A Reação do Bom Senso por Jackson de Figueiredo - Versão HTML

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A REACÇÃO DO BOM SENSO

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DO AUTOR:

Garcia Rosa (ensaio de critica), 1915.

Xavier Marques (ensaio de critica), 2.a ediçSo, 1916.

Algumas reflexões sobre a philosophia de Farias Brito, 1916.

O crepúsculo interior, 1918.

Boa imprensa (critica), 1919.

A questão social na philosophia de Farias Brito, 1919.

Humilhados e Luminosos (Edição do «Annuario do Brasil»), 1921.

Do nacionalismo na hora presente (Edição da «Livraria Catholica»), 1921.

Pascal e a Inquietação moderna (Edição do «Annuario do Brasil»), 1922.

A SAHIR:

Afirmações.

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JACKSON DE FIGUEIREDO

A REACÇÃO

DO BOM SENSO

CONTRA O DEMAGOGISMO E

A ANARCHIA MILITAR

ARTIGOS PUBLICADOS N'«0 JORNAL», DO RIO DE JANEIRO

1921-1922

EDIÇÃO DO

ANNUARIO DO BRASIL

RIO DE JANEIRO

A

CUMPLIDO DE SANT’ANNA

E

LEITÃO DE CARVALHO

em signal de admiração

e sincera amizade.

Não se pode tratar questões

encandescentes, como esta, com a placidez de

um mathematico que resolve um frio problema

de álgebra.

Não nos podeis prohibir que resoe tudo o

que temos de fibras vivas em nosso ser, quando

se trata de objectos como estes; e se nos vindes

fallar de mansidão evangélica, nós vos

responderemos que o Evangelho não nos veda

ter sangue nas veias. Jesus, que nos deu tão

bellos exemplos de mansidão, deu-no-los não

menos sublimes, de energia; e de grandes

santos sabemos, como S. Paulo, S. Jeronymo e

outros, que foram1 modelos tanto de

vehemencia de estylo, como de sábia polemica.

E o mesmo Espirito Santo nos aconselha

nas Escripturas que nos indignemos, comtanto

que não offendamos a Deus e ao próximo.

Traivos, diz, e não pequeis. Irascimlni et nolite peccare.

D. ANTÔNIO DE MACEDO COSTA Bispo do Pará

O nosso próximo é aquelle que soffre

Vede Lucas, X, 30, 37

PREFACIO

Reuno em livro as paginas que se seguem,

porque ellas, no seu conjuncto, fazem, de facto, ura livro, na mais rigorosa significação da palavra.

O facto de serem multiplos os assumptos

versados, lhes empresta, no caso, a estas paginas,

ainda maior valia, aos olhos do que não é só

vaidade de autor mas também paixão, a mais viva,

da idéa e causa que abracei. E este novo valor, que lhes vejo, é mesmo o de poder-se verificar aqui,

quando ellas assim ap-parecem agrupadas, que essa

idéa, de que me fiz defensor, e dellas creadora, pôde resistir a todas as atmospheras, tomar todos os

rumos, entrar todos os dominios, lutar com todos os monstros, pôr-se em contacto com todas as

contradicções, miserias e preconceitos da vida

13

A REACÇÃO DO BOM SENSO

politica do Brazil contemporâneo, sem jamais se

sentir diminuida, sem jamais empallidecer, sem

oscillar, um só momento, sobre a sua base de

experiência e de amor entranhado á patria

brazileira.

Essa idéa, como se verá, foi a de pugnar, de

todas as formas, por um maior respeito da Lei na

vida nacional, esclarecendo o conceito de ordem,

fortificando, por todos os meios — e em detrimento

de uma preconceituosa Liberdade —, fortificando,

digo, o sentimento da Autoridade, no domínio da

nossa existencia politica.

Fil-o, antes do mais, como catholico, isto é,

como inimigo declarado da Revolução, èm todos os

seus aspectos, e desde que, no debate em torno da

successão presidencial, pude verificar que, contra

tudt quanto já alcançamos realisar de sensato e

ordenado —, num regi-mem de emprestimo e tão

difficil de impregnar-se de bom senso e de ordem

— alçava o collo, mais uma vez, em nossa

paradoxal historia de povo sul-americano, a hydra,

a velha, a conhecida, a repugnante hydra do

demagogismo, servindo-se e a serviço das sinistras

paixões caudilhescas, de um militarismo de quinta

classe, babusado pelas ridiculas vaidades da

egrejinha positivista...

E só duvidará da obrigação que a crença

PREFACIO

14

mesma me impunha, ante a anarchia, o crime, a

revolta, que se queriam estabelecer como norma de

vida publica, ou o infeliz padreco, a quem o peso de interesses não permitte que sinta o peso das vestes sacerdotaes, ou quem não conhecer o que

doutrinaram S. Paulo, Santo Ambrosio, Fenelon,

Bossuet e todos os jurisconsultos e theologos

catholicos, como taes reconhecidos pela Egreja.

Esta doutrina é tão contraria á Revolução que

assim a resumiu uma das maiores glorias do

Episcopado brazileiro, e em hora de indizivel

angustia, quando em luta aberta contra um governo

maçonico e positivamente anti-christão:

— É certo — dizia elle na synopse, que

apresentou, de toda a doutrina catholica sobre a

obediência ao poder civil — é certo que SE UMA LEI

É MANIFESTA E CLARAMENTE OPPOSTA AO BEM

COMMUM, mas de tal modo que sujeitando-nos a

essa lei não violamos nem o direito natural, nem o

direito divino; DEVEMOS CUMPRIL-A, NÃO PORQUE ESSA LEI TENHA POR SI VALOR ALGUM PARA OBRIGAR-NOS

A CONSCIÊNCIA, pois que a lei, para ser tal, deve ser justa e para o bem commum; MAS PORQUE A

ORDEM E O BEM DA SOCIEDADE EXIGEM NESTE CASO A

OBEDIÊNCIA. 0 QUE SE PODE FAZER É LEVAR

RESPEITOSAS

14

A REACÇAO DO BOM SENSO

RECLAMAÇÕES E PETIÇÕES AO IMPERANTE (1), E USAR DE

TODOS OS MEIOS LEGAES PARA OBTER A CESSAÇÃO DO

GRAVAME, E SE NADA CONSEGUIR-SE

É SOFFRER ESTAS, COMO OUTRAS

CALAMIDADES E MALES ACCIDENTAES A

QUE ESTÁ SUJEITA A VIDA HUMANA. “

E mais:

"É certo ainda, e de todos adrnittido, que SE UMA LEI CIVIL É CLARA E MANIFESTAMENTE

CONTRARIA AO DIREITO NATURAL OU POSITIVO DIVINO,

DE TAL MODO QUE NÃO SE POSSA PÔR EM PRATICA SEM

OFFENDER A FÉ E OS COSTUMES, essa lei não só nenhum valor tem para obrigar a consciência, mas até

devem os subditos estar dispostos antes a tudo

soffrcr do que a exe-cutal-a. É o que se chama

resistência passiva, isto é, QUE SOFFRE TODA VIOLÊNCIA, MAS NÃO COMMETTE NENHUMA."

E ainda mais:

"Emfim, É CERTO QUE NÃO É LÍCITO, NEM

CONVENIENTE RECCORRER A INSURREIÇÕES ARMADAS

CONTRA 0 PODER LEGITIMO QUE DECRETA LEIS

INJUSTAS. É commum entre todos os moralistas

catholicos. "S. Thomaz, Berlarmino e Suares

admittera NA NAÇÃO INTEIRA — diz

(1) Assim, já se vê, em relação aos poderes competentes no regirnen republicano. Não é preciso repetir que a forma de governo é questão secundaria para p verdadeiro catholico.

PREFACIO

15

o sabio Audisio — o direito de retirar a obediencia ao principe, QUE VIOLA SUBSTANCIALMENTE O PACTO

FUNDAMENTAL DO ESTADO, e exerce aberta tyrannia;

MAS NEM ELLES, NEM THEOLOGO ALGUM DE VALOR,

TEM POR LICITAS AS INSURREIÇÕES ARMADAS. Suarez,

interpretando Berlarmino, concede ao povo o direito de defeza nos casos extremos, mas NUNCA o DE ATAQUE.

(De fens. fidei, Lib. III, cap. III). E S. Thomaz consente também que por decreto nacional se destitua o tyranno, e recorda Tarquinio o Soberbo e Domiciano, cujos actos foram cassados pelo Senado; MAS NÃO CONCEDE TAL

DIREITO

SENÃO NO CASO DE TYRANNIA

DECLARADA, Á SÓ NAÇÃO, E NÃO AOS INDIVÍDUOS

E ÁS FACÇÕES.

Avisa que os inferiores levem LEGALMENTE suas queixas ao superior, como os Hebreus deferiram a Augusto os gravames de Archelau, imitador da paterna perversidade; e se isto não se puder, e não aproveitar a justiça humana, S. Thomaz, LONGE DE APPROVAR o uso DAS ARMAS,

aconselha-nos recorrer ao Rei dos Reis, em cujas mãos está o coração dos príncipes." (1).

Esta é que é a doutrina catholica, fortalecedora por excellencia da Autoridade, guarda

(1) D. Antônio de Macedo Costa — Direito conlra Direito

— Rio, 1874 — pag. 124/26.

16

A REACÇÃO DO BOM SENSO

do Direito, por isto mesmo que mais a pre-occupa a definição dos devedores. Outros autores

estrangeiros (sempre gostados) e mais modernos

(sempre mais cridos), poderia ter citado em defesa

do espirito christão de que me sentia animado

quando comecei a defender o governo legitimo e a

lei reconhecida, contra o arbitrio e a violencia das facções, que se julgavam no direito de os subverter, em proveito próprio. Intencionalmente, porém, foi

que escolhi um Bispo brazileiro, e testemunha da

qúéda de um regimen que tudo consentiu no sentido

da deseliristiani-sação da sociedade que lhe

competia zelar e proteger.

