A Liguagem Do Amor por Deborah Hale - Versão HTML

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Escola de amor ou de escândalo?

Inglaterra, 1812.

Leonora Freemantle fizera uma aposta alta, defendendo a teoria de que era os estudos,

não o direito de nascimento que produziam um cavalheiro, mas tendo

O atraente sargento Morse Archer sob sua tutela, já não tinha tanta certeza do

resultado que alcançaria. Seria refinamento, paixão... Ou ultraje? Se Leonora

Freemantle não conseguisse fazê-lo passar por cavalheiro diante da sociedade de Bath,

teria de se casar imediatamente. Mas não se ele pudesse evitar, jurou

Morse Archer, pois aquela linda intelectual, de altos ideais e charme inocente, estava

lhe ensinando,sem o menor esforço, a verdadeira linguagem do amor...!

Copyright © 2001 by Deborah M. Hale

Publicado originalmente em 2001 pela

Vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

Título original: Wedding Wager

Tradução: Cristina Laguna Sangiuliano Boa

Editor: Fernanda Cardoso

Editor e Publisher: Janice Florido

Editora de Arte: Ana Suely S. Dobón

Paginadora: Nair Fernandes da Silva

DIGITALIZAÇÃO E REVISÃO: MARINA CAMPOS

CAPÍTULO I

Hospital Militar Bramleigh para Praças 1812

O lugar cheirava a homens. Leonora Freemantle sentia-se tão tensa quanto uma lebre

farejando predadores. Sem olhar para os lados, atravessou a enfermaria, seguindo a

enfermeira-chefe. Ao passar pela cama de cada soldado convalescente, sentia-lhes os

olhares maliciosos e ouvia os comentários sussurrados:

— Parece que a enfermeira chefe está treinando uma nova megera, pessoal.

— Perceberam que ela parece estar chupando um limão?

— Faz-me lembrar aquele sargento do treinamento!Os risinhos zombeteiros

acompanhavam os passos de Leonora. Empinando o queixo e endireitando os ombros,

ela resistiu ao impulso de ajeitar os óculos e o chapéu, pois os soldados poderiam

interpretar o gesto como um sinal de fraqueza. Jamais daria a eles a satisfação de

pensarem que sua opinião tinha qualquer importância.Infelizmente, não podia apagar

o rubor intenso que fazia suas faces arderem. Há quanto tempo àqueles homens não

desfrutavam da companhia de uma mulher? Ainda assim, consideravam-na ridícula,

sem nenhum atrativo.Ao menos, eram honestos. O que não poderia ser dito sobre a

maior parte dos exemplares daquele sexo. Isso, Leo-nora aprendera com a amarga

experiência.A enfermeira-chefe entrou em uma pequena sala e encaminhou-se para

um grupo de homens agachados a um canto. Leonora ouviu o ruído baixo dos dados

rolando no assoalho. Alguém soltou um grito, e outras vozes praguejaram.

— Conseguiu outra vez, Archer! — elogiou um dos espectadores.

— Você é, definitivamente, o sujeito de maior sorte que já vi!

Ao ouvir tal nome, Leonora empertigou-se. Se aquele era o sargento Archer que ela fora

visitar, sentia-se encorajada por saber que ele apreciava jogos de azar.

O jogador apanhou os dados com movimentos experientes.

— A sorte não tem nada a ver com isso — declarou em tom divertido. — Trata-se de

simples habilidade, rapaz.

— Sargento Archer! — a enfermeira-chefe chamou em tom de reprovação.

— Quanta vez já lhe disse que não podem jogar no hospital?O sargento levantou-se,

exibindo a estatura e os músculos esguios de um fuzileiro. Por um instante, suas

feições se contorceram em uma careta de dor, mas logo seus lábios se curvaram em

um sorriso devastador, dirigido à enfermeira-chefe.O coração sensível da estudiosa

Leonora disparou. As cartas que seu primo Wesley enviara de Portugal não a haviam

preparado para o que ela via, agora. Pare com isso! Repreendeu-se. Pare com essa tolice,

agora mesmo! Seu corpo, traidor, rebelou-se. O coração acelerou ainda mais suas

batidas.Por que um homem como aquele a afetaria tanto? Leonora fez a pergunta a si

mesma, observando-o aplacar a ira da enfermeira-chefe e despertar-lhe uma boa dose

de tolerância. Esperava encontrar uma explicação intelectual para tal problema e,

assim, recuperar o controle sobre seus sentimentos.Por que ele? Afinal, já vira homens

muito mais bonitos e atraentes, assim como mais educados e suaves. Não havia nada

de suave nas feições daquele homem. Todos os traços eram definidos e firmes. O nariz

e o queixo projetavam-se para frente, como se fossem esculpidos em pedra, prontos

para dominar o mundo. A boca bem proporcionada parecia capaz de expressar todo

tipo de pensamento ou sentimentos, enquanto os olhos escuros eram penetrantes.

Em um rosto menos espetacular, as espessas sobrancelhas negras sobressairiam, mas

no sargento Morse Archer harmonizava-se, emprestando-lhe um aspecto sedutor.

— O que temos aqui? — ele indagou, fixando o olhar hipnótico em Leonora.

Só então ela se deu conta de que os olhos dele eram uma mistura de verde, castanho e

dourado. Pela primeira vez em muitos anos, ela lamentou não ser bonita. A aparência

magnífica do sargento parecia torná-la ainda mais desinteressante. Embora repetisse

para si mesma que aquilo não passava de uma grande bobagem, não pôde evitar o

desejo de que ele gostasse do que estava vendo.Foi à enfermeira-chefe quem respondeu

à pergunta dele:

— Visita para você, sargento Archer. Agora, trate de se comportar.

Bastou um olhar de Archer, para que seus companheiros se dispersassem

rapidamente. A enfermeira-chefe postou-se do lado de fora da porta. Leonora não

saberia explicar se a intenção da outra era garantir a privacidade de sua conversa, ou

agir como um tipo de acompanhante.

— O que uma dama tão adorável poderia querer com um sujeito como eu? — sargento

Archer perguntou, assim que a sala esvaziou.

Sua voz era grave e profunda, e ele voltou a exibir aquele sorriso devastador.

