A Filosofia do Diabo por Roberto Axe - Versão HTML

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Roberto Axe

A

F I L O S O F I A

DO

D I A B O

1

ÍNDICE

Pág 03.....................................................................................................PREFÁCIO

Pág 07 ............................................................................................... A APARIÇÃO

Pág 19.................................. ATRAINDO O OCEANO PARA UM PINGO D’ÁGUA Pág 27......................................................... SOBRE SÓBRIOS E EMBRIAGADOS

Pág 41................................................................................... .UM TIRO NA CHUVA Pág 48................................................................ EXPLICANDO O INEXPLICÁVEL

Pág 53................................................................................POR QUE O DIABO RI?

Pág 84................................................. ARMADILHAS QUE JÁ NÃO FUNCIONAM

Pág 91..................................... OS HOMENS- ESQUELETO E SUAS CARNIÇAS

Pág 98....................... .ROMPENDO COM OS PENSAMENTOS DE ESTIMAÇÃO

Pág 107.............. .PARA AS LUZES ELÉTRICAS O FOGO DA VELA É LOUCO!

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PREFÁCIO

Napoleão dizia : raspe um russo e por baixo aparecerá o cossaco! Esta frase sempre me inspirou alguns pensamentos. Qual o sujeito que apareceria se raspássemos um civilizado? Acho que quem mais aproximou o rosto deste quadro foi Freud. Fica difícil, ao analisarmos nosso dia a dia, não entregar o cetro ao pai da psicanálise.

Mas então somos obrigados a admitir que subjaz abaixo dessa tenra roupagem,

uma força invisível, para a qual se fazem necessárias todas as formas de jogos e interpretações com o fito de decifra-la e distraí-la. Por que? É tão forte assim? É tão terrível assim? Então por que não incorporamos esta força definitivamente como nossa? Como um poder atávico do animal que levamos conosco por onde quer

que andemos, embora ferido por lanças invisíveis, mas poderosas. Se olharmos mais atentamente para as mãos dos portadores destas lanças, veremos que elas estão vazias, as lanças não existem, apenas nos fizeram crer em suas pontas

envenenadas. Por que tanto medo do animal? Por que anatematiza-lo? Por que ser ele a fonte de todo o ‘Mal’? Não é preciso ir longe para encontrarmos a resposta, é simples: os instintos são o inimigo mortal desta grande acomodação

organizacional chamada sociedade. E não são poucas as distrações e arranjos que os instintos mais poderosos observam com seus olhos extáticos e atentos, como os de uma serpente. Quem não é do ‘ramo’ fica entre o espanto e o riso ante a

pantomima sem a qual esse grande negócio não iria para frente, esse grande

negócio que tem por essência a manutenção do ‘ser humano’ fora do ‘ser’. Afinal o que é ‘ser’? Ora, uma discussão ontológica reservada aos filósofos da teoria! Tudo muito bonito, muito erudito! Mas, enquanto isso a serpente de olhos extáticos e atentos continua lá... alheia, perigosa, segregada, observadora silenciosa... sempre varrida para baixo do imenso tapete platônico/teológico. Que este extenso e

invisível tapete abrigue os que se subtraem ao seu ‘inodoro’ calor, vá lá, é a grande multidão dos friorentos! Porém, existem os animais selvagens que amam a neve!

Eles se desvelam e saem lentamente debaixo deste abrigo aconchegante e vão à 3

caça, animais de rapina que são... animais curiosos, animais de andar lento e olhos de fogo! Ferinos de calmos e belos gestos. É preciso então que não saiam! É

preciso encontrar sempre uma ameaça, sim, mais uma ameaça... Pois quem não

tem medo do frio é porque é feito de fogo! Então se cria o inferno, lugar de fogo é no inferno! Mas é cada vez mais difícil dormir embaixo do imenso e tépido tapete, pois à noite os risos demoníacos lá de fora anunciam uma alegria que não é

tolerada, não pode ser tolerada, este riso desafiador dos ferinos de fogo... e seus insuportáveis hálitos de liberdade! Este livro é dedicado a todos aqueles que andam na neve, quem sabe até derretendo-a com seus passos incandescentes e

descobrindo a relva mansa que subjaz tranqüila sob seus pés descalços. Daí então possivelmente estes correrão, saltarão, darão cambotas, pularão, dançarão, darão muitas risadas e quando finalmente estiverem vencidos pelo cansaço de tanta

alegria, abrirão suas imensas asas e voarão para onde o infinito melhor lhes aprouver. Enquanto isso, muitas doutrinas serão ‘ensinadas’ lá embaixo do Grande Tapete; agora não só o fogo deverá ser evitado como pestilência, agora, também deverão ser evitadas... as asas. Talvez então o coro exclame em uma só voz:

‘Maldito seja, todo aquele que é feito de fogo! Maldito seja, todo aquele que voa!’, mas todos nós já estaremos longe demais para escutarmos as vozes uníssonas

desse patético coro, nada do que nos pertence e nos faz mais fortes pode ser varrido para baixo desse tapete incolor e mortiço, até porque, teríamos então que quebrar nossas imensas asas de morcego para caber embaixo de qualquer coisa.

Roberto Axe

Porto Alegre, 02 de julho de 2009.

4

Este livro é dedicado a todo(a) caminhante que tem a coragem de inventar e

dançar os próprios passos.

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‘Cuidado ao expulsares teus demônios, podes estar

expulsando o melhor de ti.’

Nietzsche

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A FILOSOFIA DO DIABO

Cap 01 A APARIÇÃO

- Esta é a pior parte. – esta frase, pronunciada pelo pensativo inspetor Santos, quebrou o silêncio que normalmente acompanhava aqueles profissionais do crime.

Parados e pensativos diante do corpo inerme que jazia no chão, em um pequeno apartamento perdido no meio da noite fria. Empoeirado e lúgubre, localizava-se no centro baixo da cidade e a iluminação amarelada emprestava um ar mais sinistro àquela cena de morte. Quatro vultos analisavam, quietos, aquela cena. No chão, o corpo de um homem estatelado bem no meio da pequena sala tinha como

adequada mortalha um sobre-tudo negro e pesado. Jazia deitado com o peito em uma imensa poça de sangue; um sangue denso e enegrecido pela iluminação

precária. A saleta era de uma pobreza constrangedora; em um canto uma cadeira velha arcava com o peso de algumas revistas, e ao lado, encostada na parede, uma pequena e velha mesa suportava o peso de um traste que outrora fora uma

televisão. A iluminação pífia tinha como fonte uma lâmpada que balançava

lentamente no centro da pequena sala, com o bocal amarrado do jeito que dava, como um pingo de luz que teimava em não cair do teto. Pela janela semi-aberta um ar sereno e frio embalava a solitária lâmpada de tal jeito, que projetava as 7

sombras daquelas pessoas ali de pé ao redor do defunto, numa dança lenta e

macabra, tendo como palco as imundas paredes daquela...

- Pocilga! Isto mais parece uma pocilga! – exclamou o inspetor Santos – o cheiro da decadência chega a infectar minhas narinas. Acho que se alguém vive em um lugar como este não tem realmente motivos que lhe prendam a esta vida, talvez a morte lhe caia como uma libertação.

- Acho que o morto concorda com o senhor. – Edson, investigador, braço direito de Santos disse isso se levantando calmamente depois de apanhar no chão, com uma pinça, um pequeno bilhete ao qual acabara de ler e entregava-o ao inspetor.