Elia ahi fica, esta pagina, para meditação dos

que íêem responsabilidades na vida publica

nacional; que verifiquem se outra doutrina ha no

mundo, que offereça fundamento tão solido, e tão

provado, em que se firme o Estado, e crie mais

fortes raízes e consciência do respeito que a Lei

deve merecer, não só do homem superior — note-se

bem — mas também do homem vulgar.

Não havia, pois, evitar a luta em defesa da

ordem constitucional, por mais antipathi-ca que esta se nos antolhasse. Era com ella, a propria civilisação brasileira o que se tinha a defender.

Porque, quando e onde, desde o inicio da

PREFACIO

17

questão presidencial, se fizera ver aberta tyrannia, e em que e por quem fora substancialmente

violentado o nosso pacto fundamental? Que é que

poderia, mesmo de leve, justificar o processo

positivo, radicalmente revolucionário, que se queria empregar para resolver aquella questão? Dentro

ainda da mais intransigente cegueira democrática,

que signal dava o povo da sua inteira solidariedade para com a facção revolucionaria? Pelo contrario:

tudo indicava que o regimen republicano como que

achara leito proprio a um volver de aguas mais

calmo, e marchava para uma adaptação de caracter

mais expontaneo ás nossas necessidades. E foi

nesse momento que a Revolução se fez ideal de

meia dúzia de tresíoucados ambiciosos e de

retardatarios sociaes!

É certo que não é difficil mover a simplicidade

da massa commum dos homens, e enganal-a, e

arrastal-a até mesmo ao suicídio, quando quem o

quer fazer tem por si, a par da audácia criminosa, o segredo do despudor e da hypocrisia no uso de uns

tantos palavrões, que falam de um paraíso terrestre, a cujas portas ninguém diz que, como para eterno

desengano de loucos, está sempre, vedando-lhe a

entrada, o anjo terrivel da verdade.

Foi o que se viu na questão presidencial,

18

A REACÇÃO DO BOM SENSO

no combate travado entre o deletério faccio-nismo e as normas de bom senso, adoptadas pela maioria

dos nossos políticos, como executores das

prescripções da nossa magna lei. Nesse luta, as mais vis explorações foram feitas, visando accender as

paixões populares, e era até de esperar, dada a

extensão e violência de taes explorações, uma bem

mais forte explosão daquellas paixões, em epoca,

como esta, em que a athmosphera mesma do mundo

parece favorecer todos os máos instinctos

collectivos. Entretanto, se a Revolução teve o seu

dia, o facto é que cedo se lhe apagou o sol do

enthusiasmo, no baixo horizonte da sua extrema

fraquesa intima. Pois se nem uma só idéa, nem

mesmo má, inferior, obscura, lhe animava a bruta

massa de damni-nhos appetites! O esultado foi o

que se viu, e quase nem se deve falar delle, desse

entulho de apodrecidas desillusões, que é mister

arrastar ao mais fundo golphão do esquecimento.

Fique-nos o "remorso social", na phrase de Taparelli, e delle aproveitemos.

Mas aos que, em face do ridículo final da

ultima enscenação demagogico-positivista

ajuisarem mal da vivacidade com que, como

catolico, contra ella nos batemos, será bom recordar que, antes de ser assim reduzida ás proporções de

um motim de tangará se péré-

PREFACIO

19

récas e em que nem mesmo a loucura de alguns

moços bastou para esconder a covardia dos chefes,

antes disto, a verdade é que a sociedade brazileira conheceu horas amargas, viveu afflictivos

momentos, e era mister que os homens de fé, que os

que se sentiam defendidos por princiios de eterna

fortaleza, não ficassem inactivos ou silenciosos, e corressem a defendel-a, não só de infundados

terrores como da terrível suggestão do delirio

demagoico.

Foi o que fiz.

Tudo leva a crer também que se iniciou, nessa

luta, a reacção do bom senso nacional contra os

desmandos da nossa imaginação e do nosso

sentimentalismo, na ordem politica, e quem ame

deveras o Brazil tem que se fazer soldado sob esta

nova bandeira.

Tudo me faz suppor que as mãos que a

levantaram nesta hora, que o próprio Conselheiro

Ruy Barbosa qualificou da mais grave que tem

soado em nossa existência politica, são fortes e

resistentes, pois o espirito de que se animam já deu prova de pairar muito acima do triste arranjo de

subalternas conveniências pessoaes, em que se re-

solviam, naturalmente, os arroubos sentimentaes, a

lyrismo e a falsa pudicicia dos que ainda lutavam,

entre nós contra o cynismo

20

A REACÇÃO DO BOM SENSO

franco e a perfeita infâmia de alguns profissionaes do mando, mestres da repugnante politicagem que,

de facto, era, até bem pouco tempo, a única corrente verdadeiramente viva que percorria, na ordem

política, o organismo nacional. Ainda ha que se lhes fazer este elogio... Tanto é certo o que mais de uma vez, supponho, tive que lembrar no decorrer dessa

luta, e aprendera da rude fran-quesa de José de

Maístre: "A POLÍTICA VIVE DE INTERESSES; SE, ÁS

VEZES, SE ENTRETEM COM SENTIMENTALISMOS,

ACABA EM NEGÓCIOS DUVIDOSOS". Tudo está, para

ser bôa, que saiba distinguir os bons dos mais

interesses, os que são em favor da ordem, do bem

estar da sociedade,e os que são de pura ambição

pessoal e mesquinho egoísmo. E é ficar com os

primeiros, sem ter medo á palavra interesses. Os da ordem porque me bati são, na vida dos povos, como

os da salvação da alma de cada indiviuo: fazem a

virtude mesma das nacionalidades, devem ser

defendidos a custo de tudo o mais, que pouco vale.

