A Menina Que Fazia Nevar por Grace McCleen - Versão HTML

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Para o anjo

Eis o que me disse o Senhor: No dia em que escolhi Israel, eu também levantei minha mão para abençoar a estirpe deles, revelei-me a eles na terra da

escravidão. Sim, levantei minha mão para eles e disse: “Eu sou o Senhor, vosso Deus”. Naquele dia levantei minha mão para eles com o juramento de fazê-los sair da terra da escravidão em busca de uma terra que eu explorara para eles, terra que mana leite e mel, a terra gloriosa.

Ezequiel 20, 5-6

LIVRO I

INSTRUMENTO DE DEUS

O quarto vazio

No princípio, era um quarto vazio, um pouquinho de espaço, um

pouquinho de luz, um pouquinho de tempo.

Eu disse: “Vou fazer campos”, e os fiz com toalhas de mesa, car-

pete, veludo marrom e feltro. Depois, fiz rios de papel crepom, filme

plástico e papel-alumínio brilhante, montanhas com papel machê e

cascas de árvore. E olhei para os campos e olhei para os rios e olhei

para as montanhas e vi que isso era bom.

Eu disse: “Agora um pouco de luz”, e fiz um sol com uma gaiola de

metal envolta em colares de contas pendurados, fiz uma lua crescente,

estrelas luminosas e, na beirada do mundo, um mar com um espelho,

refletindo o céu, os barcos, os pássaros e a terra (onde se tocavam). E

olhei para o sol e olhei para a lua e olhei para o mar e vi que isso era

bom.

Eu disse: “Que tal umas casas?”. E fiz uma de capim seco, outra

com um tronco de árvore oco e mais uma com um pote onde tinham

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vindo balas de caramelo, e coloquei nela linha de pesca e uma vela, ar-

rumei espaço para um cobertor, uma escova de dente em um copo e

um forno, pus uma gaivota no alto do mastro (que na verdade era um

cabo de vassoura) e a lancei ao mar (que na verdade era um espelho).

Fiz casas com embalagens de biscoitos feitos para mergulhar no

chocolate: o potinho de plástico onde ficava o chocolate era o quarto, a

parte redonda logo abaixo, onde ficavam os biscoitos, era a sala de es-

tar. Fiz casas com caixa de fósforos e ninho de passarinho e vagem de

ervilha e conchas. E olhei para as casas e vi que isso era bom.

Eu disse: “Agora precisamos de animais”, e fiz pássaros de papel,

coelhos de lã, gatos e cachorros de feltro. Fiz ursos peludos, leopardos

listrados e dragões que tinham carapaças e cuspiam fogo. Fiz peixes re-

luzentes e caranguejos cascudos e pássaros pendurados em fios muito

finos.

Por fim, eu disse: “Precisamos de pessoas”, e modelei rostos e

mãos, lábios, dentes e línguas. Vesti as pessoas com roupas e perucas e

soprei em seus pulmões.

E olhei para as pessoas e olhei para os animais e olhei para a terra.

E vi que isso era bom.

O chão visto do ar

Se você está no chão e olha para a terra, ela parece muito grande.

Se está no parquinho e se abaixa, com o rosto perto do chão, como se

estivesse procurando alguma coisa bem pequena, ela parece maior

ainda. Há quilômetros de concreto indo para a frente e quilômetros de

céu indo para cima e quilômetros de nada indo para lugar nenhum no

meio. Os meninos jogando futebol são gigantes, a bola é um planeta, as

meninas pulando são árvores arrancando as raízes e a cada giro da

corda a terra treme. Mas se você olha do céu, os meninos e as meninas

e a bola e a corda parecem menores que moscas.

Fico vendo os meninos e as meninas. Sei como se chamam, mas

não falo com eles. Quando percebem minha presença, eu olho para o

outro lado. Pego um papel de bala bem perto do meu pé. Com ele vou

fazer flores ou um arco-íris, ou talvez uma coroa. Guardo o papel em

uma sacola e sigo em frente.

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As ervas daninhas crescem pelo concreto. Nos cantos dos prédios

elas estão forçando a passagem, abrindo caminho para a luz. Eu liberto

algumas e as ponho com um pouco de terra em uma latinha de chocol-

ate e em um canudo de doces. Elas vão ser plantadas de novo e aí serão

carvalhos, palmeiras, umbus e faias. Pego um cadarço jogado em uma

poça d’água. “Isso aqui vai ser uma mangueira”, eu digo. “Ou um

riacho. Ou uma serpente. Ou talvez uma trepadeira.” E fico feliz,

porque em poucas horas estarei de novo no meu quarto, criando coisas.

Então, de repente, estou caindo, o chão se apressa para me encon-

trar e a areia morde meus joelhos. Um menino de pé em cima de mim.

Ele é alto. Tem o pescoço largo. Olhos azuis, sardas, pele branca e nariz

de porco. Ele tem cabelo amarelo, cílios claros e um topete de lambida

de vaca. Mas acho que ninguém gostaria de lamber o cabelo dele, nem

mesmo as vacas, que lambem o próprio nariz. Dois garotos ao seu lado.

Um deles pega a sacola que estou carregando. Vira a sacola e papéis de

bala, fitas e tampas de garrafa se espalham.

O garoto de cabelo amarelo me puxa. Ele diz: “O que a gente vai

fazer com ela?”.

“Pendurar nas grades.”

“Abaixar as calças dela.”

Mas o garoto de cabelo amarelo sorri. Ele diz: “Você já viu uma

privada por dentro, sua estranha?”.

O sino toca e as crianças de todo o parquinho correm para fazer

fila diante das portas duplas. O menino de cabelo amarelo diz: “Merda”.

Para mim ele fala: “Espera só até segunda”, me empurra e sai correndo

junto com os outros.

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Quando já se afastaram um pouco, ele se vira. Tem uma expressão

de sono nos olhos, como se estivesse sonhando e gostando do sonho.

Ele passa o dedo pela garganta e depois dá risada.

Fecho os olhos e me encosto nas lixeiras. Abro os olhos, limpo as

pedrinhas dos joelhos e cuspo neles. Eu deixo os dois bem esticados

para que não ardam mais. Começo a andar para o prédio da escola.

Estou triste porque, no fim das contas, não vou mais poder fazer flores,

nem um riacho, nem um carvalho. Mas o pior é que, na segunda-feira,

Neil Lewis vai botar minha cabeça na privada e, se eu morrer, quem

vai me fazer de novo?

O sino parou de tocar agora e o parquinho está vazio. O céu vai

baixando. Parece que vai chover. Então uma rajada de vento sobe do

nada. Ela açoita meus cabelos, infla meu casaco e me carrega. E caindo

e batendo e esvoaçando em volta de mim vão embrulhos e papéis e

fitas e tampinhas.

Prendendo a respiração

Meu nome é Judith McPherson. Tenho dez anos de idade. Na

segunda-feira aconteceu um milagre. É assim que vou chamá-lo. E fui

eu que fiz tudo. Foi por causa do que Neil Lewis tinha falado sobre en-

fiar minha cabeça na privada. Foi porque eu estava com medo. Mas

também foi porque eu tive fé.

Tudo começou na sexta à noite. O Pai e eu estávamos comendo

cordeiro e ervas amargas na cozinha. Cordeiro e ervas amargas são

Coisas Necessárias. Nossas vidas estão cheias de Coisas Necessárias

porque estamos vivendo nos Últimos Dias, mas Coisas Necessárias

quase sempre são difíceis, que nem rezar. Rezar é necessário porque o

Armagedom está próximo, mas a maioria das pessoas não quer ouvir

pregações e às vezes grita com a gente.

O cordeiro representa os primogênitos que Deus matou no Egito e

também representa Cristo, que morreu pela humanidade. As ervas am-

argas relembravam aos israelitas a amargura da escravidão e como era

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bom estar na Terra Prometida. O Pai diz que são ricas em ferro. Mas

gosto de pensar nos cordeiros em um campo, não no meu prato, e

quando tento engolir as verduras amargas, minha garganta fecha.

Naquela sexta à noite, eu estava com mais dificuldade para comer do

que o normal, por causa do que Neil Lewis tinha falado. Depois de um

tempo, desisti e soltei o garfo. Eu disse: “Como será que é morrer?”.

O Pai ainda estava com o macacão da fábrica. A luz da cozinha fazia

buracos em volta dos seus olhos. Ele disse: “O quê?”.

“Como será que é morrer?”

“Que tipo de pergunta é essa?”

“Estou só pensando.”

Seu rosto estava sombrio. “Coma logo.”

Enchi o garfo com as verduras amargas e fechei os olhos. Queria

ter tapado o nariz, mas o Pai iria ver. Contei e engoli. Depois de um in-

stante, eu disse: “Quanto tempo uma pessoa consegue sobreviver com a

cabeça enfiada debaixo d´água?”.

“Quê?”

“Quanto tempo alguém sobrevive debaixo d´água?”, perguntei. “Sei

lá, acho que essa pessoa vai durar mais se já estiver acostumada. Pelo

menos até alguém encontrar ela. Mas e se for a primeira vez? Se quem

estiver empurrando quiser que essa pessoa morra — e eles querem —,

sei lá, se estiverem segurando a cabeça dela debaixo d´água?”

O Pai disse: “Do que você está falando?”.

Olhei para baixo. “Quanto tempo alguém sobrevive debaixo

d´água?”

Ele disse: “Eu não tenho a menor ideia!”.

Engoli o resto das ervas amargas sem mastigar, depois o Pai tirou

os pratos e trouxe as Bíblias.

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Nós lemos a Bíblia todos os dias e depois ponderamos sobre o que

acabamos de ler. Ler a Bíblia e ponderar também são Coisas Necessári-

as. Ponderar é necessário porque é o único jeito de descobrirmos o que

pensamos a respeito de Deus. Mas os caminhos de Deus são inescrutá-

veis. Isso significa que você pode passar a vida ponderando e, mesmo

assim, não saber o que pensar. Quando tento ponderar, minha mente

escorrega para outras coisas, como um jeito de fazer uma piscina e de-

graus com um bastidor de bordado para a maquete de mundo no meu

quarto, ou quantas balas de pera posso comprar com as moedas que

tenho no bolso, ou quanta ponderação ainda falta fazer. Mas depois nós

sempre conversamos sobre o que ponderamos, então não dá para fingir

que você ponderou quando, na verdade, não ponderou nada.

Estava escurecendo do lado de fora da janela. Dava para ouvir os

garotos andando de bicicleta na ruela de trás. Subiam uma rampa e,

toda vez que desciam, a tábua retumbava. Olhei para o Pai. Eu sabia, só

pela forma como suas sobrancelhas saltavam, que devia prestar atenção.

Sabia, pelo modo como seus óculos brilhavam, que não devia

interrompê-lo. Olhei para baixo, enchi o peito e segurei o ar.

No nono ano, no décimo mês, no décimo dia do mês, a voz do Senhor me foi dirigida: ‘ Filho do homem, anota este dia, este dia exatamente, porque o rei da Babilônia atacou Jerusalém...’.”

Depois de vinte e cinco segundos, a sala começou a pulsar e minha

respiração escapou em sopros curtos. Esperei um minuto e prendi o

fôlego novamente.

Um cachorro latiu. Uma tampa de lixeira bateu. Os segundos

pingavam do relógio sobre a estante da lareira. Depois de vinte e cinco

segundos, a sala começou a pulsar de novo e soltei o ar mais uma vez.

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Deve ter sido um movimento brusco, porque o Pai levantou os olhos e

disse: “Você está bem?”.

Abri bem os olhos e fiz que sim com a cabeça.

“Está acompanhando?”

Fiz que sim outra vez e abri ainda mais os olhos. Ele me olhou

com as sobrancelhas baixas e recomeçou a leitura.

“‘ Suas impurezas são uma infâmia. Porque tentei purificar-te, mas tu não quiseste ficar livre das tuas impurezas, e agora não ficarás pura até que se ac-alme minha cólera contra ti. Eu, o Senhor, o disse. ’”

Esperei dois minutos inteiros e prendi o fôlego.

Segurei. Continuei segurando.

Eu disse: “Vou conseguir. Não vou me afogar”.

Eu me agarrei aos braços da cadeira. Firmei os pés no chão. Afun-

dei o traseiro no assento. Estava nos vinte e quatro segundos quando o

Pai disse: “O que você está fazendo?”.

“Ponderando!”, respondi e minha respiração saiu de uma vez só.

Uma veia se agitou na têmpora do Pai. “Você está muito

vermelha.”

“É que é um trabalho duro.”

“Isso não é brincadeira.”

“Eu sei.”

“Você está acompanhando?”

“Estou!”

O Pai soltou um pouco de ar pelo nariz e começou a ler de novo.

Esperei três minutos inteiros. Depois prendi o fôlego mais uma

vez.

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Enchi cada pedacinho do meu corpo com ar: meu estômago, meus

pulmões, meus braços e minhas pernas. Meu peito doía. Minha cabeça

martelava. Minhas pernas saltitavam.

Não percebi que o Pai tinha parado de ler. Não vi que estava ol-

hando para mim até ele dizer: “Mas o que é que está acontecendo aqui? ”.

“Não estou me sentindo muito bem.”

Ele pôs a Bíblia de lado. “Vamos deixar uma coisa bem clara. Eu

não estou lendo isso para divertir você. Não estou lendo isso para o

meu bem. Estou lendo porque isso vai salvar a sua vida. Então trate de se sentar direito, pare de se remexer e comece a prestar atenção!

“Certo”, eu disse.

Ele esperou um minuto e depois começou a ler de novo. “‘ Chegou a

hora. Eu agirei, não desistirei, não terei dó nem me arrependerei. Os teus caminhos e as tuas ações te julgarão’, declara o Senhor.

Eu tentava acompanhar, mas só conseguia pensar na privada, só

conseguia ouvir a descarga, só conseguia sentir as mãos me empur-

rando para baixo.

Então me perguntaram: ‘ Porventura não nos vais explicar o que significam estas coisas? ’. A isso respondi: ‘ Eis o que me falou o Senhor: Isto dirás à casa de Israel... Judith!

O Pai leu essa parte de qualquer jeito, sem parar, nem olhar para

cima.

“Quê?” Meu coração se enroscou no pulôver.

“Continue a leitura, por favor.”

“Oh.”

Olhei para a página que fervilhava de formigas. Eu me virei e meu

rosto ficou quente. Eu me virei de novo e meu rosto ficou mais quente

ainda.

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O Pai fechou sua Bíblia. Ele disse: “Vá para o seu quarto”.

“Eu vou ler!”, rebati.

“Não, você obviamente tem coisa melhor para fazer.”

“Eu estava escutando!”

O Pai disse: “Judith”.

Eu me levantei.

Minha cabeça estava muito quente, como se estivessem passando

coisas demais por ela. Estava confusa também, parecia que tinha sido

chacoalhada. Fui até a porta. Pus a mão na maçaneta e disse: “Não é

justo”.

O Pai levantou os olhos. “O que foi?”

“Nada.”

Seus olhos flamejaram. “Melhor assim.”

Como será que é morrer?

Há um mundo no meu quarto. É feito das coisas que ninguém

quis mais e das coisas que eram da minha mãe, que ela deixou para

mim, e passei boa parte da vida fazendo esse mundo.

O mundo se estende da segunda tábua do assoalho depois da porta

e vai até o aquecedor embaixo da janela. Tem montanhas junto à

parede, onde o quarto é mais escuro, e imensos penhascos e cavernas.

Tem rios descendo das montanhas pelas encostas e para as pastagens, e

é aqui que ficam as primeiras casas. Então há um vale, campos e a cid-

ade e, depois da cidade, mais algumas fazendas, e logo a seguir fica a

praia e a estrada da praia, uma floresta de pinheiros, a baía e o píer e,

finalmente, bem perto do aquecedor debaixo da janela, o mar, com

umas pedras e o farol, alguns barcos e criaturas marítimas. Pendurados

no teto, em fios bem curtos, ficam os planetas e as estrelas; em fios um

pouco mais compridos, o sol e a lua, e nos fios mais compridos de to-

dos, nuvens e aviões, e a luminária é um balão de ar quente.

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O mundo se chama a Terra Gloriosa. O Livro de Ezequiel diz que

Deus jurou tirar os israelitas da escravidão e trazê-los para uma terra

maravilhosa. De onde manariam leite e mel. Onde não faltaria nada,

era um milagre, um paraíso. Era tão diferente de tudo que iria se desta-

car como uma joia e era chamada de “a mais gloriosa de todas as ter-

ras”. Quando fecho a porta do meu quarto, as paredes se afastam e

surgem planetas, arco-íris e sóis. O chão se abre e aparecem campos e

estradas a meus pés, centenas de pessoas pequeninas. Se estendo a mão,

posso tocar o topo de uma montanha; se eu sopro, agito o mar. Levanto

a cabeça e olho direto para o sol. Fico feliz quando entro no meu

quarto. Mas, naquela noite de sexta-feira, não senti nenhuma dessas

coisas.

Fechei a porta e me encostei nela. Fiquei pensando se não deveria

descer de novo e contar ao Pai por que estava prendendo a respiração.

Mas, se eu contasse, ele só iria dizer: “Você falou para o professor?”, e

eu diria: “Falei”, e o sr. Davies teria dito: “Ninguém vai enfiar a cabeça

de ninguém na privada”, e o Pai diria: “Então está tudo bem”. Mas eu

sabia que Neil iria enfiar minha cabeça na privada de qualquer jeito. E

fiquei me perguntando por que o Pai nunca acreditava em mim.

Eu me sentei no chão. Um tatu-bola saiu rastejando debaixo dos

meus joelhos, balançando as antenas, as patas arranhando o assoalho.

Parecia um tatu normal, só que bem pequenininho. Fiquei vendo o

tatu escalar as dunas de areia da Terra Gloriosa e me perguntei se ele

conseguiria achar o caminho de volta. Fizemos um experimento com

tatuzinhos na escola. Construímos um labirinto de massinha e con-

tamos o número de vezes que eles viravam para a esquerda ou para a

direita. Eles quase sempre viravam para a esquerda. É por isso que não

conseguem pensar sozinhos. Eu me perguntei se isso significava que o

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tatu-bola iria sair um dia ou se ficaria lá dando voltas até morrer na

forma de uma bolinha crocante.

A escuridão se fechava sobre o vale feito um livro entre capas

pretas. Foi caindo sobre as ruas esburacadas, sobre telhados e antenas,

ruelas, lojas, lixeiras e postes, sobre os trilhos do trem e as imensas

chaminés da fábrica. Em breve a escuridão apagaria as luzes. Por um

momento, elas brilhariam como nunca, mas seriam tragadas por fim.

Se você olhasse para o céu, veria seu brilho por um instante. Depois,

nada. Eu me perguntava como seria morrer. Era que nem dormir ou

que nem acordar? Era o fim do tempo? Ou o tempo continuava para

sempre?

Talvez tudo o que eu pensava que era de verdade se revelasse de

mentira, e tudo o que não era de verdade, fosse. Não sei por que come-

cei a procurar o tatu-bola. De repente parecia muito importante

encontrá-lo, mas eu não conseguia, embora ele estivesse ali poucos se-

gundos antes, e não tinha ar suficiente no quarto, era como se alguém

riscasse um fósforo e todo o oxigênio fosse queimando.

Eu me sentei e encostei na parede, meu coração começou a bater

forte. Alguma coisa vinha na minha direção, rolando que nem uma

nuvem baixa no horizonte. A nuvem chegou. Ela encheu minha boca e

meus olhos, de repente ouvi um rugido e as coisas aconteceram muito

rápido e ao mesmo tempo, e aí eu estava sentada com as costas na

parede e o suor corria dos meus cabelos e me senti mais estranha do

que jamais tinha me sentido na vida.

E se eu tivesse que descrever como me senti, diria que era como

uma caixa virada de cabeça para baixo. E a caixa ficou surpresa porque

estava vazia.

Por que não vou viver muito tempo

Não tenho expectativa de viver muito nesse mundo. Não é por ter

alguma doença ou porque alguém vai me matar (apesar de que Neil

Lewis talvez me mate). É porque muito em breve Deus trará o

Armagedom.

No Armagedom haverá paredes rochosas se abrindo, edifícios des-

moronando e estradas se rompendo. O mar vai se erguer e virão

trovões, relâmpagos, terremotos e bolas de fogo rolando pelas ruas. O

sol ficará negro e a lua não irradiará sua luz. As árvores serão arranca-

das, as montanhas tombarão e as casas vão ficar em pedaços sobre a

terra. As estrelas cairão, os céus serão partidos e os planetas, der-

rubados. As estrelas vão se estilhaçar e o mar vai fazer um barulho de

pratos caindo e o ar vai ficar denso e, no fim, não restará nada além de

um monte de lixo.

Sabemos que o Armagedom está próximo porque vivemos em um

Antro de Iniquidades e o Pai diz que não há lugar para o Justo pôr os

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pés, às vezes literalmente mesmo. Também sabemos que estamos perto

do fim porque há guerras, terremotos, penúrias e pessoas que não têm

“afeto no coração”, então elas prendem explosivos nelas mesmas ou es-

faqueiam alguém porque gostam do relógio que esse alguém está

usando ou se filmam cortando as cabeças dos outros. Existem as Ovel-

has (Irmãos como nós), as Cabras (incrédulos) e as Ovelhas Desgarradas

(Irmãos que foram Apartados da congregação ou caíram). Há o Joio no

Trigo (pessoas que fingem ser Irmãos, mas que não são), os Falsos Pro-

fetas (líderes de outras religiões), a Besta Fera (todas as religiões do

mundo), os Gafanhotos (nós mesmos com nossa mensagem ardorosa),

uma ascensão nas Relações Imorais (sexo) e sinais no sol, na lua e nas

estrelas (ninguém sabe o que significam ainda).

Mas na Terra Gloriosa de verdade não haverá nenhum incrédulo,

nenhuma guerra, nenhuma penúria e nenhum sofrimento. Não haverá

poluição, nem cidades, nem fábricas. Haverá campos, e aqueles que

morreram voltarão à vida, e aqueles que estão vivos jamais morrerão, e

não haverá mais enfermidade porque Deus vai enxugar todas as lágri-

mas de nossos olhos. Sabemos disso porque Deus nos prometeu.

O Pai diz que é só uma questão de tempo até alguém explodir o

mundo de vez ou o dinheiro não valer mais nada ou um vírus nos

aniquilar ou o buraco da camada de ozônio, que é do tamanho da

Groenlândia, ficar do tamanho da Austrália. Então é até bom que o

Armagedom esteja chegando e que não reste mais nada deste mundo.

E acho que é bom porque os ursos-polares estão passando fome e

as árvores estão morrendo e se você jogar um saquinho plástico na

terra ele não vai sumir nunca mais e a terra já está cheia de saquinhos

plásticos. E porque no novo mundo eu vou ver minha mãe.

Mover montanhas

Na manhã de sábado, acordei de um sonho em que eu estava

nadando em uma privada gigante e Neil Lewis me fisgou. Quando fui

tirada da água, despertei. O relógio do criado-mudo marcava 9h48. Em

quarenta e sete horas e doze minutos, eu poderia estar morta.

Naquele dia, pratiquei prender a respiração e consegui chegar aos

vinte e oito segundos. Na hora de dormir, estava com dor de estômago

e tive que tomar remédio para azia e comer biscoitos. No domingo,

acordei como se estivesse saindo da água de novo, as roupas estavam

grudadas em mim e a dor tinha piorado. Olhei para o relógio. Agora

faltavam vinte e seis horas.

Não consegui tomar café da manhã, mas o Pai nem notou. Ele

largou um monte de lenha ao lado do fogão e bebeu um gole de chá.

“Pronta?”

Eu estava pronta. Vesti minha melhor jardineira, a blusa com rosas

no colarinho e meus sapatos pretos brilhantes. Tranças no cabelo. Não

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sei se estavam bem-feitinhas. O Pai pegou seu casaco de lã de carneiro

e o boné, e botei a mochila nas costas.

