A Epopeia de Gilgamesh por Anônimo - Versão HTML

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A Epopéia de

Anônimo

Tradução de Carlos Daudt de Oliveira

ISBN 85-336-1389-X

Sumário

Introdução

Agradecimentos

A Epopéia de Gilgamesh

Prólogo: Gilgamesh, rei de Uruk

1. A chegada de Enkidu

2. A jornada na floresta

3. Ishtar e Gilgamesh, e a morte de Enkidu

4. A busca da vida eterna

5. A história do dilúvio

6. A volta

7. A morte de Gilgamesh

Glossário onomástico

Apêndice: fontes

Introdução

1. A história da Epopéia

A Epopéia de Gilgamesh, o famoso rei de Uruk, na Mesopotâmia,

provém de uma era totalmente esquecida até o século passado,

quando os arqueólogos começaram a escavar as cidades soterradas

do Oriente Médio. Até então, toda a história relativa ao longo período que separa Noé de Abraão estava contida em dois dos livros menos

atraentes, por serem de cunho genealógico, do Livro do Gênesis. Destes capítulos, apenas dois nomes são lembrados até hoje no linguajar

cotidiano: o do caçador Nimrod e o da torre de Babel. O ciclo de

poemas reunidos em torno de Gilgamesh nos leva, contudo, de volta ao

meio daquele período.

Estes poemas têm direito a um lugar na literatura mundial, não

apenas por precederem às epopéias homéricas em pelo menos mil e

quinhentos anos, mas principalmente pela qualidade e originalidade da

história que narram. Trata-se de uma mistura de pura aventura,

moralidade e tragédia. Por meio da ação estes poemas nos revelam

uma preocupação bastante humana com a mortalidade, a busca do

conhecimento e a tentativa de escapar ao destino do homem comum.

Os deuses não podem ser trágicos, pois não morrem. Se Gilgamesh não

é o primeiro herói humano, é o primeiro herói trágico sobre o qual

conhecemos alguma coisa. É aquele com quem mais nos identificamos

e que melhor representa o homem em busca da vida e do

conhecimento, uma busca que não pode conduzi-lo senão à tragédia.

Pode talvez causar alguma surpresa o fato de que algo tão antigo

quanto uma história do terceiro milênio a.C. tenha ainda algum poder

para comover e continuar atraindo leitores no século XX; isto no entanto acontece. A narrativa está incompleta e pode ser que continue assim;

ela é, porém, o mais admirável poema épico que nos chegou de todo o

período anterior ao aparecimento da Ilíada de Homero; e é também

incomparavelmente mais antigo.

Temos boas razões para crer que a maior parte dos poemas de

Gilgamesh já haviam sido escritos nos primeiros séculos do segundo

milênio a.C. e que provavelmente já existiam numa forma bastante

semelhante muitos séculos antes disso, ao passo que o texto definitivo e a edição mais completa da epopéia vêm do século VII, da biblioteca de

Assurbanipal, antiquário e último dos grandes reis do Império Assírio.

Assurbanipal foi um grande general, o saqueador do Egito e de Susa;

mas foi também o compilador de uma notável biblioteca, composta por

documentos relativos à história contemporânea e por hinos, poemas e

textos científicos e religiosos muito mais antigos. Ele nos conta que enviou seus servos aos antigos centros de saber de Babilônia, Uruk e Nippur para que pesquisassem seus arquivos e copiassem e traduzissem para o

semítico acadiano da época os textos escritos na antiga língua suméria da Mesopotâmia. Entre esses textos, "Copiados segundo o original e cotejados no palácio de Assurbanipal, Rei do Mundo, Rei da Assíria", estava o poema que chamamos a Epopéia de Gilgamesh.

Não muito depois de este trabalho de cotejo ter sido concluído, a

epopéia virtualmente perdeu-se e o nome do herói foi esquecido,

deturpado ou desfigurado até se tornar praticamente irreconhecível —

até ser redescoberto no século passado. Esta descoberta deveu-se, em

primeiro lugar, à curiosidade de dois ingleses, e depois ao trabalho de muitos estudiosos em diferentes partes do mundo, que juntaram,

copiaram e traduziram as tábuas de argila onde o poema foi escrito.

Esta é uma obra ainda em andamento, e a cada ano que se passa mais

lacunas são preenchidas; mas o corpo principal da epopéia assíria não

tem sido alterado em seus aspectos essenciais desde a monumental

publicação do texto, Com transliteração e comentários, por Campbell

Thompson, em 1928 e 1930. Mais recentemente, contudo, atingiu-se um

novo estágio, e uma nova onda de interesse surgiu em torno do trabalho do Professor Samuel Kramer, da Pensilvânia, cujo cotejo e tradução dos textos sumérios leva a história da epopéia

de volta ao terceiro milênio antes de Cristo. Já é possível agora

combinar e comparar um corpo de escritos bem maior e bem mais

antigo do que o que tínhamos até então.

2. A descoberta das tábuas

A descoberta das tábuas remonta à era heróica das escavações,

em meados do século XIX, quando, embora os métodos não fossem sempre tão escrupulosos nem os objetivos tão estritamente científicos

como hoje, as dificuldades e até mesmo os perigos do empreendimento

eram bem maiores, e os resultados causavam um impacto capaz de

alterar profundamente a perspectiva intelectual da época. Em 1839, um

jovem inglês, Austen Henry Layard, partiu com um amigo para uma

viagem por terra até o Ceilão; mas ele se deteve por algum tempo na

Mesopotâmia para fazer um reconhecimento das colinas assírias. A

demora de algumas semanas se estendeu por anos, mas por fim Nínive e

Nimrud foram escavadas; e foi de uma dessas escavações que Layard

trouxe para o Museu Britânico uma grande parte de sua coleção de

esculturas assírias, junto com milhares de tábuas quebradas do palácio de Nínive.