E tanto é certo que só elles guiaram sempre os

povos que mais influencia teem exercido no

progresso da humanidade, que, ao philosppho, ao

ensador, se verdadeiramente o é, nada mais cabe

que os aprofundar, descobrir-lhes o principio

gerador, e co-

PREFACIO

21

mo que plasmal-os em philosophia politica e em

moral pratica, emfim, a esses elementos positivos,

reaes, uicos verdadeiramente capazes de fortalecer

a actividade espiritual, que procura, não como

aconselha a vaidade ra-cionalista, indicar o estado de perfeita organisação social, mas, sim, qual o

mais digno de ser vivido, entre os que já temos

esboçado sem jamais completamente os realisar.

E falemos claro: o que a verdadeira Historia

nos diz — a verdadeira Historia, e não os

phamphletos de cego e estúpido sectarismo,

adoptados em todos o Occidente, da Revolução

franceza para cá — o que ella nos diz é que uma

única moral politica foi realmente vivificadora,

organizadora, civilisadora: a moral politica

decorrente dos prin-cipios religiosos e moraes da

Egreja Catholica, que dignificou a humildade, a

submissão, e, fundando assim a ordem pratica,

poude corôal-a com as magnas conquistas da

liberdade christ: a adhesão constante de grandes e

pequenos ao sentimento do dever deante da lei, a

consciência de que é possivel fazer pacificamente a reforma de todos os abusos, de todos os attentados á dignidade humana.

Creado, porém, pela Reforma protestante, o

phantasma de uma Liberdade, de

22

A REACÇÃO DO BOM SENSO

pura e pesima metaphysica, isto é, sem realidade

objectiva que não a das suas criminosas

consequeias, o que se viu, de um a outro extremo

do mundo Occidental, foi a morte do systema

monarchico christão, e a sua substituição pelo mais nefando cesarismo, que tal foi e tal é o das

chamadas monarchias liberaes, ou pela tyrannia da

incompetecia, que tal tem sido a dos chamados

governos democráticos, de republicanismo mais ou

menos vermelho — formando tudo isto uma só

ordem revolucionaria, anti-chrisíã, deleteia,

evidentemente impossível de sustentar-se por muito

tempo mais, seja que delia venhamos a ser lançados

nas trevas de um novo eclipse da civilisação, seja

que retomemos o fio da fé salvadora, uica capaz de refazer-nos moralmente.

Chegamos a uma dessas situações em que a

Historia vale de verdade como mestra.

Até na "Cartilha do Operaio", editada pelo Integralismo lusitano (e em parte nenhuma mais

que em Portugal o operário tem sido victma dos

idéaes revolucionaios), já encontramos palavras

como estas: "Para aquellas pessoas que se deixam guiar na vida pelas idéas alheias, evitando o

trabalho de pensar, a Revolução Francesa

representa ainda hoje um grande avanço na senda

do

PREFACIO

23

progresso moral, material e politico dos povos.

Facilmente demonstraríamos como, pelo contrario,

ella representa antes um retrocesso nesses trez

pontos, se a nossa acção neste trabalho não se

restringisse apenas á sua acção deleteia no aspecto econômico, começando por affirmar que a causa

principal do descalabro econômico em que

vegetamos foi a Revolução, e que só com o

regresso ao sindicalismo orgaico a questão social se solucionará." (Pag. 14).

Assim fala o Sindicalismo não revolucionaio,

mas é bom não esquecer que, não só na França, mas

em todo o mundo Occidental, como diz Lagardelle,

foi a burguesia, essa burguesia athéa, aida de lucros e prazeres, quem como que forçou o operariado á

attitude revolucionaria de nova espécie, em que

hoje em dia se mantém, ameaçando-a, a ella

própria, de um completo anniquilamento. E que não

ha mais demovel-o, pela violecia das forças a

serviço das minorias lettradas e ricas, é o que a vida politica dos povos europeus vem claramente

demonstrando, porque, como observava, ha alguns

annos, economista dos mais acatados, este é o

becco sem sahida: se os governos burgueses usam

de tolerância e de medidas suasorias, cresce na mas-sa inculta a convicção da sua

24

A REACÇÃO DO BOM SENSO

fraqueza, delles, e, não tarda que empregue os meios violentos, na anciã de immediata realisação dos seus ideaes; se taes governos, pelo contrario, julgam-se fortes e reprimem as manifestações da ousadia

proletaia, passam a ser fabrica de martres, por

conseguinte, o melhor propagandista das mesmas

idéas que combatem.

