A Fortaleza do Centro por Eder Sabino Carlos - Versão HTML

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Kalena

Livro I

A Fortaleza do Centro

Eder Sabino Carlos

CAPÍTULO 1

Noite trágica

Apesar de estar uma noite linda e estrelada, com uma enorme lua cheia que iluminava toda

Kalena, a floresta de KiBay permanecia na penumbra.

Parecia uma noite comum como todas as outras, mas esta seria diferente, seria uma noite

decisiva que com certeza mudaria a história deste lugar.

KiBay era uma floresta bem densa com poucos caminhos mal traçados, pois poucos se

atreviam enfrentá-la, pois ela transpirava o medo e o sofrimento dos que tentavam vencê-la;

Estava muito escuro, mas ainda penetrava alguns feixes de luz através de algumas frestas

nas copas das árvores, dando a ela um visual ainda mais sombrio, fazendo seus troncos

parecerem silhuetas de monstros vigiando todos os movimentos.

Estava um silêncio total, gélido e enigmático, fazendo parecer que até os animais, insetos e outras coisas extraordinárias que o povo vivia dizendo que a habitava, aguardassem algo

acontecer.

O silêncio só foi quebrado com o ranger de uma carroça velha, que naquele momento

cruzava um caminho estreito e quase intransponível.

-Sabe é a primeira vez que entro nesta floresta - disse uma voz feminina - sempre me

disseram que aqui moram seres esquisitos.

-Sim, com certeza aqui é bem perigoso - disse a voz de um velho.

-Você tem certeza que foi melhor sairmos durante a noite, pois esta floresta já é perigosa

durante o dia, imagine há esta hora.

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- Mas a chance de nos seguirem a noite é bem menor.

- Mas e os Málacas? - disse ela ficando cada vez mais nervosa

-Eles não costumam atacar nesta parte da floresta, pois é muito perigoso até para eles, além do mais, peguei esta carroça velha para não parecer que temos algo para ser roubado.

Quando ele disse isto, ela começou a ficar apavorada.

-Nossa se é perigoso para aqueles marginais, imagine para nós.

Então ela olhou para o velho e disse bem firme - vamos voltar!

-É impossível!

-E por que é impossível? - rebateu ela

-Quando sairmos da floresta eu te explico - disse o velho tentando cortar o assunto.

-Mesmo assim acho que não deveríamos ter saído hoje, pois estou com um mau

pressentimento, como se algo iria acontecer de muito ruim.

- Tinha que ser hoje, já não havia mais sentido você continuar lá - falou a voz já esganiçada do velho - poderia se tornar muito perigoso, pois você já não fazia mais parte de lá.

A mulher fez um breve silêncio, e começou a acariciar seu anel e se perdeu em

pensamentos, era um anel tosco feito com certeza por alguém que não tinha nenhum

conhecimento de artesão, mas com certeza devia significar muito para ela.

-Não me conformo, eu tenho certeza que ele nunca iria me deixar ir embora.

- Já disse - retrucou o velho - já estava se tornando muito perigoso.

Ela então silenciou, notando que o velho não estava querendo mais prosa com ela.

Então cada vez mais eles iam penetrando na floresta, que parecia interminável.

Ela ia observando cada detalhe das árvores, pois pareciam olhar para ela de tão sinistras que eram.

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Depois de algumas horas sem ninguém conversar, ela percebeu uma coruja branca

observando-a.

-Será que elas pensam? - Perguntou a mulher para o velho tentando quebrar o gelo do

momento.

-Quem? – Perguntou o velho intrigado.

- As corujas! – Disse apontando para ela.

Ele olhou e então sorriu pela primeira vez e disse:

- Sim – elas são muito observadoras e podem ser de muita serventia para quem as trata

bem.

–- Serventia? - perguntou ela com muita curiosidade, esquecendo por um breve momento

que estava dentro daquela floresta tenebrosa.

- Exato, quando você as trata com carinho elas costumam te acompanhar e observar tudo ao

seu redor e por terem os sentidos muito aguçados te avisa se algum perigo se aproxima de

você.

-Interessante, acho que vou criar uma - disse ela em tom de brincadeira - mas do jeito que

as coisas andam ela rapidinho vai querer ir embora.

- Por quê?

-Ora do jeito que você diz que eu corro perigo - ela vai ter que fazer hora extra até durante o dia - e começou a rir.

O velho então fechou a cara e parou novamente de conversar.

A mata estava cada vez mais densa, com galhos já próximos as suas cabeças.

Depois de se passar quase uma hora em total silêncio, ela começou a conversar novamente,

mas já com lagrimas nos olhos:

- Mas eu sou a mulher dele, ninguém se atreveria a tocar em mim - disse já soluçando.

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- Minha senhora é muito complicado e não tem como explicar agora.

-Acho que deveríamos voltar - insistiu ela - tenho certeza que ele me ama.

-Não tenho dúvida, mas agora isto não importa mais.

-Mas por que você está me ajudando? Ele sabe disso?

-Não, não sabe, ele perdeu a confiança em mim, de certa forma ele acha que sou culpado.

-Como? Você não tem culpa...tem?

-É que tenho alguns poderes, e ele acha que eu...

- Você o que?

-Eu tenho alguns poderes, mas tem coisa que a natureza faz que não devemos ou não

podemos fazer nada.

Mas você não fez nada por que não consegue ou por que não quis fazer?

- Silêncio! - Gritou o velho parando a carroça na esperança de ouvir melhor.

- O que aconteceu? Não ouço nada.

- Silêncio...Já disse! – agora aguçando os ouvidos.

Seguiu-se um silêncio tão grande que dava para escutar o medo no coração acelerado da

mulher.

Passaram-se alguns segundo que pareciam horas, mas o silêncio total permanecia.

Ela olhava para todos os lados para ver se algo acontecia, com a esperança de não ser nada,

que o velho estava sendo apenas cuidadoso demais.

Ele levantou-se na carroça empunhando seu cajado, pois tinha certeza que algo estava para

acontecer.

