A Descoberta das Bruxas por Deborah Harkness - Versão HTML

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linóleo e ecoando pelas paredes de pedra, ultrapassei o portal de treliças da

sala de leitura, passei pelos livros resguardados das mãos dos curiosos por

cordas de veludo, desci os degraus gastos da escada de madeira e entrei no

pátio do primeiro andar. Respirei ar frio e me encostei à grade de ferro que

cercava a estátua de bronze de William Herbert, lutando para tirar o resto

de odor de cravo e canela das minhas narinas.

As noites de Oxford são sempre chocantes, disse com firmeza para mim

mesma. Então... mais um vampiro na cidade.

O trajeto para casa foi mais rápido que de costume, apesar do que tinha

dito a mim mesma no pátio. A escuridão na New College Lane era, na

melhor das hipóteses, fantasmagórica. Enfiei o cartão magnético na leitora

ótica do portão dos fundos da New College e boa parte da tensão no meu

corpo se dissipou quando o portão se fechou às minhas costas, como se cada

porta e cada parede que eu tinha erguido entre mim e a biblioteca me

mantivessem de alguma forma a salvo. Margeei a parede da capela de

janelas altas até a passagem estreita que dava no pátio, cuja vista era o

único jardim sobrevivente e ainda inteiro de Oxford, com um monte

tradicional que no passado oferecia uma paisagem verde para que os alunos

contemplassem os mistérios de Deus e da natureza. Nessa noite, as torres e

os arcos da faculdade se mostravam especialmente góticos, e eu estava

ansiosa para entrar no prédio.

Respirei aliviada quando fechei a porta do meu apartamento. Situado

no último andar do complexo, era um alojamento reservado para antigos

membros visitantes. Os cômodos do apartamento incluíam um quarto de

dormir, uma sala com mesa de jantar redonda e uma cozinha pequena,

porém decente, todos decorados com gravuras antigas e lambris

aconchegantes. O mobiliário parecia ter sido recolhido de diversas

encarnações anteriores da sala dos tutores e alunos e da casa dos mestres,

muito usada e com predominância do estilo do século XIX.

Fui à cozinha, coloquei duas fatias de pão na torradeira e tomei um

copo d’água gelada. Enquanto bebia, abri a janela para deixar o ar fresco

entrar na casa.

Levei as torradas até a sala, tirei os sapatos e liguei o pequeno aparelho

de som. Os acordes de Mozart se dispersaram por todos os lados. Estiquei-

me no sofá para descansar por alguns instantes antes de tomar um banho e

me debruçar nas anotações do dia.

Passava das três horas da madrugada quando acordei com o coração

sobressaltado, o pescoço rijo e um forte gosto de cravo-da-índia na boca.

Peguei um copo d’água e fechei a janela da cozinha. Estava frio e tremi

com a umidade do ar.

Olhei de relance para o relógio, fiz alguns cálculos e resolvi telefonar

para casa. Lá em casa o relógio estaria marcando 22:30 mas Sarah e Em

eram notívagas como morcegos. Apaguei todas as luzes do apartamento,

menos as do quarto, e peguei o celular. Eu me despi rapidamente das

minhas roupas encardidas, me censurando por ter ido assim à biblioteca, e

depois vesti uma calça velha e larga de ioga e um suéter preto. Roupas bem

mais confortáveis que qualquer pijama.

Reconfortada pela maciez e firmeza da cama, quase me convenci a não

telefonar para casa. Mas a água não tinha tirado os vestígios do cravo-da-

índia de minha língua, e eu então teclei o número.

– Já estávamos esperando seu telefonema – soaram as primeiras

palavras.

Bruxas.

– Sarah, eu estou bem – suspirei.

– Todos os sinais dizem o contrário. – A irmã mais nova de mamãe fez

questão de não fazer rodeios, como sempre. – Tabitha está agitada desde o

começo da tarde, Em teve uma visão muito clara de você perdida num

bosque à noite, e eu não consigo comer nada desde o café da manhã.

O verdadeiro problema era a danada da gata. Tabitha era a queridinha

de Sarah e captava os problemas da família com surpreendente precisão.

– Está tudo bem. Só tive um encontro inesperado na biblioteca esta

noite, e nada mais.

Um clique denunciou a presença de Em na extensão.

– Por que você não está celebrando o Mabon? – ela perguntou.

Até onde minha memória alcançava, Emily Mather me acompanhava

como um verdadeiro apêndice. Ela e Rebecca Bishop se conheceram na

escola secundária, durante um trabalho de férias em Plimoth Plantation,

onde cavavam buracos e empurravam um carrinho de mão para os

arqueólogos. Logo se tornaram as melhores amigas e passaram a se

corresponder com devoção quando Emily foi para Vassar e minha mãe, para

Harvard. Mais tarde, elas se reencontraram em Cambridge, quando Em se

tornou bibliotecária infantil. Depois os meus pais morreram e os longos

finais de semana de Emily em Madison a levaram a um novo emprego na

escola local de ensino fundamental. Ela e Sarah tornaram-se companheiras

inseparáveis, embora Em tivesse seu próprio apartamento na cidade porque

havia um acordo entre ambas de que nunca dividiriam a mesma cama na

minha presença enquanto eu fosse criança. O relacionamento delas não

incomodava nem a mim nem aos vizinhos nem a qualquer outro da cidade.

Eram tratadas por todos como um verdadeiro casal, a despeito de onde

dormiam. Depois que saí de casa, Em mudou-se para lá e lá permanece até

hoje. Tal como mamãe e titia, Em descendia de uma linhagem de bruxas.

– Fui convidada a participar de um coven, mas tive que trabalhar.

– A bruxa da Bryn Mawr a convidou?

Emily tinha uma queda por Gillian, a classicista, sobretudo porque um

dia saíra com a mãe de Gillian (deixou escapar isso numa noite de verão,

depois de alguns copos de vinho). “Coisa dos anos 1960”, era como se

justificava.

– Sim. – Minha voz soou aborrecida. Ela e Sarah tinham metido na

cabeça que agora eu tinha um emprego seguro e estava a caminho de ver a

luz, e começaria a levar a sério meu dom mágico. Nada abalava este

prognóstico esperançoso, e as duas sempre se alvoroçavam quando eu

entrava em contato com uma bruxa. – Mas passei a tarde inteira com Elias

Ashmole.

– Quem é ele? – perguntou Em para Sarah.

– Você sabe, é aquele defunto que colecionava livros de alquimia –

respondeu Sarah, com uma voz abafada.

– Então vocês duas estão aí – eu disse.

– E quem lhe aborreceu? – perguntou Sarah.

Já que as duas eram bruxas, não fazia sentido tentar esconder alguma

coisa.

– Conheci um vampiro na biblioteca. Nunca o tinha visto antes, se

chama Matthew Clairmont.

Em fez silêncio enquanto checava seu arquivo mental de criaturas

notáveis. Sarah também silenciou por alguns segundos, hesitando se

explodia ou não.

– Espero que seja mais fácil se livrar dele do que dos demônios que você

costuma atrair – disse, de modo afiado.

– Os demônios deixaram de me aborrecer depois que larguei o teatro.

– Ainda teve aquele demônio que a seguiu até a Biblioteca Beinecke

quando você começou a trabalhar em Yale – Em me corrigiu. – Ele só estava

vagando pela rua e procurando por você.

– Era um tipo mentalmente desequilibrado – protestei. O fato de ter

atraído casualmente um único demônio curioso não podia ir contra mim, e

fazer feitiçaria na máquina de lavar também não.

– Você atrai essas criaturas como as flores atraem as abelhas, Diana.

Mas os demônios não são tão perigosos quanto os vampiros. Fique longe

dele – disse Sarah, com firmeza.

– Não tenho motivos para procurá-lo. – Acariciei meu pescoço. – Nós

não temos nada em comum.

