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A Mulher na História. Actas dos Colóquios sobre a temática da Mulher por Câmara Municipal da Moita - Versão HTML

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A MULHER NA HISTÓRIA

ACTAS DOS COLÓQUIOS

SOBRE A

TEMÁTICA DA MULHER

(1999-2000)

CÂMARA MUNICIPAL DA MOITA

2001

A Mulher na História

FICHA TÉCNICA

Título: A Mulher na História

Actas dos Colóquios sobre a temática da Mulher

Organização e Introdução: Maria Clara Curado Santos

Colaboradores: José Nunes Carreira, José Augusto M. Ramos, António Ramos dos Santos, Luís Manuel

de Araújo, Nuno Simões Rodrigues, Amílcar Guerra, Tatiana Kuznetsova-Resende, António Vicente,

Manuela Santos Silva, Carlos Silva, Pedro Gomes Barbosa, Maria Margarida Caeiro, Maria de Fátima

Reis, Maria da Graça A. Mateus Ventura, Marques de Almeida, Zília Osório de Castro, João Esteves,

Sara Marques Pereira, Maria Luísa Ribeiro Ferreira e Sérgio Campos Matos.

Capa: Fernando Carvalho

Tratamento e processamento de texto: Tip. Belgráfica, Lda.

Revisão: Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo

Edição: Câmara Municipal da Moita / Departamento de Acção Sócio-Cultural

1ª edição

Data da edição: 2001

Tiragem: 500 exemplares

Impressão: Tip. Belgráfica, Lda.

Depósito legal Nº 167704/01

2

A Mulher na História

ÍNDICE

APRESENTAÇÃO .................................................................................................

5

INTRODUÇÃO ......................................................................................................

7

A MULHER NA ANTIGUIDADE PRÉ–CLÁSSICA ........................................

9

A Mulher no Antigo Egipto .............................................................................

11

Prof. Doutor José Nunes Carreira

A Mulher na Bíblia ...........................................................................................

27

Prof. Doutor José Augusto M. Ramos

A Mulher na Mesopotâmia ...............................................................................

45

Prof. Doutor António Ramos dos Santos

A Imagem da Mulher na Arte Pré-Clássica .....................................................

53

Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo

A MULHER NA ANTIGUIDADE CLÁSSICA ..................................................

79

A Mulher na Grécia Antiga ..............................................................................

81

Dr. Nuno Simões Rodrigues

A Mulher em Roma. Algumas Considerações em Torno da sua Posição

Social e Estatuto Jurídico ................................................................................. 105

Prof. Doutor Amílcar Guerra

A Bacante no Mundo Clássico ......................................................................... 113

Profª Doutora Tatiana Kuznetsova-Resende

A MULHER NA IDADE MÉDIA ......................................................................... 123

A Mulher na Ruralidade Medieval ................................................................... 125

Mestre António Balcão Vicente

As Mulheres Cristãs nas Cidades da Idade Média ........................................... 143

Profª Doutora Manuela Santos Silva

3

A Mulher na História

O Rosto Feminino dos Judeus e Muçulmanos na Idade Média ....................... 151

Mestre Carlos Guardado da Silva

A Mulher e o Sagrado ...................................................................................... 181

Prof. Doutor Pedro Gomes Barbosa

A MULHER NA IDADE MODERNA ................................................................. 189

A Mulher na Família nos Séculos XVI e XVII ................................................ 191

Mestre Maria Margarida Caeiro

A Mulher e o Trabalho no Espaço Urbano nos Séculos XVII e XVIII ........... 203

Profª Doutora Maria de Fátima Reis

Mulheres nas Índias Ocidentais – Escrita e Ausência ...................................... 215

Mestre Maria da Graça A. Mateus Ventura

A MULHER NA IDADE CONTEMPORÂNEA ................................................. 225

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher. História de um Projecto ..................... 227

Profª Doutora Zília Osório de Castro

O Movimento Sufragista em Portugal na 1ª Metade

do Século XIX (1896-1947) ............................................................................. 239

Mestre João Esteves

Maria Guardiola e as Organizações Femininas

do Estado Novo (1895-1987) ........................................................................... 261

Drª Sara Marques Pereira

A Mulher na Filosofia – Reflexões sobre um Projecto .................................... 287

Profª Doutora Maria Luísa Ribeiro Ferreira

LISTA DE PARTICIPANTES ............................................................................... 297

4

A Mulher na História

APRESENTAÇÃO

Para que fique marcadamente presente este espaço da nossa intervenção cul-

tural, social e política, aqui deixamos os registos dos prelectores que, com a

Câmara Municipal da Moita, tiveram a amabilidade de colaborar neste ciclo de

seminários dedicados às mulheres, pretendendo fazer perceber o seu importan-

tíssimo papel na sociedade ao longo dos tempos.

Foram elevados momentos de erudição, as intervenções que tiveram oportu-

nidade de ser debatidas e aprofundadas, aumentando assim os conhecimentos

de todos aqueles que fruíram a possibilidade de se deslocar ao nosso Auditório

Fernando Lopes Graça, da Biblioteca Municipal da Moita e participar em tão

importante iniciativa. A todos, mesmo aos que aqui não estiveram, vos apresen-

tamos esta obra de carácter científico com a certeza de que ela irá ampliar os

vossos conhecimento. Aos autores dos textos e às instituições que representa-

ram, os nossos mais vivos agradecimentos pela disponibilidade e colaboração

demonstrada na promoção da cultura no Município da Moita.

