A Filha do pastor das Árvores por Gillian Summers - Versão HTML

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GILLIAN SUMMERS

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Gillian

Summers

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Com a morte da mãe,

, uma jovem de apenas

quinze anos, é forçada a deixar sua adorada Califórnia para viver com

o pai nômade no Festival da Renascença de Montanha Alta, no

Colorado. Lá, coisas estranhas começam a acontecer — estranhas

mas familiares. Keelie percebe que algumas pessoas do festival têm

orelhas pontudas, incluindo o cavaleiro mais bonito do lugar, Lorde

Sean do Bosque. Quando ela começa a ver seres estranhos e a se

comunicar com árvores, descobre que existe um segredo a seu

respeito e percebe que seu pai lhe deve explicações.

GILLIAN SUMMERS

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Muito obrigada a Maureen e Nancy por seu entusiasmo e sabedoria; à

equipe de pesquisa do Festival da Renascença — Shannon, Christina,

Graham e Jack —, que teve de aguentar coxas de peru, torneios,

queimaduras de sol e vários beijos de donzelas; a Summer pela avaliação

cuidadosa; aos meus editores maravilhosos Andrew Karre e Rhiannon

Ross, que leram, releram e deram sugestões incríveis e valiosas; ao meu

excelente agente Richard Curtis (você é ótimo!) e a todas as pessoas

criativas e encorajadoras que participam do grupo de autores de literatura

juvenil da Yahoo.

GILLIAN SUMMERS

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Um

sua vida não poderia se tornar mais deprimente do que já era, a

visão da floresta verdejante deixou-a ainda mais triste. Ela já

podia sentir a comichão provocada por sua alergia. Se qualquer

tipo de madeira fazia com que se sentisse mal, as árvores vivas eram ainda

piores.

Keelie deu um passo à frente, escorregando um pouco, e sentiu um

cheiro horrível. Olhou para baixo. Havia pisado num montículo de

cogumelos podres em decomposição.

— Eca!

Um trovão ressoou em meio às nuvens escuras no céu nublado, que

prometia mais chuva. Outra péssima notícia para seus tênis brancos. Nos

últimos tempos, todas as novidades haviam sido ruins.

A lama preta no caminho sinuoso, amplo e ladeado de árvores sugava

seus tênis, manchando-os, enquanto ela se esforçava para acompanhar as

passadas rápidas da sra. Talbot. A mulher era a advogada de sua mãe, e

Keelie a odiava quase tanto quanto já detestava o Colorado. Atrás delas, as

rodas do táxi que as deixara giraram no cascalho solto, fazendo o carro

arrancar, derrapar na estrada pavimentada e partir a toda velocidade.

Keelie preferiu não olhar, para evitar que sua vontade de voltar à

Califórnia se estampasse em seu rosto. Jurara a si mesma que não

choraria, mas as lágrimas teimavam em despontar, tentando encontrar

vazão. Talvez fossem as árvores. Havia muitas ali, e a comichão começava

a se transformar numa séria crise de nervos.

Com o coração acelerado, Keelie puxou mais para cima do ombro a

alça da pesada mochila de couro, sem querer correr o risco de estragar as

poucas roupas que lhe restavam. A companhia aérea havia perdido sua

bagagem, outro ponto negativo em seu dia horroroso, em sua vida

horrorosa.

O aroma apetitoso de carne assada percorreu o ar, cortando o cheiro

úmido e terroso que encobria tudo como um cobertor mofado. A barriga

de Keelie roncou. As únicas coisas que ela comera durante o dia tinham

sido o pacotinho de amendoim e os minissalgadinhos que a comissária de

bordo lhe oferecera no voo de Los Angeles. Pena que se sentira deprimida

demais para aceitar a oferta da sra. Talbot de lhe comprar um sanduíche

na Au Bon Pain, no Aeroporto Internacional de Los Angeles.

Pelo menos já não chovia, embora, a julgar pelos trovões e pelo tempo

fechado, um temporal pudesse cair a qualquer momento. Nuvens escuras

como bolas de canhão esponjosas adejavam sobre as sempre-vivas. Mais

adiante, a quantidade de árvores diminuía, revelando duas torres amarelas

bem altas, de aspecto antigo, nas laterais dos imponentes portões de

madeira com dobradiças de ferro preto. A entrada era ladeada por leões

gigantes de topiaria. Um deles estava sentado no chão cheio de folhas, a

pata num imenso escudo, no qual se lia "Bem-vindo ao Festival da

Renascença de Montanha Alta"; o outro se encontrava agachado, como se

prestes a dar um salto.

Circundada pelas árvores altas da floresta, a entrada parecia um

cenário abandonado de O senhor dos anéis.

Artificial, pensou Keelie. Tudo ali havia sido montado, exceto as

árvores. As pontas dos dedos da garota formigavam, por causa da madeira

viva ao seu redor. Nunca estivera numa floresta tão grande. A qualquer

momento teria urticária. As pessoas perambulavam na frente do quiosque

que servia de bilheteria, algumas se reagrupando, prontas para partir,

outras procurando o dinheiro do ingresso nas bolsas e carteiras. Ao lado do

quiosque, um gigantesco mapa do festival mostrava que o lugar era

enorme, cheio de ruas, e até mesmo um lago. E uma desanimadora área

florestal imensa. Nada de almoço. Keelie estava enjoada.

À frente, a sra. Talbot ignorou a bilheteria e desapareceu portões

adentro, andando com determinação. Keelie fora abandonada para seguir

caminho sozinha. Grande novidade! Sua mãe também havia sido uma

mulher muito ocupada. Keelie estava acostumada a se virar sozinha. Em

breve faria dezesseis anos, e não seis.

Dois guardas grandalhões, com armaduras cinematográficas, correram

atrás da sra. Talbot.

— Ei, senhora, pare! Precisa comprar o ingresso.

Keelie sorriu, satisfeita ao ver que a advogada fora pega em flagrante.

Bem feito!

A garota deu um sorrisinho dissimulado para o atendente, prendendo

os cabelos atrás da orelha. Esperaria ali pelo táxi que as levaria ao

aeroporto assim que La Talbot fosse expulsa dó festival.

Um atendente arregalou os olhos ao vê-la e fez uma exagerada

reverência.

— Seja muito bem-vinda, senhorita. Seu pai a aguarda. Bem-vinda ao

Festival da Renascença de Montanha Alta.

Ele lhe entregou um mapa e um folheto.

Keelie o fitou espantada, segurando os papéis. Será que aquele

homem era vidente?

— Ei, ande logo! — A sra. Talbot acenava, chamando-a para entrar.

Os dois guardas já voltavam à área da bilheteria, um deles contando o

dinheiro.

Keelie soltou um resmungo, pois sua alegria durara pouco.

Aproximou-se dos leões. Ninguém bloqueou seu caminho. Mas um

movimento, detectado com o canto dos olhos, levou-a a se virar. O leão

tinha mesmo encolhido os ombros? Podia jurar ter visto uma ondulação

esverdeada percorrer o corpo do felino. Impossível. Devia ter sido uma

rajada de vento.

Uma vibração à sua direita. O rabo com ponta peluda do animal

oscilara, como se ele estivesse prestes a saltar da base de pedra e correr

para a floresta. O homem fantasiado à entrada olhou de esguelha para

Keelie e fez sinal para que ela prosseguisse. Ele não notara o movimento e

a deixara passar: ou ela era aguardada, ou aquele lugar podia ser

considerado negligente no que dizia respeito à entrada das pessoas.

Keelie estremeceu ao passar pelo estandarte e pelo enorme portão.

Parecia uma fortaleza barulhenta. Uma ruidosa prisão. Rufos primitivos

marcavam o compasso das gaitas de foles, dos violinos e das trombetas

desafinadas, em uma mistura estonteante, pelo visto apreciada por aqueles

pobres coitados.

