A Reação do Bom Senso por Jackson de Figueiredo - Versão HTML

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L’ÉCLAT DE RIRE DE LA RAISON...

41

Napoleão, Lenine... terriveis instrumentos da

necessidade social... Quem não pôde descobrir as

suas "figuras", sobrepondo-se ás agitações do passado hellenico, da decadencia romana?

E será, agora, após a mais tremenda provação

por que tem passado a humanidade, que meia duzia

de profissionaes da politicagem, venha exaltar a

revolta e o tumulto como dignos de acatamento?

Quem poderá levar a serio taes declamadores?

O povo? Mas é este quem mais cançado já deve

estar, das enscenações ridículas e sangrentas em

que, horas após a fogueira dos odios que se

sastifazem, se vê ainda mais pobre, mais

degradado, mais desprezado.

É preciso ter coragem de amar este mesmo

povo com a rudez de quem delle faz parte e não lhe

fala com segundas intenções; é preciso dizer-lhe a

verdade, núa e crua, dizendo-lhe, por exemplo, que

é desprezivel a gritaria das ruas, que desconfie dos que fazem profissão de amal-o e bajulal-o...

A verdade é que só verdadeiramente lhe deseja

o bem aquelle que se colloca acima dos seus

louvores e é capaz de ainda hoje repetir

serenamente a canção do Infante D. Pedro:

No amo ni punto el amor popular

nio leo quien mucho en el se confia...

29 - 7 – 921.

CATHOLICISMO E POLITICA

a dias tive occasião de dizer

francamente, por estas mesmas

H columnas, que, dos dois candidatos á

presidencia da Republica, ouvidos pelo jornal

"A União", só o sr. Bernardes poderia

merecer a sympathia e o apoio dos catholicos.

Firmara a minha convicção neste sentido com

a leitura mesma que fizera das entrevistas

concedidas pelos dois politicos rivaes. Nellas,

o sr. Bernardes diz que é catholico e

demonstra que sabe bem o que é ser

catholico; o sr. Nilo também diz que o é mas,

de dubiedade em dubiedade, chega até ao

cumulo de confundir a religião da maioria

dos seus patricios com as diversas seitas que

aqui, como em toda a parte, são elementos

perturbadores da civilização christã. Ora, o que

poderia ser obra de pura ignorancia, muito

perdoavel, da parte de um homem que teve, e

talvez tenha ainda, papel muito importante

numa das mais activas seitas, que combatem

44

A REACÇÃO DO BOM SENSO

a Egreja, sob todos os disfarces, poderá ser também obra de pura perfidia, digna de cautela ...

O que não posso negar é que, tendo dito; com

tanta franqueza, o que pensava em relação a cousa

de tanta gravidade como esta da escolha de um

chefe da nação, fui de encontro aos habitos mentaes de grande parte dos que estão commigo em

communhão de fé. Tive respostas pouco edificantes,

como a daquelles que temem que por qualquer

motivo se provoque uma questão religiosa no

Brazil... São esses mais prudentes que o sabio, o

que quer dizer que são ridiculamente prudentes e

até cegos pelo temor. Não é possivel provocar uma

questão religiosa onde ella já de facto existe para todo homem toherente, não só com os principies

catholicos, mas até com os principios de uma

verdadeira democracia. É evidente que taes

principios só teriam sido respeitados, entre nós, se no caso do ensino, por exemplo, não tivesse o

governo nenhuma ingerencia e desse ampla

liberdade, ou se at-tendensse ás convicções

religiosas da maioria absoluta dos seus governados.

A chamada neutralidade só seria neutralidade real,

se não dirigisse escolas em que domina o

indifferentismo religioso, mais repugnante ao

espirito do verdadeiro crente que o ensino religioso de doutrina que se lhe oppõe. "A questão é sempre saber — como diz Veuillot — se o homem deve

nascer, viver, unir-se, morrer, receber, transmittir e deixar a vida como uma creatura de Deus a Deus

destinada, ou como uma larva aperfeiçoada,

CATHOLICISMO E POLÍTICA

45

unicamente originaria das fermentações terrestres".

