A Pérola Perfeita por Barbara Cartland - Versão HTML

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A Pérola Perfeita

Barbara Cartland

Os belos mares do Oriente eram testemunhas do amor que nascia no

coração de Norita…

O majestoso iate do marquês de Hawkhurst navegava em direção ao

Oriente Médio, levando a bordo os homens mais ricos e as mulheres mais

belas da Inglaterra. Tudo era festa, risos e alegrias. Até o momento em

que um grupo de ferozes piratas seqüestrou a pequena filha do marquês

e sua governanta, Norita. As duas foram deixadas à míngua numa praia

deserta. Desesperada, Norita procurava proteger a criança e pedia

também que Deus ajudasse o jovem marquês a salvá-las da morte certa e

cruel!

Coleção Barbara Cartland nº 202

Título original: The Perfect Pearl

Copyright: © Barbara Cartland 1987

Tradução: Carolina de Hollanda

Copyright para a língua portuguesa: 1988

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 — 3.andar

CEP 01452 — São Paulo — SP — Brasil

Caixa Postal 2372

Esta obra foi composta na Tipolino Artes Gráficas Ltda. e impressa na Artes Gráficas Guaru S.A.

1

NOTA DA AUTORA

A pérola é a mais antiga e universal das jóias. Na Bíblia, no

Talmude e no Alcorão elas significam riqueza.

Em 3.500 a.C, a sociedade civilizada do Oriente Médio e da Ásia

considerava as pérolas como a mais valiosa de todas as propriedades.

Para eles, a pérola era o símbolo da pureza, da castidade e da

inocência.

Mais tarde, através do centro comercial e financeiro de

Bombaim, esta jóia chegou às coleções reais do Império Britânico,

vindas da índia, da Pérsia e do Egito.

No apogeu do Império Romano, o historiador Setonius narrou

que o general romano Vitelius pagou uma campanha inteira com a venda

de apenas um par de brincos de sua mãe.

Um século a.C, Plinio, o Velho, escreveu em sua Historia

Naturalis:

“… a mercadoria mais rica e mais cobiçada no mundo todo são as

pérolas”.

Eu visitei o Iran quando o Sha ocupava o trono e vi a fantástica

coleção de jóias, guardadas com toda a segurança muitos metros

abaixo do solo.

Havia imensos receptáculos de safiras, esmeraldas e diamantes,

e malas especiais para as pérolas no valor de milhões de libras

esterlinas.

Entre 1920 e 1930, contudo, tudo mudou devido ao

aparecimento das pérolas cultivadas pelos japoneses.

Por muitos séculos os japoneses tentaram produzir mais e

melhores pérolas.

Os chineses foram os primeiros a ter sucesso com suas pérolas

Budas, mas foram três japoneses que descobriram o segredo da

cultura da pérola, que tornou o negócio possível.

CAPÍTULO I

2

1880

Norita desceu do trem em Paddington. Com dificuldade,

conseguiu achar a saída da estação.

Nunca estivera em Londres antes.

Imaginara que a cidade seria trepidante e maravilhosa, mas a

maciça multidão que andava de um lado para o outro na estação era

assustadora.

Como esperara, viu uma fila de carruagens de aluguel.

Dirigindo-se à primeira da fila, perguntou timidamente se era

possível conduzi-la a Hawk House, em Park Lane.

— Suba senhorita — o cocheiro falou bem-humorado. — Eu a

levo lá num instante.

O cocheiro desceu de seu assento para abrir-lhe a porta.

— Feche bem as janelas, para ficar quente. Não temos tapetes

mágicos por aqui — ele disse.

Ele riu da própria piada e subiu na boléia. Gritou para o cavalo

cansado, para fazê-lo trotar.

Através da janela, Norita contemplou as casas pequeninas que

circundavam Paddington. Ela as achou muito estragadas e com

necessidade de uma boa pintura.

Então atingiram o Hyde Park e ela avistou as belas árvores e as

grandes e luxuosas residências de Park Lane.

Extasiada, fitou-as com os olhos muito abertos.

Era assim que havia imaginado Londres. Não estava

desapontada. Em Hawk House sabia que encontraria a pessoa que

procurava.

A entrada era imponente, com um longo caminho que se iniciava

na rua e ia até a porta principal, onde formava uma ampla curva que

descia até o portão.

O pórtico era imenso e sustentado por colunas de pedra.

Assim que a carruagem foi embora, um mordomo apareceu para

abrir a porta.

3

— Por favor, é esta a casa do marquês de Hawkhurst? — Norita

perguntou.

— Sim, madame.

— Estou aqui para ver miss Marsh.

— Ela a espera, madame? — o mordomo inqueriu.

— Creio que sim, pois lhe escrevi há uns dois dias e ela já deve

ter recebido a carta.

Parados no hall havia mais dois mordomos que a escutavam, e

Norita sentiu uma ponta de medo de ser mandada embora. Porém, um

deles, que parecia ser o mais velho, disse:

— Encontrará miss Marsh na sala de aula. Realmente ela disse a

Sr. Bates que estava aguardando alguém.

Norita suspirou aliviada. Em seguida, seguiu o mordomo, que

usava um elegante uniforme, por uma deslumbrante escadaria.

O nervosismo a impedia de olhar ao redor, mas tinha consciência

de que as paredes eram recobertas por retratos em molduras de ouro.

O revestimento da lareira era todo de mármore e um excelente

exemplo de cinzeladura do século XVIII.

Como gostaria de falar a seu pai sobre o que via!

Ao atingirem o topo da escadaria, o mordomo virou à esquerda

e, alguns segundos mais tarde, subiram outra escada, cujas paredes

laterais eram revestidas por aquarelas.

Ainda havia mais uma escada e finalmente chegaram ao último

andar. Ali, o teto era mais baixo, mas o sol invernal que se insinuava

através das janelas parecia dar um tom dourado ao ambiente.

O mordomo abriu uma porta, que era pintada e não de mogno

como as outras. Ali, havia menos imponência.

— Uma visita para vê-la, miss Marsh — ele anunciou. Com uma

exclamação de deleite, Norita correu para uma mulher de meia idade

que se erguia de uma cadeira ao lado da lareira.

A mulher estendeu-lhe as mãos, mas Norita jogou-se nos seus

braços e a beijou.

— Oh, Marsh! Como estou contente por vê-la. Estava com tanto

medo de não encontrá-la.

— Fiquei muito feliz com sua carta, mas… você não veio para

Londres sozinha, veio? — miss Marsh indagou.

4

— Não havia ninguém para vir comigo, e eu não sou mais uma

criança. Consegui chegar até você sem nenhum problema.

— Oh! Mas você não deveria nunca ter vindo desacompanhada —

miss Marsh replicou, numa voz que se mostrava chocada com a idéia —

Bem, mas você está aqui e isto é o que importa. Tire seu casaco,

querida, o almoço será servido logo.

Norita fez o que ela sugeriu e despiu o casaco, quente, mas

muito fora de moda. Colocou-o sobre uma cadeira, juntando a ele

também o chapéu simples de feltro.

Ela parecia muito esbelta e jovem ao se dirigir à lareira.

