A Leste do Paraíso por John Steinbeck - Versão HTML

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Volume 1

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Título da edição original:

EAST OF EDEN

Autor: JOHN STEINBECK

Tradução:

JOÃO B. VIEGAS

Revisão:

MOURA VITÓRIA

Capa:

A. PEDRO

Copyright (c) 2001 by Livros do Brasil

Reservados todos os direitos pela legislação em vigor

Última edição - Lisboa - Setembro de 2001

ISBN 972-38-0002-0

VENDA INTERDITA NA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL

EDITORA LIVROS DO BRASIL

COLECÇÃO DOIS MUNDOS

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1

Pascal Covici

Querido Pat,

Surpreendeste-me quando esculpia uma figurinha de madeira e disseste:

- Porque não fazes qualquer coisa para mim?

Perguntei-te o que querias e respondeste:

- Uma caixa.

- Para quê?

- Para guardar coisas.

- Que coisas?

- Tudo o que tiveres.

Ora bem. Aqui tens a tua caixa. Pus nela quase tudo o que tinha e não está cheia. Tem dor e prazer, bons ou maus sentimentos, pensamentos maus e pensamentos bons - o prazer de modelar, algum desespero e a alegria indescritível de criar. E, em cima de tudo isto, há a minha gratidão e todo o meu amor que te tenho. Nem mesmo assim a caixa ficou cheia.

JOHN

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Primeira Parte

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Capítulo I

1

O vale do Salinas fica na Califórnia do Norte. É um sulco longo e plano entre duas cadeias de montanhas, e o rio Salinas desliza e serpenteia pelo centro até desaguar na baía de Monterey.

Recordo-me dos meus nomes de infância para as plantas e para as flores secretas, do esconderijo de cada sapo e da hora a que os pássaros acordavam no Verão - das árvores e das estações do ano - das pessoas e do seu aspecto; recordo-me até do cheiro que tinham. A memória olfactiva é muito rica.

Recordo que as montanhas Gabilanes, a leste do vale, eram alegres e cheias de sol, lindas, tendo um ar de convite que despertava em nós o desejo de subir pelas suas veredas cálidas, quase como quem sobe para o colo da mãe bem-amada. Eram montanhas atraentes envoltas no seu manto de erva ruça.

Para o lado do Ocidente, recortava-se no céu a serra de Santa Lucias, muralha escura e taciturna, inamistosa e ameaçadora, entre o vale e o mar. Sempre tive medo do Oeste, sempre gostei do Leste. Não saberei dizer donde me vem tal ideia; só se for por a manhã vir dos cumes dos Gabilanes e a noite cair das cristas de Santa Lucias. Pode muito bem ser que o nascimento e a morte do dia tenham concorrido para a impressão que me ficou dessas duas cordilheiras.

De ambos os lados do vale precipitavam-se pequenas torrentes que iam cair no leito do rio Salinas. Nos invernos chuvosos, as torrentes engrossavam e iam aumentar o Salinas até o fazer sair do leito, espumejante e furioso, tornando-o destruidor. O rio arrastava a terra das propriedades ribeirinhas; arrancava e levava celeiros e casas; vacas, porcos e carneiros eram apanhados desprevenidos e afogados nas suas águas barrentas que os empurravam para o mar. Depois, com o fim da Primavera, o rio regressava ao seu leito e apareciam os bancos de areia. No Verão, escondia-se. Do turbilhão invernal, apenas restavam algumas poças junto dos bancos mais altos. A erva recuava e os salgueiros endireitavam-se com os destroços da torrente nos ramos mais altos.

O Salinas era apenas um rio esporádico: o sol do Verão fazia-o desaparecer.

Não era um rio a valer mas era o único que tínhamos e por isso nos gabávamos dele - por ser perigoso nos Invernos chuvosos e por ser seco nos Verões secos.

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Podemos gabar seja o que for, se nada mais tivermos. Quanto menos se tem, maior é a vontade de o gabar.

O solo do vale do Salinas, entre as cordilheiras e a seguir ao sopé das montanhas, é plano porque este vale constituía o fundo duma reentrância do mar com mais de cento e cinquenta quilómetros. A foz do rio em Moss Landing era há centenas de anos a entrada deste longo braço de mar. Uma vez, o meu pai abriu um poço a mais de oitenta quilómetros do mar. A sonda começou por encontrar uma camada de húmus, depois cascalho e, por fim, areia branca cheia de conchas e até de bocados de ossos de baleia. Sob a camada de quatro metros de areia, havia novamente terra vegetal. A sonda atravessou um pedaço de sequóia, essa madeira vermelha que não apodrece. Antes de ter sido um mar interior, o vale deve ter sido uma floresta. E, essas coisas aconteceram mesmo debaixo dos nossos pés. Às vezes, à noite, parecia-me que podia sentir o mar e a floresta que existira antes dele.

Sob as terras planas a camada de húmus era espessa e fértil. Bastava um bom Inverno chuvoso para que se cobrisse de erva e de flores. A floração da Primavera, nos anos húmidos, era um espectáculo inacreditável. O fundo do vale e o sopé das colinas pareciam um tapete de tremoços e de papoilas. Uma mulher disse-me um dia que as flores coloridas pareceriam ter mais brilho se lhes juntassem algumas flores brancas. As pétalas azuis do tremoço são orladas de branco e por isso um tremoçal é mais azul do que se pode imaginar. No meio disto, havia explosões de papoilas da Califórnia. Estas têm uma cor quente - não laranja, nem oiro, mas se o oiro fosse líquido e emitisse um vapor, esse vapor doirado seria a cor das papoilas. Depois vinha a estação da mostarda amarela.

Era tão alta quando o meu avô chegou ao Vale que apenas se conseguia ver a cabeça de um homem que no meio dela passasse a cavalo. Nas terras altas, a erva estava semeada de rainúnculos, de margaridas e de violetas amarelas com o centro negro. E um pouco mais tarde, surgiam os cravos da índia, vermelhos e amarelos. Eram as flores dos grandes espaços expostos ao sol.

Sob os carvalhos, numa atmosfera sempre sombria, cresciam as avencas perfumadas, e à beira dos regatos pendiam cachos de doiradinhas. E depois havia os jacintos, minúsculas lanternas dum branco aveludado e quase pecami-noso, mas eram tão raros que, quando uma criança descobria algum, se sentia privilegiada e esquisita durante todo o dia.

Quando chegava o mês de Junho, a erva estiolava e todo o Vale ficava castanho, mas era um castanho em que só entrava o oiro, o açafrão e o vermelho

- uma cor indescritível. Então, as terras e os cursos de água secavam até às próximas chuvas. Apareciam fendas no solo. O Salinas era absorvido pelo seu leito de areia. O vento soprava no Vale, erguendo poeira e palha, adquirindo 7

força e tornando-se mais áspero à medida que se aproximava do Sul. À noite parava. Era um vento nervoso e cortante que irritava a pele e queimava os olhos. Os homens que trabalhavam nos campos usavam óculos e protegiam o nariz com um lenço atado em volta da cara.

A terra do Vale era espessa e rica mas, junto às vertentes, tão escassa que mal chegava para alimentar as raízes das ervas.

Quanto mais se subia, mais se adelgaçava, desnudando a rocha, até que, no alto, se transformava num tapete de cascalho que cegava os olhos com o reflexo do sol.

Até aqui só falei dos anos férteis em que as chuvas eram abundantes. Mas havia também anos de estiagem, terror do Vale. As chuvas vinham num ciclo de trinta anos. Primeiro, havia cinco ou seis magníficos anos de chuva com dezanove a vinte e cinco polegadas de água: a vegetação rebentava por toda a parte. Depois, seis ou sete anos regulares com doze a dezasseis polegadas de chuva. Por fim, eram os anos secos com as suas escassas sete ou oito polegadas.

A terra endurecia, a vegetação não tinha forças para crescer e surgiam grandes peladas por todo o Vale. Os carvalhos viçosos pareciam petrificados e a artemísia ficava pardacenta. O solo estalava, os ribeiros secavam, o gado retouçava ramos quebradiços; as vacas emagreciam e, às vezes, morriam de fome. As pessoas, se queriam beber, tinham de ir buscar a água em barris. Então os fazendeiros e os criadores de gado amaldiçoavam o Vale. Algumas famílias vendiam tudo por uma ninharia e iam-se embora. Era fatal: durante os anos de estiagem, as pessoas esqueciam os anos prósperos e, assim que voltava a chuva, esqueciam a seca. Sempre foi assim.

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Assim era o extenso vale do Salinas. A sua história era igual à do resto do Estado. Primeiro houvera índios, mas duma raça degenerada, sem energia, incapaz de cultivar ou de inventar, alimentando-se de gorgulhos, de gafanhotos e de mariscos, tão preguiçosa que não caçava nem pescava. Para fazer farinha, moíam bolota amarga; as próprias guerras não passavam de meras panto-mimas.

