A Rebelião das Massas por José Ortega y Gasset - Versão HTML

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Apresenta

A REBELIÃO DAS MASSAS

Jose Ortega y Gasset

Copyright

Autor: José Ortega y Gasset

Tradutor: Herrera Filho

Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores

Nelson Jahr Garcia (in memorian!)

ÍNDICE

Apresentação

Biografia do autor

PRÓLOGO PARA FRANCESES

PRIMEIRA PARTE

I - O fato das aglomerações

II - A ascensão do nível histórico

III - A altura dos tempos

IV - O crescimento da vida

V - Um dado estatístico

VI - Começa a dissecação do homem-massa

VII - Vida nobre e vida vulgar, ou esforço e inércia

VIII - Porque as massas intervêm em tudo e porque só intervêm

violentamente

IX - Primitivismo e técnica

X - Primitivismo e história

XI - A época do "mocinho satisfeito"

XII - A barbárie do "especialismo"

XIII - O maior perigo, o Estado

SEGUNDA PARTE

QUEM MANDA NO MUNDO?

XIV - Quem manda no mundo?

XV - Desemboca-se na verdadeira questão

EPÍLOGO PARA INGLESES

Quanto ao pacifismo

As vitrinas mandam

Juventude

Masculino ou feminino?

NOTAS

APRESENTAÇÃO

Nélson Jahr Garcia

"A Rebelião das Massas", obra prima de José Ortega y Gasset,

começou a ser publicado em 1926 num jornal madrilenho ("El Sol").

Retrata as grandes transformações do século XX, especialmente

na Europa, com ênfase no processo histórico de crescimento das

massas urbanas. Não se refere às classes sociais mas às multidões e

aglomerações. Tendo esse contexto como pano de fundo, Ortega

discute temas, aparentemente contrários entre si, mas que se fundem

(ou devem fundir-se) numa unidade de sentido. É assim que contrapõe

individualismo e submissão ao coletivo; comunidade, nação e estado;

história, presente e porvir; homens cultos e especialistas; poder

arbitrário e respeito à opinião pública; juventude e velhice; guerra e

pacifismo; masculino e feminino.

São tópicos que, inevitavelmente, nos induzem à reflexão crítica.

Em alguns casos são apresentados de forma extremamente

provocativa.

Referindo-se ao poder do dinheiro, minimiza seu significado e

afirma:

"É, talvez, o único poder social que ao ser reconhecido nos

repugna. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em

nós um eco último de simpatia e estima. Incita-nos a rechaçá-la

criando uma força paralela, mas não nos inspira asco. Dir-se-ia que

nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência; porém ela

mesma nos parece um sintoma de saúde, um magnífico atributo do

ser vivente, e compreendemos que o grego a divinizasse em

Hércules."

Discutindo o fato de que os antigos gregos expressavam um certo

desprezo pelas mulheres, acaba por concluir que estas acabaram se

masculinizando:

"A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil, uma espécie de

atleta com seios. E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha

sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o

século XIX, quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor

pela pura, extrema feminilidade. O cânone da arte grega ficou inscrito

nas formas do moço desportista, e quando isto não lhe bastou preferiu

sonhar com o hermafrodita."

Sobre a guerra, chega a afirmar:

"O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não

tem presente que a guerra é uma genial e formidável técnica de vida e

para a vida."

Sua interpretação do modelo escravista é bastante sugestiva:

"Do mesmo modo, costumamos, sem mais reflexão, maldizer da

escravidão, não advertindo o maravilhoso progresso que representou

quando foi inventada. Porque antes o que se fazia era matar os

vencidos. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou,

em vez de matar os prisioneiros, conservar-lhes a vida e aproveitar

seu labor."

São essas aparentes contradições que estimulam nosso espírito

crítico. Ortega defendeu suas concepções com vigor, fundamentos

sólidos e uma lógica irreprensível. Em poucos momentos foi

totalmente conclusivo, mas deixou uma enorme abertura para que

possamos repensar as idéias que defendeu em seus dias, adaptando-

as ao nosso tempo e ao que viveremos no futuro.

BIOGRAFIA DO AUTOR

José Ortega y Gasset nasceu em Madrid, a 9 de maio de 1883. A

família de sua mãe era proprietária do jornal madrilenho "El Imparcial"

e seu pai jornalista e diretor desse mesmo diário.

Essa relação com o jornalismo foi essencial para o

desenvolvimento de sua formação intelectual e seu estilo de

expressão literária. Grande parte de seus escritos filosóficos foram

produzidos a partir do contato com a imprensa. Ortega, além de

considerado um dos maiores filósofos da língua espanhola também é

lembrado como uma das maiores figuras do jornalismo espanhol do

século XX.

Tendo adquirido as primeiras letras em Madrid foi enviado a cursar

o bacharelado em um colégio jesuíta de Málaga. Embora

reconhecendo o valor da educação jesuítica recebida, reagiu contra os

tênues fundamentos da ciência adquirida, formulando um projeto

pessoal de reforma da filosofia européia.

Terminando os estudos em Málaga iniciou seus estudos

universitários em Deusto e depois na Universidade de Madrid, onde se

doutorou em Filosofia. Buscando uma formação intelectual mais sólida

continuou seus estudos em Marburgo, na Alemanha, onde prevalecia

o neokantismo. Acabou por adotar uma atitude crítica em relação aos

seus mestres e a Kant, que se refletiu na afirmação: "Durante dez

anos vivi no mundo do pensamento kantiano: eu o respirei com a uma

atmosfera que foi, ao mesmo tempo, minha casa e minha prisão (...)

Com grande esforço, consegui evadir-me da prisão kantiana e escapei

de sua influência atmosférica."

A partir de 1910 iniciou uma vida pública repartida entre a docência

universitária e atividades políticas e culturais extra acadêmicas.

Com o início da guerra civil espanhola, em julho de 1936, Ortega

decidiu andar pelo mundo, viajando à França, Holanda, Argentina,

Portugal, países onde proferiu inúmeras conferências.

Suas obras se revestem de um caráter extremamente crítico, as

mais polêmicas das quais foram: "Meditaciones del Quijote", "Que és

filosofia?", "En torno a Galileo", "Historia como sistema","Rebelión de

las masas", "Obras Completas". Foi também co-fundador do diário "El

Sol" e fundador e diretor da "Revista de Occidente".

Faleceu em Madrid no dia 18 de outubro de 1955.

PRÓLOGO PARA FRANCESES

I

Este livro - supondo que seja um livro - data... Começou a ser

publicado num jornal madrilenho em 1926, e o assunto de que trata é

demasiado humano para que pudesse escapar à ação do tempo. Há

sobretudo épocas em que a realidade humana, sempre instável, se

precipita em velocidade vertiginosa. Nossa época é dessa classe

porque é de descidas e quedas. Daí que os fatos ultrapassaram o

livro. Muito do que nele se enuncia foi logo um presente e já é um

passado. Além disso, como este livro circulou muito durante estes

anos fora da França, não poucas de suas fórmulas chegaram ao leitor

francês por vias anônimas e são puro lugar comum. Teria sido, pois,

excelente ocasião para praticar a obra de caridade mais adequada a

nosso tempo: não publicar livros supérfluos. Eu fiz tudo que me foi

possível em tal sentido - vai para cinco anos a Casa Stock me propôs

a sua versão -; mas me fizeram ver que o organismo das idéias

enunciadas nestas páginas não corresponde ao leitor francês, e que,

acertada ou erroneamente, seria útil submetê-lo a sua meditação e a

sua crítica.

Não estou convencido disso, mas não há motivo para formalismo.

Importa-me, entretanto, que não entre na sua leitura com ilusões

injustificadas. Conste, pois, que se trata simplesmente de uma série

de artigos publicados num jornal madrilenho de grande circulação.

Como quase tudo que escrevi, estas foram páginas escritas para uns

quantos espanhóis que o destino colocou à minha frente. Não é

sobremodo improvável que minhas palavras, mudando agora de

destinatário, consigam dizer aos franceses o que elas pretendem

exprimir. Não posso esperar melhor sorte quando estou persuadido de

que falar é uma operação muito mais ilusória do que se supõe,

certamente, como quase tudo que o homem faz. Definimos a

linguagem como o meio de que nos servimos para manifestar nossos

pensamentos. Mas uma definição, se é verídica, é irônica, encerra

tácitas reservas, e quando não a interpretamos assim, produz funestos

resultados. Assim esta. O de menos é que a linguagem sirva também

para ocultar nossos pensamentos, para mentir. A mentira seria

impossível se o falar primário e normal não fosse sincero. A moeda

falsa circula apoiada na verdadeira. No final das contas, o engano vem

a ser um humilde parasita da ingenuidade.

Não; o mais perigoso daquela definição é o acréscimo otimista com

que costumamos escutá-la. Porque ela mesma não nos assegura que

mediante a linguagem possamos manifestar, com suficiente justeza,

todos os nossos pensamentos. Não se arrisca a tanto, mas tampouco

nos faz ver francamente a verdade estrita: que sendo ao homem

impossível entender-se com seus semelhantes, estando condenado à

radical solidão, esgota-se em esforços para chegar ao próximo.

Desses esforços é a linguagem que consegue às vezes declarar com

maior aproximação algumas das coisas que acontecem dentro de nós.

Apenas. Mas, habitualmente, não usamos estas reservas. Ao

contrário, quando o homem se põe a falar, isto faz porque crê que vai

poder dizer tudo que pensa. Pois bem, isso é o ilusório. A linguagem

não dá para tanto. Diz, mais ou menos, uma parte do que pensamos e

põe uma barreira infranqueável à transfusão do resto. Serve

bastantemente para enunciados e provas matemáticas; já ao falar de

física começa a ser equívoco e insuficiente. Porém quanto mais a

conversação se ocupa de temas mais importantes que esses, mais

humanos, mais "reais", tanto mais aumenta sua imprecisão, sua

inépcia e seu confusionismo. Dóceis ao prejuízo inveterado de que

falando nos entendemos, dizemos e ouvimos com tão boa fé que

acabamos muitas vezes por não nos entendermos, muito mais do que

se, mudos, procurássemos adivinhar-nos.