Quando Layard começou a escavar em Nínive, esperava

encontrar inscrições; mas a realidade, uma biblioteca soterrada

contendo toda uma literatura perdida, superou suas maiores

expectativas. Na verdade, a extensão e o valor da descoberta só foram

avaliados posteriormente, depois que as tábuas com caracteres em

forma de cunha foram decifradas. Como era de esperar, algumas

dessas tábuas se perderam; mas mais de vinte e cinco mil tábuas

quebradas, uma quantidade enorme, foram levadas para o Museu

Britânico. O trabalho de decifração foi iniciado por Henry Rawlinson, na residência oficial do governador-geral em Bagdá, onde Rawlinson

ocupava o cargo de agente político. Antes de ir para Bagdá, Rawlinson, então um oficial do exército a serviço da Companhia das índias Orientais, havia descoberto aquilo que acabaria se revelando a principal chave

para a decifração do cuneiforme: uma grande inscrição, a "Inscrição de Dario", encontrada na rocha de Behistun, perto de Kermanshah, na

Pérsia, escrita em caracteres cuneiformes em três línguas — o persa, o babilônico e o elamita arcaicos. O trabalho iniciado por Rawlinson em

Bagdá prosseguiu no Museu Britânico quando o orientalista retornou à

Inglaterra em 1855. Logo após seu retorno, começou a publicar

Cuneiform Inscriptions of Western Ásia. Em 1866, George Smith juntou-se a Rawlinson como assistente no trabalho de decifração das tábuas. Nesse

meio tempo, Rassam, o colaborador e sucessor de Layard em Nínive,

havia escavado em 1853 a parte da biblioteca em que estavam as

tábuas com o cotejo assírio da Epopéia de Gilgamesh. A importância da

descoberta só foi percebida vinte anos mais tarde, quando em

dezembro de 1872, num encontro da recém-fundada Sociedade de

Arqueologia Bíblica, George Smith anunciou: "Pouco tempo atrás,

descobri entre as tábuas assírias no Museu Britânico um relato do dilúvio."

Era a décima primeira tábua da recensão assíria da Epopéia de

Gilgamesh. Logo depois desta revelação, Smith publicou Chaldean

Account of the Deluge, contendo um resumo da narrativa de Gilgamesh.

O interesse foi imediato e geral; mas a própria tábua do Dilúvio estava incompleta, e isto fez com que se iniciasse uma nova busca para trazer de volta mais tábuas. O Daily Telegraph contribuiu com mil guinéus para que fossem feitas mais escavações em Nínive. George Smith

comandaria o trabalho em nome do Museu Britânico. Pouco depois de

sua chegada a Nínive, Smith encontrou as linhas que faltavam da

descrição do dilúvio. Este material era na época, e ainda é, a parte mais completa e bem preservada de toda a epopéia. Muitas outras tábuas

foram achadas naquele ano e no ano seguinte, e Smith pôde reconstituir a maior parte da versão assíria antes de sucumbir, em 1876, à doença e à fome, vindo a falecer perto de Alepo aos trinta e seis anos; mas já

desbravara todo um novo território na área dos estudos bíblicos e da

história antiga.

Ao publicar o "Dilúvio" assírio, Smith afirmou tratar-se

evidentemente de uma cópia de uma versão muito mais antiga feita em

Uruk, a Erech da Bíblia, conhecida hoje como Warka. Alguns anos antes, entre 1849 e 1852, W. K. Loftus, membro da Comissão de Fronteira

Turco-Persa, passara duas curtas temporadas escavando em Warka,

onde encontrou curiosos restos, inclusive tábuas e aquilo que hoje

sabemos ser paredes de mosaico do terceiro milênio. Mas Warka teve de

esperar até os anos vinte e trinta deste século para vir a receber mais atenção; foi quando os alemães empreenderam grandes escavações

que revelaram uma longa série de construções, bem como tábuas e

esculturas. Graças a esse trabalho, sabe-se muito hoje em dia a respeito da antiga Uruk, de seus templos e da vida de seus habitantes.

Ainda mais importantes para a história da Epopéia de Gilgamesh

foram as atividades de uma expedição americana da Universidade da

Pensilvânia, comandada por John Punnet Peters, que ao final do século

XIX começou a trabalhar no monte de Niffer, a antiga Nippur, no sul do Iraque. Já se tinha nessa época bem mais experiência com os

problemas que envolviam a escavação de cidades antigas; mas ainda

assim os riscos eram enormes. O primeiro período em Nippur, 1888-9,

começou alegremente com a chegada de Peters e seu grupo ao sítio

de escavação, depois de um galope desenfreado através dos

bambuzais em cima de fogosos garanhões; mas sua última visão do

monte ao final da temporada foi a de árabes hostis executando uma

dança de guerra nas ruínas do acampamento. O trabalho continuou,

contudo, no ano seguinte, e um total de trinta a quarenta mil tábuas

foram encontradas e distribuídas entre museus na Filadélfia e Istambul.

Em um pequeno grupo destas tábuas encontram-se as versões mais

antigas do ciclo de Gilgamesh na língua suméria. O trabalho em campo

e nos museus continua. Com a publicação das tábuas de Ur que se

encontram no Museu Britânico, novos acréscimos foram feitos ao texto

conhecido. Foram também identificadas tábuas em Bagdá e em outras

partes, algumas de importância histórica, outras diretamente

relacionadas ao texto. A dispersão deste material tem complicado o

trabalho de decifração, pois, em alguns casos, metade de uma tábua

importante está guardada na América e a outra em Istambul,

fazendo-se necessário juntar cópias de ambas as partes para que seu

conteúdo possa ser compreendido.

A maioria dos textos antigos são documentos comerciais e

administrativos, arquivos de negócios, listas e inventários que, embora sejam profundamente interessantes para o historiador, não o são para o leitor médio. A recente decifração da escrita conhecida como "linear B", da Era do Bronze de Micenas e Creta, não revelou literatura alguma.

Uma enorme biblioteca descoberta em Kültepe, na Anatólia Central,

compõe-se integralmente de registros de transações comerciais;

excetuando-se um solitário texto, que, além disso, é uma maldição, não há ali nada de natureza literária. A importância das escavações em

Nippur, Nínive e outros grandes centros da antiga civilização

mesopotâmica é terem restaurado uma literatura de alta qualidade e

de caráter único.

A Epopéia de Gilgamesh deve ter sido bastante conhecida no

segundo milênio antes de Cristo, pois encontrou-se uma versão da

narrativa nos arquivos da capital imperial hitita em Boghazköy, na

Anatólia, escrita em acadiano semítico; e foi também traduzida para o

hitita indo-europeu e para a língua hurrita. Encontraram-se partes da

epopéia em Sultantepe, no sul da Turquia-; e um fragmento, pequeno

mas importante, descoberto em Megido, na Palestina, aponta para a existência de uma versão cananéia ou palestina mais moderna, o que

sugere a possibilidade de os primeiros autores da Bíblia estarem

familiarizados com a história. O fragmento palestino vem da tábua que

descreve a morte de Enkidu. A versão que mais se aproxima deste

fragmento é a do conhecido relato de Boghazköy. As escavações feitas

em Ras Shamra, a antiga Ugarit, na costa síria, trouxeram de volta à vida uma literatura épica independente, cujas versões escritas datam em sua maioria da segunda metade do segundo milênio. Esta literatura era

também conhecida na capital hitita, e um de seus fragmentos refere-se

a uma narrativa do dilúvio que provavelmente foi derivada da narrativa de Gilgamesh. Percebe-se, então, que as várias tradições literárias da época, incluindo as hititas, coincidiam em muitos pontos e às vezes

chegavam a se misturar, e recentemente levantou-se a hipótese da

provável existência de uma tradição poética egéia-micênica bem

semelhante, cujos elementos teriam sobrevivido à era das trevas e

reaparecido na poesia homérica e na poesia grega posterior. Toda a

questão envolvendo a data e a natureza deste indiscutível elemento

asiático na mitologia e nas primeiras produções poéticas da Grécia

ainda está sob discussão e se mantém envolta em incertezas.