Apesar da saudação simpática no escudo do leão, não haveria

nenhuma acolhida para Keelie. Ela com certeza, que, não queria-estar ali.

A garota deu uma olhada no relógio. Duas horas naquela nova vida e

seus tênis já estavam acabados; sua bagagem, perdida; e sua coluna,

dolorida. Além disso, na certa suas unhas deviam estar um desastre. Sem

falar nos formigamentos e na náusea que sentia por causa da floresta. E,

para completar, estava vendo coisas.

Queria — não, precisava de — um banho quente e uma massagem.

Tempos atrás, sua mãe ligaria para TJ no spa diurno Belos Sonhadores e

marcaria uma hora para fazerem massagem lado a lado, com pedras

quentes. Keelie tinha vontade de pegar o próximo avião de volta à

Califórnia e à civilização. De volta para sua mãe. Sua mãe, que dizia "Está

bem, querida. Vamos conversar a respeito" sempre que Keelie via ou sentia

algo estranho, inexplicável. Quanto mais amadurecia, mais as duas

trocavam ideias daquela forma. Sua mãe sempre fazia com que se sentisse

normal de novo. No entanto, ela não estava mais ali. Keelie inalou

profundamente, achando difícil respirar. Sentia a presença dos pinheiros

ao redor e tinha a sensação de que lhe sussurravam algo. Estava prestes a

ter um ataque de claustrofobia, mas para onde fugiria com aquele monte

de árvores ao redor?

— Ande logo, Keelie. — A voz da sra. Talbot veio de algum lugar à

frente. — Se eu não for embora daqui a trinta minutos, vou perder o voo

de volta.

Pelo visto a sra. Talbot, que também trabalhava na firma de advocacia

da mãe de Keelie, recebera uma tarefa ingrata, a qual, obviamente,

executava a contragosto. Keelie imaginou como a sra. Talbot teria reagido

na reunião: "Levar a pirralha até o Colorado?", perguntara na certa. "Não

podemos simplesmente deixá-la no aeroporto?"

Mas, não, isso teria sido muito arriscado, já que havia a possibilidade

de a menina fugir, após o incidente no primeiro fim de semana. Keelie

passara a ser considerada uma fugitiva em potencial, que precisava de

acompanhante, como um bebê. Embora fosse verdade, era de

enlouquecer.

Irritada, a garota conteve as lágrimas, que ameaçavam voltar.

— Engula o choro — murmurou para si mesma. — Não demonstre

seu medo. — Não queria parecer uma chorona quando encontrasse o pai,

que não via desde pequena. Meu pai biológico, lembrou a si mesma.

A lama fazia barulho a cada passo de Keelie, que tentava, com

dificuldade, acompanhar a advogada em seu formal terninho azul-marinho.

A mulher vestia uma roupa totalmente inadequada para aquele lugar. Por

sinal, a própria Keelie também.

Embora os visitantes que se dirigiam em bando à saída parecessem

cansados, relembravam às gargalhadas os melhores momentos do dia. Se

haviam acabado de fazer os mesmos programas, para que recontá-los? Será

que sofriam de algum tipo de amnésia?

A sra. Talbot caminhava contra a maré humana, desviando-se com

agilidade para evitar colidir com os turistas. Como conseguia? Embora o

salto alto devesse afundar na lama, ela se movimentava como se o caminho

de terra fosse igual ao piso de granito polido da firma Talbot, Talbot &

Turner em Los Angeles.

Keelie apertou o passo, decidida a não parar. Não reclame, não, disse a

si mesma. A sra. Talbot fez uma pausa em uma barraca de bijuterias e

perguntou algo à atendente atrás do balcão. Em seguida, apontou para sua

acompanhante e agitou uma pasta. Keelie sabia que a diminuta etiqueta

branca colocada ali dizia "Keliel Heartwood", projeto número seja lá qual

fosse na vida tumultuada da advogada.

A atendente rechonchuda e de rosto corado, que usava um traje

medieval com um corpete superapertado, balançou a cabeça.

— Não sei, senhora — respondeu. A impressão era de que a qualquer

momento seus seios enormes arrebentariam o corpete, como melões

arrochados. Olhando para Keelie, franziu o cenho.

Um sujeito que parecia ser de outra era, com um avental de couro

asquerosamente gorduroso na parte da frente da estranha roupa medieval,

cutucou o ombro da sra. Talbot.

Keelie disfarçou o sorriso ao ver que a advogada conteve um grito.

— Ela se referiu ao marceneiro — disse o velho à atendente, falando

com um sotaque inglês escancaradamente falso. Em seguida, virou-se para

Keelie. — Então é um deles? Ouvimos falar que você viria. Continue um

pouco mais por esse caminho, senhorita. Heartwood está na construção de

madeira de dois andares, perto da justa. Não é, Tania? — perguntou ele,

arqueando uma das sobrancelhas grossas para a atendente peituda.

Justa. Keelie meneou a cabeça. Demais. E o que ele quisera dizer com

"é um deles"? Ela não tinha nada a ver com aquele lugar. Fingiu observar

os colares e amuletos expostos. Uma caixa com pedras polidas chamou sua

atenção.

— Quanto custa esta?

— Apenas dois dólares, querida. — As palavras foram ditas com

suavidade, porém o tom de voz da mulher era frio.

Keelie tirou duas notas novas da mochila e colocou-as no balcão,

tomando o cuidado de não tocar na madeira. A sra. Talbot chamou-a de

um ponto mais distante, no caminho de terra. A garota ignorou-a.

Examinou as pedras na caixa e pegou uma ovalada, cor-de-rosa e cheia de

veios.

— Vou levar esta aqui. É o quê?

— Quartzo rosa. — Os dólares haviam desaparecido. — Anda, a

mulher está chamando você. E obrigada pela compra. Esta já é a segunda

semana de mau tempo. Mais uma igual a essa e vamos virar um show de

lama.

Keelie pegou o quartzo, receando que a mulher iniciasse uma

imposição das mãos ou uma cantoria aos deuses. Começou a trovejar de

novo, o que levou Tania, a contrabandista de melões, a fazer uma careta,

preocupada.

— Ainda bem que está quase na hora de fechar — comentou ela. —

Pelo visto, vai cair uma tremenda tempestade.

Rajadas de vento fizeram os estandartes coloridos no alto esvoaçarem,

esticando as cordas. A brisa trazia um forte aroma de ozônio — certamente

choveria em breve. Keelie colocou a mochila de couro nas costas e, em

seguida, olhou de soslaio para seu conjunto de blusa e casaquinho de lã

brancos e a calça capri, de linho azul, e sussurrou:

— Eu não devia zombar de La Talbot. Também estou arrumada demais

para esta Terra do Nunca.

Do outro lado do amplo caminho de terra, pessoas de uma família

gargalhavam ao sair cambaleantes, esbarrando umas nas outras, de uma

barraca em que se lia "Labirinto Mágico". Keelie odiou-as por estarem

felizes e unidas. A mãe olhou-as de relance ao passar e arqueou a

sobrancelha ao ver o terninho da sra. Talbot. Keelie percebeu que as

roupas das duas as tornavam mais chamativas que os bobos da corte, os

homens com pernas de pau e os camponeses medievais que

perambulavam aos montes por ali. O estômago de Keelie roncou de novo.

— Sra. Talbot, será que podemos...

A advogada havia sumido. A garota olhou ao redor. Nem sinal da

mulher de terninho azul-marinho.

Um estrondo fez Keelie olhar para trás. Uma prateleira com biju-

terias expostas despencara. Colares espalharam-se pelo chão lamacento.

— Meus produtos! — Tania começou a pegá-los. — Este festival está

amaldiçoado!

— Shhh, minha jovem. Não deixe a administração ouvi-la dizer isso. —

O velho perdera o sotaque.

O lugar continuava apinhado de visitantes; nem todos se dirigiam à

saída. Era difícil caminhar em linha reta. Quando Keelie julgou ter

vislumbrado o terninho azul-marinho da advogada, foi cercada por um

grupo de falsos camponeses, que, cantando animadamente, chegara pela

trilha do alto da montanha.

