A Macieira por Manuel Pinto - Versão HTML

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Vagueio nas recordações da minha infância, recuando até ao tempo de

miúdo, porque as recordações de criança já se tornam vagas para um homem

feito.

Por vezes a vida provoca-nos rumos indescritíveis, por vezes sentimos

perdidos e sem retorno. Embalados pelo esvoaçar do tempo amadurecemos

e olhamos para trás soltando hipotéticas perguntas que muitos de nós, de

certeza já as fizeram...

Será que fazia tudo igual?

Se eu não fizesse isto, aquilo não me acontecia?

A vida é uma estrada principal só com um rumo, mas com vários

obstáculos, arranjos na via e fugas para estradas secundárias que provocam

o que nós chamámos de destino. Fazemos amizades, perdemos amigos,

ganhamos inimigos, criamos laços, desfazemos... Geramos sementes e

também as perdemos.

Porém, nesta viagem tumultuosa encontrámos pessoas que nunca as

poderemos esquecer, um mau rumo pode nos enviar para lugares que a nossa

mente nunca irá apagar da nossa memória.

Na nossa adolescência sentimo-nos os senhores do mundo, tudo se

torna fácil a nossos olhos e o objectivo é tornar-nos em egoístas.

À nossa volta o mundo gira de maneira diferente, os que nos rodeiam é

que não sabem como se vive... Pensamos nós na nossa inocência...

A ignorância toma-nos de alto a baixo e só caímos na realidade quando

algo nos enfrenta e nos entra pelos olhos dentro.

O passado esse recuado, transporta-nos só para pequenos momentos,

partes de uma porcelana partida que pacientemente tento unir, memórias

indistintas que anseio por apanhar.

“Penteio suavemente os seus cabelos, enquanto ouço os seus feitos e

pequenas aventuras que teve no seu dia de escola, parecem fios de seda,

entrelaçam sem cerimónias entre meus dedos, afundo-me no seu mar de

ondas enamorado pelo seu cheiro. Através do espelho vejo perante mim o

tesouro da minha vida, nas suas façanhas a minha imaginação ondulava e

vagueava na altura que tinha a sua idade”

1

No tempo nos perdemos e desvanecemos, atropelados pelo quotidiano

e rotina, mas o tempo esse… Tudo se centra no tempo, tudo vive do tempo,

mas ele não se interessa, porque tudo aquilo que ansiamos demora tempo

para ter… O tempo ilude-nos com pequenos pretextos, sentamo-nos

derrotados pelo tempo a olhar para um infinito que nos irá engolir, mas o tempo

esse, senta-se ao nosso lado e acompanha-nos nesta viagem de fim de tempo.

“Ela ergue os seus enormes olhos de engolir mundos e segue uma

mosca que voa em redor de escovas de dentes e elixires, acabando por pousar

no espelho. Matreiro, viro o secador na sua direcção e afugento-a com uma

baforada de ar quente, arremessando-a para fora de tão lindo quadro. Irritada,

olha-me com aquele ar inquisidor, arqueando os seus braços de encontro ao

corpo fazendo uma pose imponente perante um sujeito que errou no que

estava a fazer, circunspecto e desviando o olhar, prossegui com a escova o

leve passeio em busca dos caracóis perfeitos.

- Tu viste o que fizeste papá!

- Simplesmente afastei, qual é o problema?

Encheu o seu peito de ar e soltou um vozeirão, que encheu aquele

pequeno WC num tumultuoso eco:

- Mas, tu não vês que podias matar a pobre mosca!

Admirado com o seu tom de voz e surpreso pela reacção, também fiz o

meu pequeno desafio, pensando que ganhava no meu papel de pai. Levanto o

meu dedo desafiador que poucas vezes se levantava, mas quando era dia para

sair era o ver se te avias, mas nem com o dedo desafiador ou com a minha

cara mais produzida de raiva, senti um breve arrepio na sua face. Toda a sua

atitude continuava lá, seus olhos eram capazes de incendiar.

- Não é um ser vivo como tu, gostavas de levar com ar quente em

cima…

- Elas chateiam, e são porcas!

- E se morrem, o que é que tu fazes?

Deitas para a sanita e atiras água para ela para se afogar. Ela também

deve ter filhos ou pais, podem agora ficar preocupados…”

2

A morte, nas minhas lembranças de passado pouco lembrado, ficou-me

marcada por um homem, sujeito rude e pouco dado a conversas, vizinho

próximo de meus pais, lavrador de alguns terrenos onde a vizinhança da minha

idade tinha o hábito de passar e roubar alguns tomates ou cenouras da sua

plantação.

Num dia, fui apanhado numa fuga desamparada; escondido atrás de

uma árvore onde costumávamos sentar para descansar das fugas frequentes,

ergueu-se enorme e fulminante um vulto que se acercou de mim e do meu

braço sem querer largar, de nada me valeu estrebuchar e pedir ajuda aos

meus amigos, já adivinhava o que se iria passar a seguir.