– A questão não é essa – disse Sarah, elevando o tom da voz. – Bruxos,

vampiros e demônios não devem se misturar. Você sabe disso. Quando

fazemos isso nos tornamos mais visíveis para os humanos. Nenhum

demônio, nenhum vampiro valem esse risco.

As únicas criaturas do mundo que Sarah respeitava eram os bruxos.

Para ela, os humanos não passavam de pobres infelizes, cegos para o mundo

ao redor. Os demônios eram eternos adolescentes indignos de confiança. E

de acordo com a hierarquia das criaturas estabelecida por ela, os vampiros

encontravam-se bem abaixo dos gatos e talvez até um degrau abaixo dos

vira-latas.

– Você já me ensinou essas regras, Sarah.

– Nem todos obedecem às regras, querida – observou Em. – O que ele

queria?

– Ele disse que se interessava pelo meu trabalho. Mas como ele é um

cientista, fica difícil acreditar nisso. – Meus dedos deslizaram pelo edredom

da cama. – Ele me convidou para jantar.

– Para jantar? – Sarah pareceu incrédula.

Em se limitou a rir.

– Não há muita coisa no menu dos restaurantes que agrade aos

vampiros.

– Estou certa de que não o verei de novo. Pelo que está no cartão de

apresentação, ele trabalha em três laboratórios e ocupa dois cargos na

faculdade.

– Típico – sussurrou Sarah. – É isso que acontece quando se tem muito

tempo disponível. E pare de cutucar essa colcha porque vai acabar abrindo

um buraco nela. – Minha tia estava com o radar de bruxa ativado, e agora

me via da mesma forma que me ouvia.

– Ele não rouba o dinheiro de velhas senhoras nem torra a fortuna de

incautos na bolsa de valores – argumentei. Os vampiros eram conhecidos

por serem fabulosamente ricos, e isso era um ponto nevrálgico para Sarah. –

Ele é bioquímico e uma espécie de médico interessado no cérebro.

– Com toda certeza, esse tipo é muito fascinante, Diana, mas o que ele

queria? – Sarah contrapôs sua impaciência a minha irritação, um

contragolpe muito bem executado por todas as mulheres da família Bishop.

– Jantar está fora de cogitação – afirmou Em, categórica.

Sarah bufou.

– Ele queria alguma coisa. Vampiros e bruxas não saem por aí em

encontros românticos. A menos que estivesse planejando jantar você, é

claro. Não há nada que eles adorem mais do que o sabor do sangue de uma

bruxa.

– Talvez só estivesse curioso. Ou talvez aprecie mesmo seu trabalho –

disse Em, com tanta dúvida que acabou rindo.

– Não teríamos esse tipo de conversa se você tivesse tomado as

precauções básicas – disse Sarah, em tom azedo. – Um feitiço de proteção,

um pouco do seu dom premonitório e...

– Não vejo necessidade de recorrer à magia e à feitiçaria para saber por

que um vampiro me convidou para jantar – retruquei, com firmeza. – Sem

chance, Sarah.

– Então não nos telefone à procura de respostas que não deseja ouvir –

disse Sarah, visivelmente irritada. Colocou o telefone no gancho antes de

ouvir a minha resposta.

– Você sabe que Sarah só está preocupada com você – disse Em, em

tom conciliador. – E ela não entende por que você não se vale de seus dons

nem mesmo para se proteger.

Porque, como já expliquei antes, meus dons estão ligados a amarras.

Tentei explicar novamente.

– Isso é um poço sem fundo, Em. Hoje me protejo de um vampiro na

biblioteca e amanhã me protegerei de uma pergunta difícil na palestra. E

algum tempo depois estarei escolhendo temas de pesquisas já sabendo que

serão bem-sucedidos, e tendo a garantia de vitória. Para mim é muito

importante vencer por conta própria. Se eu recorrer à magia, nada mais será

verdadeiramente meu. Eu não quero ser a próxima bruxa Bishop. – Já ia

abrir a boca para falar do Ashmole 782 para Em, mas alguma coisa me fez

fechá-la.

– Eu sei, eu sei, querida. – A voz de Em soou com suavidade. – Eu

entendo. Mas Sarah não consegue deixar de se preocupar com sua

segurança. Você é tudo que restou da família dela.

Alisei o cabelo e deixei a mão na testa. Esse tipo de conversa sempre

me fazia lembrar dos meus pais. Hesitei em mencionar minha grande

preocupação.

– O que é? – perguntou Em, captando meu desconforto com o sexto

sentido.

– Ele sabia meu nome. Nunca o tinha visto antes, mas ele me

reconheceu.

Em considerou as possibilidades.

– Sua foto não está na orelha do seu último livro?

Meu fôlego que estava preso, sem que eu tivesse reparado, se soltou

aliviado.

– Claro. Isso explica. Eu devia ter pensado nisso em vez de ser tão tola.

Dá um beijo na Sarah por mim?

– Dou, sim. E se cuide, Diana. Os vampiros ingleses não se comportam

tão bem com as bruxas como os vampiros americanos.

Sorri, lembrando da reverência formal de Matthew Clairmont.

– Pode deixar. Mas não se preocupe. É bem provável que não o veja de

novo.

Ela ficou em silêncio.

– Em? – chamei-a.

– O tempo dirá.

Em não era tão boa em ver o futuro como minha mãe tinha sido um

dia, mas dava para sentir que alguma coisa a preocupava. Convencer uma

bruxa a compartilhar uma vaga premonição é algo quase impossível. Ela não

me diria o que a preocupava em relação a Matthew Clairmont. Ainda não.

3

m meio às sombras, na ponte arqueada que se estendia sobre a New

College Lane e interligava dois módulos da Hertford College, o

E vampiro se pôs de costas na pedra desgastada de um dos prédios

mais novos da faculdade e apoiou os pés na amurada da ponte.

A bruxa irrompeu com um passo surpreendentemente seguro pela

calçada de pedras em frente a Bodleiana. Ela passou apressada por baixo do

lugar em que ele estava. O nervosismo a deixava bem mais jovem do que ela

realmente era e acentuava-lhe a vulnerabilidade.

Então, essa é a formidável historiadora, pensou o vampiro com malícia,

analisando a silhueta da bruxa. Mesmo depois de ter observado uma foto de

Bishop, Matthew achou que seria mais velha pelo seu extenso currículo

profissional.

Apesar da grande e aparente agitação, Diana caminhava de coluna

ereta e com os ombros retos. Talvez não fosse tão fácil intimidá-la como ele

esperava. O comportamento dela na biblioteca demonstrara isso. Ela o

encarara sem nenhum vestígio do medo que ele estava habituado a ver

naqueles que não eram vampiros – e em muitos vampiros também.

Quando Bishop dobrou a esquina, Matthew esgueirou-se ao longo dos

telhados até alcançar o muro da New College. O vampiro deslizou

silenciosamente até a beira do telhado. Ele conhecia a planta da faculdade e

localizara o apartamento da jovem. Quando ela começou a subir a escada,

ele já estava no outro lado do apartamento.

Diana percorreu o apartamento, acendendo as luzes dos cômodos,

enquanto os olhos de Matthew a seguiam. Ela abriu a janela da cozinha,

deixando-a entreaberta, e sumiu de vista.

Isso me poupará de quebrar uma janela trancada, pensou o vampiro.

Matthew se projetou no espaço aberto e começou a escalar a parede até

o apartamento, agarrado a um velho cano de cobre e aos galhos resistentes

da videira enquanto tateava com as mãos e os pés em busca de brechas

seguras na velha parede de tijolos. Já no seu novo posto de observação, o

vampiro inalou o perfume da bruxa e ouviu um farfalhar de páginas

folheadas. Ele esticou o pescoço para espiar pela janela.

Bishop estava lendo, a serenidade no rosto a fazia parecer diferente. Era

como se a pele se encaixasse perfeitamente nos ossos. Ela inclinou

levemente a cabeça e se recostou nas almofadas com um tênue suspiro de

exaustão. Logo a regularidade da respiração deixou entrever que ela estava

dormindo.