Santos pegou o bilhete sem tirar os olhos de Edson enquanto tateava o bolso do paletó à procura de seus óculos – Bosta! Nunca sei onde ponho esta merda de

óculos! Achei! Vejamos...hummm – leu então em voz alta o conteúdo do

papelzinho: - Não deixo nada, não tenho amigos, família, não tenho sonhos, não tenho nenhum motivo para que ficar aqui! Minha vida é uma verdadeira merda! Pra quem achar que estou mentindo, que olhe em volta, isto é tudo que eu tenho! Ah, e tenho também 60 anos! Não é mole! Larguei! A quem interessar possa, vão todos para a puta que os pariu! Ninguém vale nada! Ass Nestor. – Coitado, morreu pobre e revoltado. – esta observação veio de outra pessoa presente, investigadora Nina. –

Pudera! - ponderou Santos – isto aqui é o próprio olho da miséria.

- E no quarto, além de algumas baratas mortas, – disse Edson saindo do outro aposento – tem uma cama de solteiro e um armário sem portas com umas poucas

e rotas vestimentas, o homem era um miserável, coitado.

- Bem, vejamos, mande entrar o senhorio desta porra toda! – ordenou Santos.

Ato contínuo entrou um sujeito que parecia ter saído das entranhas daquele lugar, e levava a sua triste história decadente no semblante. Vestia todo de negro e as olheiras profundas davam um ar mais fantasmagórico ao seu rosto muito pálido e sulcado; era um senhor de alguma idade e parecia nervoso.

- Está bem nervoso não é senhor? – inquiriu Santos.

- Pudera – respondeu o senhorio – isso nunca aconteceu em meu prédio! Do

que este homem morreu? De tiro? Foi morto? Matou-se? – indagou o homem sem

tirar os olhos do morto.

- É o que queremos saber – prosseguiu Santos – seu nome era Nestor?

- Bem, pelo menos este é o nome que ele me deu quando fez a papelada aqui, e também da identidade.

- Eis a arma! A numeração está raspada. – interrompeu Nina apontando para um 38 cano longo cromado, quase embaixo do corpo. O quinto personagem naquela

sala, quieto e observando tudo era Tito, um novato que estava acompanhando

seus colegas policiais pela primeira vez em uma cena de crime. Tito a tudo se mantinha atento, a tudo observava, extasiado com aquela experiência profissional fascinante, seu primeiro crime... uau! Seu primeiro crime! Ele, tão jovem e tão 8

policial, tava no sangue afinal. Tito divagava nestas coisas quando a voz baixa de Edson lhe trouxe de volta à cena do crime.

- Hoje você vai conhecer nossa arma secreta! Sei que já mandaram chamá-lo,

chego a me arrepiar! Aguarde.

- Arma secreta? De que você está falando?

- Calma, aguarde.

- Há quanto tempo – prosseguia Santos - este Nestor é seu inquilino, senhor...

senhor...

- Irineu, meu nome é Irineu.

- Pois bem, Sr Irineu, há quanto tempo?

- Uns três meses.

- E qual era o comportamento do Nestor?

- Esquisitão.

- Melhore isso, como assim, esquisitão?

Neste momento algum alvoroço veio do corredor, o que fez com que os presentes ficassem calados; Irineu ia dizer alguma coisa, mas foi interrompido por um

schhhht! - É ele, é ele... – cochichou Edson para Tito; este entendia cada vez menos o que se passava. Do lado de fora do apartamento, que estava com a porta

escancarada, crescia uma voz alta e risonha que derrapava em algumas

gargalhadas; pastosa, parecia a voz de um bêbado que vinha da farra. – Ele está chegando! – disse Edson a Tito que divisou então na soleira da porta uma silhueta, ou melhor, duas silhuetas, um homem grande parecia carregar outro, menor e de casacão escuro e um chapéu preto estilo Homburg inclinado desleixadamente sobre a testa e... bêbado! Sim, o homem menor estava totalmente embriagado.

Falava sem nexo, dava algumas gargalhadas e dizia algumas coisas meio estranhas como: - Estou sentindo o cheiro do defunto! hummmm e de cabaço! – foi então

que o estranho homem parou debaixo da luz mortiça e o novato percebeu, não

sem tremer levemente, uma figura misteriosa; parecia uma daquelas intrigantes divindades saídas do panteão do umbanda. Era um homem negro, baixo, quase

gordinho, tinha uma idade indefinida e que enquanto ajeitava o chapéu desleixado sobre sua careca reluzente, esparramou malevolente um olhar que jamais lhe sairia da memória. Tito recebeu o olhar do homem; um olhar agudo, injetado, sanguíneo e cortante que saltava dos olhos esbugalhados do estranho. Este olhar inquietante era entrecortado sistematicamente por pálpebras preguiçosas que teimavam em

baixar indolentes, mas reabriam num sacrifício contínuo e penoso. O odor do

álcool logo se espalhou pelo pequeno recinto. Um homem imenso e de rosto

insosso mantinha o recém chegado, mesmo que às duras penas, de pé. O peso

daquele olhar foi amenizado por um sorriso que lentamente desabrochou no rosto negro e redondo acompanhado pelos olhos indolentes. Tito sentiu um alívio e

esboçou também um sorriso, meio que de alívio, meio que de uma verdadeira e

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estranha alegria; por não ter sido devorado talvez? Reparou nos dentes

amarelados, mas sem falhas apresentados pela alegria ruidosa de uma boca

grande e de imensos beiços. O negrão arfava – Vai ter um treco – pensou Tito, reparando no suor que fazia as têmporas reluzirem naquela luz amarelada. O

estranho apontou lentamente para Tito, deu uma gargalhada e depois disparou

com sua voz embriagada e lenta: - Bom, o cabaço eu já encontrei, quem é esse, um novato?

- Este é Tito, - respondeu Santos – está sentindo o cheiro de sangue pela

primeira vez, e seja muito bem vindo Epaminondas!

- Seja bem vindo Epaminondas! – repetiu o negrão, ensaiando alguns passos,

mas sempre carregado pelo seu anjo da guarda – Seja bem vindo Epaminondas!

Vocês acham que é mole! Saí de uma roda de samba cheia de boceta, trago, e

outras ilicitudes, he, he, pra vir aqui lamber sangue de morto! Vocês acham que eu sou o que? Um mísero vampiro, ou já serei um personagem mitológico desta

cidade? Uma gárgula sanguinária que adquire vida tão logo é evocada pelos

necessitados! Mas então minhas asas são de pedra, preciso de muito tempo para me mover, e sair para a luz me é penoso demais! Isto é sabido.

- Pare com esses discursos Epaminondas, - comentou o impaciente Santos – e

fique à vontade para dar uma boa olhada por aí.

- Bem, - prosseguiu o recém chegado – o cabaço eu já encontrei, só falta o cadáver – e ato contínuo, apontou para Irineu – Eis o defunto! Viram, não perdi o faro! Ecce Homo! Há,há,há,há,há... – os presentes riram meio constrangidos, com exceção, claro, do senhorio e de Santos que emendou: - Agora chega

Epaminondas! Dá uma força pra nós...