Depois vieram os conquistadores espanhóis, duros, vorazes e realistas, sedentos de oiro e de Deus. Coleccionavam almas como coleccionavam jóias.

Acumularam montes e vales, rios e horizontes, do mesmo modo que o homem de hoje obtém licenças para construir lotes de habitações. Alguns deles estabele-ceram-se em terras tão grandes como reinos, dons de reis de Espanha que 8

ignoravam o valor do presente. Estes primeiros proprietários viveram uma vida de senhores feudais pobres, deixando que os rebanhos pastassem em liberdade e se multiplicassem. Periodicamente, os donatários matavam os animais para lhes tirar o coiro das botas e o sebo das velas, abandonando a carne aos abutres e aos coiotes.

Quando os Espanhóis chegaram, tiveram que baptizar tudo o que viram. É

este o primeiro dever dum explorador - um dever e um privilégio. Tem que se baptizar um lugar antes de lhe inscrever o nome num mapa desenhado à mão.

Tratava-se de gente piedosa, e só os padres, infatigáveis companheiros dos soldados, sabiam ler, escrever, redigir os diários e desenhar os mapas. Os primeiros lugares foram, portanto, crismados com nomes de santos ou de festas religiosas celebradas ao acaso das paragens. Há muitos santos, mas a lista não é inesgotável. Assim, surgem muitas repetições nas primitivas designações: San Miguel, St. Michael, San Ardo, San Bernardo, San Benito, San Lorenzo, San Carlos, San Francisquito. E depois as festas: Natividad - a Natividade; Nacimiente - o Nascimento; Soledad - a Solidão. Mas alguns sítios também foram baptizados de acordo com o estado de espírito em que se encontrava a expedição nesse dia: Buena Esperanza - Boa Esperança; Buena Vista, porque a vista era bonita; e Chualar, porque o lugar tinha o seu encanto. Depois seguiam-se os nomes descritivos: Paso de los Robles, por causa dos carvalhos; Los Laureles, porque havia loureiros; Tularcistos, por causa dos caniços dum pântano; e Salinas, por causa do alcali que era branco como o sal.

Depois baptizaram os lugares consoante os animais que lá viram: Gabilanes, por causa dos falcões que voavam nas montanhas; El Topo, por causa das toupeiras; Los Gatos, por causa dos gatos selvagens. Certas vezes, a configuração natural sugeria um nome: Tassajara - uma chávena com o pires; Laguna Seca - uma lagoa seca; Corral de Tierra - uma barreira de terra; Paraíso, porque parecia estar-se no Céu.

Depois vieram os Americanos - mais vorazes porque eram em maior número. Apoderaram-se das terras e, para se confinarem na legalidade, refizeram as leis. As propriedades espraiaram-se pela região, primeiro no vale e depois nos contrafortes das montanhas - casinhas de madeira com telhados de sequóia, currais de paus com a extremidade aguçada. Onde quer que irrom-pesse um fio de água, erguia-se uma casa que abrigava uma família que logo crescia e se multiplicava. Plantaram-se pés de gerânios e de roseiras nos jardinzinhos. As carroças traçaram trilhos nas pistas. O trigo, a aveia e a cevada expulsaram a mostarda amarela. De quinze em quinze quilómetros, ao longo das estradas movimentadas, instalaram-se vendas e ferreiros que se transfor-maram em núcleos de povoações: Bradley, King City, Greenfield.

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Mais ainda do que os Espanhóis, os Americanos tinham tendência para baptizar os lugares com nomes descritivos. Esses nomes exercem em mim uma grande fascinação, pois cada um deles sugere uma história esquecida. Estou pensando em Bolsa Nueva - a bolsa nova; Morocojo - o Mouro Coxo (quem era e como foi ali parar?); o Desfiladeiro do Cavalo Selvagem e o da Fralda da Camisa. Os lugares ficam marcados para sempre por aqueles que os baptizaram, respeitosos ou irrespeitosos, poéticos ou trocistas. Pode chamar-se San Lorenzo a qualquer coisa, mas Desfiladeiro da Fralda da Camisa ou do Mouro Coxo tem outro sabor.

Para quebrar a violência do vento que ameaçava arrastar as terras lavradas, os fazendeiros plantaram quilómetros e quilómetros de filas de eucaliptos. E era este o aspecto do vale do Salinas quando o meu avô trouxe a mulher e se instalou nas colinas, a Leste de King City.

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Capítulo II

1

Para tentar reconstituir a história dos Hamilton, tive de me fiar nos «diz-se», folhear velhos álbuns de fotografias e evocar recordações, algumas delas imprecisas e muitas vezes recheadas de imaginação, pois, além das certidões de nascimento, de casamento, de propriedade e de óbito, não deixaram mais nenhum vestígio nos arquivos do Vale. Não eram pessoas eminentes.

O jovem Samuel Hamilton e a esposa vieram da Irlanda do Norte. Ele era filho de pequenos lavradores que, há muitas centenas de anos, viviam da terra na sua casa de pedra. Os Hamilton eram muito educados e cultos. E, como acontece com frequência no seu verde país, eram aparentados a pessoas muito importantes e a pessoas muito simples; dois primos podem ser, baronete, um, e o outro, mendigo. Os Hamilton descendiam dos reis da Velha Irlanda, como todo o irlandês que se preza.

Ignoro por que motivo Samuel abandonou a casa de pedra e os verdes alqueives dos antepassados. Não se entregava à política e é pouco verosímil que tenha sido expulso por actividades antigovernamentais; e, como era intrinseca-mente honesto, ficam eliminados os motivos de ordem policial. O amor - dava-se a entender por palavras veladas na minha família - era a causa; mas amor por uma mulher que não era a que desposara. Traduzira-se tal amor num êxito total ou numa derrota? Não o sei. Sempre preferimos optar pela primeira solução.

Como se poderia supor que uma camponesa irlandesa tivesse podido repudiar o senhor dutor Samuel?

Chegou ao Vale com novas energias, o coração cheio de coragem, inventivo, e respirando actividade. Tinha os olhos muito azuis e, quando estava fatigado, um deles desviava-se levemente para fora. Era um homem robusto mas dotado duma espécie de delicadeza. Apesar do trabalho emporcalhante da quinta, parecia andar sempre imaculado. Tinha mãos hábeis: bom ferreiro, carpinteiro e serralheiro hábil, podia criar todo o género de coisas com simples bocados de madeira e de ferro. Inventava continuamente novos métodos para fazer melhor e mais depressa o que sempre se fizera de outro modo. Mas nunca teve o dom de ganhar dinheiro. Tinham-no outros homens que enriqueceram explorando as invenções de Samuel. Ele nunca passou de um assalariado.

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Não sei porque foi que ele se fixou no vale do Salinas. Era uma escolha estranha da parte de um homem que vinha de um país verdejante. Convém esclarecer que chegou durante o período húmido do ciclo, cerca de trinta anos antes do fim do século. Acompanhava-o a mulher: uma irlandesinha seca e sólida, tão destituída de humor como um frango, uma presbiteriana austera, que vivia fechada num sistema de valores morais que nos tirava toda a vontade de gozar os prazeres da vida.

Não sei onde foi que Samuel a encontrou, nem como a namorou, nem como a desposou. A imagem duma mulher à sua semelhança devia estar gravada em qualquer parte do seu coração. Samuel respirava o amor, mas nunca correu qualquer boato de que enganasse a mulher.

Quando Samuel e Lizza chegaram ao vale do Salinas, já estavam ocupados todos os bons terrenos planos, as encostas férteis e as matas, mas ainda havia terras marginais. Samuel Hamilton instalou-se a leste da actual King City, no meio das colinas desnudadas.

Seguiu o processo habitual. O governo concedeu-lhe um sesmo para ele, -

um sesmo para a mulher, e um sesmo para a criança que ia nascer, pois ela estava grávida. Com os anos, nasceram nove filhos - quatro rapazes e cinco raparigas - e a propriedade aumentou de um sesmo por filho, o que totalizava onze sesmos, ou seja cerca de 900 hectares.

Se a terra tivesse qualquer valor, os Hamilton teriam sido gente rica, mas eram hectares duros e secos. Não havia água e o sílex perfurava a fina camada de húmus. Nem a própria artemísia conseguia vingar em tal terreno e os carvalhos viviam enfezados por falta de humidade.

Mesmo nos anos bons, a erva era tão ruim que o gado se extenuava à procura de pastos. Do alto das suas colinas escalvadas, os Hamilton tinham uma bela vista das terras gordas do fundo do Vale e da faixa verde onde corria o Salinas.