O vampiro escalou mais um pouco a parede e entrou pela janela da

cozinha da bruxa. Fazia tempo que não entrava pela janela de uma mulher.

Ocasiões assim eram raras, e geralmente associadas a momentos em que ele

estava apaixonado. Mas dessa vez era por um motivo diferente. Mesmo

assim, se fosse flagrado ali, ele teria que encontrar uma boa desculpa.

Matthew tinha que saber se o Ashmole 782 ainda estava com Bishop.

Ele se viu impedido de procurar na escrivaninha dela na biblioteca, mas

uma rápida olhadela o fez perceber que o manuscrito não estava entre os

outros que ela consultara naquele dia. No entanto, uma bruxa – ainda mais

uma Bishop – nunca deixaria o livro escapulir de suas mãos. Ele então

percorreu, pé ante pé, os cômodos do pequeno apartamento, sem fazer

barulho. O manuscrito não estava no banheiro nem no quarto da bruxa. Ele

se esgueirou silenciosamente pelo sofá onde ela dormia.

As pálpebras da bruxa se moviam como se vendo um filme que só ela

via, uma das mãos estava fechada e as pernas se mexiam uma vez ou outra.

No entanto, indiferente ao que o resto do corpo podia expressar, o rosto

estava impassível, sereno.

Alguma coisa estava errada. Matthew sentira isso tão logo a viu pela

primeira vez na biblioteca. Ele cruzou os braços e começou a estudá-la, mas

não conseguiu saber o que era. Aquela mulher não exalava os odores

habituais de uma bruxa – meimendro negro, enxofre e sálvia. Ela está

escondendo alguma coisa, pensou o vampiro, alguma coisa além de um

manuscrito perdido.

Matthew se virou, procurando pela escrivaninha dela. Localizou-a,

abarrotada de livros e papéis. Era bem provável que ela tivesse guardado o

volume surrupiado ali. Ele deu um passo em direção à escrivaninha e

paralisou quando sentiu um cheiro de eletricidade.

O corpo de Diana Bishop vertia uma luz – saía pelas extremidades e

pelos poros. Era uma luz de um azul tão claro que beirava o branco, e

primeiro formou um véu que a cobriu por alguns segundos. Ela brilhou por

um momento. Matthew balançou a cabeça, sem acreditar no que via.

Aquilo era impossível. Fazia séculos que ele não testemunhava aquele tipo

de luminosidade emanando de uma bruxa.

Mas outros assuntos mais urgentes estavam em jogo, e Matthew

retomou a busca ao manuscrito, revistando apressadamente os objetos que

se encontravam na mesa. Frustrado, ele passou a mão no cabelo. O perfume

da bruxa impregnava o ar, distraindo-lhe a atenção. Ele voltou os olhos para

o sofá. Ela se remexeu novamente e se encolheu até ficar com os joelhos

quase colados ao peito. E mais uma vez a luminosidade pulsou na superfície

de seu corpo, brilhando por um instante e depois se recolhendo.

Matthew franziu a testa, intrigado, pela discrepância entre o que ouvira

na noite anterior e o que testemunhava com os próprios olhos. Duas bruxas

tinham fofocado sobre o Ashmole 782 e sobre uma outra bruxa que estava

com o manuscrito. Uma delas insinuara que a historiadora americana

negligenciava o poder mágico que possuía. Ele tinha visto esse poder em

ação na Bodleiana e agora via o mesmo poder fluindo pelo corpo dela com

grande intensidade. Suspeitava então que ela recorria à magia no trabalho

intelectual. Ela escrevera sobre alguns homens que tinham sido amigos dele

– Cornelius Drebbel, Andreas Libavius, Isaac Newton. E capturara as

peculiaridades e obsessões desses homens com perfeição. Como uma mulher

moderna poderia entender aqueles homens que tinham vivido no passado

distante sem o auxílio da magia? Matthew se perguntou por um momento se

Bishop seria capaz de entendê-lo com a mesma acuidade.

Os relógios badalaram três horas, deixando-o assustado, com a garganta

seca. Ele se deu conta de que tinha ficado em pé e imóvel naquele lugar por

horas a fio enquanto a bruxa sonhava e vertia seu poder em ondas. Por uma

fração de segundo, ele cogitou em matar a fome com o sangue dela. O sabor

do sangue o faria localizar o volume perdido e revelaria os segredos

guardados pela bruxa. Mas o vampiro se conteve. O desejo de encontrar o

Ashmole 782 é que o tinha feito perder tempo com a enigmática Diana

Bishop.

Se o manuscrito não estava no apartamento da bruxa, talvez ainda

estivesse na biblioteca.

Matthew foi até a cozinha, saiu pela janela e desapareceu na noite.

4

cordei quatro horas mais tarde, sem ter desfeito a cama para

A dormir e com o fone na mão. Enquanto dormia, o chinelo

deve ter escapulido e meu pé direito ficou oscilando para fora

da cama. Olhei para o relógio e resmunguei. Não me sobrava tempo para a

caminhada habitual até o rio, nem para uma corrida.

Com meu ritual matinal minguado, tomei um banho e depois tomei

uma xícara de chá bem quente enquanto secava o cabelo. Eu escovava meu

cabelo com regularidade, e mesmo assim era rebelde e parecia uma palha.

Como o cabelo de muitas outras bruxas, os fios longos do meu nunca

estavam bem penteados e não se mantinham à altura dos ombros. Sarah

dizia que isso se devia à magia enclausurada e garantia que o uso constante

do meu poder dissiparia a eletricidade estática e tornaria meu cabelo mais

obediente.

Depois de escovar os dentes, vesti uma calça jeans, uma blusa branca e

uma jaqueta preta. Era a rotina de sempre e o traje habitual, mas nesse dia

nada parecia confortável. Parecia que eu estava espremida nas roupas, e isso

me incomodava. Ajeitei a jaqueta para melhorar o caimento, mas não se

podia esperar muito de um corte inferior.

Olhei para o espelho, e lá estava o rosto da minha mãe, me olhando.

Não sei quando comecei a me parecer tanto com ela. Será que foi durante a

faculdade? Lembro que só repararam nisso em meu primeiro ano de

faculdade, quando fui passar o feriado de Ação de Graças em casa. Era a

primeira vez que ouvia isso das pessoas que tinham conhecido Rebecca

Bishop.

A olhadela no espelho também me fez notar que as poucas horas de

sono tinham deixado minha pele esmaecida. Isso realçava as sardas

herdadas do meu pai, um realce alarmante que as olheiras em torno de meus

olhos tornavam ainda mais visível. O cansaço também evidenciava o

tamanho do meu nariz, deixando meu queixo mais pronunciado. Lembrei

do imaculado professor Clairmont, me perguntando que aparência ele tinha

quando acordava de manhã. Talvez a mesma aparência prístina que

apresentara na noite anterior, concluí – uma besta. Ri da minha reflexão.

Fiz o trajeto até a porta do apartamento, parando aqui e ali, verificando

todos os aposentos. Algo me preocupava – sei lá, um apontamento

esquecido, um prazo de entrega. A sensação era de que eu tinha esquecido

alguma coisa muito importante. O desconforto fez meu estômago revirar e

comprimir, e depois passou. Chequei a agenda e a pilha de correspondência

em cima da mesa, depois saí apressada e desci até o térreo. As prestativas

funcionárias da cozinha me ofereceram uma torrada quando me viram

passar correndo. Elas teimavam em ainda me ver como uma aluna da

graduação e sempre tentavam me alimentar com mingau e torta de maçã

quando eu parecia estressada.

