A Lenda de Chapeuzinho Vermelho e Outros Contos Infantis por Gil Cleber - Versão HTML

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Outras obras do autor:

Poema Épico (poesia)

Vento e Folhas (poesia)

No caminho para Muito Longe (romance)

Monólogos (poesia)

Um Corpo Sem Sombra (poesia)

Os livros de poesia, conto e divulgação

científica estão disponíveis em formato

PDF no site do autor.

www.gilcleber.com.br

Relatividade, a Teoria (divulgação

científica)

O romance No caminho para Muito

Longe pode ser solicitado gratuitamente

em versão impressa para o e-mail abaixo.

gilccarvalho@ig.com.br

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G i l C l e b e r

A Lenda

de

Chapeuzinho Vermelho

e o u t r o s c o n t o s i n f a n t i s

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Ilustração da capa:

Chapeuzinho Vermelho e o Lobo, de Gustav Doré, com fotografia de menina.

Composição da capa:

Gil Cleber

© Gil Cleber Duarte Carvalho

O conteúdo deste livro não poderá ser reproduzido nem utilizado comercialmente, a não ser mediante permissão do autor. Pode, no entanto, ser redistribu-

ído, em formato eletrônico ou impresso, desde que gratuitamente.

Obra registrada no Escritório de Direitos Autorais da Fundação Biblioteca Nacional.

Nota essencial:

Sendo o autor terminantemente contra as mudanças introduzidas pelo atual acordo ortográfico, mantém o texto de suas obras segundo o Formulário Ortográfico de 12 de agosto de 1943 com as alterações aprovadas pela lei no 5.765

de 18 de dezembro de 1971, sendo, portanto, conforme essa orientação que o presente livro é publicado.

Contato:

gilccarvalho@ig.com.br

www.gilcleber.com.br

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Índice

A lenda de Chapeuzinho Vermelho.................................. 9

Uma canção para a beleza ..............................................40

Menino ............................................................................ 53

Eu, pai ............................................................................. 74

Na noite voraz ............................................................... 100

Uma questão judicial ..................................................... 114

Três vozes na planície....................................................152

Colecionador de brinquedos ........................................ 185

João e Maria..................................................................206

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A lenda de Chapeuzinho Vermelho

A leitura de obras literárias nos obriga a um exer-

cício de fidelidade e de respeito na liberdade de in-

terpretação. Há uma perigosa heresia crítica, típi-

ca de nossos dias, para a qual de uma obra literá-

ria pode-se fazer o que se queira, nela lendo aquilo

que nossos mais incontroláveis impulsos nos suge-

rirem.

(Umberto Eco, Sobre a Literatura )

i | “Atravesso a abertura na cerca, passo para o quintal da casa ao lado e me aproximo da vidraça: ali estão eles conversando de

novo. Estão sempre conversando, puxa vida! Do que é que tanto

falam, afinal? É que não dá para ouvir, só ver – ver o movimento

dos lábios e os gestos que fazem… Não sei se falam alto ou baixo,

às vezes parece que estão discutindo, brigando não, só discutindo

algum assunto importante, então um deles abre um livro e come-

ça a ler enquanto o outro escuta, e depois continuam, mas com

esse vidros grossos na vidraça as palavras nem chegam cá fora,

no máximo escuto um som abafado… Mas às vezes acontece de a

vidraça não estar fechada, outro dia estava entreaberta e pude

ouvir alguma coisa… mamãe diz que é feio ficar ouvindo atrás da

porta, mas eu não fico atrás da porta e sim em frente a uma jane-

la, além do mais não estou escondida, eles podem me ver de lá, se

quiserem, é só olhar, portanto acho que não estou fazendo nada

de errado…

“O velho é o dono da casa, mudou-se para cá mês passado,

vi quando o caminhão chegou com as coisas dele. Antes a casa

estava vazia, esteve vazia muito tempo, parecia até abandonada…

O outro, o rapaz, aparece às vezes, costuma ficar naquela salinha

repleta de livros; vez por outra remexe nas estantes, apanha um

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livro e fica passando as folhas, compenetrado, parece muito es-