Tenha ou não chegado ao Egeu a fama de Gilgamesh de Uruk —

e esta é uma idéia fascinante —, não resta a menor dúvida de que o

herói gozou de tanto renome quanto qualquer outro de tempos

posteriores. Seu nome tornou-se aos poucos tão familiar que passaram a lhe imputar anedotas e outras invenções, como numa fraude popular

que sobreviveu em tábuas do século VIII a.C, que provavelmente são

cópias de um texto mais antigo. Trata-se de uma carta supostamente

escrita por Gilgamesh a um outro rei, com ordens para que enviasse uma quantidade absurda de gado e metais, assim como de ouro e pedras

preciosas, que serviriam à confecção de um amuleto para Enkidu, que

não pesaria menos de quinze quilos. A anedota deve ter sido muito bem

recebida, pois sobreviveu em quatro cópias, todas de Sultantepe. O

texto foi recentemente traduzido e publicado pelo Dr. Oliver Gurney.

3. O contexto histórico

As escavações arqueológicas e a decifração dos textos

ensinaram-nos muito a respeito do contexto histórico e literário da

Epopéia. Embora somente a última versão, a da biblioteca de

Assurbanipal, tenha sobrevivido em forma relativamente completa, a

impressão que se tem é de que todos os elementos mais importantes da

história existiam como poemas separados na literatura suméria mais

antiga; poemas estes que podem ter sido, e é quase certo que foram,

compostos e recitados oralmente muito antes de terem sido registrados

em forma escrita. Embora nenhum elemento da história possa ser

posterior à destruição de Nínive no século VII, uma situação típica do terceiro milênio é discernível por detrás de grande parte da ação e

provavelmente proporcionou seu contexto. A tradição por trás disso

remonta mais uma vez à era anterior ao aparecimento da escrita, na

fronteira entre a lenda e a história, um pouco depois do Dilúvio, quando os deuses foram substituídos pelos mortais nos tronos das

cidades-estados. Estamos falando da civilização suméria arcaica. Os

sumários foram os primeiros habitantes da Mesopotâmia a conhecer a

escrita, e é na língua deles que foram escritas as mais antigas tábuas de Nippur relacionadas a Gilgamesh. Eles já haviam irrigado o país e

povoado o território com suas cidades antes da invasão das tribos

semíticas no decorrer do terceiro milênio. Os próprios sumérios devem ter sido conquistadores a entrar na região pelo norte e pelo leste durante o quarto milênio. A influência deste povo talentoso, demonstrada nas leis, na língua e no campo das idéias, persistiu por muito tempo após a

invasão de seus vizinhos semitas. Esta influência tem sido comparada, e com justiça, à de Roma sobre a Europa medieval. Seu idioma continuou

sendo utilizado na escrita, como o latim na Idade Média, por muitos

séculos após a perda de sua identidade política. Por isso, não representa anacronismo algum o fato de encontrarmos os primeiros textos de

Gilgamesh escritos nesta língua "culta", embora a maior parte deles date do começo do segundo milênio, após a conquista semita.

As escavações mostram que a civilização suméria arcaica do

começo do terceiro milênio, também chamada civilização do antigo

período dinástico, é posterior aos notáveis sinais de enchentes

constatados em vários sítios importantes: entre eles, Shurrupak, Kish e Uruk.

Estes sinais coincidem com o final do último período pré-histórico, que os arqueólogos chamam Período de Jemdet Nasr; mas não há provas de

que tenham sido rigorosamente contemporâneos. Sir Leonard Wolley

identificou em Ur uma catástrofe ainda mais antiga, mas sua extensão foi apenas local, e não há provas arqueológicas que corroborem a

ocorrência de um desastre natural de proporções devastadoras; nem

mesmo as mais antigas tradições sumérias fazem menção a um dilúvio

de conseqüências catastróficas. Nos escritos sumérios posteriores, bem como nos antigos textos babilônicos, as enchentes e os dilúvios são

enviados pelos deuses, junto com outros castigos igualmente

catastróficos: a doença, a seca e a fome. Citam-se cinco cidades que

teriam existido antes do dilúvio, e, para elas, "o Poder Real descia do Céu". Após a catástrofe, "O Poder Real mais uma vez desceu à Terra", e as cidades-estados que surgiram nessa época freqüentemente se

punham em guerra umas contra as outras. A semi-histórica "Lista

Dinástica Suméria", composta no começo do segundo milênio, mostra que Kish foi a primeira cidade a ganhar preeminência; mas, algum

tempo depois, Uruk derrotou Kish e tirou-lhe a supremacia. Estes dois

Estados eram tradicionalmente rivais. Na lista dinástica, Gilgamesh

consta como o quinto monarca da primeira dinastia pós-diluviana de

Uruk (ver abaixo).

A riqueza destas cidades tornava-as alvo de cobiça, uma grande

tentação para as tribos semitas selvagens da Arábia e para os povos

guerreiros do Elam e das regiões montanhosas da Pérsia, a leste. Pouco depois da queda da dinastia de Uruk, quando os semitas se instalaram

em Agade, no norte, seu rei, Sargão, afirmou ter sob seu comando um

exército fixo de 5.400 soldados. Entre suas principais façanhas estava a destruição das muralhas de Uruk. Estas muralhas haviam se tornado

proverbiais. Dizia-se "Uruk das fortes muralhas", e, tradicionalmente, fora Gilgamesh o grande construtor.

No antigo período dinástico sumério, cada cidade já tinha seus

próprios templos em homenagem aos deuses. Eram construções

magníficas, decoradas com mosaicos e relevos, e geralmente

compreendiam um grande pátio e um santuário interno, tendo às vezes,

como em Uruk, um zigurate na parte de trás. O zigurate era uma

montanha sagrada em miniatura: uma antecâmara entre o Céu e a

Terra, onde os deuses podiam conversar com os homens. Assim, quando

Gilgamesh evoca a deusa Ninsun, sua mãe divina, ela sobe ao topo do

templo para oferecer orações e sacrifícios ao grande Deus-Sol. Os

templos eram cuidados por um corpo perpétuo de sacerdotes, em cujas

mãos, em determinada época, chegou a ficar quase toda a riqueza do

Estado. Entre os sacerdotes estavam os arquivistas e os professores, os estudiosos e os matemáticos. Logo no começo, todo o poder temporal

estava em suas mãos, já que eram servos do deus cujas propriedades

administravam. Mais tarde, um único indivíduo passou a ser o "locatário da fazenda" ou o zelador, até o momento em que o "Poder Real desceu do Céu", quando o poder foi secularizado, e as dinastias reais, de aspecto agressivo e competitivo, passaram a suceder-se umas às outras.