Lá fora tudo estava quieto e frio. Tinha névoa no ar e o céu era um

bloco de nuvens da cor de penas. Ninguém por perto, a não ser o ca-

chorro da casa vinte e nove. Passamos pela rotatória e descemos a co-

lina. Dava para ver a cidade, as antenas, as chaminés e os telhados, a

fábrica, o rio e os postes ao longo do vale que nem gigantes solitários.

A fábrica ficava no fundo do vale, uma enorme coisa preta com cham-

inés, torres, escadas, canos e, acima dela, imensas nuvens de fumaça.

No sopé da montanha, passamos pelo prédio de estacionamento,

pelo bingo, pelo Clube do Trabalhador, pelo centro de empregos, pela

casa de apostas e pelo bar, onde o cheiro de alvejante se misturava com

o de cerveja. Nos finais de semana, a calçada fica cheia de balões de

água e, às vezes, de panos manchados de vermelho. Certa vez eu vi uma

agulha e aí a gente teve que atravessar a rua.

Nada parece estar no lugar certo na nossa cidade. Há motores de

carro nos jardins, saquinhos plásticos nos arbustos, carrinhos de com-

pra no rio. Garrafas na sarjeta e ratos nas lixeiras, palavras escritas nos muros e placas com palavras riscadas. Postes de iluminação sem luz,

buracos no asfalto e buracos na calçada e buracos nos escapamentos.

Casas com janelas quebradas e homens com dentes quebrados e bal-

anços com assentos quebrados. Cachorros sem orelhas e gatos com um

olho só e uma vez eu vi um passarinho quase sem penas.

Passamos pelo mercado Woolworths, pela mercearia, pelo mercado

Kwik Save e pela Cooperativa. Depois passamos pelo túnel debaixo da

ponte, onde os muros são verde-escuros e gotejantes e, quando saímos,

estávamos em um terreno baldio, e é lá que fica o Salão de Encontros.

O Salão de Encontros é um galpão de metal preto que tem três janelas

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de cada lado. Lá dentro, um monte de bancos vermelhos e, em todos os

parapeitos, jarros de rosas de plástico amarelas com gotas d´água falsas

coladas às pétalas em intervalos regulares.

O Pai e a Mãe ajudaram a construir o Salão de Encontros. Ele não é

muito grande, mas pertence aos Irmãos. A congregação não tinha

muita gente naquela época, só umas quatro ou cinco pessoas. Sem o Pai

e a Mãe, a congregação poderia ter fracassado, mas eles continuaram

pregando e, por fim, batizaram mais pessoas. Foi maravilhoso quando

finalmente fizeram um lugar de reuniões só para eles. Demoraram três

anos para construir o Salão, e cada centavo foi doado pelos Irmãos.

Fazia frio lá dentro porque os aquecedores ainda não tinham es-

quentado. Na frente do salão, Elsie e May estavam conversando com a

velha Nel Brown, na cadeira de rodas.

May disse: “Ora, ora, se não é meu tesourinho!”.

Elsie disse: “Ora, ora, se não é meu amorzinho!”.

“Ah, é uma menina tão adorável!”, May falou, me abraçando.

“Ela é uma bênção, isso sim!”, Elsie rebateu, beijando minha

bochecha.

May disse: “Tia Nel estava agora mesmo contando sobre a época

em que teve um bate-boca com o pastor”.

“Uva?”, Nel perguntou. Seu queixo se sacudia quando mastigava

porque ela não tinha dentes. Seu lábio superior era bigodudo. Seu lábio

inferior era cheio de cuspe.

“Não, obrigada, tia Nel”, falei. Eu estava preocupada demais para

comer e, mesmo se não estivesse, não iria querer, porque tia Nel tem

cheiro de xixi.

Tio Stan se aproximou. Tio Stan é o Presidente Superintendente.

Ele bebe leite por causa da úlcera e é de “Beemeengoomb”. Ao que

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parece, “Beemeengoomb” é um Antro de Iniquidades ainda pior que a

nossa cidade. Foi lá que ele arranjou a úlcera de estômago, mas algu-

mas pessoas dizem que foi a tia Margaret quem deu a úlcera para ele.

Stan passou o braço em volta da tia Nel e disse: “Como vai minha Irmã

favorita?”.

Nel falou: “Aquele tapete está precisando de um bom aspirador de

pó”.

Tio Stan parou de sorrir. Olhou para o tapete. Disse: “Certo”.

Stan foi procurar o Aspirador e eu fui procurar o Pai. Ele estava na

sala dos livros com Brian, separando as revistas que sobraram do mês

passado. Pequenos flocos brancos nos ombros do casaco de Brian e em

seu cabelo. “C-c-c-c-como vai v-v-v-v-você, J-J-Judith?”, Brian falou.

“Bem, obrigada”, respondi. Mas eu não estava bem. A dor de es-

tômago tinha voltado. Parava de pensar em Neil só por um minuto e já

lembrava de novo.

Alf se aproximou. Sua língua se agitava de um lado para outro da

boca, parecia um lagarto. Ele disse ao Pai: “Os relatórios também?”. O

Pai fez que sim. Alf é o que o Pai chama de “Subcomandante”. Ele não

é muito mais alto que eu, mas usa botinhas com saltos. É quase careca,

mas penteia o cabelo de lado e passa spray por cima. Uma vez eu vi o

cabelo se levantar com o vento quando estávamos pregando, ele pulou

para dentro do carro e disse: “Corre pra comprar um spray de cabelo

pra mim, menina!”, e não saiu de lá até eu voltar.

Tio Stan veio carregando o Aspirador. Estava abatido. “O orador

ainda não está aqui”, falou. “Não estou a fim de falar se ele não

aparecer.”

“Ele vai aparecer”, o Pai disse.

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“Não sei, não”, rebateu Alf. Ele puxou as calças para cima. “O úl-

timo orador que a gente chamou se perdeu.” Aí ele me viu e parou de

franzir a testa. “Josie tem uma coisinha para você.”

Não gostei do jeito que ele sorriu. “O que é?”, perguntei.

O Pai disse: “É de bom-tom falar ‘obrigado’, Judith”. Ele fechou a

cara para mim, como se estivesse decepcionado, e eu fiquei vermelha e

olhei para baixo.

Mas Alf retomou: “Não posso contar o que é, né? Vai estragar a

surpresa”.

Josie é a esposa de Alf. É bem baixa e larga, tem um rabo de cavalo

comprido e branco, uma boca fina em cujos cantos a saliva cremosa se

junta e que se estica feito sanfona quando ela fala. Ela usa roupas es-

quisitas e gosta de costurar para as outras pessoas. Até agora, ela já fez

para mim: um vestido de malha com rosas azuis e cor de pêssego, pelo

qual ficou perguntando até que ele encolhesse na máquina de lavar,

uma saia azul-turquesa com fita na barra que chegava até o chão, um

suporte de papel higiênico com uma boneca Cinderela de crochê que o

Pai se recusou a colocar no banheiro e, por isso, fiz com ela uma

montanha na Terra Gloriosa, um assento de vaso sanitário que agora

segura as correntes de ar no pé da porta dos fundos, polainas azuis e

brilhantes, um macacão laranja, dois pulôveres e um capuz. Josie deve

achar que somos muito pobres, que sou muito maior do que sou na

verdade, ou que sinto muito frio. Um dia vou dizer que ela está errada:

que não somos ricos, mas temos dinheiro para comprar roupa, que,

embora eu pareça mais velha porque sei ler a Bíblia muito bem e con-

verso com os adultos, tenho apenas dez anos e um metro e trinta de al-

tura, e que, na maior parte do tempo, estou com a temperatura correta.

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Passei os olhos pela aglomeração, mas não vi nenhum sinal dela.

Para ficar mais segura, fui para trás do equipamento de som, junto com

Gordon. Não tem ninguém da minha idade na nossa congregação, por

isso, embora Gordon seja bem mais velho que eu, converso com ele.

Gordon estava testando os microfones, fazendo uns estalos.

Olhei para o relógio. Agora faltavam exatamente vinte e três horas

até Neil Lewis enfiar minha cabeça na privada. Não tinha o que fazer.

Gordon ajustava os microfones. Perguntei a ele: “Você tem uma bala?”.

Gordon remexeu nos bolsos. Desenrolou um embrulho e deixou um

tablete branco e empoeirado cair na minha mão. “Obrigada”, falei. Peço

balas a Gordon somente em casos de emergência. Gordon pegou duas e

voltou a desembaraçar os cabos.

Não faz muito tempo que Gordon se livrou da heroína. Ele ficou

viciado porque Andou com a Turma Errada. Está Enfrentando a De-

pressão, então faz muito bem em vir aos encontros. A coisa ficou muito

séria durante um tempo. Parecia que Gordon teria que ser Removido.

Foi marcado como má influência. Dizem que Deus lançou Sua luz

sobre o coração de Gordon, mas acho que sua recuperação tem mais a

ver com balas de hortelã muito fortes. O Pai disse que a heroína deixa

as pessoas felizes porque faz a dor desaparecer; as balas de hortelã

deixam você feliz porque, quando você termina de chupar, percebe que

já não está mais com dor. Acaba que é a mesma coisa. O problema é

que Gordon está se acostumando com elas. Já consegue engolir quatro

de uma vez só. Não sei o que ele vai fazer quando conseguir acabar

com um pacote inteiro, porque não fabricam balas ainda mais fortes.

Agora tinha muita gente na sala, ou pelo menos muita gente para a

nossa congregação, eu diria que quase umas trinta pessoas. Até mesmo

umas caras que não vemos geralmente. Pauline, a mulher de quem o

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tio Stan exorcizou um demônio na primavera passada, e Sheila, do ab-

rigo de mulheres; Geena, do manicômio, com cicatrizes nos braços; e

Charlie Powell, o Louco, que mora em uma casinha de madeira na

mata, entre os abetos. Parecia que alguma coisa especial estava para

acontecer, mas eu não sabia o que era.

No tablado, Alf deu tapinhas no microfone. “Irmãos e Irmãs”, ele

falou, “por favor, sentem-se, o encontro já vai começar.”

Então o orador não tinha aparecido. Imaginei seu carro capotando

na montanha, seus gritos ficando cada vez mais fracos até o bloco de

metal amassado desaparecer na neblina. “A gente se vê”, eu disse a Gor-

don e fui para meu lugar.

O Pai e eu nos sentamos na frente, nossos joelhos quase tocam o

tablado. Meu pescoço fica com torcicolo olhando para cima. O Pai diz

que é melhor do que ficar Distraída. A Distração leva à Destruição. Mas

a primeira fileira tem suas próprias distrações. O cheiro da tia Nel é

uma delas. Fico feliz com minha bala de hortelã extraforte.

Nós nos levantamos para cantar “As alegrias do Reino de Deus”. O

Pai canta bem alto, soltando a voz do fundo do peito, mas não consigo

cantar, em parte porque estou pensando em Neil, em parte porque a

bala de hortelã extraforte secou toda a saliva da minha boca. O Pai me

cutuca e franze a testa, então boto a bala na bochecha e grito tão alto

quanto ele.

Tivemos que começar com a leitura de um artigo porque não havia

orador. O artigo se chamava “Iluminação do Mundo” e era sobre como

não devemos guardar nossas qualidades em um balaio, que, no fim das

contas, era só um tipo de cesto. Alf falou que o melhor jeito de fazer

isso era preencher um relatório. O Pai se manifestou e disse que era

um privilégio ser porta-voz de Deus. Elsie se manifestou e disse que

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todos conhecemos pessoas céticas, mas, se não falamos com elas, como

vão saber? Brian disse: “O p-p-p-p-p-problema é que...”, mas a gente

nunca ficou sabendo qual era o problema. Tia Nel levantou a mão, mas

era só para avisar a May que ela tinha se molhado.

Nessa hora minha bala de hortelã já estava no fim, então levantei a

mão e disse que Deus deveria estar muito feliz ao ver todas aquelas luz-

inhas brilhando na escuridão, e Alf falou: “É, todo mundo aqui está

vendo que a sua luz está brilhando, Irmã McPherson!”. Mas minha luz

não estava brilhando e eu não me sentia feliz, e aí desejei não ser uma

das luzes de Deus, porque, se eu não fosse, Neil Lewis não iria enfiar

minha cabeça na privada.

Quando a leitura terminou, o Pai subiu ao tablado e disse: “Agora,

Irmãos, devido a circunstâncias inesperadas...”, e eu vi tio Stan reun-

indo seus papéis e enxugando o pescoço com o lenço. E, então, um

sopro de ar varreu o salão e ouvimos a porta de entrada se fechar.

Eu me virei. Um homem atravessava as portas do vestíbulo. Pare-

cia que algo as mantinha abertas, porque ficaram escancaradas en-

quanto ele passava e se fecharam logo depois. O homem tinha pele de

caramelo e cabelos cor de melros. Ele parecia um Homem Antigo, ex-

ceto por não usar túnica, mas um terno azul-escuro que brilhava feito

gasolina em poça d´água quando bate a luz. O homem veio direto para

a nossa fileira e se sentou na ponta, senti um cheiro de bolo de frutas e

vinho.

Alf correu até ele. Sussurrou para o homem e depois fez que sim

para o Pai. O Pai sorriu. Ele disse: “E ficamos muito felizes em dar as

boas-vindas ao...”.

“Irmão Michaels”, falou o homem. Sua voz era o mais estranho de

tudo. Parecia chocolate amargo.

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O Pai disse: “Nosso orador visitante, de...?”. Mas o Irmão Michaels

aparentemente não escutou. O Pai perguntou de novo e o Irmão Mi-

chaels só abriu um sorriso. “Bom, enfim, estamos muito contentes em

recebê-lo, Irmão”, o Pai falou e desceu do tablado.

Houve uma salva de palmas, e o Irmão Michaels subiu ao tablado.

Ele não parecia ter anotações. Tirou algo da maleta e pôs sobre o púl-

pito. Depois levantou os olhos. Agora que ele olhava para nós, pude ver

como sua pele era escura. Seus cabelos também eram escuros, mas seus

olhos eram estranhos e claros. Então ele disse: “Que belas montanhas

vocês têm aqui, Irmãos!”.

Pude sentir o quanto todos ficaram surpresos. Ninguém nunca

tinha falado que o nosso vale era bonito. Irmão Michaels disse: “Vocês

não acham? Hoje eu estava passando de carro por elas e pensando em

como vocês são sortudos por viverem aqui. Ora, lá do alto achei que

dava para ver bem dentro das nuvens”.

Olhei pela janela. Ou o Irmão Michaels é maluco, ou precisa de

óculos; as nuvens estavam ainda mais baixas agora; não dava para ver

um palmo na frente do nariz.

Ele sorriu. “O tema da nossa conversa de hoje é ‘Mover Montan-

has’. Vocês acham que precisam do que, Irmãos, para mover aquela

ali?”

“Dinamite”, Alf disse.

“Não ia dar certo”, rebateu o tio Stan.

“Uma escavadeira bem grande”, Gordon falou e todo mundo riu.

Irmão Michaels segurava alguma coisa entre o indicador e o dedão.

“Vocês sabem o que é isto?”

“Não tem nada ali”, eu sussurrei, mas o Pai sorriu.

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“Quem de vocês acha que não estou segurando nada?”, perguntou

o Irmão Michaels.

Algumas pessoas levantaram os braços, muitas outras, não. O Pai

ainda estava sorrindo e ergueu a mão, então também ergui. O Irmão

Michaels colocou um pedaço de papel logo abaixo do microfone. Aí ele

abriu os dedos e ouvimos alguma coisa cair. “Aqueles que acharam que

eu estava segurando alguma coisa merecem um tapinha nas costas”, ele

disse. “Vocês estavam vendo com os Olhos da Fé.”

“Que é isso?”, perguntei, mas o Pai só botou os dedos em cima dos

lábios.