tudioso – deve ser, o velho por certo é, pois quando está sozinho,

principalmente à noite, senta-se à mesa, como agora, e lê, fica

lendo por muito tempo. Quanto tempo? Não sei, vez por outra

venho até aqui de noite e fico espionando… Será que vou virar

uma espiã quando crescer?… Bem, fico espionando sem correr o

risco de ser vista pois não sou boba de chegar até a área ilumina-

da, não que eu tenha medo de ser vista por ele, pelo velho, pois

agora é dia e estou aqui do mesmo jeito, se olharem pra cá pode-

rão me ver. Mas de noite é diferente, fico escondida no escuro só

pelo prazer de ficar escondida e olhar pra lá, espionar o velho…

Mas nunca me demoro muito, nunca fiquei até a hora em que ele

apaga a luz e vai dormir. Será que ele dorme? Deve dormir, todo

mundo dorme, mas às vezes penso que esse velho passa a vida

inteira lendo, lê tanto que se esquece de dormir. Será que isso é

possível? Se for, se acontece a alguém esquecer de dormir, esse

alguém só pode ser ele…

“São dois, um novo e um velho, já disse… disse? Acho que

disse… Não há mais ninguém na casa, quando o moço vai embora

o velho fica sozinho, pelo menos de noite não fica ninguém com

ele: a empregada que vem pela manhã fazer a arrumação – isso

eu já vi – vai embora depois do almoço e só retorna no dia seguinte. O velho é magrelo e muito feio, desdeixado, tem o cabelo

comprido e ralo dos lados e o alto da cabeça meio careca, faltam-

lhe dentes, quando ri ficam bem visíveis as falhas; a pele do rosto

é cheia de rugas, o nariz tem uma verruga na ponta, e as sobran-

celhas dele são de meter medo!… Anda meio curvado, usa sempre

um casaquinho de malha com os cotovelos puídos, hoje mesmo

está usando o casaquinho, e as calças são largas e presas na cin-

tura por um cinto arrebentado que ele emendou com barbante

grosso – dá pra ver o barbante de longe! Mas o outro, o rapaz…

ah, como é bonito! Quando eu tiver um namorado quero que seja

igual a ele: tem olhos claros, cabelos quase loiros bem cortados, e

possui músculos, dá pra perceber por baixo da camiseta, os bra-

ços são grossos, as mãos lindas, e a boca, e também… Ah, ele é

todo bonito. Eu gosto de vir mesmo é quando ele está, venho por

causa dele, se eu pudesse ia até lá, mas entrar na casa sem mais

nem menos não posso… que é que eu iria dizer?… Eles iam ficar

olhando pra mim quando eu aparecesse de repente, até se espan-

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tavam comigo, duvido que não, e então o que é que eu iria fa-

zer?…

“Sim, quero que meu namorado seja assim, igualzinho a e-

le…

“E agora o velho abre a vidraça, mas nem me vê aqui… ou

será que fingiu não me ver?… Não, penso que não, por que iria

fingir? Não me viu mesmo, está distraído, conversando… Talvez

assim eu possa descobrir o que eles falam, daí eu me aproximo

mais da janela para escutar melhor…”

ii | – Afinal, meu jovem amigo – diz o velho abrindo um pouco a vidraça e retornando à mesa –, você pensou no que eu disse? –

Senta-se. Parece triunfante. Bate com a palma das mãos na mesa.

– Dei-lhe dois dias para refletir e ver se dava pela coisa, e você

me volta na mesma!…

– Sim, Dr. Anatólio, eu pensei no que disse… mas não vejo

como uma simples história infantil possa ter outros significa-

dos…

– Pois reflita… o lobo mau encontra Chapeuzinho Verme-

lho no bosque e ambos conversam. Ao saber aonde ia a menina, o

lobo lhe propõe uma aposta: ver quem chega primeiro…

– Até aí…

– Mas o lobo corre, tomando um atalho, chega na frente,

come a boa velhinha e fica esperando por Chapeuzinho…

– …que da mesma forma será devorada pelo lobo…

– Sim, que será devorada pelo lobo, não sem antes…

– ?…

– Então?

– Não entendo.