Samuel construiu com as próprias mãos uma casa, um celeiro e uma oficina de ferrador. Depressa compreendeu que, mesmo que tivesse dez mil acres de terra naquelas colinas, corria o risco de morrer de fome. Construiu, então, uma broca e foi abrir poços nas propriedades de lavradores mais felizes.

Depois, com uma máquina de malhar inventada por ele, foi até ao Vale malhar as colheitas que não podiam germinar no seu próprio solo. Na oficina, afiava relhas de arado, reparava grades de esterroar, soldava cubos de roda quebrados e ferrava cavalos. De todos os lados do Vale, os agricultores levavam-lhe ferramentas para consertar ou para aperfeiçoar. Para mais, gostavam de ouvir Samuel falar de poesia e de filosofia e da evolução das ideias num mundo que continuava a existir no exterior do vale do Salinas. Samuel tinha uma bela voz 12

profunda. Tão bom cantor como orador, não tinha sotaque propriamente dito, mas as inflexões e a cadência da sua voz soavam bem aos ouvidos dos lavradores lá de baixo, gente muito taciturna. Eles traziam uísque e bebiam-lhe forte sob o olhar desaprovador da Sr.á Hamilton, postada atrás da janela da cozinha.

Depois, mastigavam grãos de anis silvestre para disfarçar o cheiro do álcool.

Quando não havia três ou quatro homens em torno da forja, escutando Samuel e o seu martelo, era um mau dia. - Os lavradores diziam que ele tinha o génio do cómico e repetiam-lhe as histórias. Mas nas suas cozinhas elas já não tinham o mesmo sabor e eles perguntavam a si mesmos como se tinham arranjado para perder uma parte da graça pelo caminho.

Com a broca, a malhadeira e a forja, Samuel poderia ter enriquecido, mas faltava-lhe tino para os negócios. Os fregueses, com falta de dinheiro, prome-tiam pagar depois da ceifa, após o Natal, a seguir, depois... Depois, esqueciam-se. Samuel ignorava a arte de lho lembrar. Foi por isso que os Hamilton ficaram pobres.

Todos os anos, regularmente, nascia um filho. Os poucos médicos da região, com trabalho até aos olhos, raramente eram chamados para um nascimento, a não ser que o feliz acontecimento se transformasse em pesadelo.

Samuel Hamilton ajudou a nascer todos os seus filhos, cortou e atou os cordões umbilicais, deu palmadas nos rabinhos e limpou toda a trapalhada. Quando o filho mais novo nasceu e começou a sufocar, Samuel colou a boca à do recém-nascido e insuflou-lhe a vida. A sua habilidade e a sua delicadeza eram tão grandes que o chamavam vinte milhas em redor para assistir aos partos - quer se tratasse duma égua, duma bezerra ou duma mulher.

Ao alcance da mão, tinha sempre um grande livro negro com a capa ornada dum título em letras douradas: A Medicina Familiar do Doutor Gunn.

Certas páginas estavam falhadas e rasgadas; outras nunca viram certamente a luz do dia. Folhear o Doutor Gunn é um excelente meio para conhecer a história médica dos Hamilton. As páginas usadas tratavam de fracturas, cortes, golpes, anginas, sarampo, espinhela caída, escarlatina, difteria, reumatismos, dores femininas, hérnia - e evidentemente tudo o que dizia respeito à gravidez e ao parto. Quanto aos capítulos sobre a blenorragia e a sífilis, estavam intactos -

prova de que os Hamilton tinham muita virtude, ou muita sorte.

Suave no falar e de alma terna, Samuel não tinha quem se lhe comparasse para acalmar as crises de nervos e sossegar uma criança assustada. Era um homem limpo e de espírito imaculado. Os visitantes da forja paravam um instante de praguejar - não porque estivessem constrangidos, mas automaticamente, como se o lugar não se prestasse a tal.

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Talvez por causa do ritmo com que falava, Samuel aparentou sempre algo de estrangeiro. Tanto os homens como as mulheres lhe confiavam coisas que nunca teriam dito a um parente ou a um amigo. Estranho à comunidade, Samuel oferecia a segurança dum túmulo.

Apesar de também ser irlandesa, Lizza Hamilton era muito diferente. A sua cabecinha redonda estava cheia de ideias feitas. Tinha um nariz arrebitado e um queixinho metido para dentro.

Era uma boa cozinheira, e a sua casa - pois era a sua casa - andava escovada, varrida e lavada. O permanente estado de gravidez não a impedia de trabalhar, excepto durante as últimas duas semanas. Devia ter uma bacia provida de barbas de baleia, pois todos os filhos foram sempre robustíssimos.

Lizza tinha uma noção maravilhosamente desenvolvida do pecado. A ociosidade era um pecado, assim como os jogos de cartas, que eram uma forma de ociosidade a seus olhos. Desconfiava das distracções - quer se apresentassem sob a forma de dança, de canto ou até de riso - porque as pessoas que se divertem são uma presa oferecida ao demónio. E era pena porque Samuel tinha o riso fácil. Mas creio que Samuel, mesmo sério, era uma presa ideal para o demónio. A mulher protegia-o sempre que podia.

Repuxava os cabelos para trás e juntava-os na nuca em carrapito. Se não consigo recordar a maneira como se vestia, é porque usava vestidos a condizer com o carácter. Não possuía a mínima dose de humor e uma saída espirituosa era coisa rara nela. Não teve nenhuma fraqueza de avó e assustou os netos.

Suportou heróicamente os sofrimentos da vida, convicta de que tal era a vontade do seu Deus. A recompensa viria mais tarde.

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Naqueles que primeiro chegaram ao Oeste e, em especial, naqueles que vinham das quintarolas europeias ciosamente protegidas e cadastradas, a vista de toda aquela terra que se podia adquirir assinando um papel e construindo nela uma casa, despertou uma furiosa loucura de propriedade. Queriam terra -

boa, se possível, mas terra antes de tudo. Talvez se lembrassem inconsciente-mente de que o poderio feudal repousava na propriedade terrena. Os primeiros chegados apoderaram-se de terras de que não precisavam e que não podiam cultivar, terras sem valor, só pelo prazer de as possuir. Alteraram-se todas as proporções. Um homem que poderia viver à vontade com dez acres na Europa levava uma vida de cão em dez mil acres na Califórnia.

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Não foi preciso muito tempo para que todas as colinas escalvadas entre King City e San Ardo fossem divididas entre famílias miseráveis, espalhadas pelos montes, lutando furiosamente para arrancar a subsistência ao solo pedregoso. Essa gente partilha com os coiotes uma vida de desespero, na extremidade do mundo do Vale. Tinham chegado sem um chavo, sem material, sem ferramentas, ignoravam as técnicas da agricultura a aplicar nesse país novo para eles. Pergunto a mim mesmo se eram divinamente estúpidos ou se viviam animados por uma fé imensa. Seja como for, uma aventura colectiva de tal importância não deve reproduzir-se todos os dias neste pobre globo. As famílias cresceram e multiplicaram-se. Possuíam uma ferramenta ou uma arma que já não se sabe utilizar em nossos dias. Talvez ainda alguém a consiga descobrir. Diz-se que essas pessoas obtinham de um Deus justo e bom a força para viver e que os outros problemas se resolviam por si. Mas eu creio que é porque tinham confiança em si próprios, na sua qualidade de homens, porque sabiam ser, para lá da dúvida, sólidas entidades morais, pelo que podiam oferecer a Deus a sua coragem e a sua dignidade, recebendo-a novamente d'Ele, mas mais fortalecida. Se tais coisas desapareceram é talvez por os homens já não confiarem em si próprios. E se assim é, a única solução que lhes resta é procurarem um homem forte, ignorando a dúvida, e, mesmo que ele não tenha razão, agarrarem-se-lhe às abas do casaco.

Se muitas pessoas chegavam ao Vale sem um ceitil; outras, depois de venderem o que lhes pertencia, chegavam com dinheiro para principiar uma vida nova. Compravam terra, mas terra boa, e mandavam construir uma casa de boa madeira. Tinham tapetes e as janelas adornavam-se de pequenos losangos de vidro colorido. Essas famílias eram numerosas. Arrancavam a mostarda e semeavam trigo.

Adam Trask achava-se nessas circunstâncias.

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Capítulo III

1

Adam Trask nasceu em 1862 numa propriedade do Connecticut, seis meses depois de o pai se ter alistado num regimento da província. Enquanto cuidava do filho e dirigia a propriedade, a mãe de Adam ainda arranjou tempo para se entregar a uma teosofia primitiva. Pressentindo que o marido seria morto por esses selvagens bárbaros que eram os rebeldes, preparou-se para se lhe juntar naquilo a que chamava o além. O marido voltou ao lar seis semanas após o nascimento de Adam, com a perna direita cortada à altura do joelho, mancando sobre uma tosca perna de pau que fizera com um pedaço de faia. Ao chegar, tirou da algibeira a bala de chumbo que lhe tinham dado a morder, enquanto lhe cortavam a perna.