O grande prestígio dos templos, porém, permaneceu inalterado.

Uma das causas do militarismo no terceiro milênio era o fator

econômico. A parte sul da Mesopotâmia até o Golfo Pérsico era, e

ainda é, um território pantanoso, quente e plano, bastante produtivo

quando drenado, mas, com exceção das tamareiras, absolutamente

desprovido de madeira e metais. O que as cidades rivais necessitavam

de seus vizinhos nas montanhas ia além do que a troca pacífica de

mercadorias poderia fornecer. Foram criadas colônias de mercadores e

entrepostos comerciais, mas o tráfego de caravanas era

freqüentemente interrompido, e a matéria-prima acabava sendo tirada

à força de relutantes tribos da Pérsia, da Arábia ou da Capadócia. Foi assim, pois, que se estabeleceu a imemorial hostilidade entre os

montanheses e os homens da planície, sentimento que serviu de tema

para um grupo de poemas sumérios que descrevem o relacionamento

conturbado entre Uruk e Aratta, um Estado nas colinas orientais.

Possuímos documentos históricos com registros quase

contemporâneos de várias expedições empreendidas durante o terceiro

milênio por Sargão de Agade e Gudea de Lagash, para proteger suas

colônias de mercadores e obter madeira para suas construções. Tais

expedições, além disso, certamente não foram as primeiras. O cedro

vinha das montanhas Amano, no norte da Síria e sul da Turquia, e talvez do Líbano e do sudeste da Pérsia. Relata-se que Sargão empreendeu

uma campanha vitoriosa pelos territórios do norte, e que seu deus Dagon deu-lhe a "região superior" até a "Floresta de Cedros" e a "Montanha de Prata". A floresta de cedros, neste caso, é certamente Amano. Por sua vez, quando Gudea, rei de Lagash, quis construir um templo para o deus Ningirsu, "Trouxeram para Gudea o cobre de Susa, do Elam e das terras ocidentais... trouxeram-lhe grandes toras de salgueiro e ébano, e Gudea abriu uma trilha na montanha de cedros onde ninguém jamais

penetrara; ele cortou os cedros com grandes machados. Balsas de

cedro, como gigantescas cobras, flutuavam rio abaixo vindas da

montanha de cedro; balsas de pinho vinham da montanha de pinheiro.

Em pedreiras onde ninguém jamais esteve, Gudea, o sacerdote de

Ningirsu, abriu uma trilha; as pedras chegavam em grandes blocos, e

chegavam também caçambas de betume e gesso das montanhas de

Magda; tantos quantos os barcos que trazem aveia dos campos." Por detrás do Gudea de carne e osso podemos discernir a figura nebulosa

de Gilgamesh, o grande construtor de templos e cidades, que se

aventurou pelo interior das florestas trazendo de volta a preciosa

madeira do cedro.

4. O contexto literário

Sobreviveram da literatura sumária cinco poemas relacionados a

Gilgamesh. Destes poemas, dois foram utilizados e combinados com

material mais recente nesta versão da epopéia; são eles "Gilgamesh e a Terra dos Vivos" e fragmentos da "Morte de Gilgamesh", que, como sabemos hoje, fazia parte de um texto bem mais longo, de pelo menos

450 linhas. A linguagem usada aqui é muito semelhante à de um

lamento por Ur-Nammu, monarca de Ur que viveu por volta de 2100 a.C.,

cujo texto, de passagem, cita o nome de Gilgamesh. Um outro poema,

enfocando "Gilgamesh e o Touro do Céu", está por detrás dos episódios da recensão ninivita que descrevem o insulto à Deusa Ishtar e sua

vingança. Uma grande parte do poema sumério "Gilgamesh, Enkidu e o Mundo Inferior" foi traduzida quase que literalmente e acrescentada à epopéia assíria (Tábua XII) sem tentativa de adaptação, embora seja

incompatível com eventos anteriormente descritos (Tábua VII). Este

adendo, porém, parece fornecer uma alternativa ao "Sonho" e à "Morte de Enkidu", episódios colocados no centro da versão assíria. O episódio

"Gilgamesh e Agga", assim como "A Morte de Gilgamesh", é conhecido apenas em sumério. Tratava-se de uma narrativa não muito heróica e

sem muita relação com o resto do texto, sobre disputas e um leve

conflito armado envolvendo os Estados rivais de Kish e Uruk. Embora seu espírito seja típico de parte da poesia suméria, foge demais ao estilo do resto da obra para que possa ser incluído numa "Epopéia de Gilgamesh".

Não seria surpreendente descobrir que os estudiosos e copistas de

Assurbanipal o rejeitaram, embora, é claro, talvez desconhecessem sua

existência.

A história do Dilúvio não fazia parte do ciclo de Gilgamesh na

literatura suméria; era um poema independente que tinha no papel de

Noé um herói chamado Ziusudra, nome que significa "ele viu a vida". Há também um "Dilúvio" babilônico arcaico, datando da primeira metade do segundo milênio, no qual o herói chama-se Atrahasis. Neste poema, a enchente é apenas a última de uma série de catástrofes enviadas para

destruir a humanidade. A primeira parte da história ocupa-se de outros assuntos, incluindo a criação do homem. Já fizemos menção aqui a um

fragmento achado em Uga-rit, na Síria. Uma versão posterior do poema

de Atrahasis foi escrita no reino de Assurbanipal. É impossível dizer em que época o dilúvio foi incorporado ao ciclo de Gilgamesh, uma vez

que não há informações suficientes relativas ao período babilônico

antigo. Têm surgido muitas controvérsias em torno da relação existente entre o dilúvio do Gênesis e o dos escritores assírios, babilônios e sumérios.

A opinião geral que se tinha até certa época, segundo a qual o relato

do Gênesis seria uma versão mais refinada e recente de uma história

bastante conhecida nas cidades da Babilônia, já não é mais de

aceitação geral; muitos sustentam a idéia de que tenha se originado

diretamente de uma história muito antiga e independente. Não é

preciso abordar esta complexa controvérsia para que se possa

acompanhar o relato do dilúvio tal como ele nos é narrado na décima

primeira tábua da Epopéia de Gilgamesh. A decifração de novos textos

pode vir a esclarecer melhor toda esta questão, mas, no momento, é

provável que a melhor maneira de avaliarmos o relato do Gênesis seja

utilizando como pano de fundo as muitas histórias antigas de dilúvios, histórias que não estão necessariamente relacionadas à mesma

catástrofe e que têm protagonistas — humanos e divinos — diferentes. E

possível que nem todas as versões correntes na Mesopotâmia e no

Oriente Próximo durante o terceiro milênio tenham sobrevivido até os

dias de hoje. Uma mostra de que diferentes narrativas persistiram

independentemente no passado está no fato de que o herói de uma

versão do século III a.C. — que pode até ser de autoria de Beroso, um

sacerdote helenófono da Babilônia — recebeu o nome de Xisuthros ou

Sisuthros, que não pode ser senão o Ziusudra sumério, embora o nome

tenha desaparecido das versões semíticas conhecidas.