Éou não é como o diluio que avança, que está

próximo a desencadeiar-se sobre o mundo sem

crenças, sem dignidade espiritual? Porque não será

com a infaia do economismo sem alma ou da

política de ahna de vibora que se ha de atalhar a

Revolução nas suas mais loicas se bem que mais

monstruosas e desgraçadas consequencias praticas.

Vejo nas minhas notas estas palavras que são, se

me não falha a memória, de Georges Sorel: "Que peutil sortir des marchandages, des ruses, des duplicités de la politique vulgaire, sinon un effroyable abaissement des caracteres? Les rivalités des partis ne sont que des courses déchaínées de clientèles avides des prebendes et des sinécures qu'offre la possession de FE'tat. Bas-sesse et médiocrité, c'est le lot des démocraties. Il y faut ajouter crédulité et défiance...

PREFACIO

25

L'électeur n'apparait plus que comme une

lamentable épave et il reste Féternel dupé." ... Eis o quadro da vida politica contemporânea, não a do

caldo podre brazileiro, mas a dos povos que se

dizem á frente da civilisação, de que o Brazil tem

copiado tudo, muito mais, porém, as perigosas

phantasias do atheismo social.

Os resultados ahi estão. É a poiitica

transformando o soldado de factor da disciplina em

bandeirante de desordem, a imprensa lançada no

mais aviltante isochronismo, da mais clara

venalidade ao mais criminoso desrespeito a todas as delicadezas moraes; são os dirigentes em

conciíiabulos com ladrões da mais repugnante

espécie ou pregando francamente o assassinato dos

seus adversários, é, emfim, o Brazil desta campanha presidencial, de que sahimos, e em que horas houve

em que não ficou de pé um só talvez dos pontos de

honra da vida politica e social de um povo o mais

modesta ou elementarmente civilisado, no sentido

christão desta palavra, o unico, aliás, que pôde ser reconhecido verdadeiro pelo bom senso e a justa

razão.

Dizia-me um amigo, ora residente na

Inglaterra, em carta dos primeiros dias de Junho,

que a imprensa londrina já não achava

26

A REACÇÃO DO BOM SENSO

bastante tratar-nos com despreso. Desde que a

campanha contra o sr. Arthur Bernardes deixou, ver

que, no fundo, nada mais era do que pútrida e mal

abafada exalação do nosso velho militarismo de

cordel, sempre hypocrita e por isto mesmo sempre

repugnante, os inglezes, ou melhor, os seus

banqueiros, donos do mundo, mal disfarçam o

pedido de camisa de força para este pobre povo,

que era assim posto, e quase sem injustiça, na

rabadilha do mundo, para gloria de um ou dois

mulatos de trunfa demagogica, de trez ou quatro

bandidos de imprensa, de cinco ou seis generalêtes

e coronelões, quando não abarrotados de

pernosticismo positivista, anciosos por uma bata-

lha... a primeira, quando mais não fosse, das que

essa mesma imprensa offerecia a custo de muito

pouco sangue e muita espuma venenosa.

Não resta duvida que nós podíamos, naquelle

momento, ser apontados como o povo que

realizava, do modo mais claro, toda a turpitude da

moral politica contemporanea.

O caso do Marechal Hermes, ex-chefe do

Executivo e victinia outr'ora da mais abjecta

campanha demagógica, transformado de repente,

em cidadão, que usando do prestigio

PREFACIO

27

da propria farda, tudo fez para desmoralisação da

autoridade constituida, tornando-se instrumento

inconsciente da mesma demagogia que quase o

matou moralmente aos olhos da nação, é também a

mais perfeita encarnação, que conheço, dessa

universal confusão da verdade e do erro, do mal e

do bem, que é como que a caracteristica das classes dirigentes, nesta triste hora da vida de todas as

sociedades humanas.

E é por isto que, á absoluta falta de principios,

de interesses superiores, de convicções moraes,

mesmo erroneas, um homem que, em dado

momento, os represente, só pode parecer um

monstro; e é o que acontecia em relação ao sr.

Arthur Bernardes, combatido então não só pela

incrivel baixeza dos processos dos seus adversarios, mas também não menos prejudicado pela não

menos incrivel incomprehensão de muitos dos seus

partidários, incomprehensão do valor moral que

representaria a mais rigorosa repulsa ao crime e aos criminosos, quando era com criminosos que se

tinha de lutar.

O amigo, a quem me referi acima, nessa

mesma carta em que me dava conta do ridiculo de

que éramos alvo aos olhos do estrangeiro, parecia

crer que tudo isto nos acontecia porque a Palavra

há perdido todo

28

A REACÇÃO DO BOM SENSO

o valor, entre nós, "é assim como o rublo

presentemente em relação ao mundo monetario".

Puro engano. Nunca a palavra teve mais força

no Brazil, nunca o jornal e mesmo o livro teve

maior mercado e mais gente ávida a devoral-os.