– Não sem antes deitar-se na cama com ele e dizer: “Vovó,

que olhos grandes você tem!”, “São para te ver melhor, minha

netinha”, “Vovó, que braços grandes você tem!”, “São para te

abraçar melhor, minha netinha”… Você não percebe aí o malicio-

so jogo que a menina faz com o lobo?

– Ah!… Ela faz um jogo malicioso com o lobo? O senhor

pretende convencer-me de que em vez de a Chapeuzinho ser ví-

tima do lobo, é o lobo a vítima da Chapeuzinho?

– Por que se espanta?… – O velho se levanta, aproximan-

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do-se outra vez da janela. Prossegue: – Seria Chapeuzinho tão

cega que não fosse capaz de perceber que aquela criatura deitada

na cama não era a avó?… – então escancara a vidraça e grita para

a menina do lado de fora:

– Ei, garota, que é que você está fazendo aí?… Não sabe que

é feio ficar olhando para dentro da casa dos outros?…

– Desculpe – diz a garota –, já estou indo embora.

– Quem é ela?

– É, vá mesmo, vá logo! – Debruça-se no peitoril e curva-se

para fora: – Que coisa mais feia! Vou contar para sua mãe!

– Quem é ela? – o rapaz torna a perguntar.

– Da casa ao lado – responde o velho depois que a menina

some atrás da cerca. – Não é a primeira vez que a vejo rondando

aí pelo quintal.

– E o que ela quer?

– Ora – diz o velho com mau humor, voltando a sentar-se –

, o que pode querer? Fazer arte! É certo que já pisou um canteiro

de flores, reconheci pelo rastro de sapatos pequenos, e o vaso que

apareceu quebrado lá nos fundos só pode ter sido ela… Mas, vol-

tando ao assunto: não lhe parece estranho que a menina confun-

da o lobo com a avó?

– Bem, num conto de fadas tudo é aceitável…

– Mesmo num conto de fadas há coisas que não se podem

aceitar assim sem mais nem menos. Um lobo é um lobo, mesmo

que tenha vestido a camisola da avó, posto a touca da avó, calça-

do as pantufas da avó… nunca ficaria se parecendo com a avó a

ponto de a menina confundi-lo… com a avó!

– E qual é a sua opinião sobre isso?

– Fiquemos assim: Chapeuzinho percebe que quem está na

cama é mesmo o lobo, e resolve aproveitar-se para matar algu-

mas de sua curiosidades…

– Que curiosidades?

– Pra início de conversa, a da sedução.

– Sedução? Numa menina de seis ou sete anos?

– E onde você leu que Chapeuzinho tinha seis ou sete anos?

– Bem… presume-se que fosse bem novinha…

– Você presumiu, mas ela poderia ter onze ou doze. Ou

não?

– Poderia.

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– Como vê, nessa idade já teria acordado em si alguma cu-

riosidade sobre… “esses assuntos”, você me entende.

– E ela quer matar a curiosidade com um lobo?

– No final da história aparece um lenhador que mata o lobo

e salva a avozinha e a menina de morrerem. O lenhador abre a

barriga do bicho e de lá tira a velha e a criança. Não é um grande

disparate tudo isso? Será que o lobo agüentaria comer duas pes-

soas sem ao menos mastigar?

– Mais uma vez, trata-se de um conto de fadas.

– Mais uma vez é preciso saber o que aceitar e o que não

aceitar como plausível, mesmo num conto de fadas.

– E então…

– Digamos que não houvesse um lobo, mas um homem.

– Então não é mais um lobo?

– Lembremo-nos de que Chapeuzinho, ao encontrar o lobo

na floresta não sente medo e põe-se a conversar com ele, o que

não aconteceria se se tratasse de uma fera de verdade.

– Talvez a inocência não lhe permitisse ter medo…

– Dizer que talvez ela não tivesse motivo algum para ter

medo é mais viável. A figura do lobo é utilizada em lugar do ho-

mem pois, admitamos, perderia a graça se ficasse claro no conto

quem era de fato essa criatura com a qual Chapeuzinho marca

um encontro na casa da avó: um homem jovem, bonito, e além de

tudo esperto, ardiloso, com “faro”, um verdadeiro lobo!