Apesar do ar denso da floresta ele sente uma brisa gélida e estranha tocar-lhe a face,

denunciando que algo de ruim estava para acontecer.

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Ele sabia do perigo iminente, mas não sabia de que lado viria, mas sentia bem longe a

floresta acordar, pois a agitação estava aumentando aos poucos, pássaros passavam por eles

agitados junto com pequenos roedores que corriam por todos os lados. A floresta pulsava

mais forte aumentando a tensão e com isto a mulher não se conteve e começou a gritar em

desespero. O velho pedia para ela se calar, mas não adiantou nada, ela já havia denunciado

a posição deles. Eles estavam em uma parte mais larga da estrada e não tinham como

esconder, então ela silenciou rezando para que fosse algo passageiro, mas conforme

aumentava a agitação na floresta maior era sua angustia, seu desespero, foi quando ela

avistou aquela coruja novamente, agora bem mais próxima, ela a olhava de uma

maneira como que querendo dizer algo, foi quando distinguiu entre toda aquela agitação

grunhidos vindo de todas as partes parecendo cercá-los.

- O que é isso? – gritava a mulher chorando em desespero.

-não tenho certeza, não estou vendo nada, mas parece que estamos cercados pelos lobos de

caça reais.

-Devem estar nos procurando para voltarmos - disse a mulher tentando achar alguma

esperança em meio aquela situação.

-Se nos quisessem de volta não mandaria estes lobos.

-Tenho certeza que ele não nos faria mal - insistiu ela

-Mas porque então soltou os lobos - disse o velho em estado de alerta e continuando a falar

– somente ele pode liberar a saída deles.

Quando perceberam que estavam bem próximo deles, no meio da mata, ela não agüentou e

pulou da carroça apavorada, quando neste instante...

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Kabrum... Um Koskam abalroou a carroça jogando o velho no chão. O Koskam é um

animal peludo com dentes de sabre do tamanho de um filhote de elefante, só que muito

mais inteligente e rápido que acompanha os lobos de caça reais. Quando os lobos acham

sua presa é ele que ataca para derrubá-la para depois os lobos pegarem a presa indefesa.

Corra, corra, fuja, pois estão atrás de nós - gritou o velho - vou tentar retê-los o máximo

que puder.

Ela saiu correndo desesperada com suas roupas prendendo entre os galhos baixos das

árvores, enquanto o velho tentava retardar os lobos de caça.

Ele fazia um barulho enorme para chamar a atenção dos animais, mas para sua surpresa os

lobos de caça passaram direto por ele indo atrás da mulher.

Ele bateu seu cajado no chão criando uma luz meio azulada na esperança deles voltarem à

atenção para ele, mas nada, eles continuavam determinados em direção da mulher como

se estivessem hipnotizados. Foi quando ele percebeu que o que eles queriam, não era uma

presa qualquer e sim ela. Ele então rumou em direção a ela, ultrapassando os animais com

tamanha facilidade que parecia flutuar no ar.

- Estão atrás de você, corra sem parar e não olhe para trás.

Ela correu muito... Escutando um barulho ensurdecedor que iluminou a floresta as suas

costas. Com isto os latidos pararam e logo após o velho a alcançou novamente.

-Dei um jeito nos lobos, mas isto só vai retardá-los um pouco e creio que o perigo só está

começando, continue correndo.

- Eu não agüento mais preciso descansar - disse ela ofegante.

-Não, não podemos parar enquanto não sairmos de dentro da floresta.

-Mas quem está atrás de mim?

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-Não sei, mas com certeza foi ordem real, pois estes lobos só podem sair com autorização.

O velho estava nervoso e não parava de olhar para trás esperando que algo pudesse

acontecer.

- Vá em frente que eu vou esperar um pouco para ver quem está comandando esta...

Não deu tempo de terminar a frase, pois um Koskam atingiu o velho jogando-o de

encontro a uma árvore.

- Deixe o velho e mate-a - uma voz gritou.

Ela sem saber para onde ir, corria sem parar gritando:

- Quem é você por que me persegue?

Ela só conseguia ouvir o Koskam em sua direção e uma risada ao longe.

Ela então parou, pois estava na beira de um precipício e olhou desesperadamente para o

Koskam em sua direção. O velho só conseguia vê-la de longe com uma visão meio

desfocada e não podia fazer nada, pois estava atordoado com a pancada que levara.

Ela estava tão desesperada com aquela fera indo a sua direção e vendo que não tinha saída

para escapar, decidiu por uma morte menos sofrida pulando no precipício.

- Nãoooooo - gritou o velho ajoelhando-se impotente próximo a uma das raízes de uma

árvore, então virou e gritou para o vulto que transbordava uma alegria maléfica - quem é

você e por que a matou?

Ele não dava a mínima atenção e continuava rindo, era uma risada estranha, parecia uma

mistura de prazer, ódio e escárnio.

O velho tentava enxergar quem estava rindo, mas estava muito escuro e o cavaleiro

também vestia uma capa com capuz que mesmo se estivesse claro ele não conseguiria ver

quem era.

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De repente ele parou de rir e olhou na direção do velho gritando para os lobos que já

estavam posicionados ao seu lado.

-Pegue ele agora!

Apesar de estar abatido pela morte da mulher o que mais importava naquele momento era

escapar daqueles animais enraivecidos, então se levantou com dificuldade e cruzou seus

braços junto ao peito e fixou seu olhar como se estivesse em transe e conjurou algumas

palavras em sons inaudíveis, criando uma aura circular ao seu redor fazendo com que os

animais parassem temerosos pelo que poderia acontecer.

Seu olhar agora transbordava raiva e descruzando seus braços com as palmas das mãos

viradas em direção ao chão parou de conjurar e gritou bem forte Petrifique! Com isto

sua aura em forma de raios voou em direção aos animais transformando-os em

monumentos de pedra.

Rapidamente pegou seu cajado e olhou para todos os lados à procura do cavaleiro, mas ele

havia sumido como num passe de mágica.