Mastigar a torrada enquanto escorregava pelo calçamento de pedras da

New College Lane foi o bastante para me convencer de que a noite anterior

não tinha passado de um sonho. Meus cabelos balançavam no meu pescoço

e minha expiração se misturava ao ar gelado. De manhã, Oxford era a

quintessência da normalidade, com os furgões de entregas que se dirigiam às

cozinhas da faculdade, o aroma de café recém-passado, a umidade da

calçada e os raios de sol que se infiltravam pela neblina. Claro que não era

um lugar apropriado para vampiros.

O atendente da Bodleiana, no seu costumeiro terno azul, executou a

rotina de examinar meu cartão da biblioteca como se nunca me tivesse

visto, como se eu fosse chefe de uma quadrilha de ladrões de livros. Por fim,

acenou, permitindo minha entrada. Coloquei a bolsa no guarda-volumes

próximo à porta depois de ter apanhado a carteira, o computador e as notas,

e me dirigi à escada de madeira em espiral rumo ao terceiro andar.

O cheiro de biblioteca sempre me deixava revigorada – um misto de

pedras envelhecidas, umidade, carcoma e papel corretamente feito de fibras

de algodão. O sol entrava pelas janelas de cada piso da escada, iluminando

as partículas de poeira no ar e projetando barras luminosas nas velhas

paredes. Nelas, a luz do sol salientava os anúncios da última série de

palestras agora enrolados. Ainda seriam afixados novos cartazes, mas logo,

logo os portões se abririam e chegaria uma onda de alunos para quebrar a

tranquilidade da cidade.

Cantarolando baixinho, cumprimentei com um aceno de cabeça os

bustos de Thomas Bodley e do rei Carlos I que ladeavam a entrada arqueada

da Duke Humfrey e empurrei a porta de vaivém próxima ao balcão de

solicitações.

– Hoje teremos que instalá-lo na Selden End – soou a voz do

supervisor, com um tom exasperado.

A biblioteca acabara de abrir, mas o sr. Johnson e sua equipe já estavam

agitados. Eu já presenciara essa mesma agitação, mas só quando acadêmicos

importantes eram aguardados.

– Ele já fez os pedidos e está esperando. – A atendente desconhecida do

dia anterior me olhou com uma cara carrancuda e pegou uma pilha de

livros. – Esses aqui também. Ele pediu que os levasse da nova sala de leitura

da biblioteca.

Lá ficavam os livros da Ásia oriental. Não era meu campo de estudo e

logo perdi o interesse pela agitação.

– Leve-os para ele agora mesmo e avise que entregaremos os

manuscritos daqui a uma hora. – O supervisor parecia aborrecido quando

retornou a seu escritório.

Sean fez uma cara de enfado quando me aproximei do balcão.

– Oi, Diana. Você quer os manuscritos que reservou?

– Muito obrigada – sussurrei, visualizando minha apetitosa lista. – Hoje

o dia está agitado, não é?

– Aparentemente – ele disse de modo seco antes de sumir na cabine

onde os manuscritos eram trancados durante a noite. Em seguida, voltou

com uma valiosa pilha. – Aqui estão. Qual é mesmo o número de sua mesa?

– A4. – Era o número da mesa que eu sempre escolhia, no fundo do

canto sudeste do Selden End, onde a luz natural era melhor.

O sr. Johnson veio correndo em minha direção.

– Dra. Bishop, nós colocamos o professor Clairmont na A3. Talvez a

senhora prefira se sentar na A1 ou na A6. – Ele se equilibrava

nervosamente ora sobre o pé esquerdo ora sobre o direito, ajeitando os

óculos no topo do nariz e piscando para mim atrás de grossas lentes.

Eu o encarei.

– O professor Clairmont?

– Sim. Ele está trabalhando em alguns documentos de Needham e

precisa de uma boa luz para isso.

– Joseph Needham, o historiador de ciência chinesa? – O sangue

começou a ferver em torno do meu plexo solar.

– Sim, o próprio. Ele também era bioquímico, é claro... daí o interesse

do professor Clairmont – explicou o sr. Johnson, nesse momento ainda mais

atrapalhado. – A senhora se sentaria na A1?

– Ficarei com a A6.

A ideia de me sentar ao lado de um vampiro, mesmo com um assento

vazio entre nós dois, me soou profundamente desagradável. Mas para mim

era impossível cogitar um lugar do outro lado da A4. Como poderia me

concentrar imaginando o que aqueles olhos estranhos estariam olhando? Se

as mesas da ala medieval fossem mais confortáveis, eu teria me instalado

debaixo de uma das gárgulas que guardavam as estreitas janelas, mesmo

enfrentando a desaprovação da empertigada Gillian Chamberlain.

– Oh, isso é ótimo. Muito obrigado pela compreensão. – O sr. Johnson

suspirou aliviado.

Meus olhos se apertaram assim que cheguei ao iluminado Selden End.

Clairmont parecia imaculado e descansado, sua pele pálida contrastava com

seus cabelos negros. Dessa vez, ele estava com um suéter cinza salpicado de

pontos verdes, com a gola ligeiramente erguida à nuca. Uma espiada para

debaixo da mesa mostrou que ele vestia uma calça cinza quase da cor do

carvão, meias combinando e sapatos pretos que seguramente eram mais

caros que o guarda-roupa inteiro dos acadêmicos.

A sensação de desconforto retornou. O que Clairmont estava fazendo

na biblioteca? Por que não estava no laboratório?

Não fiz o menor esforço para abafar o barulho dos meus passos

enquanto andava na direção do vampiro. Sentado na extremidade das

fileiras de mesas, em linha diagonal ao meu lugar, e aparentando não se dar

conta de minha presença, Clairmont manteve-se impassível na leitura.

Coloquei a sacola de plástico e os manuscritos no espaço marcado como A5,

delimitando os limites extremos do meu território.

Ele ergueu os olhos e arqueou as sobrancelhas, em aparente surpresa.

– Dra. Bishop. Bom-dia.

– Professor Clairmont. – Eu presumi que ele tinha escutado tudo o que

se disse a respeito dele na entrada da sala com uma audição de morcego.

Sem encará-lo, comecei a tirar meus equipamentos de dentro de uma sacola

para erguer uma pequena fortificação entre mim e o vampiro. Ele me

observou fazendo isso até o fim, e depois abaixou as sobrancelhas em sinal

de concentração e retomou a leitura.

Peguei o fio do computador e me enfiei debaixo da mesa para ligá-lo na

tomada. Quando me recompus, ele ainda estava lendo, mas se reprimindo

para não rir.

– Você estaria bem mais confortável na extremidade norte – eu disse

entre dentes, voltando-me para minha lista de manuscritos.

Clairmont ergueu os olhos, repentinamente escurecidos pelas pupilas

dilatadas.

– Eu a estou incomodando, dra. Bishop?

– É claro que não – respondi abruptamente, com a garganta

repentinamente impregnada pelo forte aroma de cravo-da-índia que

acompanhou as palavras dele. – Mas me surpreende vê-lo confortavelmente

sentado de frente para o lado sul.

– Você acredita em tudo que lê? – Ele ergueu uma das sobrancelhas

grossas e negras, com um ar de interrogação.

– Se quer saber se acho que você arderá em chamas sob a luz do sol, a

resposta é não. – Os vampiros não se incendeiam em contato com a luz do

sol e não possuem presas muito acentuadas. São lendas criadas pelos

humanos. – Mas nunca conheci... alguém como você que gostasse de se

expor ao sol.

O corpo de Clairmont continuou imóvel, mas notei que ele se reprimiu

para não rir.

– Dra. Bishop, quantas experiências diretas você teve com alguém

como eu?

Como ele sabia que minhas experiências com vampiros não eram

muitas? Mesmo com alguns sentidos e habilidades sobrenaturais, isso não

capacita os vampiros a ler mentes e ter premonições. São sentidos inerentes

a bruxas e, raras vezes, a certos demônios. Essa era a ordem natural, ou pelo

menos a que minha tia me passou quando eu era criança e que atrapalhava

meu sono, temendo que algum vampiro roubasse meus pensamentos e

fugisse pela janela com eles.