Subi o morro que separava a minha casa dos campos entre

escorregadelas e safanões, Sr. Moutinho olhava de soslaio para mim sem que

eu conseguisse fixar o meu olhar no dele. Esperava-me uma bela reprimenda

de meu pai, que imaginava a abrir a porta e a receber-me com uma boa

estalada e talvez um pouco mais. As escadas íngremes defronte à minha porta

anunciavam

a

chegada

ao

meu

calvário,

Sr.

Moutinho

desceu

compassadamente cada degrau, eu ansiava que meu pai ainda não tivesse

chegado do trabalho, com a minha mãe era mais fácil lidar com estas

situações, porque as mães são mais permissivas e compreensivas. A sua

enorme mão ergueu-se no ar e arremessou contra a porta ecoando num toque

que me fez abalar anunciando-se, ouvi a lingueta da fechadura a ceder e a

porta escancarou-se para trás mostrando aquela face masculina que por vezes

me arrepiava. O olhar de meu pai, que mal escondia a raiva que se apoderava

ao de leve, emergiu do outro lado. Sr. Moutinho puxou-me para si e soltou um

breve sorriso para o meu progenitor.

- Prometa-me que não irá fazer nada ao rapaz!

Atónito com tal afirmação, meu pai olhou-me de soslaio e levantou

um pouco o beiço mostrando um sorriso disfarçado. Incrédulo esperava pela

reacção de um e de outro.

- Sr. Moutinho, desculpe-me mas um castigo vai ter, ele já tem idade

para pensar no que faz.

- Oh! Pinto, já tiveste a idade dele e fazias o mesmo.

3

Se queres que ele tenha um castigo, que seja eu a dá-lo!

Minhas pernas tremiam, todo o meu corpo tremia, sentia todo o meu

mundo a abanar, não era eu que tremia era o mundo inteiro, os dois olhavam-

se cúmplices, um entendimento consentido estava a ser selado naquele

momento. Foi o início do fim da minha infância.

Ao longo do resto do dia nenhuma palavra foi proferida, olhares fugazes

foram trocados mas nada, minha mãe estranhava aquele clima e deixava-se

flutuar sem ferir ninguém, o tempo estacionava e esperava por um desabafo,

um grito ou talvez um simples nada. A noite se abatia com salpicos de uma

chuva que teimosamente batia no vidro da janela do quarto, imaginava como

iria ser o meu castigo, solto nos meus pensamentos não dou com a presença

do meu pai que me olhava altivo e com um olhar decepcionado, viro-me para

ele esperando que algo fosse acontecer, e as suas palavras ainda hoje me

tocam.

- Vais aprender a dar valor ao trabalho e às pessoas!

Virou costas e bateu com a porta do quarto, deixando um profundo

silêncio invadir o meu pequeno espaço. Naquela noite pouco dormi sentia-me

como um condenado à forca que esperava a sua vez para chegar ao cadafalso,

o Sr. Moutinho pairava sobre mim e apontava-me o dedo, gelando-me por

dentro.

A manhã chegou e um novo dia de aulas esperava-me, de sacola na

mão corri desenfreado pela rua abaixo, a chuva da noite passada deixara uma

fila de poças que eu saltava sem parar, quando me apercebo que não sou o

único nesta pista de obstáculos que era o caminho para a escola. Alguns

vizinhos e também colegas de turma seguiam-me com a mesma vontade de

serem os primeiros a chegar, Nandinho que era o rapaz mais avantajado do

nosso núcleo de amigos, urrava o seu nome desalmado como um vencedor já

declarado, a palavra derrota não pertencia ao seu dicionário pelo menos era o

que ele pensava. A rua começava a subir a pique as forças começavam a faltar

e parecia que sentia a respiração do Nandinho atrás de mim, queria ser o

primeiro a chegar pelo menos ao portão, nos rapazes novos os dias de escola

são dias de desafios e eu sentia que aquele podia ser o meu, ao longe

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deslumbro o portão carcomido pelo tempo, mais umas passadas e o meu

objectivo era alcançado.

- Ontem não correste assim, otário!

Por isso foste apanhado.

As palavras de Nandinho estancaram-me, todos os meus músculos

pararam e não me respondiam, senti o vulto de Nandinho a passar por mim

e a atravessar o portão triunfante. Vagaroso e penante acabo de chegar à

minha meta imaginária, rodeado de um coro de troça de todos os meus colegas

soltando otário como palavra de ordem.

A manhã foi-se passando com uns risos trocistas no meio da aula, e uns

olhares fugazes de Tó que tapava a boca para não deixar sair mais um sorriso

que se iria juntar aos outros todos que se amontoaram no recreio para me

brindar. Nandinho e o resto dos rapazes combinavam mais uma partida de

futebol no campo do Mouro, claro que já não contavam comigo porque tinha o

meu carrasco ansioso para me ter a seu lado.

Terminada a ultima aula, corri apressado para a porta para ser o

primeiro a sair, assim pensava eu que não tinha de aturar o Nandinho com as

suas provocações até casa, sorte a minha ele morar mesmo por cima de mim...

e levar com os acenos de concordância que Toni permanentemente fazia

sempre que o seu líder falava. As escadas que me levavam até ao átrio da

escola eram de madeira que rangia de todas as vezes que um degrau era

pisado, pareciam rugidos que me fugiam dos pés. Chegado ao portão inicio a

minha corrida estrada abaixo em direcção a casa, a chuva já não dava sinais

de vida e um sol envergonhado tentava aparecer para, talvez nos oferecer uma

tarde quente. Azar o meu, que não iria aproveitar com os meus amigos. Tinha

um castigo para cumprir...