Cyrus, o pai de Adam, parecia ter o diabo no corpo. Era um selvagem, um desvairado que conduzia o carro de duas rodas a velocidades loucas. Nem a mutilação o acalmara. A perna de pau transformara-se num meio de sedução e chegava quase a causar inveja. A breve carreira militar fora para ele uma fonte de prazer. A sua natureza selvagem pudera expandir-se à vontade, durante o curto período da instrução, com o vinho, o jogo e as mulheres de má vida.

Quando foi para o Sul render uma unidade, os prazeres mudaram mas foram, também, intensos. Viu terras novas, roubou frangos e derrubou raparigas rebeldes em medas de feno. O horror monótono das manobras não o afectava.

Avistou o inimigo pela primeira vez numa manhã de Primavera, às oito horas.

Às oito e meia fora atingido na perna direita por um estilhaço de granada que lhe rasgou os tecidos e desfez os ossos. Teve sorte, os Sulistas recuaram e os médicos evacuaram-no para a retaguarda. Aí, enquanto lhe cortavam os tendões, serravam os ossos e cauterizavam a ferida, Trask viveu cinco minutos de pavor. Aliás, as marcas dos dentes na bala ficaram como prova. Sofreu indizivelmente enquanto o coto cicatrizava nas estranhas condições de assepsia que reinavam então nos hospitais. Mas Cyrus era resistente e enérgico. Mesmo sem perna, resolveu procurar madeira para fazer uma muleta. Atrás duma pilha de tábuas, encontrou uma preta que lhe assobiou e, mediante dez cêntimos, lhe pregou um violentíssimo escarépio. Assim que fez a nova perna de faia e compreendeu a infelicidade que o atingira, partiu coxeando à procura da 16

preta. Deleitava-se contando aos camaradas do hospital o que faria à rapariga se lhe pusesse a mão em cima. Tencionava cortar-lhe o nariz e as orelhas e obrigá-

la a devolver o dinheiro. Enquanto aperfeiçoava a perna, descrevia aos companheiros o que faria: «E quando tiver acabado, a puta há-de ficar com uma rica cara... Nem os índios bêbedos a hão-de querer.

A negra dos seus amores deve ter desconfiado do que a esperava, pois desapareceu. Cyrus foi desmobilizado. A blenorragia já não supurava. Quando regressou ao Connecticut, levava apenas o suficiente para contaminar a mulher.

A Sr.a Trask era uma mulher pálida e ensimesmada. Nunca nenhum raio de sol lhe tocara as faces e os músculos dos lábios nunca haviam sido contraídos por um verdadeiro sorriso. Empregava a religião como um agente terapêutico para tratar o mundo e a si própria. Se o mal evoluía, adaptava a religião ao mal.

Quando compreendeu que a teosofia que arquitectara para comunicar com um esposo morto se mostrava inútil, procurou um outro motivo para sofrer.

Depressa foi recompensada pela infecção que Cyrus trouxera da guerra. Assim que teve a certeza, substituiu a antiga iluminação por uma nova. O deus de contacto transformou-se num deus de vingança, o deus mais magnífico de todos os que inventara e o último, pela evolução dos acontecimentos. Não havia dúvida de que a sua miséria física era a punição de certos sonhos que tivera na ausência do marido. Mas a infecção não era um castigo suficiente para os seus desmandos durante o sono. O novo deus era exigente em matéria de castigo.

Pedia-lhe um sacrifício.

Procurou a maneira de humilhar a carne e o espírito e, finalmente, com uma espécie de alegria, encontrou a resposta: o deus exigia-lhe o seu próprio sacrifício. Levou duas semanas a emendar os erros de ortografia da carta de despedida, onde confessava crimes que não podia materialmente ter cometido e erros que estavam muito além das suas possibilidades. Depois, uma noite, à luz do luar, envolta numa mortalha confeccionada em segredo, foi afogar-se num charco tão pouco profundo que teve de ajoelhar na lama e manter a cabeça debaixo de água - o que demonstrava uma grande força de vontade. Quando, finalmente, a inconsciência começou a apoderar-se dela, pensou, com uma ponta de aborrecimento, que a mortalha ficaria manchada de lama quando a retirassem da água no dia seguinte. O que não deixou de acontecer.

Cyrus Trask carpiu a mulher com um jarro de uísque e três camaradas de regimento que regressavam ao Maine natal. Adam chorou muito no princípio do velório, pois os quatro homens, ignorantes da puericultura, esqueceram-se de alimentar o bebé. Cyrus resolveu o problema dando-lhe a chupar um trapo molhado em uísque. Adam, após três ou quatro doses, adormeceu. Acordou e chorou várias vezes durante o luto, tendo sempre direito à chupeta. O bebé não 17

se desembebedou durante dois dias e meio. A matéria cinzenta talvez tivesse sofrido, mas o tratamento foi benéfico para o metabolismo: esses dois dias e meio dotaram-no de uma saúde de ferro. Quando, por fim, ao terceiro dia, o pai foi comprar uma cabra, Adam bebeu gulosamente o leite, vomitou, tornou a beber e pareceu satisfeito. O que não teve o condão de alarmar o pai, pois o álcool fazia-lhe o mesmo efeito.

Decorrido um mês, Cyrus Trask já fizera a sua escolha: ela tinha dezassete anos e era filha de lavradores vizinhos. O namoro foi rápido. Ninguém teve dúvidas acerca das intenções do viúvo que eram razoáveis e honestas. O pai da prometida reduziu ao mínimo o tempo de noivado: tinha duas filhas mais novas. Alice nunca tivera mais nenhum pretendente.

Cyrus precisava duma mulher para criar Adam, tratar da casa e cozinhar.

Uma criada custa dinheiro. Cyrus tinha um feitio sólido e precisava duma mulher na cama. Uma amante custa dinheiro, a não ser que se case com ela. Em duas semanas namorou, desposou, desflorou e emprenhou Alice. Ninguém, na vizinhança, achou que andara depressa de mais. Nessa época, era natural que um homem, enquanto vivo, desse cabo de quatro mulheres.

Alice Trask tinha um grande número de qualidades admiráveis: sabia tratar da casa e o trabalho não a assustava. Não era necessário vigiá-la, pois era feia, com olhos pálidos e dentes irregulares. Era uma mulher saudável apesar do seu aspecto doentio. Suportou a gravidez sem uma queixa. Nunca se soube se gostava dos filhos, porque nunca ninguém lho perguntou e não era mulher que falasse sem que a interrogassem. Era esta a sua melhor qualidade, pensava Cyrus: nunca dava opiniões nem sentenças e, quando estava um homem a falar, ficava-se com a vaga impressão de que ela o ouvia enquanto se entretinha com o trabalho doméstico.

A juventude, a inexperiência e os silêncios de Alice Trask foram um estímulo para Cyrus. Além de continuar a explorar a sua propriedade de acordo com os métodos que se adoptavam na região, abraçou uma nova carreira: a de antigo combatente. A mesma energia que o fizera ser um selvagem, deu azo a que se tornasse um homem sensato e reflectido. Fora do Ministério da Guerra, ninguém lhe conhecia a folha de serviço. A perna de pau era a garantia de que passara pelas trincheiras e de que nunca mais lá voltaria. Timidamente, come-

çou a contar as suas campanhas a Alice. Mas, assim que dominou a técnica, as batalhas aumentaram de importância e se, ao princípio, soube que mentia, não tardou a esquecê-lo. Ele, que se desinteressara da guerra quando fora soldado, pôs-se a comprar livros históricos e tratados militares, e fez-se assinante dos jornais de Nova Iorque para ler os comunicados. Para consolidar os conhecimentos geográficos, comprou mapas. Finalmente, tornou-se uma autoridade na 18

matéria. Podia não só citar as datas das batalhas e descrever a maneira como se tinham desenrolado, como conhecia os nomes das unidades que haviam participado, os números dos regimentos, os patronímicos dos coronéis e os lugares onde tinham nascido. Acabou por se convencer de que tinha tomado parte nos acontecimentos que narrava.

Esta transformação efectuou-se gradualmente durante o crescimento de Adam e do seu meio-irmão. Adam e o pequeno Charles escutavam religiosa-mente o pai explicar-lhes as tácticas dos generais, porque tinham cometido erros e como os teriam podido remediar. Chegara mesmo a chamar a atenção de Grant e de Mac Clellan para os erros que tinham praticado, suplicando-lhes que tomassem em consideração o seu ponto de vista. Invariavelmente, os generais recusavam e só mais tarde é que se davam conta de como ele tinha razão.

Cyrus teve a inteligência de não querer brilhar com divisas ilegais.