O Vereador da Cultura

José Manuel Fernandes

5

A Mulher na História

6

A Mulher na História

INTRODUÇÃO

AMulher na História surge no desenvolvimento de um projecto de trabalho

que se circunscreveu na realização de cinco colóquios, integrados nas Come-

morações do Dia Internacional da Mulher. Este projecto começou em 1999 e

decorreu até ao ano 2000, sob a iniciativa da Câmara Municipal da Moita, através

do seu Departamento de Acção Sócio-Cultural e com a prestimosa colaboração

do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

O resultado foi a publicação do presente volume que integra dezanove artigos

das vinte comunicações, proferidas ao longo desses colóquios, contributo de um

grupo de colaboradores, provenientes de diferentes organismos de ensino,

pertencentes não só à Faculdade de Letras de Lisboa, mas também à Universi-

dade Nova, à Universidade de Évora e ainda ao ensino secundário.

O conjunto de textos que constituem A Mulher na História foram organizados

de acordo com a estrutura apresentada nas conferências, ou seja, por cinco grandes

períodos cronológicos a saber: Antiguidade Pré-Clássica, Antiguidade Clássica,

Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea.

Procurámos, através das diferentes abordagens temporais, dar uma visão

abrangente do papel social da mulher no devir histórico e trazer, deste modo, à

luz dos novos conhecimentos, os estudos mais recentes que se têm desenvolvido

nesta área. Pretendemos dar a conhecer os espaços de intervenção da mulher ao

longo dos tempos, perscrutar a sua palavra, os seus sentimentos, os seus

comportamentos, as suas funções sociais, silenciados pela história escrita por

homens. Estes sempre se apropriaram do terreno histórico como sendo eminente-

mente masculino, ignorando simplesmente o papel social da mulher ou quando

muito remetendo-a para um plano secundário, associado à família e à neces-

7

A Mulher na História

sidade de reprodução. Pretendemos, assim, perspectivar o conhecimento histórico

da humanidade na sua dualidade Homem/Mulher.

Uma das intenções que presidiu à realização desta iniciativa foi o de criar

um espaço que promovesse o diálogo, o debate e troca de ideias, dando a opor-

tunidade a todas as pessoas, interessadas nas problemáticas inerentes a estes

assuntos, participarem nos colóquios com as suas opiniões e com as suas questões,

de modo a permitir o confronto de perspectivas.

Com a edição A Mulher na História esperamos contribuir, de algum modo,

para o aprofundar de conhecimentos, bem como para a reflexão e a problemati-

zação das principais questões que afectaram a condição social e cultural da mulher

através dos tempos, projectando novos estudos e análises da realidade passada e

presente.

8

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A Mulher na História

A MULHER NA ANTIGUIDADE

PRÉ-CLÁSSICA

9

A Mulher na História

10

A Mulher na História

A MULHER NO ANTIGO EGIPTO

JOSÉ NUNES CARREIRA

Instituto Oriental da Faculdade de Letras

da Universidade de Lisboa

Em lugar nenhum do mundo e em nenhuma época histórica se podem aflorar

temas como sociedade, cultura, literatura, arte ou religião sem um capítulo muito

especial sobre a mulher. Para tocar o mais evidente, a representação escultórica

da figura humana começa, ou dá o maior relevo, na pré-história com a figura

simbólica da deusa-mãe. A pintura retratou a mulher desde muito cedo. E como

imaginar a história da música e da dança desligada da mulher?

Mas será possível falar em estatuto social da mulher no Egipto faraónico1,

entendendo-se positivamente, quando hoje, a cinco mil anos do começo da

história, ainda se clama contra o estatuto inferior da mulher, exigindo quotas e

igualdade efectiva de direitos? Parece que batemos à porta mais errada. Logo no

Egipto dominado pelo faraó de aura divina e quase um deus incarnado2... Se até

os homens, excepção feita talvez aos mais altos funcionários, nunca atingiram

estatuto ou consciência de cidadãos... dificilmente a Antiguidade Oriental ofere-

cerá espelho mais baço para um rosto feminino, ou terreno mais sáfaro para os

direitos da mulher. Na Mesopotâmia e em Israel havia «leis». Sabia-se com que

1 Nesta conferência da Moita retomo parte do que já disse em Cascais, «O rosto feminino do Egipto

faraónico», em A Mulher e a Sociedade (Actas dos 3ºs cursos internacionais de Verão de Cascais), I,

Cascais 1997, pp. 43-62.

2 Nas palavras de um conceituado egiptólogo do nosso século: «A sociedade concentrada no vasto

espaço do vale do Nilo inferior e do Delta era, sempre no sentido radical da antiga ideologia régia e por

isso necessitando inteiramente de correcção, um nada ou então massa amorfa e incapaz de acção» (S.

MORENZ, «Der Alte Orient», em ID., Religion und Geschichte des alten Agypten. Gesammelte Aufsatze,

Köln/Wien 1975, p. 52.

11

A Mulher na História

podia contar a mulher traída e a adúltera, a livre e a escrava. No Egipto bastava

a maat, a ordem recta universal interpretada pelo rei e seus funcionários.

