A Morte Alada por H.P. Lovecraft - Versão HTML

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“A Morte Alada” – H.P. Lovecraft

Tradução: Renato Suttana

Quem é Renato Suttana?

Renato Suttana é doutor em Letras e professor de Literatura Brasileira na Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), em Guarapuava-PR. É autor de “Uma Poética do Deslimite”: o poema como imagem na obra de Manoel de Barros (dissertação de mestrado, PUC-MG, 1995), de João Cabral de Melo Neto: “O Poeta e a Voz da Modernidade” (tese de doutorado, UNESP-Assis, 2003) e do livro de poesias “Visita do Fantasma na Noite” (2002).

Suttana também mantem seu site na web: http://www.arquivors.com. Contatos com o tradutor podem ser feitos pelo e-mail: rsuttana@arquivors.com

Orange Hotel fica na High Street, próximo à estação ferroviária, em Bloemfontein, na África do S

O

ul. Num domingo, a 24 de janeiro de 1932, quatro homens estremeciam de terror num dos quartos em seu terceiro piso. Um deles era George C. Titteridge, proprietário do hotel; outro era o guarda de polícia Ian De Witt, da Delegacia Central; o terceiro era Johannes Bogaert, o juiz investigador local; o quarto, e aparentemente o menos perturbado do grupo, era o doutor Cornelius Van Keulen, o médico legal.

Sobre o piso, incomodamente evidente em meio ao intenso calor do verão, jazia o corpo de um homem morto; mas não era disso que os quatro tinham medo. Seus olhares vagavam da mesa, sobre a qual havia uma curiosa mixórdia de coisas, para o teto logo acima, ao longo de cuja suave brancura uma série de caracteres grandes e hesitantes tinham de algum modo sido garranchados a tinta; e vez ou outra o doutor Van Keulen olhava furtivamente para um surrado livro encapado em couro, para as palavras rabiscadas no teto e para uma mosca morta de aspecto peculiar que flutuava numa garrafa de amônia sobre a mesa. Também sobre a mesa estavam um tinteiro aberto, uma caneta e uma almofada para escrita, uma valise de médico, uma garrafa de ácido clorídrico e um copo contendo um quarto de óxido de manganês preto.

O livro encapado em couro era o diário do morto e deixava claro que o nome Frederick N.

Mason, da Mining Properties, Toronto, Canadá, assinado no registro do hotel, era falso. Havia outras coisas, coisas terríveis, que a partir dele se tornavam claras também; e ainda outras que ele apenas sugeria de modo horrível, sem as deixar claras ou sequer torná-las inteiramente críveis. Era a meia suspeita dos quatro homens, fecundada por vidas inteiras que passaram junto aos segredos sombrios da África nativa, que os fazia tremer tão violentamente, a despeito do calor causticante de janeiro.

Tratava-se de um caderno pequeno, e todas as entradas apareciam numa caligrafia bonita, a qual, entretanto, se tornava descuidada e nervosa à medida que se aproximava do fim. Consistia de uma série de apontamentos soltos, irregularmente espaçados no princípio, mas que finalmente se tornavam cotidianos. Chamá-lo de diário não seria inteiramente correto, pois recobria a crônica de apenas um setor das atividades do autor. O doutor Van Keulen reconheceu o nome do morto no momento em que virou a capa, pois se tratava de um eminente membro de sua própria profissão que tinha estado amplamente ligado aos assuntos africanos. Num outro momento, ficou horrorizado ao descobrir seu nome ligado a um crime covarde não solucionado oficialmente, que tinha freqüentado os jornais há uns quatro meses. E quanto mais lia mais se aprofundavam seu horror, seu pasmo, sua aversão e seu pânico.

Aqui, em essência, está o texto que o doutor leu em voz alta naquele quarto sinistro e perturbador, enquanto os três homens à sua volta perdiam o fôlego, se remexiam em suas cadeiras e disparavam olhadelas medrosas para o teto, para a mesa, para as coisas que estavam no chão, bem como entre si mesmos: