A Faca e o Queijo na Mão por Paulo Vitor Grossi. - Versão HTML

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A FACA E O QUEIJO NA

MÃO

Revisão: Luiz Antonio de Souza Jr

® paulo vitor grossi, 2011

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Uma novela pequena de

paulo vitor grossi

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Mas o homem que vem de cruzar de novo a porta da

muralha jamais será igual ao que partira para essa

viagem. Será, daí por diante, mais sábio, embora menos

arraigado em suas convicções, mais feliz, ainda que

menos satisfeito consigo mesmo, mais humilde em

concordar com a própria ignorância, embora esteja em

melhores condições para compreender a afinidade

entre as palavras e coisas, entre o raciocínio sistemático

e o insondável mistério que ele procura, sempre em vão,

compreender. ( As Portas da Percepção, Aldous

Huxley).

– Não há uma única mulher – declarou Eumolpo –, por

mais fria que seja, que uma nova paixão não possa levar

aos maiores excessos. Para provar o que digo, não é

preciso recorrer às antigas tragédias, citar nomes

famosos dos séculos passados. Para provar-lhes,

contar-vos-ei um episódio ocorrido em nossos dias.

(Satíricon, Petrônio).

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Uma mulher. Um homem. Ou os dois liquidificados! Duas histórias

para dois humanos em lados opostos. Cada qual, seu capítulo. Julia,

Horizontal e “O Velho”, Vertical. E

stá o u

niverso inteiro – deles - em

jogo, em xeque, espiando, sorrindo e questionando. “Como eu faria

para ligá-los???”, pergunta-se o ser que atende pelo nome de Folgato,

cuja influência sobre as pobres personagens move sua própria rasura.

Talvez onde estejam isso seja normal, ou não! Tudo bem, peço que

supere o fato de não haver maturidade ao par em questão. Não se

assuste com o teor narcisista, deve ser coisa de época! Seja você

também um aventureiro da mente. E “boa sorte”.

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PARTE PRIMEIRA

“Abandonar o homem a seu destino opaco”

(André Breton)

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CAPÍTULO 1: “Fase salgada: Vinho e Podrões”

“Oh! Mas que pena que não se possa viver apenas esfregando a

barriga!”

(Diógenes de Sínope)

“O Velho” chega. Huuu, o velho viciado em saídas. Nem se

assusta, volta para casa, a eterna segurança... sóbria. Vagou pela noite

fria do final de julho, pálida e com neblina. Ahhh, uma cascata de

visões e poucas pessoas no sereno ressoar. Veio de bicicleta e, nesse

percurso, viu um sapo – ou rã, sei lá, cara – que tava morto e virou

casca no asfalto, pra depois ser visto como documento de chão há

algum tempo desconhecido. Foi o que ele classificou nessa noite de

aparições.

Em casa, a TV tá ligada, mas ele nem presta atenção. Também

um colchão surrado ao lado e a sala vazia. Prepara um hambúrguer

com queijo e maionese excessiva. Deita pra comer e descansar de

nada. Tava bom, e é o começo: pega o vinho barato de R$ 3,49 na

geladeira. Ferrugem não o atrapalha. E bebe um gole, outro, outro e

deita no colchão. Desliza pela fadiga e noite extasiante: é a vida, o

andar, nada de emprego. São as relações. É o início, em plena quinta-

feira.

Sente o ócio controlado. Era pra sair novamente? Tava ficando

paranóico. Ele também era um gato comum das ruas, um transmissor

da hora – cheio de resina de tartaruga? Na pele? Não. Ele já foi

período, agora é deslocamento e liberdade sem namoro. Ele dá uma

pausa, olha para frente. Pausa e pensa:

− O que estou dizendo em terceira pessoa? Sou eu mesmo aqui. Pííí!!

***, que mané. Meus pensamentos fluem em rios... E assim vou

contar as coisas! Sou O Velho.

Tempo de natureza, guerra. Uma melodia MPB/rock salta aos

meus olvidos. Em cada nota, uma mensagem! Assalto sem armas,

sinfonia de desilusões com o mundo, reação coletiva, corpo, reflexões,

obra natural e a história dum homem. Peça e apresentação porca –

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em quem me inspiro? A contemplação foi antiga... tudo sonho, e

termina. Alô! Boa noite e até amanhã.

Lá vem o Gordo! Carrega a televisão nas costas. Melhor tirar da

tomada direto, claro. Adiós, jornal página de vida, amizade, comercial

de TV. Pô, o meu hamster antes de morrer roeu alguns botões do

controle remoto. Como posso trocar de canal? Tédio sovino. Foge,

ratinho... O ratinho fugia. Talvez eu te mate. Ainda que desta vez não

tenha rolado, não voltou... devo oferecer-lhe vela? É meu convidado

ou não?

Correria pra cozinha: sou um ator não desenvolvido. Onde

estão meus papéis? Na fome, no tabaco. Fumaça densa. Larguei o

cigarro, fumo esse tal fumo pra cachimbo. Faço meus cigarrinhos

com eles, mas não trago. É uma opção.

Desgosto depara-se ao fim de noite. A cor é bronze. Ele é culto

demais. Daí estraga, meus caros. O pôr-do-sol emburrou! A cara

descabelada. Minha cara. “O que não diz no anterior, fosso aqui”:

traição!... traição, lua brilhante, sol brilhante... e a lua brilhante para

os queridos corpo e alma... Um som sem escutar. O pôr do sol

emburrou! Dormir, vinho pra dormir. Sonho pra sonhar.

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CAPÍTULO 2: “Uma data no espaço e algo novo:”

“Eu não era culpada, mas sinto que vou morrer criminosa.”

(Astarté)

“considerou então os homens como eles na realidade são, insetos

devorando-se uns aos outros num átomo de lama.”

(Zadig)

“Tudo é perigoso neste mundo, e tudo é necessário.”

“Eremita” Do livro Zadig ou O destino

(Voltaire)

Menti, confesso, aumentei a história!! Ler não é criar uma

expectativa? Qual o porquê de se escrever este livro? Resposta

pessoal: coisa de mulher interativa... E meu nome é Julia!

Cá mostrando um livro sobre uma Julia que não existe mais

totalmente – eu nem existo! Sou pura ficção da minha própria cabeça

moderninha. Mas ando aqui, apresentando-me esmagando dedinhos:

literária e nem um pouco conceitual – de lado com os esquemas

escritivos. É minha vida, meu lado pessoal, meu olhar para dentro,

por eu mesma, já que a desordem me atrai; minha intimidade jogada

ao vento: sou muito mais mulher do que tantas piratas por aí.

Não preciso, ué... nem tenho disponibilidade para ficar

enriquecendo muito. Não sou nenhuma profissional. Só vou falar o

necessário, aquilo que veio do jeito bobo que é.

Percebam: analisar é bom, surpreender é interessante. Sei que

poderia dar alguns caminhos. Contudo, deixar pistas é mais

revelador. Sei que vou largar muitos fatos, pessoas etc. de lado, mas

isso é normal. São acidentes do subconsciente – quem liga pra tanto?

É história, é impressão, é biografia, é cotidiano e mentalidade.

E depois é a concentração bastarda, nada do que disse fiz...

Espalho Julia em várias formas e ações: uma mulher tentando

abraçar o mundo, e ele é claro e vazio... Como um rio, tem

dificuldades. É história, é narração de momento. No canto, entre

quatro paredes sujas à base de seduções e psicotrópicos!

É pelo silêncio dos intervalos de fluxo mental seguido do

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jorrar-composição que desenvolvo. Daí vem. Dançar sobre mim? É

desejo, é tratamento; escrevo. Um dia alguém vai ver ou ouvir: as

cartas de amor rasgadas e picadas em pedacinhos que foram jogadas

no bolso; roubos, furtos, mentiras, reflexos, hábitos litigiosos,

adolescência.

Às vezes, muitas vezes, roubo e minto coisas imateriais, mas

porque é boa a adrenalina nas minhas veias moças. É... de propósito.

Julgar as pessoas, autocrítica, perfeccionismo, mau humor,

autoritarismo etc... “Ela é realista demais. Ela é frágil e tácita”,

diziam. Tácita? Não pode ser real. Mas escondo, secreta, senhora de

mim, pois tenho coisas a dizer, e as acho demasiado relevantes,

fortes, feministas... Não pensem que eu sou esquisita ou má pessoa.

Muito pelo contrário, sou apenas sincera e emotiva. Adoro a vida e

novos ares. Sou simples, mais do que pensam. Apenas pensativa

demais – um óleo entre dedos me surpreendendo. Minhas juntas

renovadas: penso, vivo. Amante em todos.

