminuíram à medida que meus hormônios se equilibraram,

mas a resistência para aprender o ofício da família permaneceu. Tia Sarah

ficava nervosa com a presença de uma bruxa indisciplinada dentro de casa,

e foi com alívio que me mandou para uma faculdade no Maine. Com

exceção da magia, era uma típica história de crescimento.

O que me fez sair de Madison foi meu intelecto. A precocidade

intelectual me levou a falar e aprender a ler mais cedo do que as crianças de

minha idade. Com uma prodigiosa memória fotográfica que me fazia lembrar

das páginas dos livros com muita facilidade e responder as questões das

provas com toda segurança, meu desempenho escolar atingiu uma dimensão

onde o legado mágico da família era irrelevante. Pulei os últimos anos do

secundário e entrei na faculdade aos dezesseis anos.

Na faculdade, tratei de encontrar um lugar no departamento de teatro,

minha imaginação era atraída pelo espetáculo e as fantasias – e minha

mente se fascinava pelo modo como o texto teatral evocava outros lugares e

outras épocas. Segundo os professores, minhas primeiras representações

eram exemplos extraordinários de como uma boa atuação podia transformar

alunos comuns em outras pessoas. A primeira indicação de que tais

metamorfoses talvez não se originassem de um talento dramático

propriamente dito surgiu quando fiz o papel de Ofélia, em Hamlet. Tão logo

me escalaram para o papel, o meu cabelo começou a crescer com uma

rapidez assustadora, descendo dos ombros até a cintura. Eu ficava sentada à

beira do lago da faculdade por horas a fio, irresistivelmente atraída pelo

brilho da superfície, com meus cabelos esvoaçando ao redor. O rapaz que

fazia o papel de Hamlet foi pego pela ilusão e tivemos um caso apaixonado,

se bem que perigosamente volátil. Entrei lentamente na loucura de Ofélia e

arrastei comigo o resto do elenco.

O resultado pode ter sido uma encenação eletrizante, mas cada novo

personagem trazia novos desafios. No meu segundo ano da faculdade a

situação tornou-se insuportável, quando me escalaram para representar a

Anabella da peça Pena que ela seja uma prostituta, de John Ford. Tal como

a personagem, eu atraía um séquito de admiradores devotados – nem todos

humanos – que me seguiam pelo campus. Quando eles se recusaram a me

deixar em paz depois que fechou a cortina, ficou claro que não seria possível

controlar o que era liberado. Eu não sabia ao certo se a magia interferia

mesmo na minha atuação, e não tinha a menor vontade de saber. Então,

cortei o cabelo, bem curto. E deixei de usar saias esvoaçantes e blusinhas

decotadas, substituindo-as pelas blusas pretas de gola rolê, as calças cáqui e

os mocassins que as sisudas e ambiciosas estudantes de direito calçavam.

Um excesso de energia me levou ao atletismo.

Depois de deixar o departamento de teatro, tentei diversas cadeiras em

busca de um campo de estudo cuja racionalidade não deixasse o menor

espaço para a magia. Faltavam-me precisão e paciência para a matemática, e

foram desastrosos meus esforços no campo da biologia, tanto nas provas

escritas como na prática de laboratório.

No final do segundo ano, a burocracia da faculdade me intimou a optar

por uma cadeira, ou pensar na possibilidade de enfrentar cinco anos de

estudo sem cadeira definida. Um programa de estudos durante as férias na

Inglaterra me ofereceu uma oportunidade de ficar o mais longe possível dos

assuntos dos Bishop. Eu me apaixonei por Oxford, pelo suave brilho de suas

ruas pela manhã. Os cursos de história incluíam façanhas de reis e rainhas, e

as únicas vozes na minha cabeça eram as dos livros escritos nos séculos XVI

e XVII. Tudo isso inteiramente atribuído à boa literatura. E o melhor é que

ninguém me conhecia na universidade e, se naquela cidade havia bruxas,

naquele verão elas estavam bem longe de lá. Retornei a meu país, declarei à

burocracia da faculdade que queria estudar história, frequentei todos os

cursos requeridos em tempo recorde e me graduei com louvor antes de

completar vinte anos.

Depois, resolvi fazer um doutorado, e minha primeira opção no leque

de programas possíveis foi Oxford. Eu me especializei em história da ciência,

concentrando as pesquisas no período em que a ciência suplantou a magia –

quando a astrologia e a caça às bruxas deram lugar a Newton e às leis

universais. A busca por uma ordem racional – sem o sobrenatural – na

natureza refletia meus próprios esforços para me manter afastada do que

estava oculto em mim. Os limites entre o que se passava na minha mente e

o que corria no meu sangue se tornaram ainda mais distintos.