Se passarmos dos direitos humanos gerais à dignidade específica da condição

feminina, o Egipto faraónico ofusca o brilho das aparentemente mais avançadas

e requintadas civilizações clássicas (para não falar de Babilónios e Assírios,

Hititas e Cananeus). De contrário, não teriam gregos e romanos imaginado ten-

dência fundamental de matriarcado onde só havia possibilidades de realização e

competências concedidas à mulher egípcia. Afinal, sempre há alguma base para

aflorar o estatuto social da mulher no antigo Egipto.

Não me quero antecipar à história da arte egípcia, a tratar esta tarde. Debruço-

-me sobre testemunhos escritos sobre a mulher egípcia, restringindo-me a três

campos: corte, «sociedade civil» e literatura.

Na corte

A presença feminina na corte é mais que ornato institucional ou comple-

mento indispensável de lazeres e ócios masculinos. Sobretudo no Império Novo,

emerge a quase-instituição da «rainha-mãe» e «esposa principal», de que saliento

algumas figuras carismáticas.

A começar em Ahhotep, mãe de Ahmose, fundador do novo renascimento

egípcio. Esposa de Sekenenré, deu à luz Kamose e Ahmose, que a partir de

Tebas reconquistam a unidade do Egipto. Expulsos os Hicsos e conquistada a

Núbia, estavam criadas as condições para a ascenção do Egipto a potência

mundial. Ahhotep não só assegurou a regência (Ahmose subira ao trono com 10

anos), mas esteve à frente da política interna enquanto o jovem rei consolidava

o poder. A actuação discreta é singularmente elogiada pelo monarca seu filho.

Uma estela que mandou erigir em Karnak contém este hino de louvor à rainha-

mãe – caso raro num Egipto onde só a normalidade quase ritual, e não a excep-

ção, se julgava digna de registo:

«Louvai a senhora do país,

a dominadora das margens da Fenícia,

cujo nome é elevado sobre as terras montanhosas,

que decide sobre o povo...

Uniu os príncipes do Egipto

E alicerçou a sua coesão;

Trouxe de volta os seus fugitivos

E reuniu os seus desertores.

12

A Mulher na História

Pacificou o Alto Egipto

E expulsou os seus revoltosos,

Ela, a esposa real Ahhotep, viva!»3

A esposa e irmã ou meia-irmã de Ahmose, Ahmés-Nefertari, sobreviveu ao

marido. A relação do filho e sucessor, Amenófis I, com a mãe foi tão estreita

que Ahmés-Nefertari e Amenófis I se converteram ao longo de todo o Império

Novo num par de «santos populares» em Tebas Ocidental, com capelas erguidas

em sua honra e altares em casas comuns.

A nobre função da rainha-mãe como guardiã da tradição e portadora de legi-

timidade volta a sobressair num dos reinados mais faustosos do Egipto – o de

Ramsés II. O faraó celebra sua mãe Tuy, a «grande esposa real» de Seti I, em

construções, relevos e estátuas. Os monumentos espalham-se por muitos lugares

do país, de Abu Simbel, no extremo sul, à cidade de Ramsés, no Noroeste do

Delta. Até uma estátua de rainha da XII dinastia, velha de 600 anos, foi aprovei-

tada e remodelada para representar a querida mãe, «a princesa, grande em

perfeição, grande em amabilidade, mãe do rei do Alto e Baixo Egipto, esposa do

deus e esposa real, Tuy» (da nova inscrição).4

Não admira que os faraós se façam representar muito mais vezes com a mãe

do que com o pai ou com o antecessor.

Mas não só junto dos filhos se estendia a sombra protectora da rainha-mãe.

Já durante os reinados dos maridos as rainhas desempenhavam papel importante.

Que gozavam de poder económico e influência política, não oferece dúvida

alguma.

No Império Antigo, Hetep-heres II e Meresankh III, esposas de Rédjedef e

Khefren, respectivamente, transmitem-nos em relevos a sua forte personalidade.

No princípio do Império Novo, impõe-se a já conhecida Ahmés-Nefertari, embora

os textos que nos chegaram falem muito mais de Ahhotep do que dela. Ahmose

conferiu-lhe o título de «esposa divina de Amon», com estela no templo de

Karnak a registar os direitos em bens e terras, em doação perpétua à empossada

e seus herdeiros. Outros textos recordam o envolvimento da rainha nos planos

de construção de Ahmose – reabertura de pedreiras de calcário na região de

Mênfis e de alabastro em Assiut. Quando o faraó decidiu erguer um cenotáfio a

sua avó Tetisheri em Abidos, deixou estela a lembrar que procurou a aprovação

da real esposa. Já reinava Tutmés I, quando Ahmés-Nefertari, rainha-mãe e

3 S. SCHOSKE-D. WILDUNG, Nofret, die Schöne Die Frau im Alten Ägypten, Kairo/Mainz, 1984,

p. 68; cf. G. ROBINS, Women in Ancient Egypt, London, 1993, pp. 42-43.

4 Ibid. , pp. 62-63.

13

A Mulher na História

«esposa do deus», «justificada com o grande deus, senhor do Ocidente, voou

para o céu»5.