“Ela olha desconfiada enquanto se prepara para deitar na cama,

aconchego os cobertores e deixo-me vaguear nos seus olhos cor de avelã,

dizem que os olhos são o espelho da alma, para mim, são uma porta que

podemos deixar aberta a quem queremos e ela queria que eu lhe invadisse o

seu olhar”. A dúvida espelhava-se no fundo.

- Que tens filha, ficaste chateada comigo?

5

Decidida inspira uma boa lufada de ar e solta um longo suspiro

embalando palavras que balbuciou com cara de desinteressada.

- Não! Deixa lá...

Aquele “deixa lá” ainda me deixou mais curioso sobre o que a

apoquentava, sento-me na beira da cama e afago-lhe a face tão macia que

parecia veludo, viro a sua cara para mim e encaro-a com meiguice.

- Alguma coisa se passa, diz pequenina, podes confiar em mim!

- Não tens medo da morte?

Minhas pernas tremiam como varas verdes, não esperava uma pergunta

destas, feita por uma criança de apenas 10 anos.”

No fim do almoço, esperava-me o meu encontro com o Sr. Moutinho,

saio cabisbaixo e com pouca vontade, subo as escadas de granito que me

separavam da rua e desço o passeio embrenhando-me na entrada para os

campos, uma entrada ladeada por dois enormes muros a que nos chamava-

mos de quelha, por vezes, jogávamos à bola ali, mas um pontapé mais forte

podia originar o fim do jogo porque a bola iria para a estrada e poderia ficar

espalmada por algum carro.

Desço decidido a ladeira e avisto ao longe um pequeno ponto que se

mexia no meio de tantos riscos verdes, era o Sr. Moutinho que estava no seu

campo orlado por umas estacas de madeira e uma árvore.

A pequena ladeira se finara para dar vez a um pequeno carreiro que se

soerguia de um pequeno curso de água que passava lentamente a meus pés,

esse rego a que chamavam os lavradores, servia para regar os campos que

existiam à volta. Encontro-me em frente ao campo do Sr. Moutinho, ele cavava

a terra sem notar que eu me aproximava, tentava com cuidado não calcar os

sulcos que ele cavava, parei e olhei em volta soltando um Boa tarde sem fixar

o olhar nele. Sem camisola deixando o sol queimar a sua pele, olhou sereno

para mim e apontou para um pequeno monte de varas que estavam

encostadas a uma enorme macieira que se avistava ao fundo do terreno que

estava a cavar, sem dizer uma palavra limpou o seu suor a um lenço meio sujo

que tirou das calças. Desinteressado fui para onde ele mandou e sentei-me, a

macieira fazia um pouco de sombra e tornava-se agradável estar ali sentado.

6

Defronte a mim Sr. Moutinho deixou a sua enxada espetada na terra e

caminhou na minha direcção, todo o seu corpo se prolongava acima da terra,

parecendo uma enorme montanha que conseguia tapar o sol, aproximou-se e

empunhou a sua enorme mão para mim.

- Os homens olham-se nos olhos e cumprimentam-se assim...

A minha mão ficou em desvantagem perante a sua que açambarcava

e apertava com força torcendo os meus dedos, aguentando a dor olhava

resistente à sua investida, quando a soltou, meus dedos ansiavam por

liberdade e um pouco de movimento para fazer correr o sangue que de certeza

tinha parado naquele instante. Seu corpo voltou para o mesmo sítio donde

viera e eu fiquei ali, com a mão a doer e a olhar para um sujeito a cavar.

A terra elevava-se no ar levada pelo vento em cada sacudidela que ele

fazia na terra com a enxada, todo o seu corpo estremecia em cada golpe que

desferia, o suor escorria-lhe pela face caindo derrotada na terra. O meu castigo

era ver o que lhe custava tirar partido do seu pequeno lote de terreno?

Ao longe, avisto os meus amigos a chegarem de mais um jogo de

futebol, envergonhado permaneço quieto e aguardo que passem sem darem

conta que ali estou, Sr. Moutinho ouve a algazarra que costumavam fazer e

para o seu serviço repousando seu corpo em cima da enxada, olha com

desafio á passagem dos fedelhos, (nome carinhoso que costumava dar aos

miúdos da rua), esperando que algum deles lhe roubasse algum tomate ou

estragasse alguma coisa, Nandinho dá conta da minha presença e avisa os

outros que em uni som espalham o grito de otário ao vento enquanto

atravessam o pequeno carreiro. Mergulho a minha cabeça entre as minhas

mãos e espero impacientemente que passem rápido, toda a cantoria acaba

quando chegam ao cimo da ladeira onde param e ficam a olhar com cara de

troça para mim. Já o sol ia se pondo soltando uma cor alaranjada no horizonte

e o pequeno cercado de miúdos ainda se mantinha ali no alto da ladeira a

olhar, Sr. Moutinho continuava no seu afazer, no meio de cada cavadela cuspia

para a terra e limpava mais um pouco a testa. Um grito de chamamento ecoou

pelos campos assustando-me.