A verdade é que as chamadas classes

dirigentes vão degradando o nosso povo cada vez

mais systematicamente pela escola sem Deus, a

imprensa licenciosa, o livro immoral.

A verdade é que nunca, no Brazil, a palavra

esteve tão escravisada ao mal e a serviço de tantos homens indignos delia. Mas ella somente ainda

poderá salvar-nos, por isto mesmo que ainda não

baixamos á irracionalidade.

E o que é preciso é vencer primeiro os

preconceitos do monstruoso atheismo social em que

nos debatemos.

É attentar no que se passa no mundo inteiro, é

reflectirem os poderosos, desta hora, no nosso caso particular.

Nunca o mundo precisou mais de religião, na

ordem pratica, e tão certo é isto que só os cegos não verão o grande movimento intellectual catholico e

espiritualista que o reanima ultimamente.

PREFACIO

29

O Brazil, creação do heroismo da Egreja, mais

do que outro qualquer povo, deve adeantar-se aos

demais neste renascimento espiritual.

Não é tempo talvez de emprehen-der a reforma

christã das nossas leis. Mas já é tempo de acceitar como máxima suprema para a nossa vida, aquella

mesma que forneceu José de Maistre, no inicio da

tragedia revolucionaria. A Revolução deve nos ser

tão odiosa que "não é mesmo a contra-revolução o que se tem a fazer, mas o CONTRARIO DA

REVOLUÇÃO".

A CONSCIÊNCIA RELIGIOSA DO PAIZ

E O MOMENTO POLITICO

m tudo quanto se tem escripto ultimamente

Esobre a questão das candidaturas á presi

dencia

da Republica, tenho notado como que o proposito

de afastar para o mais longe possivel a discussão

das idéas que pôde vir a representar, se victorioso, qualquer dos grupos contendores neste momento, e,

até agora, se tem atacado ou endeusado as

personalidades dos srs. Arthur Bernardes e Nilo

Peçanha como forças políticas no peor sentido da

expressão, isto é, como cabos eleitoraes. Nada mais se tem querido vêr nelles que dois felizes mortaes

amantes do mando e a um dos quaes o mando tem

que caber, sejam elles bons ou máos sujeitos, pois a verdade é que cada um é um semi-deus para uns

tantos ambiciosos que o acompanham e um

miserável para outros tantos ambiciosos, que

acompanham o seu rival. O porque desses juizos é

que não parece bastante fundamentado ao bom

32

A REACÇAO DO BOM SENSO

senso que tenha horror a um tal partidarismo, de

que resulta, afinal de contas, ser impossíivel fazer um julgamento sincero de qualquer desses homens.

Aliás estou certo que no Brasil, mais do que nunca, só merece duvida e até despreso uma certa opinião publica, formada por já conhecidos processos jornalísticos, que, não faz muito tempo, após ter

arrastado o sr. marechal Hermes pelas mais negras

ruas da amargura, nem ao menos achou necessario

justificar-se quando, ré confessa de calumnia, lhe

rendeu as mais subidas homenagens .

Num momento da vida nacional, que o sr. Ruy

Barbosa crê ainda mais grave que o de 89, não seria mais acertado, mesmo do ponto de vista do egoismo

de cada um, que o debate politico se elevasse

alguns covados acima das objurgktorias e apologias

de caracter pessoalissimo? Não seria mais

conveniente, até para o mais humilde dos

ambiciosos, esquecer questiunculas políticas para

attender somente a esta de que, tendo graves

problemas sociaes a resolver, o Brazil requer

governos capazes de os enfrentar com energia e

bom senso, pois ninguém, por mais pequeno,

escapará aos prejuizos geraes, se taes problemas

não merecerem a attenção mais honesta?

Não sei se será mesmo invejável a sorte

daquelle a quem couber, após o Centenario da

nossa Independencia, o papel de domador desta

incerta democracia, mas por isto mesmo a analyse a

que devêramos sujeitar os pretendentes áquelle alto, nobre e ambicionado mar-

Á CONSCIENCIA RELIGIOSA DO PAIZ 33

tyrio, deveria visar, de preferencia, as linhas geraes, as bases de eada programma, pois em psychologia

objectiva, raro é que se possa penetrar com

segurança refolhos de uma alma, em suas infinitas

nuanças.

De facto, não é difficil verificar o pessimismo

ou o optimismo essencial de um dado homem, mas

raro é que se surprehendam as mil componentes de

um dado temperamento.

Também no mundo das idéas: não é difficil

saber se um homem é crente ou sceptico, mas

duvidosa será sempre a determinação da sua

espécie de crença ou de scepticismo.