O reinado do magnífico Amenófis III, recheado embora de beldades femininas

povoando um farto harém, sem a rainha parece vazio. Por ela o faraó desafiou a

tradição egípcia, desprezando nobrezas de sangue e levando para o trono real a

«burguesa» que verdadeiramente amava. A ela dedicou no princípio do reinado

um escaravelho (a medalha da época) comemorativo, com esta inscrição: «...Rei

do Alto e Baixo Egipto, Nebmaatre, filho de Ré, Amenhotep (Amenófis) senhor

de Tebas, a quem se dá vida, e a esposa principal do rei, Teye, viva! O nome do

pai dela é Yuya e de sua mãe Tjuyu. Ela é esposa de um rei poderoso, cuja

fronteira meridional está em Karoy (Alta Núbia) e a fronteira setentrional em

Naharina (Mitanni).» Para ela construiu Amenófis III um lago artificial em

Akhmim, onde a rainha nascera, com o respectivo barco de recreio.

A evolução da sociedade e das mentalidades criara novas possibilidades de

realização pessoal. O faraó não se envergonha da origem «burguesa» da esposa

principal, referindo os nomes do pai, um modesto funcionário provincial, e da

mãe. Teye não precisa de sacrificar, nem sequer iconograficamente, a feminili-

dade. Na cabeça da estátua proveniente de Serabit el-Khadim, no Sinai, concen-

tra-se a vontade forte dessa mulher extraordinária que, juntamente com o real

esposo e até para além dele, marcou o espírito de uma época. Lábios e orelhas

denunciam origem não-egípcia, certamente núbia. Os enérgicos traços do rosto

mostram a determinação com que Teye dava novos impulsos a um Egipto pesado

de tradição, abrindo caminho à reforma religiosa do filho Akhenaton, criando o

clima de efervescência cultural em que a arte egípcia deu o passo para o retrato

realista6. Num tempo em que arquitectos se davam a especulações teológicas e

se enfatizavam aspectos divinos e solares da realeza, a rainha adopta os cornos

e o disco de Hathor7.

O disco solar com representação exclusiva do deus «único» Aton impôs-se

finalmente com Amenófis IV/Akhenaton, como se sabe. A presença de Nefertiti

junto ao rei é tão importante e ainda mais constante do que a da iconografia de

Aton.

Nefertiti tornou-se figura emblemática do Egipto. É certamente uma das

mulheres mais conhecidas da história mundial... graças aos modernos, não aos

antigos egípcios, que parecem ter perdido a sua memória. Não por falta de

«provas», pois nenhuma outra rainha foi tão exposta em monumentos, templos,

túmulos e estatuária... mas porque essa mulher fugia a todas as regras.

5 Em G. ROBINS, p. 44, n. 3

6 S. SCHOSKE-D. WILDUNG, pp. 74-75.

7 Foi a primeira rainha a adoptar estas insígnias; cf. G. ROBINS, pp. 40 (fig. 7) e 52.

14

A Mulher na História

De origem desconhecida, talvez uma das últimas princesas oferecidas pelo

Mitanni a Amenófis III, «A Bela chegou» (significado de Nefertiti) ao Egipto e

conquistou o coração do novo faraó. Como esposa principal do reformador (ou

herege e apóstata) Akhenaton esteve no epicentro do terramoto que sacudiu o

Egipto do século XIV A. C. Amarna foi mais que uma religião – foi uma cultura,

«um novo estilo, uma nova iconografia, uma nova arquitectura templária, uma

nova língua escrita, para apenas mencionar o que mais salta à vista»8. A viragem

religiosa, social e artística é impensável sem Nefertiti.

Já nos primeiros anos do reinado do marido, a rainha aparece como patrona

única de templos em Karnak e oferece, segundo uma cena, directamente ao

deus. Acompanha sempre o real esposo em actos oficiais. Sozinha, cumpre o

ritual programático de massacrar os inimigos do Egipto. Tanto o famoso busto

de Berlim como um estudo para o retrato (relevo em calcário do museu do Cairo)

mostram-na na posse oficial. Mas a mulher altiva e politicamente activa, quase

rainha autocrática, esconde afinal outra faceta bem mais humana – a de criatura

de fina sensibilidade, desinibida a beijar o marido em público (no carro triunfal

ou sentada ao seu colo), tratando com as filhas na intimidade do lar. O pescoço

alongado, o rosto austero, os lábios carnudos e os olhos grandes compõem-se

num psicograma de inquietude interior e vontade de mudança. Este rosto exprime

uma ideia e uma época, não apenas uma pessoa de carne e osso. É uma «princesa»

(completa), «grande no palácio, bela de semblante, senhora da alegria, que pos-

sui donaire, de tal modo que a gente rejubila ao ouvir a sua voz»9. «Dotada de

uma coroa real, poder-se-ia sem rodeios aceitar esta Nefertiti como imagem de

Akhenaton, pois ambos, rei e rainha, são em conjunto e até ao limite da permu-

tabilidade personificações do conceito religioso da crença solar.»10

Ninguém sabe como terminou carreira brilhante de Nefertiti. Terá sido

afastada, como se poderia deduzir das provas arqueológicas da estada da rainha

em Tell el-Amarna, sem sinal visível do marido? Terá sobrevivido a Akhenaton

e mantido a influência de rainha-mãe junto de Tutankhaton, logo convertido a

Amon e em Tutankhamon? Ficam as perguntas. A única certeza é que com

Nefertiti desapareceu a última grande rainha do Egipto, uma das maiores de

toda a sua história.