Tia Sarah riu sem parar quando soube que eu tinha decidido me

especializar em química do século XVII. Seu cabelo ruivo brilhante era

como um cartaz luminoso de um temperamento agitado e uma língua

afiada. Ela era uma bruxa de fala franca e equilibrada que envolvia a todos.

Pilar da comunidade de Madison, Sarah era frequentemente solicitada para

cuidar das coisas durante as pequenas e grandes crises da cidade. Na

ocasião, mantínhamos um ótimo relacionamento, já que eu não precisava

me sujeitar às doses diárias de observações mordazes que ela fazia sobre a

fragilidade e a inconsistência dos humanos.

Embora estivéssemos separadas por quilômetros de distância, Sarah via

as minhas últimas tentativas de me esquivar da magia como risíveis – e ela

fez questão de deixar isso bem claro:

– A alquimia não é estranha para nós – disse. – Há muita magia nela.

– Não há, não – protestei, com veemência. O principal objetivo do meu

trabalho era o de demonstrar que essa atividade era de fato científica. – A

alquimia demonstra o crescimento da experimentação, não é uma busca por

um elixir mágico que leva ao ouro e imortaliza as pessoas.

– Se você acha... – disse Sarah, em tom de dúvida. – Mas é um tema

muito estranho para ser escolhido por alguém que procura agir como um

humano.

Depois de minha graduação, trabalhei muito para conseguir um cargo

em Yale, o único lugar que era mais inglês do que a Inglaterra. Fui avisada

pelos colegas de que teria poucas chances de conseguir uma colocação.

Escrevi dois livros, conquistei vários prêmios e garanti algumas pesquisas.

Por fim, obtive uma nomeação, provando que todos estavam errados.

O mais importante é que passei a ficar por minha conta. No meu

departamento, ninguém ligava meu sobrenome ao da primeira mulher

executada por bruxaria em 1692 em Salem, nem mesmo os historiadores dos

primórdios da América. Para preservar minha tão suada autonomia,

continuei a manter qualquer vestígio de magia e feitiçaria longe de mim. É

claro que com algumas exceções como, por exemplo, quando fiz um dos

feitiços de tia Sarah para deter a máquina de lavar roupa que estava

entupida de água, ameaçando inundar meu pequeno apartamento em

Wooster Square. Ninguém é perfeito.

Agora, com esse ato falho habitual em mente, respirei fundo, apertei o

manuscrito com ambas as mãos e o coloquei no apoiador de livros que a

biblioteca deixava à disposição para proteger as obras raras. Eu tomara uma

decisão: agir como uma acadêmica séria e tratar o Ashmole 782 como um

manuscrito comum. Ignorei a queimação na ponta de meus dedos e o cheiro

esquisito que saía do livro, limitando-me a examinar o índice. Depois, com

um distanciamento profissional, tive que decidir se era promissor o bastante

para uma leitura mais demorada. Meus dedos tremeram quando abri o

pequeno fecho de bronze que o prendia.

O manuscrito soltou um leve suspiro.

Olhei rapidamente ao redor para me assegurar de que a sala estava

vazia. O único ruído que se ouvia era o do relógio da sala.

Lembrando-me de não registrar que “o livro suspirou”, voltei-me para o

laptop e abri um novo arquivo. Uma tarefa costumeira que eu repetia

milhares de vezes e que me reconfortava tanto quanto a minha impecável

lista de apontamentos. Digitei o nome e o número do manuscrito e copiei o

título da descrição do catálogo. Descrevi detalhadamente o tamanho e a

encadernação.

Só faltava abrir o manuscrito.

Mesmo com o fecho aberto, tive dificuldade de virar a capa, era como

se estivesse colada às páginas. Resmunguei baixinho e deixei a mão sobre o

couro por um momento, porque o Ashmole 782 só precisava de uma chance

para me conhecer. Deixar a mão em cima de um livro não era um ato

mágico. A palma da minha mão formigou bem mais do que a minha pele

formigava quando alguma bruxa olhava para mim, e a tensão do manuscrito

se dissipou. Depois disso, foi fácil virar a capa.