Assim, está mesmo em nossa magna carta a

questão religiosa por excellencia, e só a covardia

fará com que nós catholicos, maioria absoluta da

nação, temamos pugnar pela reforma da nossa

Constituição, quando não seja para que estatua a

nosso favor este ou aquelle privilegio, pelo menos, para que não sejamos os mais combatidos pelo seu

indifferentismo religioso.

Mas — escreve-me alguém, a quem devo toda

consideração — se se quer como catholico, tomar

attitude na política nacional, a primeira obrigação será bater-se pela creação de um partido catholico; só assim teremos orientação segura, saberemos

quem merece o nosso apoio".

Em these, não estou longe de pensar como o

meu distincto amigo; dou, porém, ao meu

pensamento, um complemento de autoridade, que

parece falta ao seu. O catholico se distingue no

mundo, justamente porque, do ponto de vista

religioso, reconhece autoridade, no sentido mais

rigoroso da palavra. Os chefes da Egreja são os

seus Bispos, e não nós pensadores, escriptores,

jornalistas, políticos, por mais autoridade que nos dê a firmeza da nossa crença ou a illustração da nossa fé.

Ora, o Episcopado brazileiro, pelo menos, a

sua maioria absoluta, jamais achou necessaria,

dentro do periodo republicano, a creação de um

partido catholico, nem mesmo

46

A REACÇÃO DO BOM SENSO

deixou ver que teria o seu apoio um movimento

neste sentido.

E serão argumentos sem valor, mesmo de um

ponto de vista puramente humano, aquelles com

que contraria as aspirações de um ou outro dos

mais exaltados, entre nós? Vejamos.

Dizem os nossos Bispos que o creador de um

partido catholico, num paiz em que não existe

partido anti-catholico, seria "ipso faclo" o creador deste também.

Que responder a um argumento assim tão claro

e agudo, que quasi que se nos impõe com força de

evidencia?

Dizem elles que, ao catholico, o só rigoroso

cumprimento dos seus deveres de estado, bastaria

para que, no Brazil, tornasse impossível qualquer

politica de perseguição ás suas crenças.

De facto, a nós catholicos, se pôde dizer o

mesmo que se deve dizer ao Exercito Nacional: não

é preciso que se constitua em partido e use mesmo

das armas que lhe foram confiadas, para que exerça

papel importante na vida politica do paiz.

Se cada official cumprir rigorosamente o seu

dever de soldado-cidadão, só apoiando os que

julgue mais dignos de confiança, é logico que o

Exercito se fará factor importante na selecção dos

que nos venham a governar.

Dir-se-á, porém, que o individuo entregue,

nesses dominios, exclusivamente á sua propria

consciencia individual, será como uma negação do

catholico, daquelle que em qualquer terreno, que se offereça á sua acti-CATHOLICISMO E POLITICA

47

vidade, deve apresentar-se sempre como um

homem que reconhece os benefícios da autoridade,

do seu legitimo conselho, da sua mais segura

orientação.

Mas que nos ensina o Catecismo, que ouvimos

todos os dias dos nossos pastores? Que amemos

Deus acima de todas as cousas — basta um tal

mandamento para que saibamos que só nos merece

confiança aquelle que é francamente amigo de Deus

e da sua religião. Todo o nosso código de moral

poíitica está ahi resumido.

Só uma objecção ousaria contrapor, em

theoria, á opinião geral dos nossos Bispos. Não

haverá, de facto, organizado, no Brazil, o peor dos partidos contra a religião, o partido do

indifferentismo religioso, que é como que o laço de união de todos os grupillios que corvejam sobre a

nossa patria? A um tal scepticismo, não seria obra

digna de catholicos oppor forças organizadas pela

fé?

Eis o que deixo ficar sem resposta. Responda o

meu distincto amigo como quizer. Lembre-se,

entretanto, que o catholico é, como disse, o crente para quem a autoridade religiosa não é um vão

fantasma, e que os Bispos, a que estamos

confiados, devem conhecer melhor do que nós as

necessidades da Egreja, não só pelas suas luzes

naturaes, em relação mais directa com essas

mesmas necessidades, como também pelas graças

es-peciaes do seu estado, de conductores de povos,

confirmados na fé apostolica.

14 — 9 — 921.