- OH NANDIIIIINHO!

7

Dona Branca chamava o seu neto para o seu lar, Sr. Moutinho olhou

para mim e fez-me sinal para ir embora. Ergui-me rapidamente e dirigi-me para

ele, estiquei o meu braço e ofereci-lhe a minha pequena mão para a sua.

- Afinal hoje aprendeste alguma coisa, não foi?

Envergonhado senti meus ossos a estalar enquanto ele me apertava,

olhei de soslaio para a ladeira e já não via a comitiva de mirones que á pouco

zombavam de mim.

- Amanhã á mesma hora aqui, esta bem?

Nem uma palavra lhe disse, limitei-me a acenar com a cabeça

afirmativamente e virei-lhe costas correndo para casa.

Entrei em casa de rompante, parco em palavras, fechei-me no meu

quarto. Divagava sobre o que eu era, no que me estava a tornar, no Sr.

Moutinho...Sei lá...

Nessa noite a figura paternal do meu pai evidenciou-se, estava

habituado a uma figura ausente e dispersa, ele chegou-se a mim e pousou-me

um beijo na testa, depois estendeu-me a mão, incrédulo assisti ao seu

movimento e estendi a minha e apertei-a firme e consistente. Com um sorriso,

que eu há muito tempo não via, soltou o aperto de mão e virou-se em direcção

da porta sem antes se voltar e desejar-me uma boa noite de uma maneira

meiga, não foi uma boa noite entre dentes, mas com as palavras a fluírem com

gosto.

Alguma coisa estranha estava a acontecer, mas eu estava a adorar.

No dia seguinte, lá estava eu defronte a meu carrasco para submeter a

mais um castigo, se forem todos iguais aos de ontem não me importava nada.

Estendi a minha mão e disse boa tarde olhando-o nos olhos sem pestanejar,

ele cordial assentiu ao meu cumprimento e apertou a minha mão, não com a

força do dia anterior mas com aquele aperto forte sem aleijar. Olhei na

direcção da macieira e vi uma pequena enxada encostada, ele olhava-me em

silêncio esperando a minha reacção. Decidido fui buscar a enxada e apresentei-

me perante Sr. Moutinho com ela ao ombro. Um sorriso fugiu-lhe de seus

lábios, cuspiu para as mãos e agarrou-se á sua enxada erguendo-a no ar e

depois soltando com toda a força na terra soltando um som esganado do ferro

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com a terra. Nem uma palavra desatou, olhei á minha volta e copiei todos os

movimentos que antecederam, cuspi nas mãos mesmo sem saber para que,

ergui a minha enxada no ar, bati com toda a força na terra mas o som foi

diferente e a enxada teimava em não cair certa no ponto que eu queria.

Sentia-me a ser seguido pelo seu olhar, mas tentei fazer como ele e

continuei sem desistir.

- Porque é que te chamaram de otário, ontem?

- Porque fui apanhado por si, naquele dia que me levou ao meu pai.

- Deixas que te chamem nomes?

- Na escola chamam-me de idiota...

Porque dizem que eu tenho muitas ideias, só que eu não gosto muito.

- É melhor idiota do que otário.

Sabes, existe um livro que se chama idiota, é de um escritor esquisito,

acho que é russo, é Fedor qualquer coisa.

- Você já o leu? Com esse nome não deve ter muitos leitores.

- Não, eu não sei ler, o meu filho é que me fala dos livros que lê e eu

limito-me a imaginar as histórias á minha maneira.

Não tenho mãos para livros, rapaz.

Para mim fazia-me confusão uma pessoa que não sabia ler, na minha

família só conhecia a minha avó, Sr. Moutinho ainda era novo para meus olhos

mas pelos vistos o peso da vida tirou-lhe o acesso a uma educação. O meu pai

sempre me dizia que ler abria-nos portas, para o Sr. Moutinho elas

continuavam fechadas. Continuava o seu bater na terra incessante, e eu mal

ou bem ia conduzindo a minha enxada o melhor que podia.

O tempo passava e ao longe avistava os mesmos mirones do dia

anterior, riam-se como desalmados ao ver empunhando a minha enxada.

-Não tenhas vergonha de estar a trabalhar rapaz, as vezes também tiras

lições nestas experiências, nem só os livros te mostram a realidade.

Depois do dia de hoje vou te mostrar o que ganhaste.

Aquelas palavras não calaram o meu ego ferido de ser gozado por

estar num campo a lavrar, mas desliguei os pensamentos sobre o Nandinho

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e companhia e continuei o meu trabalho. O suor já me escorria pela fronte

enfiando-se pelos olhos, passava o braço para limpar a testa mas o braço

conseguia estar mais molhado que o resto do corpo, nunca imaginei que o meu

corpo tivesse tanta água para deitar fora. Por vezes deitava o olho para ver

como estava o sol para calcular o tempo que me restava mas parecia que o

tempo tinha parado e o sol teimoso não queria sair donde estava.