A primeira página era de papel grosso. A segunda, era realmente um

pergaminho e nela se lia “Antropologia, ou um tratado com uma breve

descrição do homem”, na caligrafia de Ashmole. As letras caprichadas e

redondas me eram familiares, quase como meu próprio roteiro. A

continuação do título – “em duas partes: uma, anatômica, outra,

psicológica” – tinha sido escrita a lápis por outra mão. Isso também me era

familiar, mas não atinei de onde. Um toque na escrita poderia me dar uma

pista, mas isso contrariava as regras da biblioteca e me impossibilitaria

documentar a informação colhida pelos meus dedos. Então, fiz algumas

notas no arquivo do computador a respeito do uso da tinta e do lápis, e da

diferença de caligrafias, e das possíveis datas das inscrições.

Quando virei a primeira folha, o pergaminho mostrou-se

extraordinariamente pesado e emanou um cheiro esquisito. Não era

simplesmente um cheiro de coisa velha. Era algo mais – uma mistura de

mofo e almíscar, difícil de nomear. Percebi imediatamente que três folhas

tinham sido engenhosamente tiradas do manuscrito.

Pelo menos ali estava algo fácil de descrever. Digitei: “No mínimo três

folhas removidas por meio de régua ou tesoura.” Inspecionei a lombada do

manuscrito, mas não consegui saber se faltavam outras páginas. Quanto

mais perto o pergaminho ficava do meu nariz, mais o manuscrito me distraía

com seu poder e cheiro estranhos.

Eu me voltei para a ilustração na página anterior às que faltavam. Na

imagem, uma criancinha flutuava dentro de um jarro de vidro claro. Ela

segurava uma rosa de prata com uma das mãos e uma rosa de ouro com a

outra. Nos seus pés havia pequenas asas, e dos seus longos e negros cabelos

escorria um líquido vermelho. Embaixo, uma legenda em tinta preta

esclarecia que a ilustração representava a criança filosofal – uma

representação alegórica de um passo crucial na criação da pedra filosofal,

substância química com promessa de saúde, riqueza e sabedoria para quem a

possuísse.

As cores eram luminosas e o trabalho, incrivelmente bem preservado.

No passado, alguns artistas misturavam pó de pedras preciosas às tintas para

obter cores de maior intensidade. A ilustração tinha sido feita por um

verdadeiro artista. Coloquei as mãos debaixo das coxas a fim de não tocar

na ilustração e adquirir mais informações.

Acontece que o artista se equivocara nos detalhes, mesmo com um

talento evidente. O jarro de vidro teria que estar voltado para cima e não

para baixo. A criancinha teria que ser metade branca e metade negra para

evidenciar sua condição de hermafrodita. Ela deveria ter genitália masculina

e seios femininos – ou então duas cabeças.

A imagética alquímica se caracteriza por ser alegórica, sem ser de todo

ardilosa. Eu então a tinha escolhido como tema de estudo na esperança de

encontrar padrões que deixassem transparecer uma abordagem lógica e

sistemática da transformação química no período que antecedeu a tábua

periódica dos elementos. As imagens da lua, por exemplo, quase sempre

representavam a prata enquanto as imagens do sol representavam o ouro.

Quando os dois se combinavam quimicamente, o processo era representado

pela imagem de um casamento. Com o tempo, as ilustrações foram

substituídas pelas palavras. Palavras que por sua vez tornaram-se uma

gramática da química.

Contudo, o manuscrito à minha frente desafiava meu conhecimento da

lógica dos alquimistas. Cada ilustração apresentava no mínimo um erro

fundamental, e não havia um texto anexo para facilitar a compreensão.

Eu procurava por alguma coisa – qualquer coisa – que avalizasse meu

conhecimento da alquimia. Na luz difusa, uma caligrafia quase apagada

surgiu em uma das páginas. Aproximei o abajur da escrivaninha para

enxergar melhor.

Não havia nada ali.

Lentamente, virei a página como se ela fosse uma delicada folha.

Os caracteres – centenas de palavras – brilharam e se movimentaram

pela superfície da página, ilegíveis até que o ângulo da luz e a perspectiva do

observador estivessem alinhados.

Reprimi um grito de surpresa.

O manuscrito Ashmole 782 era um palimpsesto – um manuscrito

dentro de um manuscrito. Quando um pergaminho se tornava rarefeito, os

escribas faziam uma lavagem cuidadosa da tinta dos livros velhos e depois

redigiam um novo texto nas páginas em branco. Com o passar do tempo, a

escrita original geralmente reaparecia por baixo como um texto fantasma,

discernível por meio da luz ultravioleta que trazia de volta o texto apagado

sob as manchas de tinta.