Ele então desolado e cambaleante caminhou em direção ao precipício e disse:

- Foi tudo culpa minha, eu devia ter escutado você. Então vendo que sua arrogância o

cegara do perigo verdadeiro que cercava esta viagem virou-se sumindo na escuridão.

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CAPÍTULO 2

Vinte anos após

O Julgamento de Frigg

A estrada que dava acesso à parte sul da cidade era a Alameda Gavril que além dos grandes

Ipês que a acompanha, é também feita toda de pedra com sulcos entre elas para não a deixar

alagar mesmo na época das chuvas. Ainda era muito cedo e o sol já estava querendo dar

sinal de vida.

Haddock vinha descendo-a com sua capanga em direção à Academia Militar como fazia

todas as manhãs. Ele é o filho do Rei Bartok, o soberano da Cidade da Vitória, mais

conhecida como Fortaleza do Centro. É uma cidade maravilhosa e de grande extensão, que

além de serem protegidos por um grande exército é toda cercada por uma grande muralha

com vários Vultigrifus; Os Vultigrifus são grandes aves de rapina e são consideradas

sagradas pelos vitorianos e somente podem ser montadas pelos oficiais da Fortaleza que

ficam posicionados em locais estratégicos, observando tudo que se movimenta fora dos

domínios da Fortaleza. Estas muralhas tem três enormes portões, um ao norte que dava

direto a um deserto escaldante, outro ao Sul que dava saída para as montanhas e a floresta

de KiBay e outro ao oeste que dava de frente ao mar.

O castelo do Rei Demetrius Bartok ficava junto a uma das muralhas do lado oeste para dar

maior proteção, porque do outro lado dela ficava um pântano que todos temiam. Todos

acreditavam que ele era habitado por seres ruins, inclusive todas as estórias de terror que

seus habitantes cresceram ouvindo tinha como cenário este pântano.

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Haddock começou a ficar ansioso, pois escutara algumas marteladas, pois estava chegando

próximo a casa do melhor ferreiro da cidade.

- Oi Aminthas Tá fazendo a minha espada especial? – disse Haddock todo empolgado para

a espada em que ele estava martelando.

- Ainda não, seu pai prometeu trazer um pedaço da pedra sagrada que caiu do céu para mim

hoje, e então vou aproveitar e fazê-la durante os festejos da semana que vem – disse

Aminthas um homem magro de cabelos negros com algumas mechas brancas.

- Meu pai deixou tirar um pedaço dela? – Perguntou Haddock todo intrigado.

- Sim, eu disse que era para você e que ia ser um presente pela sua entrada na academia de

oficiais.

- E ele mesmo sabendo que era para mim ainda deixou?

- Haddock a opinião que você tem do seu pai é muito errada.

- Não sei por que você o defende tanto, sabe se você não fosse o melhor ferreiro da cidade

eu faria minha espada com outro.

- Muito obrigado, mas não estou defendendo-o, apenas temos que ser justo em nossa

opinião sobre qualquer pessoa.

- Bom se depender de meu pai esta espada não sai nunca, só vendo para acreditar.

- Haddock... - disse Aminthas num tom de repreensão.

- Não quero mais falar sobre ele – disse Haddock rispidamente cortando o assunto e

continuando disse:

- E os meninos?

- Que bom que perguntou. Hoje não posso levá-los na escola, você os leva para mim?

-Claro, onde estão eles?

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- Clayde! Byron! Venham aqui! - gritou Aminthas.

Já dava para escutar longe os gritos dos dois brigando para ver quem chegava primeiro.

- Cheguei primeiro - Falou Clayde o mais velho de 12 anos com olhar de superioridade.

- Assim não vale, você roubou – disse Byron o menor de seis anos.

- Roubei não, você que é um lixo.

- Paiê! Ele me chamou de lixo.

- Gente eu já não falei que não quero que fiquem brigando.

- Mas ele roubou, ele disse que quem chegasse por último ganhava – insistiu Byron.

- Deixa de ser burro – disse Clayde para irritar mais ainda o irmão.

- Paiê! Ele me chamou de burro.

- Clayde eu já falei para não chamar seu irmão de burro.

- Mas ele tá mentindo...

- Chega! Eu não agüento mais, parem com isto seus moleques, vocês não estão vendo que

Haddock está aqui.

- Ah! – disse Clayde com desdém.

- Oi Dock – disse Byron com um sorriso no rosto.

Meninos vão se arrumar por que ele vai levá-los para a escola.

- Legal - disse Byron já correndo para dentro da casa para se arrumar, e Clayde seguindo-o

lentamente.

- Nossa estes dois não são fáceis hein?

- É, case e tenha filhos, muitos filhos – disse Aminthas em tom de ironia.

- Eu não quero ter filhos tão cedo – disse Haddock.

Neste instante sai Byron gritando – fui eu que ganhei desta vez.

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Logo atrás vinha lentamente Clayde, como que não querendo chegar, despediram do pai e

foram embora.

Haddock deixou os meninos na escola e seguiu para a academia militar. Hoje seria um dia

especial para ele, pois era seu último dia de aula como cadete, pois ele havia passado nos

testes finais para ser um oficial do exército de Kalena e na semana seguinte iria fazer parte da elite militar.

A Academia militar é um prédio bem antigo de construção sólida bem imponente.

A frente da academia é toda murada com um portão largo com duas gárgulas de Vultigrifus

em sua entrada. O Vultigrifus é o símbolo da academia, e somente quem é oficial tem o

direito de carregar o brasão dourado dele em seu peito.

Passando este portão é necessária uma caminhada através de jardins imensos até a chegada

da entrada principal da academia.

Caminhando pelos jardins dá para ver ao lado esquerdo um pequeno campo de Tsutum,

onde poderia ver alguns recrutas jogando. Este campo não é o principal da academia, que

fica do outro lado.

Para se chegar à porta principal da academia é necessário subir alguns degraus de escada

chegando ao salão principal. É um salão amplo onde havia a estátua do Rei Ambrosio que

acabou com as grandes Guerras. Guerras que duraram centenas de anos, todas em nome da

religião. Nossos reis condenavam quem não seguissem as regras religiosas. Quem não

agisse igual às leis dele eram considerados hereges e passíveis de punição.