- Chega é o caralho! – interrompeu Epaminondas perdendo a paciência – não ganho pra isso, moreno! Vocês que são sóbrios que se entendam, eu, perturbado na minha embriaguez, minha divina e cristalina embriaguez, tenho que socorrer sóbrios! Era só o que faltava! Levar sermão de sóbrio! Oh, filhos do Bem e do Mal!

– levantou as mãos imitando um discurso grandiloqüente, dando mais trabalho

para seu atento arrimo - Vocês batem suas cabecinhas sóbrias quando acontece o inusitado, não são preparados para isso não é? Oh, filhos do Bem e do Mal!

Miquinhos amestrados da civilização! Tão sóbria e séria esta civilização, mamãe zelosa! Por quê recorrem a este velho embriagado quando lhe faltam as respostas?

Taí o corpo no chão, e vocês querem trabalhar pouco, não é assim? Do contrário não me chamariam em horas tais. Dou a mão, querem o saco! Precisam das

respostas, sempre as respostas, - tirou do bolso do casaco uma pequena garrafa e a ergueu numa libação - a Dionísio! Meu amado Dionísio! Meu sangue negro é teu ditirambo! Meu sangue entorpecido na tua profunda orgia! Brinca, deus

embriagado! Brinca, na escuridão da minha profunda alegria! E que, com Sileno, sábio quando sóbrio, eu ao contrário, aprenda a brincar de esconde-esconde com 10

o Sol! - ato contínuo deu um imenso gole e guardou a garrafa novamente no

bolso, limpou a boca com as costas da mão e emendou – agora vamo lá! o que temos aqui, um possível suicida certo?

- Exato, teria deixado este bilhete – Santos entregou o papelzinho a

Epaminondas. Este apanhou o bilhetinho e após lê-lo rapidamente, desabou em

ruidosa gargalhada. Ria tanto, que seu anjo da guarda tinha alguma dificuldade em segurá-lo, as risadas eram entrecortadas por eventuais acessos de tosse. A risada contagiou a todos, menos Irineu, que arfava, muito intrigado com tudo aquilo. A cena sugeria que o evento transformava-se rapidamente em uma tragicomédia.

- Meu caro senhorio – prosseguiu Epaminondas, limpando com um lenço as

lágrimas que o riso descontrolado provocara em seus imensos olhos esbugalhados

– o senhor obviamente deve ter um livro de registro de seus hóspedes...

inquilinos... ou seja lá o que for, traga para mim rapidamente, por obséquio. - o homem saiu rápido e silencioso. Epaminondas deu uma rápida olhada no quarto

soltando um comentário – Porra, que miserê do caralho! – voltou então para a saleta e rondou o morto com seu passo trôpego e evitando pisar no sangue quase caiu, mas foi amparado prontamente por seu guardião. Neste momento adentrou

na cena mórbida o senhorio Irineu, trazia o livro com os apontamentos e o

entregou ao bêbado. Este o apanhou levando-o para onde a tímida iluminação

tinha uma melhor incidência. Após uma rápida olhada, perguntou para Irineu,

enquanto lhe devolvia o documento: – Este pobre coitado nunca lhe pagou não é?

- Nunca, ele estava desempregado, para dizer a verdade, nem sei o que ele fazia.

- Então o senhor o matou não é? É bem verdade que quase acidentalmente, isso vai amenizar sua pena, mas o melhor é confessar logo, nêgo véio!

- Como ousa! – o velhote colou as costas na parede, como que procurando um

apoio para não desabar ao chão.

- Como ousa? Diz ele! Como ousa? Pois então, o que se passou aqui eu vou

contar agora, - tirou o chapéu e começou a batucar na copa como se fosse um

pandeiro – se liga moçada neste sambinha que vou improvisar – ato contínuo,

começou a cantarolar, batucando no chapéu:

- Era uma vez um senhorio, que tinha o nome de Irineu.

Hospedou um tal Nestor, que mancada ele deu!

Era pobre o tal Nestor, não tinha nada nem ninguém.

Ficou ruim pro senhorio, dele arrancar algum vintém!

Foi então que um belo dia, num acesso passional,

Decidiu o senhorio, nisto botar ponto final.

Procurou ao tal Nestor, pra pôr fim a esta contenda,

Mas foi munido de sua arma, cano longo, cromada,

Que o Nestor é um cara grande ‘e eu não tô pra palhaçada!’

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Discussão começou, e desandou pra pancada;

Irineu apavorado usou então sua cromada;

Merda feita, Nestor no chão!

Bolou então o matador, seu plano malsão.

Escreveu um bilhetinho, sua arma na mão do morto, tudo certinho.

Não percebia, Irineu, que com este plano cretino,

Escrevia em sua testa, a palavra ‘assassino’.

Um bilhetinho, Irineu? Um bilhetinho?

De onde tirou idéia tal! Quanta asneira escrita em papelzinho!

Ora, não se deu conta o assassino, que na penúria o inquilino,

Se fosse o conteúdo escrito, ao pé da letra levar,

Justamente um bilhete, é a ultima coisa que ia deixar.

E foi mais desatento o tolinho, no que tange ao bilhetinho.

Ora, se o coitado, morrendo de fome estava, e fome é coisa brava!

Capaz de distorcer, os sentimentos mais nobres;

É de estranhar que a cromada, mesmo raspada, não seja passada nos cobres!

Olhem em volta, amigos, que no meio desta miséria,

A arma é o único bem do morto, que não se presta à pilhéria!

Mas não parou por aí, a peraltice do Irineu;

Pasmem agora, com esta mancada que ele deu!

Ao botar a arma, na mão direita do morto,

Realizou na Razão, um admirável aborto.

Embora tenha acertado, pois o defunto usava a destra,

Para tanto basta olhar o seu quarto, a mesinha de cabeceira,

Ao lado direito da cama, nisto não cometendo asneira.

Porém, não percebeu o maroto!

Que a porra do bilhetinho, fora escrito por canhoto.

Embora o tenha escrito, em desgraçada caligrafia,

Não foi o suficiente, para não entrar numa fria.

Quando o negão aqui, pediu seu livro de anotação,

Foi só pra tirar a cisma e lhe apontar o dedão;

O Irineu é canhoto! Minha gente, é um canhotão!

Eis o assassino, deste coitado no chão!

A esta altura, realmente os presentes não continham as gargalhadas, com exceção óbvia de Irineu. Que num acesso de raiva disparou para Epaminondas: - Bêbado desgraçado! Quem ou o que é você? Como pode saber tudo isso? Você arruinou

minha vida! - Epaminondas ficou sério. Desprendeu-se calmamente de seu poste, caminhou com seus passos arrastados e encarou o senhorio quase encostando a

ponta de seu nariz na ponta do nariz do homem, que encarava o negrão com

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visível pavor nos olhos. – Seu sóbrio filho da puta, – disse Epaminondas, com sua voz bêbada e calma – olhe para você, sua vida está arruinada desde que nasceu.