DELIRIO AMARELLO

"Dans son vieux style encore a des graces

nouvelles"...

Aos olhos da gente do Norte, dessa mesma gente

a que o digníssimo e até dignerrimo sr. João Lage,

pamphletario político luso-brazileiro, vem de negar caracter e todo merito, que não seja tocar violão,

vae o sr. Nilo Pe-çanha reivindicando os seus

titulos de pensador e mesmo de escriptor.

É a sua sociologia um pouco differente da do

sr. João Lage. Ella é toda louvores aos homens que

têm habitado aquellas regiões, desde o tempo de

Salomão. Só numa coisa se harmonizam os dois

sociologos: o sr. Nilo, como o sr. Lage, têm em

horror o nacionalismo brazileiro. É o que nos

dizem os telegrammas do Pará.

Não é que o sr. Nilo analyze os dados do

nacionalismo, no que tem de doutrinário. Não. S.

ex. limita-se a dizer que se trata de uma "neurose", egual á que,em toda parte,

50

A REACÇAO DO BOM SENSO

foi consequencia da guerra, "neurose" que "nos quer isolar nos nossos proprios desertos", etc, etc.

Mas, s. ex. está positiva e duplamente

enganado.

Não ha mais desertos neste paiz. Os que havia,

já revolvidos pela "grande figura de Rondon"

(reparem os catholicos), estão hoje povoados, todos povoados pelos melhores e mais notaveis

positivistas do mundo, aquelles que, de um salto,

passaram do estado fetichico ao formulado como

ideal pelo saudosissimo A. Comte.

Também a peor "neurose" de que vamos

soffrendo não é a do nacionalismo.

Uma notavel bellesa litteraria de um dos

discursos de s. ex. é aquelle "delírio verde da Amazônia", phase esta que o sr. Mendes Fradique certamente não esquecerá, no 2.° volume da sua

grande "Historia do Brazil, pelo methodo confuso".

Pois bem: nesta questão de delirios, nós, de

Norte a Sul, estamos a parecer um arco-iris... Quem sabe o que pensará o sr. Nilo do "delirio amarello", que a sua attitude politica vae provocando?

Ha uma coisa que honra positivamente s. ex.

Dizem que s. ex. recusou qualquer negociação com

o "chantagista", fabricante das suppostas cartas do sr. Arthur Bernardes.

Mas recusará s. ex. o seu apoio á imprensa que

lança mão de methodos dessa ordem, que apadrinha

infamias dessa natureza?

DELÍRIO -AMARELLO

51

Esta é que é a delicada questão do momento .

O sr. Nilo que, de dentro das hostes

maçonicas, aconselha a todos os catholicos que não

perturbem com as suas convicções o impudente

concubinato, em que vivemos, de credos os mais

oppostos; o sr. Nilo que faz o elo«io de Pombal e

da alma brazileira do nosso clero, ha de querer ainda casar a repulsa ao infame negocista com o

louvor á imprensa, que a esse mesmo negocista

acolheu.

Porque s. ex. não será capaz de dizer a taes

jornaes esta dura verdade: vocês baixaram muito.

Não dirá. E se disser, mas isto expressa e

publicamente, merecerá os mais francos applausos

do Brazil inteiro, excepto, já se vê, dos que agora lhe servem de braço forte, após lhe terem feito as

mais repugnantes ameaças.

Esperemos.

O sr. Nilo deve saber que, candidato á mais

alta magistratura da Republica, sobre s. ex. recaem as maiores responsabilidades da campanha

presidencial, no momento em que s. ex. mesmo só

vê com optimismo a nossa Magna Carta, mas está

como que tomado de medo panico ante a geral

desmoralização dos nossos costumes politicos.

Ora, o delirio amarello da imprensa não pôde,

em bôa logica, ter o apoio de um homem que, não

tendo o apoio da maioria dos politicos militantes,

só atravéz da imprensa poderá dar proveitosos

exemplos do que

52

A REACÇAO DO BOM SENSO

será a sua acção regeneradora, no ambiente politico nacional.

Porque s. ex., que tem promettido tanta coisa,

ainda não prometteu todo o seu esforço, para que

venha a ser lei o que todo o bom senso da nação já

pede, em relação aos nossos desmandos

jornalisticos? Comprehen-de perfeitamente o sr.