Minhas mãos ferviam, olhava para elas e via-as vermelhas cor de

sangue, ele fazia de conta que não reparava em mim mas notava que estava a

achar um gozo enorme, ver-me a olhar para as mãos, lá no alto o pessoal

sentado á sombra não desviava os olhos de mim.

- Então estás cansado, queres parar um pouco?

- Se você parar eu também paro.

Pousou a enxada no ombro e andou em direcção á macieira, eu

obediente seguia o seu rasto pelas pegadas enormes que deixava na terra,

meus pés pareciam que eram engolidos pelos enormes buracos que deixava

à sua passagem. Sentamo-nos a usufruir daquela sombra agradável e a beber

água de um cântaro que estava pousado ali perto, quando chegou a minha vez

de matar a sede, deitei um pouco de água fresca para as minhas mãos para

as humedecer e arrefecer porque parecia que tinha um pequeno inferno em

erupção ali nas minhas palmas.

- Deixa-me ver as tuas mãos!

Estiquei as minhas mãos para ele que docemente as virou para poder

ver as minhas palmas, passou os dedos por umas bolhas que me tinham

aparecido e sorriu.

- Estas são umas mãos que estão a aprender a trabalhar, um homem

mede-se pelos calos que possui nas suas mãos.

Estendeu as suas e pousou-as no meu colo, pareciam dois blocos de

granito áspero e rude, olhei para ele pasmado, ele apertou as minhas mãos

nas dele.

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- A minha vida está toda aqui, cada calo é uma história ou um período

da minha jornada. Um homem sente-se vivo pelas marcas que obtém do seu

esforço diário.

Naquele local podia avistar os meus amigos que conversavam uns

com os outros enquanto eu descansava junto a Sr. Moutinho, reparei que

ele também olhava para eles e sorria para dentro, sem deixar entender que

a situação se tornara engraçada para ele. Esperava que eu disse-se algo

mas continuei em silêncio e admirava-me do trabalho que tinha efectuado até

aquela altura, alinhava com a vista o meu rego torto mas imponente, tinha

saído da força de meus braços.

- Quando olho para o meu campo imagino a vida que irá nascer naquele

rego que andei a abrir, posso escolher couve-galega, cenouras, alface, batata,

um sem número de coisas mas o que é mais importante é que nasce da terra

mas precisa do meu suor para eclodir. Sinto-me dono e senhor do que nasce

e morre aqui, trato como se saíssem de mim porque eu também faço parte da

terra, eu sinto que nasci da terra...

Em cada cavadela que dou, uma parte de raiva em mim atravessa o seu

ventre. A terra, miúdo é a nossa melhor confidente, atravessamos com raiva

e ela absorve, alimentamo-la e ela faz criar vida, abençoamos o alimento que

nos dá. Depois deixamo-la em repouso para fazer tudo novamente. Esta terra

recebeu tudo o que tive em vida, vivemos momentos felizes, alturas menos

boas mas sempre me recebeu bem. Todos os meus pensamentos e angústias

enterrei-os aqui, já sorri, chorei, gritei, tudo para dentro dela.

Gostava que ela me recebesse por todo… um dia talvez?

Quero acabar os meus dias à sombra da macieira, plantei-a com o meu

filho, ele também gostava de estar sentado onde estás agora. Falávamos de

tudo e de nada e por vezes também ficava assim em silêncio a ouvir-me.

O que estou a fazer contigo, que tu achas que é um castigo, á muito

tempo atrás fiz com o meu filho, vocês precisavam de sentir a terra, dar o valor

á vida que ela encerra e que aos poucos com a nossa ajuda ela faz despontar.

11

Fiquei estático, o silêncio acompanhou-nos durante aquele momento,

a minha cabeça possuía um turbilhão de ideias dispersas que começaram a

encaixar nos sítios certos e a fazer sentido.

Ele olhava sem destino para a macieira a contemplar os últimos raios de

sol que atravessavam suavemente por entre as folhas, acabando por avistar os

meus amigos sentados do outro lado a olhar para nós.

- Até eles já perceberam isto sem fazer nada…

Sr. Moutinho tinha razão, perdiam o seu tempo a olhar lá do alto da

ladeira e viam o esforço que demonstrávamos e gozavam com isso, até

acabarem sentados a olhar, mas de uma maneira diferente, parecia que as

palavras de Sr. Moutinho atravessaram a terra e embrenharam-se neles,

fazendo o acerto de ideias tal como eu. Nandinho ao longe deixou de ter o

olhar altivo que tinha, sentia-se ligado, envolto nas palavras humildes e sábias

daquele homem.

O chamamento do Nandinho ecoou pelo ar, estava na hora de eu me

despedir. Sr. Moutinho não se levantou, permaneceu quieto, a admirar o sol a

esconder-se atrás dos prédios, olhei para ele e peguei na minha enxada.

- Quer ajuda para levar as enxadas para casa?

- Meu rapaz, ainda tenho força para te levar ao ombro para casa.