Seu zumbi desgraçado, morto-vivo de uma figa... ou você pensa que o fato de

respirar, comer e cagar, lhe dá o direito de se sentir vivo? Não fosse você um sujeito que me inspirasse pena eu me alongaria no assunto. Como pode um ente que se pretende homem, não arcar com as próprias atitudes? Como pode não

matar no peito seus atos? Que tipo de homem pode escolher se esconder na

mentira a encarar a vida de frente, de peito aberto, senhor dos seus atos, mesmo quando estes dão em merda? encarar sem medo? Foi para seres humanos como

você que foram inventadas as regras e a moral, afinal, não passam de crianças idiotas que brincam com dinheiro e gravatas; afinal que digo eu? – Epaminondas encaminhou-se para a porta, sendo carinhosamente seguro por seu fiel amigo –

Estou entre sóbrios, e o apanágio do sóbrio é o medo. Seguir as regras é o crème de la crème de toda uma vida sóbria. Sem coragem, sem riso, sem dança, sem demônios ruidosos e risonhos. Acocorados atrás das regras, atiram pedrinhas nos que têm coragem de andar. Você nunca mudará, Irineu, vai sempre preferir a

mentira à responsabilidade de ser homem, ou seja, nada mais nada menos do que ser você mesmo, com coragem de ser autêntico; mas você não tem nada por

dentro não é? Não tem demônios, não tem conflitos, não tem nada que possa dar um pingo de dignidade a essa existência de mera casquinha, para que? Se vocês sóbrios imaginam fora de vocês o que os tornariam pessoas interessantes, para fazer o que mais gostam; jogar pedras ou ajoelhar-se diante desses totens, seus totens do Bem e do Mal! Bem, já não tenho mais nada a fazer aqui. – e partiu calmamente, sumindo na escuridão dos corredores do antigo prédio, não sem

antes os presentes escutarem uma gargalhada, e ainda sua voz: – Às bocetas,

amigão, às bocetas, há,há,há,há - que desapareceram rapidamente.

- O que é tudo isso? – comentou um patético Irineu – como ele poderia saber os detalhes? Quem é esse cara?

- Esse cara – disse Santos enquanto Edson botava as algemas no velhote – é o pesadelo de quem não se comporta direitinho Sr. Irineu – vamos...

- Hmmm... Quem não se comporta direitinho? – disse o velhote lá com seus

botões - acho que não... Acho que não...

***

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Encaminhado o assassino à delegacia, todos saíram à rua e enquanto caminhavam Santos comentou: - O cara está cada vez melhor, aí está um mistério que jamais entenderei; Epaminondas... Epaminondas... Às vezes penso que este homem é um enviado dos infernos, zomba da gente, da nossa incapacidade, se sente superior, no entanto não passa de um bêbado inveterado. Caramba!

- Zomba da nossa preguiça, se me permite, senhor – começou Edson –

poderíamos desvendar, ou não, este caso. Quanto tempo de trabalho penoso

teríamos de encarar? Virar a vida do defunto de cabeça pra baixo e sacudir até cair as migalhas com que pudéssemos trabalhar! Ademais, quem liga para esse morto?

É só mais um, não é verdade? Teríamos saco pra levar isto adiante? Pra que

iniciarmos algo que nos sacrifica, se o negão resolve na hora? Ele vem, olha e pimba! Está feito. É bem verdade que sempre nos faz escutar aquela merda toda, acho que o cara é místico, sei lá... sempre tem aquele sermão! Aquele negócio de sóbrios e embriagados.

Vocês sóbrios que se entendam! – falou Edson imitando o jeito ébrio de Epaminondas.

- Místico é o caralho! – refutou com veemência Santos – esse cara é um grande filho da puta! Aposto que agora está rindo da nossa cara lá com as putas dele! Eu realmente de minha parte não chamaria essa entidade infernal! Confesso pra vocês que às vezes ele me dá medo; de onde ele tira essas respostas tão rápidas? Alguém duvida que tem parte com o diabo? Decididamente não é dos nossos, não fosse o delegado Fidelis nos empurrar goela abaixo essa figura dantesca, há muito que não precisaríamos encarar aquele olhar assustador presente nas cenas dos crimes; aí sim sou obrigado a concordar com Edson, o Fidelis não quer é trabalho.

Nina então botou sua mão no ombro de Tito e deixou um belo sorriso se achegar manso no seu rosto sereno, deu uma carinhosa chacoalhada no novato – E então, neófito? Nos diga o que achou do seu primeiro dia? De uma coisa eu gostei,

confesso, o broto não teve náusea, isso é um bom começo. – Tito riu e respondeu:

- Náusea realmente não tive, mas, mais do que a cena do crime, de fato fiquei muito impressionado com esse tal Epaminondas...

- Não disse! – interrompeu Santos – o senhor Epaminondas roubou a cena mais

uma vez! Com sua bruxaria, com seu hálito de cachaça, e aquele muro de arrimo que carrega consigo. – virou-se subitamente para Tito abrindo os braços

energicamente – Vamos pergunte! Pergunte logo, mate esse verme da curiosidade 14

que corrói esse coraçãozinho novato! De onde surgiu esse ente, Epaminondas! Ora, poderia te responder que ele não existe. Sim, não existe, é só uma alma penada que sai do Cemitério das Camélias para ajudar policiais quando estes se deparam com casos escabrosos. – Santos de repente parou a pantomima, e sério, encarou Tito, os outros dois embarcaram com notória curiosidade naquele repentino

silêncio. – Bem, na verdade... na verdade não é bem assim. – prosseguiu

caminhando calmamente, no que foi seguido pelos demais; Tito tinha os olhos

cravados no semblante de Santos e este reparou no vivo interesse do rapaz, deu então um leve sorriso e prosseguiu.

- Epaminondas era um policial da velha guarda, aliás, era excelente policial, daqueles de meter a cara no fogo, não tinha medo de nada. Não precisou muito tempo para despertar o espanto e a admiração dos seus superiores, era destemido e muito inteligente; suas diligências invariavelmente apontavam para o culpado, ou os culpados; sempre trabalhou no crime. Subia morro e encarava de igual para igual todo mundo, se pesca bandido com isca de chumbo! Dizia. Pulava em telhado, disparava forte, não deixava colega na mão. Todos queriam ir para a linha de frente com ele, aliás, se espelhavam nele. Certa vez tomou dois tiros durante uma batida no morro, caiu e todos pensaram que era o fim de Epaminondas; achegaram-se

então ao ferido. Iam pedir ajuda pelo rádio quando para espanto de todos, o

negão levantou de um pulo empunhando sua ponto 45 e saiu gritando e correndo como um ensandecido na direção dos tiros inimigos. Pulou para dentro de uma

casa através da janela, que estava fechada e, diga-se de passagem, espatifou-a com o impacto de seu corpo ágil e uma vez lá dentro fuzilou a todos, sem

clemência! Bem, este feito lhe rendeu uma honra ao mérito é claro, porém,

também rendeu uma imensa desconfiança por parte de seus superiores; quem,

diabos, era aquele homem? Bom, Epaminondas logo se recuperou de seus

ferimentos com rapidez espantosa. Ficou mais alucinado ainda, pediu a seus

superiores para agir somente à noite, no que foi atendido. Começou a trabalhar mimetizado sob as sombras noturnas, se tornou invisível... e implacável! Os colegas apenas davam cobertura à distância, mas em vão, pois o demônio sumia na

escuridão; a partir daí, quem presenciou suas ações conta que o negócio era de arrepiar! Não demorava muito e os gritos dos vagabundos apanhados por ele se faziam ouvir em toda a vila ou morro onde a ação se passava. Eram gritos

alucinados de verdadeiro e vivo pavor! Ninguém saiu vivo de suas investidas. Era silencioso, invisível e... mortal! Bem, disso resultou que a criminalidade começou a cair na cidade; os marginais, por incrível que pareça, começaram a temer o tal ‘

homem da sombra’. A repercussão à época foi tanta, que até as mães humildes

desses locais ameaçavam seus filhos, no caso de mau comportamento, com a

proverbial frase ‘veja bem o que você vai fazer ou o Homem da Sombra te pega!’.