Nilo que, no mundo moderno, mesmo neste Brazil,

que s. ex. viu cheio de desertos, é da imprensa o

papel preponderante no campo da doutrinação e das

praticas politicas.

Á rapidez com que o conselho do jornal vae

directamente á consciência da massa semi-inculta e

incapaz de analyze, a diffusão da opinião de uns

tantos indivíduos por milhares e milhares de

homens, facilmente suggestionaveis, correspondem,

naturalmente, os movimentos populares, em

qualquer domínio da vida política. Está é a força da imprensa. Mas não vê o sr. Nilo que o abuso desta

força vae reduzindo o paiz a não ter, propriamente, imprensa, o que eqüivale dizer: a não ter opinião

popular, a não ter o que s. ex. chamaria vida

democratica?

Realmente, o que se vê é uma descrença geral,

um nojo profundo por tudo quanto se escreve

agora, no Brazil, sobre questões políticas .

Basta seguir, pelo resumo que faz O Jornal, o que vae sendo a actual campanha presidencial .

Os elogios são tão exaggerados quanto as

descomposturas em ambos os candidatos. E o povo,

a final, comprehenderá que é pura

DELIRIO AMARELLO

53

mystificação o que se está fazendo, pois é quasi

evidente, ao homem mais estúpido, a grosseria

desses methodos, o rude cynismo, que é a alma

desses processos.

Mas o sr. Nilo ha de concordar que, pelo

menos, não cabe á chamada imprensa bernardista o

primeiro logar, na farandula agitada pelo delírio

amarello do despudor, da falta de respeito, da

insinceridade, mesmo da mais crua immoralidade.

Deve meditar o sr. Nilo sobre tudo isto. S. ex.,

mesmo tendo ao seu lado o sr. Edmundo

Bittencourt, certo se tem como a primeira figura do nosso nihilismo... Que faz então em face de tantos

desmandos? Porque não aconselha, não prega

moderação aos seus doze pares?

Deixe-nos, a nós, catholicos, que nos guiemos

pelos conselhos da Egreja.

Deixe-nos, a nós, nacionalistas, no goso dos

nossos idéaes. Elles ainda não mataram ninguém.

Que nação já pediu indemnização ao Brazil?

Entretanto, bem vê o sr. Nilo que das duas

uma: ou a imprensa, a que s. ex. está chefiando,

acabará por anniquilar totalmente a opinião publica em nosso paiz ou forjará a Revolução, levará a

nação ás mais negras desgraças.

E será a Revolução o que quer s. ex.? Grande,

grande, grande alma de patriota!

16 — 10 — 921.

EXERCITO E POLITICA

m minha vida de escriptor, humilde, é bem

verdade, penso que tenho dado sobejas

E provas do mais radical en-thusiasmo por tudo

quanto diz respeito ao engrandecimento das nossas

classes armadas.

Se é militarismo pugnar por esse engran-

decimento, por um respeito mais vivo ás nossas

tradições militares, por um mais effusivo amor ao

nosso soldado — sou um militarista de convicção.

Uma cousa, porém, é amar o soldado —

guarda da integridade nacional, exemplo de

disciplina, amostra permanente da capacidade de

organização, viva imagem da honra, do pundonor

da sua patria — outra cousa amar, em alguns homens

armados, a quem a nação confiou algumas armas,

amar nesses homens, digo, o instincto de

prepotencia, o gosto do mando, a tendencia ao

arbitrario e ao des-preso da lei. Uma nação em que a ordem militar se sobrepõe á ordem civil é, politica-56

A REACÇAO DO BOM SENSO

mente, sempre foi, uma nação que está a morrer,

uma patria de revoluções, uma fornalha de rancores

e odiosidades, um scena-rio de negação — já não

direito da desmo-ralizadissima Liberdade dos

lemmas libe-raes — mas das liberdades por que

todo homem consciente se deve bater.

Ora, justamente o que se tem louvado nos

emprehendedores da ultima reunião do Club Militar

são essas pessimas manifestações de espirito

soldadesco mas não propriamente militar, e que

todo o mundo suppunha já não eram mais possíveis

da parte de um Exercito que tinha conseguido,

desde Prudente de Moraes, com heroicos sacrificios

das suas vaidades, consolidar o regimen

republicano .