Fora do ciclo de Gilgamesh sobreviveram dois poemas sumérios

(incompletos, como de costume) que tratam de um certo Enmerkar, um

antecessor de Gilgamesh no trono de Uruk; na lista dinástica suméria, ele é o segundo nome após o dilúvio. Nos poemas de Enmerkar, o rei está

em conflito com o senhor de Aratta, Estado situado a leste, nas

montanhas da Pérsia. motivo da briga é comercial e parece girar em

torno de uma troca do trigo de Uruk por pedras para construção e

metais preciosos, ouro, prata e lápis-lazúli de Aratta. Embora o texto conte com a participação de arautos e grandes guerreiros, sua ação é

ainda menos heróica do que a de "Gilgamesh e Agga". Como poderia se esperar de uma obra originada em Uruk, o Estado sai sempre

vencedor em suas contendas contra Aratta.

Também herói de dois poemas é Lugulbanda. Este rei é o terceiro

da lista dinástica, e Gilgamesh às vezes se refere a ele como sendo seu

"pai" semidivino. Lugulbanda é uma figura mais interessante do que Enmerkar e, como Gilgamesh, é um viajante. Em "Lugulbanda e

Enmerkar", ele é vassalo e paladino deste último. Também como

Gilgamesh, Lugulbanda atravessa grandes montanhas e o rio Kur (isto é, o rio do mundo inferior) antes de conseguir livrar Enmerkar de seus

inimigos. Em "Lugulbanda e o Monte Hurrum", ele é dado como morto e abandonado por seus companheiros em uma outra jornada pelas

montanhas, desta vez em Aratta. Por meio de piedosos sacrifícios,

Lugulbanda obtém a proteção do Deus-Sol; e, mais uma vez, tal como

Gilgamesh em suas peregrinações pelas regiões agrestes, ele come

carne de animais selvagens e plantas silvestres como se fosse um pobre caçador. Nossa epopéia parece conter uma alusão proposital a este

episódio, quando os conselheiros de Gilgamesh o fazem recordar-se da

devoção de Lugulbanda e o exortam a fazer sacrifícios ao sol e a "não se esquecer de Lugulbanda". E possível então que os compiladores mais recentes tenham se inspirado também neste ciclo, além do ciclo original de Gilgamesh.

A epopéia suméria foi provavelmente criada na fase

proto-histórica da civilização suméria arcaica, no começo do terceiro

milênio. O poema, contudo, só veio a ser transcrito muitos séculos mais tarde. Segundo uma teoria bastante aceita, estes sumérios chegaram à

Mesopotâmia antes de 3000 a.C. Instalaram-se em suas férteis planícies, herdando a prosperidade dos habitantes originais, que, não dominando

a escrita, são conhecidos apenas pela beleza de sua cerâmica e por

suas aldeias de cabanas cobertas de colmos e casas de tijolos secos ao sol. Segundo uma teoria alternativa, os próprios sumérios foram os

primeiros agricultores na Mesopotâmia. De qualquer maneira, o mundo

descrito nas "epopéias" é bem semelhante àquele dos primeiros cinco séculos do terceiro milênio, antes da unificação do panteão no fim do

milênio (sob a terceira dinastia de Ur) e antes da padronização e do

formalismo do segundo milênio.

Dentre as primeiras obras literárias sumérias, os poemas de

Enmerkar parecem mais narrativas de disputa e debate argumentativo

do que epopéias heróicas. Não se traduziu ainda o suficiente do ciclo de Lugulbanda para se julgar até que ponto seu estilo pode ser considerado épico e heróico. A maior parte dos demais poemas sumérios são hinos e

lamentos dirigidos aos deuses, ou que se ocupam de seus atributos e

atividades. Conhecem-se alguns poemas "épicos", todos mais ou menos fragmentários, do período babilônico arcaico ou de períodos mais

recentes, mas seus protagonistas são em geral deuses ou monstros.

Gilgamesh é o único personagem humano de estatura heróica que

chegou a nossos dias, embora alguns fragmentos heróicos possam ser

encontrados em outros textos literários, como o "Cântico de Débora" no Livro dos Juizes.

5. O herói da Epopéia

As dúvidas quanto à existência de um Gilgamesh histórico não

afetam seriamente a nossa fruição da epopéia; mas recentemente" os estudiosos conseguiram comprovar, sem sombra de dúvida, que um

homem, um rei, chamado Gilgamesh, viveu e reinou em Uruk em alguma

época da primeira metade do terceiro milênio. A questão se limita agora a determinar se ele viveu por volta do ano 2700 a.C. ou uns cem anos

mais tarde. Foram encontrados em vasos e tijolos os nomes dos

antecessores de Gilgamesh e de seus contemporâneos; ao mesmo

tempo, certos documentos semi-históricos — a "Lista Dinástica Suméria", da qual já falamos, e a chamada "História de Tummul" — fornecem testemunhos históricos e genealógicos conflitantes. Segundo a lista

dinástica, Gilgamesh foi o quinto na linha de reis que se seguiram à fundação da primeira dinastia de Uruk (após o dilúvio) e teria reinado por 126 anos; seu filho, contudo, reinou por meros trinta anos, e daí por diante os reis viveram e reinaram por períodos humanos comuns. O

documento de Tummul, também datado do começo do segundo

milênio, diz que Gilgamesh reconstruiu o santuário da deusa Ninlil em

Nippur, depois das restaurações anteriores feitas pelos reis de Kish.

As várias discrepâncias cronológicas são de menor importância

em vista da comprovação da existência de Gilgamesh como

personagem histórico: um rei que provavelmente comandou uma

bem-sucedida expedição para trazer madeira das florestas do norte e

que certamente foi um grande construtor. As muralhas de Uruk eram

famosas, mas ainda não eram construídas com tijolo cozido. Trata-se de um anacronismo possivelmente originado pela má compreensão de

redatores mais modernos de um texto mais antigo.