Julia conflituosa, louca pelo jeitão “Clarice escritora”, e não

escondo... Quem é que pode me proibir? Deus na figura dum homem

ou um homem na figura de um deus? Não adianta proibir o

instrumento. A curiosidade e a teimosia humana fazem mostrar o

contrário, como uma criança, e crianças precisam de uma estrutura

familiar positiva para se tornarem adultos sem problemas. Mas vem a

adolescência e aí... Desculpem-me, crianças. Desculpem-me,

adolescentes, não é pra atingir ninguém. Desculpa? Os sonhos da

juventude devem ser cultivados e concretizados enquanto há tempo,

porque quando se é adulta eles não voltam... Sim... porque já foram

esquecidos. Por isso, tento dizer tudo agora. Por isso, os dualismos. É

necessário. No final das contas, humana demais. É da minha natureza

ser assim tão Julia – contudo já sei que “Egoísmo” é coisa da essência

de nós, humanos sedentos por carne, devendo este mesmo “Egoísmo”

ser controlado e subjugado o mais rapidamente. Também não é só

atual ser dramática. Tudo, sim, deve deixar de ser tabu. Eu sou

jovem, sinto isso. Posso o Cosmos!

Nesta continuação de algo, estou realmente suada. Converso

comigo. E chego à conclusão de que não vou ser uma cadelinha,

porque não tenho mais limite – este foi o último desjejum do tipo

sociedade/família.

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Ainda suada – muito mesmo! E meu cérebro? Nossa, neste

negócio já vou pra me explodir, de modo que dito minhas regras e até

parei de pensar nas roupas de gola branca e casa mobiliada.

Vou ter poucas coisas, intensamente suada. Serei a vergonha da

sociedade em pessoa! Por exemplo: comer com colher e cuspir na

mesa do patrão enquanto digo “me demito!”. E ter uma sanidade

inventada, fazer tudo que anseio dar certo, como planejei, como é pra

ser. Já vejo até no meu delírio a sala branca e a mulher que era pra

parecer... Eis que vejo também que sou pura ânsia de liberdade, de

ser arredia, feminista, machista, mas um pouco sólida. Quero

conforto emocional suprível, e inalcançável é minha organização. Ser

a imagem num filme que admiro e minha consciência num livro que

me identifico. Afundo minha cara de Julia em mim e em mais

ninguém. Voltei ao meu tempo, agora e nexo. Tudo nestas folhas de

caderno são impressões, e a gaveta é muito restrita, não acham?

“Ei, barbudos? Quem são estas pessoas em trajes? É, trajes!!

Ah, não... não traga, hômi! Cansei de acreditar que ser normal é tão

irreal.” Não? Não é isso que quero. Basta de balas na cabeça. Já fui

torturada de verdade de outras formas, mesmo assim... Abri minha

mente! Abri minha mente! Abri minha mente, e para outro alguém.

Me soltei. Os cabelos numa estrada sem volta. Aqui vai, aqui foi! Ah,

sim.

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CAPÍTULO 3: “É belo feio, mesmo!”

É belo feio, mesmo! Sorte, sorte! Não é? E acordo pesado, torto,

morto, fedido, gosmento na boca, bafento, feio e fraco. Tudo normal,

como parece. Mas é lindo. Bela, a vida. Além de tudo – aliás,

corrigindo-me, é uma comédia, a vida –, eu sou sortudo. Sempre

lembro que sou sortudo. Isso mesmo, cara... Por quê? Eu ganhei na

loteria! Há três anos eu fui um felizardo que enriqueceu da noite pro

dia ou dia pra noite, não lembro. Só de sacanagem, por bobeira,

comprei, apostei no escuro. Comprei dois apartamentos e vivo de

aluguéis... Como posso ser triste? Eu era um simples

vintepoucosanos atolado em dívidas!! Agora, incrivelmente feliz.

Jesus sorriu pra mim! Isso, sim, é alegria: a vida eterna fácil. Já

poderia ser ateu! Já consegui. Agora posso rir tranquilamente. Mãos

nos bolsos, meia no pé, e tomar café na padaria. Não preciso de

estresse. Caraca, do que posso reclamar? E, além de tudo, meu lar

infantil desapareceu... Tudo, tudo resolvido, tudo, tudo fácil! Bom

dia! Eu já tava esperando por isso há muito tempo.

Daqui não saio. Mesmo que fale sozinho, mas nem tem

problema, né!? Miro ao lado um livro novo da biblioteca. História

interessante: vida cotidiana estraçalhada por assassinato

escatológico. O livro me dá uma condição. Leio na cama, deitado.

Como biscoitos. Tento inchar.

Tarde quente. Ventilador em cima de mim. Será que ficarei

barrigudo? No livro há a sensação do definhar, do podre no humano.

Eu sou isso? Ããn!? Qual foi! Não devo nada a ninguém. Sou artesanal

e registrado.

Bem servido agora. Tem... é... deixa eu ver... Pão, queijo,

salsicha frita, catechupi, mostarda, maionese e a carne: suculento

esse hambúrguer – Mas o que curto é o queijo, ahhh... hum...

comedor de hambúrguer noturno! Quando saio de casa, é o podrão

e/ou cachorro-quente com coca. Morte lenta e deliciosa. Aleluia! Bom

apetite, crianças. A fita K7 vai escorregar do som. Salve a noite

solitária e a mão engordurada. Pança cheia. Sento e só posso rir das

reticências.

“Noites vampíricas” em que olho o horizonte... Mais

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exatamente vampírico/cachaçador. E DAÍ! Ahhhhh, que ressaca

agradável, que só se cura com outro porre...

Senhor do meu destino, teimoso em admitir que é obsessão por

nada. Se alguém tentar telefonar, eu saio. Se não, vou me afundar em

gravações antigas, memórias culturais. Estoque lotado. Demorou!

Vou morgar até perder o saco com a TV. Então, fujo novamente sem

ninguém ver – bem servido agora.

Resmungo sem fim??? Prato vazio, bateria esporrenta na

minha cabeça. Fiquei mecânico, virei uma fábrica? Vinho pra dormir,

quem sabe quem! Cooperativa, coletivo pra driblar a agonia. Hoje vou

tomar banho, 3 dias já se passaram sem eu notar. Calmos. Calados.

Quem deveria organizar tudo? Na prática é diferente: não consigo.

Com a ajuda dos amigos, eu vou conseguir? Que amigos? Nem

Zaratustra conseguiu, enquanto também o leio... Talvez Grenouille,

para ser mais perfeccionista. Merda, virei um mendigo reclamão,

resmungando bêbado pro vazio, pedinte na frente do Banco desse

Brasil, até trago mais tipos desses, todos fodidos pela causa! E vocês

aí. Por quê??

Não queria sentir saudade do emblemático Bar. Muito menos

do fracasso daquelas pessoas encostadas, ou a cerveja mais barata

com meus antigos amigos. Ou relembrar o Sinucão. É tão difícil. Mas

adoro as sensações envolvidas. Boas lembranças guardadas. Novas

sensações. E se subisse o Esqueleto? – Pra quem não sabe, era um

prédio abandonado invadido por vagabundos de todo tipo! Lá em

cima, poderia procurar por um tipinho chamado “russo”, mas sem

letra maiúscula. Será que ele ainda tá vivo? O prédio já era, a tia

vazou, a Lapa se foi. A segurança é turística. E Boemia também foi

para o beleléu. Jesus habita filmes e bilhões de Assembleias de Deus

por todos os cantos das ruas novas da urbanização tardia carioca.

Ciganos não existem aqui. É o poder, M das grandes. Quantas

lembranças... desde a cachaça de R$ 0,50, até os dias de hoje.

Impunidade pelas ruelas. É uma pena que vivo tão em casa, e da

MORAL todo o mundo já falou mal. Os remédios têm me viciado.

Tudo me vicia pra segurar o tranco. Barbitúricos, não encontro.

Adjacências dão um aliviozinho. Multidão sem casa na minha mente.

Aspirador de Pó de Dedetizador? Bela referência... Hoje tem pouca

coisa. Não é que misturei tudo no liquidificador?! Mas vou tocar tudo

na base da fé no álcool em si, róliudi vermelho, vinho pra dormir. São

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tempos difíceis. Onde tá o passado? Jovem ainda? Quem é meu pai?

Meu nome tem que ser esse mesmo? “O Velho”. Eu sou “O Velho”

ainda. Aliso a barriga. Tudo vira poesia. “E a noite toda me

surpreendeu, fechada em seu egoísmo surdo e tenebroso”. Cadê

Folgato nestas horas???

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CAPÍTULO 4: ““Onde “Maria” vive””

Mulher a... Botar tudo pra fora! É difícil, mas gratificante.

Depois prazeroso. Sei, é preciso vender a si até render. Não há como,

nesta nossa época, fazer ou produzir extravagâncias literárias sem um

movimento, sem um apoio. Mas tenho uma cara na moral, posso

tirar umas fotocas! Nunca disseram que sou das que assustam. Bem...

Sozinha, eu tenho que ser VISÍVEL – digo na voz de uma que está

para, por exemplo, declamar seus poemas em praça pública... mas

odeio o fato. E não vou fazer.

Sou uma aprendiz, um “Quadro de Curiosidades ou você

sabia?”. Mas geralmente o que escrevo é pequeno (não gosto de

alongar algo em que posso me expressar por algumas linhas e o

sentido multiplicar-se). Porém, não é Sócrates o meu mestre, então,

vocês que deem um jeito de ligar as partes e achar sentido... Assim

como ela: “Maria”. Vou falar de “Maria” – quase esqueço! (...). Maria

é uma situação, um grupo de pessoas. Onde é que mora a sua Maria,

heim? Quem é o óbvio nesse algo/alguém?

Ela, a “Maria”, tem a ver comigo e como pode-se perder às

vezes – uma personagem meio fictícia, irada, morta de visões. Maria

também era eu, sem rumo e num lugar estranho. Achava que não

tinha casa, pois morava com avós. Maria são pessoas perdidas. Se

acharem esquisito, não liguem. Acudam as marias desse mundo! Vão

ver que tem a ver com o próximo capítulo.

Há também que falar do nome de menina: Maria. Não era

nada, somente isso. Nem precisavam discutir, ou procurar soluções

em estupidezes. Lálálá, heiiei, ohoh... huhuuu. Por que nunca olham

os próprios narizes? O problema de ser uma Maria era a timidez

daquela época. Meu único problema era timidez. E se tinha esse

problema, quem diz nem sabe o porquê de se explicar. Mas o que digo

é que meu único problema era timidez, pois tinha um nome de

menina, nas atitudes de mulher. Qual nome disso? Ah, precisa dizer?

Onde a Julia/Maria viveria? Onde vivo, droga? Onde me

largaram? E quanto a ela? Ela vive nas ruas. Ela sente fome e raiva. E

quando aquele garoto rico jogou lixo nela, sentiu-se como se

realmente fosse aquela sujeira.

Vive num lugar onde quase não há sinal de liberdade, igualdade

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ou fraternidade. No seu coração, Maria é tomada por seus ódios

sociais e preconceitos raciais. Onde Maria vive?

Oh, Maria... Oh, é por todo lado.

A inibição, a vergonha e o sentimento de inferioridade são

fundamentos da sua vida. Vive? Oh, Maria! Ah, querida.

E num raro ato de desespero e/ou alívio, cortei meus cabelos,

que antes eram longos até os ombros e castanhos, bem curtos agora,

como Elis em seu auge. Aqui em casa ouço suas interpretações e

também a vejo em lindas canções repetidamente direto do aparelho

de som. Brindo ao meu vigésimo aniversário: sozinha e desconfiada

da vida. Mas não me importo, é como deve ser uma pedra.

Não posso aceitar perder! É uma guerra, dura, tenho minhas

armas, tenho uma pistola pregada na parte de dentro da perna.

Tenho belas saias sexy!

Acham isso ruim? Quais juízes escolher? Vocês se perguntaram

por que falei da “Maria”, certo? É só pra ilustrar, queridinhos.

Acontece que essa tal é como eu, um exemplo. Bom, ainda sou Julia, e

digo: é impressionante como um só dia pode conter e acarretar tantos

fatos relevantes e rumos – quiçá ir-relevantes.

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CAPÍTULO 5: “O Bar Código”

Muitas vezes, típica segunda-feira. Segunda-feira. Velho

velando! Dia de ninguém. Ócio puro. Corpo cansado. Saliva de

cigarro. Desânimo.

Ontem dei uma passada no Bar Código, pra ver umas bandas

de rock alternativo. Achei legal. Mais ou menos: é, na verdade, nada

disso me empolga, pô. Mas a cerva e todo o resto de pinga chique e

lanche de batata frita com calda de queijo amarelo era caríssimo pros

meus padrões que provêm de baixo da cadeia alimentar. E mesmo

que estivesse com a grana, não daria pra eles. Peguei uma Ráinequen,

R$ 3,50 – fazer o que, não tinha Brama! E sentei no balcão. Ouvia o

som das apresentações. Me inclino no balcão. O Barman resmunga

que a guitarra do moleque tá alta pacas. Se o Barman em sua

fastidiosa rotina enfurnada, se soubesse como o Rock incipiente,

roqueando ali, atentando ao pudor, é mágico! Se! Ou recebendo seus

sopapos harmônicos, microfonando de peculiar tom. Meu caro

Barman, a guitarra mostra o caminho. As alminhas é que se auto

convidam, conduzindo-se ao matadouro de hienas de todas as caras.

Porém, é mesmo, é som frio demais prum domingo cinza e chuvoso –

por que eles não fazem algo diferente? Por que não misturam COM

BRASILIDADES? PODEM VISUALIZAR QUE PERFEITA UNIÃO??

Essa segunda não é muito diferente. É necessário recolher-me

em significância. Contudo, sigo de meias pretas com furo no dedão,

bermudinha e casaco. Tosco. É que vivo como peregrino caseiro. A ir

preparar um ratão-de-casa. O colchão me espera seguido dos

quadrinhos ao lado. Nem eu me entendo, cara!

O dia será longo, mas tenho livros. Tô com tempo de sobra!

Olho a parede, penso. Olho ao redor, reflito. É minha folga, sabe –

que piada horrível!!

O vinho da geladeira tá no fim. À tarde tem VHS que aluguei

dez anos atrás. Depois... Noite é só vadiagem. Oh, a rima é tão

selvagem...

Acho a sa-í-da. Muita mosca em casa. Pano de chão cheio de

terra. Tênis mofado pela água da chuva ao lado da porta. Batata

palha. A geladeira tá triste. A música de fundo é do extremo norte de

uma América nocauteada. Mas é a realidade.

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Folgato ainda não voltou. Os insetos e as sombras se alastram –

ele me ajudaria, ah claro! Meu amigo perdido.

Jornal Hoje. É preciso lavar o sanitário e botar as toalhas pra

secar. Limpar a pia e jogar o lixo fora fica pra mais tarde. Pooooxa.

Por que essas paradas simplesmente não saem voando e dão um pluft

e evaporam??

Hoje tentarei matar COTIDIANO. Ele me assola como peste.

Mas primeiro vou espantar os demônios do dia: as moscas, antes da

saída!

Horas depois, vento na cara. Orelha gelada. Borda do jeans

molhada. Jaqueta. Mãos nos bolsos. Guarda-chuva encaixado na alça

da mochila. Cara anestesiada e repentina. Espera. Parado. Imóvel e

olhando ao redor. Ao que seria tua tia da Salvação, pede. Espere e

sim. Ruas úmidas, escombros, casas fechadas. Verde escuro nas

árvores. Poças d’água. Fumaça do cigarro como um rastro. Neblina à

frente. Carros passando com os vidros fumê fechados. Cochichos.

Passos meus. Eu tava esperando meu cara. Toca o orelhão, o fone,

fora do gancho. Onde tá o asfalto? Aspirinas pra minha cabeça

latejante. Passos fora de compasso. É a música da minha situação!!

Rotina, saí de casa em pedaços. Ao lado, uma árvore seca,

árvore que racha o chão. Pichação no Rio de Janeiro.

Bar. Esquina. As velhinhas me olharam mijar. O cão abaixou a

cabeça. Ninguém viu, ninguém vê. Caminho. A avenida é larga.

Profunda. O final é branco. Toda a cidadela é estria e erosão. Beco

escuro. Ratinhos. Casa. Escadas e um novo amanhecer. Eu sou

umidade. Ela veio. Eu sou um, voltei.

Mas espera, espera, espera, espera: susto! Um carro passa

voado! Nada... ufa... era outra carruagem morta, indo. Tudo bem,

ainda não era.

Fictícia não é mais a entrada. É a Rua Santo. A fachada da casa

tá ensopada de letrinhas. Entro.

Traáácq! (Triinlilin)

−Caiu o prato!

−Que coisa, toda hora... Deixa que eu apanho.

−Chega logo ô, toma teu troço – rosnou-se o Traficante.

−Ah, já vou... – Digo eu, largando as outras “especiarias” para

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conferir as novidades!

Escuro. Profunda lerdeza. Um zumbido anuncia que se eu não

impuser um limite, já era. Dou uma gargalhada gordurosa de louco.

Que bobeira fútil. Eu sou tudo aqui. Mas, mas. Meus amigos já

morreram antes de mim. Que bom que nunca me desesperei. “Valeu,

doido! Te ligo na próxima”, digo ao tal comerciante ilegal, figura em

extinção.

Tremedeira Sandinista, por que não se cala!? Recorda que a

volta é demorada. Imbecil sarjeta e paranoia. Huuuuuu.... a Ooonda!

“Tua mãe vai chegar”, ouvi. “Fedeu!”, disse rápido! Tô doidão.

Coração na mão e memórias. Um arriba doutro, mais e mais. Hoje eu

não tenho limites. Ergo o dedo! Alto, alto, alto!!

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CAPÍTULO 6: “E mulheres retratadas...”

Alguém me disse: “Pra Julia, um recado: consorte, apenas por

sorte ei de esquecer que já li o livro que me deu. E apenas por

esporte, Julia, não volta”. Mas esse “alguém” era alguém

significante: uma mulher, ah, sim, uma mulher. Seu nome seria

irrelevante dizer, já que vocês não a conhecem e eu tenho um pouco

de receio. Mas o fato é que ela me deixou triste algumas vezes, e

algumas dessas estão embaixo de mim, em subdividadas partes

desordenadas das letras, sempre prontos para recordar.

Hoje ia prepará-la um jantar à luz de cinema e flores secas

daquela loja, te botar na parede, porque continua a mesma de quem

fiquei com raiva, mas teu pouco esforço pra conosco me fez deixá-la a

sós. Ainda gosto disso, mas sei muito bem viver longe daqui. O que

vai acontecer, então? É totalmente imprevisível. Quase como ser uma

anti-heroína você, e eu a vilã.

Hoje é um dia de decisão, pois agora que refleti já não tenho o

que temer nem perder de você. E este cabelo, agora, é meu mesmo. A

influência passou, como o dia.

Quando estiver derretendo de verdade e começar a apodrecer,

vou te perguntar se é verdade ou mentira, paixão ou ilusão, hora ou

ano?

Já não tenho o que perder, agora que sei o que sou. Quero e

faço à imagem. Sou minha princesa e, se me tem como amiga, te

quero longe. Ontem e hoje, ah.

E sobre esta água de piscina, à mão de caneta amostra grátis,

declaro: vou ser uma dessas rainhas! Já vi o ruim e caminho sobre o

inventado bom. Já este e o mais estrelado dos céus e já sem lua

minguante sobre guarda-sol enchendo d’água. É a confirmação das

“Noites estreladas, estrelas cadentes e insônia” .

Visto a armadura de pássaro sem casa, na cultura; e quando

varrer escritório dos outros, serei reconhecida; dita por ruim e

palavras lembradas. Terei um canto sem esse calor e poderei usar

várias roupas sobrepostas como uma Judas-Gato-de-Botas.

Vem e vai, ziguezague... Ganhei um chaveiro de bronze e uma

conta bancária. Mas e as despesas? Sim, sim, sim... Há luz, que de

longe é mimada, peixinhos de espécies diversas, pia com restos de

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almoço, mosquitos e sopas do governo, mas também há uma mulher

com seu “eu lírico” inquieto: que vem e vai, ziguezigue... É assim...

Ganhei um chaveiro de bronze e uma conta bancária, amiga. Mas e as

despesas sem norte? Sim, sim, sim, e elas, como as pagarei?

Uma tira de lã escreve no ar o nome de mulher numa camisa

verde. É (a camisa) em forma de tira... Essa camisa tinha furos que

foram drenados pelos traçados contornos “x”, que, aliás, não foi dito,

era verde também, mas tinha uma coloração clara e fina em seus

traços pequenos.

Depois do transcrito na camisa, essa tornou-se nova: tinha

beleza de vitrine. Tudo mais que lhe faltava era um toque de artista

da próxima dona – diga-se de passagem que ficou linda, mesmo já

gasta e com bolinhas de algodão.

Ela tinha uma nova apresentação, ainda que mesma cara,

mesmo cheiro. Por que, então, te deixaram assim? É distinta! Já pode

ser vendida! E no mostruário vai estar escrito: “– Se for confortável,

esteja disponível”. Mas em outra loja terá o seguinte aviso: “– Vida a

objetos inanimados. Preço justo!”

O subconsciente pôs uma etiqueta ruim na tua estampa, cara:

CAMISA NOVA, e impôs: “– Produza, faça mais desse tecido

modificado” . Mas eu comparo: o tempo é longo – cheio de surpresas

a lápis.

A primeira vez que te vi (Desculpe, mas tinha que contar este

episódio, mesmo ainda estando triste):

Estava quente. Você... Ficou umedecida e me molhou os olhos e

dedos. Ouvi a música lenta e deslizei como uma menina agradecida...

Seu gosto salgado – e pouco azedo – grudou no meu cérebro, tanto

que meus cabelos tiverem de ser lavados. Tudo virava macio e

anestesiado, mas ela só me usou e testou até mandar embora, com

fome, ah, querida folha de papel/mulher.

Minhas pernas paradas, você contra mim, beijou, e, suas

pernas também... Ainda está em mim, e ela sabe quando reclama,

chora, faz tudo voltar, mas não vou te ajudar. É como o óleo entre

dedos... só sentimentalismo.

Srta. Larissa. Viram? Está bom para alguém? Me condenem.

Esse é o nome. E... apesar da vida curta, ela já foi muita coisa pra

muita gente diferente. Às vezes, ela mesma não sabe o que é ou quem

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é. Sentindo-se diferente, tenta lembrar o que aconteceu, mas apenas

sabe que procurava algo – todos nós sabemos o que é. Por quanto

tempo ela ficou cega? “As trevas” a cercaram, envolveram-na,

cresceram dentro dela, tavam sobre ela. Tudo o que foi repugnante,

peças e ação.

Só então, neste momento frio e cotidiano, é que ela viu a

verdade do instinto – sempre esteve lá, mas ela não tinha percebido.

Sempre disseram a ela que desafinava, que não se importava com

droga nenhuma.

Por que aquela escuridão interferiu em sua vida tanto tempo?

Todos nós sabemos o porquê. Ela desejava isso – validava sua

existência.

Bruxas e gritos, feitiços, quanta besteirada: “– Não se importa

com nada nem conosco, né”. Roupas pretas e botas com salto de

agulhas, usa e nos usa. Nossa, como poderia ter sido boa pra você,

querida. Eu quero sexo bom em tu. Lari, Larissa, ah porcaria! Como

repito essa bomba de nome! O que você vai me dar, além de munição

para aniquilar ex-marido?

Larissa, a mulher sozinha. Pensa e anda pra lá e pra cá. A sua

mulher, separada, mas não só, vivendo ali num novo ângulo. Dessa

forma, fica fácil trocar de vida: sair da rua, da velha rua, agora

molhada pela chuva desta estação. Tantas por aí, personagens das

ruas... De pinguças de bares noturnos a mães como as nossas, todas

olham as alternativas. Menos essa.

Peço que repare por trás do palco: ele está limpo, mas também

há alguma sujeira. É relativo: tantos cérebros não aproveitados

passaram por ali. E tu?

Fica sozinha, minha querida. Te amo tanto para que fique dessa

maneira. Tudo está se modificando. É melhor ficar só. Sei que prefere

a mesma companhia, normal, cotidiana, não tiro a sua razão. Porém…

Tenta algo tipo... viajar! Muito fazem. Viaja para uma praia linda,

tranquila, azul, doce, sono, amor... de mulher, casinha aconchegante,

tudo pra tu... E manda a conta da água de coco! Não vai estar só, é a

solução, vai mudar sua vida. Eu juro.

Leitura, escrita, fala... tudo na aprendizagem – e o mais difícil

neste percurso é a audição. Não é vazio tudo o que digo; o que digo, é

da mais pura sinceridade infantil descoberta – posso me orgulhar

dessa qualidade. Se eu escrevi (muito disso aqui), escrevi por tu, Lari.

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Amei isso desde o dia do nosso carnaval a três, antes de tu gostar

de crianças, antes de ter e largar o marido travesso. Quem sabe o

porquê de haver química entre os corpos? Olha, eu gosto dela e

acabou, fim de papo.

Não resisto. Nestes últimos parágrafos acima disse o que

poderia ter dito com uma só frase: “Venho aqui me apresentando,

confundindo e escrevendo sobre saudade e aflição de estar você tão

longe, fofa”. Sim, o nome é Larissa – cabelo roxo, boca rosa, óculos

amarelos, pele verde. Ela é o quê?

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CAPÍTULO 7: “Pre'la”

Sheila. Droga, droga. Sheila quer tremer na sexta. Eu não te

amo, sapequita. Você é só tesão! Por que insiste? Não sou de

ninguém. Sheila, sua idiota. Ahhh.... anjinho... Para de me procurar

por aí. Tu não é Joana D’Arc! Mais parece Dalila. Sabe como a vejo?

Como aquelas lendárias mulheres das histórias do Robert E. Howard.

Imaginem sem a roupa da época!! Ou vestida nela, huuu! É o tipo

forte, fêmea com fibra.

Daí, é... mesmo assim corro atrás dela. Essa menina tem algo,

dou-lhe minha colher de chá. Sempre me interessa. Então vou ao

encalço, voo até seu apê. Chego na portaria:

−Como assim ela não tá?

−Não tá, doutô – disse Gilmar, o porteirinho.

−Eu é que procuro – respondo aporrinhando.

−Dá pra perceber.

Deixa pra lá. Essazinha... Eu não queria tê-la na minha cozinha

mesmo. Talvez seja mentira do porteirinho, às vezes acho esse cara

apaixonado por ela. Por mim, pouco importa, eu não me preocupo

com nada que não do meu interesse momentâneo. Nunca escondi

meu egoísmo despeitado. Era só diversão. Ainda que tivesse me dado

um friozinho quando consegui uma fêmea depois de tanto. Mas

passa.

É hora de esquecer... Querida, você foi muito rápida. Eu tou

fora. Às vezes sumo por necessidade. Um tempo nos dias. Ninguém

me acha. Minha fuça vai dar uma corridinha por aí. Se alguém pensar

em me procurar: não tenta, não vai achar. Ninguém vê mesmo!

Desligue-me a TV. Evito conversar com os outros humanos, prefiro o

meu raio de ação, prefiro a desordem. Desliguem a droga da tevêêê...!

Fim de Carreira, mas melhor do que cantar sozinho num

videoquê em festa de criança, bêbado e abraçando uma futura tiazona

baranga. Sheila me deu um toco, que fiz de errado? “Olha o que você

fez!”. Dei um tiro no pé, vai ter que fugir mesmo! O mais fundo que tu

puder, fofa. Foge o mais que der, é medo, eu sei.

Me deu uma irritação repentina que tive que sumir no mesmo

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momento. Sempre acontecia. Isso é que nem bipolaridade. Larguei-

me daquele prédio!

Sheila, huuu... Li e reli meus clássicos. Empilhei tantos livros

em casa que parecia que montei um sebo! E como me refugiava nas

impressões dos meus livros! Distrai, né?! Me leva pra fora de tudo

isso... Mas não sei o que passa na tua cabeça; onde mais procuro a

resposta?

Caminho, para que ela saiba de saudades – se é que sim,

porque com o dinheiro que recebi, pude comprar dignidade,

independência, orgulho, poder. Aliás, eu podia dizer mais como aliso

a barriga. Alguém desconfiaria que é uma característica minha?

Hunf... Sinto um pouco de saudade das segundas e terças afins no

Beco, da casa onde cresci, do barro, da chuva e do frio debaixo da

coberta assistindo um filme. O dinheiro só nos isola. O Amor como

museu!

Súbito um morador, um sujão de nome desconhecido mas de

reputação risonha aparece; ele brota loucaço! Grita que “ÉRRSSA

POURRA DI CACHAÇA ÉRR pííí!!***!”. E quebra a garrafa. Destrói

com a mesma determinação dum Olímpico! Cacetada! Gostaria de

saber o nome!! O barulho da pinga estilhaçando no chão é incrível,

um TRRRRÁÁÁÁ LINININN!! Sabem? Digam o que quiserem, mas é

uma autopunição. Do mendigo, o deleite próprio mais uma vez, do

símbolo que é, do Homem, enfim, em si. É a vida. Outra vez. Claro

que alguém comeu a carne e sangue e tripas desse ser. Desastroso

episódio desde o primeiro dia após as vitórias. Tranquilizantes e

álcool, botecos e calçadas, a finitude do dinheiro sugando ao fundo,

pedindo mais cachaça, zerando opinião, vontade, forma. Acabou seco

o cara, e sua garrafa também, estraçalhados aí.

Eu rio, mas logo serão os que o riso acabará lágrima/e dor de

cabeça! São todos os “artistas”, “vagabundos”/“parasitas” dessa

cidade Rio de Janeiro/ Centro. Becos escuros/ Casas

abandonadas/pelo Império Antigo/praias desertas.

Tô só pensando. Como alguém que entra numa loja e diz pro

vendedor: “tô só olhando, obrigado”. E fica nisso.

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CAPÍTULO 8: “Limbo, limo, mofino e acidular...”

“ Ainda algo ou coisa, ainda é dia... Já

vou cansada, já fui cobrada e irritada. “Só resta esperar...”. Mês que

vem serei recompensada com meu salário de vozes. Acho que vou

gritar, quebrar o abajur. Mostrar que não sou uma puta idiota. É a

realidade a que se acostuma, o bisturi contra as veias, vexame e

glória de mãos dadas transformados em supernovas de prazer...

amordaçado! ”

(Julia)

“Personagem” é quem eu gostaria ou teria sido em minha vida

imaginativa. Então... Não seria melhor esquecer, apagar, bloquear

mentalmente as passagens ruins? Bom, é o que tento; fazer o que,

né!? Pra mim, só o ideal serve, caso contrário fico assim, deprê. E

Julia pra baixo nem é legal.

Droga... Suja e fedida de tanto escrever e pensar acerca de meu

mundo. Devemos pedir perdão? Por quê?? Contudo adoro meu

cheiro: quando bom ou ruim, me ponho como uma macaca auto

coçando e snifando... hunf, quer dizer, tenho minha marca. De

madrugadas sem luz. Fico em casa só pensando, inválida dengosa.

Com o tempo, a paciência vai pro beleléu!! Essas paradas de

humanos cansativos, ah minha paciência.... Lembro das “mariposas”,

as cheias de vaidade, ambição; ambas nós, filhas de lares sem pão,

calejadas, pois sempre seremos lembradas como as putas de carne e

osso, assim como cogumelos na terra úmida. Ambas nós.

Sina? As nuances dos meus desejos iguais a felinos e felinas

entregando-me à própria sorte. Desesperada, recorri às pequenas

orações, bebi da água turva onde ninguém vê, pus meu útero em

ruínas ao comércio sexual e... dessa forma tosca, jogaram-me no

cárcere do Homo Lascivus:

Quanto é o programa?

Importa? Tu não é rico?

Mas eu quero ouvir da tua boca o TEU PREÇO!

E calo.

Vamos lá!! Agora outro assunto: o outro lado das coisas: há

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alguma ponte relevante nas estranhezas... e, ah, esquece. Não quero

ser tão chata quanto já ando sendo. Vou falar de meu jeito de

escrever. Bom, eu gosto das quebras pra deixar os escritos mais

vanguardistas, de uma forma que qualquer um possa ler, aí já é

diferente. Depende da uma interpretação nada vocal. Eu sou bem

desregulada no quesito quebra, pontuação, lógica. O que faço é bem

livre e pausado, cheio de pedaços. Não acham que há beleza em

esquemas assim? Extravagâncias mais simples, digeríveis, ou mesmo

bizarras? E no encaixe das partes, o tem a dizer? – talvez estejam se

perguntando: como essa desgraçada sabe escrever? Digamos que eu

estudei “bastante” quando deu vontade... ainda que escola pública no

Rio de Janeiro deixe tanto a desejar. Não que sejamos burros, apenas

o ensino foi pouco. Existe gramática na escola pública? Pra mim não!

Enfim, odeio política. Não cedo.

Já lhes falei da história da máscara que vi num museu? Linda.

Nem um pouco enrugada. E até escrevi para ela: hum... Leiam:

“Obsessão: prejudica-me – é sabido –, mas não há nada a fazer.

Peço desculpas a quem acreditava nessa máscara posta e a quem já se

irritou com o que for. Comigo... deixa pra lá. Nem importa tanto

assim. Olha aqui!

A traidora: isso já tá fora de controle. Não tenho mais limites.

Chega de vida dupla, aventura. Onde me esqueci? Minha consciência

tá dura. O que me tornei? Meu pulmão me expele.

Sou uma traidora? Ou reveladora? Cheiro à desconfiança?

E tu, mulher em formato de L, vai falar algo?

É tempo de mortos-vivos, escravos...”

Ufa! Uh, hahah, falei demais, né!?

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CAPÍTULO 9: “Alargue-o”

Nada. São os dias que passam para esse “Velho”. Não tive força

de vontade pra memorizar nada.

Será que vai acontecer uma mudança radical? Será verdade que

chega a hora em que nossas vidas vão ao avesso? Caminhando,

metamorfoseando. É tão irreal que me choca ao ponto de não querer

mais nada!

Mas é preciso alargar. Eu falo dos dias, fazer passar, botar pra

atuar o escapista inabalável que sou. Com máscara ou não, porém

munido de Língua de Sogra! Hahaha, só rindo. Aqui, nesta cidadela

chamada Rio de Janeiro – quem nunca abalou-se com algo daqui?

Quem nunca se sentiu afetado por este estado de folia? Ou falando de

nada e dando em nada? Queeemnão?

É como uma “Turnê Decadência”. Minhas pestes são motivo de

admiração. É uma turnê primitiva esta que atende pelo nome...

Decadência. Minha cabeça tá pra explodir; as dores pulsam como um

bigulin se animando. Todos os dias tenho sofrido (sem porquê

concreto). Penso em tudo, tanto pra fazer e tanta vontade de só olhar.

Mas todos os dias me curo em escapismo. Analgésicos, indigno. Pois

a dor é Decadência e minha cama tá fedida a couro cabeludo de anos,

esse travesseiro é duro. Êee! Fedor ao redor. É uma pedra o existir.

Cadê você, Folgato? Cadê? Folgato, um Mago da atualidade! Eu

preciso conversar com um amigo que não me questione, eu preciso de

algo novo. Quem diria... É que, puta que la mierda, agora que entrou

na minha cabeça, vai ser brabo recuar...

Vou comprar o primeiro álbum do Mutantes e dosar a saída pro

novo bem-estar. Antes eu ficava da vida por ter que ganhar meu

pão pelos outros, sendo explorado num emprego dia a dia. Agora,

sacoé, me faço! Ouço, a MÚSICA é minha cúmplice.

Mas me carece de reais cúmplices! Tô encrustado no

isolamento social de improvisos, um território movediço da natureza

humana. Ouve-se até chocalhos indígenas.

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Financeiramente reduzido à preguiça de levantar daqui,

profetizando, olhos fixos e neutros e delirando. Bobeiras de fundo de

quinal. Sabe, é que tô zureta! As estribeiras pupulufi... Vejo minha

lápide e rio altão: ““O Velho” já era? Entrou pra galeria das ameixas

vivas? Só Folgato pode reanimá-lo? Noite adentro com a perdição,

maldição induzida: solidão. Ele espera. Reclama, bebe seu vinho,

come queijo. Até que aconteça algo...”. O único que acontece é o riso.

Menti e assentei pra mim, mesmo que só pra me safar... na cama.

Eu devia ter nascido um hamster pra viver brincando debaixo

das serragens da solidão paga com ração de girassóis! Ou ter virado

caminhante pela Terra pra não me preocupar com mais nada senão a

contemplar o espetáculo das planícies e tundras de amanhã! E... é...

Pode parecer que eu vivo na não-era, na pííí!!*** nenhuma, mas eu

também me divirto, uso as minhas “drogas” e viajo e largo o p ííí!!***!

Ah! No outro dia sai o comentário sobre o disco: “Um dia darei

um comentário sobre o disco que não ouvi!”. Não me tomem por

exemplo, não sou novela, tenho ideais. Ai, que mancada.

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CAPÍTULO 10: “Um antes de”

Ter simplicidade num livro cheio de aventuras de situações e

fatos de brinquedo é complicado. Às vezes, penso que poderia ter me

inspirado mais em Crusoe, por exemplo, e me aplicar mais em alguns

momentos. Vejam abaixo:

−Robinhouuu, me empresta uma agulha.

−Mas para que, minha cara Julia?

−Preciso costurar um vestido bem lindo.

−Eu não preciso desses apetrechos por aqui, portanto, nem possuo! –

Responderia Robinson Crusoe, tranquilamente, e com o clássico

sotaque inglês.

Escrever tem sido mais que uma distração. Para tanto, peço

desculpas se mal expressei em algo. Venho tentando trazer para o

coletivo o que em vários instantes passei. É quase uma impressão

gigante. Mas não se preocupem: o papel branco não me assusta,

muito pelo contrário, ajuda. Afinal, a cor branca dá vazão à

decoração.

Apesar de nem gostar de tudo, admito que relevo porque meu

inconsciente expulsou... Dar sentido pra certas e não perecer uma

ostra, até porque somente reclamar seria comum e fácil demais –

puxei isso de família! Talvez gostando de sofrer eu seja mais forte e

resistente cada dia melhor... Expurgando...

Não vou exaltar a morte ou o suicídio. Não sou assim tão

extrema. Nunca vi alguém que podia rir, chorar e sonhar virar carniça

na minha frente, então não posso vir a ser tachada de hipócrita.

Os grandes livros da humanidade talvez não sejam tão bons

quanto eu imaginava. É só a primeira impressão! O mal existe; a

morte é algo sério, transparente, sóbrio.

Rolo e enrolo. Meu peito batendo acelerado em pique intenso, e

o corpo assusta-se. Nasci com um sopro no coração... agito-me e

quase morro de tão eufórica pelo B.P.M. enfurecido. Meu peito duas

vezes mais a pulsar; e enlouqueço ao me perceber estática, silenciosa

de êxtase quase sentindo o sangue ferver e me arrepiar embaçando os

olhos. É um filme pornô a minha vidinha. Sou tratamento, meu

prazer aqui dentro... respirando rápido. Seria assassinato ver de longe

a Julia, enjaulada. Cérebro meu, expulsa alguma coisa que preste pro

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resto da vida!!

Morta de sono, não consigo pensar em nada, somente digo

estas coisas com coisas, coisas com palavras – quase sonho. Palavras

avulsas. Vou para cama.

Passando os canais e vendo tantas bobeiras e imagens de todos

os gêneros, inúteis... Imagens sobre imagens. Passando de canais sem

dar importância, só para ver algo correr meus olhos e não fazer nada.

Mas já cansei disso também, TV não presta, prefiro cinema, livros,

ruas.

Meu nome já deve estar até soando mais suave e familiar aos

ouvidos de quem o diz, repete. (Não?) sou uma mulher em crise. Até

que provem o contrário, não me entrego ao chocolate e coca cola

vendo novela ou filmes à noite no sábado – que, aliás, é A hora de

atividade mesmo!

Flerto com a banalidade e o vital... Tenho que dizer algo: não há

verdade estática no mundo, somente pessoas com a sensibilidade

exposta, e na incoerência é que moram todas as leis (ditas e

fraseadas). Por exemplo: uma noite estrelada é só uma noite

estrelada. A incrível capacidade de associações da raça humana é que

a transforma em poesia, literatura, verdade universal. Acontece

mesmo é o nadica de nada estigmatizado e estilizado. O vazio seco

absurdo é que é. Mais tudo e complexo que viagens lisérgicas de

alguns poetas virtuosos. Não me levem a mal, por-fa. É a era

moderna pendular arcaica. Ser o que quer ser é puro instinto. A

repressão é um evento de domingo, como verdades falhas, eu

estatelada. Quis no medo morar uma verdade. Essa é a insegurança, o

pudor.Sou pura intuição e vontade jovem, inspirei na observação.

Senti na pele, carne, ossos... que para uma pessoa que se contenta

com tão pouco e ao mesmo tempo busca tanto, uma palavra de

coragem ou agradecimento, conta muito. Ah sim! É gratificante, tanto

que quase choro de alegria. Mas sou dura..

Alegria. Um desenho, uma pintura do estado de graça. É sentir-

se bem consigo e com a consciência. Eu converso com ela, falo, digo

tudo. Porém, só consigo dizer tudo escrevendo – cara a cara

desconverso, fujo, falo só besteira. É quase meu papel nessa peça

chamada VIVÊNCIA sendo descoberto. Inspiro-me em crianças que

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dizem o que vêm à cabeça e na sabedoria dos velhos. Agora, tento

repassar.

É na simplicidade das particularidades que me acalmo. Até os

objetos inanimados podem ter vida – lembram da tira de lã de que

comentei antes?? Só depende do seu amor pela cara e importância

que eles podem dar pra gente. Pode haver relevância em tudo. Já

disse o quanto sou fã da imaginação? Ainda tenho bonecas velhas e

rasgadas de quando era menorzinha, e as trato como se só estivessem

dormindo. Quem me dera o mesmo?

Poderia até ter nascido uma planta. Sim, uma planta. Gosto de

vê-las sendo tão lindas e mundanas – de um esplendoroso vigor. Sua

delicadeza e cor verde/orgânico são como a sabedoria de um povo. É

verdade, gosto da ideia de ser uma planta, uma linda a ser observada

por gente que me acha tão bela quanto a própria existência, e tão

significante quanto a natureza – vistosa à brisa, representando. A

planta sempre vive e é sinônimo de realização; profunda vida e amor;

ser, parte da coisa.

A verdade, quase sempre ela, é tão simples. E, às vezes, nem

tanto dolorosa quanto dizem. É o momento. O caminho da realização

completa o ciclo na felicidade. Se rodo a bolsinha, e daí?? Tanto que,

exemplificando, uma velhinha ficou me encarando... dessa vez. Eu

bolada com um monte de troço... Dei um berro no ouvido dela,

subitamente, feito louca: “– Que Foi, chata??”. Estremeceu toda,

soltou um “Jesus!!!” e enfiou o rabo entre as pernas. Mereceu! Mas já

faz tanto que passou.

O caminho do autoconhecimento não é tão difícil quanto

pensam os cultos. Nós, plebeus de tempo de vida, observamos

externa e internamente, e vimos o quanto é simples, fácil pacas. É

isso: antes de morrer, preciso entender. Não posso me enxergar vaga

demais. Recuso ISSO. Não sei se há depois, chance depois. Isso é

libertar-ser. Um dia conquistarei mais que isso, melhor. Vão ver!

Liberto a Julia tanto quando me olho; e no espelho me

identifico como pessoa e rio.

Por que não disseram antes que há tantos sentidos nas

sensações e palavras ao nosso redor? Tanto a se entender – queria,

agora, poder domar o tempo e conduzir à perfeição levando a mil

reflexões. Queria mais disponibilidade para crescer – cresço muito

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devagar, “trabalho” como uma formiga. Cadê a outra meia-lua? Eu

tenho um fígado para ser comido. Sou muito esperta!

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CAPÍTULO 11: “2544”

Ou o que encontrei por lá dos meus pensamentos:

18:05. Eu sou muito inteligente! Mesmo que deixe os dias

passarem devagar. Pois é... Dias passam devagar... Hunf... ai, ai... O

tempo e as intempéries me cansam. Mais complexo vitamínico pra

me deixar em 60% da minha capacidade humana. Dias passam

devagar, e daí? É uma larica eterna!!

18:07. Hum... fez sol essa tarde na recriminação própria. A

plateia tá apática, a casa é de prazeres, a força com filtros de voz.

18:16. Minha senha é 2544. Digam que dá pena. Chama, vai,

sou vendedor de cartões de crédito em tenda de centro comercial na

galáxia 2544; ou seja, não bati a meta.

18:20. Sem asas, memórias(?) de agora que não voltam... são o

lembrete do póstumo esquecimento que ainda não se concretizou; um

passarinho burro que tenta todos os dias fazer seu ninho urbano na

caixa de correio duma casa número 6 qualquer – e que os donos

sempre o reprimem, retirando os primeiros galhos. Ah o rapaz, chei

de Antiácido analgésico pro “Velho”.

18:25. Cof, cof órfão de pai. Tosse, tosse, infeliz. É o castigo cof,

cof. Você precisa é dum banho de sal, desintoxicação, ou mãe... Não!,

deixa a mãe fora disso. É imoral. Edipiano. Não sei, mas pouco me dá

na telha!

18:30. Ahhh, a passagem 11 disso, tudo corrompido. Tudo

avariado, tudo remexido de “sebo nos cabelos”!

18:31. Sol das 17 horas. Já tô ni outro dia, ou só parece? Não.

Uma tarde bonita. Grama, onde não devem as pernas ruins passar,

luz sobre as flores. Frescura. Sol das 17 horas. É sábado. Hora de

caminhada, pão, café.

Mas eis que surge: dum bueiro, um sujão, ele vai soltar pipa ali

mesmo. Mesmo acabado, game over pro mundo, ele tá feliz agora...

consegue. Não tem responsabilidade... também não tenho, mas por

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que não carrego a cara de felicidade dele? Não saio de minha

“pobreza” porque gosto de ficar assim tão cinematográfico!

18:32. Não um morto-vivo, amigo! Coé! Eu sei andar. Ando

desde a adolescência, mesmo que só do colégio pra me irar. Eu sei

andar, sei ouvir Pixies com “Velouria”. Confundam, por favor. Olhar e

caminhos também se confundem – tantos são eles! Hoje. Estou de

hoje, e hoje tem muita gente, meu mundo é plural, e é difícil ser

escutado como algo.

18:40. Ultrarromântico? Azia. Queimação estomacal ou fígado?

Bílis? Bah. É a minha teimosia. Tampouco desejo isso a ninguém.

Imundice mesmo. Eu sempre soube: algo fervia

verborragicamente. Tenho 20 anos, e daqui a 3 meses vou pra idade

ultrarromântica. Mas o que sou, enfim? Talvez um pouco de tudo, sei

lá.

18:50. Ouvi o ditado castelhano “El bien suena, y el mal vuela”.

Enfim, como vou interpretar a estrutura da realidade? Nem eu sei por

que tô aqui, pois é tudo sobra, tudo que meu cérebro não quer – um

tipo Rimbaudiano rejeitando seu passado. Subliminar & limiar. Pré-,

pré-, pré-. Uma mina terrestre, o chão de ovos... Perfeição, longe,

sempre vai. Sabe, eu sou incapaz mesmo. Contudo, não é pra dar

importância. Puta teia de emoções que se move... É horrível, e abro a

dispensa, e a cerveja não tá gelada como no comercial. Por outro lado,

intertextualizar é como Interzone. Ah, aqui tá infestado!

18:53. Personalidade. Doido pra saber quem sou, como e

porquê? Não é? Certo? Aqui absorto há mó tempão e ainda não sei.

Vivo chegando da noitada fedido a álcool, cigarro e batom de mulé, e

não tomo banho; no outro dia lavo o corpo, mas a cabeça fica pra

outra ocasião. Como pizza velha da geladeira. Minhas camisas

brancas encardiram-se e as cobertas daqui têm buracos. Meu único

par de tênis possui três bocas. Quase nunca lavo meus jeans. A toalha

fica na cama... sou um projeto de macho dominante

desgovernadooohouu!

18:59. Jesus, sinto o fundo do poço ou ressaca. Querido

Álcool... tremular coisa amarga, irritante magia, gole dos infernos, eu

perdi a vida; desatenção em lista. Um clima terrível! Hamlet é meu

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pai. Maria Madalena é minha mãe. Salva eu!!

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CAPÍTULO 12: “Mascar quebra-cabeças e pregos?”

Bem, bem, chega de encher linguiça à toa... Já percebi que isso

está parecendo um fútil diário casca de ovo. Mas entendam: ainda

estou viva (isso soa melodramático, mas não tem nada a ver) e

frequentemente descrevendo minha “obra” (canteiro de obras?)

eucarionte doida. Pode rir! Ei, é compreensível. Não me condenem

por nada, pois já que está aqui, foi por SUA vontade. Alguém te impôs

ler isso aqui??

ATÉ PODERIA TER PARADO, ENTRETANTO VI DE NOVO...

Poderia existir um recanto onde me escondesse e tivesse lendo o

futuro e pensando no que escrevo nestes tempos. E com gosto de

sabão na boca eu faria escrever, lidando com a realidade e

associações, pouco método e à moda “SEM COMPASSO”. Inspirando-

me em vidas – minha e tua, Larissa: o objetivo é fazer da gente um

quebra-cabeças. Um tipo raro, com... é... Finalidade sim, de

esclarecer isso e tentar alertar sobre os defeitos. Não é bem uma

crítica, nem alusão (acho que pensaram isso): é o que acontece no

dia-a-dia – indigne.

É que Larissa tinha – ou tem!? – uma particularidade a seu

favor: era a mesma mulher de dia e de noite, desde a hora que

acordava e até quando corriqueira. Não seriam disfarces, nem coisa

“forçada”. Era de verdade, uma humana. Larissa ingrata!

Profunda desordem, ah... Caprichos... Onde recolhe-se a

disposição conveniente? Em tu, que lê. Você é a chave das associações

– indigne.

Como é engraçado ver a gente na rua, digo, ver-se numa tela ou

foto. A imagem, a cor que só o artista ou câmera obscura sabe

reproduzir. Contudo, quando me enxerguei, vi uma eu que não

conhecia: em gestos ou fisionomia – no papel é difícil explicar. Assim

como convencer qualquer criatura sobre aquela lenda de pescador

que fala das escamas, das virgens, dos peixes, e do bobó de camarão

em suas férias de anos. Pensem num filme e na personagem que mais

se identificam. Agora imaginem-se lá. Viram? Serão o que quiserem –

adoro imagens, adoro climas bem passados nelas! Há tantas

possibilidades e formas além de sentimentos a se mostrar!

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Mergulho. Peço desculpas à minha natureza e caio nesse

buraco que é a distração da leitura... A outra realidade! Caixa arquivo,

eu entro. Despreocupada. Adentro como Metamorfose Ambulante!

Em minhas mãos, eu, mulher. Como meu pai um dia ensinou: “–

Vamos fazer tudo certo para não haver decepções. Te amo muito e

quero teu bem. Digo isso para ressaltar minhas expectativas quanto

ao teu futuro, e rezar contigo, minha filha. Vamos, ajoelhados, no

escuro, ao lado da cama, antes de dormir, pedindo que sejamos

felizes” .

E falei, tomada pela sabedoria dele: “Meu pai não queria que

eu dissesse, mas rezamos todos os dias à noite pedindo felicidade” .

Esta é uma boa lembrança de minha infância, dos nossos

testamentos... “...e rezar contigo, minha filha. Vamos, ajoelhados, no

escuro, ao lado da cama, antes de dormir, pedindo que sejamos

felizes” . Bom lembrar disso.

Minha cara – minha cara é ela, a Larissa. – ela falou um dia da

situação de estar com a mente em branco – ir e vir como baratas

tontas? Daí, neste ponto é que começamos o próximo diálogo juliar:

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CAPÍTULO 13: “Aplausos, ecos e Folgato”

Por que me chamam de velho? Talento, dádiva, presente ébrio.

Insanidade forçada. Evangelho caseiro. Pretensão. Ruído fraco. Ou só

pra rotular?? Pensem! Pendulemos.

Após sair de casa para ouvir novos sons, o que anda rolando, e

ler algumas revistas das bancas, ainda em mim lembranças

soporíficas dos zum zuum de todos os lados na minha bebedeira e a

canção estrangeira chamada “the gift” toca na minha caixa... torácica.