Um grandalhão de casaco vermelho, orlado com pele falsa e adornado

com dúzias de sininhos prateados retinindo, vociferou com voz de

megafone:

— Abram caminho para o rei e a rainha.

— O grupo de pessoas vestidas como camponeses que circundava

Keelie gritou:

— Hurra! Hurra!

Prendendo a respiração, Keelie tentou abrir passagem. Estava quente

e úmido, e vários camponeses levavam longe demais sua atuação. A garota

sentiu que alguns precisavam urgentemente se familiarizar com o

desodorante dos tempos modernos.

Ela vislumbrou algo azul-marinho passando por entre as árvores, no

outro lado da trilha. A sra. Talbot.

Keelie abriu caminho e, então, viu a advogada agitando a pasta diante

do rosto de um homem. O sujeito usava chapéu de bobo da corte e calças

de seda com retalhos coloridos. E pernas de pau. Ele se inclinou da

cintura para baixo, tentando ler os papéis mostrados pela sra. Talbot. Uma

jovem gótica de cabelos negros aproximou-se, trajando um vestido preto

justo, de mangas longas e soltas, arregaçadas para exibir uma segunda

manga abotoada do pulso ao cotovelo. Ela conversou com a advogada e

apontou para uma clareira do outro lado da colina; em seguida, virou-se e

desapareceu em meio à multidão. O homem de pernas de pau bradou:

— Vida longa ao rei e à nova rainha.

— Ah, tanto faz — disse Keelie. Vida longa ao rei e à nova rainha.

Bom, tomara que sim. Que vivessem muito mesmo. Perguntou-se o que

teria acontecido com a antiga companheira do sujeito. Na certa criara juízo

e se mandara daquele lugar maluco.

Keelie conteve as lágrimas, que teimavam em surpreendê-la de vez em

quando, embora todos achassem, como comentara a mãe de Laurie,

Elizabeth, que ela vinha lidando bem com a situação. Bom, Keelie podia

fingir estar ótima em público, e era exatamente o que continuaria a fazer.

Ela piscou rapidamente, na tentativa de secar as lágrimas que marejavam

seus olhos, sem ter de enxugá-las e demonstrar seu estado de ânimo.

Pela visão embaçada, vislumbrou mais uma vez o terno azulmarinho.

Abriu caminho entre a multidão que se acotovelava, ignorando os olhares

curiosos lançados em sua direção. Percebeu, de repente, que já não se

sentia enjoada. Olhou para a pedra rosa e lisa que segurava. O que quer

que fosse, funcionava. Meteu-a no bolso.

Do outro lado da multidão, havia um grupo de pessoas observando um

homem com uma ave, cuja cabeça estava coberta por um capuz de couro.

Falcoaria. Puxa, aquilo, sim, era interessante. Keelie estudara história

medieval no nono ano, na Escola Baywood, e fizera um trabalho sobre a

arte de treinar falcões.

Aproximando-se, notou as longas tiras de couro amarradas nos pés do

animal. Piós, lembrou.

Pobres aves. Também eram prisioneiras. Tal como dissera sua mãe, as

pessoas ali não passavam de um bando de bobalhonas imaturas tentando

viver na Idade Média. Estavam totalmente desconectadas da realidade.

Quem ia querer reviver uma época em que não havia saneamento e as

pessoas perambulavam com sachês ao nariz para cobrir o fedor dos corpos

sem banho?

A mãe a alertara sobre como vivia aquele pessoal renascentista. E

como vivia seu pai, que levara adiante a versão medieval da velha escapada

para se juntar às pessoas do circo.

Uma coruja piou perto de Keelie, que percebeu a presença de outras

nas gaiolas, junto aos falcões.

Ela vira uma coruja empalhada no laboratório de biologia do sr. Stein,

na Escola Baywood, que lhe parecera careca e atacada por traças. A ave

branca que estava ali girou a cabeça para acompanhar Keelie, sem piscar

os enormes olhos amarelos, e tinha penas felpudas e macias. Keelie

gostaria de poder tocá-la.

Um homem de camisa branca, com mangas bufantes e sedosas, e

botas pretas à altura do joelho posicionou-se no meio do círculo, com um

falcão na mão enluvada. Apesar do tamanho da ave, segurava-a como se

nada pesasse.

— Alguém pode me dizer por que os olhos do falcão estão vendados?

— Sua voz era potente, e ele também simulava um sotaque inglês.

Algumas pessoas responderam.

Keelie observou a ave, que agitava as asas, alternando o peso de um pé

para o outro, como se estivesse impaciente.

— Olá. Você gosta de pássaros? —A voz levou-a a se virar depressa.

Não ouvira ninguém se aproximar. A mulher usava um cabelo bem

curtinho e vestia uma versão feminina do traje de falcoeiro, com camisa

estilo pirata e botas de cano longo. Fez um gesto em direção à coruja

admirada por Keelie. — Aquela é Lua. Nossa coruja-das-neves. Ela morde,

viu? Então é melhor nem chegar perto.

— É linda. — Seu próprio tom de voz lhe pareceu contrariado. Não

queria estar ali, mas, embora não tivesse planejado morar numa floresta do

Colorado com um bando de ripongas esquisitos, não era mentirosa. As

aves eram incríveis.

O ruído de alguém correndo fez as duas se virarem.

— Preciso de mais isca — informou um sujeito sem fôlego, cujo suor

escorria pela face queimada do sol e contornava os afluentes formados

pelas rugas ao redor dos olhos. —Ariel está na árvore. — Ele apontou para

cima, para a parte superior dos pinheiros altos que contornavam a clareira.

Keelie olhou para as copas esvoaçantes, sem saber ao certo o que

procurar. Uma mulher teria subido ali? Os ramos sacudiam, e os galhos

com folhas em forma de agulha balançavam freneticamente ao vento;

então, perto de uma forquilha no tronco de uma árvore enorme, ela viu o

contorno vultoso de uma ave. Ariel\ apostou. Queria avisá-lo que devia voar

para bem longe dali se pudesse. Se a própria Keelie tivesse asas,

regressaria voando para casa.

Ou então faria um voo de volta ao passado e aproveitaria cada dia que

ficara com a mãe. Diria a ela que não pegasse o voo de San Francisco a

Los Angeles. Avisaria que não devia confiar na companhia aérea regional.

Keelie sentiu uma dor no peito. Respirou fundo. Nada de chorar. Não

mais.

— Voe livre, sem olhar para trás — sussurrou.

— Keelie, ande logo. Estou superatrasada — pediu a sra. Talbot. Ela

estava a uns seis metros da menina e, pela primeira vez, mostrava-se

aborrecida. Um respingo de lama manchara sua meia-calça.

A tratadora de pássaros olhou para a advogada de cima a baixo e, em

seguida, mordeu os lábios, como se tentasse conter o comentário que faria.

Pode me informar onde encontro o sr. Zekeliel Heartwood? Esta é a

filha dele. Prometi trazê-la pessoalmente, e já está ficando tarde. Tenho

que pegar um avião de volta para a Califórnia. — O sorriso da advogada

não parecia sincero.

A mulher dos pássaros apontou para um poste inclinado no

cruzamento, cheio de placas de rua pregadas de forma negligente.

— Vá pela Travessa do Espírito da Água até a Fileira das Arvores. , Ele

mora no lado esquerdo. Impossível não vê-lo. — Ela se virou para Keelie.

— E você é a filha dele. Estou envergonhada por não ter me dado conta

disso. É igualzinha a ele. — Deu um largo sorriso. — Sou Cameron, uma

amiga do seu pai.

Uma amiga? Keelie podia apostar! Mas, apesar de ela ter certeza de

que o festival estava cheio de gente bizarra e esquisita, por algum motivo

gostou de Cameron. Franziu o cenho e afastou-se, apertando o passo,

então desacelerou ao se dar conta de que não precisava seguir a sra.