Soltamos umas gargalhadas bem ruidosas para o ar e depois

estancamos inertes em frente um do outro, estiquei a minha mão que devia

estar cheia de febre para ele e ele apertou gentilmente com a sua.

- Sinto-me orgulhoso do meu trabalho Sr. Moutinho!

- Fico contente por ouvir isso, tu és um bom rapaz!

Permaneceu ali sentado agarrado ao seu sonho que permanecia

escondido em si, seus olhos queriam verter dilúvios infinitos de lágrimas, mas

tive que ir embora para o deixar só porque por vezes o melhor é a solidão, e

sentia que era o que ele naquele momento precisava.

Levantei a minha mão para me despedir, olhei para ele no fundo de uma

lágrima que não queria soltar e apertei-a forte e decidido como ele me tinha

ensinado.

12

- Até amanhã Sr. Moutinho!

- Até amanhã rapaz...

Aquele até amanhã não parecia o fim da conversa porque o seu olhar

não fugia de mim, já o campo era ocupado por uma sombra enorme que se iria

transformar aos poucos e poucos na noite.

- Gostava de ter um neto assim como tu...

- Então, que ideia parva, o seu filho irá dar-lhe um neto de certeza!

- Não sei se andarei por aqui nessa altura...

Segui o meu caminho para casa com a sua última frase na minha mente,

ou não percebi a sua ideia ou não queria entender o seu propósito. Olhei mais

uma vez do alto da ladeira para o campo e assisti à sua imobilidade, seus

pensamentos dispersavam-se e ele tentava apanhá-los com suas mãos de

pedra.

Nas minhas lembranças de infância, muitas vezes lembro-me da nossa

hora de jantar. Por vezes eu e a minha mãe comíamos sozinhos porque o meu

pai ainda chegava tarde, mas nas lembranças do fundo do baú sobressai um

jantar em que estávamos os três. Nossos olhares cruzavam-se entre o bater

de talheres e de um som de uma televisão esquecida, num noticiário ainda

monocromático, sobre notícias que ninguém naquele momento queria saber.

Só aquele fragmento de tempo é que interessava, minha mãe feliz, meu pai

risonho e eu arrebatado de alegria.

Quando queria erguer o jarro de água para verter no copo, minhas mãos

cederam e um grito de dor soltou-se para espanto dos meus progenitores, o

meu pai pegou na minha mão e virou pra si a palma para ver o que me tinha

causado a dor, depois de ter conferido o problema olhou para a minha mãe e

esboçou um sorriso sorrateiro.

- As minhas primeiras bolhas!

- Ainda bem que tens orgulho delas...

Naquele momento senti que meu pai me dizia algo sem querer dizer, ele

tinha orgulho em mim, via nos seus olhos aquele brilho que não sabemos muito

bem explicar, só sabemos com o passar do tempo. Existem emoções que se

expressam sem necessitarem de explicações.

13

- Estás a começar a dar valor às coisas que dantes nem sabias que

existiam, e isso está a tornar-te um homem.

Contive uma lágrima teimosa que teimava em eclodir de meus olhos.

Apertei fortemente as mãos e a figura de Sr. Moutinho aparecia-me nos meus

pensamentos. Nessa noite o cansaço dominava-me mas sentia-me realizado.

Mais um dia, e cheio de vontade de estar perto do Sr. Moutinho, no

fim do almoço comido com pressa corro em direcção aos campos, já não ia

contrariado, sentia todo o meu corpo com vontade de explodir e ouvir mais

uma vez aquele homem que me abria os olhos de um modo que mais ninguém

fazia.

Alcanço a ladeira e não vejo o Sr. Moutinho no seu campo, em vez disso

três miúdos aninhados andavam ao redor dos regos que abrimos a apanhar

pedras e ervas daninhas, consigo distinguir o Nandinho, o Toni e o seu irmão

Carlos. Não esperava vê-los por ali, afinal as palavras atingiram-nos sem

saberem, todos estivemos em castigo e o Sr. Moutinho tinha razão em dizer

que eles também aprenderam e não fizeram nada.

Estranhei a ausência dele e decidi fazer-lhe uma visita a sua casa, eram

dois passos curtos até ao seu lar e fui brindado por um garnisé que se pôs em

poses de lutador á entrada do portão. Chamei pelo seu nome á entrada, e os

cacarejos do garnisé envolveram-se no meu grito que ecoou para dentro do

átrio, vejo um pequeno vulto a emergir, era Dona Guidinha, senhora afável que

só via o nosso Senhor Redentor, espalhando a sua palavra com todos os que

lhe dessem ouvidos.

- Olá meu filho, já por aqui?

- Venho chamar o Sr. Moutinho para irmos para o campo, venho de

lá agora e ele não estava, por isso vim aqui. Pode precisar de ajuda com as

enxadas.

- Ele ainda está a almoçar, mas se quiseres podes ir ter com ele à sala.

Entra, não tenhas medo do Vergílio que ele só manda peito.

Puxei o ferrolho do portão e entrei em direcção ao átrio da casa, o

Vergílio já não cacarejava, olhava por cima do seu “ombro” sempre com o seu

ar de dominador mas sempre a recuar para que não ficasse na minha alçada.