Evocava-se a qualidade superior dos tijolos "plano-convexos"

utilizados na construção das fortalezas. As escavações em Warka

mostram o esplendor dos templos ainda no período do surgimento da

escrita. Gilgamesh, contudo, também é lembrado como um juiz justo, e

relatos posteriores o transformaram, como o Minos de Creta, num juiz do mundo inferior, a quem as pessoas dirigiam suas orações e que era

invocado através de encantamentos e rituais.

Uma prece começa: "Gilgamesh, rei supremo, juiz dos Anunnaki."

O herói é descrito no começo do poema. Ele é dois terços deus e

um terço homem, pois sua mãe era uma deusa, como a mãe de Aquiles.

Dela Gilgamesh herdou grande beleza, força e inquietude. De seu pai

herdou a mortalidade. A história tem muitos desdobramentos, mas eis

sua tragédia: o conflito entre os desejos do deus e o destino do homem.

A mãe de Gilgamesh era uma deusa relativamente obscura, que

possuía um templo-palácio em Uruk. Na lista dinástica, seu pai é descrito um tanto misteriosamente como um "lil û", que quer dizer um "tolo" ou um demônio vampiresco, e também como um sumo sacerdote. Na versão

suméria, Gilgamesh é o "sacerdote de Kullab", uma área de Uruk, mas em seus momentos de tensão ele invoca Lugulbanda chamando-o de

"pai". O reinado de Lugulbanda foi o segundo antes de Gilgamesh e o terceiro após o dilúvio. Ele era o protetor da cidade e era chamado de deus. Lugulbanda reinou por 1200 anos.

Numa obra que existe há tanto tempo e que foi tão

freqüentemente copiada e alterada, é inútil buscar precisão histórica

nos eventos narrados. Exprimi a opinião de que a situação política do

terceiro milênio constitui o mais provável pano de fundo da ação. O fato mais impressionante é o grau de unidade espiritual encontrado em todo

o ciclo — no sumério, no babilônio antigo e no assírio —, unidade que se origina do caráter do herói e de uma atitude profundamente pessimista

em relação ao mundo e à vida humana. A insegurança da vida na

Mesopotâmia explica, pelo menos em parte, essa atitude. Havia, além

disso, aquele sentimento a que Henri Frankfort deu o nome de "angústia implícita", devida ao "terror obsessivo de que forças turbulentas e misteriosas pudessem trazer a qualquer momento uma catástrofe à

sociedade humana". Percebemos de antemão no caráter de Gilgamesh

uma preocupação dominante com a fama e a reputação, assim como

a revolta do homem mortal contra as leis da separação e da morte. O

conflito do homem selvagem ou "natural", representado pelo

personagem Enkidu, com o civilizado, representado por Gilgamesh,

parece menos fundamental, embora tenha sido reenfatizado

recentemente por pelo menos um autor.

A história é dividida em episódios: um encontro de amigos, uma

jornada pela floresta, o insulto a uma deusa caprichosa, a morte do

companheiro e a busca da sabedoria ancestral e da imortalidade. Por

todos eles perpassa uma mesma idéia, como no refrão do poeta

medieval, "Timor mortis conturbai-me". No episódio da Floresta de Cedros, esta idéia central funciona apenas como um estímulo à ambição do

herói de deixar um nome a ser lembrado; mas após a morte de seu fiel

companheiro o tema torna-se mais imperioso: "Como posso descansar depois que Enkidu, a quem amo, virou pó, e quando também eu

morrerei e serei enterrado para sempre?" No final do poema, este espírito se transforma em mofa devido às oportunidades perdidas e às

esperanças desfeitas. Esta atmosfera continua até a cena final, a da

morte do próprio herói, quando a ambição humana é tragada pelo

destino e acaba por se realizar através dos antigos rituais.

A causa do pessimismo que dominava o pensamento

mesopotâmico jaz em parte na precariedade da vida nas

cidades-estados, uma vida submetida aos caprichos das enchentes, das

secas e das ações de uma vizinhança turbulenta. O destino destes povos dependia também do caráter dos deuses, que eram considerados os

poderes responsáveis por tais condições. Uma vez que os deuses

desempenham um papel tão importante na epopéia, é bom falarmos

um pouco a respeito destas criaturas imprevisíveis e aterrorizantes. Seus nomes e principais atributos estão arrolados no Glossário (p.165), mas alguns deles, que desempenham um papel decisivo na ação, exigem

por isso uma descrição um pouco mais detalhada. Seus nomes parecem

estranhos e soam pouco familiares aos ouvidos ocidentais, e a

topografia de seu mundo é, à primeira vista, tão peculiar, que uma

explicação mais pormenorizada parece se fazer necessária. O leitor

pode, contudo, se assim o desejar, deixar de lado o capítulo seguinte

até o momento em que se sentir propenso a conhecer mais a respeito

dos principais deuses e de suas habitações no céu ou no mundo inferior.

6. Os principais deuses da Epopéia

As cidades da Mesopotâmia compartilhavam um mesmo

panteão, mas os deuses não eram cultuados em todas as partes sob os

mesmos nomes. Os semitas, ao invadirem a Mesopotâmia, herdaram a

maioria dos deuses sumérios, mas alteraram seus nomes, a relação que

mantinham entre si e muitos de seus atributos. Hoje, é impossível dizer se qualquer um desses deuses originou-se na própria Mesopotâmia, se

pertenceu ao panteão mitológico daquele estrato populacional ainda

mais antigo que pode ter ocupado o território mesopotâmico antes da

chegada dos sumérios; mas são os deuses destes últimos que

desempenham os principais papéis em toda a epopéia; e este é um

argumento a mais, se mais algum argumento fosse necessário, a favor

da grande antigüidade de todos os episódios. Deuses mais recentes,

como Marduk, de Babilônia, não são mencionados em Gilgamesh.

Cada cidade tinha seu próprio protetor, que morava entre seus

muros e zelava por sua fortuna. Anu (o An sumério) era um pai dos

deuses, guardando menos identidade com Zeus do que com Urano, o

Deus-Céu, que para os gregos não representava mais do que um elo

ancestral na corrente da criação e de cuja união com a Terra, segundo

algumas genealogias, surgiram o Oceano, os rios, os mares, os Titãs e, finalmente, Crono, o pai de Zeus. Numa reconstrução da teogonia suméria, feita pelo Professor Kramer, An foi o primogênito do mar

primordial. Ele era o firmamento, as camadas superiores do céu, e não o ar que sopra sobre a terra. Como Urano, An se uniu à Terra (a Ki suméria) e gerou Enlil, o deus do ar. Nesta época o mundo ainda estava envolto

na escuridão, e Enlil, o ar, vivia aprisionado entre o teto escuro do céu, uma noite sem estrelas, e a superfície da terra. Enlil gerou então a lua, Nanna (o Sin dos semitas), que viajou num barco e trouxe a luz aos céus de lápis-lazúli; e Nanna por sua vez gerou o sol, Utu (o Shamash dos

semitas), e Inanna (a Ishtar dos semitas), a deusa do amor e da guerra.