A escassez de tempo não permite aflorar outras facetas importantes, como

as alianças matrimoniais de faraós com princesas estrangeiras e a instituição do

harém real. Antes do Império Novo, o harém era o palácio da rainha e da sua

corte, onde se educavam os infantes reais e os filhos das famílias influentes.

8 J. ASSMANN , Aegypten. Theologie und Frommigkeit einer frühen Hochkultur, Stuttgart, 1991, p. 243.

9 De um marco de estrema, em Amarna: S. SCHOSKE-D. WILDUNG, p. 76; cf. ibid. , pp. 77-79, 84-85.

10 Ibid., p. 76.

15

A Mulher na História

Agora torna-se espelho do prestígio faraónico (Amenófis III recebeu 270

mulheres só do rei do Mitanni) e pólo de vida cortesã. Fiquemo-nos com a imagem

global da mulher no trono egípcio: «Mais fortemente do que no rei, que é antes

de mais garante de uma instituição e portador de poder dado por deus, transpa-

rece na personalidade das rainhas o lado humano e individual. Uma história do

Egipto com base na biografia das suas rainhas daria, sob o aspecto da história

cultural e das mentalidades, uma imagem mais viva e mais plástica da realidade

do antigo Egipto do que a habitual lista de reis comentada. (...) Precisamente na

época do Império Novo, acentua-se a forte ligação emocional das grandes figuras

de soberano à sua grande esposa real, até em inscrições oficiais. Amenófis III e

Teye, Akhenaton e Nefertiti, Ramsés II e Nefertári tornaram-se com razão pares

clássicos da história mundial.»11

Rainha-mãe e esposa influente não são monopólio do Egipto. Também as

houve na Ásia pré-clássica, na Mesopotâmia, no Hatti e em Israel. Mas alguma

mulher se sentou no trono?

Decididamente, os Egípcios não gostavam de ver aí uma mulher. Quando

Hatshepsut, dotada e ambiciosa, resolveu governar o Egipto com plenos poderes

régios, achou por bem suprimir oficialmente a indumentária e até a anatomia

feminina – escultura e relevo ostentam a «faraóa» vestida à homem, tronco raso

e nu, avental cobrindo as vergonhas; até as feições do rosto disfarçam bem a

feminilidade. Os escribas oscilaram entre masculinizar e deixar no feminino os

pronomes referentes à rainha.

Um virago em travesti no trono egípcio pode ser excepção. Não o foi segu-

ramente enquanto mulher. Já no fim da VI dinastia terá reinado no Egipto uma

«faraóa», Nitokris de seu nome, de acordo com o papiro de Turim, Heródoto e

Maneton. As fontes coetâneas é que a ignoram completamente, o que nos deixa

na dúvida sobre a sua real existência – pode tratar-se de um erro de copista. A

encerrar a XII dinastia do Império Médio não há dúvida – Sobeknefru (1789-

-1785), irmã do defunto Amenemhat IV, assumiu a titulatura oficial dos faraós.

Foi o canto do cisne de um esplendoroso florescimento político e económico,

que uma «ínclita geração» de conquistadores e bons governantes levara a alturas

nunca antes atingidas. Outra rainha coroada faraó fechará XIX dinastia dos Seti

(I e II) e Ramsés (I e II). A grácil figura de Tausert (1188-1186) bem precisa de

fama emprestada, mesmo com três milénios de atraso – Théophile Gautier não

achou melhor heroína para o seu Romance da Múmia.

O saldo (prescindamos por momentos de Hatshepsut) está longe de ser

brilhante. Mas onde é que se viu, em toda a história pré-clássica, uma mulher

11 Ibid. , p. 59.

16

A Mulher na História

subir ao trono? Consultem-se as listas de reis de Sumérios e Assírios. Vascu-

lhem-se anais e fontes históricas dos Hititas e de Israel. Vejam-se as reconstitui-

ções modernas da história dos Babilónios, dos Medos e dos Persas. Esquecendo

o reinado sanguinário e fugaz da usurpadora Atália (814-835 a. c.) em Jerusalém,

reinar é negócio de homens. No Egipto clássico (antes da helenizada Cleópatra),

pelo menos três mulheres ocupam o trono.

Hatshepsut é um caso à parte12. Ao contrário das outras duas rainhas coroadas

do Egipto, não foi solução de recurso de dinastia exangue em estertores de agonia.

Está antes na rampa ascendente da mais brilhante dinastia faraónica – a XVIII

dos conquistadores da Ásia e da Núbia, dos construtores das inimitáveis coluna-

tas de Luxor e do «jardim botânico» pintado nas paredes de Karnak, enfim, a

dinastia dos inimagináveis tesouros sepulcrais de Tutankhamon. E são apenas

restos (até agora) imortais. Imagine quem puder o que seria o templo mortuário

do venturoso Amenófis III, de que restam só os dois colossos, e que riquezas

não acompanhavam as múmias de Tutmés III, Amenófis III e Amenófis IV.