— O trem estava superlotado, mas viajei de primeira classe,

pois, já que estava desacompanhada, achei a melhor coisa a fazer.

— Claro!

— Mas foi muito caro e, a menos que você possa me ajudar, não

terei dinheiro para o bilhete da volta — Norita se queixou.

Miss Marsh olhou-a, atônita.

— Que é que você quer dizer com isto? Que significa? Norita

permaneceu silenciosa por um momento e depois, com os olhos fixos no

fogo, respondeu:

— Papai morreu… Há uma semana.

— Morreu?! Mas não vi a nota nos jornais…

— Não tive dinheiro para pagar uma nota no The Morning Post.

— Mas… como isto aconteceu? Não compreendo.

— Tudo por causa de um cavalo novo que papai comprou. Ele era

selvagem e perigoso, mas papai pensou que pudesse domá-lo — ela

soluçou e prosseguiu: — O cavalo jogou papai por terra e pisoteou-o.

— Oh. Minha querida! Sinto muito — exclamou miss Marsh.

— Suponho — Norita falou numa voz cheia de emoção — que foi

melhor assim. Os médicos disseram que, se papai vivesse, ficaria

paralisado.

Enquanto falava, ela tirou um lenço da bolsa e enxugou os olhos.

Depois, sentou-se sobre um tapete à frente da lareira, dizendo:

— Foi tudo tão horrível, Marsh, como um pesadelo pavoroso.

Agora que papai morreu, não há mais dinheiro.

— O que você quer dizer? Sempre soube que seu pai e sua mãe

não eram ricos, mas. .

5

— Depois que mamãe morreu acho que papai e eu fomos um

pouco extravagantes, e os cavalos não foram tão bom negócio como

deveriam ser.

Ela olhou para miss Marsh e havia uma súplica em seus olhos,

quando pediu:

— Sei que preciso trabalhar para viver e é por isto que procurei

por você.

— Um trabalho? — Marsh repetiu. — Mas como é que você pode

trabalhar?

Norita deu uma risadinha abafada.

— Tenho que escolher entre trabalhar ou morrer de fome e,

francamente, não quero morrer de fome.

— Não acredito no que está dizendo! — exclamou miss Marsh.

— É verdade — insistiu Norita. — E como os Cosnet estão muito

velhos para procurar outro emprego, seria mais fácil deixá-los ficar na

casa e dar-lhes uma pequena pensão.

Como miss Marsh não retrucasse, Norita continuou:

— Pensei em tudo cuidadosamente, bem como você me ensinou a

fazer Marsh. Os Cosnet garantem que podem viver com o que plantam

no quintal.

Norita olhou para o fogo, como se visse as contas a pagar entre

as chamas.

— Se eu pudesse ganhar o suficiente para conservá-los e não

precisasse pagar pelo alimento, teria sempre uma casa para onde

voltar se, por incompetência, me despedirem do emprego.

Norita riu, como se tivesse dito algo engraçado, mas miss Marsh

estava séria.

— Você tem somente dezoito anos. O que seria possível fazer

para ganhar dinheiro?

— Mas não tenho escolha. Não há outra maneira, a não ser que

envie os Cosnet para um asilo, o que lhes partiria o coração. Também

poderia vender a casa, mas acho que isto seria difícil.

Miss Marsh sabia que aquilo era verdade. A casa de Norita —

“The Manor” — ficava nos confins da vila de Berk Hampstead, na parte

menos valiosa de Hertfordshire e era difícil imaginar que alguém

estivesse disposto a dar um bom preço pela propriedade.

6

A última vez que miss Marsh vira a casa, ela se encontrava num

estado deplorável.

As janelas em losango poderiam ser elisabetanas, os tijolos

externos terem adquirido, com o tempo, um belo tom róseo, mas o

telhado necessitava urgente de reparos.

Ela recordou a mãe de Norita, lady Wyncombe, dizendo:

— Tivemos que fechar o andar de cima totalmente. Quem quer

que durma lá, leva um banho cada vez que chove.

E lady Wyncombe rira, como se aquilo não tivesse conseqüências

graves. Miss Marsh se surpreendera com o fato de alguém conseguir

conservar o bom humor diante das dificuldades da vida. E ser feliz em

circunstâncias desfavoráveis.

Lorde e lady Wyncombe haviam se casado apaixonadíssimos. E

aquela união recebera a desaprovação de ambas as famílias. Contudo,

aquilo não os preocupava de forma alguma.

O casal era extremamente feliz vivendo no campo, cuidando dos

cavalos que lorde Wyncombe domava e vendia com lucro razoável.

Eles adoravam sua única filha, Norita, cuja beleza parecia à

expressão de seu amor.

Miss Marsh, graças a uma pequena pensão, aposentara-se cedo

da sua carreira de professora. Alugou uma pequena cottage na vila

onde seu pai fora mestre-escola e sentiu-se bem instalada.

Quando lady Wyncombe implorou que ela desse aulas a Norita,

miss Marsh concordou e acabou achando a ocupação interessante e

prazerosa. Não a incomodava o fato de receber uma remuneração

muito pequena pelo trabalho.

Fora uma alegria ir para uma casa que parecia sempre plena de

luz e calor. E estar entre pessoas que eram tão felizes que faziam

tudo ao seu redor participar da sua exaltação de viver.

Miss Marsh, que era uma mulher muito inteligente, dera a

Norita muitas lições, que, por sua vez, também estudava com o

mestre-escola e com o pastor da igreja local.

Ninguém conseguia resistir lady Wyncombe quando ela pedia

alguma coisa, por isso os três instrutores de Norita adoravam sua

tarefa.

Miss Marsh gostou muito de Norita.

7

Nunca lhe passara pela cabeça que um dia veria aquela menina

tendo que trabalhar para se sustentar.

Miss Marsh deixara a vila há um ano, quando a marquesa de

Hawkhurst, cujas filhas ela havia ensinado, implorara-lhe que cuidasse

de sua netinha, nem que fosse por algum tempo.

Após anos de confortável aposentadoria, miss Marsh não

desejava voltar à atividade, mas a marquesa havia sido sempre tão

bondosa e insistiu tanto que afinal ela cedera.

“Só você, miss Marsh, poderá ajudar esta criança”, a marquesa

escrevera.

Também lhe foi oferecido um magnífico salário, impossível de

recusar.

Mas, presentemente, tivera que informar o secretário do

marquês, Mr. Seymour, que teria de partir tão logo ele obtivesse

alguém para colocar no seu lugar.

— Minha irmã mais velha perdeu o marido e está doente, sem

ter quem olhe por ela — ela explicou. — E, por isto, Mr. Seymour,

embora eu odeie deixar a pequena Alyce, tenho que cumprir meu dever

de irmã.

— Tem razão, miss Marsh — Mr. Seymour respondeu, com

frieza. — Contudo, sei que Alyce sentirá muito a sua falta e será muito

estafante para todos nós tentar encontrar alguém para substituí-la.

Miss Marsh fizera um pequeno gesto com as mãos, indicando

pesar, porém não havia nada que pudesse fazer. Disse apenas:

— Por favor, Mr. Seymour encontre alguém o mais depressa

possível, porque minha irmã realmente precisa de mim.

Por pura sorte ela ainda estava lá quando Norita a procurou.

— Sei que você seria capaz de dizer o que devo fazer — Norita

dizia. — E ninguém melhor do que você conhece as minhas

qualificações, se é que tenho alguma.

— Claro que possui muitas, mas creio que nenhuma delas a

capacita para ganhar dinheiro — miss Marsh arrazoou.

Norita riu.

— Se isto é verdade, então tudo que posso dizer é que você, o

mestre-escola e o pastor deviam se envergonhar. Vocês costumavam

dar relatórios magníficos a papai e mamãe sobre meus progressos.

Miss Marsh não respondeu e Norita prosseguiu:

8

— Papai sempre dizia que eu era excelente amazona, mas não

acredito que possa domar cavalos como ele fazia.

— Claro que não — gritou miss Marsh, escandalizada. — Você é

muito frágil, e, além disto, não é uma ocupação digna de uma mulher.

— É, foi o que pensei. Mas, na viagem de trem, refleti sobre o

assunto e vi que só me sobram duas opções.

— E quais são?

— Posso cuidar de crianças ou tornar-me dama de companhia…

Uma luz diferente brilhou nos olhos de miss Marsh.

— Que foi? Em que está pensando? — interrogou Norita.

— Acabou de me ocorrer uma idéia. Talvez esteja cometendo

um engano, mas… você poderia ficar no meu lugar, cuidando da pequena

Alyce.

— Ficar no seu lugar? Mas por quê?

— Estou de partida. Preciso cuidar de minha irmã, que está

doente. Você lembra como eu costumava falar de Ethel para você?

— Sim, claro que lembro, e sinto muito que ela esteja doente.

— Informei Mr. Seymour que estou indo embora e que ele deve

encontrar alguém para me substituir o mais rápido possível.

— Quem é Mr. Seymour?

— É o secretário do lorde, e administra esta casa e também a

outra propriedade de Oxfordshire, Hawk Hall.

— Ah! Você me escreveu sobre Hawk Hall e disse que é

maravilhosa. Já li a respeito de seus cisnes e da fonte que jorra no

jardim. Você acha mesmo que eu poderia cuidar desta criança e viver

em Hawk Hall?

— Você é jovem demais. Acho que não será possível — miss

Marsh falou, porém não foi muito positiva.

— Oh! Por favor, Marsh, não diga isto. Afinal, você sempre disse

que eu era muito inteligente para a minha idade. Tenho certeza de que

poderia ensinar sua pupila tão bem quanto você me ensinou.

— Hum… Não é bem isto.

— Então… o que é?

— Não acho certo você ficar sozinha, na sua idade, sem ninguém

para protegê-la.

— E por que necessitaria de proteção em Hawk Hall?

9

Miss Marsh não respondeu diretamente, mas murmurou para si

própria:

— Afinal de contas, não há razão para ela entrar em contato

com quem quer que seja fora destas dependências. Eu nunca precisei!

Norita olhou-a, espantada. Para se concentrar melhor, miss

Marsh levou a mão à testa num gesto familiar, e fechou os olhos.

Com os olhos da mente, Marsh via diante de si o belo, dissoluto

e cínico marquês de Hawkhurst.

Ele possuía um charme avassalador quando queria.

Como os criados costumavam dizer, ele magnetizava qualquer

mulher que o olhasse.

Sua reputação como desportista recebia a admiração de todos

os criados que trabalhavam na mansão e em todas as demais

propriedades.

Quanto às empregadas, viviam murmurando comentários sobre

seus casos amorosos e elogiando sua aparência irresistível.

— As mulheres volteiam em torno dele como abelhas em volta

da colméia — elas diziam.

— Vocês não devem comentar os namoros do senhor lorde —

miss Marsh advertia.

— Ora, você sabe muito bem que não temos do que falar, a não

ser de lorde Hawkhurst.

Fora através da zeladora da mansão que miss Marsh ficara

sabendo que o lorde já descartara sua última conquista, uma beldade

da alta sociedade.

Sua mais recente conquista era lady Bettine Daviot, filha de um

duque.

O retrato da jovem lady aparecera no The Lady Magazine e em

muitas outras revistas conhecidas.

— Ela é louca por ele — dissera a zeladora. — Mas ouvi dizer

que estão apostando que este romance não dura dois meses.

— Não compreendo por que as pessoas falam tanto da vida dos

outros — miss Marsh retrucou desdenhosa.

— Se quer saber minha opinião, acho que muitos homens têm

inveja do senhor lorde pelo seu sucesso. Ele vence nas corridas,

conquista as mais sedutoras mulheres e, quanto à beleza, ninguém

pode concorrer com ele.

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“É verdade”, pensou miss Marsh.

O senhor lorde, extraordinariamente bonito e infinitamente

rico, além de viúvo, era considerado o melhor partido da sociedade.

“Como podia permitir que Norita, tão jovem, tão pouco

sofisticada e tão inocente, penetrasse naquele mundo que chocava

tanta gente?”, ela se perguntou.

Se lady Wyncombe estivesse viva ficaria chocada com aquela

idéia.

Mas, conjecturando, Marsh disse a si mesma que era muito

pouco provável que Norita tivesse contato com o marquês. Ela própria

raríssima vezes encontrara-o. Sempre que Alyce terminava suas

lições, descia para o andar inferior sozinha. O marquês nunca dera a

menor manifestação de querer conversar com ela, na verdade.

Algumas vezes ele ia para Hawk Hall e mandava buscar a

menina, que não permanecia em sua companhia por mais de dez

minutos.

Miss Marsh considerava aquela situação dolorosa, mas

reconhecia que Alyce não era uma criança particularmente cativante.

Parecia ter pouca energia.

Com oito anos, Alyce sentava muito quieta na sala de aula, sem

brincar com suas inúmeras bonecas. Apenas as olhava, sem reação. E,

durante as lições, tinha dificuldade para compreender.

Para ser honesta, miss Marsh tinha que admitir que havia

ensinado muito pouco, e sua única desculpa era que não conseguia

despertar o interesse de Alyce em nada.

“Vou ficar bem contente de ir embora”, ela pensou.

Contudo, o salário era tão bom!

Economizara a maior parte dele para quando parasse de

trabalhar definitivamente.

Sabia que seria muito difícil para Norita conseguir emprego

noutro lugar, porque era muito jovem. Além disto, não receberia nem

metade daquele salário.

Mais uma vez, miss Marsh pensou no marquês, mas concluiu que

ele era muito orgulhoso e consciente de sua importância para prestar

atenção numa governanta, por mais bonita que fosse.

Finalmente, Marsh se decidiu e virou-se para Norita.

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— Escute, vou falar com Mr. Seymour sobre a possibilidade de

você ficar no meu lugar.

Norita soltou uma exclamação e juntou as mãos, num gesto de

prece.

— Você realmente vai fazer isto, Marsh? De verdade?

— Vou sim. Mas, escute, porque é importante.

— Sou toda ouvidos. Fale.

— Se ficar aqui, ninguém deve saber quem você é.

— E por que não?