Os textos permanecem muito obscuros; um deles é a introdução ao

poema sumério que trata da descida de Enkidu ao mundo inferior. Anu

nesta época ainda não é tão ignorado quanto Urano, mas também já

não é mais visto como o criador ativo dos deuses. Esta posição suprema foi sendo gradualmente usurpada por Enlil, e em nosso poema é Enlil que profere os destinos, como sinal de sua autoridade. Mas ele, por sua vez, acabaria destronado por um novo deus, o Marduk babilônio. Enlil, que

tinha Nippur como sua cidade, era o vento e a tempestade, o hálito e o

"verbo" de Anu, pois, segundo os hinos em seu louvor, "O espírito do verbo é Enlil, o espírito do coração de Anu". Enlil é o poder em ação, enquanto Anu é o poder em essência. Ele é "o verbo que acalma os céus", mas também é "um violento dilúvio que perturba o semblante dos homens, uma torrente que destrói baluartes". Na Epopéia de Gilgamesh ele

aparece mais freqüentemente sob seu aspecto destrutivo; Anu, por sua

vez, é um ser remoto que vive bem longe, no firmamento, além dos

portões do céu. Em um dos textos Enlil parece encorajar a jornada à

Montanha dos Cedros, mas também é ele quem repreende Gilgamesh e

Enkidu por assassinar o sentinela da floresta.

Figuras igualmente importantes na Epopéia são Shamash, o

Deus-Sol, a quem os sumérios chamavam Utu, e Ishtar, a bela mas terrível deusa do amor. O sol em árabe ainda é "shams", e naquela época Shamash era a entidade onisciente e onividente, o grande juiz a quem

os mortais aflitos podiam apelar contra as injustiças sofridas, sabendo que seriam ouvidos. Os hinos de Nínive descrevem seus muitos atributos:

"A humanidade inteira se regozija em vós, oh, Shamash, o mundo inteiro anseia por vossa luz... numa voz cavernosa, o homem fraco clama por

vós... quando está longe de sua cidade e de sua família, o menino

pastor temeroso do campo aberto recorre a vós, o pastor confuso entre

seus inimigos... a caravana que marcha aterrorizada, o comerciante, o

mascate com seu saco de pesos." Nada escapa aos olhos do sol: "Guia e farol que passa constantemente sobre o mar infinito, cuja profundidade os grandes deuses do céu desconhecem; vossos raios brilhantes

penetram o Abismo, e os monstros das profundezas vêem vossa luz...

queimais por sobre imensuráveis extensões de terra por horas sem fim... a terra é esmagada por vosso terrível brilho." Os dois aspectos de

onisciência e justiça em Shamash estão unidos na imagem da rede:

"Vossa rede está estendida para apanhar o homem que cobiça" e

"Vossos raios caem como uma rede sobre a terra". Ele é também o deus dos oráculos: "Através da taça do adivinho, dos feixes de cedro, instruís o sacerdote do oráculo, o intérprete de sonhos, o feiticeiro..."; e em outro hino ele é o juiz: "Proferis diariamente os veredictos do céu e da terra; o fogo e as chamas que vos acompanham em vossa vinda ofuscam todas

as estrelas do céu." Foi também ele quem deu a Hamurabi seu sistema de leis.

Ishtar (a Inanna dos sumérios) era cultuada, junto com Anu, num

grande templo em Uruk. Ela é a rainha do céu e, como deusa do amor e

da guerra, uma personagem ambígua; "uma deusa bela e terrível", como Afrodite. A maioria dos deuses tinha um lado benigno e outro

perigoso, e até mesmo Shamash podia ser terrível; mas neste poema,

exceto por um só instante, vemos Ishtar somente por seu ângulo mais

sombrio. Que ela sabia ser encantadora, isto mostra-nos um hino

composto por volta do ano 1600 a.C. "Reverenciai a rainha das mulheres, a maior entre todos os deuses; o amor e o deleite revestem seu corpo;

ela está cheia de ardor, encanto e voluptuosa alegria; seus lábios são doces, sua boca é a Vida, a felicidade atinge seu auge quando ela está presente; que visão gloriosa, os véus cobrindo,seu rosto, suas graciosas formas, seus olhos cheios de brilho." Esta é a radiante deusa do amor em sua primeira aparição a Gilgamesh, mas seu aspecto logo se transforma

e ela assume uma face mais familiar, o da "senhora das dores e das batalhas". É a este lado de seu caráter que lhe foi dirigido um hino de Babilônia: "Oh, estrela da lamentação, fazeis com que irmãos na paz se ponham em luta uns contra os outros e, no entanto, inspirais uma

amizade leal e perseverante. Oh, poderosa, senhora das batalhas, que

derruba montanhas."

Resta apenas mais um deus a desempenhar um papel importante

no poema; é Ea (o Enki sumério), o deus da sabedoria, cujo elemento era a água doce que traz vida à terra, e cujo lar ficava em Eridu, então

situada às margens do Golfo Pérsico. Ele aparece como um ser benigno,

um pacificador, mas nem sempre é um amigo confiável, pois, como

tantos expoentes da sabedoria primitiva, ele se utilizava de truques e subterfúgios, sendo, ocasionalmente, um tanto malévolo. Mas aqui ele

aparece como o grande "senhor da sabedoria que vive nas

profundezas". Sua origem é obscura, mas às vezes é chamado de filho de Anu, "gerado à sua própria imagem... de grande inteligência e

enorme força". Ele é também, em certo grau, o criador e benfeitor da humanidade.

Em contraposição ao céu e suas divindades, encontra-se o mundo

inferior com suas divindades sombrias. No antigo mito sumério da criação, ao qual já nos referimos, depois de An ter arrebatado os céus e ter-se apossado do firmamento, e depois de Enlil ter arrebatado a terra,

Ereshkigal foi levada como prêmio para o mundo inferior (ou talvez

tenha sido ela a levar o mundo inferior como prêmio). O significado

deste mito é obscuro, mas parte dele parece descrever um outro rapto

de Perséfone. Algumas vezes se referiam a Ereshkigal como a irmã mais

velha de Ishtar, tendo talvez, em determinado momento, sido ela própria uma deusa do céu que acabou tornando-se rainha do mundo inferior;

mas ela não obteve o direito de voltar à terra em toda primavera.