“Isto, Irmãos, é uma semente de mostarda”, disse o Irmão Mi-

chaels. Ele mostrou uma foto ampliada da semente de mostarda. Era

um tipo de bolinha amarela. “É a menor das sementes, mas cresce até

virar a árvore em que os pássaros dos céus vêm pousar.” Aí ele

começou a falar sobre o mundo.

Ele disse que muitas dificuldades sucederiam ao povo de Deus

antes que o sistema acabasse. Disse que Satanás estava rondando a

terra, querendo devorar as pessoas. Nós lemos a passagem sobre como

os israelitas pararam de acreditar que chegariam à Terra Gloriosa, como

menosprezaram os milagres de Deus e os milagreiros. “Que isso nunca

nos aconteça”, ele disse. “A Fé não é um atributo de todas as pessoas. O

mundo ri da fé. Elas jamais pensariam em dizer àquela montanha que

se mova. Mas abram suas Bíblias comigo, Irmãos, e vejamos o que Jesus

diz.”

Aí ele começou a ler e, nesse momento, meu coração batia forte,

era como se eu estivesse reluzindo.

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Pois em verdade vos digo: se tiverdes fé do tamanho de uma semente de mostarda, direis a esta montanha: ‘ Transporta-te daqui para lá’, e ela se trans-portará, e nada vos será impossível.”

“É claro”, ele disse, “que Jesus estava falando metaforicamente. A

gente não pode mover montanhas de verdade. Mas podemos fazer

coisas que achamos que são impossíveis, se tivermos fé. A fé vê a

montanha como se ela já tivesse se movido, Irmãos. Não é o bastante

pensar em como o novo mundo vai ser, nós temos que nos ver lá. En-

quanto ficarmos só pensando em como vai ser, ainda estaremos aqui.

Mas a fé tem asas. Ela pode nos levar para onde quisermos ir.”

Aí ele começou o discurso, e era como ouvir o desvendar de uma

grande história, eu conhecia a história, mas não me lembrava de tê-la

ouvido, pelo menos não desse jeito.

No princípio, o Irmão Michaels contou, toda vida era milagrosa. Os

humanos viviam eternamente e jamais ficavam doentes. Toda fruta, to-

do animal, toda porção de terra era um reflexo perfeito da glória de

Deus, e a relação entre os humanos também era perfeita. Mas Adão e

Eva perderam uma coisa. Perderam a fé em Deus. Então começaram a

morrer, as células de seus corpos começaram a se deteriorar e eles fo-

ram expulsos do jardim.

“Depois disso, havia apenas lampejos de como as coisas cos-

tumavam ser, um pôr do sol, um furacão, um arbusto atingido por um

raio. E a fé se tornou algo por que você rezava em um quarto à meia-

noite, ou em um campo de batalha, ou na barriga de uma baleia, ou em

uma fornalha ardente. A fé se tornou um salto, porque havia uma

fenda entre como as coisas estavam e como elas costumavam ser antes.

Era o espaço onde os milagres aconteciam.

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“Tudo é possível, em todos os tempos e em todos os lugares e para

todos os tipos de gente. Se você acha que não, é só porque não con-

segue ver como está perto, como só precisa fazer uma coisinha que

tudo vai começar a acontecer para você. Milagres não têm que ser

coisas grandes e podem acontecer nos lugares mais improváveis; os

milagres dão mais certo com as coisas simples. Paulo diz: ‘A fé é a

garantia dos bens por que se esperam, a prova das realidades que não

se veem’, e se a gente tiver só um pouquinho, outras coisas vão aconte-

cer também, Irmãos. Às vezes mais do que sonhamos.”

A fala terminou, mas, por um segundo, ninguém bateu palmas; de-

pois veio uma chuva delas. Senti que eu tinha despertado. Mas que

dormira antes mesmo de o discurso começar; senti que tinha passado a

vida inteira dormindo.

Mal pude esperar pelo fim da música e da oração. Pensei que o

Irmão Michaels seria a pessoa certa com quem conversar sobre Neil

Lewis.

Mais tarde, fiquei perto do Irmão Michaels e esperei que tio Stan

acabasse de conversar com ele. Mas quando Stan foi embora, chegaram

Elsie e May. Depois Alf. O Irmão Michaels apertava suas mãos, ouvia e

concordava; ele sorria e sorria. Ninguém queria ir embora.

Eu estava começando a achar que não conseguiria falar com ele

nunca, mas por fim houve um intervalo, e ele se virou para guardar

seus papéis na maleta e me viu.

“Olá”, ele disse. “Quem é você?”

“Judith”, respondi.

“Foi você que deu aquela resposta linda?”

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“Não sei.”

“Acho que foi você.” O Irmão Michaels estendeu a mão. “É muito

bom conhecer você.”

Eu disse: “Gostei da sua fala”, mas parecia que minha voz não es-

tava saindo direito. “Acho que nunca gostei tanto de uma fala.”

“Muito obrigado.”

“Estava aqui pensando, será que posso ver aquela semente de

mostarda?”

O Irmão Michaels deu risada. “Pode sim”, ele falou. “Mas não posso

garantir que vai ser a mesma.” Ele tirou um vidrinho da maleta, cheio

de sementes.

Eu disse: “Nunca tinha visto mostarda assim!”.

“Ela é assim antes de triturarem.”

Eu disse: “Gostaria de ter um pouco para mim”.

O Irmão Michaels virou um montinho de sementes na minha mão.

“Agora você tem.”

Fiquei olhando para as sementes. Estava tão feliz que quase esqueci

o que ia dizer. “Irmão Michaels”, finalmente eu disse, “vim falar com

você porque estou com um problema.”

“Eu sabia.”

“Sabia?”

Ele fez que sim. “Que tipo de problema?”

“Tem uma pessoa... eu estou com medo...”, suspirei. Então entendi

que precisava dizer exatamente o que era. “Acho que logo, logo já vou

ter ido.”

O Irmão Michaels ergueu as sobrancelhas.

“Quero dizer: deixar de existir.”

O Irmão Michaels baixou as sobrancelhas. “Você está doente?”

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“Não.”

Ele franziu a testa. “Alguém lhe disse isso ou é só uma sensação?”

Pensei um pouco. “Ninguém me disse, não”, respondi. “Mas tenho

quase certeza.”

“E você já contou para alguém?”

“Não. Ninguém pode fazer nada.”

“Como você sabe?”

“Eu só sei”, respondi. Os adultos acham que você pode falar tudo

para o professor. Não veem que só piora as coisas.

Por um minuto, o Irmão Michaels não disse nada. Aí ele falou:

“Você tentou rezar?”.

“Tentei.”

“Às vezes a resposta da reza demora.”

“Só tenho até amanhã.”

O Irmão Michaels puxou o ar. Depois disse: “Judith, acho que

posso dizer com segurança que nada vai acontecer com você até

amanhã”.

“Como você sabe?”

“O que você está enfrentando é simplesmente medo”, ele disse.

“Não que o medo seja simples; o medo é o inimigo mais traiçoeiro de

todos. Mas coisas boas acontecem quando você o enfrenta.”

Eu disse: “Não sei como alguma coisa boa pode acontecer por isso”.

“Então comece a olhar para as coisas de um jeito diferente. É in-

crível como todos os problemas que a gente achava que não tinham

solução desaparecem quando olhamos para as coisas a partir de outro

ponto de vista.”

Meu coração batia forte. “Seria bom mesmo”, falei.

O Irmão Michaels sorriu. “Agora preciso ir, Judith.”

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“Ah”, eu disse. E, de repente, fiquei com medo de novo. “Você

acha que vai voltar aqui?”

“Tenho certeza de que sim, um dia desses.”

Aí ele fez uma coisa esquisita. Pôs as mãos nos meus ombros e ol-

hou dentro dos meus olhos, e uma onda de calor correu pelos meus

braços até os dedos e dos ombros até as minhas costas. “Tenha fé,

Judith”, ele disse. Olhei para cima. O Pai estava me chamando.

“Um minutinho”, falei, mas o Pai deu tapinhas no relógio. “Tá

bom!”, respondi. Eu me virei de novo e a fileira estava vazia.