Leio mais letreiros caminhando. Meus olhos brilham, e um friozinho

toma minha nuca e barriga.

Água borbulhante. Esquisitice. Lado de lá. Experimento.

Desencanado. Descolado. Aí. Imagens de Piva. O que é assepsia?

Queimei meu dicionário de bolso. Já era! Injustiça. Loucura bacana.

Luz, compasso. Também não sei cantar. A quarta dura pouco. Quem

vai mixar isso aqui? Escroto. Pecados. Obstinação. É a trilha desta

aqui. Talvez inferno calmo. Bruxas do limbo invólucro. Gemidos.

Órgão. Transe. Tortura. Faça. Falta de possibilidade. Tentativa final

do artista. Oh, goodbye!

O olhar crítico do mundo e eu de bobe por aqui, heheh.

Assim, uma mulher gritou na avenida:

−TÁ CAGADO! VAZA DAQUI, BABACA!

Outra:

−Joga a TV pela janela: tá passando o “Esperança Criança”!

Bom, o laboratório vai chamar. Até quando tem trem no

domingo? Edaí, edaí, tô zureta!!! (Risos)

Penso: “Chuveiro... pra tirar o fedor das axilas e sexo. Aproveita

e retira a massa nos dentes, homem. A remela. O cotovelo russo.

Pensa no que fez – eu fiz, fiz de tudo bobo”.

Passo os olhos pela habitação e vejo dinossauros enfaixados!!!

Bola de cristal envidraçada. Gênio “sem” da lâmpada. Uiiii, logo

diriam. Retrato meu vestido de marinheiro na escola aos 9 anos.

Tadinhas das pessoas que me jogaram aqui... Assim é.

Relógio do camelô!!! Protetor solar. Globo de 20 cm. Bíblia

virando pó. Peixe empalhado. Poeira, discos da matriarca. Eu bebê...

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como pude ser tão...??? Coisas da escola... Minha estante antiga tá de

lado... Como vou indo. Não o mesmo de antes, bem mudado.

Retrógrado, ou besteirada. Barriga pra frente!... Pelos esparsos

nas costas. Antigo piercing juvenil no mamilo esquerdo. Cicatrizes.

Sujeiras nas unhas. Barba grande. 20 anos. A cobrança feroz. Indo.

Canceroso e aidético por afinidade. Inutilizado pelos prazeres

desconhecidos da bebida e tudo quanto é tóxico que vejo pela frente;

é atração, fazer o quê!? E pouquíssimas perspectivas na “vida”. Eu

semimorto e vejo. Tudo o que quero é acabar... e desaparecer. Mas eu

sou “O Velho”, tô na parada ainda!

Esta necessidade de entorpecer tá me consumindo, atrasando,

atraindo cada vez mais dor de cabeça. Retratando minhas ações,

aflorando emoções tolas. Minha moléstia é ninguém menos que

euzinho. E. Fecho os olhos. Enjoo. Vomito. Cara de bunnn… éerrrc.

Quero ajuda mútua, secreção, inseto. Kafka pra ler? De

Quincey pra ler? E pra ajudar no caso de Folgato, o desaparecido,

Patrícia M.?

Inversão (onanismo diário pra relaxar ao acordar). Meleca. Dia,

volta. Espanque-o, mais e mais até ter aquele sono. Mamãe num tá

aqui. Espanca, hu. Fotos no cérebro: onde elas estarão neste exato

momento? As musas petrificadas. Aperto o botão e entram em

movimento. Quanto tempo passou desde o dia da gravação? Espanco,

até dizerem: cacetada, por que diabos cê fez isso? Até não querer mais

nada, só aquele sono/acordado de alívio e gozada e laricas.

Aos poucos, vou voltando... Deitado, pensando. Em. Mentir,

roubar e dar voltas. Quanto é preciso por um banquete? Uma figura

sinistra. Papel de goma de mascar. O olhar das pessoas lá embaixo. O

nervosismo. Calma, me, me, melecaaa! Tô de volta ao jogo, olha só

meu vinhosinho, ahhhh. Não ligo pra eles lá fora se exaurindo

pedindo morrer. Mim morrê bem. No meu reinado. Descascar

caroços. Densidade. Levitação. Os pôsteres dos meus ídolos olhando

pra mim. Tô errado? Meus caros, eu não entendi o que tá escrito nas

suas cabeças. Vivo? Sem torturas, cintilantes metralhadoras no

cérebro. O escuro e o ventilador de teto. Corpo na cama, deitado.

Calmaria. Doce. Súditos. Eu me fecho, ê... n.d.a. Mais... Desliguem-se

vocês mesmos. Volta mais tarde.

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Saio, mas retorno. E vocês aí? Voltando pra casa depois de três

cervas no bar do Senvida, eu paro é na extremidade da

compreensão e olho dois vagabundos jogando cartas. Vejo também

uma lata de lixo com rádio acoplado que toca Jovem Guarda. Os

vagabundos viram e sorriram; eu sorri e fui embora, correndo.

Ostrava satisfeito. Quem sabe dos trocadilhos de ontem e hoje? Mas

que horas são? Devo comer jornal de anteontem pra me atualizar!

Aposto que tô fatigado e lesado e... apático, agora tanto quanto o

Universo. Chamo esse todo de Real/Realidade, pensem. Qual a

pergunta certa? Quem pode dizer!? Quero um jantar alto nível.

Próximo. Pois preciso demais recuperar as forças. Rir. Mesmo com o

friozinho, e mesmo com a madruga aos meus pés, os mosquitos saem

das roupas, sapatos, cortinas, sofá, cama. No Tibete tem mosquito?

Como eles são? Será que aguento aqueles sete anos? Carne, pelo,

leite... o caminho da fronteira e conversa com gosto de chá. Paisagem

exuberante em qualidade de fora. Tão besta. O que acha, Buda?

Acho que já posso ouvir e apreciar o barulho da gandaia de

Folgato – ou será mais um engano da ansiedade? Talvez ele já esteja a

caminho pra pular dentro do cesto de lixo... e rolar... ou sair com a

cabeça cheia de farofa, e a tradicional cara de pau com sorriso “ops,

foi mal”. Possivelmente ficarei de cabeça pra baixo ao saber o que

aconteceu com ele: quantas histórias; por quantas aventuras ele

passou? Hum... e se invadiu uma casa à procura de acasalamento e

encontrou apenas ração?(...) E se nessa ração estiveram, escondidas

pelo próprio Salomão, três suculentas pepitas de diamante? Ou recém

postas ali por outro pirata que as ocultou no interior dos biscoitos

cheirosos, numa fábrica? (...) Folgato foge e caga o que comeu. Ai.

Um moleque pisa na bosta. Ele vê o paraíso! Sou eu esse garoto?

Atravancado, tortuosamente estrume de vida pós-mim.

A paranoia com Folgato volta como as ondas do vinho fresco de

geladeira! O ladrão não vem atrás de Folgato. Ele sabe do garoto, seus

passos são de glória. Sua mochila é divina. (...) O escorrego é flácido e

a mochila vai parar na Baía de Guanabara. Os próximos farão o show

continuar. Tudo pode acontecer com o aprendiz de sósia. (...) Não

temos celular, Folgato. Calha de nem ser tão urgente assim! Pai e mãe

não nos trarão copos de leite com chocolate... Boa noite, amigo...

onde quer que esteja vagando. Escreve uns postais, pô!

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CAPÍTULO 14: “Atacando seres humanos,”

Certo dia, um cliente perguntou:

−E agora, pra onde vai?

−Eu? – Me assustei!

−É, tu! Nos divertimos aqui e tal...

−Pra onde vai a tua mulher?

−Hã? – Embranqueceu e mixurucou o cara. Devia ter uns 33 anos,

casado há pouco, ainda sem filhos. Um tipo normal, que dá umazinha

com a universitária depois do trabalho, para na casa de um amigo e

toma banho, bebe sua cerveja, papeia um monte de escrotice e volta

pros braços despreocupados da esposa. De quem é a culpa? Eu?

Quem manda ele perguntar um troço desses?? Só porque sei e não

reajo? Prendam-no em flagrante. Eu sou uma viciada, acessível. A

falta de afeto reclamando não é só minha, é de todos. Sei que vivemos

sob o signo do medo, que me resta se não lucrar??

−O que disse? – Ele pergunta novamente, como que certificando-se.

−Nada, só tava te zoando, bobinho! Vai ligar de novo pra mim?

−Vou pensar no teu caso, gatona. – E dessa forma se despede, não

sem antes deixar algumas notas sobre um criado-mudo. Ah, o apego!

As aortas que o digam! Também já desisti de ser como as outras,

horizontalmente. Mas todos sabem, é malvadeza sim. Fatos

lamentáveis com as esposas acontecem... (Risos)

Penso na cara do meu cliente. Hunf... Aquele a me assassinar

no olhar, que me sustenta e condena. Ao vivo. É... Os idiotas são os