Uma onda de raiva tomou conta de Leonora. Dama adorável? Mentiroso! Seria possível

que aquele cínico esperava que ela se derretesse ao ouvir o falso elogio? Ao retirar a

luva, teve ímpetos de esbofeteá-lo. Porém, ao se lembrar de que precisava

desesperadamente da cooperação dele, conteve a ira e estendeu-lhe a mão.

— Sargento Archer, sou Leonora Freemantle. Creio que conheceu meu tio, sir Hugo

Peverill. Vim lhe fazer uma proposta.Leonora percebeu de pronto que suas palavras o

haviam perturbado, embora ele se esforçasse para disfarçar a própria reação.

Franzindo o cenho, ele declarou em voz baixa, porém firme e ameaçadora:

— Vá embora, Srta. Freemantle. Não estou interessado em sua proposta.

Tentou girar nos calcanhares, mas a perna ferida não colaborou. A expressão zangada

deu lugar a uma careta de dor e ele tropeçou.Sem pensar, Leonora estendeu a mão

para ampará-lo. As mangas da camisa do sargento estavam enroladas até os cotovelos.

Ao segurar o braço bronzeado, ela sentiu os músculos fortes, o calor da pele coberta de

pêlos negros e sedosos.Algo parecido a uma corrente elétrica percorreu seu corpo,

começando nas pontas dos dedos e na palma da mão, irradiando-se pelo braço, até

chegar à garganta.Leonora detestou o que sentiu.Como aquela criatura irritante se

atrevia a provocá-la de tal maneira? Especialmente quando a mandava embora, sem

ouvir uma só palavra do que ela tinha a dizer. Muito tempo antes, Leonora havia

jurado jamais se submeter aos caprichos masculinos. Não pretendia começar agora,

quando seu futuro estava em jogo.Archer tentou libertar o braço, mas ela o segurou

com mais força.

— Vou soltá-lo quando concordar em me ouvir, sargento Archer.

A animosidade entrou em conflito com o divertimento, e cada nuance da batalha

tornou-se evidente naquele rosto expressivo. Por fim, o divertimento venceu.

Seus lábios se curvaram em um sorriso maroto.

— Ora, nosso dia poderá se tornar muito interessante, caso eu decida não ouvir.

Leonora sentiu as faces arderem. Sabia o que ele diria a seguir, pois seu raciocínio

adiantara-se e chegara à mesma conclusão.

— Para não falar da noite ainda mais interessante que virá depois — Archer

completou, soltando uma risada bem humorada e contagiante.

Com um gesto abrupto, Leonora soltou-o. As lágrimas fizeram seus olhos arderem,

mas ela se recusou a deixar que elas caíssem. Por que tio Hugo escolhera aquele

sujeito irritante como objeto de sua aposta?

Ao ver que ele se dirigia, com passos lentos e irregulares, para a porta, fez uma última

e desesperada tentativa:

— Estranho... Pelo que ouvi, não imaginei que fosse tolo, sargento.

As palavras atingiram o alvo. Archer hesitou e endireitou os ombros, tornando-se

visivelmente tenso. Sem perder tempo, Leonora prosseguiu:

— Em minha opinião, somente um tolo se recusa a ouvir uma proposta que poderá

beneficiá-lo.Embora continuasse olhando para a porta, ele respondeu:

— Quando uma mulher como a senhorita faz uma proposta a um homem como eu,

Srta. Freemantle, nem sempre será ele o beneficiado. Ao menos, não a longo prazo.

Ela teve de reprimir o gemido de vergonha que se formou em sua garganta. Calculara

que Morse Archer agarraria com as duas mãos a oportunidade que ela lhe ofereceria.

No entanto, ele conseguia inverter os papéis e colocá-la na posição de suplicante. E

não havia papel que Leonora detestasse mais.Então, sua determinação de vencer a

aposta com seu tio Hugo, para nunca mais ter de pedir qualquer coisa a um homem,

duplicou-se.

— O que quer dizer com "uma mulher como eu", sargento?

— Não se faça de boba, mulher — ele replicou, virando-se para fitá-la. — Quero dizer

"uma mulher de classe como a senhorita" — explicou em tom desdenhoso.

— Ficaria surpreso se soubesse que dou tanta importância à noção de classe quanto o

senhor?

— Sim, ficaria.

Respirando fundo, Leonora forçou-se a fitá-lo nos olhos.

— Acredito que tudo o que separa as chamadas classes altas das baixas é a educação.

— É mesmo? — ele indagou, cruzando os braços sobre o peito, como se inquirisse: "E o

que isso tem a ver comigo?"

Bem, ao menos, ele já não tentava sair da sala.

— Sim. É por isso que estou aqui. Tio Hugo acha sou esquisita, assim como a maioria

das pessoas que me conhecem.

Uma das sobrancelhas negras ergueu-se, como se o sargento estivesse considerando

unir sua opinião à dos demais. Leonora apressou-se em continuar, temendo que ele a

mandasse embora de novo.

— Meu tio fez uma aposta comigo, para testar a validade de minha teoria.

Ao ouvir a palavra "aposta", Archer não escondeu o interesse. Ansiosa, ela continuou:

— Tenho três meses para educar um soldado comum e fazê-lo passar por um

cavalheiro, um oficial do exército, durante a temporada, em Bath. Se eu vencer a

aposta, tio Hugo financiará uma escola para meninas indigentes, da qual eu serei

diretora.

— E eu sou o soldado comum e ignorante que a senhorita pretende fazer mudar, como

em um passe de mágica?

A pergunta era inocente, mas a maneira como os lábios dele se curvou indicava

desprezo.

— Se por "passe de mágica", o senhor entende algo fácil ou ilusório, está enganado,

sargento. Serão três meses de trabalho árduo para nós dois. No final, tenho certeza de

que considerará que o resultado valeu à pena. Vai aceitar?

Archer sorriu, mas seus olhos permaneceram sérios.

— Não, Srta. Freemantle, não vou aceitar — respondeu com fingida cortesia.