Soldado raso fora e soldado raso se manteve. Se se fizesse uma ficha das suas actividades, chegava-se à conclusão de que o soldado Trask fora o infante mais móvel da história. Dotado de ubiquidade, encontrava-se, pelo menos, em quatro sítios diferentes ao mesmo tempo. Talvez fosse o instinto que lhe ditasse a necessidade de não contar as suas campanhas por ordem cronológica. Alice e os filhos tinham dele uma imagem completa: um soldado raso orgulhoso da sua posição que, não só participara em todas as batalhas espectaculares ou importantes, mas também tinha acesso ao quartel general, onde emitia opiniões, escutadas com o maior respeito, acerca das decisões dos oficiais generais.

A morte de Lincoln ferira-o como uma punhalada. Sempre se recordou do que sentira quando recebeu a notícia. Não podia evocar o drama sem lhe assomarem as lágrimas aos olhos. Compreendia-se, sem correr o risco de errar, que Cyrus Trask fora o amigo mais querido, mais sincero, mais chegado do Presidente Lincoln. Quando queria conhecer os sentimentos do exército do verdadeiro exército e não do constituído por manequins mascarados - o Sr.

Lincolii dirigia-se a Trask. A maneira como Cyrus, sem nunca o afirmar, o dava a entender, era um monumento de insinuação. Ninguém o podia considerar um mentiroso, pois a mentira estava-lhe no sangue e toda a verdade que lhe saía da boca tinha a cor da mentira.

Depressa se pôs a escrever cartas, seguidas de artigos sobre a maneira de conduzir a guerra, e as conclusões eram inteligentes. Deve-se dizer que Cyrus adquirira uma excelente mentalidade militar e que as suas criticas sobre a evolução da guerra e a organização do exército eram penetrantes. Os artigos, publicados em várias revistas, despertaram a atenção. Quando as suas cartas ao Ministério da Guerra foram publicadas simultaneamente por vários jornais, começaram a fazer caso das suas sugestões. Era possível que, se o Grande 19

Exército da República não representasse um corpo eleitoral tão poderoso, a sua voz não tivesse sido tão claramente escutada em Washington, mas não podiam dar-se ao luxo de ignorar o porta-voz de um bloco de cerca de um milhão de votos. E era nisto que se tornara Cyrus Trask em matéria militar. Chegaram a consultá-lo sobre assuntos que diziam respeito à organização do exército, às relações entre oficiais, ao pessoal e ao material. O Sr. Trask é um perito, dizia-se.

Tem o génio das coisas militares. Transformou o Grande Exército da República numa organização que desempenhava um importante papel na vida nacional.

Depois de ter, benevolamente, ocupado vários postos, ofereceram-lhe um secretariado remunerado de que assumiu a chefia até ao fim dos seus dias, viajando pelo país de ponta a ponta, assistindo aos congressos e organizando campos de repouso. Isto, quanto à sua vida pública.

Quanto à vida privada, não passava duma réplica civil da profissão mar-cial - Cyrus era homem de uma só ideia. Organizou o lar e a propriedade em bases militares. Exigiu relatórios sobre o andamento da economia familiar. Alice preferia este método, pois não gostava de falar. Os cuidados com as crianças, a limpeza da casa e a lavagem da roupa davam-lhe muito que fazer. Tinha a preocupação de não desperdiçar as energias, preocupação que não figurava nos relatórios. As vezes, sentia-se completamente vazia de forças e tinha de se sentar à espera que voltassem. À noite, uma transpiração abundante enchar-cava-lhe as roupas. Sabia perfeitamente que estava tísica. Os ataques de tosse que a deixavam extenuada não passavam de sintomas suplementares. Não sabia quanto tempo lhe restava ainda para viver. Certas pessoas, no mesmo caso, não duravam muito. Mas não havia regra e ela não ousava falar no caso ao marido. Ele tinha uma maneira de curar que se assemelhava muito ao castigo.

Uma dor de estômago era atalhada com uma purga tão violenta que só por milagre se lhe sobrevivia. Se ela lhe falasse no seu estado, Cyrus era capaz de lhe infligir um tratamento que a mataria muito tempo antes de ser consumida pela doença. Aliás, para se defender do crescente militarismo civil de Cyrus, Alice aprendia a única técnica que permite ao soldado sobreviver: não se tornar notado; só falar para responder; não dar provas de iniciativa; desprezar as promoções. Nem soldado raso chegava a ser, o que muito simplificava as coisas.

Alice recuava, recuava para o fundo do palco para não passar de uma silhueta imprecisa.

Foram os dois garotos que aguentaram com as consequências. Cyrus partia do princípio que só existia uma carreira honrosa para um homem: a das armas, apesar das suas imperfeições. Como a perna de pau o relegava para as reservas, queria filhos no activo, oficiais que se distinguissem, soldados que aprendessem o Ofício por experiência e não nos manuais. Inculcou-lhes os prin-20

cípios do manual de infantaria quando eles ainda mal se tinham de pé. Quando entraram para a escola, já haviam aprendido a obediência e o ódio à obediência.

Cyrus comandava os exercícios marcando o ritmo na perna de pau. Instituiu o regime das marchas forçadas, com um saco cheio de pedras às costas para enrijar os ombros. Os exercícios de tiro realizavam-se na mata atrás da casa.

2

Quando uma criança vê, pela primeira vez, os adultos tais como são, quando, pela primeira vez, lhe penetra na cabeça a ideia de que os adultos não têm uma inteligência divina, de que os seus juízos nem sempre são acertados, as ideias boas, as frases correctas, todo o seu mundo desaba e dá lugar a um caos aterrador. Os ídolos caem e a segurança desaparece. E quando um ídolo cai, não é só em parte, fica completamente esmagado e estilhaçado ou desaparece sob um monte de estrume. Torna-se, então, difícil reconstituí-lo e, mesmo que o vol-tem a colocar no pedestal, ficam sempre manchas inapagáveis que denunciam a queda passada. E o mundo da criança já não está intacto. Penosamente, ir-se-á arrastando até ao estado de homem.

Adam compreendeu quem era o pai. Não foi o homem quem descobriu um defeito na couraça, foi a criança quem forjou novas armas. Como todo o animal bem constituído, odiava a disciplina.

Era um mal inevitável como o sarampo, um mal que não se podia recusar nem amaldiçoar, mas apenas odiar. Foi muito simples e rápido - um estalido no cérebro e Adam compreendeu. A educação não era concebida em função dos rapazes, mas unicamente para engrandecer Cyrus. Ora Adam sabia que o pai não era um grande homem. Era, dotado duma grande vontade, um homen-zinho que usava um chapéu grande de mais para a cabeça. O que é que põe o mecanismo em movimento no cérebro da criança: um olhar, uma mentira descoberta, uma hesitação? Seja o que for, o ídolo desaba com fragor. Adam foi sempre uma criança obediente. Havia nele algo que o fazia furtar-se à violência, ao que podia fazer desencadear a violência. Desejoso de calma, despojava-se da agressividade, mas era obrigado a dissimular uma parte de si mesmo, pois há sempre um pouco de violência em todos nós. Ocultava as suas acções sob um véu de bruma, mas no fundo dos olhos fervilhava uma vida rica e intensa. Se não se encontrava protegido contra os ataques, tinha uma espécie de imuni-dade.

O meio-irrnão Charles, menos de um ano mais novo, crescia à imagem do pai. Era um atleta nato e possuía um espírito de competição que leva a afrontar 21

os outros para os esmagar - o que, no nosso mundo, é considerado um sinal de êxito.

Quer se tratasse de habilidade, de força pura ou de rapidez de reflexos, o jovem Charles, em competição com Adam, ganhava sempre com uma tal regularidade e uma tal facilidade que depressa se aborreceu e foi procurar novos adversários entre as outras crianças. Nasceu uma espécie de afeição entre os dois irmãos, mas uma afeição de irmão por irmã. Charles provocava e castigava os que desafiavam ou atacavam o irmão mais velho. Protegia-o do rigor paterno mentindo e arcando com as culpas. Tinha pelo irmão a afeição que se concede a um ser indefeso, cachorro cego ou recém-nascido.

Dissimulado na sua carapaça, através dos longos túneis onde escondia os olhos, Adam examinava os que habitavam o seu mundo. O pai, força natural de uma só perna, presente para aumentar nos meninos a sensação da sua peque-nez, para os convencer da sua estupidez. Depois, mais tarde - após a queda do ídolo - um polícia congénito, um agente da policia a quem se pode enganar ou cercar, mas nunca desafiar. No campo dos seus longos olhos - túneis, Adam via a imagem de Charles, um ser de outro género, feito de músculos e de ossos, rápido e ágil, vivendo num plano diferente, que se pode admirar como se admira o andar preguiçoso da pantera negra, mas com quem, nem por sombras, se podia comparar; um ser ao qual teríamos tanta vontade de nos confiarmos -

dizer a sede das coisas, os sonhos azuis e os prazeres que nascem para cá dos dois túneis - como a uma bela árvore ou a um faisão voando. Adam gostava de Charles como uma mulher gosta de um grande diamante, e dependia do irmão na medida em que uma mulher depende do seu diamante, da posição social que o seu valor apregoa. Mas ter-lhe amor, afeição, simpatia, não.