E realmente não ha espirito militar onde não

estiver o espirito de ordem e disciplina, no seu

maximo gráo de perfeição.

Entretanto, tudo leva a crer que ainda não

passou a ser lettra morta a da nossa Constituição

republicana, que ainda subsistem os tres poderes a

que a nação delegou a direcção da sua vida política.

Bem ou mal constituídos, o certo é que ha

representantes desses poderes, que os cidadãos do

Exercito como taes reconheceram, representantes

que ainda não se demittiram das suas funcções, e o

Exercito não é, que me conste, nenhum poder outro

que possa pretender dirigir e vigiar aquelles a que todos os cidadãos, soldados ou não, têm o dever de

respeitar.

Basta ao regimen a desgraça das Camaras

deliberativas, que os povos civilizados.

EXERCITO E POLITICA

57

mais tarde ou mais cedo, hão de pôr de lado, para

conservar a própria civilização, depois talvez que

todos elles experimentem o que são essas Câmaras

no maximo do seu logico desenvolvimento, isto é,

assembléas de operarios e soldados...

E nós onde já estamos?

Ninguém pode negar que o que se passa

actualmente na capital da Republica é

absolutamente anormal, e estamos, por assim dizer,

num momento caracteristicamente revolucionario.

Não posso crer que o Exercito tenha

consciencia do mal que está fazendo ao paiz, mas

não ha disfarçar com a declaração de que os

militares, ultimamente reunidos, nada mais queriam

que um simples exame pericial de um carta

attribuida a um dado político, e recheiada de

pesados insultos ás classes armadas.

Não ha quem ignore, e os militares não são

mais ingênuos que o resto da nossa gente, não ha

quem ignore que a accusação ao sr. Arthur

Bernardes nasceu da paixão politica, da vergonhosa

exploração, puramente politica, e da peior poltica

que se vem fazendo após a proclamação da

Republica.

E o que ha a perguntar é o seguinte: que pode

legalmente fazer o Exercito após o exame pericial daquelle ignobil documento?

No próprio seio das classes armadas não faltou a

voz do bom senso, que soube dizer com clareza

que, no caso de ser verdadeiro tal documento (de

caracter intimo e, ainda mais, roubado) dada a retratação de seu au-58

A REACÇÃO DO BOM SENSO

tor — só uma attitude seria digna de um Exercito

não commandado pelo "Correio da Manhã", e que não quizesse ultrapassar os seus direitos, em face da nação, que o organizou: a de esperar calmamente o

que a mesma nação decidisse nas urnas, que este é,

infelizmente, digo eu, o meio legal, único, de

manifestar-se a vontade da nação, de conformidade

com a sua Magna Carta, em cuja apressada

elaboração têm os militares muitas

responsabilidades.

Digam o que quizerem dizer os que julgam

proveitoso, o abuso da força, mas a verdade é que,

dentro da lei, respeitada a Constituição, mesmo se o sr. Bernardes fosse o autor de carta tão

incrivelmente impolitica, insensata e sobretudo

imbecil — mesmo que fosse o autor daquelle mal

feito e reles attes-tado de maldade humana — se a

nação o elegesse seu Presidente, se as forças

politicas o elevassem á mais alta magistratura do

paiz, o Exercito nada mais tinha a fazer que acatar-lhe a posse, porque o Exercito é órgão da nação e

não a nação mesma, será o braço armado do paiz

mas não a sua cabeça, e não lhe cabe, de modo

algum, dirigir quem, de direito, o dirige. É

mandatario e não mandante, é força que faz

respeitada a lei mas não a lei mesma, e só é força

útil e louvável emquanto a lei fôr como que o seu

espirito, a força da sua força.

Tudo o mais é sophisma, é volta ao periodo

anormal da consolidação da Republica, é

desmoralização do Brazil, bem maior do que seria a

elevação á Presidencia do homem mais

EXERCITO E POLÍTICA

59

perfido e mais ruim do mundo, pois um homem é

cousa que passa, mas o Exercito é forca viva da

nação, que não pode passar nunca, e em cujo seio

um germen de desordem pode ter consequencias as

mais funestas.