Morreu Tutmés II e, segundo a biografia de um funcionário, «seu filho

(Tutmés III) subiu ao seu trono como rei dos Dois Países e governou no assento

daquele que o gerou. Sua irmã, a esposa do deus, Hatshepsut, tinha nas mãos os

negócios do país»13. Por outras palavras, Hatshepsut, esposa e meia-irmã do

faraó defunto, assumiu a regência em virtude da menoridade de Tutmés III,

filho de Tutmés II por uma esposa secundária. Continuou a usar titulatura e

insígnias de «esposa principal do rei». Mas cedo evidenciou as ambições. Preferia

apresentar-se com o título mais prestigioso de «esposa do deus». Adaptou títulos

faraónicos («senhora dos Dois Países»); fez-se representar em cenas de icono-

grafia régia (oferecendo directamente aos deuses); erigiu dois obeliscos em

Karnak, usurpando uma prerrogativa faraónica.

O gosto do poder mandou às urtigas a intenção de deixar o governo do Egipto

ao jovem rei uma vez suficientemente adulto. A regente era uma personalidade

forte. No ano 7, abandonou titulatura e insígnias de rainha e assumiu os cinco

títulos do protocolo faraónico. Para legitimar este passo ousado, forjou textos

em que seu pai a designava sucessora, apresentando-a à corte e aos deuses do

Egipto. Aplicou a si o mito do nascimento divino, mandando pintar nas paredes

do seu magnífico templo funerário cenas de união amorosa entre o deus Amon-

-Ré e a rainha Ahmose, sua mãe. Com a maior naturalidade e com a elevação e

delicadeza próprias do mistério, o deus de Karnak aproxima-se da rainha, senta-

-se em frente dela, toca-lhe ao de leve os joelhos, acaricia-lhe as mãos com a

12 Cf. C. DESROCHES NOBLECOURT, A mulher no tempo dos faraós, Campinas, SP, 1994, pp. 149-

-191; G. ROBINS, pp. 45-48.

13 G. ROBINS, o.c. , p. 44, n. 3.

17

A Mulher na História

direita enquanto a esquerda lhe estende às narinas o sinal da vida. Digno e contido

é o texto explicativo14. Legitimada pela terra e pelo céu, Hatshepsut rodeou-se

de funcionários leais, de que se destaca Senenmut, o arquitecto-mor e preceptor

da filha. Não precisou de afastar Tutmés, de quem se contaram sempre os anos

de reinado. Mas o rei aparecia cada vez menos em actos oficiais. E havia o

velho expediente jurídico da coregência, inaugurado por Amenemhat I nos

alvores do Império Médio, agora com papéis invertidos – não o rei idoso ajudado

pelo robusto e jovem príncipe herdeiro, mas o jovem e vigoroso faraó afastado

de facto pela tia, madura e madrasta em mais de um sentido.

Sem serem tão pacíficas como se tem julgado15, foram duas décadas (1488-

-1468) de prosperidade interna. Ficou célebre a expedição comercial a Punt, na

costa da Somália, donde os egípcios trouxeram ouro, marfim, madeiras exóticas,

peles de animais e incenso, a troco de armas, utensílios e jóias. Os pintores

eternizaram a aventura nas paredes do templo de Deir el-Bahari, essa gema

única da arquitectura egípcia. Todo o complexo arquitectónico era uma réplica

de Punt no meio do Egipto. «Como os socalcos de mirra do país lendário este

templo sobe em três terraços, do primeiro átrio plantado de árvores de incenso

até às capelas dos deuses anichadas à parede abrupta do vale em bacia de Deir

el-Bahari. O harmónico enquadramento do monumento na paisagem rochosa

testemunha da mesma empatia com a natureza que anima a arte deste período,

sobretudo as pinturas murais dos sepulcros tebanos. Refinamento da cultura

material e atmosfera lírica sobem em crescendo de Hatshepsut até ao tempo de

Amarna.»16

Em toda a história do Egipto não houve outra rainha de igual formato. A

singularidade da sua tomada do poder não parece ter impressionado ou escanda-

lizado o jovem Tutmés III. Só muito depois de o faraó-rainha ter desaparecido

de cena, não se sabe como (talvez por morte natural), se começou a perseguir a

sua memória e a apagar o seu nome dos monumentos. Não por causa do sexo de

quem ocupara o trono, mas por horror à duplicação de soberanos.

Na sociedade civil

O estado das fontes sobre a posição da mulher comum do Egipto faraónico é

complexo: textos jurídicos explícitos não existem; referências literárias contra-

14 G. ROBINS, o.c. , p. 46.

15 Haja em vista as campanhas militares levadas a cabo durante a regência e reinado de Hatshepsut.

16 E. HORNUNG, Grundzüge der ägyptischen Geschichte, Darmstadt, 1978, pp. 81-82.

18

A Mulher na História

dizem-se; testemunhos iconográficos são equívocos. À míngua de espaço e de

tempo, foquemos o essencial.