Em relação a Alice Trask, Adam nutria um sentimento de calorosa vergonha. Não era mãe dele - de mais lho tinham dito, não por frases categóricas mas pela maneira como se dizem certas outras coisas. Sabia que tivera uma mãe e que ela fizera coisas vergonhosas - como esquecer-se de alimentar as galinhas ou falhar o alvo nos exercícios da mata. E, para castigo das suas faltas, desaparecera. Adam dizia muitas vezes a si mesmo que, se conseguisse descobrir o pecado que ela cometera, se apressaria a cometê-lo para desaparecer por sua vez.

Alice tratava equitativamente os dois rapazes, lavava-os e dava-lhes de comer. O resto era com o pai que dera a entender, de uma vez para sempre, que só a ele respeitava a educação física e espiritual das duas crianças.

As felicitações e os ralhos também eram com ele. Alice nunca se queixava, nem discutia, assim como nunca chorava nem se ria. Aprendera a mostrar um rosto impenetrável - nada tinha a esconder, nem a oferecer. Contudo, um dia, 22

quando ainda era muito pequeno, Adam entrara na cozinha. Alice não o viu, entretida a remendar meias. Sorria. Adam saiu sem ruído e foi esconder-se atrás dum tronco de árvore que descobrira na mata, aninhando-se no meio das raízes protectoras. Ficara tão surpreendido como se tivesse surpreendido Alice nua.

Respirava com força, muito impressionado, faltava-lhe o ar, porque Alice estava nua, completamente despida pelo sorriso. Perguntava a si mesmo porque se teria ela permitido um tal desregramento. Sentiu, então, que um sentimento doloroso, lancinante e cálido, o empurrava para ela. Nunca fora beijado, emba-lado, acariciado, ele que procurava um seio, uns joelhos a que se agarrar, um pouco de ternura numa voz. A sua paixão compunha-se de todas estas coisas que lhe tinham faltado, mas não o sabia visto que as ignorava. Como lhe poderiam ter feito falta?

Pensou, evidentemente, que talvez se tivesse enganado, que fora apenas uma sombra maliciosa o que lhe embaciara o olhar. Procurou a imagem que encerrara na memória e viu que os olhos também sorriam. A sombra podia fazer sorrir uma boca ou uns olhos, mas nunca as duas coisas ao mesmo tempo.

Pôs-se então a espreitar Alice com as mesmas artimanhas que empregava para surpreender as velhas doninhas prudentes que expunham os filhos ao sol.

Espreitou Alice, escondido, ou com o rabo do olho. Era verdade: quando estava só ou se julgava só, ela deixava o espirito brincar num jardim e sorria. Era maravilhoso ver como ela conseguia apagar o sorriso, tão depressa como as doninhas escondem os filhos.

Adam dissimulou o seu tesouro no fundo dos túneis, mas sentiu que devia pagar um tributo pelo prazer recebido. Alice, então, passou a encontrar presentes na caixa da costura, na velha mala de mão, debaixo do travesseiro: duas flores de caneleira, uma pena azul de pássaro, meio pauzinho de lacre verde, um lenço roubado. A princípio, Alice ficou admirada mas depressa se habituou e quando, depois, encontrava um desses presentes inesperados, só o sorriso destinado ao jardim lhe iluminava o rosto, sorriso tão breve como o faiscar dum raio de sol nas escamas dum peixe na água. Mas não fez quaisquer perguntas, nem a mínima observação.

Os ataques de tosse tornaram-se tão fortes que Cyrus, resolvido a proteger o seu sono, mandou-a dormir para outro quarto. Mas ia visitá-la com muita frequência, saltitando sobre o único pé descalço e apoiando-se à parede com a mão. Os filhos ouviam e sentiam a sacudidela, quando ele se deixava cair ou saía da cama de Alice.

Adam via aproximar-se o dia em que seria incorporado e esse dia assustava-o. O pai nunca se esquecia de lhe lembrar que tal dia não tardaria.

Adam. precisava de ir para a tropa para ser um homem. Charles já era quase 23

um homem. Um homem perigoso apesar de só ter quinze anos, quando Adam já ia nos dezasseis.

3

A amizade dos dois irmãos crescera com os anos. Nos sentimentos de Charles talvez entrasse um pouco de desprezo, mas era um desprezo protector.

Uma tarde, os dois rapazes estavam jogando ao peewee na cerca. Era um jogo novo para eles: colocava-se um pauzinho esquinado no chão; batia-se numa extremidade com uma espécie de pá; o pauzinho saltava e dava-se-lhe, então, com a pá, para que atingisse a maior distância possível.

Adam era um medíocre jogador mas, por acaso, por falta de visão ou de sincronismo do irmão, ganhou-lhe ao peewee. Quatro vezes de seguida jogou o pauzinho mais longe. O facto era tão inesperado que se apoderou dele uma alegre excitação e se esqueceu de observar Charles como nunca deixava de o fazer. À quinta vez, o pauzinho elevou-se com um zumbido de abelha e desapareceu. Satisfeito, voltou-se para o irmão e a sua alegria dissipou-se subitamente para dar lugar a um grande frio. O ódio que deformava o rosto de Charles meteu-lhe medo.

- Foi por acaso - disse desajeitadamente. - Aposto que não sou capaz de tornar a fazer o mesmo.

Charles pôs no chão o seu peewee, bateu e falhou o pauzinho às voltas no ar. Avançou para Adam, com o olhar frio e inexpressivo. Adam recuou de través, tomado de pânico. Não ousava voltar as costas e fugir porque o irmão corria mais depressa do que ele. Pôs um pé atrás do outro, com o olhar assustado e a garganta seca. Charles aproximou-se e, à queima-roupa, vibrou-lhe uma paulada na cara. Quando Adam levava as mãos ao nariz ensanguentado, Charles agrediu-o com a pá nas costas e na cabeça, deixando-o prostrado.

Depois, vendo-o inanimado no chão, deu-lhe um pontapé no estômago e afastou-se.

Adam recuperou os sentidos poucos instantes depois e respirou devagarinho porque lhe doía muito o peito. Tentou sentar-se mas caiu para o lado, torcido pela dor que se enrodilhara na boca do estômago. Viu que Alice o olhava pela janela e o seu rosto exprimia qualquer coisa que nunca vira até então - não era doçura, nem compaixão, talvez fosse ódio. Quando se sentiu observada, Alice deixou cair a cortina e desapareceu. Adam conseguiu, finalmente, erguer-se e dirigiu-se, dobrado em dois, para a cozinha onde encontrou uma bacia com água quente e uma toalha limpa. A madrasta tossia no quarto.

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Charles só tinha uma grande qualidade: nunca lamentava nada. Não falou na sova e pareceu nunca mais ter pensado nela. Mas Adam tomou a precaução de nunca mais ganhar a coisa nenhuma. Se quisesse ter, um dia, a veleidade de ganhar, deveria preparar-se para poder matar o irmão logo a seguir. Charles nada lamentava. Mostrara, simplesmente, aquilo de que era capaz.

Nem Charles, nem Adam, e muito menos Alice, falaram da tareia a Cyrus que, no entanto, pareceu estar informado. Nos meses que se seguiram, a sua atitude para com Adam foi mais amável. Falou-lhe com mais ternura e não o tornou a castigar.

E se, todas as noites, lhe pregava um sermão, era sem violência. Mas Adam sentia-se muito mais atemorizado pela ternura do que pela violência um sintoma de que o iam sacrificar. As vítimas destinadas aos ídolos são tratadas com todas as considerações. Devem estender-se em cima da pedra e deixar que lhes cortem o pescoço com alegria, porque uma vitima revoltada seria um ultraje aos ídolos.

Cyrus explicava suavemente a Adam o que era um soldado. Se bem que o seu saber fosse mais o fruto de investigações do que de experiências, era rigoroso nas explicações. Avisou o filho da triste dignidade que pode ser conferida ao soldado; disse-lhe quanto ele era necessário para iluminar os erros do homem, castigo das nossas fraquezas. Talvez Cyrus fosse descobrindo essas coisas em si mesmo à medida que as exprimia. Já andava longe do entusiasta que só se interessava pelo brilho das fardas e pelos sentimentos belicosos dos verdes anos. Nenhuma humilhação se poupava ao soldado, no consenso de Cyrus, para que, chegado o dia, aceitasse sem ira demasiada a última humilhação: uma morte ignóbil que para nada serve. Cyrus só se dirigia a Adam e não autorizava Charles a escutá-lo.