Só que nenhuma luz ultravioleta seria forte o bastante para trazer de

volta aqueles traços. Aquele manuscrito não era um palimpsesto comum. A

escrita não tinha sido apagada, e sim ocultada por algum feitiço. Mas por

que alguém se daria ao trabalho de enfeitiçar um livro alquímico? Até os

especialistas tinham dificuldade em decifrar a linguagem obscura e a

imagética fantástica desses autores.

Desviei a atenção das letras esmaecidas que se movimentavam rápido

demais para que fossem lidas, e me concentrei em escrever uma sinopse do

conteúdo do manuscrito. “Intrigante”, eu digitei. “Epígrafes textuais dos

séculos XV a XVII, imagens principais do século XV. Origem das imagens

possivelmente mais remotas? Mistura de papel e pergaminho. Tintas

coloridas e pretas, as coloridas de alta e incomum qualidade. Ilustrações

excelentes, mas com detalhes incorretos e ausentes. Retratam a criação da

pedra filosofal: nascimento/criação, morte, ressurreição, transformação

alquímicos. Uma cópia confusa de um manuscrito mais antigo? Um livro

estranho e repleto de anomalias.”

Meus dedos hesitaram sobre o teclado.

Quando uma informação não se encaixa com o já sabido, os

acadêmicos optam por uma entre duas alternativas. Ou deixam a

informação que não esclarece as teorias em questão de lado, ou se

concentram intensa e minuciosamente a fim de se aprofundar no mistério.

Se o livro não estivesse enfeitiçado, eu poderia optar pela segunda

alternativa. Mas já que estava enfeitiçado, tendi a optar pela primeira

alternativa.

Em caso de dúvida, geralmente os acadêmicos adiam a decisão.

Digitei uma frase final ambivalente: “Precisa de mais tempo? Talvez de

uma consulta mais tarde?”

Prendi o fôlego e fechei a capa, com muito cuidado. As correntes

mágicas ainda franjavam o manuscrito, particularmente vigorosas em volta

do fecho.

Aliviada por ter fechado o Ashmole 782, ainda o observei por alguns

segundos. Meus dedos estavam ansiosos para tocar novamente naquele

couro marrom. Mas dessa vez me contive, da mesma forma que tinha me

contido para não tocar nas inscrições e nas ilustrações, de modo a obter

mais do que qualquer historiador humano poderia obter com legitimidade.

Tia Sarah sempre dizia que a magia é um dom. Neste caso, eu era ligada

por laços mágicos às bruxas Bishop que me antecederam. Bruxas que

pagaram um preço pela prática dos poderes mágicos que herdaram e pelos

seus feitiços e encantamentos, um preço que as fez guardar a arte com muito

zelo. Ao abrir o Ashmole 782, eu também abri uma fenda no muro que

separava a magia do meu mundo acadêmico. Mas de volta ao lado certo, me

senti ainda mais determinada a continuar nesse lado.

Guardei o computador e as notas e coloquei o Ashmole 782 no fundo

da pilha de manuscritos com muito cuidado. Providencialmente, Gillian não

estava na sua escrivaninha, se bem que seus papéis ainda estavam

espalhados por lá. Talvez ela planejasse trabalhar até tarde e tivesse saído

para tomar uma xícara de café.

– Acabou? – perguntou Sean, quando cheguei à mesa dele.

– Ainda não. Eu quero reservar os três de cima para segunda-feira.

– E o quarto?

– Já terminei com ele – respondi abruptamente, entregando-lhe os

manuscritos. – Pode mandá-lo de volta às prateleiras.

Sean dispôs o material em cima de uma pilha de devoluções que já

estava organizada. E me acompanhou até a escada, onde se despediu e

desapareceu atrás da porta de vaivém. A esteira que levaria o Ashmole 782

de volta às entranhas da biblioteca tiniu.

Eu quase me virei para detê-la, mas deixei para lá.

Já estava com a mão pronta para abrir a porta de entrada no térreo

quando o ar ao redor começou a pesar como se a biblioteca estivesse me

espremendo. O ambiente brilhou por uma fração de segundo, tal como as

páginas do manuscrito haviam brilhado na mesa de Sean, causando-me um

tremor involuntário e arrepiando os pelos dos meus braços.

Alguma coisa acabara de acontecer. Alguma coisa mágica.

Meu rosto se voltou de novo para a sala Duke Humfrey e meus pés

ameaçaram seguir para lá.

Não é nada, pensei enquanto saía resolutamente da biblioteca.

Você tem certeza?, sussurrou uma voz ignorada por muito tempo.

2

s sinos de Oxford badalaram sete vezes. A escuridão da noite

O não chegaria com a mesma lentidão de alguns meses antes, mas

de qualquer forma ainda seria lenta. Os funcionários da

biblioteca tinham acendido as lâmpadas trinta minutos antes, e pequeninos

lagos de ouro se imiscuíam na luz acinzentada.