— Porque poderia ser um grande erro se alguém descobrisse

que você é uma lady e tem um título, por pequeno que seja.

— Não compreendo…

Miss Marsh escolheu as palavras com cuidado.

— Seria embaraçoso descobrirem quem você é. Primeiro para os

criados, que se sentiriam mal sabendo que você está socialmente acima

deles. Segundo porque poderia ser desconfortável para o senhor lorde

e seus convidados. Uma governanta tem uma posição difícil na vida.

Ficamos entre a sala de estar dos patrões e a área destinada aos

criados. E é nesta “terra de ninguém” que você deve ficar Norita.

Compreende?

— Claro que compreendo. E ficarei muito feliz aqui nesta parte

da casa onde você vive. Há tantos livros…

— Há muitos livros, sim. E a biblioteca de Hawk House é imensa.

Quando o marquês não estiver em casa, você pode usá-la. Mas preste

atenção, Norita, isto é importante.

— Estou ouvindo.

— Quando o marquês estiver em casa, você não deve nunca,

nunca, ir para o andar térreo, compreende? Fique aqui na área da

governanta, onde tem a sala de aula, e quando for levar Alyce para

passear, saia pela porta lateral, quando for cavalgar com ela…

— Quer dizer que posso cavalgar os cavalos do marquês? —

Norita interrompeu.

— Se quiser, pode. Isto é o tipo da coisa com a qual nunca me

preocupei, mas, como estava dizendo, não cavalgue quando o marquês

estiver em casa.

— Bem, o que você está querendo dizer é que não devo me

encontrar com o marquês.

12

— Exatamente. Mas, se o encontrar, apenas cumprimente e

obedeça a suas ordens, depois se afaste dele tão rápido quanto possa.

— Meu Deus, você me faz pensar que ele tem alguma doença

contagiosa.

— Norita, se você não me prometer que fará como estou lhe

instruindo, não a recomendarei a Mr. Seymour para ficar no meu lugar.

— Prometo! Prometo! — Norita gritou — Oh, Marsh, tinha

certeza de que você me salvaria. Antes de ter a idéia de vir procurar

você, eu estava desesperada.

— Só desejo estar fazendo o melhor. Agora fique aqui enquanto

vou falar com Mr. Seymour. É melhor que ele concorde com tudo antes

de vê-la, pois pode achá-la jovem demais.

— Vou me esconder sob o sofá — Norita brincou.

— Ora, Norita, tenha juízo. Estou tentando ajudá-la, mas temo

que talvez seu pai e sua mãe não aprovassem.

— Eles não aprovariam era eu ficar em casa morrendo de fome

e enviar os Cosnet para um asilo.

Miss Marsh levantou-se.

— Bem, fique aqui e não faça barulho, senão pode acordar Alyce.

— Onde ela está?

— No quarto ao lado. Se quiser pode ir lá espiar e, se estiver

acordada, pode conversar um pouco. Mas lembre-se de que o médico

quer que ela descanse o máximo possível.

— Vou dar uma olhada nela, sim. Miss Marsh deixou a sala.

Norita atravessou a sala até a porta que dava para o outro

quarto.

Ela espiou com curiosidade. Numa cama muito bonita e

rebuscada, decorada com cortinas de musselina, havia uma pequena

garota.

A menina tinha cabelos negros e lisos que se espalhavam em

torno do rostinho muito pálido. Seus olhos estavam abertos, ela olhava

para o teto e suas mãos jaziam imóveis ao longo do corpo.

— Olá! — Norita exclamou.

A criança virou-se devagar para Norita e nos seus olhos não

havia nenhuma expressão de surpresa.

— Posso entrar e conversar com você? — Norita perguntou.

13

Enquanto falava, ela encaminhou-se para a cama e sentou-se aos

pés da menina.

—Estive conversando com miss Marsh e ela me contou que vai

precisar ir embora, cuidar da irmã.

Alyce não pareceu se perturbar com aquela informação e Norita

continuou:

— Marsh pensou que talvez você quisesse que eu cuidasse de

você, no lugar dela. Que é que você acha?

Houve um pequeno lampejo de interesse nos olhos de Alyce, mas

ela perguntou numa voz monótona:

— Você é uma governanta?

— Vou tentar ser, mas você terá que me ajudar.

— Ajudar você?

— Sim, terá que me dizer o que fazer e prestar atenção para

que não lhe ensine coisas erradas. Nunca fui governanta antes e vai

ser um pouco difícil até eu me acostumar.

— E posso lhe dizer todas as coisas que tenho vontade de

fazer?

— Se você falar o que quer, será mais fácil para mim do que

adivinhar.

—”Após alguma consideração, a criança replicou: —” E se eu não

quiser fazer nada? Norita sorriu.

— Tudo bem. Quando você não quiser fazer nada, eu lerei para

você. Adoro ler.

— E quanto às lições?

— Talvez você pudesse pensar nas lições preferidas e então

podemos conversar sobre elas.

Norita percebeu que a menina a olhava especulativamente, como

se a considerasse estranha.

— Poderíamos ter lições muito diferentes das que você tem

tido. Lições que eu queria quando era pequena, mas que ninguém me

dava. Eu também precisava me sentar e escrever em vez de explorar

os bosques e tentar achar a ninfa do rio.

— O que é uma ninfa? — Alyce perguntou.

— É uma espécie de fada das águas. Sabia que há fadas nas

flores?

— Eu… nunca vi nenhuma.

14

— É porque você não olhou bem. Tenho certeza que já vi. Já vi

também fadas dançando ao luar. De manhã, o lugar onde elas dançam

fica cheio de cogumelos.

— Não acredito em você. Não é verdade! — exclamou Alyce.

— Para mim é verdade, e tenho certeza que poderíamos

encontrar ilustrações de fadas nos livros da biblioteca, se

procurássemos — Norita insistiu.

Alyce ficou pensativa por um tempo e depois falou:

— Não tenho vontade de escrever sobre fadas.

— Você nem pode fazer isto, a não ser que as tivesse visto.

— Eu… acho que… vi algumas. Mas elas são… um segredo. Muito,

muito secreto.

Norita pressentiu que aquilo poderia ser a chave para despertar

o interesse da criança. Ela baixou a voz.

— Se é um segredo, só podemos falar sobre isto quando não

houver perigo de ninguém nos escutar.

A menina acenou a cabeça, concordando.

— Vai ser mesmo a minha governanta?

— Se você quiser. Eu ficarei muito infeliz se não me quiser. E

não poderemos falar sobre este segredo.

Fez-se um longo silêncio antes de Alyce responder:

— Eu quero você, sim. Diga a miss Marsh que quero você.

No andar térreo, Mr. Seymour dizia para miss Marsh:

— A senhora sabe miss Marsh, que ficarei muito satisfeito de

aceitar uma pessoa que tenha a sua recomendação.

— Foi um acaso feliz que miss Combe tenha vindo me visitar. Ela

é jovem, Mr. Seymour, mas acredito que é justamente o que Alyce

precisa. Alguém bem mais jovem do que eu, que a estimule a tomar

mais interesse pela vida.