Por um fim de tarde, Cyrus levou Adam a passear. As negras conclusões de todos os seus estudos e de todos os seus pensamentos derramaram-se, semeando o pânico no ânimo do filho.

- É preciso que saibas que o soldado é o mais abençoado de todos os seres humanos, por ser o que mais provações sofre. Sim, submetem-no a mais prova-

ções do que seja quem for. Vou tentar explicar-te: sempre ensinaram ao homem que matar o próximo é um pecado sem remissão. Um homem que mata deve ser suprimido, porque matar é um grande pecado, talvez o maior de todos. Mas pegamos num soldado, metemos-lhe nas mãos o poder de matar e dizemos-lhe:

«Aprende a servir-te dele. Emprega-o o melhor que puderes.» Não lhe fixamos um limite. «Vai e mata muitos irmãos teus, os que forem designados por nós, e nós te recompensaremos por isso, pois é uma violação da mais terna educação.»

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Adam molhou os lábios secos e tentou fazer uma pergunta. Não o conseguiu e tentou de novo:

- Porque devem eles matar? Porque é necessário matar?

Cyrus estava profundamente comovido e falou como nunca tinha falado.

- Não sei. Estudei as coisas e talvez saiba o que elas são, mas estou muito longe de saber porque são. E não deves esperar encontrar pessoas que te compreendam o que fazem. Tantos actos são instintivos: a abelha fabrica o mel e a raposa caminha no riacho para enganar os cães. A raposa não sabe porque age desse modo, e qual a abelha que se lembra do Inverno e prevê que ele há-de voltar? Quando compreendi que tinhas de partir, pensei primeiro em deixar-te um futuro virgem onde pudesses descobrir tudo tu por ti mesmo; depois, pareceu-me que ficarias melhor protegido se te desse o pouco que sei. Porque tu vais partir em breve - já atingiste a idade.

- Mas eu não quero - disse rapidamente Adam.

- Vais partir em breve - continuou o pai, que não o escutava. E quero acautelar-te para que não sejas apanhado de surpresa. Primeiro, põem-te nu.

Mas não ficam por aí. Destruirão em ti toda a dignidade; perderás o que pensas ser um direito imprescritivel: o direito de viver só, o direito à decência. Obrigar-te-ão a viver, a comer, a dormir e a cagar com outros homens. E quando te tiverem vestido, já não consegues distinguir-te dos outros. Nem sequer poderás pregar um papel no peito, dizendo: «Sou eu. Não faço parte deles.»

- Mas eu não quero.

- Após algum tempo, os teus pensamentos já não diferirão dos pensamentos dos outros. Deixarás de conhecer as palavras que os outros não pronun-ciarem. E farás as coisas porque os outros as fazem. Sentirás o perigo contido no não-conformismo, o perigo que representará para ti a existência duma massa com um só pensamento, uma só acção.

- E se eu não me submeter?

- É uma coisa que acontece. Muito raramente, aparece um homem que não faz o que lhe mandam. Sabes, então, o que acontece? Toda a máquina se põe em movimento e esmaga friamente todas as saliências do recalcitrante. Mói o cérebro, os nervos e o corpo até se transformarem numa pasta que se adapta às paredes do vaso que a deve conter. Se não te submeteres, a máquina vomita-te e abandona-te. Já não fazes parte dela mas, mesmo assim, não és livre. É melhor submeter-se à sua vontade. Ela só o exige para se proteger. Uma entidade tão triunfalmente ilógica, tão magnificamente insensível como o exército não pode permitir perguntas que a enfraqueceriam. Uma vez alistado, se não procurares elementos de comparação desfavoráveis, encontrarás no exército - lentamente, seguramente - uma razão, uma lógica e uma assustadora beleza. Um homem 26

que o aceita não é forçosamente inferior, pode até ser um homem melhor. Presta bem atenção ao que te digo, porque tenho pensado muito nisso. Há homens que, depois de terem alcançado a mais profunda e sombria desagregação exigida pelo exército, se confessam vencidos e perdem, então, todas as cores. É

preciso que se diga que esses homens começaram por nunca ter tido umas cores muito brilhantes. Talvez tu faças parte desse grupo. Mas há também os que, tendo atingido o fundo, e perdido o pé sob a camada de lama comum, sobem então à superfície e se ultrapassam porque se desenvencilharam duma mesqui-nhez feita de vaidade e envergaram a altivez dum grupo. Se puderes descer tão baixo, subirás mais alto do que podes imaginar e conhecerás uma alegria sem igual, saborearás o prazer duma camaradagem que vale a dos anjos no céu. Só então conhecerás os homens, mesmo que não formem senão uma massa. Mas para saber tudo isso, terás primeiro que tocar no fundo.

Quando se dirigiam para casa, Cyrus virou à esquerda e entrou na mata.

Era quase de noite. Adam disse subitamente:

- Vês aquele tronco, pai? Escondia-me nas raízes quando me castigavas ou só porque me sentia infeliz.

- Vamos ver - disse o pai.

Adam conduziu-o e Cyrus debruçou-se para a cavidade arranjada nas raízes.

- Já o conhecia há muito tempo - disse. - Num dia em que ficaste por fora muito tempo, pensei que devias ter um esconderijo e procurei-o tentando imaginar antecipadamente qual era o género de sítio de que precisavas. Vês como a terra está batida e a erva arrancada? Enquanto estavas aí escondido, arrancavas pedaços da casca que rasgavas em tiras. Soube logo que era este o sítio, mal aqui cheguei.

Adam fitava o pai com um olhar admirado.

- Mesmo assim, nunca me vieste buscar.

Pode-se obrigar um ser humano a chegar muito longe, mas eu nunca o quis fazer. Deve-se deixar sempre um meio de evasão ao homem, antes da sua morte. Recorda-te disto! Não queria levar-te a um extremo porque sentia que te havia fechado todas as saídas, menos uma.

Saíram à pressa da mata.

- Tenho tantas coisas a dizer-te que acabarei por esquecer mais de metade

- disse Cyrus. - Quero dizer-te que um soldado desde o dia em que nasce, através de cada acontecimento, por cada lei, por cada direito ou dever, aprende a proteger a vida. É com esse instinto que parte e tudo o vem confirmar. Mas quando se torna soldado, deve aprender a esquecê-lo, deve aprender a viver aceitando a morte. E a sua razão não deve vacilar. Se puderes lá chegar -

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cuidado, muitos são incapazes - terás adquirido a maior das virtudes. Ouve, meu filho... (E a voz tornou-se mais animada.) A maioria dos homens tem medo. Ignoram a causa do seu medo: sombras, perguntas, perigos sem nome e sem conta, medo da morte anónima. Se te puderes alçar até olhar de frente, não sombras, mas a morte, a verdadeira morte, a morte tal como a conhecemos, pela bala ou pelo sabre, pela flecha ou pela lança, então deixarás de ter medo ou, pelo menos, de ter medo como antes. Terás direito a um lugar à parte, serás um homem em segurança onde os outros uivam de pavor. É esta a grande recompensa. Talvez seja a única. Talvez seja a pureza derradeira com o seu anel de sujidade. Já é quase noite. Amanhã, falarei novamente contigo, depois de termos pensado no que acabei de te dizer.

Então Adam perguntou:

- Porque não falas antes com o meu irmão? O Charles não se importa de ir.

Será um bom soldado, muito melhor do que eu.

- O Charles não vai. Não serviria de nada.

- Mas daria um bom soldado?

- Aparentemente. O Charles não conhece o medo. Não poderia aprender o que é a coragem. Nada sabe acerca do que há fora de si mesmo, portanto como poderia assimilar as coisas de que te falei? Pô-lo no exército equivaleria a desencadear nele sentimentos que devem, justamente, ser refreados. Não o mandarei alistar-se.

- Nunca o castigas, deixa-o viver à vontade, sempre o encorajavas enquanto me humilhavas, e agora não o queres meter no exército.

Adam deteve-se, assustado com o que dissera, receando que o pai descobrisse a raiva, o desprezo ou a violência que aquelas palavras deixavam transparecer.

O pai não respondeu. Saiu da mata, com a cabeça inclinada e o queixo repousando no peito. A perna de pau desenhava um semicírculo para avançar e a anca soerguia-se sempre que o coto tocava no chão.

Fazia completamente escuro e a luz doirada dos candeeiros saía pela porta aberta da cozinha. Alice saiu e perscrutou a obscuridade, depois, ao ouvir os passos irregulares, tornou a entrar em casa.

Cyrus só se deteve no limiar. Ergueu a cabeça.

- Onde estás?

- Aqui, atrás de ti.