Era o vigésimo primeiro dia de setembro. No mundo inteiro, as bruxas

se reuniam na véspera do equinócio de outono, compartilhando alimentos

para celebrar o Mabon e saudar a iminente escuridão do inverno. Mas as

bruxas de Oxford teriam que se conformar com minha ausência. Eu tinha

que preparar uma conferência importante para o mês seguinte. Minhas

ideias ainda não estavam claras, e isso me deixava muito ansiosa.

Meu estômago roncou quando pensei no que minhas colegas bruxas

estariam comendo em algum lugar de Oxford. Eu tinha estado na biblioteca

desde nove e meia da manhã, parando apenas para um rápido lanche.

Sean estava de folga nesse dia, e outra pessoa atendia no balcão de

solicitações. Eu já tinha me aborrecido porque requisitara um item avariado

e ela tentou me convencer a utilizar um microfilme. O sr. Johnson,

supervisor da sala de leitura, ouviu a discussão e saiu do escritório para

intervir.

– Minhas desculpas, dra. Bishop – disse afogueado, enquanto ajeitava

os óculos de armação escura e pesada no nariz. – Se a senhora precisa

consultar esse manuscrito para sua pesquisa, ficaremos honrados em colocá-

lo a sua disposição. – Ele se retirou para apanhar o item negado e voltou

algum tempo depois para entregá-lo, pedindo desculpas pelo incidente com

a nova funcionária. Agradecida pelas regalias que minhas credenciais

acadêmicas me ofereciam, passei a tarde absorvida em agradável leitura.

Retirei os dois pesos de papel que prendiam as extremidades superiores

do manuscrito e o fechei com cuidado, satisfeita com a quantidade de

trabalho realizado. Para restaurar a normalidade depois do meu encontro

com o manuscrito enfeitiçado na sexta-feira, acabei me envolvendo mais

com as tarefas rotineiras de fim de semana e menos com a alquimia.

Preenchi formulários de reembolso financeiro, paguei contas, escrevi cartas

de recomendação e ainda terminei a revisão de um livro. Atividades

intercaladas por um sem-número de rituais domésticos como lavar roupa,

ingerir xícaras e mais xícaras de chá e experimentar as receitas dos

programas culinários da BBC.

Depois de ter começado cedo naquela manhã, passei o dia me

concentrando no trabalho do momento, sem lidar com as lembranças das

estranhas ilustrações do Ashmole 782 e seu misterioso palimpsesto.

Examinei as anotações de uma pequena lista de tarefas para o resto do dia.

Quatro questões dessa lista teriam que ser necessariamente resolvidas, e a

terceira era a mais fácil. A resposta se encontrava no Notes and Queries,

um antigo periódico que estava em uma das prateleiras das estantes que se

estendiam até o teto. Empurrei a cadeira para trás, determinada a só sair da

biblioteca depois que tivesse resolvido a tal questão da minha lista.

O acesso às estantes superiores do setor da Duke Humfrey, conhecido

como Selden End, era feito por meio de uma escada velha que terminava

numa galeria alta por cima das mesas de leitura. Escalei os degraus bambos

em direção aos velhos livros encapados em couro de antílope, dispostos em

ordem cronológica nas fileiras de estantes de madeira. Aparentemente,

somente eu e um velho professor de literatura da Magdalen College os

utilizávamos. Localizei o volume, resmungando entre dentes. Encontrava-se

no alto da estante, fora de alcance.

Um risinho chamou a minha atenção. Virei a cabeça para ver quem

estava sentado na escrivaninha no extremo da galeria e não vi ninguém. Eu

estava ouvindo coisas novamente. Àquela hora, Oxford estava totalmente

deserta e a maior parte do pessoal da universidade saíra uma hora mais cedo

para um copo gratuito de xerez no salão comum dos acadêmicos, antes de

seguir para o jantar. A festividade wiccaniana também tinha obrigado

Gillian a sair mais cedo, não sem antes me fazer um último convite

enquanto ela esquadrinhava minha pilha de material de leitura com os

olhos.

Procurei por um tamborete na galeria, mas não o encontrei. A

Bodleiana era notoriamente carente de tais objetos, e eu perderia uns quinze

minutos até que localizasse algum no interior da biblioteca e subisse na

escada e alcançasse o livro. Hesitei. Mesmo depois de ter segurado um livro

enfeitiçado naquela sexta-feira, reprimi a intensa tentação de me valer da

magia. Por outro lado, ninguém veria nada.