— Acho que tem razão, e é um grande alívio para eu não

precisar entrevistar um número enorme de candidatas, justamente

quando estou tão ocupado com os negócios do senhor lorde.

— Então não tomarei mais seu tempo, Mr. Seymour. Direi a miss

Combe para vir aqui depois de amanhã, se for conveniente, e aí poderei

partir para cuidar de minha irmã.

15

— Sinto-me muito confiante de deixar tudo em suas mãos

competentes, miss Marsh, e imagino que miss Combe aceitará o mesmo

salário que a senhora recebe, não é?

— Sim, ela aceitará — miss Marsh concordou. — Mas o que é

preciso, Mr. Seymour é dar-lhe dinheiro para a viagem de volta a Berk

Hampstead e de retorno na quarta-feira com toda sua bagagem.

Miss Marsh aguardou enquanto Mr. Seymour destrancava uma

gaveta e de lá retirava umas moedas de ouro.

— Creio que isto será suficiente, miss Marsh. Ou será que miss

Combe vai precisar de mais?

— Não, tenho certeza que basta. E muito obrigada.

— Eu é que lhe agradeço. Realmente, estou até os olhos de

trabalho e a senhora me tirou um grande peso dos ombros.

Miss Marsh despediu-se e retornou ao andar superior. Ao

entrar na grande sala de estudos, deparou com Norita saindo do

quarto de Alyce.

— Ouvi você subindo as escadas — Norita disse, fechando a

porta cuidadosamente. Depois, perguntou ansiosa: — Deu tudo certo?

— Tudo certo! Mr. Seymour está tão ocupado que nem quis ver

você. Deixou em minhas mãos, o que é um alívio. Ah! Ele vai dar a você

o mesmo salário que recebo.

— E quanto é?

— Cinqüenta libras esterlinas por ano.

— Tudo isto? Marsh, que maravilha! Neste caso, posso deixar os

Cosnet ficarem na minha casa e não preciso me preocupar com eles.

— Não, não precisa. Olhe, aqui está o dinheiro para o bilhete do

trem. Você deve voltar depois de amanhã, o mais cedo possível.

— Claro que sim. Tomarei todo cuidado.

— Providenciei para que uma das criadas a acompanhe até a

estação e a leve até o vagão reservado às senhoras. Volte na quarta-

feira. Haverá uma carruagem esperando por você e um dos

empregados cuidará de sua bagagem.

Norita riu e enlaçou o pescoço da velha governanta.

— Vou me sentir como uma princesa, no mínimo. Obrigada,

obrigada, querida Marsh. Você foi maravilhosa e nunca poderei lhe

agradecer o suficiente!

16

— Tudo que desejo é que você fique bem — miss Marsh falou,

num tom vagamente preocupado.

— Claro que ficarei bem. E farei todo o possível para fazer a

pequena Alyce feliz.

Ela tornou a beijar Marsh e em seguida recolocou o casaco e o

chapéu.

Miss Marsh acompanhou-a pelas escadas. Quando já atingiam o

andar térreo, Norita parou e disse:

— Marsh, você disse para eu não mencionar o nome de papai.

Tenho que mudar de nome, então?

— Não é preciso. Encurtei seu sobrenome para Combe, para

ficar mais comum.

— Terei cuidado. É bom conservar meu próprio nome. É mais

fácil de lembrar — ela riu.

Em seguida, ela se apressou em direção a uma criada de meia

idade que a aguardava.

Na manhã seguinte o marquês encontrava-se sentado em seu

estúdio, olhando para uma pilha de cartas que seu secretário havia

deixado ao lado de um mata-borrão de ouro.

Ele sabia que Mr. Seymour, com seu tato habitual, tivera

consciência de que se tratava de assuntos pessoais. E por isto não as

abrira.

Com a ponta dos dedos, o marquês virou uma por uma.

Reconheceu a caligrafia florida de Melinda, a escrita mais

clássica de Dayse. E também não podia haver engano quanto ao

perfume de gardênia com que Eileen embebia suas cartas.

Finalmente ele encontrou a carta que procurava. Era de Bettine

Daviot. Abriu-a com um sorriso, mas uma voz, vinda da porta, o

interrompeu, anunciando:

— Sir William Smithson aguarda ser recebido, milorde.

O marquês ergueu a cabeça. À sua frente, encontrava-se o

médico real. Então ele recordou o que seu secretário lhe dissera.

Miss Marsh, a governanta, havia pedido um especialista para dar

uma opinião a respeito da saúde de sua filha.

Enquanto estendia a mão para sir William, ele se perguntou por

que aquilo era necessário.

17

— Muito prazer em vê-lo, milorde — sir William disse. — E não

preciso lhe perguntar como está. Vejo-o em plena forma!

— Sinto-me bem, graças a Deus — o marquês replicou. — Mas

fui informado que a governanta de minha filha achou necessário ouvir

sua opinião de especialista.

O marquês apontou uma cadeira.

— Sente-se, por favor — disse.

— Não posso me demorar. Estou sendo aguardado em

Marlborough House. A Princesa Alessandra queixa-se de dor de

garganta e pediu-me para vê-la.

— Ela é cuidadosa. Mas o que há de errado com Alyce?

— Posso lhe falar com franqueza?

— Naturalmente.

— Em minha opinião, a criança é anêmica e sofre muito com o

frio intenso que tivemos este inverno.

— Tem feito frio, mas nossas lareiras estão sempre acesas.

— O que faz mal é o ar que Alyce respira do lado de fora da

casa. O que gostaria de lhe sugerir, milorde, é que a enviasse

imediatamente para um clima mais quente. De outra forma, receio que

ela possa pegar uma infecção nos pulmões, o que poderia se tornar um

caso grave.

— Um clima mais quente? — o marquês repetiu espantado, como

se nunca tivesse ouvido falar de um lugar assim.

— Se esta sugestão fosse dada a uma pessoa de poucos

recursos, reconheço que seria difícil — sir William explicou com um

sorriso. — Mas sei que isto não será nenhum problema para milorde.

Ele fez uma pausa e piscou, mostrando cumplicidade.

— Especialmente agora que milorde comprou um novo iate,

segundo ouvi dizer, o próprio Príncipe de Gales tem medo que seja

mais rápido e mais luxuoso do que o real Britannia. O marquês deu uma

gargalhada.

— Que está me dizendo? Meu iate preocupa Sua Alteza?

— Claro que preocupa. Sabe como ele tem ciúmes de quem o

ultrapassa no seu esporte favorito.

— Bem, então temos uma dificuldade aí. Porque estou

satisfeitíssimo com minha nova aquisição.

18

— Tenho certeza que está. Mas também ouvi dizer que o iate é

tão grande que poderia transportar cem crianças sem que elas o

importunassem.

O marquês franziu levemente o cenho ao responder:

— Na verdade, agora que a estação de caça se encerrou, eu

estava pensando em levar o Sea Hawk para o mar e para o sol.

— Excelente. Leve a pequena lady Alyce com milorde e tenho

certeza de que, quando ela regressar, será uma criança diferente.

Sir William espiou o relógio e levantou-se.

— O brilho do sol e novos interesses são os melhores tônicos

que posso prescrever — ele disse, estendendo a mão para se despedir.