- Fizeste uma pergunta. Suponho que devo responder-te Faço bem ou mal em responder? Não sei. Tu não és inteligente. Não sabes o que queres. Ignoras a violência. Deixas-te levar. Às vezes, convenço-me bem de que és um pobre tipo que nunca conseguirá nada. Isto responde à tua pergunta? Gosto mais de ti.

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Sempre te preferi a ele. Talvez seja mau dizer-to, mas é verdade; gosto mais de ti. Se não fosse isso, porque me teria dado ao trabalho de te fazer mal? Agora, cala a boca e vai jantar. Amanhã à tarde voltaremos a falar. A perna está a doer-me.

4

Ninguém falou durante o jantar. O sossego só foi perturbado pelo sorver da sopa e pelo ruído das mandíbulas. O pai tentava afastar com as costas das mãos as borboletas que voavam em torno do vidro do candeeiro de petróleo.

Adam pensava que o irmão o observava disfarçadamente. Ergueu bruscamente os olhos e surpreendeu um clarão no olhar de Alice. Assim que acabou de comer, Adam afastou a cadeira.

- Vou dar uma volta - disse. Charles levantou-se:

- Vou contigo.

Alice e Cyrus viram-nos sair e, depois, ela fez uma das suas raras perguntas:

- Que fizeste tu? - perguntou nervosamente.

- Nada.

- Vais mandá-lo para lá?

- Vou.

- Ele sabe?

Cyrus fitou a obscuridade, para lá da porta:

- Sabe, sim.

- Não há-de gostar. Não é bom para ele.

- Não tem importância - disse Cyrus.

Depois repetiu mais alto:

- Não tem importância.

E o tom da voz significava: «Basta! Não tens nada com isso.»

Ficaram silenciosos por um momento e, depois, ele disse, como que a pedir que o desculpassem:

- Não é como se fosse teu filho.

Alice não respondeu.

Na obscuridade, os dois irmãos caminhavam entre os trilhos da estrada.

Ao fundo, algumas luzes indicavam a posição da aldeia.

- Vamos à estalagem ver o que se passa? - perguntou Charles.

- Não era isso o que eu tencionava fazer - disse Adam.

- Então o que é que tu andas a cheirar cá fora, em plena noite?

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- Ninguém te pediu para vir.

Charles aproximou-se:

- Que foi que ele te disse esta tarde? Vi-os andarem juntos. Que te disse ele?

- Falou-me da tropa, como sempre.

- Não era isso o que parecia - disse Charles, suspeitoso.

- Vi-o debruçado para ti, a falar-te como costuma falar aos homens. Não contava coisas, estava a falar.

- Contava coisas - disse Adam, pacientemente.

Mas controlou a respiração porque sentia o estômago contraído por um assomo de medo. Aspirou um profundo hausto de ar e guardou-o no peito para empurrar o medo.

- Que foi que ele te contou? - perguntou Charles de novo.

- A tropa e o que é ser soldado.

- Não acredito - disse Charles.- És um mentiroso refinado e um sonso! O

que me estás tu a esconder?

- Nada - disse Adam

Charles lançou bruscamente:

- A doida da tua mãe atirou-se à água. Se calhar olhou-te de perto e foi por isso.

Adam respirou suavemente; recalcando o medo ignóbil. Continuava calado.

- Andas a ver se o atrais. Não sei como é que consegues.

- Hem! o que é que andas a tramar?

- Nada - disse Adam.

Charles deu um salto para barrar a passagem a Adam que teve de parar; o seu peito quase tocava no do irmão. Adam recuou, mas com extrema cautela, como se recua diante duma serpente.

- Por exemplo: vê se te recordas do aniversário dele - berrou Charles. - Eu tinha seis cêntimos e comprei-lhe um canivete alemão: três lâminas e o saca-rolhas, com um cabo de madrepérola. Onde está o canivete? Já o viste alguma vez servir-se dele? Deu-to? Nunca o vi afiá-lo. Tens o canivete aí no teu bolso?

Que foi feito dele? Obrigado, disse-me ele, sem mais nada. E depois nunca mais se tornou a falar no meu canivete de seis cêntimos.

A fúria deformava-lhe a voz e Adam sentia o medo a inchar dentro de si; mas também sabia que ainda dispunha de um momento. Já vira muitas vezes começar a funcionar a máquina destruidora que esmagava tudo o que encontrava no caminho. Primeiro, vinha a fúria, depois, o frio domínio de si próprio: olhos sem expressão, sorriso satisfeito, voz sem timbre, segredar. Nessa altura, 30

surgia a morte, mas uma morte hábil e segura de si mesma, uma morte com punhos certeiros. Adam engoliu a saliva para humedecer a garganta. Nada tinha para dizer que desviasse a máquina, pois sabia que, possuído pela fúria, o irmão não lhe prestaria atenção, nem sequer o ouviria.

Charles postou-se em frente de Adam, mais baixo, mais largo, mais forte, mas não, ainda em posição de ataque. Os lábios húmidos brilhavam à luz das estrelas, mas não sorria ainda e a voz continuava a ser timbrada.

- Que fizeste tu no dia dos anos dele? julgas que não vi? Gastaste, por acaso, seis cêntimos, ou mesmo quatro? Trouxeste-lhe um cachorro atravessado que apanhaste na rua. Riste como um imbecil e disseste-lhe que daria um bom cão de caça. É no quarto dele que dorme o cão. Enquanto lê, brinca com o cão.

Até o ensinou. E onde está o meu canivete, no meio de tudo isto? «Obrigado»

foi tudo o que ele disse, obrigado».

Charles murmurara estas palavras enquanto baixava os ombros.

Adam deu um salto desesperado para trás e levantou as mãos para proteger a cara. O irmão avançou com precisão e firmou-se nas pernas. Um punho atirado delicadamente para calcular a distância, depois o trabalho, científico de destruição: um murro no estômago para baixar as mãos de Adam, depois quatro murros na cara. Adam sentiu esmagarem-se os ossos e ás cartilagens do nariz. Ergueu as mãos e Charles atingiu-o no coração. E, durante todo este tempo, Adam olhou o irmão com o olhar espantado e sem esperança que o condenado dirige ao carrasco.

Subitamente, para sua grande surpresa, Adam lançou em semicírculo um punho ineficaz que não tinha força nem precisão. Charles esquivou-se, rodou, e o braço impotente foi enrolar-se-lhe à volta do pescoço. Adam apertou o irmão nos dois braços e colou-se a ele soluçando. Continuou a agarrar-se, apesar dos dois punhos que o martelavam, apesar da náusea. O tempo não passava. Sentiu que o irmão se movia de lado para o obrigar afastar as pernas. Sentiu o joelho subir, ultrapassar-lhe os joelhos, roçar-lhe as coxas e depois esmagar-lhe os testículos. Um ferro em brasa abriu uma dor fulgurante que se propagou através de todo o corpo. Abriu os braços, dobrou-se todo e vomitou sob os golpes implacáveis que continuavam a chover.

Adam sentia as punhadas nas fontes, na cara, nos olhos, as pancadas que fendiam e faziam rebentar os lábios; mas a pele parecia-lhe mais espessa, menos sensível, como se estivesse revestida de borracha. Perguntou a si mesmo porque não se lhe vergavam as pernas, porque não caía, porque não ficava inconsciente. A punição prosseguiu durante uma eternidade. Ouvia o arfar do irmão, o «há» que lhe saía dos lábios como um ferreiro que abate o martelo. Depois, à luz doentia das estrelas, através da cortina de sangue que lhe escorria dos olhos, 31

viu o irmão. Viu o olhar inocente, sem expressão, e o sorrisinho nos lábios molhados. E quando via estas coisas, veio um clarão, logo seguido da noite.

Charles ficou de pé a olhá-lo, engolindo o ar como um cão sem fôlego.

Depois voltou-se e afastou-se ràpidamente em direcção a casa, amassando as falanges doloridas.

Adam depressa recuperou a consciência e, com ela, veio o medo. O cérebro rolava num nevoeiro doloroso. O corpo ficara pesado e desajeitado com a dor. Mas, instantaneamente, esqueceu a dor. Ouvira passos rápidos na estrada.

Reagiu com o instinto do rato - medo e ferocidade. Pôs-se de joelhos e atravessou a estrada em direcção à valeta. Havia água no fundo da valeta e erva nos bordos. Adam rastejou suavemente para entrar na água sem provocar ruído.

Os passos aproximaram-se, afrouxaram, afastaram-se, tornaram a aproximar-se. Do seu esconderijo, Adam apenas avistava uma sombra na noite.

Riscou-se um fósforo e o enxofre ardeu com uma chamazinha azul antes que a madeira, ao pegar, iluminasse por debaixo, de maneira extravagante, o rosto de Charles que ergueu o fósforo e inspeccionou a zona iluminada à sua volta.

Adam viu-lhe um machadinho na mão.