— Agora, faça a gentileza de ir embora. Já ocupou muito do meu tempo, em uma única

tarde. Seria possível que ele não reconhecia a chance que Leo-nora estava lhe

oferecendo? Não era óbvio que ela fazia isso por uma causa nobre?

— É totalmente desprovido de ambição, sargento? Não se interessa em melhorar suas

próprias condições?O sorriso falso desapareceu, dando lugar à expressão de fúria mais

assustadora que Leonora já vira. Sem perceber o que fazia, ela recuou um passo.

Archer só parou quando estava muito próximo, quando ela pôde sentir-lhe o hálito

quente de encontro às faces. Falou com intensidade, em um sussurro capaz de

intimidar muito mais do que os gritos de qualquer outro homem.

— Tenho muita ambição, Srta. Freemantle. Nos meus termos. Acontece que gosto de

quem e do que sou. Portanto, pode ficar com as suas melhoras. Não preciso que a

senhorita, ou qualquer outra pessoa, me transforme em um cavalheiro idiota.

Leonora hesitou por um instante. No fundo, não podia deixar de admirar o orgulho e a

independência de Morse Archer. Então, lembrou-se de tudo o que teria a ganhar... e a

perder, e forçou-se a tentar mais uma vez.

— Por favor, sargento. Se não for por si mesmo, pense na minha escola.

— Onde a senhorita pretende transformar camponesas perfeitamente inteligentes e

saudáveis em debutantes inúteis? Ah, sim, claro, uma causa muito nobre!

Reunindo toda a dignidade que lhe restava, Leonora replicou:

— Não espero que compreenda os meus motivos, pois ninguém compreende.

— O problema é que eu compreendo perfeitamente, Srta. Freemantle. Sei tudo sobre

receber a caridade de meus "superiores", mesmo que não a queira, e ter de me curvar

para agradecer.As palavras atingiram-na como um golpe físico. Sua escola não seria

como ele estava dizendo... Ou seria?

— Não estamos falando de caridade, sargento,— Não, Srta. Freemantle?

De repente, a explosão de fúria de Archer pareceu esgotar-se, e ele virou lentamente na

direção da porta e começou a se afastar.Por um momento, Leonora limitou-se a ficar

ali, parada, observando-o afastar-se. Exausta, sentia-se como se houvesse sido

atingida por uma violenta tempestade. Enquanto reunia coragem para, mais uma vez,

enfrentar os olhares e sussurros na enfermaria, perguntou-se como seu tio reagiria

àquela mudança inesperada. Ele fora implacável ao escolher aquele homem em

particular.Bem, ela havia feito o possível para recrutar Morse Archer. Ele recusara a

sua oferta. Tio Hugo teria de, simplesmente, escolher outra pessoa.

Em certos aspectos, era uma pena. O sargento parecia possuir boa dose de inteligência

e seu discurso não era muito rústico. Somando tais qualidades à aparência

extremamente atraente, não teria sido difícil fazê-lo passar por um cavalheiro.Ao

mesmo tempo, Leonora emitiu um suspiro de alívio. A última coisa de que precisava

era passar três meses na companhia constante de um homem como Morse Archer. Tão

obstinado, tão intratável, tão... Irresistível.

Morse observou Leonora Freemantle atravessar a enfermaria, obviamente

desapercebida das piscadelas e cotoveladas com que os homens cumprimentavam sua

partida. Aproximando-se da janela, continuou a fitá-la, enquanto ela subia em sua

caleche e partia. Queria ter certeza de que ela fora embora. Ou, ao menos, foi o que

disse a si mesmo.

— Vamos tentar a sorte com os dados, mais uma vez, sargento? — perguntou um

jovem cabo do regimento de Morse, com um sorriso esperançoso.

O braço do rapaz fora decepado abaixo do cotovelo, mas ele aprendera a jogar os dados

muito bem com a mão esquerda.Morse sacudiu a cabeça, como teria feito um irmão

mais velho com coisas mais importantes a fazer do que distrair as crianças da família.

— Você ouviu a enfermeira-chefe, cabo Boyer. Nada de apostas no hospital. Já tenho

problemas demais com o exército. Não preciso procurar por outros.

Boyer sorriu, envergonhado, e afastou-se. Aquela era a primeira vez que Morse se

referia à Comissão de Inquérito, embora a questão certamente fosse conhecida por

todos os soldados convalescentes de Bramleigh.

Havia uma grande probabilidade de que ele fosse rebaixado, ou até mesmo demitido do

exército. Pensar na Comissão fazia Morse lembrar-se da infeliz retirada de Bucaso. Sua

perna latejava, logo acima do joelho, onde uma baioneta francesa o atingira.

Durante a retirada britânica de Bucaso.Com dificuldade, caminhou até sua cama e

deitou-se. Seus calcanhares se projetavam cinco centímetros para fora do colchão.

Tentando distrair-se da dor na perna, assim como das lembranças igualmente

dolorosas daquela última batalha, pôs-se a pensar em Leonora Freemantle.

Mulherzinha atrevida! Como ela se atrevia a entrar ali, como se fosse sua fada-

madrinha, oferecendo-se para transformá-lo em um cavalheiro? Pouco antes de ela

abrir a boca, Morse sentira-se atraído por alguma coisa nela. Agora, simplesmente não

saberia dizer o que poderia tê-lo atraído.A mocinha possuía pouco em comum com o

tipo de mulher que ele costumava considerar interessante. Em primeiro lugar, era

magra e angulosa demais para seu gosto. Morse raramente prestava atenção em

roupas femininas, mas no caso dela, eram feias demais para serem ignoradas.

Geralmente, admirava os cabelos das mulheres, mas a Srta. Freemantle prendera os

dela e os escondera completamente sob o chapéu, de maneira que ele não poderia dizer

de que cor eles eram. Havia algo nos olhos dela, talvez fosse a cor, ou o brilho, mas q&,

óculos arruinavam até mesmo aquele pequeno encanto.Em resumo, ela parecia uma

solteirona puritana e intelectual.Mas não fora nada disso o que despertara o

antagonismo de Morse. Fora a voz dela Desde que se alistara no exército, durante seu

tempo de serviço na índia e na Espanha, ele tivera raras oportunidades de ouvir uma

dama inglesa falar. Havia apenas uma mulher em Bramleigh, se é que se poderia

chamá-la assim. O sotaque da enfermeira-chefe, a velha megera nascida na

Cornualha, era tão carregado que Morse tinha muita dificuldade em compreendê-la.