Talbot. Já sabia qual era o caminho. As instruções da falcoeira haviam sido

claras.

A alguns metros dali, o caminho se bifurcava. A placa voltada para o

lado esquerdo dizia "Fileira das Árvores". Que tremenda sorte! Mais

madeira. A do lado direito trazia "À Pista de Justa". Keelie abriu o mapa.

De fato, havia uma grande pista de corrida, sobre a qual estava escrito

"Justa". Curiosa e sem a menor vontade de ver a sra. Talbot concluir com

sucesso sua missão, ela seguiu o caminho da direita.

Sobressaltou-se quando uma ave enorme esvoaçou à sua frente,

fazendo um voo rasante sobre o caminho antes de se dirigir às árvores. Por

um instante, Keelie achou que ela a atacaria. Fora o falcão? A menina

olhou para cima, e um tom vermelho-vivo reluziu diante de seu rosto. Não

fora ele. Havia fauna selvagem demais ali para seu gosto.

A pista de justa não lembrava em nada o que o próprio nome sugeria.

Mais parecia um campo de futebol arenoso, com uma tribuna de um lado

e um muro de madeira do outro. Ainda havia um monte de gente animada

ali e no palanque. Vendedores de comida anunciavam aos gritos seus

produtos: espetinho de carne e coxa de peru.

— Pegue sua intoxicação alimentar em um desses espetos —

murmurou Keelie, segurando com firmeza a mochila. Sua mãe lhe dissera

que aquele lugar estava cheio de ladrões e de batedores de carteira.

Quando subiu a trilha inclinada, Keelie pôde ver melhor o que havia

adiante e parou, boquiaberta. Cavaleiros de armadura galopavam na

direção uns dos outros em cavalos imensos, como nos filmes. Por um

momento, ela teve a sensação de estar na Inglaterra do século XVI, e não

num Festival da Renascença do século XXI.

Mantos coloridos cobriam os cavalos e oscilavam com o movimento.

As armaduras dos cavaleiros pareciam verdadeiras, embora a maioria não

brilhasse, aparentando estar amassada e gasta.

Os homens empunhavam longas lanças de madeira e, cada vez que se

cruzavam no caminho, um deles tentava derrubar o outro com a arma,

empolgando muito a plateia. Aberrações sedentas de sangue — que ideia!

Atrás de Keelie, as aves gruíram, seus cantos lamentosos competindo

com os toques das longas trombetas, os gritos da multidão e o som

metálico das armaduras e das espadas, uma mistura de ruídos que ecoava

e percorria em ondas o corpo dela.

Seu pai estava por perto. Supostamente, aquele lugar era seu lar agora.

O que podia ser mais assustador? Keelie olhou ao redor, observando a

platéia animada e os jogadores fantasiados. Não conhecia ninguém além

da sra. Talbot. Embora não gostasse da advogada, a mulher fazia parte de

sua antiga vida, e ela queria se agarrar a cada fragmento que lhe restava.

Quando a sra. Talbot fosse embora, Keelie ficaria sozinha naquela

terra encantada. Bom, não exatamente sozinha. Moraria com o pai; e já

ouvira o bastante a respeito dele para saber que a vida seria mais um

pesadelo que um conto de fadas.

Imaginou o que aconteceria se as amigas descobrissem que seu pai

não passava de um cigano, um homem que ganhava a vida indo de um

Festival da Renascença a outro, de um show a outro, vendendo seus

artefatos para o público como uma espécie de vendedor de poção mágica

do faroeste. Keelie sentiu ondas de constrangimento percorrerem seu

corpo.

Quando as amigas perguntavam o que seu pai fazia, ela dizia que ele

trabalhava para o governo no Serviço Nacional de Parques, no Alasca, país

que ficava longe demais para o pai voltar para casa. Isso com certeza era

melhor que a verdade. O Alasca parecia um lugar bem legal e agradável; já

aquilo ali — aquilo ali não passava de uma fuga da realidade. Keelie

observou uma mulher passar levando guirlandas de flores para serem

usadas como enfeites de cabelo. Pelo visto, tratava-se de uma espécie de

uniforme ali. Algumas usavam os corpetes mais apertados do que outras:

apertados de um jeito brega.

Sentindo respingos-d'água, Keelie tocou os cabelos de corte desfiado,

que haviam ficado sedosos e brilhantes após a sessão matinal de gel e

chapinha. Agora iam encrespar e espetar para todos os lados. Passara uma

hora dedicada a eles à toa.

O falcão gruiu em uma árvore atrás dela. Keelie sentiu-se como ele,

amarrada e vendada, recebendo ordens, mas talvez a ave estivesse

amedrontada. Quem sabe o falcão não quisesse a segurança do braço do

falcoeiro? Ninguém lhe perguntara antes de capturá-lo e domesticá-lo.

Ninguém perguntara a Keelie antes de virar sua vida de cabeça para baixo.

Carregando a mochila, ela sentiu um leve resquício de algo com uma

fragrância de vegetação deliciosa. Nada que se assemelhasse ao assustador

cheiro de árvore. Um aroma mais parecido com o da campina pela manhã;

ou, ao menos, era o que Keelie imaginava. Suas alergias haviam-na

mantido longe de bosques e parques. Ela foi seguindo o perfume até

chegar a uma barraca com um letreiro de madeira que dizia "Ervas". À

porta, havia um cartaz menor: "Remédios para músculos doloridos e

comidas malfeitas." Era algum tipo de brincadeira?

Nas prateleiras, na parte interna, havia cestas, frascos e diversos tipos

de sabonete e de loção. Uma seção inteira havia sido classificada como

"remédios fitoterápicos". Isso chamou a atenção de Keelie. Ela adorava

tudo relacionado à medicina. A mãe certamente a teria tirado à força dali,

pois brigara com a filha quando ela falara em se tornar voluntária no

hospital e a mandara se concentrar nos estudos — que deveriam enfocar,

obviamente, a área de direito.

Keelie sentiu-se culpada por ter entrado naquela barraca, apesar de a

mãe já não estar mais ali e não poder mandá-la sair. Será que estava

traindo a vontade dela ao apenas dar uma olhadinha nos extratos herbais e

nos unguentos e cheirar alguns? Os potes com amostras exalavam um

aroma delicioso.

A atendente da loja usava um vestido lilás folgado, amarrado na frente

com um cordão de couro prateado. Um avental branco estava preso à parte

de cima com alfinetes e atado nas costas. As mangas esvoaçantes e

compridas quase arrastavam no chão e haviam sido presas à altura do

ombro com os cordões prateados.

Ali estava uma roupa que Keelie até se via usando — se ficasse ali,

claro.

— Posso ajudá-la a encontrar algo?

A garota ergueu um pote intrigante.

— Para que serve isso?

— E um tipo de unguento para joelhos doloridos.

— Keelie Heartwood, cadê você? — A chamada vinda lá de fora

sobressaltou a garota. Ela se esquecera da sra. Talbot. Fora como se a voz

da mãe a houvesse chamado, lembrando que a filha não estava em seu

mundo. A mulher das ervas pareceu ter se surpreendido também e deu a

impressão de estar prestes a fazer algum comentário.

Keelie não lhe deu oportunidade. Saiu olhando para o local na colina

em que ressoara a voz da advogada. Tropeçou na ponta elevada de um

calçamento cinza e estabacou-se, batendo os joelhos com força.

A mochila caiu de seu ombro e atingiu a lateral da pedra, espalhando

seus pertences colina abaixo. Keelie levantou-se de um salto e pôs-se

depressa a recolher tudo, antes que alguém pegasse algo. Sua escova de

cabelo, cheia de folhas grudadas; suas calcinhas extras, enlameadas; seu

diário — que não sujara, felizmente. A cada item que ela pegava as

lágrimas contra as quais vinha lutando desde cedo iam despontando. Não

houve pestanejo que as impedisse. Ela limpou o rosto com o braço e

tentou pegar seu nécessaire de plástico transparente.