Assim, por mais suspeitas que sejam, a

verdade é que as confissões dos próprios typos que

analysamos, têm que ser levadas em conta, como

principal elemento, no juizo que delles queremos

formar. Não é duvidoso, por exemplo, que se possa

alcançar, da confissão de um homem publico, a

quem, particularmente, quer elle agradar, se bem

que não seja tão certo reconhecer a quem lhe não

importa ser desagradável. E raro é que o optimista

não ame ser tido por optimista, e ainda mais raro,

apesar de parecer o contrario, que o pessimista não se vanglorie de pessimismo. O poeta que disse:

"Tristeza, minha unica alegria!", certamente não mentiu, disse o que sentia. E nesses dominios a

confissão vae tendo maior valor á medida que se faz mais complexo o problema da determinação

psychologica. Eu sou um crente ,diz quem, á

primeira vista, nos parece refinado hypocrita. Será um hypocrita. Mas a crença ainda vive nesse

infeliz. Semella não seria hypocrita,

34

A REACÇÂO DO BOM SENSO

seria cynico ostensivo, orgulhoso do seu cynismo.

Coisa ainda digna de nota é que, quando já a

essa altura nos dominios da psychologia, tem valor

singular a propria fôrma das affirmações, se

categoricas, incisivas, terminantes, se dúbias,

frouxas, imprecisas.

Para nós, catholicos, é isto elemento de

primeira ordem para o julgamento que queiramos

fazer de qualquer indivíduo, em relação ao nosso

Credo. O catholico é como um rei, dizia Veuillot:

affirma desassombrada-mente a sua fé. Eu sou

catholico, ponho acima de tudo o amor de Deus, de

Jesus Chris-to, dos mandamentos da sua Egreja, a

Egreja catholica, apostólica, romana. Quem assim

não fala não é, para nós, aquelle irmão na Verdade

suprema, pela qual tudo devemos sacrificar.

Ora, este artigo só se dirige aos catholicos

brazileiros, áquelles que lutam, como eu, pelo

prestigio das crença tradicionaes do Brazil, e

querem que ellas influam cada vez mais em todos

os dominios da nossa vida social e política, direito que não lhes pôde ser negado num paiz em que se

diz que a democracia é verdade e onde, por

conseguinte, está mais que legitimamente

assegurada a victoria das maiorias.

Pois bem: não só nós, catholicos, vemos, com

Donoso Cortes, sob toda questão social, uma

questão theologica; Guizot, um protestante, e

também homem de Estado, assim pensava. Assim

também pensava o próprio Prou-

A CONSCIENCIA RELIGIOSA DO PAIZ 35

dhon, como se pôde verificar nas suas "Confissões de um revolucionario"...

Se assim é, e se somos a maioria absoluta da

Nação, não podemos esquecer, nós catholicos

brazileiros, e não devemos temer o cumprimento de

um dever para com a nossa fé, quando está em jogo

o governo temporal da sociedade a que esta fé

alimenta e unifica espiritualmente, e sabemos

quanto é vantajosa a harmonia dessas duas

autoridades na historia de todos os povos. E este

dever é o de indagarmos, justamente, sobre que

base de fé repousam as promessas de cada um dos

pretendentes ao mando supremo da Nação.

Já que devemos obediência a uma constituição

politica, que nós mesmos consentimos que se

proclamasse, sem consulta dos interesses religiosos da maioria que somos, é lógico que não desejamos

um governo de caracter confessional. Mas por isto

mesmo não devemos nunca concorrer para que o

tenhamos anti-catholico, sectario, a serviço de uma das minorias religiosas do paiz.

Agora, pergunto se pôde haver duvida, da

parte de um verdadeiro catholico, ante os nomes

dos srs. Bernardes e Nilo, após a leitura das duas

entrevistas concedidas por estes senhores ao sr.

Soares de Azevedo, distincto redactor d'”A União".

Poderá haver, entre nós, quem fique indeciso entre

a serena affirmação de catholicismo do sr.

Bernardes, e aquelle "eu sou catholico" do sr. Nilo, que a cada passo confunde a nossa Egreja, a Egreja

da maioria absoluta dos braaileiros, com as

36

À REACÇAO DO BOM SENSO

seitas, a que a nossa Constituição garante plena

liberdade?

Quem escreve estas linhas não conhece o sr.

Bernardes nem o sr. Nilo. Não tem dom de

prophecia, nem é tão bom avaliador das nossas

actuaes forças politicas, a ponto de ter já por

victoriosa a candidatura do sr. Bernardes, a quem

desde agora estivesse a mendigar alguma futura

recompensa. Dados os processos dubios do nosso

mundo politico, confessa mesmo que crê mais na

victoria do sr. Nilo, de quem a aureola de

malabarista e um máo livro são as únicas coisas que conhece. Mas se se fizesse eleitor seria para votar com a sua consciência de catholico. E é isto o que

vem lembrar aos eleitores catholicos do paiz.

20 — 7 — 921.

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L’ÉCLAT DE RIRE DE LA RAISON...

a pouco tempo, quando um senador da

Republica, mais do que sensatamente,

repudiou alto e bom som a gritaria das ruas como

collaboradora dos nossos destinos politicos, foi

formidavel a grita, não das ruas, mas de todas as

galerias de uma desenfreada politicagem capaz de

invocar até mesmo as fúrias populares, em prol das

suas proprias contrariadas ambições.