14

Dona Guidinha apontou para uma porta para que entrasse na casa, ficando

para trás para sacudir umas galinhas que aproveitaram a ausência do garnisé

Vergílio para conhecer melhor os canteiros arranjados da dona da casa.

A casa cheirava a antigo, fotografias antigas de família ornamentavam

as paredes gastas pelo tempo, o soalho rangia á minha passagem. Dona

Guidinha aparecia como uma moça nova numa fotografia em que o seu marido

está abraçado a ela, o tempo passa...

- Já nem me lembro que idade tínhamos na altura.

- Faziam um casal e pêras. Não?

- Faziam não... fazemos...

- Sim, claro desculpe.

Temos que ir para o campo rapidamente para ver o que está a

acontecer.

- Calma miúdo, temos tempo, já almoçaste?

- Sim, sim. Venha ver...

Meio desorientado lá pegou nas duas enxadas e partimos em direcção

ao seu campo, quando chegamos ao cimo da ladeira deparamo-nos com

os três gozões anteriores a arrumarem as pedras á volta do campo e a

fazerem uma pilha de ervas no meio do pequeno carreiro. Nem uma palavra

pronunciou, deixou-se levar pelo caminho do carreiro e chegado á entrada do

seu campo os três miúdos voltaram-se para ele e estenderam-lhe as mãos.

Não sabia se havia de me rir ou de participar naquele estranho encontro. A

todos apertou as mãos e a cada um deu um afazer que afincadamente ia

cumprir.

Comandava as suas tropas como nenhum general o tinha feito, a sua

face permanecia dura e insensível, mas aquela lágrima teimosa ainda rondava

pelos seus olhos. Os meus amigos uniram-se e mostraram que podiam

ser diferentes, Nandinho agora entretinha-se a montar um espantalho com

indicações do Sr. Moutinho, Toni abria os canais de rega com a sua enxada

pequena para dar passagem á água que banhava os sulcos abertos por mim e

pelo Sr. Moutinho, Carlos arranjava cuidadosamente as varas para segurar os

feijoeiros.

15

Todos se sentiam úteis e o tempo passava entre risotas e brincadeiras,

eu continuava a cavar, expulsar a raiva contida para a terra. já não se avistava

ninguém no cimo da ladeira, agora todos juntos ficávamos a admirar o sol a

pôr-se, sentados perto da macieira.

Durante muito tempo passamos a ajudar o Sr. Moutinho no seu campo,

o tempo do castigo tinha passado sem darmos por isso, porque se fazemos

com gosto nada se torna em castigo ou sacrifício. Por vezes íamos jogar

futebol como antes mas desta vez passávamos pelo carreiro dos campos em

passo lento e visitávamos sempre o nosso companheiro e deambulávamos

em conversas vãs na sombra da sua macieira. As conversas passavam pelas

raparigas que conhecíamos na escola ou que gostávamos de conhecer, ou

aquela discussão com os pais do dia anterior. Tudo era dito e explicado no seio

de um grupo de amigos que o destino decidiu juntar.

“As palavras não se soltam com facilidade quando temos algo difícil para

explicar, ela tão pequena e com pensamentos tão adultos. Os pais sempre

acham que os seus filhos nunca crescem, a inocência não dura para sempre,

mas desejávamos.

- Não, filha... Todos têm que morrer um dia.

Mas ainda és muito pequena para falar nisto.

- Mas não respondeu à minha pergunta.

Tens medo da morte ou não?

A insistência dela feria-me, a minha mente vagueava em frases bonitas

para amaciar a conversa, mas a pose dela mantinha-se firme, inabalável,

aguardando a qualquer momento uma resposta.

- Toda a gente tem medo, claro que eu também tenho.

Porque quando acontecer, deixo de estar perto de ti e da tua mãe. Não

quer dizer que seja agora ou daqui a muitos anos, temos que olhar para a vida

e não pensar que é uma viagem curta.

Existe um provérbio espanhol que explica bem isso, acho que é assim:

“A morte ciente da sua vitória dá-nos a vida de avanço”

16

As suas pequenas mãos envolveram a minha face e um beijo soltou-se

de seus lábios para pousar na minha testa.”

Já o inverno chegava com seus ventos em surro pio e chuvas de bradar

os céus, terrenos alagados e pouco sol para jogar futebol ou acompanhar o Sr.

Moutinho na sua lide. Durante algum tempo deixei de aparecer no campo do

Sr. Moutinho com os meus amigos, tinha entrado na escola preparatória e os

dias eram bastante preenchidos, e tinha agora amigos novos.

Dona Guidinha frequentava a minha casa como se fosse da família, lá

trazia novidades do seu marido. Sempre temente a Deus e zelosa pelos

nossos actos e rumos na vida. Levava hortaliça do seu campo, dizia ela que

dava uma sopa divinal, com a ajuda de Deus aquela hortaliça era um manjar

dos deuses. Desabafava com a minha mãe o cansaço do marido, que já não

tinha forças para ir para o campo.

- A idade pesa Milinha! Ele já não tem a força de um jovem.