No entanto, a mão de alguém alcançou a bolsa primeiro, e Keelie foi

acompanhando-a, conforme a pessoa se endireitava. Botas de amarrar até

os joelhos, meia-calça verde-esmeralda, uma sofisticada jaqueta preta e

dourada justa, com um falcão bordado à altura do peito, e um manto preto

e verde.

Que roupa! Coroando tudo, havia um rosto charmoso, como o de um

surfista californiano, bronzeado e louro.

O rapaz sorriu e entregou-lhe o nécessaire. Keelie pegou-o, sem

conseguir dizer uma palavra, sentindo-se a um só tempo superempol- gada

e bastante constrangida.

— Aqui está sua mochila, Keelie Heartwood. —A mulher da barraca

de ervas a pegara. O que não havia despencado colina abaixo estava

parcialmente para fora, em ângulos malucos.

— Obrigada. — A garota guardou as calcinhas antes que o rapaz as

visse e, em seguida, meteu lá dentro o que conseguira recolher.

— Você pegou tudo? — A voz dele era baixa e suave.

— Peguei. Quer dizer, não sei.

— Olhe aqui o espelho dela.

Ela se virou. Um homenzarrão estava com seu espelho de bolso — um

pequenino que lembrava uma concha de plástico azul — encaixado entre

dois dedos imundos. Cada centímetro do sujeito estava coberto de lodo, e,

atrás dele, havia três outros homens sujos de lama.

Um deles estendeu a mão com o espelhinho. Quando Keelie fez

menção de pegá-lo, o sujeito riu e jogou-o para um dos companheiros. Ela

sabia que era apenas uma brincadeira, mas só conseguia pensar no Natal

do ano anterior, quando o encontrara no fundo da meia natalina que a mãe

lhe preparara. Batons e espelhos. Era a tradição.

Lágrimas começaram a rolar por seu rosto, e ela não as enxugou. Por

que não chovia? Por que não chovia para que todos aqueles idiotas, com

suas brincadeirinhas sem graça e infantis, entrassem nas barracas e a

deixassem em paz? Ninguém teria notado seu pranto se estivesse

chovendo, e Keelie tinha a sensação de que choraria a noite e o dia

inteiros.

— Pare, Blurp — ordenou o príncipe ao lado da menina. — Devolva o

espelho para a dama ou vou golpeá-lo com minha espada.

Blurp, o enlameado, deu uma sonora gargalhada e, então, olhou de

soslaio para Keelie. Sua expressão deixou claro que algo lhe passou pela

mente. Arrependimento, talvez, embora ele estivesse por demais coberto

de lama para que a garota conseguisse saber ao certo.

— Tome, rapaz — falou o grandalhão, jogando o espelho para o garoto.

O príncipe limpou-o com o belo manto de cetim e devolveu-o a

Keelie, com uma acentuada reverência.

A menina meneou a cabeça, mas seu nariz começaria a escorrer se

dissesse algo; aliás, ela nem conseguiu sorrir.

Uma garota de saia-ballo cor-de-rosa e dourada foi se aproximando,

contornando os trechos com mais lama, segurando uma harpa amarelo-

cobre. Olhou de forma zombeteira para os homens cheios de lodo e, em

seguida, franziu o cenho ao fitar Keelie e o príncipe. Longos cachos

dourados impecáveis caíam por suas costas, como os de uma princesa de

conto de fadas.

— Lorde Sean do Bosque, a rainha o aguarda — informou a recém-

chegada, examinando Keelie de alto a baixo.

Lorde Sean? Quem diria!

— Obrigado, Lady Elia. — Ele se virou para Keelie, dando a impressão

de estar constrangido. — Tenho que ir. Espero que tenha encontrado

tudo.

— Acho que sim, obrigada. — Sua voz pareceu meio embargada, mas,

ao menos, conseguira falar.

— Ah, pobre criança! — exclamou Lady Elia, fazendo beiço.

Criança? De onde aquela menina tirara a ideiade chamá-la de

criança? Ao que tudo indicava, tinha a mesma idade que ela. Keelie

semicerrou os olhos, desconfiada. A graciosa princesa fez a carinha

amuada de quem quer ser admirada. Keelie conhecia bem o tipo. Os

cabelos longos e cacheados e os olhos verdes provavelmente chamavam

bastante atenção.

— Você sofreu um acidente? — quis saber Cachinhos Dourados. —

Não seria melhor chamarmos o pessoal da segurança? — Ela puxou a saia

para trás, como se Keelie fosse sujá-la de lama. A filha de Heartwood já a

odiava.

— Não é necessário — respondeu Lorde Sean do Bosque. — Ela está

dizendo que está bem. E eu concordo. Não é, Keelie? Posso chamá-la

assim, não posso?

Será que tinha mesmo acabado de ouvir aquilo? Keelie anuiu, calada,

receando fitá-lo caso ele não tivesse tido a intenção de dizer o que ela

achava que dissera.

— Keelie Heartwood! Venha já para cá. Encontrei seu pai. — A voz

estridente da sra. Talbot fez-se ouvir em meio à multidão. — Você vai ter

tempo de brincar com seus novos amigos depois.

Brincar? Envergonhada, Keelie ficou paralisada. A menina vestida de

cor-de-rosa e dourado cruzou os braços e olhou fixamente para ela,

estreitando os olhos.

Keelie tinha certeza de que a advogada usara o termo "amigos" de

forma precipitada.

Houve um burburinho a seu redor. Ela achou ter ouvido alguém

sussurrar "Heartwood".

Não esperou para ouvir o que diziam. Idiota!, pensou. Era uma idiota

por ter ido até lá, uma idiota por ter paquerado o príncipe. Lorde Sean. Até

parece!

Keelie deu a volta e subiu depressa a colina, tentando deixar para trás

a humilhação que sentia. Embora escorregasse na lama, conseguiu se

mover rápido o bastante para chegar ao topo sem olhar para trás. Seu pai

estava ali, em algum lugar, o que já era por demais inquietante.

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Dois

de incredulidade, ficou observando Keelie se aproximar. Uma

mulher morena, pequenina e sorridente estava ao lado dela;

parecia a esposa do bone- quinho de gengibre do conto infantil.

Keelie olhou para a própria calça capri e percebeu que estava suja de

lama. Constrangida, parou diante da advogada.

— Sou a sra. Butters, da casa de chá do outro lado da clareira —

informou a mulherzinha morena. — Quando a vi cair, pensei: "Sra.

Butters, temos que fazer algo para ajudá-la a se limpar." — Estendeu,

então, uma toalhinha de rosto úmida e um pano de prato.

A garota estava prestes a pegar o que a mulher lhe entregara quando a

sra. Talbot ergueu a mão, o cenho mais franzido do que nunca.

— Você me atrasou dois minutos, Keelie. Tenha a santa paciência! —

Virou-se para a mulher e deu um sorriso nervoso. — Sra. Butters, ela já

volta. Precisa se encontrar com o pai primeiro. Vamos lá. Estamos quase

acabando.

Quase acabando, disse ela, como se a garota fosse uma tarefa a ser

terminada logo. Keelie ignorou os olhares e os sorrisos dos transeuntes.

Devia estar parecendo uma garotinha, suja, levando bronca, correndo atrás

da mãe zangada.

A sra. Butters seguiu-as pela estrada, sabe-se lá se murmurando algo

para si mesma ou falando com elas. A sra. Talbot foi andando na frente,

ignorando o que a mulher dizia.

Keelie ouviu a ovação de uma multidão. O som chegou por entre as

árvores e, quando elas chegaram ao topo do caminho, a garota pôde ver os

estandartes coloridos e chamativos da justa lá embaixo. As aclamações

vinham da tribuna coberta.

Dois cavaleiros de armadura galopavam na direção um do outro,

montados em cavalos enormes, cada um empunhando uma longa lança.