Eu o analisei bem de perto.

– De qualquer forma, não acho que sejam necessários anos de

experiência para que me diga o que quero saber agora, professor Clairmont.

– Se eu puder, ficarei feliz em responder sua pergunta – ele disse,

fechando o livro e o deixando na mesa. Aguardou com a mesma paciência

de um professor que ouve um aluno beligerante e não muito brilhante.

– O que você quer?

Clairmont se recostou na cadeira de braços cruzados.

– Eu quero investigar os documentos de Needham e estudar a evolução

de suas ideias em morfogênese.

– Morfogênese?

– As mudanças nas células embrionárias que resultam na

diferenciação...

– Eu sei o que é morfogênese, professor Clairmont. Isso não me

interessa agora.

Ele engoliu em seco. E eu cruzei os braços.

– Entendo. – Ele esticou seus dedos longos, descansando os cotovelos

nos braços da cadeira. – Na noite passada, vim aqui na Biblioteca Bodley

para requisitar alguns manuscritos. Entrei e resolvi dar uma olhada por aí...

você entende, gosto de dar uma olhada no que me cerca e geralmente isso

não leva muito tempo. E lá estava você, na galeria. Claro que aquilo que vi

depois foi completamente inusitado. – Ele engoliu em seco outra vez.

Repassei na cabeça a cena em que eu pegava o livro. Procurei não me

desarmar por ele ter sido antiquado ao dizer “Biblioteca Bodley”, mas não

tive muito êxito.

Cuidado, Diana, eu disse para mim mesma. Ele está querendo encantá-

la.

– Então, a sua versão é de que tudo não passou de um conjunto de

estranhas coincidências que fizeram um vampiro e uma bruxa se sentarem

próximos um do outro para investigar manuscritos como dois leitores

comuns.

– Não acho que alguém que perdesse tempo para me analisar chegaria à

conclusão de que sou comum, não concorda? – A serenidade na voz de

Clairmont assumiu um tom zombeteiro, e ele se inclinou para a frente da

cadeira. A luz incidiu na palidez de sua pele e o fez brilhar. – Mas por outro

lado, é isso mesmo. Tudo não passa de uma série de coincidências

facilmente explicáveis.

– Suponho que os cientistas não acreditam em coincidências.

Ele riu, suavemente.

– Alguns precisam acreditar.

Clairmont continuou com os olhos cravados em mim, e isso me deixou

extremamente irritada. A atendente chegou com caixas de manuscritos que

trazia com um carrinho de madeira para a sala de leitura e colocou-as nos

braços do vampiro.

Ele tirou os olhos de mim.

– Muito obrigado, Valerie. Agradeço pela ajuda.

– Não há de quê, professor Clairmont – disse Valerie, ruborizada,

olhando-o em êxtase. O vampiro a encantara com nada mais que um

simples agradecimento. Bufei. – Não deixe de nos avisar quando precisar de

alguma coisa – ela acrescentou enquanto voltava para seu posto próximo à

entrada.

Clairmont desamarrou o barbante da primeira caixa com seus longos

dedos e deu uma olhadela em mim.

– Não quero atrapalhar seu trabalho.

Matthew Clairmont assumira o controle. Eu já tinha lidado o bastante

com colegas academicamente superiores a mim para reconhecer os sinais e

saber que qualquer resposta só pioraria a situação. Abri o computador e o

pus para funcionar com um toque mais pesado que o necessário, e peguei

meu primeiro manuscrito. Depois o desamarrei e o coloquei no cavalete à

frente.

Passada uma hora e meia, eu tinha lido as primeiras páginas pelo menos

umas trinta vezes. Comecei pela leitura dos conhecidos versos atribuídos a

George Ripley, os quais prometiam revelar os segredos da pedra filosofal. Em

face das surpresas da manhã, o poema que descreve como fazer o Leão

Verde, criar o Dragão Negro e preparar o sangue místico a partir de

ingredientes químicos pareceu mais opaco que de costume.

Por outro lado, o desempenho de Clairmont era surpreendente,

preenchendo páginas de papel com uma elegante caneta Montblanc

Meisterstück. Ele virava as páginas sem se deter, e o farfalhar me deixava

boquiaberta.

Vez por outra o sr. Johnson passava pela sala para verificar se as obras

estavam sendo bem cuidadas. O vampiro não interrompia suas anotações.

Eu espiava.

Às 10:45 Gillian Chamberlain entrou no Selden End, fazendo-me sentir

um formigamento familiar. Ela caminhou na minha direção – sem dúvida

para me dizer que se divertira muito no jantar de Mabon. Então, avistou o

vampiro e uma sacola plástica com lápis e papéis caiu de suas mãos. Ele a

encarou e assim ficou até que ela retornou apressada para a sala medieval.

Às 11:30 senti a pressão insidiosa de um beijo na minha nuca. Era o

demônio confuso e viciado em cafeína da sala de referências musicais. Ele

girava repetidamente um par de fones de ouvido brancos de plástico entre

os dedos e depois os girava no ar. Avistou-me, acenou com a cabeça para

Matthew e sentou-se na frente de um computador no centro da sala. Um

aviso estava colado à tela: COM DEFEITO. À ESPERA DO TÉCNICO. O

demônio permaneceu ali durante algumas horas, às vezes olhando para trás

e para o teto, como se tentando se situar e descobrir como tinha parado

naquele lugar.

Desviei a atenção para George Ripley, sentindo os olhos frios de

Clairmont no alto da minha cabeça.

Às 11:40 tive a sensação de um rasgão gelado entre meus ombros.

Foi a última gota. Sarah sempre dizia que entre dez seres um é sempre

uma criatura, mas naquela manhã as criaturas superavam os humanos na

sala Duke Humfrey, numa média de cinco para um. De onde tinham

surgido todas aquelas criaturas?

Levantei abruptamente e olhei ao redor, assustando um querubínico

vampiro tosquiado que tinha uma pilha de missais medievais na mão e

tentava se sentar numa minúscula cadeira. Ele deixou escapar um grunhido

perante a súbita e indesejada atenção. Ao avistar Clairmont, empalideceu

de um modo que eu não achava possível nem mesmo para um vampiro.

Inclinou-se com reverência e saiu às pressas em direção aos recessos

sombrios da biblioteca.

Ao longo da tarde, uns poucos humanos e mais três criaturas entraram

no Selden End.

Duas vampiras desconhecidas, talvez irmãs, passaram deslizando por

Clairmont e chegaram às estantes de história local debaixo da janela, onde

pegaram obras sobre a colonização de Bedfordshire e Dorset e fizeram

anotações em um único bloco. Uma delas cochichou alguma coisa e a

cabeça de Clairmont girou com tanta rapidez que se fosse o pescoço de um

ser inferior teria estalado. Ele pediu silêncio com um suave sopro sibilante

que eriçou os pelos da minha nuca. As duas se entreolharam e se retiraram

da mesma maneira furtiva de quando apareceram.

A terceira criatura era um homem mais velho que se colocou

diretamente exposto à luz do sol, olhou embevecido pelas janelas e depois se

voltou para mim. Ele vestia o traje acadêmico habitual – paletó de tweed

com remendo nos cotovelos, calça de veludo cotelê ligeiramente esverdeada

e camisa de algodão abotoada até a gola com um bolso manchado de tinta –

e eu já estava achando que era mais um acadêmico de Oxford quando

minha pele formigou, sinalizando que era um bruxo. Mesmo assim, era um

estranho para mim e tratei de me concentrar no meu manuscrito.

Contudo, uma suave sensação de pressão na minha nuca tornou

impossível a concentração na leitura. A pressão se deslocou para os olhos,

intensificando-se à medida que se dispersava pela testa, e fez meu estômago

se apertar de pânico. Aquilo não era uma saudação silenciosa e sim uma

ameaça. Mas por que outro bruxo estaria me ameaçando?