– Tito interrompeu o relato com viva empolgação - Êpa! Minha mãe cansou de me 15

ameaçar com o tal Homem da Sombra! Este então realmente existiu? Há,há,há,há...

não acredito que acabei de conhecer um mito de coação infantil! Cresci sendo ameaçado com ele e o tal ‘velho do saco’! Puta merda! Quem diria!

- É isso aí, garoto. – prosseguiu Santos - Conheceu o home! É difícil saber o que é verdade e o que é lenda na história deste demônio; as coisas hoje se confundem, mas tudo que relatei até então é a mais pura verdade. Mas, mais verdadeiro ainda é o final desta história. Os superiores começaram a desconfiar de que uma pessoa normal não poderia agir daquela maneira; veja bem, não que os resultados os desagradassem, ao contrário, a criminalidade caiu tanto que até a mídia deu uma força e começou a divulgar, irmanada com a polícia, tratar-se os eventos de um esquadrão de justiceiros. Assim, nosso herói poderia agir à vontade. Porém,

resolveram examinar Epaminondas mais de perto e descobriram que ele agia sob efeito de drogas pesadíssimas, que eu não saberia descrever agora, tratava-se de verdadeiros coquetéis de entorpecentes, os quais, dizia-se, um ser humano normal não agüentaria um décimo! Harmonizava tudo isto com generosas doses de

cachaça; realmente não fosse ele um sujeito fora do normal e há muito teria

sucumbido. Foi então que os superiores perceberam de que não valia a pena correr o risco de abalar a reputação da corporação caso algo saísse errado. Até porque Epaminondas estava cada vez indo mais longe com suas diabruras, e tudo indicava que não terminaria bem. Epaminondas há algum tempo já começara a discutir com seus superiores, a zombar mesmo da cara das autoridades, chegou até a

questionar se estava do lado certo desta briga. Submeteram então o endiabrado a um tratamento para livra-lo das drogas e do álcool, mas foi tudo em vão; em

pouco tempo todos os que tratavam Epaminondas ou já não o suportavam mais

ou estavam viciados, isso mesmo, viciados. Foi nesse tempo, na clínica, que

começou a pedir para ficar afastado da luz, passou a não suportar claridade, tiveram que improvisar um quarto totalmente escuro para ele. Passou por outras clínicas, e transformou-se numa rotina ter de acomoda-lo em quartos escuros.

Passou a ter comportamento estranho, pois quando privado da bebida e das

drogas, escutava música clássica e jazz, e passava horas e mais horas de pé com um roupão negro com capuz, dizia coisas incompreensíveis. Acendia velas pelo quarto escuro, e todos, sabedores do que ele era capaz, não o contrariavam,

faziam-lhe as vontades. Epaminondas sempre foi espantosamente persuasivo,

porém, nessa época falava muito pouco. Bom, segue-se daí que obviamente o

aposentaram. Epaminondas então sumiu. Ninguém sabia dele. Foi então que um

crime aconteceu em um bairro bacana da cidade, aquele da loira com o vibrador, recordam? Pois é, para espanto de todos, o homem apareceu na cena do crime e os antigos companheiros o saudaram com alegria e emoção. Ele mal se agüentava de pé de tão bêbado, e era amparado por dois homens, possivelmente seus

amigos. Por delicadeza e até por reconhecido respeito, deixaram Epaminondas dar 16

seus pitacos sobre a cena do crime. Ele então descreveu o que ocorrera ali com uma precisão cirúrgica; bom, é óbvio que todos fingiram, por gentileza ou quem sabe até por um pouco de medo, que levavam a sério o que o bêbado dizia.

Epaminondas assim como apareceu, foi embora. Dias depois o crime foi elucidado, e para espanto geral, era ipsis verbis o que o negão descrevera. A partir daquele episódio, e já faz tempo, quando o caldo engrossa, quando se calcula ser um crime encardido: chama o Epaminondas! Ah, sim, ele deixou um número de telefone para contato quando da primeira vez, alegando que o chamassem para que ele pudesse praticar um pouco de esporte. Bem, senso de humor ele tem. Meu jovem, acredito ter lhe dado o cartão de visita de nosso amigo misterioso, e se me perguntar por onde esse cara andou ou anda, não saberia lhe responder, ele é uma aparição, e todos querem que continue assim.

Tito a tudo escutara impressionado, quando a voz de Nina interrompeu seu

pensamento que já viajava longe – Vamos comer alguma coisa, Cabaço! Não é tão tarde assim, e esses dois têm família esperando em casa, eu não tenho e pelo que sei você também não.

- Claro, apesar de não ter muita fome, o defunto embrulhou meu estômago.

- Normal, mas isso passa logo, coisa de novato nestas coisas.

- Não vai comer o rapaz já logo de saída Nina, você nem engorda o porco? –

brincou Edson.

Nina fez um conhecido sinal com o dedo médio e pegando na mão de Tito, o

retirou da presença dos outros, que seguiram na direção oposta não sem antes ouvir de Santos alguma recomendação em tom jocoso. Não precisaram andar

muito para acharem um bar de esquina já com poucos clientes. Sentaram, pediram um sanduíche aberto e duas cervejas pequenas. Nina reparou que Tito seguia meio aéreo, e o chamou ao chão novamente.

- Primeiro dia na pauleira é assim mesmo, malandro! E olhe que você foi agraciado! Conheceu já de saída, o grande Epaminondas! – o grande Epaminondas foi dito numa imitação de grandiloqüência.

- Realmente estou impressionado, admito que nunca vi nada assim, o homem chegou e pum! Resolveu tudo! De que manga ele tirou tão rapidamente a solução do caso? Ou realmente – agora com um sorrisinho maroto – ele tem parte com o demo?

- Parte com o demo? – disse Nina interrompendo um gole direto da garrafinha

de cerveja – não sei. A única coisa que sei é que estou há dez anos na polícia e todos se borram de medo desse homem. Mas não tenha receio querido, pelo que

eu sei, ele só sai à noite e não muito. Como já fez sua ‘aparição’ hoje, duvido que nos assombre mais uma vez.

- Mas Nina, me diga... Você nunca ficou curiosa sobre esse homem nestes dez

anos?

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- Meu querido Cabacinho! É praticamente proibido tocar no assunto

‘Epaminondas’ na polícia. É uma espécie de totem em que a gente não toca.

Realmente acho que o pessoal tem medo de que o negão encha o saco e suma

para nunca mais voltar. Seria um prejuízo incalculável se ele sumisse. Você viu, ele chega e mata a charada. Ninguém quer correr o risco de afugentar o cara. Agora, você me pergunta se nunca tive curiosidade, é óbvio que sim. Para dizer a verdade, perdi noites de sono tentando desvendar o segredo deste homem, o ‘Homem da

Sombra’; mas quer saber? Nunca cheguei à conclusão nenhuma, então desisti.

Acho que existem alguns mistérios que se explicam por si, e isso é tudo; paciência.

- Acho que quem não vai dormir a partir de agora sou eu. Fiquei com esta

imensa pulga negra atrás da orelha. – neste momento Tito pousou os olhos com mais calma em sua interlocutora, e reparou que Nina apesar de não ser uma

mulher bonita, tinha um rosto interessante: olhos levemente puxados que sorriam em consonância com sua boca pequena e bem desenhada. Tinha possivelmente

uns trinta e alguma coisa, de corpo mignon e sarado, apesar do excesso de roupa naqueles dias frios. Tinha cabelos castanhos claros invariavelmente presos e pele branca como neve. Agora na claridade daquele bar podia vê-la pela primeira vez, assim, de pertinho, e estava surpreso por não ter reparado antes nos sutis e bem escondidos encantos de Nina. É bem verdade que a achava meio abuzadinha, meio espaçosa para seu gosto. Bom, era o jeito dela, e ele agora estava imbuído em coopta-la para um grande plano que se desenvolvia com grande velocidade em

sua cabeça.

- Estou cansado demais por hoje Nina, me desculpe se já bocejei duas vezes, é que foi dose pra elefante estes acontecimentos desta noite.

- Não seja por isso, Cabacinho, vamos embora porque eu também não agüento

mais esse negócio de Epaminondas.

- Mas aquele sambinha, aquele sambinha foi sensacional. Nunca esquecerei

aquilo. - e os dois riram, pediram a conta e se foram.

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A FILOSOFIA DO DIABO

Cap 02 ATRAINDO O OCEANO PARA UM PINGO D’ÁGUA

Na delegacia, na manhã seguinte, a agitação de sempre; gente entre balcões e mesas protagonizava o tráfego ruidoso do ambiente policial. Nina digitava seu relatório num ultrapassado computador, há muito que o pessoal reivindicava por aparelhos mais avançados, mas sabem como é... repartição, etc. tem de esperar. Ela esbravejava alguma coisa baixinho quando Tito aproximou-se sorrateiro e por trás sussurrou no seu ouvido: - Consegui! - Nina deu um pulo – Droga, seu puto! Vai assustar a sua mãe!

Tito riu despreocupadamente, e prosseguiu balançando um pequeno pedaço de

papel – Ta aqui, neguinha, ta aqui! - ela tentou apanhar o papel, mas ele recolheu rapidamente a mão - Não com tanta pressa amorzinho! Isto aqui é um verdadeiro tesouro!

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- Se é seu número de telefone, não me interessa, seu abestado! – brincou Nina, retomando seus afazeres no velho computador.

- Nada disso, o que tenho aqui, me foi dado pelo comissário Gordon, é o

numero do telefone direto do Batman.

- Então liga pra ele e diz pro morcegão que eu acho ele um saco.

- Se liga mulher! Se liga, consegui o telefone do Epaminondas, há,há,há...

A mulher tirou rapidamente os olhos de sua tarefa e com vivo interesse, levantou-se para contemplar aquela pérola apanhada nos mais recônditos mares. – Como

você conseguiu?

- Isso, fala mais alto. O que temos aqui é o maior segredo da policia! Quer que a delegacia toda descubra? Vamos sair daqui quietinhos. – e os dois retiraram-se do local. Já no corredor ela acendeu um cigarro, e eufórica, pedia para ver o

papelzinho – Olha - disse Tito - é uma pérola conseguida graças a minha cara de pau; arrisquei o couro pra conseguir essa porra!

- E como você conseguiu?

- Bem, hoje cedo, Santos me chamou em sua sala para que eu assinasse alguns

relatórios sobre a ação de ontem. A partir daí começamos a conversar. Ele estava sentado à sua mesa e em dado momento alguém o chamou para uma merda

qualquer, ele pediu que eu esperasse e se retirou. Percebi seu celular em cima da mesa, e então me veio a idéia! Ora, eu sabia que Santos havia ligado para

Epaminondas ontem à noite. A partir daí bolei um plano; sentei

despreocupadamente o bundão em sua mesa, peguei um pedaço de papel e uma

caneta, fingi então que anotava alguma coisa, e realmente anotava, anotava as últimas ligações do Santos, que estavam na memória do celular.

- Putz! Você é louco, malandro? Se o homem te pega...

- Mas não pegou, chhht, deixa-me terminar. O Santos voltou e veio com umas

papeladas, disse então que falaríamos outra hora e me dispensou. Procurei um telefone público e testei os números. O da casa dele eu conheço, esse eu pulei, outros dois atenderam mulheres diferentes, talvez uma seja sua esposa e a outra sua amante sei lá... Noutra deu numa casa de penhores, acho que ele anda mal de grana... Depois, em outra deu no escritório de um tal Dr. Palácios advocacia cível, etc. e finalmente, pimba! Atendeu um sujeito estranho que disse ‘alô’ e ficou mudo, é aí, pensei, então eu disse: - É da parte do inspetor Santos – o homem respondeu o seguinte: - Inspetor Santos? Mas ele sabe muito bem que o home não atende de dia, vão ter de se virar sem ele. - Nesse momento eu desliguei. Não há dúvidas este é o número do negrão! Diga-me, sou ou não sou um bom investigador?

- Acho que isto é o que vamos descobrir a partir da agora; mas saiba, essa

curiosidade é minha também, nem pense... Nem pense em fazer qualquer coisa

sozinho! Desvendaremos este mistério juntos, capisci, Cabacinho?

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- Então vamos começar desvendando outro mistério; que prazer é esse que você tem de me chamar de Cabacinho? Porra, esse troço enche o saco, capisci? Se quiser ser minha companheira neste negócio, das duas uma: ou confere meu

cabacinho na cama, ou pára com essa merda!

- Tá se agigantando, malandro? Mais devagar... ter esse segredinho no bolso não lhe torna policial experiente, e pra encarar essa merda toda tem que ser galo velho! Só quero ver. Quanto a lhe chamar de Cabacinho, certo, negócio fechado. Eu paro. Quando começamos as investigações, Pequeno Hímem! – Nina caiu na risada, e foi acompanhada por um sorriso meio sem graça de Tito; não era hora para

polêmicas, ele tinha uma idéia fixa e aquela mulher era a melhor cúmplice com que podia contar. – Bem, vamos ter de esperar anoitecer para fazer contato.

- comentou Tito.

- E alegar o que? Ou vamos matar alguém para atrai-lo ao local do crime. Diga-se de passagem, que esta seria a maior burrice do mundo, uma vez que ele mataria a charada em dois segundos.

- Vamos dizer a verdade.

- Que?

- A verdade, pura e simples, nada mais.

- E qual é a verdade pura e simples, nada mais?

- Que somos fascinados nele, é nosso herói etc., sei lá, porra!

- Você não conhece este homem. Ele vai rir da nossa cara, esse negócio de herói com ele não cola e de mais a mais, por quais nobres motivos ele nos receberia em sua toca?

- Bem, vou pensar em algo até a noite, agora vamos trabalhar para não

pensarem que estamos de namoro no serviço.

- Oh!

Os dois então entraram e foram às suas respectivas mesas. Mas foi difícil trabalhar naquele dia, a expectativa era grande e nada acontecia, o dia foi lento e sem graça; pequenas e corriqueiras ocorrências, boletins e papeladas. A única graça que os dois acharam para se entreterem naquela modorra burocrática, era a de rápidos olhares cúmplices trocados sorrateiramente. Quando enfim, começou a anoitecer, Tito percebeu que estava ficando nervoso, e isto não era bom. Se quisesse que o plano desse certo, teria de encará-lo com naturalidade. Começou então a pensar de como conseguiria uma audiência com Epaminondas. Onde afinal vivia o negrão?