Parecia de verdade. Keelie andou mais devagar e, em seguida, foi correndo

ao trecho do caminho em que não havia árvores. Dali podia ver melhor o

torneio. Um dos cavaleiros e seu cavalo usavam vestimentas com listras

pretas e brancas; já seu adversário vestia uma roupa verde.

Keelie continuou andando devagar, certa de que eles não se atingiriam

de verdade. Fazendo ressoar um forte som metálico, as lanças dos

justadores atingiram os escudos de cores vivas que seguravam. O golpe foi

tão forte para o cavaleiro de preto e branco que o empurrou para trás,

fazendo-o inclinar-se tanto que quase se deitou na traseira do cavalo. Mas

ele se recuperou e se endireitou na sela de formato esquisito.

Eles realmente haviam feito aquilo, haviam atingido um ao outro.

Estupefata, Keelie notou que a platéia se levantara, ovacionando e

gritando, tal como num jogo de futebol.

Quando o cavaleiro de verde deu a volta, ela notou que em seu escudo

havia o desenho de um leão. Ele estendeu a mão protegida com armadura.

Um escudeiro no chão jogou-lhe uma lança.

— Keelie Heartwood! — A voz da sra. Talbot sobressaiu em meio à

ovação.

A garota parou de fitar a justa. Era a melhor atração que vira até

aquele momento.

Dirigiu-se depressa a uma clareira contornada por diversas

construções; não que ansiasse acabar logo com aquilo, porém, sempre que

a advogada a chamava, todos se viravam para olhar.

O poste de madeira no final do caminho continha quatro placas. A

mais alta dizia "Pérgula das Rosas, Chás", daí "Cantinho de Galadriel",

"Ferraria da Aldeia: Espadas, Armaduras, Ferraduras" e, por fim, uma que

chamou a atenção de Keelie. Dizia apenas "Heartwood". Ela deu uma

olhada no mapa. Com efeito, lá estava. O fim de tudo.

Seu coração batia acelerado. Keelie entrou na clareira. À sua frente, a

sra. Talbot aguardava, de braços cruzados, em uma construção de pedra e

madeira de dois andares, com telhado de palha, igual à que se via nos

contos de fada. O local pareceu-lhe familiar e, na mesma hora, ela

descobriu por quê.

Seu pai lhe mandara uma réplica daquela construção no Natal,

quando ela fizera cinco anos. O brinquedo incluía uma casa medieval com

móveis e animais. Na verdade, ele lhe enviara uma cópia de sua loja.

A advogada foi até a sombra oferecida pelo térreo da construção, que

era aberto, e um homem alto magro apareceu na penumbra. Keelie não

conseguiu ver seu rosto, mas agarrou com força a mochila, aper- tando-a

contra o peito, como se a bolsa fosse uma daquelas cobertas favoritas

usadas pelas criancinhas. Tinha que ser ele.

Zeke Heartwood. Seu pai.

Keelie percorreu a clareira depressa e pisou na lajota fresca da

construção. Viu-se cercada de móveis de madeira e do cheiro de serragem.

Apesar da presença desses artefatos, em vez das importunas sensações que

esse material costumava lhe trazer, sentiu-se rodeada de amigos. Ainda

havia clientes perambulando por ali, e a garota abriu caminho entre eles,

pelas passagens estreitas entre os móveis em exposição, procurando o

homem que vira antes.

Uma mesa perto dela reluzia como mel quente. Era linda. As mãos de

Keelie começaram a tremer, e sua respiração se tornou irregular. Algo mais

relacionado, na certa, à madeira que à proximidade do pai. Ela com certeza

não iria chorar.

Daria um basta àquela sensação. Mesmo se vomitasse ou tivesse uma

reação alérgica, acabaria com aquele tremelique. Deixou que a mão

trêmula percorresse o tampo da mesa. Apesar de a superfície ser sedosa, as

pontas dos dedos formigaram com o contato, como se estivessem sendo

arranhadas. A visão de uma árvore com uma copa de folhas serradas lhe

veio à mente. Amieiro, pensou. Keelie franziu o cenho e esfregou as pontas

dos dedos, querendo se livrar da sensação. Seu estranho dom realmente

persistia naquele lugar. Achou que talvez tosse fruto de sua imaginação,

mas não era. Não havia deparado com muita madeira no avião nem no táxi

e sempre evitara árvores vivas. Impossível fazer isso ali.

Aberração. Desde o jardim de infância, as zombarias ecoavam em sua

mente. Keelie aprendera a manter em segredo sua estranha maldição. Não

era nem um pouco útil identificar móveis. Algumas pessoas evocavam

espíritos; ela, árvores.

Só fora proveitoso uma vez, quando a garota identificara corretamente,

numa aula, toda a madeira de lei da escola, sem consultar o guia prático.

Seu professor de biologia fizera um comentário a respeito de sua

percepção peculiar. Embora as amigas tivessem ficado impressionadas,

achando que ela havia estudado, o sr. Brooks observara-a de perto.

Percebera que Keelie descobria o nome depois de tocar na casca de cada

árvore. Pena que ela arruinara o momento ao passar mal e vomitar. Mal

conseguira se esconder atrás de um arbusto e já liberara o almoço.

Keelie meteu as mãos no bolso para protegê-las e dar um basta à

tremedeira. Assim que tocou no quartzo rosa, o zumbido e o formigamento

passaram. Será que fora por causa da pedra? Tirou a mão dali.

Uma caixa ao redor chamou sua atenção, com seus veios

pronunciados, que lembravam as veias de uma pele pálida. Ela teve

vontade de tocá-la. Fechou as mãos com força e, em seguida, meteu-as de

novo no bolso, agarrando o quartzo rosa. A sensibilidade em relação à

madeira passou de novo, permitindo que Keelie apreciasse a beleza do

artefato. Ela ficou boquiaberta ao ver uma série de bancos e cadeiras.

Vinhas retorcidas haviam sido usadas para manter as peças unidas,

fazendo-as se parecerem com os móveis da corte de um reino encantado

na floresta. Cristais reluzentes cintilavam nos nós dos ramos e nas

ranhuras criadas pelas vinhas conectoras. Keelie nunca mais largaria

aquela pedra.

Algo peludo encostou em seu tornozelo. Assustada, ela gritou e tentou

dar um passo atrás, mas tropeçou. Como estava com as mãos no bolso, não

conseguiu recuperar o equilíbrio e caiu, batendo com força os joelhos. De

novo, não!, pensou, desanimada. Seu celular bateu numa pedra e

desmontou, partindo-se em dois pedaços lamacentos. O quartzo rosa saiu

voando.

Após algum tempo, a dor passou, permitindo que Keelie respirasse de

novo, embora o zumbido houvesse voltado. Um gato laranja imenso estava

sentado ali perto, fitando-a com olhos cor de folha. Era um olhar

significativo, que dava a entender que o bichano reconhecera Keelie e

sabia o motivo de sua vinda. Mas a menina achou também que transmitia

certo ressentimento em virtude de sua presença.

— Acredite, eu não quero ficar aqui — sussurrou ela, esfregando os

joelhos machucados. Duas quedas numa só manhã. Não costumava ser tão

desajeitada. O gato piscou e desviou o olhar, com o típico desinteresse

felino.

Keelie sentou-se e esticou as pernas. Seus joelhos latejavam sob a

calça arranhada. Uma gotícula de sangue escorria numa das pernas. Ai.

Ela teve medo de olhar. Começou a sentir uma onda de enjoo. Não por ter

visto sangue, pois conseguia lidar com isso, mas por causa da madeira ao

redor, que a incomodava. Procurou às cegas o quartzo rosa e suspirou

aliviada quando o tocou.

— Você está bem?

Ela ergueu os olhos. A sra. Talbot estava ao seu lado, de pé.