O nome que os sumérios davam ao mundo inferior, "Kur", também servia para designar "montanha" e "terra estrangeira", e há freqüentemente uma grande ambigüidade em seu uso. O mundo

inferior ficava abaixo da superfície da terra, mas acima das águas inferiores, do grande abismo. O caminho para o inferno começava

"montanha adentro", mas havia muitos circunlóquios para designar o lugar em si ou o caminho que levava a ele. Falava-se da "estrada da carruagem" ou da "estrada sem retorno". Nós, contudo, não somos tão diferentes dos sumérios nesse aspecto; para prová-lo, basta comparar o número de sinônimos nos dicionários ingleses sob os verbetes "Vida" e

"Morte".

Aparentemente, a história do rapto (se é que houve algum) foi

mais tarde esquecida ou perdeu a importância, e com isso perdeu-se

também a personalidade de "Kur"; pois, como aconteceu a Hades, o sinistro deus acabou tornando-se pouco mais do que um lugar escuro e

Ereshkigal desposou outros maridos. A Rainha do Mundo Inferior é um ser absolutamente aterrador, sempre descrita de maneira evasiva: "Aquela que descansa, aquela que descansa, a mãe de Ninazu, as roupas não

cobrem seus sagrados ombros, o linho não cobre seus seios." Há vários poemas, sumérios e semíticos, que descrevem o mundo inferior. Às vezes ele é cenário de alguma jornada empreendida por algum deus ou

mortal. Certo príncipe assírio, sob o pseudônimo de "Kummu", legou uma terrível visão da morte e do além. É um apocalipse sombrio em que os

anjos são todos demônios; onde podemos reconhecer a esfinge, o leão

e o grifo, o querubim com mãos e pés humanos, ao lado de muitos

monstros da imaginação que durante muito tempo acossaram a mente

humana. Eles reaparecem continuamente em sinetes de pedra, marfins

e rochas, e sobreviveram através da iconografia medieval e da

heráldica até os dias de hoje. Embora possam ter perdido sua força

simbólica, os mistérios que representavam são os mesmos que ainda hoje nos deixam perplexos.

Pode-se sentir por toda a Epopéia de Gilgamesh a presença do

mundo inferior. Já se sabe de antemão que é lá que terminará a jornada do herói, por mais que lute para escapar a esse destino, pois "só os deuses vivem para sempre". Enkidu sonha com o mundo inferior antes de sua morte e, num outro poema, o mesmo Enkidu desce vivo pela

"estrada sem retorno" para trazer de volta um tesouro perdido. Mas, ao contrário das jornadas de Hércules e Teseu, os heróis gregos que partiram em missões semelhantes, a aventura de Enkidu foi fatal; apenas um

breve retorno lhe foi permitido, provavelmente na forma de um

fantasma, uma substância não mais concreta do que um sopro de brisa

que, ao ser inquirido por Gilgamesh respondeu: "Senta-te e chora; meu corpo, que costumavas tocar e enchia teu coração de alegria, os

vermes devoram como se fosse um velho agasalho."

Seria demasiado simplista dizer que, enquanto os egípcios nos

fornecem uma visão do céu, os babilônios nos dão uma visão do inferno; há, contudo, certa verdade nisso. No universo sumério-babilônico,

apenas os deuses habitavam o céu. Entre os mortais, apenas um foi

transportado à vida eterna, "lá longe, na foz dos nos", e ele viveu naqueles obscuros dias da época antediluviana, tal como Enoc, que

"caminhou com Deus e desapareceu, pois Deus o levou". Os mortais comuns tinham de ir para "A casa onde ficam sentados no escuro, onde o pó é sua comida e o barro sua carne; vestem-se como os pássaros,

tendo asas como traje; por sobre o ferrolho e a porta jazem o pó e o

silêncio". E uma visão deprimente de pássaros pesados, mudos e

apáticos, agachados na sujeira com suas penas enlameadas. Neste

mundo inferior viviam também os Anunnaki, os "Magníficos" sem nome, que, como Ereshkigal, chegaram a viver no alto entre os anjos do céu,

mas que por causa de uma má ação foram de lá banidos para se

tornarem os juizes do mundo inferior, quase da mesma forma como os

Titãs foram banidos por Zeus, ou como sucedeu a Lúcifer, o anjo caído.

Na Babilônia, a alma de um homem morto era exorcizada com o

seguinte encantamento: "Deixai-o ir para o sol poente, deixai que seja confiado a Nedu, o porteiro-mor do mundo inferior; que Nedu o vigie

atentamente, que sua chave cerre a fechadura."

Talvez este cenário não tenha sido sempre tão sombrio. Um

fragmento de uma tábua suméria nos diz que a alma do justo não

sucumbirá e insinua a existência de um juiz a quem os virtuosos não

precisam temer: mas, no que diz respeito aos poemas de Gilgamesh, o

mundo inferior é aquele lugar de lamentações que Enkidu, ou seu

espírito, descreve na Tábua XII. A jornada faz lembrar o último livro da Odisséia, em que os pretendentes à mão de Penélope são levados,

"algaraviando como morcegos que guincham e esvoaçam nas

profundezas de uma misteriosa caverna quando um deles cai do teto

rochoso ao soltar-se do aglomerado formado por seus companheiros.

Nesta estridente algazarra de discórdia o grupo foi conduzido por

Hermes, seguindo o Libertador pelos sombrios caminhos da ruína. Eles o seguiram para além da corrente do Oceano, do rochedo alvo, para

além dos portões do sol e da região dos sonhos, e logo chegaram ao

campo de asfódelos, onde moram as almas, os espíritos descarnados

dos homens". Ao contrário do que aconteceu a Enkidu, que foi

conduzido ao palácio de Ereshkigal por uma criatura com garras e ar

sinistro, este grupo foi escoltado pelo "Libertador" Hermes. Fora isso, esta descrição é bastante semelhante à visão babilônica dos momentos

finais, e até mesmo a alegoria dos morcegos foi usada pelo autor de um poema em homenagem a Inanna. Aparentemente, tal concepção da

região dos mortos também era familiar ao autor do Salmo XLIX, que

escreveu: "Eles formam um rebanho destinado ao Inferno; a morte os conduz ao pasto, e os justos os dominarão pela manhã; sua beleza será

consumida pelo Inferno, para que não haja lugar para ela."

Por sua vez, o egípcio às portas da morte tinha uma modesta

pretensão ao paraíso para confortá-lo e encorajá-lo em seus últimos

momentos. Após o julgamento e a pesagem das almas, o justo podia ter

esperança de entrar nos campos do paraíso através de uma espécie de

renascimento: "Conheço os campos de colmos de Re... a altura de sua cevada... ela é ceifada pelos habitantes do horizonte e pelas Almas do Oriente." Este renascimento não era apenas para o homem excepcional ou para o rei, mas para "milhões de milhões... não há ninguém que não consiga chegar lá... quanto à duração da vida na terra, trata-se de uma espécie de sonho. Aqueles que chegam ao Oeste é dito: 'Bem-vindo,

são e salvo.'"