— Obrigado pela visita — disse o marquês. — E certamente vou

considerar seu conselho e tentar incluir Alyce no meu grupo, apesar de

ela ser apenas uma criança.

O marquês franziu os lábios ao falar, o que indicou a sir William

exatamente que tipo de grupo ocuparia o iate.

— Divirta-se. Coloque Alyce nas mãos de alguém que cuide dela

e não pense mais nisto — acrescentou sir William.

O marquês acompanhou-o até o hall, onde um mordomo auxiliou-

o a entrar na carruagem que o aguardava do lado de fora.

O marquês voltou ao estúdio e, ao passar pelos mordomos

enfileirados, ordenou:

— Mandem Mr. Seymour falar comigo.

19

CAPÍTULO II

O marquês de Hawkhurst dirigiu sua magnífica carruagem por

Park Lane, consciente de que os passantes paravam para olhar, cheios

de admiração.

Era certamente uma carruagem espetacular a conduzi-lo. Toda

preta, com rodas amarelas e um par de garanhões negros e reluzentes,

sem uma mácula nos seus corpos possantes.

Para combinar, o marquês usava um cravo amarelo na lapela. Com

o chapéu enviesado sobre os cabelos negros, atraía a atenção de todas

as mulheres e fazia seus corações baterem mais rápido.

Ele estava a caminho da casa de lady Bettine Daviot e levava

consigo um presente que acreditava iria agradá-la muito.

Lady Bettine era uma renomada beldade, antes mesmo de o

marquês conhecê-la. Porém, após o início do seu romance, a beleza dela

aumentara.

Lady Bettine casara-se quando ainda muito jovem com um

homem mais velho, e jamais amara alguém até se apaixonar pelo

marquês de Hawkhurst.

Contudo, o excesso de elogios e admiração estragaram-na e sua

natureza impulsiva tornava-se mais acentuada à medida que ficava

mais velha.

Devido a seu temperamento caprichoso, seus pais arranjaram-

lhe um casamento com o pretendente mais importante, logo na sua

primeira apresentação à sociedade.

Lorde Daviot pertencia a uma família cuja árvore genealógica

era conhecida desde os últimos nove séculos. E, além disso, era

riquíssimo.

O fato de ele ser também muito mesquinho só se tornou

evidente após o casamento. Lady Bettine considerava muitas de suas

características extremamente irritantes.

Aos vinte e cinco anos, já colecionara uma divertida corte de

amigos. Eles elogiavam tudo que ela fazia, enchendo-a de

cumprimentos que ela recebia como se lhe fossem devidos por direito.

20

Os primeiros amantes que teve causaram-lhe apenas decepção.

Somente quando sucumbiu à irresistível atração do marquês de

Hawkhurst foi que compreendeu o significado da palavra amor.

Na realidade, perseguira-o porquê as outras mulheres

deslumbravam-se ao vê-lo, e lady Bettine considerou que capturá-lo

seria como conseguir um difícil e almejado troféu.

Apaixonar-se por ele foi uma obra inesperada do destino.

Ela magoava-se pelo fato de viver, sequiosa, atrás dele e

aguardá-lo ofegante, sempre em dúvida se ele aceitaria seus convites

ou não. Não lhe era difícil ter um “caso”.

Lorde Daviot passava o tempo em sua imensa casa de campo em

Hampshire ou, quando era época, caçando e pescando. Ele se sentia

satisfeito em ter uma mulher elegante à mesa, que podia usar as jóias

da família e entreter seus amigos.

Os amigos tinham todos mais ou menos sua idade e suas

conversas giravam apenas em torno de esporte. Se lorde Daviot

suspeitava da infidelidade da esposa nunca a acusara de nada. Nem o

molestava o fato de ela viver cercada dia e noite por homens muito

mais jovens do que ele.

Para lady Bettine, aquela era uma situação ideal, da qual tirava o

melhor proveito.

No momento, lorde Daviot encontrava-se na sua casa de campo,

ocupado com seus deveres de governador da província.

Portanto, a mansão dos Daviot, em Belgrave Square, estava

repleta com os amigos pessoais de lady Bettine. Era um grupo

constituído de mulheres atraentes de sua idade.

Estas mulheres vinham acompanhadas por homens ricos, que não

faziam nada na vida a não ser passar de boudoir para boudoir.

— Vi sua última conquista na noite passada — a condessa de

Dorset, uma das amigas mais íntimas de Bettine, declarou.

Era indisfarçável a inveja na voz sedosa da condessa, bem como

um brilho de antagonismo nos seus olhos verdes.

— Não consigo imaginar a quem você se refere — lady Bettine

respondeu evasiva.

— Ah! Você sabe muito bem que me refiro ao inconquistável

marquês. Tenho medo, minha querida, como todo mundo, que você se

machuque.

21

— Obrigada pelo aviso — replicou lady Bettine. Ela sabia que a

condessa tentara conquistar o marquês e fracassara, por isto disse

com uma ponta de maldade: — É uma sorte que Selwyn sempre prefira

as mulheres loiras.

A condessa, cujo cabelo era preto, virou-se com um gesto

impaciente e disse:

— Para toda regra há uma exceção. Lady Bettine riu consigo

mesma.

Na noite anterior, o marquês a convencera de que ela era tudo o

que ele sempre sonhara em uma mulher. E ela não acreditava que um

homem pudesse ser um amante tão ardente e entusiasmado, a não ser

que falasse a verdade.

Seus convidados começaram a se despedir e ela caminhou para o

espelho emoldurado de dourado, na sua elegante sala de estar, e mirou

seu reflexo no cristal.

O cabelo dourado, cor do trigo maduro, a pele numa perfeita

combinação de marfim e rosado como só as mulheres inglesas têm os

lábios vermelhos, a que nenhum homem resistia tudo lhe confirmava

ser uma beldade.

— Sou bonita. Sou muito bonita — murmurou para si mesma.

Descobrira que era bela ainda muito jovem, e sempre que olhava para

um homem sob seus longos cílios sedosos, tornava-o seu escravo.

Não gostava muito dos beijos e do contato daqueles homens. O

que adorava era a sensação de poder que seus encantos lhe davam. Era

delicioso saber que um homem era capturado e preso na sua rede de

sedução e que podia manipulá-lo como quisesse.

Gostava que os homens a presenteassem com ricos presentes.

Faziam parte da sua vitória.

Muitas vezes persuadira o marido a lhe dar peles e jóias

caríssimas, apesar de sua sovinice. Mas dava trabalho convencer o

marido. Era muito mais fácil conseguir tudo que queria dos homens

mais liberais.

Naquele instante, ela sorriu e pensou que iria persuadir o

marquês a comprar-lhe um colar de diamantes que vira no seu joalheiro

favorito. Era astronomicamente caro, mas ele podia pagar.

22

E era mais do que justo que o marquês pagasse pelas chamas de

paixão que ela acendia dentro dele. E lady Bettine tinha certeza de

que mulher alguma conseguira inflamá-lo com tanta violência como ela.

Dentro em pouco ele estaria ali e, ao lembrar-se, ela alisou os

cabelos, passou um leve brilho nos lábios e empoou o perfeito nariz

clássico.