Mesmo com todas essas racionalizações, minha pele formigava de

ansiedade. Eu raramente quebrava minhas próprias regras, e eram poucas as

situações que me impeliam a recorrer à magia. Aquela seria então a quinta

vez naquele ano, contando com o meu feitiço na máquina de lavar

defeituosa e meu toque no Ashmole 782. Nada mal, levando em conta que

era fim de setembro, mas para mim não era a melhor marca.

Respirei fundo, estiquei o braço e visualizei o livro na minha mão.

O volume 19 do Notes and Queries se moveu na estante, fazendo um

ângulo como se apanhado por mão invisível, e pousou suavemente na palma

aberta de minha mão. Abriu-se em seguida na página de que eu precisava.

Tudo isso durou uns três segundos. Respirei fundo novamente para que

minha culpa fluísse um pouco. De repente, dois rasgões gelados irromperam

entre meus ombros.

Eu tinha sido vista, não por um simples observador humano.

Quando duas bruxas se entreolham, o toque de um olho no outro faz

formigar. Mas as bruxas não são as únicas criaturas que compartilham o

mundo com os humanos. Também há os demônios – criaturas criativas e

artísticas que transitam entre a loucura e a genialidade. “Astros do rock e

assassinos seriais.” Era assim que minha tia descrevia esses estranhos e

surpreendentes seres. E ainda há os antigos e belos vampiros que se

alimentam de sangue e o deixam enfeitiçado quando não querem matá-lo

na mesma hora.

Quando um demônio me olha, sinto a pressão leve e irritante de um

beijo.

Já o olhar de um vampiro é frio, focado e perigoso.

Sondei mentalmente os frequentadores da Duke Humfrey. Ocorreu-me

um vampiro, um monge querubínico que se debruçava como um amante

sobre missais e livros de oração medievais. Mas raramente se encontravam

vampiros em salas de livros raros. Vez por outra um deles sucumbia à fútil e

nostálgica busca de reminiscências, mas isso não era comum.

Bruxos e demônios frequentavam bibliotecas com mais assiduidade.

Gillian Chamberlain e seus óculos maravilhosos tinham estado ali naquele

dia para estudar um papiro. E obviamente dois demônios estavam na sala de

leitura musical. Eles me olharam com desvario quando passei a caminho de

Blackwell para um chá. Um deles até me pediu para trazer um café com

leite, indício de que estava mesmo imerso em algum tipo de loucura.

Claro, eu estava sendo observada por um vampiro.

Até porque já tinha esbarrado com alguns vampiros, pois a minha área

de trabalho me colocava em contato com cientistas e muitos vampiros

povoam os laboratórios do mundo inteiro. A ciência requer muito estudo e

paciência. E graças a seus solitários hábitos de trabalho, os cientistas só são

reconhecidos pelos colaboradores mais próximos. Isso se enquadra com mais

facilidade no tipo de vida dos vampiros que se estende por séculos e não por

décadas.

Em nossos dias, os vampiros gravitam em torno dos aceleradores de

partículas, dos projetos de decodificação do genoma e da biologia molecular.

No passado, eles se voltavam para alquimia, anatomia e eletricidade. Se

uma pesquisa envolvia sangue ou promessa do desvendamento de segredos

do universo, um vampiro sempre estava por perto.

Agarrei o volume avariado do Notes and Queries e me virei para flagrar

meu observador. Ele estava na penumbra, no lado oposto da sala, na frente

do setor de paleontologia, encostado em uma das belas pilastras de madeira

que sustentavam a galeria. Um volume aberto do Guide to Scripts Used in

English Handwriting Up to 1500, de Janet Roberts, balançava em suas

mãos.

Eu nunca tinha visto aquele vampiro, mas tinha certeza de que ele não

precisava de ajuda para decifrar caligrafias antigas.

Quem já leu obras célebres ou viu filmes de vampiros sabe que eles são

surpreendentes, mas no fundo ninguém está preparado para vê-los. Eles têm

uma estrutura óssea tão bem moldada que se assemelham às obras de

excelentes escultores. E quando se movem ou dizem alguma coisa, você não

consegue absorver o que está se passando. Os gestos são graciosos e as

palavras soam como música. Eles têm olhos hipnóticos e é justamente com

esses olhos que capturam a presa. Um olhar, algumas poucas palavras e um

toque, e a vítima se torna indefesa nas garras do vampiro.