Há diversas pinturas retratando várias batalhas vencidas, que apesar de hoje todos saberem

que o motivo das guerras era errado, não deixa de ser um tributo para a vitória.

O Rei Ambrosio acertou com os líderes das outras nações a não agressão mútua, trazendo a

paz novamente a Kalena.

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Haddock como sempre estava chegando atrasado à escola e passou direto pelo salão e abriu

outra porta, que dava acesso a um corredor onde tinha vários quadros pintados com todos

os líderes da Fortaleza do Centro. Ele sempre que passava por ali ficava imaginando se um

dia seria um grande líder e teria um quadro seu exposto ali.

O barulho da conversa de alguns cadetes que passavam ao seu lado, o trouxe de volta a

realidade e ele continuou seu caminho para a porta do outro lado que dava acesso à parte

interno da academia. Ela era imensa parecia não ter fim. Bem a sua frente à direita tinha

uma capela onde se realizavam missas para os cadetes, pois os vitorianos eram muito

religiosos. No lado esquerdo havia uma construção de três andares em forma de “L”, todas

de salas de aula, e a frente delas os campos de treinamento. Bem ao lado da porta em que se

encontrava tinha uma grande escadaria que dava acesso a todos os andares de salas de aula.

Imediatamente ele subiu correndo esta escada e foi direto para a parte superior onde se

encontrava sua sala.

Ele correu para ainda tentar chegar na hora, mas sua sala era a última, quase que

contornando toda a academia.

Tentou abrir a porta da sala bem devagarzinho para não chamar a atenção do professor

Bilharinho, pois este não ia muito com a cara dele. Mas a porta era pesada e antiga

rangendo no momento que forçou ela. Assim que entrou na sala de aula foi advertido pelo

professor:

- Chegando atrasado de novo, aposto que estava enrolando em algum lugar por ai.

Todos na sala de aula ficaram em silêncio, pois o professor bilharinho era muito enérgico e

não aceitava qualquer comentário, mesmo que fosse para apoiá-lo.

Haddock nem se abalou e encarando o professor disse:

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- Professor o Senhor como sempre está fazendo um pré-julgamento de mim tirando-me o

beneficio da dúvida. Eu estava procurando um material que necessitava para fazer meu

trabalho, material este que deveria ser fornecido pela escola.

- Então vai reclamar com seu pai, eu não gosto que ninguém se atrase em minha aula.

- Professor toda exigência tem seus direitos e deveres, então o Senhor não deve atrasar

também, pois deveria chegar sempre no horário certo, pois às vezes o Senhor também

atrasa.

- Moleque atrevido, achas que por ser filho do rei, podes fazer o que quiseres?

- Não Senhor, mas é que...

- Chega! Silêncio! Não quero mais ouvir a sua voz.

- Professor o senhor...

- Acho que você é surdo, já pra fora, não quero ver você aqui hoje.

Ele então foi encaminhado para a sala de recuperação encontrando lá Frigg, seu

companheiro de pequenas aventuras na infância.

E então, estamos aqui de novo – disse Haddock.

- Você está tranqüilo, é filho do rei, vai virar oficial semana que vem e eu em compensação

acho que não passo de hoje na academia – disse Frigg.

- Olha você é muito indisciplinado Frigg, você deveria ir com mais calma.

- Calma, olha quem está falando, o príncipe da paciência.

- Pára com isto Frigg, pára de me chamar de príncipe.

- Ora o filho do rei é o que?

- Aqui não existe este cargo, ou é rei ou não é nada.

- Eu sei disso, acho que você faria qualquer coisa para ser rei.

- O que você está querendo dizer? – disse Haddock cerrando os olhos.

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- Ora seu sonho é ser rei não é?

- Não é sonho, é só questão de tempo? – disse Haddock levantando-se da cadeira.

- Agora chega – continuou Haddock – não quero mais falar disto e quando te falei para ir

com mais calma, é para você parar de cutucar todo mundo com suas idéias de justiça. Você

está na infantaria por que é grande e forte.

- Não se faça de rogado Haddock, você sabe muito bem que não é por causa de meu

tamanho, é por que sou um Veruzi, eu não quero ser da infantaria, eu quero é ser um oficial

também.

- Mas Frigg você é muito mais importante na frente de batalha.

- Que frente de batalha, não lutamos há séculos.

- Mas ninguém nos ataca por que sabem que temos um grande poderio militar.

- Haddock as únicas pessoas que nós já vimos de fora da Fortaleza são os Habitantes do

Vilarejo de Ladagaz que não tem muito informação para dar, de resto só sabemos o que

contam para nós, por isso eu quero ser oficial para poder olhar para fora daqui, com meus

próprios olhos, não quero só ouvir falar.

- Frigg quando eu for rei vou mudar isto.

- Eu não quero esperar tanto – disse Frigg abaixando a cabeça desolado.

Haddock foi em direção a Frigg e tocou-lhe o ombro:

- Frigg eu entendo sua ansiedade, mas apenas preste bem atenção no que vou dizer, tenha

paciência, que você não se arrependerá – concluiu Haddock deixando Frigg sem saber o

que exatamente ele queria dizer.

Neste momento o diretor chega na sala e já vai logo dizendo a eles:

– Vocês mudaram muito, muito mesmo, mas para pior. Não sei o que está acontecendo com

vocês, ultimamente só fazem coisas erradas.

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- Diretor - disse Frigg

- Fique calado ainda não terminei – e continuou falando energicamente:

- Frigg você não tem jeito mesmo, mas tenho certeza que você é um problema que será

resolvido hoje, mas Haddock, você é filho de Bartok, tem um nome a zelar, tem que parar

com esta sua arrogância.

Haddock sentou colocando os pés em outra cadeira, fazendo que nem estava prestando

atenção ao que o diretor falava. O diretor ficou morrendo de raiva, mas se conteve dizendo:

- Sabe Haddock, escreve as minhas palavras, um dia você vai se arrepender de ter este

comportamento comigo.