Então, sorriu para sua imagem, em aprovação.

Saindo da opulenta sala de estar, foi para a sala íntima, menor e

mais aconchegante, onde gostava de receber os amigos mais chegados.

A sala exalava um perfume de flores e o sol entrando

fracamente através das persianas dava reflexos dourados a todos os

objetos expostos; alguns de ouro, outros de prata, todos adquiriam

uma nova vida à luz do sol. Todos os preciosos ornamentos daquela sala

haviam sido presentes de seus admiradores.

Sentou-se cuidadosamente no sofá e olhou com atenção para o

corpinho do vestido, para ver se não apresentava algum defeito.

Sua cintura era muito delgada e com satisfação lembrou-se de

que sua camareira conseguira apertar-lhe a cinta alguns centímetros

mais que na semana anterior. Aquele sucesso era o resultado de um

severo controle sobre o que comia.

Às vezes ela se sentia desesperada de fome, mas consolava-se

pensando que o marquês haveria de apreciar o esforço que fazia para

lhe agradar.

— Adoro a delicadeza de sua cintura — ele lhe dissera dois dias

antes, enquanto a enlaçava, medindo-a com as mãos.

Em seguida ele a puxou para si e beijou-a até ela perder o

fôlego.

Contudo, após ele partir, lady Bettine recordava que em

momento algum ele dissera, como os outros homens, que a amava.

Ele elogiava seu belo rosto, seu porte elegante e as roupas que

usava. Instintivamente, ela sabia que não havia capturado por completo

o coração do marquês.

Porém, jamais admitiria tal coisa, nem mesmo para suas amigas

mais íntimas.

Muitas vezes, desconfiava que quando ele a deixava, mesmo

após horas da mais apaixonada e ardente intimidade, não mais pensava

nela. Não que temesse que ele lhe fosse infiel.

23

Sempre lhe haviam dito que o marquês de Hawkhurst dedicava-

se a uma única mulher de cada vez. Infelizmente, também lhe haviam

dito que aquela dedicação não durava muito tempo. Antes que se

dessem conta, a atenção dele era atraída por outro rostinho bonito e

ele desaparecia.

— Isto não acontecerá comigo! — lady Bettine disse com

firmeza, com uma expressão dura nos olhos azuis claros e uma rigidez

nos lábios delicados.

Naquele momento, a porta se abriu e o mordomo anunciou:

— O marquês de Hawkhurst, milady.

Lady Bettine soltou um bem simulado grito de surpresa. Ao

mesmo tempo, o coração disparou de tal forma como homem algum o

fizera bater.

— Que surpresa agradável ver você — ela disse, estendendo as

mãos.

Permaneceu sentada, de mãos estendidas, para que o marquês

apreciasse o belo quadro que compunha.

Ao seu redor, uma infinidade de almofadas de cetim e o fundo

adamascado do sofá combinavam com seus olhos. Dir-se-ia que ali

estava um quadro de um pintor célebre.

Consigo mesma, lady Bettine pensou que nenhum homem podia

ser mais belo, nenhum homem podia parecer mais excitante.

Uma aura de vaga licenciosidade circundava o marquês, o que

fazia as mulheres o considerar perigoso e proibido.

No seu rosto, apesar do cínico trejeito dos lábios, havia um ar

inteligente, e no fundo dos olhos cinzentos um brilho tornava claro que

ele percebia muito bem que lady Bettine fazia uma encenação.

Ao mesmo tempo, ele reconhecia e apreciava aquela

performance como de uma verdadeira profissional.

Inclinou-se para beijar-lhe a mão e ela, apoiando-se em seu

braço, levantou-se.

— Estava implorando que você não me esquecesse — disse lady

Bettine.

As palavras eram expectantes, mas havia uma leve nota em sua

voz que proclamava que era impossível que tal coisa acontecesse.

— Trouxe um presente para você — o marquês disse.

24

— Um presente? — exclamou lady Bettine. — Que maravilha! E

que delicadeza de sua parte!

— Espero que lhe agrade…

Enquanto falava, ele lhe entregou uma pequena caixa de jóia

cor-de-rosa. Lady Bettine sabia que o delicado pacote vinha da mais

cara joalheria de Bond Street.

Sem esperar mais, ela levantou a tampa da caixa e houve um

breve silêncio, antes dela falar.

— Um broche? Um broche de pérolas… Que… bonito! Colocada

contra o veludo que revestia o interior da caixa havia uma exótica

réplica de dois pequenos cachos de uva, trabalhada em pérolas.

As folhas eram de ouro e tão perfeitas que eram quase

inacreditáveis.

Um pesado silêncio instalou-se na sala enquanto lady Bettine

examinava o presente. Então o marquês disse:

— Trata-se de uma rara peça de artesanato, mas noto que você

não gostou.

— As pérolas são um pouco pequenas… — lady Bettine comentou

hesitante.

O marquês tomou-lhe a caixa das mãos e fechou a tampa,

colocando-a na mesinha ao lado.

— Comprarei outra coisa para você — ele afirmou.

— Eu gostaria de qualquer coisa que você me desse. Mas se é

para ganhar pérolas, meu querido Selwyn, gostaria que elas fossem

grandes…

— Mas, claro — retrucou o marquês.

Ele estava pensando que deveria ter imaginado que Bettine não

era o tipo de pessoa que fosse apreciar o imenso trabalho artesanal

exigido para produzir aquele broche de pérolas.

E, no entanto, ele o considerava uma obra de arte.

Assim que o vira, considerou que era a mais bela jóia que já vira

na Inglaterra.

Quando estivera em Paris, admirara o trabalho maravilhoso de

Oscar Massein, o francês que criava as mais belas e originais peças de

joalheria vistas até então.

Ele criava flores, como lírios do vale, com pérolas e brilhantes

que eram uma perfeita imitação da natureza.

25

O marquês de Hawkhurst acreditava que o cacho de uvas que

comprara para lady Bettine era de origem francesa e do início do

século.

O broche havia sido um deleite para seus olhos, mas afirmou

para si mesmo que, apesar de toda sua beleza, os conhecimentos de

arte de lady Bettine eram muito restritos.

Portanto, ele lhe compraria algo bem grande e com muito brilho,

que certamente ela apreciaria melhor.

Lady Bettine, contudo, já o puxava para ela, para que a beijasse.

— Muito obrigada, meu querido Selwyn, por pensar em mim. Não

sou ingrata.

— Não quero que você fique desapontada por isto tive uma

idéia.

Ela estava ansiosa por seu beijo, mas como era curiosa,

perguntou:

— O que é?

Ela fez a pergunta, mas para si mesma indagava como, sem

parecer muito gananciosa, poderia sugerir o colar de diamantes que

havia visto.

— Acho que pérolas combinam com você e, como as quer bem

grandes, pensei que deveríamos ir ao verdadeiro local de sua origem e

escolher as maiores que existem.

Lady Bettine franziu a testa perfeita.

— Local de origem? Que é que você quer dizer com isto?

— Há tempos venho pensando onde poderia levá-la. Um lugar

incomum e ao mesmo tempo divertido. Ora, você me deu a resposta.