– E o que esse “verdadeiro lobo” fez com a avozinha?

– De alguma maneira livrou-se dela. Não pensemos em na-

da trágico, digamos que lhe deu um sonífero e a meteu no armá-

rio, deitando-se depois em sua cama, pois sabia que Chapeuzinho

estava para chegar. Observe que o lobo podia comer a menina lá

mesmo na floresta, e é certo que diante dessa carne jovem e fres-

ca não iria nem pensar na velha. Isso nos mostra que a estratégia

da fera para apanhar a garota não faz nenhum sentido: por que

deixar para pegá-la na casa da avó e, comendo a esta primeiro,

correr o risco de enfastiar-se, isso para não falar numa indiges-

tão?

– E o que o senhor pensa?

– Primeiro, ele não pretendia mesmo em “traçar” a velha.

Depois, na floresta havia o perigo de alguém surpreendê-los, mas

na casa da avó, uma vez que esta saísse de cena, estariam em se-

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gurança. Esse homem verdadeiramente lupino tinha lá suas in-

tenções quanto à menina… mas não contava que ela pudesse ter

suas manhas…

– Mas que manhas?

– Ora, parece-me fora de questão que Chapeuzinho não

podia confundi-lo com a avó, mas vendo-o ali, no lugar dela, deu-

se conta de que era a oportunidade de fazer um jogo, que talvez já

estivesse em seus planos desde o encontro na floresta… Ao dizer

“que olhos grandes você tem, vovó, que dentes grandes você tem,

etc.” não se referia exatamente a olhos ou a dentes, ou poderia

ainda ter acrescentado, o que o conto não refere, que a “avó” pos-

suía mais “alguma coisa” bem grande… e quanto a comer, há aí

um duplo sentido…

– Quer dizer que o lobo não comeu a menina no sentido

denotativo…

O velho levanta as duas mãos espalmadas, encolhendo os

ombros.

– Mas, Dr. Anatólio, isto é reescrever o final da história…

ou até mesmo escrever outra!

– O que é ótimo, meu rapaz, ótimo! Isso é literatura! Se

temos liberdade para fazê-lo, por que não soltar um pouco a ima-

ginação? O resultado, como vê, não deixa de ser interessante.

– Nesse caso – conclui o moço, começando a rir – eu pode-

ria considerar que o lobo, do mesmo jeito que comeu a neta, já

havia comido a avó…

– Que, por sinal, devia ser uma velha bem assanhada, para

se deixar apanhar assim. Mas é mais provável, como disse, que

ele não desejasse correr o risco de enfastiar-se.

O moço estronda numa gargalhada, inventando sua rein-

terpretação da história:

– …ou quem sabe estivessem de acordo, tendo a velha ce-

dido a neta em troca de alguma vantagem, por exemplo, algumas

moedas de ouro…

– …e então – conclui o velho, casquinando com um chiado

do peito – podemos descartar o sonífero e o armário: bastava que

saísse de fininho, deixando o campo livre! – e arremata com uma

gargalhada catarrenta.

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iii | “Sim, quero que meu namorado, quando eu tiver um, seja i-