Haddock o encarou dizendo:

- Você quem vai se arrepender, talvez mais cedo do que você imagina.

- Eu não vou mais perder meu tempo com vocês – disse o diretor virando-se para Frigg.

- Direto para a sala de audiência, pois já vai começar seu julgamento.

Assim que Frigg saiu o diretor fitou bem nos olhos de Haddock e disse:

- Sua sorte é que você é filho do rei senão...

- Senão o que? Iria me expulsar como vai fazer com o Frigg?

- Cale a boca seu moleque, ele ainda vai ser julgado.

- Todo mundo sabe que este julgamento é só para expulsá-lo da academia.

- Se repetir isto, nem seu pai vai te ajudar.

Haddock sabendo que seu pai realmente nem iria tentar ajudá-lo calou-se.

- Não tenho tempo a perder com você, pode ir embora.

Haddock saiu batendo a porta deixando o diretor com seus pensamentos. Enquanto isto

Frigg entrou na sala de audiência fazendo todos virar para ele com um olhar de repreensão,

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pois estava bem atrasado. Já se encontravam alguns militares antigos que dariam o

veredicto e mais algumas pessoas do povo.

-Senhoras e senhores, pedimos que se levantem - disse uma voz retumbante de um militar

em trajes formais.

- Anuncio agora a chegada de Zelmo, chefe da Guarda Real, diretor desta academia e o juiz

nessa audiência;

Zelmo entrou todo imponente, olhando a todos com arrogância, principalmente para Frigg.

- Senhoras e senhores iremos começar o julgamento, peço a todos que façam silêncio a

partir de agora – disse Zelmo.

- Hoje julgaremos o soldado Frigg que insiste em ser indisciplinado, causando muitos

transtornos junto a seus superiores hierárquicos.

Zelmo deu uma pequena pausa, tomou um copo de água e perguntou a Frigg:

- Você tem algo a dizer?

- Sim meritíssimo, eu gostaria de saber por que não existe nenhum oficial descendente de

Verusianos e setunianos.

- Senhor Frigg o senhor está sendo julgado por indisciplina, mas se continuar a insistir

nesta sua teoria maluca de que a academia é racista, teremos que acrescentar mais alguns

delitos neste julgamento, como por exemplo: difamação de uma entidade idônea e honrada

que foi criada pelo rei e tiveram todas as suas diretrizes também definidas por ele. Se você questiona nossas regras, questiona a vontade do rei, e insistindo nesta teoria absurda poderá ser punido não só com sua expulsão da academia, mas também da Fortaleza do Centro.

Zelmo deu uma pequena pausa e continuou.

- Você retira o que acabou de dizer, salientando que sempre esteve errado a este respeito?

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Frigg sabia que o julgamento era só fachada e seria condenado, mas agora poderia ser

expulso também da Fortaleza e isto o amedrontava, então disse meio sem vontade:

- Sim eu retiro o que disse e realmente sempre estive errado.

Com um olhar de vitorioso, Zelmo mandou retirar das escritas os últimos comentários e

continuou o julgamento, mas somente como indisciplina.

Quando o veredicto já estava para ser proferido e a expulsão era certa, Aminthas levantou-

se e disse:

- Diretor posso falar?

Aminthas fazia parte do conselho do povo e era muito respeitado e Zelmo a contragosto

permitiu que ele falasse.

-Senhoras e senhores todos cometemos erros e ele é jovem, o erro faz parte de seu

crescimento como pessoa, e se for expulso levará isto para o resto de sua vida. Eu peço que

dêem mais outra chance para ele, tenho certeza que depois deste julgamento ele mudará.

O diretor não gostava de Frigg, mas também não queria ser taxado de linha dura, então

propôs o seguinte:

-Chance, já demos muitas chances para ele, além do mais não sou eu que decido e sim o

conselho militar que está aqui reunido, então eu proponho o seguinte: já que alguns aqui

presentes querem que ele tenha mais uma chance, então assim seja – ele parou olhou para o

conselho e continuou:

-Se os senhores me permitir, escreverei em dois pedaços de papel as palavras culpado e

inocente e ele escolherá o papel e este será o veredicto final.

Todos do conselho aprovaram a idéia.

Frigg então falou:

- Quero ver você escrever os papéis!

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- Vocês estão vendo a arrogância do rapaz que com certeza seria condenado, e aí então

propomos mais uma chance para poder ajudá-lo e agora está questionando minha índole, eu

que sempre fui muito correto.

O Conselho começou a olhar Frigg com muita desaprovação e junto com os murmúrios das

pessoas, começou-se a criar um clima tenso no ambiente.

Aminthas vendo que este clima estava deixando Zelmo nervoso e com certeza não iria nem

dar mais esta chance, falou:

- Desculpe por ele diretor, como disse antes ele é jovem e não tem noção do valor de sua

pessoa, que tem uma índole inquestionável, e peço que desconsidere o que ele disse e

continue.

Então o diretor escreveu culpado nos dois papéis e olhou para o júri, que imaginaram que

ele tinha feito isto mesmo e aprovaram.

Frigg tinha certeza que ele nunca iria dar outra chance para ele, por isto com certeza ele não teria opção na escolha.

- Frigg aproxime-se e escolha seu resultado – disse Zelmo.

Quando ele aproximou-se em meio a seu desespero teve uma idéia. Pegou um dos papéis e

engoliu. Todos ficaram sem entender por que ele havia feito aquilo.

- Por que você fez isto rapaz? – Perguntou o diretor – Como vamos saber o resultado?

- Abra o outro papel - Disse Frigg – o que escolhi está dentro de mim.

Revoltado por dentro, mas transparecendo uma calma inabalável, pegou o papel e o abriu

para que todos vissem o que estava escrito. Ele então foi perdoado e continuou na

academia.