Ele caminhou na minha direção, com aparente displicência. Já próximo

de mim, uma voz sussurrou dentro de minha cabeça, a essa altura estalando

de dor. Eu me senti muito debilitada para distinguir as palavras. Eu estava

certa de que vinham do bruxo, mas quem era ele afinal?

Eu já estava sem fôlego. Saia da minha cabeça, eu pensei, agora irritada

e tocando na minha testa.

Clairmont moveu-se com tanta rapidez que não o vi rodear as mesas.

Uma fração infinitesimal de tempo depois, ele já estava de pé, apoiado com

uma das mãos nas costas da minha cadeira e com a outra no tampo da

minha mesa. Seus ombros largos curvavam-se em volta de mim como as asas

de um falcão protegendo a presa.

– Você está bem? – ele perguntou.

– Estou ótima – respondi com uma voz trêmula, sem entender por que

um vampiro precisava me proteger de um bruxo.

Na galeria acima de nós, uma leitora esticou a cabeça para espionar o

ocorrido. Ela aparentava preocupação. Uma bruxa, um bruxo e um vampiro

jamais seriam ignorados por um humano.

– Me deixe sozinha. Os humanos já nos perceberam – falei entre

dentes.

Clairmont empertigou-se, como um anjo vingador, de costas para o

bruxo e com o corpo angulado entre mim e o bruxo.

– Ah, desculpem-me – murmurou o bruxo por trás de Clairmont. –

Achei que o lugar estava vago. Peço desculpas.

À medida que o bruxo se retirava com passos macios, a pressão na

minha cabeça desvanecia.

Uma leve brisa soprou em mim quando o vampiro tentou tocar no meu

ombro com sua mão gelada e a desviou para o encosto de minha cadeira.

Depois, se inclinou.

– Você está muito pálida – disse suave e baixinho. – Posso acompanhá-

la até sua casa?

– Não. – Balancei a cabeça, torcendo para que ele se sentasse e eu

pudesse me recompor. Lá na galeria, a humana continuava a nos observar.

– Dra. Bishop, talvez seja melhor me deixar acompanhá-la até sua casa.

– Não! – Minha voz soou mais alta que o pretendido. Abaixei o tom até

torná-la um sussurro. – Ninguém vai me tirar desta biblioteca... nem você

nem qualquer outro.

O rosto de Clairmont estava desconcertantemente próximo de mim.

Ele respirou fundo e foi soltando o ar aos poucos, e o poderoso aroma de

cravo e canela se fez presente outra vez. O meu olhar o fez se convencer da

minha resolução e ele se afastou. Com os lábios fechados em uma linha de

severidade, retomou o assento.

Passamos o resto da tarde em negociação diplomática. Eu tentava

ultrapassar a segunda folha do primeiro manuscrito enquanto ele folheava

alguns fragmentos e as notas já escritas, com a atenção de um juiz decidindo

um caso capital.

Ali pelas três horas da tarde, meus nervos já estavam em frangalhos, e

eu não conseguia mais me concentrar. Um dia perdido.

Recolhi minhas coisas espalhadas pela mesa e coloquei o manuscrito de

volta à caixa.

Clairmont olhou para mim.

– Já vai embora, dra. Bishop? – disse com uma voz meiga, mas com os

olhos faiscando.

– Sim – respondi, apressadamente.

Aos poucos, a cara do vampiro se tornou inexpressiva.

As criaturas presentes na biblioteca observaram minha saída – o bruxo

ameaçador, Gillian, o monge vampiro e também o demônio. O atendente da

tarde na mesa de devolução me era estranho porque eu nunca saía da

biblioteca naquele horário. O senhor Johnson se remexeu na cadeira e,

surpreso por me ver, olhou para o relógio.

Atravessei a porta de vidro da biblioteca e respirei o ar fresco do pátio.

Mas naquele dia seria preciso muito mais que ar fresco.

Quinze minutos depois, eu estava de bermuda larga, camiseta velha da

New College Boat Club e suéter de moletom. Amarrei os cadarços do tênis

e saí para uma corrida até o rio.

Quando cheguei ao rio, uma boa parte da minha tensão se dissipara.

– Envenenamento de adrenalina – era o diagnóstico de um médico para

os surtos de ansiedade que me atormentavam desde a infância. O que os

médicos explicavam é que meu corpo parecia se sentir em constante perigo

por razões desconhecidas. Um dos especialistas consultados pela minha tia

afirmou com veemência que meu sintoma era um resquício bioquímico do

período em que o homem se dedicava à caça e à agricultura. Segundo ele,

eu poderia melhorar se corresse para liberar a carga de adrenalina da minha

corrente sanguínea, tal como acontece com um cabrito montês que foge em

disparada de um leão.

Infelizmente, o doutor sequer imaginava que quando pequena eu tinha

ido até Serengeti com meus pais, onde presenciei esse tipo de perseguição.

O cabrito montês perdeu. Isso me impressionou muito.

Desde então, tomei um medicamento atrás do outro, mas nada

funcionava tão bem para dispersar o pânico quanto uma atividade física. Em

Oxford, se faziam exercícios de remo antes das aulas, e uma horda de

estudantes tornava o estreito rio em via pública. Mas as aulas da

universidade ainda não tinham começado, e o rio estava praticamente

desimpedido naquela tarde.

Saí pisando nos cascalhos do caminho que levava às casas de barcos.

Acenei para Pete, um barqueiro que vasculhava a região com uma chave

inglesa e tubos de graxa para consertar os danos eventuais que os estudantes

faziam durante o treinamento. Parei na sétima casa de barcos e, antes de

pegar a chave em cima da lâmpada no lado de fora, fiz um alongamento

para aliviar uma pontada na lateral do meu corpo.

Lá dentro, acomodados em cavaletes, barcos em branco e amarelo me

saudaram. Alguns com oito assentos e mais o assento do timoneiro, outros

ligeiramente menores para mulheres, e também alguns botes de qualidade e

tamanho inferiores. Um cartaz dependurado no arco de um reluzente barco

que ainda não estava pronto instruía os visitantes com as seguintes palavras:

NINGUÉM PODE LEVAR A MULHER DO TENENTE FRANCÊS

PARA FORA DESTA CASA SEM A PERMISSÃO DO PRESIDENTE

DA NCBC. O nome do barco tinha sido pintado recentemente na lateral

com letras em estilo vitoriano, em homenagem ao criador do personagem

que estudara na New College.

No fundo da casa de barcos soava o ruído de um barco de uns 8 metros

de comprimento por uns 30 centímetros de largura assentado em um

conjunto de eslingas posicionadas à altura da cintura. Deus abençoe Pete,

pensei. Ele tinha deixado o barco no chão da casa de barcos. Sobre o

assento, um bilhete: Treinamento para os alunos da faculdade, na próxima

segunda-feira. O barco estará de volta aos cavaletes.

Depois de tirar os tênis, peguei dois remos curvos que estavam ao lado

da porta e os levei para a doca. Em seguida, voltei para pegar o barco.

Coloquei suavemente o barco na água e apoiei um pé no assento para

que não se movesse enquanto eu encaixava os remos. Com os dois remos

em uma das mãos como se fossem dois palitinhos, entrei no barco com

cuidado e depois o impulsionei empurrando a doca com a mão esquerda. O

barco saiu flutuando pelo rio.

Para mim, o remo era uma religião composta de um conjunto de ritos e

movimentos repetidos que se transformavam em meditação. Os ritos

começavam no momento em que eu tocava no equipamento, mas a

verdadeira magia era a combinação de precisão, ritmo e força que o remo

requer. Desde meu tempo de estudante, o remo sempre me trouxe uma

serenidade ímpar.

Meus remos mergulhavam e deslizavam na superfície da água. Para

entrar no ritmo, eu reforçava a sequência das vogas com as pernas, sentindo

a água quando o remo era impelido para trás e deslizava sob as ondas. O

vento estava frio e cortante e entrava pela minha roupa a cada voga.