Reunido o Club Militar para decidir a questão

da carta (que é, no fundo, a questão das

candidaturas, como de todos os modos diz a

imprensa do sr. Nilo) pró ou contra o sr. Bernardes, a verdade é que estavam aquelles que ali

representavam o Exercito fora, absolutamente fora,

das suas attribuições.

A demais uma cousa têm esquecido os que

vivem a proclamar que o povo brazileiro é solidário com esta miseravel campanha de diffamação

pessoal, que não desmoraliza o candidato da

Convenção (como parece que não desmoralizou o

sr. Nilo) mas sim toda a politica nacional; e o que está esquecido é que o Rio de Janeiro não é todo o

Brazil. "Le genre humain estil donc tout entier dans les capitales? — já perguntava José de Maistre,

justamente na sua obra magistral sobre a soberania .

Quando o Exercito fez a Republica com um

simples movimento de revolta nos quartéis do Rio

de Janeiro, só o fez porque, erradamente ou não, era a Republica aspiração de todo o Brazil desde 1817,

pelo menos. Qualquer imposição sua neste

momento, teria consequencias muito differentes e a

lição do governo Hermes, tão miseravelmente

calumniado pelos mesmos órgãos que hoje

calumniam o sr, Bernardes, não devera ser nunca

60

A REACÇÃO DO BOM SENSO

mais esquecida pelos que amam deveras a farda brazileira.

O que assombra no meio de tudo o que se vem

passando é a passividade real do sr. Epitacio, é a

sua não menos real paixão da espectaculosidade...

Forças, todas as horas, a attrair, no centro da cidade, a curiosidade dos desoccupados, e a desordem

campeando como se taes forças fossem de papelão.

Chega a parecer que o sr. Epitacio neste

momento da nossa vida política, é a unica esphinge

que ha a decifrar...

Deus o proteja.

15 — 11 — 921.

EGREJA E POLITICA

I

Está muita gente, entre os catholicos, que

realmente são catholicos, mergulhada em espanto e

como que assombrada deante da folha de serviços

prestados pelo sr. Nilo Peçanha á Egreja catholica, no Brazil, folha esta agora publicada sob a

responsabilidade do exmo. revmo. sr. D. Abbade de

S. Bento, para confusão, como diz "O Imparcial", dos que exploram os sentimentos religiosos do

nosso povo, em prol do sr. Arthur Bernardes.

Não sei porque o espanto, não vejo de que

assombrar-se... S. ex. revma. o sr. D. Abbade não é exemplo unico em nossa vida, dessa singularissima

e admirabilissima posse de boa saúde chrislã, á

sombra protectora dos grandes liberaes que, em

nome da Maçonaria, tem feito mais altos, mais

formosos e mais convidativos os muros da cidade

anti-christã no mundo moderno, tão

62

A REACÇÂO DO BOM SENSO

bem estudada já por D. Paul Benoit e tantos outros.

O abbade illustre sabe perfeitamente que juizo

faria um D. Felix Sarda y Salvany, por exemplo,

desse amor assim contessado, em confissão em que

abundam tantas provas de sacrificio de ambos os

lados: o sr. abbade curvando, humilde, a cabeça

sacerdotal ante o poderoso tripingado, e este,

esmagando o seu ardente liberalismo, a amparar, a

ajudar o filho de um paiz cujas instituições politicas eram até então tão pouco democraticas, o chefe de

uma casa da Egreja, em que, justamente, quasi não

se fez ainda concessão ao egualitarismo

revolucionario... Commovedor e edificante!

Mas até ahi creia a imprensa do sr. Nilo

Peçanha e creiam os crentes espantadiços que á

Egreja catholica pouco interessam essas coisas.

Do sabor um pouco acre que deve ter a

amizade de um frade, quasi príncipe e ainda por

cima allemão, com s. ex. o sr. Nilo Peçanha, liberal vermelhão nestes brazis, e membro da Maçonaria

Universal, nada se deve dizer, senão que a historia se tem repetido e se repete, no Brazil, daquelle

engano de alma ledo e cego, que a fortuna não

deixou durar muito nas plagas européas.