Olhei para o vampiro e, infelizmente, me dei conta de que todo meu

conhecimento sobre o tema era teórico demais. Um conhecimento que me

pareceu inútil tão logo o vi na Biblioteca Bodleiana.

O único vampiro com quem eu mantive uma relação mais duradoura

trabalhava na Suíça, no acelerador de partículas nucleares. Jeremy, magro e

bonito, com cabelos louros luminosos, olhos azuis e um sorriso contagiante.

Ele já tinha deitado com quase todas as mulheres do cantão de Genebra, e

na ocasião atuava na cidade de Lausanne. Nunca me interessei em saber o

que Jeremy fazia com elas depois de seduzi-las e me recusava a aceitar seus

persistentes convites para um passeio e um drinque. Aos meus olhos ele era

a representação perfeita da espécie. Mas comparado com o vampiro que

estava à minha frente, ele parecia magrelo, palerma e jovem demais.

O vampiro que eu tinha à frente era alto – bem, descontando as

distorções de perspectiva associadas ao fato de que o olhava do alto da

galeria, ele tinha quase dois metros de altura. E sem dúvida alguma não era

magrelo. Ombros largos, torso modelado e pernas musculosas. Mãos

incrivelmente longas e ágeis, um traço de delicadeza fisiológica que atraiu

meus olhos enquanto me perguntava se aquelas mãos podiam ser de um

homem tão corpulento.

Eu o observava e ao mesmo tempo ele me olhava fixamente. De onde

eu estava, os olhos daquele vampiro eram negros como a noite, abrigados

debaixo de sobrancelhas igualmente negras, uma delas se erguia em curva

insinuando indagação. Ele tinha um rosto realmente incrível, os planos e as

superfícies eram bem delineados e os ossos faciais eram angulosos e se

juntavam às sobrancelhas que escudavam e sombreavam os olhos. Acima do

queixo, uma outra parte com vestígios de suavidade – uma boca tão longa

quanto as mãos parecia não fazer sentido.

Mas a perfeição física não era o que mais desconcertava. A selvagem

combinação de força, agilidade, inteligência aguçada era tão intensa que se

tornava palpável. Vestindo uma calça preta e um suéter cinza, com os

cabelos negros descaindo displicentemente até a nuca, ele parecia uma

pantera que poderia atacar a qualquer momento, mas sem nenhuma pressa

para isso.

Ele sorriu. Apenas o esboço de um sorriso tímido, sem mostrar os

dentes. Por via das dúvidas, levei em conta que atrás daqueles lábios pálidos

havia dentes afiados.

A simples alusão aos dentes descarregou uma corrente instintiva de

adrenalina que percorreu meu corpo todo, deixando um formigamento nos

meus dedos. De repente, um único pensamento me passou pela cabeça: saia

daqui, AGORA.

A escada pareceu mais longa que os quatro passos necessários para

descê-la. Eu desci apressada e tropecei no último degrau, caindo direto nos

braços do vampiro.

É claro que o tropeção tinha a ver com aquela criatura.

Ele tinha mãos frias e braços que pareciam feitos de aço e não de carne

e osso. Um aroma de cravo e canela e de alguma outra coisa que me

lembrou incenso encheu o ar. Ele me endireitou, pegou o exemplar do

Notes and Queries que tinha caído no chão e me entregou com uma

reverência.

– Dra. Bishop, eu presumo.

Assenti com a cabeça, tremendo da cabeça aos pés.

Com os dedos longos e pálidos da mão direita, ele tirou um cartão de

apresentação azul e branco do bolso.

– Matthew Clairmont.

Peguei o cartão pela pontinha, cuidando de não tocar naqueles dedos.

O conhecido logotipo da Universidade de Oxford com três coroas e um

livro aberto ladeava o sobrenome Clairmont, seguido por uma fileira de

iniciais que o credenciava como membro da Royal Society.

Nada mau para quem aparentava uns trinta e poucos anos, se bem que

achei que a idade verdadeira dele era no mínimo dez vezes mais.

Não fiquei surpresa quando soube que aquele vampiro era professor de

bioquímica e integrava o departamento de neurociência de Oxford, no

Hospital John Radcliffe. Sangue e anatomia – dois ingredientes preferidos

dos vampiros. O cartão apresentava os números telefônicos de três

diferentes laboratórios, o número da sala e o endereço eletrônico dele.

Embora não o tivesse visto antes, ele não era nem um pouco difícil de ser

encontrado.

– Professor Clairmont. – Minha voz soou débil antes que as palavras

sumissem da minha boca e eu não conseguisse mais controlar a vontade de

sair correndo aos gritos daquele lugar.