Como principio, a burocracia estatal estava reservada a homens. Mas ocorrem

títulos femininos de «inspectora», «escriba», «vizira» e «juíza». E como esses

cargos exigiam domínio da escrita, segue-se que a mulher também frequentava

a escola. As ocorrências são esporádicas e sobretudo do Império Antigo. No

Império Médio decrescem os títulos femininos da administração. Mesmo assim,

ocorrem camareiras, mordomas e inspectoras da cozinha, talvez de casas parti-

culares e não da administração pública. Há títulos de «inspectora dos tecelões»

e «inspectora da casa dos tecelões». Como mulheres não inspeccionam homens,

segue-se que os «tecelões» eram do sexo feminino, o que é corroborado pelo

facto de o hieróglifo para «tecelão» no Império Antigo usar um determinativo

feminino.

Na perspectiva da chamada Sátira dos Ofícios (uma obra propagandística

em louvor da boa vida do escriba), a mulher estava isenta da escravidão dos

trabalhos manuais. Desfilam ante os olhos do leitor dezoito profissões, cada

uma mais miserável do que a anterior... todas (até a de lavadeiro) masculinas: «o

lenhador que brande a enxó» e nunca sabe o que é despegar; «o joalheiro broca

com o seu cinzel / em pedra dura», «esgotado» depois de incrustar um olho,

«joelhos e costas derreados» ao fim do dia; o barbeiro senta-se à esquina ou

«deambula de rua em rua» à cata de fregueses; o cortador de juncos mordido de

mosquitos e de pulgas da areia no Delta; o oleiro mais parecido a um porco ou

um cadáver; o pedreiro, cordel premonitório entre as pernas, trabalha quase nu;

o carpinteiro de madeiramentos arrisca-se em tectos difíceis, longe da casa e da

família; o hortelão tem tarefa dura, regando e cavando de manhã à noite; «o

agricultor geme mais do que uma galinha / voz mais aguda que a dum corvo»,

dedos a feder, «esgotado» e «andrajoso»; o tecelão «passa pior de que uma mulher

em parto», «joelhos dobrados contra o estômago», com salário de cinquenta

açoites por dia que não trabalhe; o fabricante de setas toca a burra deserto fora –

tem de pagar a quem lhe ensine os caminhos e volta a casa «partido»; o correio,

passando desertos temíveis de leões e asiáticos, só se sente seguro quando regressa

ao Egipto; o forneiro (?)17 de «dedos apodrecidos, fedendo como cadáveres,

olhos inflamados de tanto fumo»; o sapateiro é outro morto-vivo; o lavadeiro,

«vizinho do crocodilo» e da morte, a ouvir continuamente de filho e filha: «sai

da água corrente, pai!»18.

17 Hapax legomenon de que não se sabe o sentido exacto.

18 Cf. Versão alemã de H. BRUNNER, Altagyptische Weisheit. Lehren für das Leben (AAW), Darmstadt

1988, pp. 160-163; versão inglesa de M. Lichtheim, Ancient Egyptian Literature (AEL), I, Berkeley/

Los Angeles/London 1975, pp. 186-189.

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A Mulher na História

São afirmações manifestamente exageradas e em flagrante contradição com

as fontes directas da vida do dia-a-dia do antigo Egipto – pinturas e relevos,

estátuas e inscrições sepulcrais. Aí se retrata a atmosfera serena e feliz dos

trabalhos do campo e da eira, a paga de tecedeiras com gargantilhas de ouro, o

sapateiro respeitado como artesão da corte.

A decoração das capelas tumulares inclui cenas de oficina, onde trabalham

carpinteiros, joalheiros, escultores, tecelões e metalúrgicos. Só na tecelagem

trabalham mulheres. Cenas e estatuetas do Império Médio mostram mulheres a

fiar e a tecer, geralmente interpretadas como «servas» ou «escravas». Mas há

que corrigir essa interpretação superficial e genérica de moleiras, padeiras,

fabricantes de cerveja, etc. Só casa abastadas se permitiam contratar serviçais

para tais ocupações. Nas famílias mais simples era a dona de casa que se

responsabilizava por essas tarefas.

Trabalho duro do campo, da construção e das oficinas metalúrgicas era

naturalmente reservado a homens. Em casa ou no pátio adjacente é a mulher que

se ocupa a moer o grão, peneirar a farinha, cozer o pão, cozinhar os alimentos e

preparar a cerveja. Na eira é ela que criva o trigo. Nos domínios da cosmética e

arranjo do cabelo forma-se uma especialização em que a mulher chega ao cargo

de cabeleireira real.

As belas e elegantes damas das cenas de banquete, servidas por criaditas

esbeltas e meio nuas, divertindo-se ao toque da harpa e ao ritmo das dançarinas,

representam uma camada bem restrita da sociedade egípcia.

O que não significa que se fizesse tábua rasa dos direitos ou da dignidade da

mulher. Ela é «dona da casa», como os antigos Egípcios gostavam de se expri-

mir, antecipando em milénios a formulação portuguesa. E que capacidade de

intervenção não revelam alguns textos, mesmo em nível social mediano!

Por volta de 2200 a. C., um sacerdote deixara uma terra à sua mulher, inse-

rindo a disposição testamentária na inscrição do túmulo: «Fiz isto para esta

(minha mulher) Di-es-en-ek, porque ela tina um lugar de honra no meu cora-

ção». A viúva acrescentou esta frase lapidar: «No que toca a quem me tirar essa

terra, processá-lo-ei judicialmente perante o grande deus.» Mesmo depois da

morte do marido, a mulher é sujeito de direitos.