Que tipo de recepção eles teriam? E se o cara se negasse a recebe-los? Se

reclamasse deste assédio a Santos? Como ele explicaria a aquisição do numero do telefone? Percebeu então que começara a suar frio. Poderia estar botando sua carreira em jogo, valeria a pena arriscar tudo assim? Logo agora que começara a investigar crimes? Se descobrissem poderia tomar um cano, e ficar por meses rebaixado ao envolvimento com a burocracia da delegacia. Mas estava

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irreversivelmente fascinado com aquela misteriosa e profundamente enigmática figura. Achava estranho, mas seus instintos diziam que ele teria muito a ganhar com aquele desconhecido, sentia algo místico, que o impelia a correr riscos para atingir seu fim; mais ainda: achava que se não houvesse riscos, seu

empreendimento seria de bem menor valia. Estava convencido de que

Epaminondas era um daqueles raros sujeitos que realmente tem algo a dizer. O

problema era de como convencê-lo de que eram de confiança; que seus possíveis segredos estariam em total segurança. Às vezes Tito perdia seu olhar na paisagem cinzenta que a janela oferecia e alguns pensamentos lhe provocavam algumas

pontas de desânimo; e se tivesse mitificado aquele sujeito? Se não fosse nada disso, se o cara não passasse de um bêbado comum que acertava palpites em

cenas de crimes? Se, ao encontrá-lo, finalmente percebesse que Epaminondas era um pobre coitado, miserável e rancoroso por ter sido relegado ao ostracismo da polícia, um homem que choramingasse as mágoas de ser um incompreendido e

injustiçado, que dera seu sangue, literalmente, ao seu trabalho e que quando está para chover, os ferimentos dos tiros doem e lhe causam grandes transtornos de saúde? Ele mostraria os remédios de que era obrigado a tomar para depressão, cirrose, etc. enquanto sua velha e paciente companheira diria que ele não bebia tanto antes de sair da policia – Agora está virado nisso aí! – e apontaria para um Epaminondas baboso, atirado em uma velha e furada poltrona, com uma garrafa

de conhaque no colo. A paciente senhora se retiraria para preparar-lhes café, e então o ex-policial começaria, com sua voz pastosa, a desfiar o rosário familiar e de como era mal tratado por todos os seus circundantes, para em seguida, em voz alta para a esposa escutar, contar bravatas de valentia, dos seus bons e velhos tempos. Quem sabe à luz, seu olhar amedrontador não passe de olhos embaçados pelo vício e pela idade; que já não dizem nada, sem força e sabe-se lá, até mesmo suplicante e patético. De repente, Tito despertou deste devaneio. Não, claro que não, ele não seria este ente patético e deprimido. E Tito deixou escapar uma risada; não, um cara assim jamais desvendaria um crime compondo e cantando um samba

de improviso! Não, decididamente este ser doente não seria jamais aquele

repentista fascinante e embriagado que o assombrou na noite passada. E

principalmente, o homem que disse o que disse, olhando nos olhos assombrados do assassino, na noite anterior. Olhando então pela janela, Tito esqueceu a noite passada, porque a noite de hoje já havia chegado.

***

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Tito e Nina saíram juntos da delegacia. Percorreram alguns quarteirões e

resolveram sentar em um bar para tratar da execução do plano.

- Muito bem, maroto. O que você bolou. Qual será nosso cavalo de Tróia

para entrarmos na vida do Sr. Misterioso? – perguntou Nina.

- Para dizer a verdade, não me ocorreu nada. Acho que temos que ligar e

pronto. Sem muito esquema. – disse Tito, enquanto observava o garçom

colocando dois copos na mesa e uma garrafa de cerveja.

- Quem sabe o convidamos para beber? Não é o que ele mais gosta? À

nossas expensas. – brincou Nina.

- Seria como atrair o oceano para um pingo d’água. Se existe uma coisa da

qual, creio eu, Epaminondas não se ressente, é da falta de trago. Não acredito que é por aí o negócio. Temos que pensar em algo que realmente lhe agrade.

– comentou Tito enquanto servia os copos.

- Mais que a cachaça? Você tá brincando! Um brinde, tim tim!

- Tim tim!

Nina então reparou com mais calma no seu teimoso colega. Achou que era, até, um sujeito bonito. Tinha estatura média e forte. A pele queimada pelo sol

realçava um belo sorriso, embora Tito fosse o que Nina considerava homem sério, não muito afeito a brincadeiras fora de hora. O cabelo extremamente negro e um pouco comprido para seu gosto, apresentava nuances do trabalho

inclemente do Sol, enquanto os olhos grandes igualmente pretos, dificilmente pousavam por muito tempo em alguma coisa, ao que Nina atribuía a uma

possível timidez mal disfarçada. Talvez não passasse de um menino.

- Quantos anos você tem? – disparou curiosa.

- Vinte e seis. Porquê? Pareço muito velho? É esta porra desta luz, dá bem em cima de mim! Quanto eu aparento, trinta, trinta e cinco?

- Com a boca fechada. Quando fala, uns... dez. – falou Nina divertindo-se.

- Ah, sim, é que tenho de fazer jus a meu gracioso apelido de Cabacinho.

- Mas não fique brabo comigo, quem lhe presenteou com esta maravilhosa

alcunha foi seu amado ídolo. Aliás, me ocorreu uma idéia! Epaminondas disse

que sente cheiro de defunto e cabaço; logo, ele poderá chegar a nós farejando você! Vamos andar pela cidade e deixar que nos ache, há,há,há...

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- Isso, tira sarro... você não está ajudando em nada para acharmos uma

solução. Me pergunto se não seria melhor trabalhar nisso sozinho. Não é mole agüentar todo esse seu sarcasmo.

- É que você é muito sério, precisa relaxar. Desde que botou esse bebum na cabeça não fala de outra coisa. E se por acaso tudo isso não der em nada? O

que você vai fazer? Aguardar outro assassinato para encontrar-se com seu

único e verdadeiro amor? Ele aparecerá e desaparecerá no nada, como sempre.

- Quantas vezes você presenciou suas aparições?

- Não muitas, mas lhe garanto, ninguém nunca se atreveu a segui-lo ou coisa

parecida. Todos têm respeito ou medo dele. Você viu ontem? O Santos,

sempre cheio de pose, metido a sabichão, gosta de vomitar ordens, etc. meteu o rabo no meio das pernas quando o negão abriu a boca. O que você quer

fazer, na verdade, é praticar um crime de lesa-majestade. No momento que

encontrar o cara e ele não gostar, pode desistir de ajudar a polícia. E aí, o que você vai dizer para o Santos? E para o delegado Fidelis? E para toda a

corporação? O que dirá você? Amigos, o homem da sombra não virá nunca

mais, pois fui impertinente o suficiente a ponto de procurá-lo e aborrecê-lo, agora ele não quer mais saber da policia! – Nina deu uma parada, suspirou e prosseguiu – Sei o que você deve estar pensando, que eu então não devia ter

topado esta empreitada...

- Exatamente.