Corri pelo corredor. “Cadê o Irmão Michaels?”, perguntei. Alf en-

colheu os ombros. Corri até o vestíbulo. “Tio Stan”, falei, “você viu o

Irmão Michaels?”

“Não”, respondeu Stan. “Eu também estava procurando por ele.

Margaret e eu queremos convidá-lo para almoçar.”

Corri para o estacionamento. Gordon estava mostrando seu aer-

ofólio novo para outros rapazes. “Pra onde foi o Irmão Michaels?”, falei

e senti meus olhos arderem.

Fazia mais frio agora, mas ainda não havia nenhum sopro de

vento. A névoa tinha subido, e o céu estava carregado de nuvens.

A mão no meu cotovelo me fez virar. O Pai me entregou o casaco e

a mochila. Ele disse: “Seus ossos vão congelar”. E depois: “O que você

tem aí?”.

Eu tinha me esquecido.

“Sementes”, falei. Abri a mão e mostrei para ele.

Por que a fé é igual à imaginação

Eu sei como é a fé. O mundo no meu quarto é feito dela. Com fé

bordei as nuvens. Com fé recortei a lua e as estrelas. Com fé colei tudo

junto e fiz todas essas coisas cantarolando. Porque a fé é igual à imagin-

ação. Ela vê uma coisa onde não há nada, dá um salto e de repente você

está voando.

Os círculos de papel de um furador viram pires de chá quando vo-

cê aperta a ponta da caneta sobre eles. A cola que ficou dura em form-

ato de bolha vira espuma de sabão para um par de pés doloridos. Uma

casca de avelã vira um vaso, tubos de pasta de dente para fazer

transatlânticos, gravetos para fazer uma avestruz, e um ilhós vira um

pequeno par de tesouras. Fósforos viram troncos, farelos que sobraram

na fôrma de bolo são pequeninas panquecas escocesas, enfeito laranjas

com cravos, e uso a casca para fazer um tobogã, suas tampas são plantas

em um jardim, a redinha do saco vira uma quadra de tênis e o código

de barras, uma faixa de pedestres.

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Tudo esconde alguma outra coisa e, se olharmos bem por um bom

tempo, poderemos ver que outras coisas são estas. A Terra Gloriosa de

verdade indicava o jeito como o mundo voltaria a ser um dia, depois

do Armagedom. Isso se chama Prefiguração. O Pai diz que a Prefigur-

ação mostra em pequena escala o que vai acontecer na grande escala, é

como subir nas coisas para ver o todo. Mas só conseguimos ver as pos-

sibilidades com os Olhos da Fé. Alguns dos israelitas pararam de ver

com os Olhos da Fé e morreram no deserto. Perder a fé é o pior pecado

de todos.

Certa vez, uma garota entrou no meu quarto e disse: “Que lixo to-

do é esse?”. Porque, para ela, era o que parecia. Mas a fé vê outras

coisas espreitando nas rachaduras, pedindo para serem notadas. A cada

dia as rachaduras desse mundo ficam maiores. E todo dia aparecem al-

gumas novas.

Neve

Naquela tarde, plantei as sementes de mostarda em um potinho no

parapeito da janela da cozinha. Perguntei ao Pai se elas iriam crescer e

ele disse que não sabia. Depois desligou a eletricidade para economizar

dinheiro e foi até a sala do meio para ter Paz e Tranquilidade. Paz e

Tranquilidade é mais uma Coisa Necessária. Subi a escada e me sentei

no chão. O relógio marcava 14h33. Menos de dezenove horas até Neil

me afogar.

Imaginei que encontravam meu corpo no chão do vestiário da

escola, meus cabelos embaraçados que nem os de uma sereia, os olhos

abertos, meus lábios azuis, como se tivesse chupado balas de amora.

Neil estaria olhando também; ele teria dado o alarme; ninguém iria

saber. Eu vi o enterro. Elsie e May estariam chorando. Stan rezando. Alf

diria que pelo menos eu tinha escapado da Tribulação. O pescoço de

Gordon estaria mais afundado na gola do casaco do que o normal. Não

consegui imaginar o que o Pai estaria fazendo.

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Eu sabia que o Irmão Michaels tinha falado para eu ter fé em que

Deus iria me ajudar, que as coisas que a gente achava que eram impos-

síveis eram possíveis para Deus. Mas eu não enxergava como fazer a

escola ou Neil Lewis desaparecerem num passe de mágica. Se eu fosse

Deus, mandaria um furacão ou uma praga ou um maremoto varrer a

cidade e a escola. Mandaria o Armagedom, ou um asteroide para fazer

um buraco na terra, bem onde ficava a escola, ou, se o asteroide fosse

pequeno e caísse no lugar certo, só esmagaria Neil Lewis. Mas eu sabia

que nada disso iria acontecer.

Comecei a me sentir que nem naquela outra noite, quando a

nuvem me engoliu. Fui até a janela e encostei a cabeça no vidro, minha

respiração embaçava a superfície, que eu limpava o tempo todo. Uma

fileira de casas lá fora. Acima delas, outra fileira e, acima desta, mais

outra. Acima das casas, a montanha. Acima da montanha, o céu. As cas-

as eram marrons. A montanha era preta. O céu estava branco.

Olhei para o céu. Era tão branco que até poderia nem estar lá. Era

que nem papel, que nem penas. Que nem neve. “Bem que podia

nevar”, falei em voz alta.

Certa vez tinha nevado muito e fecharam a escola. Olhei para o

céu. Poderia estar cheio de neve bem agora, só esperando para cair. Po-

dia nevar, até que estava bem frio. O Irmão Michaels tinha dito que, se tivéssemos um pouco de fé, outras coisas aconteceriam também, às

vezes mais do que sonhamos, e eu achei que tinha sim um pouco de fé, e talvez um pouco já fosse o bastante.

Comecei a pensar na neve, comecei a pensar com força em sua

massa crocante e em seu cheiro limpo, no jeito como ela afofa tudo e

deixa o mundo novo. Como o ar fica vivo, a terra dormindo, as coisas

só prendendo a respiração e escutando. Vi a cidade deitada embaixo de

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um cobertor de neve, as casas adormecidas e a fábrica coberta, o Salão

de Encontros, a montanha branca chegando até um céu que era branco

e, do céu, mais brancura caindo. E quanto mais eu pensava, mais car-

regado o céu parecia e mais frio ficava o vidro debaixo dos meus dedos.

Voltei a olhar para o quarto. Tive uma ideia, mas não conseguia

explicar o que era. Não sabia nem de onde ela tinha vindo, sabia apenas

que era como se uma mão gigante tivesse escrito “Neve” em uma folha

de papel em branco. Podia ver como tinha escrito o “N”, a perninha su-

bindo para o “e”, então mais parecia um “M”. E a mão estava escre-

vendo mais coisas e comecei a me apressar para fazer o que ela dizia,

antes que a folha se apagasse.

Fui para o canto do meu quarto, até o baú que pertencia à Mãe.

Dentro dele estão guardados os tecidos, miçangas e fios que ela tinha e

todas as coisas que achei por aí. Procurei um pano de algodão branco e

puxei-o. Abri o pano de algodão e com ele cobri os campos e colinas da

Terra Gloriosa.

“Muito bom”, uma voz disse. “Mais!”

Algo quente lambeu minha espinha. Meu couro cabeludo se arre-

piou. “Quem está aí?”, perguntei. Ninguém respondeu.

Minhas mãos tremiam. Senti o coração na garganta. Peguei açúcar

e farinha, espalhei sobre as copas das árvores de esponja, sobre a grama

de papel e as cercas vivas.

“Mais rápido!”, falou a voz. E, embora não soubesse de onde ela

vinha, eu sabia que agora a voz era de verdade e que ela falava sério

comigo, e não me importei com quem ou o que estava falando.

Corri para o banheiro. Voltei correndo. Esguichei espuma de bar-

bear nos parapeitos das janelas, nos beirais e nas calhas. Deixei secar

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cola em pequenas gotas nos telhados e nos galhos, nos coretos e nos

postes de rua.

“Mais!”, a voz disse.

Um tambor no meu cérebro. O quarto inteiro estava pulsando.