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CAPÍTULO 3

A entrega do Brasão Dourado

Finalmente chegou a semana mais esperada do ano, ou melhor, do século, inicia-se a

semana da paz, a mais importante da Fortaleza do Centro, é a semana em que as pessoas se

voltam para si, refletindo sobre a paz e sua grande importância, a Fortaleza conserva muitas ruínas para que todos diariamente possam ver e sentir a destruição, sofrimento e terror que

a guerra pode causar nas pessoas. São monumentos conservados para que mesmo os que

não participaram das guerras vissem o que verdadeiramente ela pode causar. Casas

destruídas e entranhas no muro da Fortaleza são marcas vivas da tragédia que um dia

assolaram aquelas terras no passado.

Todos sabem que no passado Kalena era um lugar maravilhoso com pequenas cidades

habitadas por cada raça, mas apesar das diferenças culturais e físicas viviam em harmonia,

um paraíso onde todos podiam circular sem nada temer, era um lugar sem muros, sem

limites, a liberdade era plena, liberdade hoje que já não existe mais. Hoje ela é toda cercada por uma grande muralha, na qual é proibido sair ou entrar nela.

Apesar de a cidade ser enorme com quilômetros de extensão, ela é toda murada. A maioria

diz que é para a proteção de todos. Desde que a cidade foi toda cercada por esta grande

muralha, nunca mais eles foram dominados por inimigos, inimigos estes que ninguém

conhece, que na verdade nem sabem se existem mesmo.

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Estórias são contadas pelos poucos que tem o direito de sair ou entrar, muitas fantásticas na qual ninguém acredita, parecendo estórias de loucos ou pescadores. Estórias que são

contadas de geração a geração como fábulas.

O desejo de ver realmente como é o lado de fora da Fortaleza é tão grande que acabou

criando um prazer mórbido e até perverso na população, o desejo de cometer um crime,

pois na Fortaleza não existe prisão, o criminoso é marcado na pele e passa a ser chamado de

Málaca sendo então expulso da Fortaleza e condenado a nunca mais voltar. Mas este desejo

fica contido apenas na imaginação de cada um, por que o medo do desconhecido e o receio

de que as fábulas contadas possam ser realmente verdadeiras é maior dando a sensação de

que estão sendo mesmo protegidos pela grandiosidade das muralhas.

Mas o dia da paz remonta para bem antes das grandes guerras, os leva a 1000 anos atrás

quando um homem cruel e poderoso semeou a discórdia entre as raças deixando-as

enfraquecidas e conseguindo dominá-las. Foram tempos difíceis na qual a maioria dos

habitantes foram escravizados, alguns conseguiram escapar da escravidão, mas eram

caçados que nem animais.

Dentre os escravizados havia um homem inconformado com aquela situação de tortura

diária, vendo dia a dia as pessoas morrendo, na qual nem crianças escapavam daquele

sofrimento. O nome deste homem era Palet. Ele aos poucos foi conquistando a confiança de

todos e fez fazer renascer em cada um o amor próprio e onde só havia medo brotou a

coragem unindo todas as raças, liderando-os em uma grande luta nas quais muitos

morreram, mas libertou a todos daquela escravidão.

Esta foi a primeira luta de muitas que ainda viriam, mas na última e derradeira batalha ele

caminhou com um grande exercito de todas as raças em direção a grande morada negra do

tirano, chegando lá se surpreendeu ao ver que havia quatro grandes guerreiros, um de cada

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raça, Katsuo da raça Harumu, o verusiano Acmon, o setuniano Akachi e Aboré da raça

Apalai, travando uma luta épica com o tirano que era também conhecido como Lorde Awe.

Palet então os ajudou na luta, mas Lorde Awe era muito poderoso e num momento crucial

da batalha, quando tudo parecia estar perdido, Palet com a ajuda de sua espada Ellavrin

conseguiu dar o golpe final em Lorde Awe trazendo a paz novamente ao reino. Mas logo

após esta grande batalha, Ellavrin desapareceu. Muitas estórias são contadas sobre ela, mas

nenhuma mostra seu destino.

Palet, o grande guerreiro que uniu todas as raças foi nomeado rei de Kalena e sua primeira

decisão foi construir uma cidade muito maior para abrigar todas as raças. A cidade passou a

ser chamada de Cidade da Vitória e com o tempo Palet mandou construir a grande muralha

gigantesca que hoje cerca toda a cidade que passou a ser conhecida também como Fortaleza

do Centro, pois acreditavam que ela estava exatamente no meio de Kalena.

Mas alguns anos depois estes mesmos heróis que ajudaram Palet, foram reclamando o

poder para si dizendo que eles também mereciam ser rei, pois a vitória só foi conseguida

graças a eles também, trazendo de volta a discórdia entre as raças. Como eles não

conseguiam chegar a um acordo, cada raça migrou para um canto de Kalena, criando sua

própria religião, política e organização.

Nem todos tiveram coragem de partir, permanecendo na cidade um pouco de cada raça.

Então os que ficaram passaram a serem chamados de Vitorianos apesar de suas diferenças

culturais e religiosas.

Dizem que a maioria conseguiu chegar até o final de sua caminhada, mas nem durante as

Grandes Guerras que ocorreram séculos após o reinado de Palet, seus domínios foram

encontrados. Quando as Grandes Guerras acabaram, já no reinado de Ambrósio, o

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Destemido, ficou acertado que cada nação viveria em paz, sendo proibida a comunicação

entre eles.

Este ano é ainda mais especial, pois é o milionésimo aniversário. Este dia comemora

exatamente o dia da batalha final em que o Soberano Palet trouxe paz a Kalena. Por ter sido

o dia mais importante na história de Kalena, eles criaram o calendário Vitoriano que passou

a contar apartir desta data.

Há alguns anos representantes dos outros reinos começaram a manter contato com o rei

Demetrius Bartok e ficou acertado que eles se encontrariam novamente durante as

comemorações do milionésimo dia da paz.

Todos estavam na expectativa para saber se realmente os senhores-chefes iriam aparecer.