- Mas eu também morro de curiosidade sobre esse homem. Só que temos

que ter um plano que não dê errado do modo algum, só isso. Acho precipitado, você conheceu o cara ontem e já quer procurá-lo hoje, e assim, sem nenhuma

carta na manga! Você nem sabe com o que está lidando, e se ele for perigoso, e se há muito ele já não esteja em seu juízo perfeito? Porra o cara é uma esponja!

Duvido muito que não haja algum dano naquele cérebro.

- Puta merda! Se aquele cérebro tem algum dano, também quero um deste.

Você não tem vergonha de dizer uma coisa destas? Quatro policiais sóbrios

precisam que um bêbado, vindo não se sabe de onde, resolva um crime! Dano?

Que dano pode ser esse, que faz com que o sujeito improvise um samba e

conte a história do assassino e do morto? Assim, num estalar de dedos! Ao

contrário de você, eu realmente acho que estamos diante de um misterioso

fenômeno. E quero descobri-lo. Só não sei se ainda posso contar com você.

- Pode... Claro que pode – disse Nina, fazendo um ar cansado - mas volto a

dizer, precisamos de um plano.

- Você quer um plano? Está aqui o plano... – ato contínuo, Tito pegou o

celular e ligou, com tanta determinação, que Nina preferiu ficar em silêncio, embora aflita. Tito esperava com o aparelho junto ao ouvido, o rosto impassível 24

aos poucos descorava, e a mão começou a tremer levemente – Droga! Não

posso fraquejar agora.

Alguém atendeu do outro lado. Tito estremeceu. Os olhos saltavam no rosto

exangue. Nina tinha os olhos cravados na fisionomia do rapaz, como se através desta, pudesse decifrar o enredo daquela conversa que enfim começava. Uma

voz grave e pastosa atendeu do outro lado – Ora, ora, ora... se não é o meu

amigo cabaço! Fale meu rapaz, onde foi a merda desta vez?

- Não... não houve nenhum crime Sr. Epaminondas. – Tito sentia que a voz

lhe saia miúda e a garganta parecia fechar.

- Não? Então o que vocês querem de mim, porra? Estava me preparando pra

dar uma sonora trepada! Ou lembraram deste velho diabo porque finalmente

reconheceram que é chagada a hora de recompensá-lo com um gordo cachê?

Desembucha meu filho!

- Não é a policia que está lhe ligando, sou eu. É particular. Gostaria inclusive que eles não soubessem deste contato. Aliás, não sei como adivinhou ser eu ao telefone.

- Há,há,há... Não, meu filho, adivinhação não existe. Eu apenas sabia ser você ao telefone, nada mais. É particular? Hummm... Qual é o rolo que você se

meteu? Eu tô dizendo... vão acabar me chamando até para fazer parto! Essa é

boa! O cara quer atendimento particular! Agora escute com atenção, filhote, se eu abrir uma exceção para atendimento particular, este telefone não vai mais parar de tocar, que horas vou achar para me embriagar? Meu negócio é beber,

me chapar a valer, trepar muito, brincar, dançar, cantar e dar risadas, a que horas poderei fazer isto? Não poderei, pois terei de trabalhar sob a incidência de luz... urghh! Tá louco! Por isso, não me leve a mal, não é nada pessoal, a polícia é uma exceção por questões sentimentais, pois dei uma parte da minha vida a ela em troca de algum dinheiro. Agora lhe dou uma ínfima parte da

minha vida e não quero dinheiro nenhum, faço por esporte, isso é tudo, garoto.

- Não desligue! Deixe-me dizer! Não sei como o senhor vai interpretar isso,

mas realmente, como um policial que está iniciando uma carreira na

investigação de crimes. Cabaço você diz; sim, totalmente cabaço! Gostaria

muito que me ensinasse sua técnica dedutiva! Seria-me de grande valia, isto é...

Obviamente, se o senhor tiver um pouco de paciência com seu jovem aprendiz.

Sou de aprender rápido sei que não se arrependerá. – Tito disse isto quase que de um fôlego só, e começava a sentir uma incômoda sensação de que

começava a fazer papel de idiota.

- Há,há,há... Espere que vou dar mais um gole! Êta vinho bom! Hummm....

Delícia! Bom, que você queira ser um dedicado filhotinho do Estado, posso

compreender, afinal está há pouco tempo nesse negócio. Todo o tesão é

louvável meu garoto! Mas creio realmente que a estas ambições, algumas

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cartilhas e manuais de procedimento poderão lhe ser de maior utilidade que do que eu. Obviamente, meu caro, além de um dom natural que, espero, você

tenha. De minha parte, se tem alguma coisa que nunca me passou pela cabeça

é ensinar alguma coisa; me seria terrivelmente penoso vestir essa carapuça, a de mestre; porra, só de falar disso me deu sede! Bravo! Mais um gole... êta vinho bom! Agora, se me permite, filhote, tem uma mulata... eu adoro mulata, os

sóbrios costumam dizer que ela tem a cor do pecado! há,há,há... tem uma

mulata maravilhosa na minha cama, exalando seu cheiro amoroso de cravo, ela

faz agora uma dança de cigana, quer o seu negão! Seu negão! Bem

embriagado! E todo amor e tesão que pode sorver, egoísta, desta minha

embriaguez despreocupada e profana! Sim, todos os meus sentidos estão em

profunda alegria, tem uma mulata na minha cama! Portanto irmãozinho sóbrio,

sem rodeios: sinto que você quer mesmo é me conhecer mais de perto, eu lhe

impressionei, etc. e tal... Eu li isto ontem nos seus olhos. Por que você

simplesmente não fala a verdade? Dá para sentir o cheiro da mentira daqui!

Enquanto optar pela mentira, não poderei fazer nada por você. Pare para

pensar, nessa luz parca que incide sobre vocês, sóbrios, que induz à mentira para atingir um fim, mesmo que este tenha nascido dos mais profundos

sentimentos.

- Perdoe-me, o senhor tem razão, – disse Tito totalmente sem jeito sob o olhar estupefato de Nina que não imaginava que o rapaz pudesse levar a

conversa tão adiante - talvez eu não esteja pronto para este contato.

- Sim está; tanto que, creio eu, deve ter conseguido meu telefone de forma

não muito lícita. Arriscou seu pescoço. Isto demonstra paixão, paixão ao

empreendimento ao qual você se propôs. Com isso angariou meu respeito.

Livre-se destas pequenas mentiras e me aguarde, eu te acho. Uau! Estou me

derretendo de tão embriagado e tesudo; tem uma mulata na minha cama, e

ela... ela faz uma dança de cigana... Ah! Antes de desligar, dê um beijo aí, para a Nina... é Nina o nome dela não é mesmo? Tchau!

Tito desligou o telefone sem tirar os olhos da atônita Nina. – Lhe deixou um beijo! – disse em júbilo – yes, yes, yes... Consegui! Consegui! Ele me dará uma chance e se não tivesse eu, usado de subterfúgios mentirosos, me daria bem já hoje. Lembra quando lhe disse que a verdade seria o melhor caminho para

chegarmos a ele? Você queria planos mirabolantes! Não, para se achegar a ele basta apenas ser você mesmo, sem estas mentirinhas nojentas que inventamos

todos os dias para abrir pequenas portas. Sim, eu tinha razão.

- Certo, você ganhou, tinha razão, mas me conte tudo, tudinho, fale, fale

garoto! - e Tito cheio de um entusiasmo anormal, pediu mais uma cerveja e

começou a descrever sua rápida conversa.