Com papel de bala dourado fiz uma fogueira dentro de um pote de car-

amelos e o coloquei onde se erguiam abetos imensos, na beira do lago.

Fiz espetos de salsichas e marshmallows com pedaços de massinha. Fiz

um boneco de neve com uma bola de isopor, uma fila de gansos de pa-

pel branco e depois os pendurei na lua com uma linha. Peguei meu

edredom esfiapado e o balancei, então choveram plumas sobre cidades,

mares, colinas e lagos.

Fiz nevar sobre casas, lojas, correios e escolas. Cobri de gelo as es-

tradas, bloqueei pontes e prendi limpadores de cachimbo brancos nos

cabos telegráficos. Coloquei garotos escorregando sobre papelão em um

lago de papel-alumínio e, na montanha, um tobogã de lã.

Apertei minhas próprias mãos e não as senti.

Meu pé dormiu.

Bati os pés no chão e me sentei de novo.

Quando abri os olhos, a luz tinha ido embora e a Terra Gloriosa re-

luzia branca na escuridão, os gansos eram pequeninas setas no céu. Eu

estava encolhida de lado, na beira do mar. Minha bochecha doía porque

estava apertada contra a borda do espelho. Eu me sentei. Aí ouvi o Pai

me chamando. Prendi a respiração. Ouvi seus passos chegarem ao pé da

escada.

Meu coração estava batendo tão rápido que até doía, e eu não sabia

por quê. Ele chamou de novo e fechei os olhos bem apertados. Por fim,

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o Pai voltou para a cozinha e fechou a porta. Deve ter pensado que eu

tinha ido dormir.

Estava tremendo. Eu me levantei e fui até a janela. Agora não con-

seguia ver a montanha e o céu estava preto. Atrás de mim, o quarto

quieto. Podia sentir a quietude ao meu redor, que nem água. Respirei

fundo, me virei para o quarto e disse: “Neve”. Olhei para o céu e disse:

“Neve”.

Um carro passou correndo. Ele me iluminou e depois me deixou

na escuridão. O som daquele carro me atraiu. Achei que já tinha ido

embora, mas ele voltou. Fiquei ouvindo o som até ele desaparecer, de-

pois fechei as cortinas e fui para a cama.

Escutei o relógio badalar nove vezes na sala. Escutei a sra. Pew

chamar Oscar para o jantar. Escutei o sr. Neasdon voltar do Clube do

Trabalhador e o cachorro da casa vinte e nove começar a latir. Escutei o

apito da fábrica chamar o turno da noite e o Pai subir a escada, passos

ocos sobre as tábuas do chão.

A pedra e o livro

Naquela noite, tive um sonho maravilhoso. Sonhei que estava

caminhando pela Terra Gloriosa. Passava por palácios de gelo feitos

com balas de menta Glacier Mint e por fontes de lantejoulas, por calça-

das de bolachas Rolo Giant e árvores de chita onde se apinhavam joias

de frutas e cantavam pássaros com longas caudas de pena. Queria ter

tempo de parar e olhar tudo, mas uma voz estava me chamando. A voz

me guiava para um campo.

O ar estava quente e tinha cheiro de verão. Fui andando, abrindo

uma trilha na grama por aqui e ali. Às vezes o sol estava na minha cara

e, outras vezes, nas minhas costas. As cercas vivas estavam cobertas

com um manto de ervas. Pássaros de papel voavam debaixo do meu

nariz. Borboletas bordadas esvoaçavam. Havia mosquitos de papel de

bala, plumas de dentes-de-leão e libélulas de alfinetes brilhantes

tremeluzindo e parando no ar.

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No meio do campo havia uma árvore. Debaixo da árvore, um sen-

hor de barba. Sua pele parecia caramelo e seus cabelos eram muito

escuros. Vestia uma túnica branca e levava as mãos atrás das costas. Ele

disse: “Seja bem-vinda, minha filha. Hoje é um grande dia. Você foi

escolhida para receber um dom de valor inestimável”. E sua voz era

que nem chocolate amargo.

“Obrigada”, respondi. E depois: “O que quer dizer ‘inestimável’?”.

“Uma coisa cujo valor não pode ser estimado”, ele disse.

“Em uma das minhas mãos, carrego uma pedra que contém mais

poder do que qualquer um jamais possuiu, seus frutos são doces, mas

deixam um gosto amargo na boca. Na outra mão, carrego um livro que

o maior dos sábios gostaria de ler, seus frutos são repugnantes, mas dão

asas a quem o lê.”

Falei: “Por que o senhor está escondendo os dois atrás das costas?”.

“Porque, se você os vir, pode se deixar influenciar”, disse o

homem. “Agora você precisa escolher. Pense com cuidado, pois muitas

coisas dependem de sua decisão.”

Era difícil. Porque eu queria ter todo o poder do mundo e fazer o

Neil Lewis desaparecer e nunca mais voltar para a escola. Mas também

queria descobrir que segredo era aquele do livro que até o maior dos

sábios quer ler. E, sem dúvida, gostaria muito de ter asas. E houve um

instante em que pensei que talvez não precisasse escolher coisa nen-

huma e só devesse ir embora pelo gramado, sem olhar para trás.

Mas não fui embora. Eu disse: “Gostaria de ficar com a pedra, por

favor”. Quando o velho tirou a mão direita de trás das costas e me deu

a pedra, ela brilhou em muitas cores na palma de minha mão e me

senti crescendo e ficando forte e, quando falei, pensei que tinha sido

um trovão.

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Eu não sabia dizer se havia se passado muito ou pouco tempo. Eu

disse: “Posso dar uma olhada no livro?”.

O senhor torceu os lábios. Pensei que não deixaria. Mas, por fim,

ele disse: “Tudo bem. Mas você não pode tocar”, e tirou um livrinho

marrom de trás das costas. A lombada estava se soltando, as páginas

tinham as orelhas dobradas e, quando ele abriu o livro, vi que estava

cheio de letras que eu nunca tinha visto.

Falei: “Por que as folhas estão enrugadas?”.

E o homem disse: “Estão molhadas com as lágrimas daqueles que

tentaram lê-las e fracassaram”.

De repente, fiquei com frio. “Eu teria conseguido ler?”, perguntei.

Ele sorriu. “Agora jamais saberemos.”

E, então, acordei. Mas não era de manhã. Estava escuro e eu

tremia. O ar revolto, cheio do som de asas batendo.

Puxei os cobertores para cima e me encolhi. Fechei os olhos e ten-

tei reencontrar o senhor. Queria perguntar a ele sobre o gosto que a

pedra deixa na boca. Mas o ar já não estava repleto de mosquitos e plu-

mas de dentes-de-leão. Estava cheio de penas, como se alguém tivesse

chacoalhado um travesseiro gigante em algum lugar acima da minha

cabeça, e as penas iam ficando cada vez mais densas enquanto eu

olhava.

Não era fácil ver com o vento tão cheio de turbilhões. Quando o ar

ficou mais frio, encontrei abrigo embaixo da árvore no meio do campo.

A pedra esquentava no meu bolso e aquecia minhas mãos, mas logo ela

ficou quente demais para ser tocada e tive que deixá-la no chão, e ela

foi ficando mais e mais brilhante e o mundo ao redor ficou branco.

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Era manhã quando acordei. O ar estava quieto e denso. Pesava

sobre mim como um cobertor, e o cobertor estava frio. Saí da cama.

Puxei as cortinas. O mundo estava inteiro branco.

O primeiro milagre

Olhei fixo para a neve e me perguntei se ainda estava sonhando.

Mas as casas não eram feitas de papelão e as pessoas não eram de argila:

o sr. Neasdon estava tentando dar partida no carro, a sra. Andrews es-

piava pela cortina, crianças estavam fazendo um boneco de neve e o ca-

chorro da casa vinte e nove corria de um monte de gelo a outro.

Pisquei os olhos e tudo continuava ali. Eu me belisquei e doeu. Sentei

na cama e olhei para os joelhos. Depois me levantei e olhei pela janela

de novo. Aí vesti as roupas, corri escada abaixo e abri a porta da frente.