A mulher de um operário de Deir el-Medineh, em 1144 a. C., faz valer em

tribunal o testamento em que, saindo da praxe usual, deserda os filhos que a não

tratem na velhice: «No que me diz respeito... criei estes oito servos (filhos).

Dei-lhes uma casa, composta de todas as coisas, como se faz em casos desses.

Eis que envelheci. Eis que agora eles não cuidam de mim. No que toca ao que,

de entre eles, puser a sua mão sobre a minha mão, a esse darei das minhas

coisas. No que toca ao que nada me deu, a esse nada darei das minhas coisas.»

Desavenças entre o casal também as havia. O curioso é que se registam,

20

A Mulher na História

mesmo que seja o homem a ceder. Aí vai o extracto de uma carta do oficial do

exército Shedsu-Khons (c. 1000 a. C.) ao seu rendeiro núbio: «Comunico-te que

regressei a Tebas. Tinha-te dito: não te deixarei mais explorar (a terra). Mas eis

que a minha mulher, a dona da minha casa, me disse: Não tires a terra ao rendeiro.

Arrenda-lha outra vez, deixa-o continuar a explorá-la. Quando te chegar a minha

carta, toma conta do terreno e não o deixes ao abandono...»19

Na literatura

O Estado egípcio não existia sem funcionários, chamados «escribas» em

toda a longa história do Egipto faraónico. Foi esta classe que possibilitou e

exigiu o aparecimento de Instruções. Isolado num posto de província ou em

missão no país ou no estrangeiro, o funcionário via-se perante situações difíceis

que tinha de dominar sozinho. Tinha de ser uma pessoa humana e tecnicamente

preparada, bem formada no comportamento externo e interno, se queria resolver

situações administrativas ou diplomáticas complicadas.

As instruções sapienciais falam da mulher na perspectiva do homem, candi-

dato a funcionário. Esses manuais de educação completa (política, cívica, social

e moral) oferecem porventura o retrato mais isento e objectivo do rosto feminino

do Egipto faraónico. Duas palavras resumem a atitude a tomar ante a mulher:

consideração e respeito.

A mais antiga Instrução integralmente conservada aplica os valores éticos a

situações tão diversas como o comportamento à mesa, o trato com mulheres, os

perigos da avareza, o súbdito que deseja desabafar ou implorar. O ideal humano

que se procura transmitir ao funcionário em situações concretas é válido para

camadas mais amplas da população, embora não para todos os estratos (dificil-

mente se encontram normas para o artesão, e no camponês nem falar). O candidato

a vizir é avisado logo de entrada:

«Não te orgulhes do teu saber.

Aconselha-te com o ignorante e com o sábio...

Um bom discurso é mais escondido do que uma gema

E, no entanto, também se pode achar nas raparigas das mós.»20

Não era a primeira vez que um sábio tomava da pena (o primeiro terá sido

Imhotep, nos princípios do Império Antigo). Nem a primeira vez que se debruçava

19 S. SCHOSKE-D. WILDUNG, o.c. , p. 46.

20 Instrução de Ptahhotep, máxima 1: H. BRUNNER, AAW, 111; M. LICHTHEIM, AEL I, 63.

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A Mulher na História

sobre a mulher. Três conselhos paradigmáticos da educação egípcia servem de

pórtico à mais antiga Instrução conhecida21 – humildade, coragem de montar

casa e família, preparação do túmulo. No que nos aqui nos importa:

«Quando te puderes sustentar e fundares uma família, desposa então uma

mulher de valor, para que te tenhas um filho.»22

Ptahhotep sabe que não há classe ou categoria social com monopólio de

tentação e vício. A todos os homens, e não apenas ao candidato a funcionário, se

pode dirigir a recomendação de cautela no trato com mulheres:

«Se queres manter a amizade na casa em que entras

como senhor, como irmão, ou como amigo,

em qualquer lugar onde entrares,

livra-te de te aproximares das mulheres!

Infeliz é o lugar onde isso é feito.

Não é bem-vindo quem se intromete com elas.

Mil homens são desviados do seu bem.

Um momento fugaz é como um sonho

E encontra-se a morte por as ter conhecido.

...

Quem prevarica por se apaixonar por elas,

Nenhum negócio seu prosperará.»

Era assim na sociedade reservada e pudibunda do Império Antigo. No Império

Novo imperam obviamente os valores tradicionais. Anii aflora o tema de sempre

– constituir família logo que se possa sustentar:

«Toma mulher enquanto és jovem,

para que ela te dê um filho;

deve dar-te filhos enquanto és jovem.

É apropriado gerar homens.

Feliz o homem que tem muita gente,

Saúdam-no em atenção à sua prole.»

3, 1-2 23

21 Instrução de Djedefhor. Traduções: AEL, I 58-59; AAW 101-103.

22 Ibid., AEL, I 58; AAW 102.

23 M. LICHTHEIM, AEL II, 1976, 136: «When as a youth you take a wife...»; AAW, 199: «Heirate,

solange du jung bist…» O Papiro Chester Beatty IV não só apresenta uma lição variante mas junta um

trecho desgarrado no Pap. de Bulaq (6, 1): «Aqui te digo como deve proceder um homem que quer

fundar uma casa. Arranja um jardim, cerca para ti um canteiro de pepinos.» 24 AAW 210-211; AEL II,