Ao ouvir as suas palavras senti-me como um parvo, deixei de aparecer

com o resto do pessoal e ele acabou outra vez sozinho. A vergonha impediu-

me de aparecer perante ele, mas sabia que o Sr. Moutinho sentia a nossa falta.

Num dia envergonhado, o sol deixava-se esconder por vários momentos

por nuvens cinzentas, recebi a notícia que fez abalar o meu pequeno mundo.

Sr. Moutinho tinha falecido naquela manhã. Minha mãe ainda tentou em vão

segurar-me mas já trepava em alvoroço as escadas íngremes que me levavam

em direcção á rua, precipitei-me pela quelha fora com as lágrimas a soltar-se

vazias pelo meu rosto. Apareci defronte ao portão que eu arremessei para trás

com toda a força, nem o garnisé apareceu para impor o seu respeito, todo

aquele átrio era um silêncio absoluto, abri vagarosamente a porta que dava

acesso á sala e ali estava ele deitado dentro de um caixão em cima da mesa

da sala.

Na minha inocência perante tal visão, em vão tentei acordá-lo, minhas

lágrimas caiam desalmadas pela minha cara, agarrei-me a ele e o seu corpo

gélido fez todo o meu ser arrepiar. Olho á minha volta e deslumbro aquele

momento forrado com fotografias de família expostas pela sala, fotografias

17

essas que outrora admirei, espaços de tempo presos em papel, agora jazia ali

sem piscar de olhos, sem enxada na mão, sem aperto de mão, sem nada…

Foi o dia em que me senti realmente só. Debrucei-me e pousei um beijo

na sua nuca, meus dedos passeavam na sua face humedecendo-a com as

lágrimas que teimavam em não parar de jorrar.

Dona Guidinha abriu a porta e deixou-se a mirar a minha despedida,

meus olhos deram pela sua presença e fixaram-se nas mãos entrelaçadas,

ainda falta uma coisa, ela libertou um olhar condescendente e deixou-me á

vontade para fazer o que queria. O que eu queria era um último aperto de mão,

demorei-me um pouco a sentir a falta de força que faltava nele mas sabia que

nunca mais o iria esquecer. Voltei-me e abracei Dona Guidinha num espasmo

de tristeza, ela tranquilamente beijava-me na face dizia que ele agora estava

com o Senhor e sentia-se feliz por isso.

Soltei os braços e sai da sala, a imagem ficou-me gravada na mente até

hoje, um homem jazia num caixão em cima de uma mesa da sala e a sua

mulher serena a despedir-se de mim.

- Meu filho, não fiques assim. O Senhor está a fazer o seu rebanho no

céu e precisou dele.

Não tinha palavras para argumentar, para que é que um Deus assim tão

poderoso precisava de um simples homem que iria fazer tanta falta aqui na

terra.

- Morreu á sombra da macieira. Estava a descansar e morreu em paz.

Sr. Moutinho sonhava com esse fim e obteve o que queria, toda uma

vida dentro daquela macieira e daqueles campos. Cada folha era um

pensamento, cada ramo uma encruzilhada na sua vida, cada raiz a força de

que precisava. Tanto nos ensinou, em tão pouco tempo e o tanto que lhe

ficamos a dever.

Levantei a minha mão como sinal de despedida e deixei-a com todos os

familiares e amigos que apareciam para fazer uma última homenagem, juntos

em tristeza abraçavam-se compassadamente entre choros e gritos sem

controlo.

18

Junto ao canteiro das rosas, Nandinho olhava para mim apático, Toni

esfregava os olhos para secar as ritmadas lágrimas que lhe escorriam pela

face, Carlos olhava distante para um ponto fixo no chão.

Abeirei-me dos meus amigos e também permaneci a assistir ao velório

que naquele instante se iniciara com a ajuda do Sr. Padre, amigo íntimo da

família. Nossos olhares cruzavam-se no meio de choros e de tristeza, o Sr.

Moutinho já não esta aqui...

Pensamentos cruzados fizeram-nos levantar e sair dali, as pernas

já sabiam o rumo a tomar, os estreitos carreiros abriram-se para facilitar

a passagem, os arbustos teimosos baixavam seus ramos enquanto

atravessávamos. Em pouco tempo, quatro amigos sentaram-se debaixo da

macieira que chorava sob gotas de chuva a sua perda, levemente a chuva

parou e um raio de sol iluminou a macieira como nunca tinha feito, raiava só

para nós.

Sr. Moutinho sentado a nosso lado sorria, devolvemos o sorriso e

continuamos a admirar o brilho do sol glorioso nas folhas daquela bela

macieira, em silêncio.

- Agora dorme pequenita, já é tarde!

Solto as palavras impacientemente para acabar com aquela conversa,

aconchego suavemente os seus cobertores enquanto lhe admiro a luz dos seus

olhos, repouso um demorado beijo na sua testa afagando-lhe o cabelo.

- Bons sonhos, sonhos coloridos e nanã bem!

- Bons sonhos, sonhos coloridos e nanã bem!

- O que é que eu sonho Papá?

- Sonha com...??

Sonha com uma macieira... “

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FIM

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