Questionavam tudo sobre eles, pois não sabiam como era sua aparência e costumes, pois

viviam em lugares diferentes e talvez já não se parecessem iguais a seus semelhantes

vitorianos.

-Haddock acorda! – disse a voz de um homem batendo na porta de seu quarto.

-Já acordei Malco.

Haddock já estava acordado há algumas horas, quase não havia dormido nesta noite, estava

muito ansioso, chegara o dia que mais aguardava em sua vida. Iria ser condecorado como

oficial da força real, onde poucos conseguem chegar tão longe dentro da academia.

Haddock já estava vestido com a roupa da cerimônia, mas ainda estava deitado sonhando

com as possibilidades que teria apartir deste dia. Para ele estava tudo maravilhoso, o dia de receber o brasão dourado, em desfilar com ele no peito e ser admirado por todos, Haddock

o Grande Oficial, Senhor da Guerra em seu imponente cavalo branco e o que era melhor,

iria poder sair da Fortaleza do Centro, conhecer novos lugares e realmente descobrir como

era o mundo lá fora.

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- Haddock levanta, seu café está na mesa!- insistiu o Senhor Malcovic.

Aquela voz o despertou de seus devaneios trazendo-o para a realidade, então abriu a porta e

desceu correndo a escada circular que ligava os aposentos ao salão principal do castelo e foi direto para a sala de jantar para tomar seu café da manhã.

Era um dia ensolarado e pela janela entrava os raios solares que junto a uma brisa leve

mostrava que o dia seria perfeito. A mesa estava posta, era uma mesa farta, com bolo, frutas e pães. Haddock sentou-se e como sempre tomou seu café da manhã sozinho, pois seu pai

nunca o aguardava para tomarem café junto, ele até preferia assim, pois o Rei sempre o

chamava de preguiçoso e desleixado.

Haddock tomou rapidamente seu café, pois estava muito ansioso, nem prestando atenção ao

café especial que o Senhor Malcovic havia preparado para ele. Ele então se levantou, foi até a cozinha e que nem uma criança abriu uma grande janela e pulou-a caindo em uma

marquise, indo direto para a área de treinamento, pois sabia que seu pai estaria praticando

arco e flecha.

O local parecia mais um jardim do que uma área de treinamento e ficava numa parte baixa

do castelo, tendo a sua direita uma cachoeira que contornava parte da área de treino,

formando outra cachoeira de pequena queda que dava direto a um rio cheio de crocodilos

que no final contornava todo o castelo.

- Bom Dia pai!- disse Haddock

- Quantas vezes eu vou ter que dizer que é para vir pela escada e não pular a janela da

cozinha, isto dá azar, quem pula janela é ladrão.

Como sempre de mau humor, pensou Haddock.

Bartok continuou a treinar sem dar muita atenção à presença de Haddock.

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- Porque não aproveita e treina um pouco – disse Bartok atirando uma flecha que atingiu o

alvo que se encontrava à uns cem metros de distância.

- Não estou afim, não gosto de arco e flecha, meu negócio é com a espada.

-Então vai buscá-la e treine.

-Não preciso treinar, já sou fera – disse Haddock expressando uma autoconfiança

excessiva.

Bartok não gostava quando Haddock usava este linguajar parecendo uma criança tola e

irresponsável.

-Por que você nunca me escuta Haddock, um dia você pode precisar dela e não vai saber se

defender.

-Pai já disse que não preciso.

-Não precisa... - disse Bartok já com a voz alterada de raiva e continuando – só por que

você sempre me vence, você acha que é o melhor!

- Claro o Senhor não é o melhor da Fortaleza do Centro, depois de mim é claro - disse

Haddock com certo desdém.

-Não, eu nunca disse que era o melhor, muito pelo contrário.

-Pai nós vivemos em paz há muito tempo, eu sou o futuro rei, os povos estão se

aproximando novamente e eu já disse que sou bom com a espada.

-Um dia quando precisar não vai dizer que não te avisei.

Nossa sempre a mesma ladainha, pensou Haddock já virando para ir embora.

-Aonde você vai Haddock?

- Se o Senhor não sabe, hoje é a solenidade de entrega do Brasão dourado e já estou

atrasado.

-Eu estou sabendo, mas antes quero lhe falar sobre seu comportamento na escola.

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-De novo, eu não agüento mais este papo de que é melhor para mim, que quanto mais

conhecimento é melhor, que quem ganha com isto é eu e não você e blá, blá, blá...

-Haddock mais respeito, você esta falando com seu pai.

- hoje é um dia muito importante para mim, por que você não pára de só ver os meus

defeitos e também vê alguma coisa de bom em mim.

- O que... O brasão dourado? Que mesmo se não fizesse nada iria ganhar de qualquer jeito

por ser meu filho – Bartok continuou cada vez mais alterando a voz – o que você fez para

merecê-lo?

- Muita coisa! – disse já irritado Haddock.

- Ah realmente eu havia me esquecido - já com uma voz de deboche – matar aula, chegar

atrasado à academia, ser expulso da aula, desenhar e conversar na sala de aula e fechando

com chave de ouro desrespeitar o professor na frente de todos os outros alunos.

Haddock ficou morrendo de raiva, queria dizer um monte de coisas para seu pai, mas sabia

que não tinha argumentos e mesmo se o tivesse seu pai não entenderia, então optou em

ficar calado e dando as costas para o rei disse:

- Estou indo embora e se não quiser aparecer na solenidade de entrega do brasão dourado

não precisa, para mim tanto faz, pois tenho certeza que não estava em seus planos mesmo,

para não passar mais vergonha de ver um filho incompetente receber um brasão sem

merecimento.

Haddock no fundo estava muito angustiado, pois queria agradar seu pai, mas no final

sempre acabavam brigando e por mais que tentasse melhorar o relacionamento entre eles,

acabava acontecendo algo que fazia com que desse tudo errado. Haddock sabia que seu pai

era um homem amargurado e no fundo sentia que era o culpado do rancor de seu pai, que se

ele não tivesse nascido seu pai seria um homem feliz.