À medida que os meus movimentos fluíam em perfeita cadência, eu me

sentia como se estivesse voando. Um êxtase que me deixava suspensa no

tempo e no espaço e que fazia de mim um corpo sem peso sobre um rio em

movimento. Meu pequeno barco se projetava ao longo do rio enquanto eu

cadenciava em uníssono perfeito com o barco e os remos. A certa altura,

fechei os olhos e sorri, e os acontecimentos do dia desvaneceram na

insignificância.

O céu escureceu por trás das minhas pálpebras fechadas, e o rumor do

tráfego por cima da minha cabeça indicou que eu estava passando debaixo

da ponte de Donnington. De volta à luz do outro lado da ponte, abri os

olhos... e senti o toque gelado do olhar de um vampiro no osso dianteiro do

meu peito.

Avistei uma silhueta de pé na ponte, com um casaco longo esvoaçando

ao redor dos joelhos. Mesmo sem poder enxergar claramente o rosto, com

aquela altura e aquele corpanzil, só podia ser um vampiro, Matthew

Clairmont. Mais uma vez.

Soltei um palavrão e quase larguei um dos remos. A doca da City of

Oxford ficava nas cercanias. Fui tentada a fazer uma manobra ilegal para

cruzar o rio e poder acertar a maravilhosa cabeça do vampiro com alguma

peça do equipamento do barco. Enquanto arquitetava o plano, avistei uma

mulher esguia de pé na doca, com uma roupa toda manchada de tinta.

Fumava um cigarro e falava num celular.

Não era uma visão típica para a casa de barcos da City of Oxford. Ela se

voltou para mim, e seus olhos cutucaram minha pele. Um demônio. Os

lábios da mulher traçaram um sorriso de foca e falaram alguma coisa no

celular.

Aquilo tudo estava muito esquisito. Primeiro Clairmont, e depois uma

horda de criaturas que irrompiam de todos os lados onde ele estava? Eu

deixei o plano de lado e transferi o desconforto para o remo.

A princípio, meu plano era descer o rio, mas a serenidade do passeio se

evaporara. Quando virei o barco na frente da taverna Isis, Clairmont estava

empertigado ao lado de uma das mesas. Ele tinha percorrido a pé o percurso

da ponte de Donnington até aquele lugar em menos tempo que meu barco

de regata.

Remei vigorosamente, com os remos atingindo uns 70 centímetros

acima da água, como asas de um grande pássaro que deslizava rumo à

oscilante doca de madeira da taverna. Eu mal tinha saído do barco, e

Clairmont já tinha atravessado uns sete metros de gramado que nos

separava. O peso dele afundou ligeiramente a plataforma flutuante na água

e fez o barco balançar e depois se acomodar.

– O que está fazendo aqui? – perguntei, descartando o remo e

caminhando nas tábuas duras da plataforma em direção ao vampiro. Eu

estava quase sem fôlego pelo esforço e com o rosto afogueado. – Você e seus

amigos estão me seguindo?

Clairmont franziu a testa.

– Não são meus amigos, dra. Bishop.

– Não? Pois não vejo tantos vampiros, tantas bruxas e bruxos e tantos

demônios juntos no mesmo lugar desde o dia em que minhas tias me

arrastaram para um festival pagão de verão quando eu tinha treze anos de

idade. Se não são seus amigos, por que estão sempre no seu caminho? –

Passei a mão na minha testa suada e afastei uma mecha de cabelo também

suada da minha face.

– Meu Deus – murmurou o vampiro, surpreso. – Os rumores são

verdadeiros.

– Que rumores? – perguntei, com impaciência.

– Você acha que essas... coisas perderiam o tempo delas comigo? – A

voz de Clairmont soou divertida, e com uma ponta de surpresa. –

Inacreditável.

Tirei o suéter de moletom. Os olhos de Clairmont se voltaram para

minha clavícula e desceram pelos meus braços desnudos até atingir a ponta

dos meus dedos. Mesmo enfiada no meu traje habitual de remo, me senti

estranhamente nua.

– Acho, sim – retruquei. – Já morei em Oxford. Volto aqui anualmente.

E neste ano você é a única coisa diferente aqui. Depois que você chegou à

noite passada, perdi o meu assento na biblioteca, me deparei com estranhos

vampiros e demônios e fui ameaçada por bruxos esquisitos.

Clairmont abriu os braços, como se fosse me pegar pelos ombros e me

sacudir. Embora eu não seja baixa, ele era tão alto que me obrigava a esticar

o pescoço para olhar nos olhos dele. Consciente do tamanho e da força que

ele tinha, dei um passo atrás e encarnei minha persona profissional para me

robustecer emocionalmente.

– Eles não estão interessados em mim, dra. Bishop. Eles estão

interessados em você.

– Por quê? O que poderiam querer de mim?

– Você não sabe mesmo por que todos os demônios e bruxas e bruxos e

vampiros da cidade estão atrás de você? – A voz do vampiro soou com um

tom de descrença e parecia que ele estava me vendo pela primeira vez.

– Não sei, não – respondi, de olho em dois homens que tomavam

cerveja em uma mesa por perto. Felizmente, eles estavam absorvidos na

própria conversa. – Não tenho feito nada aqui em Oxford além de ler

antigos manuscritos, remar no rio, preparar uma conferência e ficar na

minha. É tudo o tenho feito aqui. Não vejo motivo algum para que essas

criaturas prestem atenção em mim.

– Diana, pense. – A voz de Clairmont se mostrou intensa. Um arrepio

que não era de medo percorreu minha pele tão logo ele disse meu primeiro

nome. – O que você tem lido?

As pálpebras fecharam os olhos misteriosos de Clairmont, mas isso não

me impediu de entrever um olhar de avidez.

Minhas tias tinham me alertado que Matthew Clairmont queria alguma

coisa. E com muita razão.

Ele me olhou com olhos cinzentos e raiados.

– Eles estão no seu encalço porque acreditam que você encontrou algo

que está perdido há muito tempo – disse, resolutamente. – E querem isso de

volta, e acham que você pode conseguir para eles.

Repassei mentalmente os manuscritos consultados por mim nos últimos

dias. Meu coração gelou. Somente um manuscrito se prestaria a tanta

atenção.

– Se eles não são seus amigos, como você sabe que querem algo?

– Eu ouço coisas, dra. Bishop. Eu tenho uma ótima audição – ele disse

com paciência, retomando uma postura formal. – E também sou um

excelente observador. No concerto da noite de domingo, duas bruxas

estavam conversando sobre uma colega bruxa americana que tinha

encontrado um livro dado como perdido na biblioteca Bodley. A partir daí,

muitas caras novas apareceram em Oxford, e isso tem me importunado.

– É Mabon. Por isso tantas bruxas e bruxos vieram para cá. – Tentei

encontrar um tom que se adequasse ao tom paciente dele, embora ele não

tivesse respondido a minha última pergunta.

Clairmont balançou a cabeça, com um sorriso sarcástico.

– Não, não é o equinócio. É o manuscrito.

– O que você sabe sobre o Ashmole 782? – perguntei baixinho.

– Menos que você – ele disse, apertando os olhos. Isso o fez se parecer

ainda mais com uma fera, grande e letal. – Eu nunca o vi. É você que o tem

nas mãos. Onde ele está agora, dra. Bishop? Você não seria tola de deixá-lo

no seu apartamento, não é mesmo?

Fiquei pasmada.

– Você acha que o roubei? Da biblioteca? Como ousa insinuar esse tipo

de coisa?

– O manuscrito não estava com você segunda-feira à noite – ele

continuou. – E hoje também não estava na sua mesa.

– Você é um bom observador – comentei, com um tom cortante –, caso

tenha visto tudo isso de onde estava sentado. E para sua informação, saiba

que devolvi o manuscrito na sexta-feira. – Me ocorreu que ele podia ter

vasculhado as coisas que estavam à minha mesa. – O que há de tão especial

nesse manuscrito que o faz bisbilhotar o trabalho de uma colega?