Disse-se de quem ousava renunciar o veneno

das revoluções como perigosissimo meio de

salvação social, tudo quanto se pôde dizer de um

inimigo do povo, fazendo-se a este, ao povo, que é

o trabalho, o esforço humilde, dentro da ordem, a

injustiça de o confundir com os gritadores da rua,

os desordeiros de toda espécie, a espuma negra de

todas as sociedades, fermento de todas as

revoluções, instrumento de todos os exploradores

politicos. ..

Ora, devem todos esses empresarios de

38

A REACÇÃO DO BOM SENSO

má sorte comprehender que, de facto, os tempos

estão mudados mas não no sentido que suppõem.

Passou, realmente, a época tão necessaria do

absolutismo e das aristocracias de sangue, mas já

vae longe também a da crença ingênua e sincera

nos "sagrados principios" da demagogia, que ensanguentou o mundo, sem que, no seu

monstruoso altar, se levantasse a imagem de um só

verdadeiro heroismo, de uma só nobilitante virtude, dignos do sangue derramado.

Aquelle triste politicoide que ainda invoca "a gritaria das ruas" como força de remodelação

social, não é mais, hoje em dia, que um simples

"retardatario", e com certeza, está mais divorciado do espirito dos nossos dias que os que pregam, a

todo transe, a re-acção anti-democratica ou falando mais claro, a reacção anti-demagogica.

Sejam quaes forem as fôrmas sociaes latentes

neste pandemonio, nesta tortura, nesta agitação do

"après la guerre", a verdade é que só uma coisa se faz evidente: que a sociedade se renovará dentro de mais amplo quadro de valores praticos, uteis, e que a politica perderá, por força, seu excessivo caracter theorico, pasto de todos os parasitismos, para voltar ás suas leis tradicionaes de razão e experiencia, isto é, nascidas de principios universaes e apoiadas na

tradição, que é a philosophia mesma dos povos

dignos da vida.

É neste sentido que nós estamos, se não já a

ouvir, pelo menos, na vespera de 'Teciat de rire de la raison"ante si mesma...

L'ÉCLAT DE RIRE DE LA RAISON...

39

Creu demasiado nas suas forças, acreditou

poder sobrepôr-se ás mysteriosas tradições de

autoridade na economia da vida social, e o

resultado foi que em seu nome "todos os crimes foram commettidos", e passou a ser o joguete dos mais baixos instinctos de todos os audaciosos...

Ao clamor de tantas victimas acordou a razão e

viu bem claro ou está a ver bem claramente que

estivera adormecida e, em seu nome, fora a

imaginação, fora o orgulho satânico da imaginação

o que governara o mundo...

Realmente, como pensa Maurras, um atheu

penitente, "a grande condição do successo, de dois séculos a esta parte, parece ter sido deslocar, a todo instante, os polos do pensamento; não se conseguiu

ser ouvido do publico senão creando inteiramente

uma constituição política, um systeroa do universo, erigindo em lei os caprichos da imaginação".

Não somos nós, felizmente, os dogmaticos, os

que hoje se honram de "medievante", não somos nós, os catholicos, os que pregam o retorno á

tradição, o amor da autoridade, o respeito aos

dogmas que essa mesma tradição encerra...

É a voz do positivismo francez, do scepticismo

philosophico, cançado de tantos arrojos theoricos,

que se faz ouvir e ousa até, não confundindo mais

liberdades politicas com Liberdade como principio

de vida social, lançar os peores apodos contra essa crudelissima deusa da Encyclopedia e da

Revolução.

A razão — diz aquella voz — só é razão

40

A REACÇAO DO BOM SENSO

quando a si propria se limita, quando reconhece que todo o seu trabalho só é útil sobre uma base de fé, quando não desrespeita os marcos dogmáticos de

uma tradição religiosa e politica, cuja formação se perde na origem dos seculos.

A liberdade como principio organizador é uma

chimera, não existe na historia, é força, por

conseguinte, destruidora.

"Tem o seu throno ao fundo das regiões

inferiores, proximo ao chãos e ás forças

elementares; o que trabalha e cresce, o que se eleva e se ordena, o que toma as fôrmas da perfeição, é

também o que consentiu no entrave e na medida, o

que se sujeitou ao sublime freio da lei. "

Não é essa voz como o signal dos tempos,

partida de quem parte?

Como resistir a esta força de bom senso, que

succede sempre aos paroxismos de dôr, ás grandes

provações?

Será invocando a gritaria das ruas? Poderá ella

abafar o coro de vozes mais serenas, mais altas,

mais nobres? Perniciosa illusão! É certo que nunca

sociedade alguma foi governada dez dias por essa

vasa de ambições sem sentido. É certo que, do meio

delia, quando alguma vez victoriosa, jamais deixou

de surgir o seu dominador natural, o homem —

crystallisação de todas as suas penas e todos os seus crimes, aquelle ser tenebroso mas ao mesmo tempo

providencial, que se constitue, immediatamente,

alliança entre o passado e o futuro, no mais

tremendo castigo ao presente, que o elevou.