Á imprensa do sr. Nilo cabe tirar disto bom

proveito. A nós, catholicos brazileiros, não

obrigados a obedecer ao sr. Abbade, o caso pouco

interessa. Pôde deixar-nos na alma um pouco de

tristeza, mas só isto...

Uma cousa unica vale para nós neste

EGREJA E POLITICA

63

momento, e já se vê que não me refiro somente aos

catholicos do Rio de Janeiro, mas aos catholicos de todo o paiz: a palavra dos nossos Bispos, quando

ella directamente se faz ouvir.

Já sabemos que grande numero delles falou

alto e bem claro sobre a attitude que devemos ter no pleito a cujas peripecias vamos assistindo. Mas ha

Bispados em que os que governam se têm

conservado silenciosos, como alheios á luta. Estarão por isso, os subditos desses Bispos, entregues a si mesmo, desorientados, divididos nas suas opiniões?

Estarão se o quizerem, se quizerem esquecer que,

além das obrigações directamente determinadas

para com a Egreja, mil outras existem, que é mister cumprir também, e decorrentes daquellas, pela

lógica mesma das relações entre os princípios que

nos regem. E nem é precio a cada passo esteja um

Bispo a relembrar deveres que a Egreja já tem cem

vezes esclarecido. O catholico que hoje os esquece

é porque os quer esquecer e não porque ignore o

que lhe ordena a Egreja pela palavra dos seus

Chefes Supremos, em múltiplas occasiões dirigida a

todos os povos. De 1738 aos nossos dias, por

exemplo, a Maçonaria tem sido absolutamente

condemnada na sua existência e nos seus processos

pelos Pontifices Romanos a quem, tanto nós,

crentes humüimos, como todos os abbades e até

Bispos, devemos obediência e acatamento.

"Evite cada um ter laços de amizade e de

familiaridade com pessoas suspeitas de

64

A REACÇÃO DO BOM SENSO

pertencerem á Maçonaria ou a sociedades que lhe

são af filiadas."

São palavras do Santo Padre Leão XIII,

resumindo, por assim dizer, o que já haviam dito os seus antecessores. Leão XIII é uma das maiores glorias da Egreja visivel e militante; se ha exaggero ou erro nestas palavras, não sei que a Egreja

universal ja os tenha condemnado. E não ha

sophisma, venha elle de quem vier, de grande ou de

pequeno, de um simples saeristão da roça ou da

aristocrática figura de um abbade benedi-ctino, que possa merecer mais fé, a um verdadeiro catholico,

que o que tem por defensor o vulto daquelle grande

Papa, que não pode, de modo algum, ser accusado

de perturbador da paz universal. Pois nem elle

temeu condemnar com tanto rigor a seita poderosa,

que se allia, na pessoa do sr. Nilo Peçanha, ao amor da grande e immortal Ordem Benedictina.

Os catholicos em geral nada têm que ver com

os erros individuaes neste dominio, tão agitado

agora, da politcia nacional.

Pouco importa que a apagada figura do sr.

Conego Galrão vibre de tempos para cá, semi-

jupiter de apartes grotescos, em defesa, não do sr.

Seabra, mas do sr. Nilo Peçanha e da sua politica

revolucionaria. Pouco importa que catholicos de

reconhecido mérito estejam militando na mesma

confraria em que brilham tão conhecidos inimigos

da Egreja.

Só os srs. Bispos teriam o direito de

condemnal-os ou, pelo menos, esclarecel-os

EOREJA E POLÍTICA

65

publicamente. Nós, os que ainda resistimos aos

sophismas da politicagem que tudo quer confundir,

só temos que zelar por nós mesmos e não esquecer

nunca, mesmo deante dos exemplos mais

desnorteadores, que, acima das opiniões

individuaes, acima de todos os indivíduos, estejam

onde estiverem em altura, na hierarchia catholica,

está a palavra da Santa Sé, está a sabedoria dos

Pontifices Romanos.

Quem não está com a Egreja está contra a

Egreja. Esta é que é a verdade e tudo o mais é puro, puríssimo sophisma, e já muitas vezes despedaçado

pela logica dos factos.

27 — 11 — 921.