Ele estremeceu levemente, mas meu triunfo pelo flagrante de uma ação

inapropriada foi neutralizado por uma pontada de medo, aquele vampiro

talvez estivesse me seguindo mais de perto do que eu imaginava.

– Simples curiosidade – ele disse com os dentes à mostra. Sarah não

tinha me enganado... vampiros não possuem presas.

– Espero que você não espere que eu acredite nisso.

– Pouco importa se você acredita ou não, dra. Bishop. Mas é melhor

ficar atenta. Essas criaturas não estão brincando. E quando descobrirem que

você é um tipo incomum de bruxa? – Ele balançou a cabeça.

– O que quer dizer? – O sangue parou de circular na minha cabeça, e

fiquei zonza.

– Hoje em dia não é muito comum encontrar bruxas com tanto...

potencial. – A voz de Clairmont ronronou com vibração no fundo da

garganta. – Nem todos conseguem vê-lo... ainda... mas eu consigo. Você

irradia isso quando está concentrada. E também quando está zangada. Claro

que os demônios da biblioteca logo irão perceber, se é que já não

perceberam.

– Agradeço pelo conselho. Mas não preciso de sua ajuda. – Me preparei

para sair, mas ele me segurou pelo braço.

– Não tenha tanta certeza disso. Cuide-se. Por favor. – Ele hesitou e as

linhas perfeitas do seu rosto desapareceram como se ele tivesse lutando

sabe-se lá com o quê. – Sobretudo se encontrar outra vez aquele bruxo.

Olhei fixamente para a mão que me pegava pelo braço. Clairmont me

soltou. Fechou os olhos.

Remei de volta à casa de barcos com remadas lentas e estáveis, mas

nem os movimentos repetitivos foram capazes de dissipar a confusão e o

desconforto que me assolavam. De vez em quando, eu avistava um borrão

no caminho de sirga, mas nada mais me chamou a atenção, a não ser os

humanos que pedalavam em bicicletas de volta para casa após o trabalho e

uma humana que passeava com o cachorro, todos autenticamente comuns.

Depois de guardar o equipamento e trancar a casa de barcos, tomei o

caminho de sirga para uma corrida leve.

Matthew Clairmont encontrava-se do outro lado do rio, defronte à casa

de barcos da universidade.

Comecei a correr e, quando olhei para trás, ele tinha sumido.

5

epois do jantar, sentei no sofá da sala ao lado da lareira e liguei o

laptop. Por que um cientista do calibre de Clairmont se

D interessaria tanto por um manuscrito alquímico – mesmo

enfeitiçado – a ponto de fazê-lo passar o dia inteiro lendo antigas notas

sobre morfogênese ao lado de uma bruxa na Bodleiana? Tirei o cartão dele

de dentro da minha pasta e o coloquei ao lado da tela do computador.

Na internet, links para um assassinato misterioso e para as inevitáveis

notícias de sites de relacionamento, uma longa listagem biográfica parecia

promissora: a página da faculdade de Clairmont, um artigo na Wikipedia e

links para sites dos membros atuais da Royal Society.

Cliquei no link para o site da faculdade e bufei. Matthew Clairmont era

um dos membros que não postavam informações na rede, nem mesmo

referências acadêmicas. Na página da Yale, os visitantes podiam obter

informações de contato e o currículo completo de quase todos os membros

da faculdade. Obviamente, Oxford mantinha uma política diferente em

relação à privacidade. Não era de estranhar que um vampiro ensinasse lá.

Não havia sinal de Clairmont no hospital, embora o cartão o indicasse

como associado. Digitei “John Radcliffe Neurociences” na caixa de busca e

obtive uma listagem de serviços do departamento. Mas sem qualquer

referência aos médicos, apenas uma extensa lista de links para pesquisas. Fui

clicando automaticamente nos termos e encontrei uma página dedicada ao

“lóbulo frontal”, mas sem informações adicionais.

O artigo na Wikipedia não ajudou muito, e o site da Royal Society não

se mostrou melhor. O que se afigurava como pista útil nos principais sites

era protegido por senhas. Não tive sorte nas tentativas com os nomes e as

senhas, e me foi negado o acesso por mais de sessenta vezes.

Frustrada, digitei o nome do vampiro no site de busca, ligando-o aos

jornais científicos.

– Hurra! – gritei de entusiasmo.

Se Matthew Clairmont não tinha muita presença na internet, era ativo

na literatura acadêmica. Depois de clicar numa caixa que organizava os

resultados por data, obtive um relatório instantâneo da história intelectual

de Clairmont.

Minha sensação de vitória se desvaneceu. Ele não tinha uma história

intelectual. Ele tinha quatro.

A primeira iniciava com o cérebro. Grande parte do tema ultrapassava

o meu conhecimento, mas pelo que parecia Clairmont tinha feito uma

reputação simultânea como cientista e médico por meio de pesquisas do

lóbulo frontal do cérebro como processador de ímpetos e desejos. Ele tinha

feito grandes avanços associados ao papel desempenhado pelos mecanismos

neurais nas respostas de gratificação lenta envolvidas com o córtex pré-

frontal. Abri uma nova janela do navegador para ver um diagrama

anatômico e localizar a parte do cérebro em questão.

Alguns argumentavam que a erudição não deixa de ser uma forma

velada de autobiografia. Meu coração acelerou. Considerando que

Clairmont era um vampiro, achei sinceramente que a gratificação lenta era

um assunto que ele dominaria bem.

Surpreendentemente, as clicadas seguintes mostraram que o trabalho

de Clairmont deixou de lado o cérebro para se voltar para os lobos – lobos

noruegueses, para ser exata. Durante a pesquisa ele devia ter despendido

uma fatia considerável de tempo nas noites da Escandinávia – o que não

seria um problema para qualquer vampiro, tanto pela temperatura corporal

como pela capacidade de enxergar no escuro que eles têm. Eu o imaginei

em meio à neve, todo encapotado e com um bloco de notas à mão – e

enfraquecido.

Depois disso é que surgiram as primeiras referências ao sangue.

A estadia do vampiro na Noruega em meio aos lobos era para analisar o

sangue dos animais e assim determinar os grupos familiares e os padrões

herdados. Clairmont isolara quatro clãs entre os lobos noruegueses, três dos

quais eram nativos. Ele atribuía a origem do quarto clã a um lobo que

chegara à Noruega vindo da Suécia ou da Finlândia. E concluía que uma

surpreendente quantidade de acasalamentos levara a uma troca de material

genético que acabou por influenciar a evolução da espécie.

Na ocasião, ele estava rastreando os traços herdados entre outras

espécies animais e também entre os humanos. Grande parte de suas

publicações recentes era técnica – métodos para coloração de amostras de

tecidos e processos para manipulação do DNA, particularmente antigo e

frágil.

Apertei com força uma das mechas do meu cabelo, na esperança de

incrementar a circulação do sangue com a pressão, reacendendo assim

minhas sinapses fatigadas. Aquilo não fazia sentido. Nenhum cientista

produziria tanto em tantas disciplinas diferentes. O domínio de uma única

disciplina exigiria mais do que uma vida inteira – quer dizer, uma vida

humana.

Um vampiro poderia muito bem dar conta disso se trabalhasse durante

décadas com o tema. Que idade se ocultava atrás daquele rosto de trinta e

poucos anos de Clairmont?

Levantei e preparei uma xícara de chá. Com a caneca fumegante em

uma das mãos, peguei o celular com a outra dentro da bolsa e digitei um

número.

Uma das melhores coisas em relação aos cientistas é que eles sempre

têm à mão um telefone. E eles sempre respondem às chamadas no segundo

toque.

– Christopher Roberts.

– Chris, sou eu, Diana Bishop.