Nada naquela voz estridente evocava lembranças dolorosas. O mesmo poderia ser dito

de Leonora Freemantle.Para piorar ainda mais a situação, as primeiras palavras que

ela havia pronunciado envolviam uma proposta. Era verdade que a proposta não se

parecia em nada com aquela feita por lady Pamela Granville, um dia antes do dia em

que ele se alistara. No entanto, o eco emocional fora igualmente doloroso, levando-o a

resistir à oferta da Srta. Freemantle, antes mesmo de ouvi-la. Agora, sentindo a perna

latejar e tentando bloquear os ruídos vindos da enfermaria, Morse perguntava-se se

fora mesmo um tolo ao rejeitar a proposta dela de pronto.Suas alternativas eram mais

que limitadas. Não poderia ficar em Bramleigh por muito mais tempo, uma vez que o

período de risco de amputação se esgotara e ele já conseguia usar a perna, mesmo que

não com a agilidade de antes. Mesmo que a Comissão de Inquérito não o expulsasse do

exército, ele não poderia voltar a viver como soldado. Os médicos estavam otimistas de

que sua mobilidade retornaria com o tempo. Até então, sua incapacidade tornaria

praticamente impossível encontrar o tipo de trabalho que sua educação limitada lhe

permitia realizar.A sineta anunciou que era hora do jantar. Com um suspiro

desanimado, Morse levantou-se e se colocou no final da fila para o refeitório. Lá,

comeu o ensopado morno e aguado sem o menor interesse, ou prazer. Boyer e alguns

outros soldados de seu regimento tomaram seus lugares à mesa de costume, junto de

Morse. Afinal, eram todas vítimas da retirada de Bucaso. E haviam tido sorte.

— Sua visitante não ficou por muito tempo, sargento — Boyer comentou com ar

inocente e, ao mesmo tempo, curioso. — Não é exatamente o seu tipo de mulher, é?

Os homens à mesa trocaram sorrisos. A facilidade com que o sargento se relacionava

com as mulheres era motivo de orgulho entre seus subordinados. E eles sabiam que

Morse gostava de garçonetes bonitas, de curvas generosas e atrevidas. Também

sabiam que ele raramente tinha de se esforçar para atraí-las.

Sem erguer os olhos do prato, Morse pôs fim ao divertimento dos soldados com uma

única frase: — A moça é prima do tenente Peverill. Um "ah" sussurrado ergueu-se

entre os soldados, carregado de pesar. O falecido tenente Wesley Peverill contara com a

estima universal entre os homens de sua companhia. Assim como o sargento Morse

Archer.Só então Morse deu-se conta do que o atraíra na Srta. Freemantle, antes que

ela começasse a falar. Fora a sua semelhança com o primo. O tenente Peverill fora um

homem magro, de baixa estatura e enganoso ar de delicadeza. No entanto, aquela

figura nada promissora abrigava a astúcia de uma serpente e a coragem de um leão,

além de ser um exemplo de tenacidade e determinação. Enquanto vivesse, Morse Ar-

cher lamentaria a morte estúpida de seu jovem tenente.Tivera um vislumbre da

inteligência e da bravura feroz do tenente Peverill em sua prima. Ela se mantivera

controlada e o atingira com todo tipo de munição que tinha em seu poder. Quando

Morse se voltara contra ela, irado, não conseguira sequer intimidá-la. Ficara cético

quando ela alegara que classe social não significava nada. Agora, lembrando-se do

parentesco dela com o tenente, podia acreditar que fora sincera.— Ela veio agradecê-lo,

Sargento? — Boyer perguntou. Morse assentiu.

— Mais ou menos.Todos sabiam que sir Hugo Peverill fora visitar o sargento logo após

a sua chegada em Bramleigh. O velho senhor fora agradecer Morse por ter arriscado a

vida para salvar o tenente da morte certa. Infelizmente, os ferimentos recebidos pelo

jovem eram graves demais e ele não sobrevivera. Mas o triste pai acalentara o pequeno

consolo de que o filho morrera e fora enterrado em seu lar, na Inglaterra, em vez de

uma cova rasa, sem lápide, em Portugal.Sir Hugo oferecera dinheiro, um emprego,

qualquer coisa que Morse desejasse. Morse recusara com cortesia. Não sentia o menor

orgulho do que fizera durante a retirada. Seu ataque desesperado à verdadeira floresta

de baionetas francesas fora pouco e acontecera tarde demais. Aceitar uma recompensa

só aumentaria o seu sentimento de culpa.

Aparentemente, sir Hugo não estava disposto a aceitar um não como resposta, pois

sem dúvida inventara aquele estratagema de uma aposta com a sobrinha. Morse não

chegava ao ponto de desconfiar que Leonora Freemantle soubesse tratar-se de uma

estratégia. Ela não teria sido capaz de argumentar com tamanha paixão se não

acreditasse que o desafio do tio era genuíno.Mordendo um pedaço de pão duro, Morse

imaginou o tipo de comida que lhe seria servido na propriedade de sir Hugo,

Laurelwood. Quando as rações eram limitadas, em Portugal, o tenente Peverill

lembrava-se com nostalgia do conteúdo da despensa de seu pai, bem como do talento

das cozinheiras. Mais histórias como aquela voltaram à lembrança de Morse, quando

ele perambulava pela enfermaria, depois do jantar, sentindo-se estranhamente

inquieto.Naquela noite, sonhou com uma cama imensa, cujo colchão era recheado de

plumas e coberto por lençóis brancos e perfumados. O fogo ardia na lareira. Sobre a

mesa do quarto, havia um ganso assado, cercado de todos os acompanhamentos, a

pele dourada e crocante cobrindo a carne escura e suculenta. Morse acordou com água

na boca.Sem dúvida, Laurelwood teria sido um alojamento mais do que confortável

durante os três meses seguintes, enquanto ele recuperava os movimentos da perna.