gual a ele…

“E por que não pode ser ele mesmo? Dentro de mais algum

tempo terei crescido… daqui a quatro anos terei quinze, minha

mãe disse que vai dar um baile quando eu fizer quinze anos, e

que eu estarei vestida de cor-de-rosa, e que à meia-noite deverei

dançar com papai uma valsa… e então, ela disse, serei adulta…

“Ora, se para ser adulta é só dançar uma valsa com papai,

por que não fazer o baile logo no ano que vem?… Se bem que ano

que vem ainda não terei quinze anos… deve ser por isso… Nin-

guém é adulto antes…

“O velho abriu a vidraça e mandou-me sair de seu quintal…

estará zangado comigo por eu escutar o que ele e o rapaz conver-

savam?… Será que ele estava dizendo alguma coisa que eu não

podia ouvir?… Ora, mas eles só falavam da Chapeuzinho Verme-

lho… O velho pensa que eu não escutei. Bobo. Fingi que ia embo-

ra, mas aqui detrás dessa moita ouvi tudinho…

“Chapeuzinho Vermelho era uma menina que um belo dia

foi visitar a avó e levar-lhe um bolo e um pote de mel. Na floresta

encontrou o lobo e eles apostaram para ver quem chegava pri-

meiro na casa da avó. O lobo chegou na frente e devorou a velhi-

nha, deitou na cama e ficou esperando pela menina… A história é

assim, mas eles estavam inventando um final diferente…

“Minha mãe, quando eu era menor, me contava um monte

de histórias: a da Bela Adormecida no bosque, a do Pequeno Po-

legar… Eu era bem pequena quando ela punha minha cabeça em

seu colo e, alisando-me os cabelos, começava a falar… minha mãe

falava com uma voz tão suave que eu acabava dormindo… dormi-

a, mas também aprendia todas as histórias… Agora, mamãe diz,

já estou ficando crescida, não é mais tempo de escutar histori-

nhas bobas, ‘a hora é de estudar’ ela diz, ‘estudar para crescer e

ficar sabida, ser doutora’… ora, como é que ela pode saber se eu

quero ser doutora? Eu gosto mais da Gata Borralheira do que do

livro de matemática… Mas mamãe ainda me conta histórias, vez

em quando relembra o tempo em que eu era pequenininha, me

abraça, puxa minha cabeça para o colo dela e me conta uma da-

quelas lindas histórias!…

“Perguntei à minha mãe quando eu teria peitos. Ela disse:

– 15 –

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‘Em breve, querida, dê tempo à natureza’, mas acontece que eu

queria ter peitos agora, para que o rapaz bonito que vem conver-

sar com o velho logo percebesse… quem sabe assim não se inte-

ressava em me namorar?… Pernas bonitas eu tenho, sei que são

bonitas porque na escola, quando visto o short para a aula de educação física, tem sempre um menino dizendo ‘que pernas!’, e ou-

tro dia mesmo apareceu um abusado, um moleque sardento que

disse: ‘Posso passar a mão nas tuas pernas?’, mas eu lhe pergun-

tei se ele não se enxergava, ‘por que não vai passar a mão nas

pernas da tua irmã?’, eu disse, e sabe o que o atrevido respon-

deu? ‘Porque as da minha irmã são muito magras’, onde já se

viu!… Eu lá vou deixar que um moleque daqueles fique alisando

minhas pernas?… É, pernas eu tenho, bem bonitas… mas peitos,

às vezes eu fico apalpando minhas mimicas, os biquinhos, em

volta… minha mãe diz que essa coisinha dura em volta das mimi-

cas, feito uma bolinha, são meus peitos que estão começando a

nascer, mas há que meses estão assim e não passam disso!… Será

que até eu fazer doze anos terão aumentado?… Quanto tempo

falta para eu fazer doze anos? Estamos em março, meu aniversá-

rio é em novembro… oito meses, puxa vida, como demora!… Em

oito meses não é possível que essas bolinhas não aumentem de

tamanho… em oito meses não serei adulta, não poderei dançar a

valsa com papai, mas quando eu puser uma blusinha de malha

bem apertada já vai aparecer alguma coisa… meus peitos, peque-

nos… mas o rapaz que vem conversar com o velho irá notar, du-

vido que não, decerto que irá perceber que eu já não sou uma

pirralha, e que não sou nada feia…

“O rapaz… como será o nome dele?… Preciso saber o nome

dele, pois para se namorar alguém é preciso saber o nome, onde

mora, essas coisas – se eu não souber onde ele mora, como vou

fazer para lhe mandar uma carta?… Ah, ele!… Ele eu deixava ali-

sar minhas pernas!…”

– Mira – a mãe chegando à janela –, filha, saia do quintal

dos outros e venha até aqui.

“Minha mãe sempre me chama quando não quero ir… se eu

entrar não vou saber o fim da conversa dos dois… eles estavam

rindo da Chapeuzinho, mas eu não entendi bem por que muda-

ram o final da história… O que o velho quis dizer com aquilo de

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sedução? Duvido se não era alguma indecência… Afinal, o lobo

era ou não era um lobo?… Será que ele queria namorar a Cha-

peuzinho?… A mamãe deve saber explicar isso…”

– Mamãe…

– Mira, quantas vezes já lhe disse para não ficar bisbilho-

tando no quintal do vizinho?