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De repente Haddock escutou um movimento estranho vindo da mata que ficava junto à

cachoeira. Olhou para trás e viu um crocodilo saindo do meio da folhagem indo na direção

de seu pai.

- Pai, pai – saiu gritando para chamar a atenção de Bartok.

Bartok olhou na direção que Haddock apontava e viu o crocodilo indo à sua direção.

Ele ficou imobilizado ao ver o crocodilo e não expressou qualquer reação.

Haddock começou a fazer barulho para chamar a atenção do crocodilo, pois sabia que seu

pai morria de medo deles, era estranho ver aquele homem forte, que possuía grande

destreza no manejo da espada e do arco e flecha ficar impotente perante aquele animal. O

barulho deu certo e chamou a atenção também dos guardas reais que estavam em suas

guaritas que correram rapidamente e conseguiram impedir que o crocodilo chegasse

próximo do rei.

O rei olhou para Haddock não com olhar de agradecimento, e sim com certo rancor, como

se aquele crocodilo estava ali de propósito para mostrar uma fraqueza dele. Ele retornou ao

seu treinamento como se nada havia acontecido e Haddock foi embora ainda mais

cabisbaixo, pensando que mesmo quando quer ajudar faz a coisa errada.

- Haddock! Vamos logo, nós vamos acabar chegando atrasado - era a voz de seu amigo

Frigg aguardando ele no topo da escadaria.

Eles então foram correndo até a academia para participarem das solenidades, chegando em

cima da hora. Frigg se juntou à platéia e Haddock se juntou aos outros dois cadetes que

também iriam se tornar oficiais.

- Senhoras e senhores aqui presentes - Começou a discursar Zelmo o diretor da academia -

em primeiro lugar gostaria de agradecer a todos por sua presença, mas agora peço sua

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atenção e silêncio, pois iremos começar a solenidade de entrega do brasão dourado que é

um dos momentos mais importantes desta instituição. Gostaria de lembrar a todos o

significado do brasão dourado, e para isto devo contar porque ele foi instituído em nossa

academia. Há muito tempo atrás durante as grandes guerras, os Vultigrifus que hoje ajudam

na defesa de nossa fortaleza e são utilizados por nossos oficiais mais graduados são animais lendários de instinto benéfico que aliado ao seu comandante consegue mesmo em situações

de difíceis interpretações diferenciarem o certo do errado, mas naquela época eram muito

selvagens e ninguém conseguia sequer se aproximar de um deles.

Mas foi o nosso Grande líder, o Rei Ambrosio que domesticou o primeiro Vultigrifus, mas

não qualquer um e sim o Vultigrifus Dourado, o maior e líder de todos e durante a batalha

do monte Shii ele apareceu montado nele cortando o céu em um entardecer avermelhado,

na qual por um breve instante todos olharam para o céu e viram aquela ave maravilhosa

sendo montada por um cavaleiro destemido.

Todos ali no campo de batalha sabiam que o Vultigrifus nunca se dobra a um homem, mas

se isso um dia viesse a acontecer, com certeza seria para um nobre abençoado.

Ele do alto dos céus gritou:

- “Basta com esta guerra, não podemos mais nos permitir aceitar esta carnificina de nossos

semelhantes, a paz se faz necessária. Todos nós lutamos por um motivo errado, todos

sabem disto. Todos têm uma família que nos espera, que neste momento esta sofrendo por

nós. Peço a todos que baixem as armas”.

Todos olhavam para aquele homem sobrevoando o campo de batalha com a certeza que era

um homem iluminado e que os deuses estavam a seu lado. E naquele entardecer do ano de

600 a batalha parou definitivamente fazendo todos recuarem. As únicas coisas que vinha na

mente de todos eram seus entes queridos e a certeza que estavam lutando por um motivo

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errado baixando as armas. Dali em diante começou as negociações e todos os reinos foram

se curvando à paz e hoje vivemos em harmonia com todos os povos de Kalena e que nesta

semana durante os festejos, teremos a grande oportunidade de nos juntarmos novamente

igual há mil anos quando todos os povos eram unidos em um único lugar.

Então o brasão, que é uma replica da asa de um Vultigrifus dourado simboliza a paz que

deve ser buscado a todo custo pelo portador dele. Então hoje estamos elevando mais três

jovens ao nível de oficiais na esperança de que eles mantenham a paz em nossos domínios.

Peço que os cadetes se levantem e se apresentem.

Os cadetes caminharam em direção a um tablado montado bem em frente, subindo uma

pequena escada, deixando-os à frente de todos os presentes. A platéia se levantou

reverenciando-os.

Enquanto o diretor chamava o primeiro cadete para entregar-lhe o brasão e a platéia

animada aplaudia, Haddock estava preocupado, pois seu pai ainda não havia chegado, e

seria estranho, não porque ele era seu pai, pois ele não esperaria nada de diferente disto,

mas por que ele sempre participou deste evento e sempre fez questão de conhecer todos os

oficiais do reino. Haddock já estava suando frio, pois tinha certeza que ele ainda ia dizer que perdeu pela primeira vez a solenidade por causa dele. Em seguida Zelmo chamou o

segundo cadete, e todos novamente aplaudiram, deixando Haddock cada vez mais

preocupado, pois estava chegando a sua vez.

Quando chegou a vez de Haddock foi muito estranho, pois ninguém aplaudiu, fazendo um

silêncio constrangedor, pois o rei nunca faltara a uma cerimônia, dando a sensação de que

não aprovava a condecoração de seu filho. Apesar do silêncio Haddock caminhou até o

tablado, que a cada passo fazia a madeira fazer um barulho que ecoava pela ambiente

silencioso. Mas no instante que ele recebeu o brasão dourado o ferreiro Aminthas levantou

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e começou a bater palmas, sendo seguido por Frigg e com isto um a um foi batendo palmas

até que a capela inteira o aplaudia.

Ao término da solenidade quando todos já estavam saindo, escutaram o som alto dos dois

sinos gigantes da capela central que em tempo de guerra só era utilizado para avisar sobre