— Vou sobreviver — respondeu Keelie, sentindo ter voltado a ser um

pouco mais a garota californiana que era. — Mas com certeza vou ficar

cheia de hematomas. — Pedaços de lama seca cobriam o chão no local

onde ela caíra. — Pelo menos um pouco desse lodo desgrudou.

— Não estaria toda enlameada se tivesse ficado comigo — ressaltou a

advogada.

A mão de dedos longilíneos de alguém pegara uma das partes do

celular sujo de lama de Keelie. Ela estendeu a mão para pegá-lo, mas o

aparelho desapareceu, e dedos gelados agarraram sua mão enlameada e

imunda. Ela ergueu os olhos, pasma.

O homem esguio que ela vira na penumbra estava no ponto exato em

que a sra. Talbot estivera minutos antes. Keelie perdeu o fôlego ao olhar

para a imagem familiar, porém estranha, tão parecida com ela. Ele tinha os

mesmos olhos verdes esquisitos, a mesma ossatura, o mesmo cabelo. Ali

estava a fonte de sua aparência física. Não a mãe, com os cabelos pretos e

lisos e os olhos castanhos, de formato amen- doado. A menina sentiu um

nó na garganta.

Keelie queria que o calor que vira naqueles olhos fosse para ela.

Estaria traindo a mãe se deixasse que o pai tomasse conta dela? Ansiara

por aquele momento desde pequena. A mãe sabia disso. Keelie pigarreou

e, em seguida, falou:

— Pai.

— Keelie.

Ela sentiu os dedos dele tremerem em contato com os seus. Os olhos

do pai estavam arregalados, observando-a como se ele quisesse guardar na

memória cada traço seu. A mão dele apertou a dela.

De súbito, Keelie lembrou-se do pai carregando-a bem alto,

segurando-a com firmeza. Quantos anos será que tinha, então, para que

pudesse se apoiar no antebraço dele? Os dois haviam caminhado pela

floresta cheia de árvores gigantescas, e ele lhe ensinara os nomes delas,

que ficavam em meio à vegetação exuberante, com suas copas nos tons

brilhantes do outono. O pai apontara para um amieiro e dissera que uma

dríade vivia nele. Por que ela se lembrara disso de repente?

O rosto da mãe passou pela cabeça de Keelie, que visualizou de novo

a pequena ruga que se formava entre os olhos dela quando desaprovava

algo. Sentiu-se fraca e boba por ceder daquele jeito à necessidade de ter

um pai. Ter pena de si mesma não era motivo para chamar Zeke

Heartwood de "pai", uma palavra que, a seu ver, estava tão cheia de amor

quanto "mãe". Era um título que precisava ser conquistado.

Como podia querer amar alguém que a abandonara quando pequena?

Laurie teria rido dela se estivesse ali. Certamente a aconselharia a deixar

de ser tão carente.

Keelie enrubesceu. Não queria que o pai a visse chorar. Tirou

depressa a mão da dele e se levantou. Pôs a mochila no ombro e estendeu

a mão para receber o celular.

Ele perscrutou seu rosto com os olhos cor de bosque — do mesmo

tom dos dela, incomuns, a ponto de estranhos perguntarem se ela usava

lente de contato. No fundo, secretamente, Keelie sempre se orgulhara de

tê-los herdado do pai. Era uma parte dele que seria eternamente sua.

Às vezes, a mãe acariciava seus cabelos e dizia: "Keelie, seus olhos são

lindos." E mantinha um olhar distante. Seus olhos castanhos podiam ser

tão obscuros e frios quanto fragmentos de rocha. Mas, em geral, ela não

era melancólica.

O pai entregou o celular e a bateria à filha. Ela juntou os dois e

colocou o aparelho de volta na mochila, sem se dar o trabalho de limpá-lo.

— Cadê a sra. Talbot?

Ele deu a impressão de ter ficado desapontado. O que esperava, uma

tremenda festa?

— Ela já foi embora — informou o pai, ainda ajoelhado na lajota.

Keelie empalideceu. Seus lábios enrijeceram e gelaram. Embora não

gostasse da sra. Talbot, ela era sua última conexão com a vida que

compartilhara com a mãe e, agora, estava largada ali, naquele show de

aberrações medievais.

— Mas ela nem se despediu — salientou em voz alta, odiando o tom

triste de sua voz.

O pai levantou-se, formando uma figura imponente ao lado da filha.

— A sra. Talbot disse que tinha que pegar o avião de volta para a

Califórnia. Não se preocupe, Keelie. Vai dar tudo certo. Não vou

abandonar você.

— Outra vez, você quer dizer? — Ela lutou contra as lágrimas. O

semblante magoado do pai fez com que se sentisse melhor. Keelie estava

triste havia duas semanas. Tome isso, Zeke Heartwood. É o que acontece

quando você obriga uma pessoa a sair de casa, tirando-a de suas raízes.

Uma mulher pigarreou.

— Com licença, quanto custa essa cômoda? — perguntou ela, olhando

para Zeke, aguardando a resposta.

Os cabelos pintados de louro mostravam um centímetro de raiz

escura. Ela trajava um colete de couro de amarrar, sem nenhuma blusa por

baixo, e uma saia longa do mesmo material. Umas canecas, uma espada e

uma bolsinha de couro estavam penduradas em um cinto preto, enfeitado

com pontas de prata. A mulher usava pulseiras grossas, igualmente de

pele, ao estilo de Xena, a princesa guerreira, também cheias de detalhes

pontudos e prateados.

Nenhuma das mulheres a caráter que Keelie vira até aquele momento

se vestira de um jeito tão ousado.

O pai, que deu a impressão de analisar a reação da garota, virou-se

para a cliente.

— Já venho responder à sua pergunta. Preciso atender minha filha

primeiro.

Apesar de ter tomado a decisão de ser menos carente, Keelie sentiu

um nó na garganta quando ele a chamou de filha.

— Vamos para o nosso apartamento — disse Zeke. Nosso apartamento.

Um dos sujeitos do show de lama, que brincara com Keelie antes,

entrou na marcenaria. Trazia uma sacola de papel, na qual se via um

montículo de tecido amarelo no alto. O homem pareceu ter ficado

constrangido quando viu a garota.

— Oi, Zeke — cumprimentou o sujeito, olhando casualmente para a

mulher de roupa de couro. — Achei que sua filha gostaria disso aqui

emprestado. A gente achou que os visitantes podiam confundi-la com uma

das participantes do show de lama, já que a roupa dela está toda

enlameada, daí resolveu dar um jeito nisso. — Deu um largo sorriso e

entregou a sacola para o pai dela.

Zeke abriu-a e tirou um monte de tecido. Então o agitou, e o material

se abriu, revelando uma túnica, que parecia limpa, mas manchada a ponto

de ter adquirido um tom encardido de lodo, e uma saia amarela, imensa e

ampla. Ele virou a peça para o outro lado, a fim de examiná-la.

Horrorizada, Keelie viu que a saia tinha marcas de mãos grandes e

vermelhas estampadas na parte de trás. O último item que o pai tirou da

sacola não fora mais reconfortante — um corpete roxo com laços cor-de-

rosa desbotados. Na parte da frente e na de trás, havia imensos remendos

quadrados, costurados com pontos grandes em zigue-zague.

— Isso não pode ser para mim — murmurou ela.

— Você vai precisar de uma roupa para o dia a dia — salientou o pai.

— Quer se enturmar, não quer?

— Me enturmar onde, no circo? — Ela chegou até a enrubescer ante a

perspectiva de andar com aquele troço abominável.

O sujeito do show de lama riu, mas Zeke olhou contrariado para

Keelie, como se tivesse percebido de repente que filhas não eram

santinhas. Você merece, pensou Keelie.

— Elas estão limpas — disse o pai. — Só vai ter que usá-las até

conseguirmos outras roupas para você. Obrigado, Tarl.

— Você não vai obrigar a pobrezinha a usar essa roupa de palhaço com

cores cheguei, vai? — A motoqueira renascentista, de cabelo oxigenado,

parecia indignada.