— E qual é?

— Bahrain, no golfo Pérsico.

Lady Bettine ficou tão surpresa que tirou os braços do pescoço

dele e recuou alguns passos para fitá-lo.

— Que está dizendo, Selwyn? Não compreendo.

O marquês colocou-lhe um braço nos ombros e a fez sentar-se

outra vez no sofá.

— Escute. Não vejo nenhum motivo para permanecer neste clima

pavoroso, e ando com vontade de estrear o Sea Hawk.

— Seu iate? — ela gritou, reconhecendo o nome. — Oh! Selwyn,

você está pensando em me levar para o sul?

26

— Estou pensando em levá-la para o sol — ele disse com

firmeza.

Há muito tempo lady Bettine guardava aquele desejo, mas

pensara que ainda era muito cedo. E também pensara que o marquês

preferiria inaugurar seu novo iate com seus amigos homens.

Talvez por culpa de seu marido, ela sempre pensara que as

mulheres eram consideradas um perfeito incômodo numa viagem por

mar. Ficavam mareadas e entediadas por se confinarem durante um

longo tempo.

Um outro pensamento cruzou-lhe a mente como um relâmpago.

Se tivesse o marquês só para si, dentro de um iate, de onde ele não

pudesse escapar, seria bem mais fácil capturá-lo definitivamente.

Ela juntou as mãos e lançou a cabeça para trás de modo um

pouco exagerado, pois queria mostrar a perfeição do pescoço.

— Conte-me o que planejou Selwyn. Parece tão excitante!

— E será sem dúvida.

O marquês pensou um momento, antes de prosseguir.

— Estou enjoado de Monte Cario e já estive nas ilhas gregas no

ano passado. Achei-as decepcionantes.

— Porque eu não estava com você — lady Bettine murmurou com

doçura.

— O que pretendo fazer — ele prosseguiu, como se não a

tivesse escutado — é atravessar o canal de Suez, que sempre desejei

conhecer, depois descer para o mar Vermelho até o golfo Pérsico.

Lady Bettine estava silenciosa. Não tinha a menor idéia de onde

ficava o golfo Pérsico.

Aquele silêncio a denunciou e o marquês percebeu o que se

passava e lhe explicou:

— É de lá que vêm as mais belas pérolas.

— E podemos mesmo ir lá?

— Iremos, sim. E então você poderá escolher as maiores pérolas

que encontrar e fazer com elas um colar que vai causar inveja a todas

as suas amigas.

Lady Bettine soltou um grito que era de alegria genuína.

— Oh! Querido Selwyn! Não consigo imaginar nada mais

excitante. Não somente por causa das pérolas, mas porque estaremos

juntos.

27

Havia uma nota de escárnio na voz do marquês quando ele

acrescentou, como se lhe ocorresse naquele momento:

— Ficaremos juntos, sim, mas vou levar um grupo comigo.

— Claro, imagino que sim — lady Bettine condescendeu. — Mas

espero que ninguém interfira ou dificulte as coisas para nós.

— Cuidarei para que tal não aconteça. E, agora, não está na hora

de me agradecer por um convite que pelo menos é bastante diferente

dos que você costuma receber?

Mal acabou de falar, ele puxou lady Bettine de modo meio rude

para seus braços.

Ele a beijou e, ao sentir os lábios dela corresponderem com

ardor, pensou que acharia a viagem divertida e interessante.

Duas horas mais tarde, dirigindo a carruagem de volta para

Hawk House, o marquês não estava pensando em lady Bettine.

Seus pensamentos concentravam-se na viagem para Bahrain.

Aquela idéia lhe ocorrera no momento que lady Bettine mostrou

sua decepção com o broche. Fora uma verdadeira inspiração.

Ele sempre se interessara por jóias e sabia que as pérolas eram

as mais antigas e mais universais de todas as gemas.

O marquês era um homem muito inteligente e estudava a fundo

tudo o que lhe interessava.

Se seus amigos tomassem conhecimento daquela característica

ficariam atônitos. Contudo, os curadores do Museu Britânico, da

Wallace Collection e do Buckingham Palace conheciam muito bem suas

preferências.

Quando o marquês herdou o título e a fortuna, quis conhecer

melhor a origem e a história dos quadros e da mobília de seus

antepassados, que compunham suas várias casas.

Tivera o cuidado de estudar cada peça e aprender tudo sobre

elas. Começara com os quadros e o curador do Palácio de Buckingham

dissera, deleitado:

— Milorde, acho que o senhor conhece mais os tesouros de

George IV do que eu mesmo.

Naquele instante, o marquês perguntava a si próprio como não

lhe havia ocorrido àquela viagem a Bahrain há mais tempo.

28

Enquanto conduzia seus corcéis pelas ruas, ele pensava que as

pérolas haviam sido o símbolo de riqueza, citadas na Bíblia, no Talmude

e no Alcorão.

Desdenhosamente, ele lembrou que elas eram também símbolos

de pureza, castidade e inocência, o que de forma alguma se aplicava a

Bettine.

Ao longo de Park Lane, seus pensamentos ainda estavam nas

pérolas e, por ser algo novo sobre o qual ainda não se ocupara, sentiu-

se excitado e cheio de energia.

Costumava ter aquela sensação quando via um rosto novo e

bonito.

— Bahrain! — ele falou baixinho e aquele som pareceu cheio de

magia.

Finalmente em Hawk House!

Imediatamente mandou chamar o secretário para que desse

andamento ao seu projeto, para que tudo ficasse pronto o mais rápido

possível.

Norita havia retornado a sua casa para fazer as malas.

Dissera aos Cosnet que eles receberiam uma quantia por

semana, desde que olhassem a casa.

Viu com emoção a alegria e o alívio brilharem nos olhos deles.

— Pode ter certeza de que cuidaremos de tudo muito bem,

assim como era no tempo da sua mãe, que Deus tenha sua alma —

exclamou Mrs. Cosnet.

— Tenho certeza disto. Darei algum dinheiro para vocês

comprarem galinhas e assim terem ovos para ajudar na alimentação.

— Nós ficaremos bem. Temos uma bela horta. Não há razão

para se preocupar conosco.

Era mesmo uma bênção não ter mais aquela preocupação!

Ela pediu a Cosnet que lhe trouxesse as malas do sótão e

embalou tudo o que possuía.

Não era muito. Aos seus pertences, juntou também algumas

preciosas coisas que haviam sido de sua mãe. Contudo, viu-se obrigada

a deixar os livros que pertenceram a seu pai. Conformou-se ao lembrar

que miss Marsh dissera que havia uma grande biblioteca em Hawk

House.

29

Alegrou-se ao pensar que seria um de seus prazeres poder usar

uma daquelas antigas bibliotecas que havia em toda casa de linhagem.

Após fazer as malas, Norita foi ao encontro do pastor. Pediu-

lhe que olhasse pelos Cosnet e lhe avisasse se tivessem problemas.

— Sei que o telhado da casa está péssimo — ela disse, sorrindo.

— Mas não há nada que possa fazer. Vai ficar cada vez pior, a não ser

que consiga dinheiro para consertá-lo.