Um teto aconchegante sobre sua cabeça. Refeições como ele não comia havia anos. E

nada seria exigido dele, exceto ser educado pela sobrinha intelectual de sir Hugo.

Refletindo melhor sobre tudo aquilo, Morse descobriu que a idéia era muito

atraente.Agora, porém, era tarde demais.

Sem dúvida, a Srta. Freemantle já cuidara de encontrar alguém disposto a colaborar.

Um sujeito esperto, que não permitisse que o orgulho e lembrança tolas o cegassem

para

Algo bom.Morse lembrou-se da advertência feita por seu pai, um dia:

— Quando um homem não possui nada, não pode se dar ao luxo de ter orgulho, filho.

Lembrou-se, também, da frase amarga que pronunciara sobre os túmulos sem lápide

de sua família:

— Quando um homem não possui nada, o orgulho é tudo o que ele pode se dar ao luxo

de ter.Um dia, Morse Archer pensou, sacudindo a cabeça, seu orgulho ilegítimo o faria

mergulhar em problemas sérios.

CAPÍTULO II

Fale logo, Leonora. Não me deixe em suspense nem mais um minuto, minha querida.

— Sir Hugo ergueu os olhos do faisão em seu prato com o semblante iluminado. —

Quando ele virá?A fim de se demorar mais um pouco, Leonora fingiu intenso interesse

em seu jantar. Estava faminta. A viagem a Bramleigh fora longa e fria e, na volta, ela

contara somente com sua indignação para aquecê-la.

— E então? Quando? — sir Hugo repetiu.

Leonora continuou hesitando. Não era covarde. Seu primo Wesley sempre dissera que

ela possuía mais coragem que um soldado ao negar as expectativas da sociedade e per-

manecer solteira e devotada aos seus estudos.

Negar a sociedade era uma coisa. Negar uma resposta a sir Hugo, quando ele estava

determinado a recebê-la, era outra. Leonora costumava comparar o marido de sua fale-

cida tia a um cocheiro do Correio Real. Cavalgando em disparada para seu destino.

Ignorando objeções como passar em alta velocidade por postos de pedágio. Impaciente

diante do menor atraso ou desvio.Ele não ficaria nada contente com o desvio que ela

estava prestes a lhe apresentar, mas não faria sentido adiar o inevitável.

— Ele não virá, titio. — Embora tentasse se mostrar indiferente, Leonora preparou-se

para a reação violenta. Teremos de encontrar outra pessoa. Tenho certeza de que

existem muitos homens com bom senso suficiente para reconhecer uma boa

oportunidade que lhes seja oferecida.

— Não virá? Ridículo! Bobagem! — O bigode grisalho de sir Hugo agitou-se e o

proeminente nariz romano pareceu engolfar o ar à sua frente. — É claro que ele virá!

Leonora imaginou-o acrescentando: "O sargento Archer ainda não sabe disso, mas

virá". Ela sacudiu a cabeça.

— Não, titio. Ele foi muito claro. Não foi fácil convencê-lo a me ouvir. Quando

finalmente consegui explicar minha presença lá, ele me acusou de tentar forçá-lo a

aceitar caridade.

— Então, você deve ter explicado da maneira errada. — Os pálidos olhos azuis

exibiram o brilho que aterrorizava muitas pessoas. — Eu sabia que deveria

acompanhá-la. Você á uma boa moça, Leonora, mas não sabe nada sobre o orgulho

masculino.Leonora afastou o prato, perdendo o apetite. Gostaria de lembrar a sir Hugo

que vira a fortuna de sua família desaparecer, em nome do orgulho masculino.

Percebendo que as faces dele haviam adquirido uma tonalidade escarlate, desistiu de

iniciar uma discussão.Apesar da obstinação e arrogância, além de caprichos

excêntricos, ele era uma criatura generosa, com um enorme coração. Embora fosse seu

parente apenas por casamento, fora um verdadeiro pai para ela, muito mais do que

qualquer dos homens com quem sua mãe se casara.

— Não fique nervoso, titio — Leonora murmurou, tentando acalmá-lo. — Não podemos

encontrar outra pessoa? Não acredito que o sargento Archer vá aceitar a proposta,

mesmo que o senhor a faça. Ele é um sujeito incrivelmente teimoso.

— Teimoso? — Sir Hugo agitou a faca no ar, como se fosse uma espada. — Está

querendo dizer resoluto. Somente um caráter resoluto é capaz de desobedecer ordens e

enfrentar uma dúzia de franceses com baionetas, para salvar Wesley.

Leonora não teve a menor dificuldade de imaginar Morse Archer lutando contra um

batalhão francês. Também não era difícil imaginá-lo desobedecendo ordens. A parte

difícil era imaginá-lo fazendo tudo isso pelo bem de outra pessoa.

Fazia muito tempo que Leonora aceitara a idéia de que os seres humanos eram

criaturas egoístas por natureza. O sargento lhe parecera ser um homem habituado a

cuidar de si mesmo. Ela havia tentado apelar para o senso de altruísmo dele, ao

mencionar a escola, mas ele chegara a ser insultante em sua recusa, com mais uma

ladainha sobre caridade indesejada.De repente, a verdade se fez clara para Leonora.

— É disso que trata a aposta, não é, tio Hugo? Não tem nada a ver comigo, ou com a

escola. Está apenas usando isso como desculpa para recompensar o sargento Archer.

— Desculpa? Recompensa? De jeito nenhum!Sir Hugo bebeu um longo gole de vinho,

evitando o olhar da sobrinha.

— Ele não aceitou a sua ajuda, quando o senhor ofereceu de maneira franca e direta —

ela persistiu. — Por isso, o senhor teve a idéia de fazer essa aposta. Deveria ter sido

honesto comigo.A expressão de alívio tomou conta do semblante de sir Hugo. Sendo

um homem franco e direto, não poderia ter sentido prazer ao enganá-la.

— Admito que essa foi uma parte do meu motivo. Eu não tinha esperanças de que Wes

deixasse Portugal vivo. Você não imagina o que significou para mim tê-lo aqui. Por

mais que eu faça, nunca farei o bastante para recompensar Archer por tornar isso

possível. Gostaria de fazê-lo entender.A última frase foi pronunciada com um profundo

suspiro. Leonora sentiu o peso da dívida de seu tio no próprio coração.

— Não posso dizer que me importo por ser manipulado dessa maneira, titio

— repreendeu-o com gentileza, mais magoada do que zangada. — Pensei que estivesse

levando essa aposta a sério.

— E estou, minha querida. O que a fez pensar o contrário? Levo a nossa aposta muito

a sério. Quero ver você feliz, casada com um bom homem, sendo mãe de um bando de

crianças, para que eu possa mimá-las na minha velhice.

— Titio! — Leonora não pôde evitar o tom áspero. — Já discutimos isso, pelo menos

uma centena de vezes. O senhor sabe muito bem que eu jamais seria feliz em um

casamento, assim como Wesley não teria sido feliz como civil.Tarde demais, cobriu os

lábios com a mão. A última coisa que desejava era aumentar ainda mais o sofrimento

do tio.Sir Hugo fitou-a por um longo momento, antes de inquirir:

— E ele está feliz, agora? Eu deveria ter me esforçado mais para dissuadir Wes de se

alistar. Não vou ficar sentado e cometer o mesmo erro com você, minha querida. O fato

de Clarissa nunca ter encontrado um homem com quem não se casaria não é motivo

para condenar todo o sexo masculino...

— Agradeço se mantiver minha mãe e seus homens fora disso! — Leonora

interrompeu-o, irritada.O tio ergue a mão em um gesto de rendição.

— Não vamos brigar por isso. Estou dizendo apenas que, como não consegui convencê-

la a fazer a minha vontade, fui levado ao extremo de fazer essa aposta. Se você vencer,

financiarei a sua escola.

— E? — Leonora persistiu.

— E garantirei os rendimentos necessários para que nunca precise se casar.

A simples idéia trouxe.um sorriso de contentamento aos lábios de Leonora.

— Trate de não se esquecer da sua parte na aposta — sir Hugo alfinetou-a.

O sorriso da sobrinha se desfez.— Eu não poderia esquecer, titio.Como poderia

esquecer, quando era a sua felicidade que estava em jogo? Se perdesse a aposta, teria

de se casar com o homem que seu tio escolhesse. Se não quisesse tanto construir a

sua escola, jamais teria concordado com os termos de sir Hugo.

— Outra coisa de que deve se lembrar é que detenho o direito exclusivo de escolher o

objeto de nossa aposta. Não aceitarei ninguém, exceto Morse Archer.

— Mas, titio, já lhe disse...

— Sim, já disse. Agora, eu vou lhe dizer uma coisa, Leonora. Se Archer não concordar

em vir, a aposta estará cancelada.

— Não está falando sério — Leonora murmurou, pálida. Se perdesse aquela chance,

jamais teria a sua escola.

— Nunca falei tão sério em minha vida. Não precisa ficar desesperada, menina. Vou

acompanhá-la, desta vez, e tenho certeza de que, juntos, conseguiremos convencer o

sargento Archer. Por que não se arruma um pouco para a nossa visita? Não tem

vestidos mais coloridos?Leonora pensou em protestar, alegando que sua aparência

seria a última coisa capaz de fazer o sargento mudar de idéia. Afinal, o mastro coberto

de fitas usado nas festividades da primavera continuava a ser um mastro de madeira.

— Cinza é uma cor, titio — disse apenas.

— Não é. Assim como preto, marrom ou verde-escuro. Faça alguma coisa com seus

cabelos, enquanto pensa em um vestido. Não pode prendê-lo no topo da cabeça e

deixar os cachos caírem?

— Sim, titio — Leonora murmurou com um suspiro. Não havia a menor possibilidade

de contrariá-lo, quando ele estava naquele estado de espírito. E ela não se sentia nem

um pouco ansiosa para fazer uma segunda visita a Bramleigh. Quando se visse na

companhia dos dois homens mais irritantes que ela já conhecera, Leonora não sabia se

seria capaz de controlar o impulso de esbofeteá-los. Quando o pai e a prima do tenente

Peverill o encontraram, Morse caminhava com dificuldade no terreno que circundava o

hospital, atravessando um atalho lamacento, com a ajuda de um galho de árvore, que

ele usava como bengala.O inverno de Somerset era rigoroso, mesmo para pessoas que

não houvessem passado uma década sob o calor escaldante da índia e da Península

Ibérica. Como estivesse experimentando seu primeiro inverno inglês, em dez anos,

Morse sentia o frio com intensidade muito maior do que havia esperado. Mesmo assim,

não suportava mais ficar fechado na enfermaria.Era um homem habituado a viver ao

ar livre, um homem de ação, muito indicado para a Brigada de Fuzileiros. Mesmo que o

exército não o demitisse, chegara o momento de aposentar a farda verde. Sentiria falta

dela.Apesar do perigo, da comida horrível, do salário miserável, do calor, das moscas,

do ódio dos nativos, da estupidez de muitos oficiais e da solidão ocasional. Fora o que

ele conhecera, durante dez anos. Sentia-se vazio e perdido ao pensar em deixar tudo

àquilo para trás. Mais ainda quando considerava o futuro incerto que tinha à sua

frente.

— Olá! Sargento Archer!Morse ergueu os olhos e deparou com sir Hugo Peverill que se

aproximava, com Leonora Freemantle no seu encalço. Sem se dar conta do que fazia,

Morse não só estudou, mas também aprovou a maneira como ela caminhava. Queixo

erguido. Olhos fixos em seu alvo. Nada de choramingo devido à lama que poderia

arruinar a bainha de sua capa e vestido.

— Já começava a acreditar que não conseguiríamos encontrá-lo! — sir Hugo declarou,

ofegante.De súbito, Morse deu-se conta do que eles certamente queriam. A idéia de

passar três meses em Laurelwood foi como uma luz na escuridão. Se seu maldito

orgulho não interferisse e atrapalhasse seus planos.

Morse estendeu a mão.— É um prazer revê-lo, senhor.

— Bem, creio que já conhece minha sobrinha, Srta. Freemantle — sir Hugo replicou,

empurrando a jovem pelo cotovelo, até a mão dela encontrar a de Mor se.