– Eu não estava bisbilhotando, mamãe. O que a senhora

quer?

– Venha ajudar-me a secar a louça. E tome cuidado…

– …que da última vez você deixou quebrar um prato! – a

menina imita o tom de voz da mãe e apanha a toalha.

– Hum, é bom que se lembre. Tenho uma boa notícia: qual-

quer dia destes iremos à roça.

– Na casa de vovó Benvinda?

– Na casa de vovó Benvinda, qual é o espanto?

– Quando?

– Um dia destes…

– Sim, mamãe, mas quando?

– Ora, Mira, quando?… Se eu estou dizendo “um dia des-

tes” é porque não sei ainda quando!

– Mamãe!… – choramingando.

– No começo de abril, penso eu.

– Mas ainda demora! Estamos no começo de março!

– E se você quiser ir, comporte-se, senão fica de castigo em

casa.

– Ah não, mamãe!…

– Nada de ficar bisbilhotando no quintal dos outros, se-

não…

– Está bem, mamãe, eu juro, eu juro!

A mãe sorri, dá um tapinha na bochecha da filha.

– Tome, seque.

– Mamãe…

– O que é?

– Sabe a história da Chapeuzinho Vermelho?

– Sei. Eu mesma já lhe contei essa história.

– Você acha que o lobo queria namorar a Chapeuzinho?

A mãe espanta-se, sorri franzindo muito a testa:

– Que idéia é essa, Mira? Onde você ouviu um disparate

desses?

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– Não… é uma idéia que eu tive…

– Ora essa! Que idéias você anda tendo!

– Mas ele queria ou não queria namorar a Chapeuzinho?

– E onde você viu um lobo namorar uma menina?… O lobo

era muito mau e devorou a Chapeuzinho, você não se lembra? Já

lhe contei essa história mais de uma vez.

– Sim, mamãe… Mas o lobo não tinha comido primeiro a

avó da Chapeuzinho?

– Sim, era um lobo muito faminto, pelo menos é o que diz a

história.

– E como é que um lobo pode comer duas pessoas?… Além

do mais, como é que ele comeu sem mastigar?

– E quem disse que ele não mastigou? Ele tinha dentes e-

normes, não se lembra da pergunta da Chapeuzinho? “Vovó, que

dentes grandes você tem!” e o lobo: “São para te comer melhor”…

– Mas se o lobo mastigou, como é que o caçador veio depois e

tirou a avó e a Chapeuzinho vivas de dentro da barriga dele?

– Ora, menina, menos conversa e mais atenção! Vê se seca

essa louça direito.

iv | “A noite passada pensei muito no que o velho da casa ao lado e o rapaz de olhos claros conversavam… pensei, pensei, quase perdi o sono, e hoje quando acordei continuei pensando… A história

que todo mundo sabe é assim: Chapeuzinho Vermelho vai na

casa da avó levar guloseimas para ela e, na floresta, encontra o

lobo, que lhe diz “vamos apostar qual de nós dois chega primei-

ro?”. Daí o lobo sai correndo e chega na frente, come a velhinha e

se veste com as roupas dela; deita-se na cama e fica esperando

pela Chapeuzinho, para comê-la também. Mas o velho acha que o

lobo tinha outras intenções, por isso deitou-se na cama e fingiu

ser a avó… é que o lobo queria fazer ‘coisa’ com ela… O rapaz dis-

se que o lobo devia estar de combinação com a avó, que saiu dei-

xando-o sozinho à espera da neta… entendi direitinho o que ele e

o velho falaram… Chapeuzinho, quando chegou, reconheceu o

lobo, mas também queria fazer ‘coisa’ com ele, por isso ficou se

fazendo de boba, e dizendo ‘que olhos grandes você tem, vovó’…

“Mas isso eu não posso perguntar à mamãe, que ela zanga,

porque são indecências… deve ser por isso que o velho me man-

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dou embora, não queria que eu escutasse… não queria, mas eu

escutei… Por que será que ele e o rapaz estavam dizendo essas