O homem do show de lama deu de ombros.

— Para mim, tanto faz — disse ele. — Eu só estava tentando ajudar.

Ah, está bem, pensou Keelie. Tentando ajudá-la a ser condenada ao

ostracismo, isso, sim. Ela usaria as mesmas roupas normais para sempre,

se fosse o caso. Mas começou a sentir uma comichão por causa da lama

seca grudada em sua pele. Daria tudo para tomar um banho quente.

— Querido, todo mundo vai rir da cara dessa menina se você obrigá-la

a usar esses farrapos. Ela precisa de roupas decentes. — A loura olhou

para Keelie e balançou a cabeça. "Homens", parecia dizer.

Keelie sorriu para ela, grata pela ajuda, embora o conceito da mulher

de traje decente certamente devesse ser ilegal em algum lugar. Engraçado

aquele pesadelo da moda em pessoa defendê-la. O olhar da garota foi do

homem do show de lama ao pai e, em seguida, à motoqueira gostosona.

Keelie nunca se enturmaria com aquela gente. E não tinha a menor

intenção de viver usando fantasias num mundo de faz de conta.

A motoqueira medieval começou a se afastar para examinar outros

móveis. Zeke deu a impressão de ter ficado aliviado. Tarl ficou olhando

para a mulher.

— Olha, eu estou acampado lá no Condado — informou ele para ela.

— Minha barraca é a viking, que tem um dragão de madeira na frente. Por

que não passa lá para tomar uma cervejinha depois?

A motoqueira olhou-o de alto a baixo.

— Claro. Vou sim. Depois que anoitecer, está bom?

Keelie sentiu náuseas. A ideiadaquelas duas relíquias ancestrais juntas

era repugnante.

Zeke não pareceu notar nada estranho.

— Obrigado pelas roupas, Tarl — disse ele. — Agradeço sua ajuda. —

Em seguida, trocou um olhar cúmplice com o tapado sujo de lama.

O que significaria? Talvez uma alusão ao fardo que a filha

representava? Algum tipo de "só nós, os homens"? Ou quem sabe se

referisse à motoqueira renascentista? Caramba!

Keelie observou as clientes que perambulavam pela loja e que, de vez

em quando, lançavam olhares sequiosos ao seu pai. É, ela com certeza

cortaria as asas dele.

Tarl, do show de lama, sorriu para Keelie, que não retribuiu o sorriso.

Ela se virou e fingiu olhar para as mãos. Então notou a sujeira acumulada

sob suas unhas pintadas à francesinha. Eca!

— Até mais tarde, Zeke. Tchau, Keelie.

A garota fingiu não tê-lo ouvido. Sabia que estava sendo uma pen-

telha, mas não dava a mínima. Que o velho Zeke descobrisse no que tinha

se metido. Talvez a mandasse de volta, como um cachorrinho ganhado de

presente no Natal, que acabara crescendo demais depois. Ela se imaginou

chegando ao Aeroporto Internacional de Los Angeles com um bilhete

preso na blusa: SINTO MUITO. EU NÃO SABIA QUE AS MENINAS

PODIAM SER TÃO DESAGRADÁVEIS.

Keelie passou as mãos numa cadeira de madeira. Sentiu o móvel

vibrar de energia assim que o tocou. Tirou a mão de supetão e ficou

olhando fixamente para o artefato. Sua reação alérgica piorara ali. A mãe

dissera que sua alergia vinha do lado do pai, da família de Zeke. No

entanto, aquele não era o momento de perguntar. A garota notou que já o

aborrecera.

— Vou lhe mostrar onde vai morar — disse o pai, com aparência

cansada. Não, certamente não era o momento de perguntar. —Venha,

pode se trocar lá em cima — acrescentou ele, entregando-lhe a sacola de

papel com as roupas horrorosas enfiadas dentro.

Com relutância, Keelie pegou-a. Nao que pretendesse mudar, seja de

roupa, seja se tornando filha dele. Seria sempre apenas a filha querida da

mãe. Eternamente Keelie Hamilton. Por enquanto estava atrelada ao

Heartwood, mas, para ela, aquele não passava de um sobrenome. Era a

filha de Katherine Hamilton.

— O que é o Condado?

— Um lugar aonde você não deve ir. — Zeke cumprimentou uma

mulher que passava. — É o acampamento dos trabalhadores do festival

que não têm uma área para dormir nas próprias lojas.

— Por que não posso ir até lá?

— Porque eu disse que não.

Keelie riu. Ele parou e fitou-a.

— O que foi? Acha que pode me dizer o que posso e não posso fazer?

Até parece, velho!

— Sei que aqui não é igual a Los Angeles. Acontece que você não faz a

menor ideiade quanto é diferente. Até isso acontecer, é melhor ficar perto

de casa.

— Minha casa fica em Hemlock Drive, 125, Los Angeles, Califórnia.

Eu adoraria permanecer ali, Zeke.

Os ombros dele se encolheram, mas ele se virou e continuou a andar.

À medida que ela seguia o pai em meio ao labirinto de móveis, foi

marcando mentalmente itens de sua lista de objetivos na vida: terminar o

ensino médio, ir para a universidade, estudar direito. Ia se tornar advogada,

como a mãe sempre quis. Talvez até passasse a ser sócia de alguém numa

firma um dia. Katherine Hamilton também sonhara com isso, e a filha

daria uma festa quando isso acontecesse.

— A sra. Talbot falou alguma coisa sobre a minha bagagem? —

perguntou ela. — A companhia aérea incompetente perdeu tudo.

Os pertences mais valiosos de Keelie estavam dentro daquelas malas.

Os objetos tangíveis que a conectavam à mãe: o macacão lilás que usara

no primeiro dia do jardim de infância, o coelhinho de pelúcia desbotado e

os álbuns com as fotografias da mãe. Nem podia olhar para eles agora, mas

queria-os de volta.

O pai deu de ombros.

— A sra. Talbot me deu sua pasta. Na verdade, não tivemos tempo de

conversar. Mas ela disse que tudo de que eu precisava estava ali: carteira

de vacinação, certidão de nascimento, histórico escolar.

Lágrimas repentinas surgiram nos olhos de Keelie. Ela os arregalou

algumas vezes para afugentá-las e não ter de enxugá-las. Tudo que o pai

rrecisava saber a respeito dela estava num arquivo? Ele não tinha a menor

noção de nada sobre a filha. Perdera quase toda a vida dela. .Àgora, a

advogada da mãe reduzira sua existência a três papéis. Keelie virou a

cabeça. Não choraria. Nunca deixaria o pai vê-la chorar.

Um trovão ressoou, e a chuva começou a pingar no solo enlameado. A

multidão dava continuidade à ovação na justa, empolgada ou tola demais

para fugir da tempestade. Keelie se perguntou se seu cavaleiro louro

ganhara.

Raios percorreram as nuvens escuras, e a luminosidade cegou a garota

por um instante. Keelie teve a sensação de que pegava fogo. Achou que

sua cabeça partiria.

— Socorro — gritou. — No prado... fogo.

Vagamente, ela viu o pai, boquiaberto, fitando-a.

— Hein? Fogo onde?

Keelie agarrou a cabeça, tentando conter a dor.

— Tem uma árvore pegando fogo. No prado. Está pedindo socorro.

Zeke saiu correndo, deixando-a ali, sozinha e sem analgésico.

O que estava acontecendo? Será que ela começara a receber correio

de voz de árvores agora? Onde ficava aquela desgraça de prado?

Keelie continuou sentada na lajota, sem confiar nas cadeiras de

madeira perto de si, pensou que poderiam enviar alguma mensagem por

seu traseiro. Como não sabia aonde ir, esperaria que o pai voltasse. Já vira

em que posição estava na lista de prioridades dele: em último lugar.

Assim que pudesse, ligaria para Laurie e daria início ao seu plano.

Tinha que voltar para a Califórnia.