Seu primeiro encontro voltou com nitidez à mente de Morse. Ele se lembrou da

sensação provocada pela mão dela em seu braço e do comentário rude que fizera

quando ela se recusara a soltá-lo. Era de admirar que Leonora acreditasse que ele

poderia ser transformado em um cavalheiro.Determinado a provar que não era

totalmente desprovido de boas maneiras, curvou-se sobre a mão delicada.

— Sim, já tive o prazer — respondeu ao tio.O vento havia libertado alguns cachos

escuros dos cabelos presos sob o chapéu bem menos severo que aquele que ela usara

em sua primeira visita. O frio desenhara dois círculos corados na pele cor de marfim de

suas faces. Os óculos haviam deslizado para a ponta do nariz, deixando à mostra o

belíssimo par de olhos verde-acinzentados.E aqueles olhos o fitaram com uma sombra

de censura, que Morse não compreendeu. O que fizera de errado, desta vez?

Leonora retirou a mão da dele, como se temesse ser mordida.

— Não pareceu muito satisfeito em nosso primeiro encontro, senhor.

Morse sentiu as próprias faces arderem. Talvez devesse voltar para o abrigo do

hospital.

— Devo-lhe um pedido de desculpas pelo meu comportamento, senhorita. Há dias em

que este lugar poderia pôr fim à paciência de um santo. Lamento que tenha me

visitado em um péssimo dia.

Sir Hugo passou um braço em torno dos ombros da sobrinha, mas dirigiu-se a Morse.

— É natural, meu rapaz. E é claro que Leonora vai perdoá-lo. Ela é um raro exemplo

de mulher que não guarda mágoas.— Muito raro — Morse concordou com um sorriso,

fitando-a nos olhos na esperança de ficar em paz com ela.

Leonora Freemantle reagiu, empurrando os óculos de volta ao seu lugar com um

movimento abrupto. Era como se houvesse fechado uma porta para Morse e, sem

perceber, ele deu um passo para trás.Sir Hugo ergueu a mão a fim de proteger o

chapéu contra o vento forte.

— Gostaríamos de conversar mais uma vez, se não fizer nenhuma objeção, sargento,

mas não vejo sentido em congelarmos aqui fora. Se ainda não está disposto a voltar

para a enfermaria, poderíamos dar um passeio de carruagem pelas redondezas.

— Muito bem, senhor.Havia anos que Morse não entrava em uma boa carruagem.

— Ótimo! — Sir Hugo exibiu um sorriso franco e cativante. Tal expressão trouxe uma

lembrança tão clara do jovem tenente, que Morse sentiu um nó se formar em sua

garganta. Sir Hugo girou nos calcanhares e seguiu na direção da entrada do hospital,

gritando por cima do ombro:

— Dê o braço ao sargento, Leonora. O solo é muito irregular, aqui.

Ela lançou a Morse um olhar que tanto poderia ser um pedido de desculpas como um

desafio. Seria difícil saber devido às grossas lentes dos óculos.

Então, ofereceu o braço, obediente.Morse conteve o sorriso que ameaçava curvar seus

lábios. Muitas mulheres ficariam mais que felizes diante da oportunidade de tomar-lhe

o braço. Leonora Freemantle parecia, definitivamente, martirizada pelo esforço. Sem

dúvida, era uma criatura ímpar, diferente de todas as outras que ele conhecia. A

novidade atraiu Morse e ele descobriu que não seria nenhum sacrifício conhecê-la

melhor.

— Pode rir, sargento — ela disse, mantendo os olhos fixos adiante. — Sei que está se

controlando, mas pode se divertir com a minha humilhação.

— Não entendo o que está querendo dizer, senhorita. Não me parece muito humilde.

Entre o tecido grosso de seu casaco e a lã espessa da capa que Leonora usava, não

havia real contato entre eles. Não como no primeiro encontro, quando ela segurara seu

braço nu, com a mão também nua. Assim que a lembrança daquele instante invadiu

sua mente, Morse sentiu uma onda de calor que desafiava o vento gelado do inverno.

Pôs-se a pensar em retrocesso, tentando lembrar-se da última vez em que estivera com

uma mulher.Antes que terminasse seus cálculos, chegaram à carruagem.

— Entrem! — sir Hugo chamou-os de dentro do veículo.

Mais uma vez, Leonora Freemantle falou, como se houvesse guardado suas palavras

até o último minuto, anulando assim qualquer possibilidade de discussão.

— Não precisava ter implorado o meu perdão, sargento. Sou eu quem deve um pedido

de desculpas. De tudo o que disse em nosso último encontro, acertou em quase todos

os detalhes. Menos um. Minha escola não será caridade. Ao menos, não o tipo

desprezível de caridade que o senhor conheceu. Peço que reconsidere meu pedido de

ajuda.Morse sabia reconhecer o orgulho e sabia quanto custara para ela pronunciar

tais palavras. Infelizmente, não tinha tempo para responder e, assim, fez o melhor que

pôde: ajudou-a a entrar na carruagem como um verdadeiro cavalheiro faria. Quando

seus olhos pousaram no tornozelo delicado, envolto pela bota de couro, Morse voltou a

sentir aquela confusa onda de calor espalhar-se pelo corpo.

Irritado consigo mesmo, tentou reprimir o sentimento, mas descobriu-se incapaz.

Entrando logo depois da Srta. Freemantle, ele se sentou no banco oposto ao de sir

Hugo e da sobrinha. Se precisar de algum lembrete da vida confortável que encontraria

em Laurelwood, encontrou-o no interior elegante e sofisticado do veículo, finamente

ornado em mogno, latão e couro.Sir Hugo ergueu a bengala e bateu com ela no teto. No

mesmo instante, a carruagem se pôs em movimento. O mais velho fitou Morse

diretamente nos olhos.

— Irei direto ao ponto, Archer. Sei que vocês, militares, não têm paciência com rodeios.

O fato é que Leonora e eu precisamos desesperadamente da sua ajuda, para levarmos

nossa aposta adiante.