– Ainda não fomos apresentados – ele disse, com um sotaque estranho.

Um sotaque predominantemente de Oxford, mas com um toque de

suavidade indistinguível aos meus ouvidos. Só então notei que os olhos que

se fixavam no meu rosto não eram totalmente negros, mas dominados por

pupilas dilatadas e margeadas por uma íris cinza esverdeada. Ele tinha um

olhar penetrante, e eu não conseguia desviar meus olhos.

A boca do vampiro se mexeu novamente.

– Sou um grande admirador do seu trabalho.

Arregalei os olhos. Mesmo não sendo impossível que um professor de

bioquímica se interessasse pela alquimia do século XVII, isso era improvável

demais. Esquadrinhei a sala, com as mãos na gola da minha blusa branca.

Éramos os únicos naquele lugar. Não vi ninguém no velho arquivo de

carvalho nem próximo ao setor dos computadores. E quem estivesse na

recepção estaria muito distante para vir em meu socorro.

– Achei fascinante seu artigo sobre o simbolismo cromático da

transformação alquímica, e foi muito persuasivo seu trabalho sobre a

abordagem de Robert Boyle aos problemas de expansão e contração –

continuou Clairmont, com fala mansa, como se acostumado a ser o único

participante ativo nas conversas. – Ainda não terminei de ler seu último

livro sobre educação e aprendizado alquímicos, mas estou adorando.

– Muito obrigada – sussurrei.

Ele desviou os olhos dos meus e olhou minha garganta.

Parei de dedilhar os botões de minha gola.

Ele voltou a cravar um olhar incomum nos meus olhos.

– Você tem uma maneira maravilhosa de resgatar o passado para os

leitores.

Considerei isso um elogio, já que os erros não passariam despercebidos

aos olhos de um vampiro.

Ele fez uma pausa de alguns segundos e acrescentou:

– Aceitaria jantar comigo?

Fiquei boquiaberta. Jantar? Talvez nem conseguisse escapar de

Clairmont na biblioteca, mas não fazia sentido aceitar o convite, ainda mais

para uma refeição que ele não poderia compartilhar devido às preferências

alimentares que tinha.

– Já tenho outros compromissos – respondi abruptamente, impotente

para encontrar uma desculpa convincente.

Matthew Clairmont devia saber que eu era uma bruxa e que não estava

celebrando o Mabon.

– Que pena – ele murmurou, com uma linha de sorriso nos lábios. –

Fica para outra vez. Vai ficar aqui em Oxford o ano todo?

Um vampiro por perto era sempre irritante, e o aroma de cravo-da-

índia que exalava dele evocava o cheiro estranho do Ashmole 782.

Impossibilitada de pensar direito, só me restou assentir com a cabeça. Era

mais seguro.

– Já presumia – ele disse. – Estou certo de que nossos caminhos se

cruzarão outra vez. Oxford é uma província.

– Uma minúscula província – eu concordei, desejando estar em

Londres e não ali.

– Até qualquer dia, então. Foi um prazer conhecê-la, dra. Bishop. –

Clairmont estendeu a mão. Afora a breve mirada na minha gola, ele não

desviou os olhos nem um só instante dos meus. Acho que nem piscou. Eu

me enchi de coragem para não desviar os olhos.

Estendi a mão e relutei por um segundo antes de apertar a sua. Ele deu

um passo para trás, sorriu e logo desapareceu na escuridão da parte mais

velha da biblioteca.

Fiquei parada, esperando que minhas mãos geladas voltassem a se

mover, e depois retornei à mesa e desliguei o computador. Enquanto

guardava meus papéis, o volume do Notes and Queries me encarava de um

modo inquisitorial, como se me acusando por ter me dado ao trabalho de

pegá-lo para nada. A lista de tarefas também se excedia em reprovação.

Arranquei a lista do caderno, amarrotei-a e joguei-a no cesto de lixo

debaixo da mesa.

– Basta o seu mal a cada dia – murmurei o provérbio entre dentes.

O supervisor da sala do turno da noite olhou para o relógio quando

devolvi os manuscritos.

– Saindo cedo, dra. Bishop?

Balancei a cabeça de boca fechada, contendo-me para não perguntar se

ele sabia de um vampiro que estava no setor de referências paleográficas.

Ele pegou a pilha de pastas cinzentas que continham os manuscritos.

– A senhora vai precisar deles amanhã?

– Sim – sussurrei. – Amanhã.

Enfim livre depois de cumpridas as últimas obrigações burocráticas

exigidas aos acadêmicos. Com meus sapatos batendo contra o chão de