— Sim, bem, senhor... Na verdade... Devo dizer.... — Morse gaguejou, tentando

encontrar as palavras com que pudesse aceitar a oferta de sir Hugo, sem perder de vez

o que lhe restava de respeito e dignidade.

— Não diga mais nada, meu rapaz — sir Hugo interrompeu-o em um tom que proibia

qualquer tentativa de argumentação.

Tanto o tom autoritário quanto as palavras "meu rapaz" feriram o orgulho de Morse,

mas ele tentou sufocar o sentimento.

— Sei perfeitamente o que deve estar pensando — o mais velho continuou. — Minha

sobrinha e eu não esperamos que você nos dedique vários meses da sua vida, para não

mencionar o adiamento de todos os seus planos, enquanto tentamos chegar a uma

conclusão filosófica que não trará benefícios a ninguém, exceto a nós mesmos.

— Não, não, sir Hugo. Não é isso... — Morse tentou formular sua objeção, mas foi

impedido pela mão erguida de sir Hugo.

— Ouça o que tenho a dizer, meu jovem. Ao menos, não recuse nossa proposta antes

de ouvir a compensação que pretendo lhe oferecer.

Morse sentiu vontade de rir. Compensação? Queriam tirá-lo da vida de frio, fome e

desemprego que o aguardava, para acomodá-lo nos braços do luxo e da riqueza. E,

além disso, ainda pretendia compensá-lo! Era difícil imaginar como a proposta poderia

se tornar ainda mais tentadora, e foi a curiosidade, somada ao respeito que tinha por

sir Hugo, que levou Morse a ouvir em silêncio.

— Se concordar em nos ajudar — sir Hugo disse —, contratarei o melhor advogado

que o dinheiro possa comprar. E também.exercerei toda a influência que estiver em

meu poder. Sem falsas promessas, é claro, mas duvido que a Comissão de Inquérito

não vá encerrar o seu caso.Morse fitou-o, boquiaberto. O que poderia dizer? Lá estava

sir Hugo, oferecendo-se para apagar todas as marcas que poderiam afetar a sua vida,

como uma criada arrumava os lençóis da cama. Enquanto lutava para recuperar a voz,

a Srta. Freemantle disse:

— Não se esqueça do resto, titio.Morse mal podia acreditar-nos próprios ouvidos. Havia

mais?

— Claro, querida. — Sir Hugo respirou fundo. — Minha sobrinha insiste em que você

precisa extrair algum lucro da experiência que ela vai fazer, um incentivo para que dê o

melhor de si.Morse sentiu-se ligeiramente afrontado pela sugestão de que seria capaz

de dar menos que o melhor de si. As palavras seguintes, porém, o acalmaram

novamente.

— Se conseguir se fazer passar por um cavalheiro, em Bath, vai ajudá-lo a se instalar

em qualquer lugar em que certos valores não tenham a menor importância. Você es-

colherá a colônia que mais o agrada: Caribe, América, Botany Bay. Prometo lhe dar

uma boa propriedade e o ouro necessário para comprar equipamento, gado e

sementes. O que quer que você precise. Assim, creio que valerá a pena você perder um

pouco do seu tempo, ajudando-nos a levar a cabo a nossa brincadeira.

A boca generosa curvou-se em um sorriso largo, enquanto ele esperava pela resposta

de Morse.O mais jovem cerrou os dentes, para não dizer a primeira coisa que lhe

brotou na mente. Ora, fora com esforço que conseguira dominar o próprio orgulho,

para aceitar a oferta original da Srta. Freemantle. Agora, com a melhor das intenções,

sir Hugo despejava mais caridade sobre a primeira.E, por mais que a idéia o tentasse,

Morse sabia tratar-se de mais do que ele seria capaz de engolir.

— É uma oferta generosa, senhor — Morse murmurou, tentando não demonstrar seus

verdadeiros sentimentos, pois sabia que o pobre homem só desejava fazer o melhor,

mas era incapaz de compreender —, mas não posso aceitar.

O sorriso de sir Hugo transformou-se em uma careta, ao mesmo tempo em que suas

faces adquiriam uma tonalidade escarlate. Em resumo, ele parecia estar lutando

contra uma explosão.De repente, Morse deu-se conta da mudança na expressão de

Leonora Freemantle, também. Ela parecia desconsolada, embora fosse difícil

compreender por que a tal escola era tão importante para ela. Assim como era

impossível compreender o ímpeto de tomá-la nos braços e confortá-la.

Morse gostaria de poder ajudá-los e ajudar a si mesmo, também. Se conseguisse

encontrar um meio de apaziguar o seu maldito orgulho, aceitaria a oferta de bom

grado.

— Está louco, rapaz? Como pode pensar em recusar...

— Acalme-se, titio — a Srta. Freemantle murmurou, afagando o braço de sir Hugo.

Então, lançou a Morse um olhar gelado que o fez pensar que havia apenas imaginado o

instante de vulnerabilidade nos olhos dela.

— Está claro que o sargento Archer não se considera à altura do desafio de nossa

aposta.As palavras dela atingiram-no como uma bofetada, ateando fogo ao seu orgulho

já abalado.

— Desafio? Chama de desafio fingir ser um desses oficiais mimados e arrogantes? Pois

saiba que sofri o bastante nas mãos daqueles tolos, e poderia fazer isso amanhã, sem

os seus três meses de treinamento. Ela o estudou da cabeça aos pés, e Morse retribuiu

o insulto. No fundo, porém, foi tomado por uma grande admiração pela oponente e, ao

mesmo tempo, um forte desejo de conquistar a admiração dela.

— Prove, sargento. Aceite a aposta.

— Não tenho de provar nada a ninguém, nem mesmo à senhorita — Morse retrucou,

sentindo a razão e o controle escaparem por entre seus dedos, mas sabendo que não

poderia aceitar passivamente os insultos daquela mulher.

— Admita, sargento. Não tem coragem para tentar.

— Nunca ouvi tamanho absurdo.

— Não é absurdo.

— É.

— Então, aceita o desafio?

— Aceito — ele respondeu sem pensar, antes de dar-se conta do que estava fazendo.

Então, ao ver o triunfo brilhar nos olhos dela, balbuciou: — Quero dizer, não. Não

posso. Poderia, mas não quero.