Esquece-se demasiadamente que todo autêntico dizer não só diz

algo, como diz alguém a alguém. Em todo dizer há um emissor e um

receptor, os quais não são indiferentes ao significado das palavras.

Este varia quando aquelas variam. Duo si idem dicunt non est idem.

Todo vocábulo é ocasional (l). A linguagem é por essência diálogo, e todas as outras formas do falar destituem sua eficácia. Por isso eu

creio que um livro só é bom na medida em que nos traz um diálogo

latente, em que sentimos que o autor sabe imaginar concretamente

seu leitor e este percebe como se dentre as linhas saísse u'a mão

ectoplástica que tateia sua pessoa, que quer acariciá-la - ou bem, mui

cortesmente, dar-lhe um murro.

Abusou-se da palavra e por isso ela caiu em desgraça. Como em

tantas outras coisas, o abuso aqui consistiu no uso sem preocupação,

sem consciência da limitação do instrumento. Há quase dois séculos

que se acredita que falar era falar urbi et orbi, isto é, a todos e a

ninguém. Eu detesto essa maneira de falar e sofro quando não sei

concretamente a quem falo.

Contam, sem insistir demasiado sobre a realidade do fato, que

quando se celebrou o jubileu de Victor Hugo foi organizada uma

grande festa no palácio do Elíseo, da qual participaram, levando suas

homenagens, representações de todas as nações. O grande poeta

achava-se na grande sala de recepção, em solene atitude de estátua,

com o cotovelo apoiado no rebordo de uma chaminé. Os

representantes das nações adiantavam-se ao público e apresentavam

sua homenagem ao vate da França. Um porteiro, com voz estentórica,

anunciava-os:

"Monsieur le Représentant de l'Anglaterre!" E Victor Hugo, com voz

de dramático trêmulo, virando os olhos, dizia: "L'Anglaterre! Ah,

Shakespeare!" O porteiro continuou: "Monsieur le Représentant de

l'Espagne"! E Victor Hugo: "L'Espagne! Ah, Cervantes!" O porteiro:

"Monsieur le Représentant de L'Al emagne!" E Victor Hugo:

"L'Al emagne! Ah, Goethe!"

Mas então chegou a vez de um senhor baixo, atarracado, balofo e

de andar desgracioso. O porteiro exclamou: "Monsieur le Représentant

de la Mésopotamie!"

Victor Hugo, que até então permanecera impertérrito e seguro de si

mesmo, pareceu vacilar. Suas pupilas, ansiosas, fizeram um grande

giro circular como procurando em todo o cosmos algo que não

encontrava. Mas logo se viu que o achara e que recobrara o domínio

da situação. Efetivamente, com o mesmo tom patético, com a mesma

convicção, respondeu à homenagem do rotundo senhor dizendo: "La

Mésopotamie! Ah, L'Humanité!"

Contei isso a fim de declarar, sem a solenidade de Victor Hugo,

que não escrevi nem falei à Mesopotâmia, e nunca me dirigi à

Humanidade. Esse costume de falar para a Humanidade, que é a

forma mais sublime, e, portanto, a mais desprezível da demagogia, foi

adotada até 1750 por intelectuais desajustados, ignorantes de seus

próprios limites e que sendo, por seu ofício, os homens do dizer, do

logos, usaram dele sem respeito e precauções, sem perceberem que

a palavra é um sacramento de mui delicada administração.

II

Esta tese que sustenta a exiguidade do raio de ação eficazmente

concedido à palavra, podia parecer invalidada pelo fato mesmo de que

este volume tenha encontrado leitores em quase todas as línguas da

Europa. Eu creio, todavia, que este fato é de preferência sintoma de

outra coisa, de outra grave coisa: da pavorosa homogeneidade de

situações em que vai caindo todo o Ocidente. Desde o aparecimento

deste livro, pela mecânica que nele mesmo se descreve, essa

identidade cresceu de modo angustioso. Digo angustioso porque,

realmente, o que em cada país é sentido como circunstância dolorosa,

multiplica ao infinito seu efeito deprimente quando quem o sofre

adverte que apenas há lugar no continente onde não aconteça

estritamente o mesmo, Outrora podia ventilar-se a atmosfera

confinada de um país abrindo-se as janelas que dão para outro. Mas

agora esse expediente não serve de nada, porque em outro país a

atmosfera é tão irrespirável como no próprio. Daí a sensação

opressora de asfixia. Job, que era um terrível pince-sans-rire, pergunta

a seus amigos, os viajores e mercadores que rodaram pelo mundo:

Unde sapientia venit et quis est locus intel igentiae? "Sabeis de algum

lugar do mundo onde a inteligência exista?"

Convém, entretanto, que nessa progressiva assimilação das

circunstâncias distingamos duas dimensões diferentes e de valor

contraposto.

Este enxame de povos ocidentais que alçou vôo sobre a história

desde as ruínas do mundo antigo, caracterizou-se sempre por uma

forma dual de vida. Pois aconteceu que à medida que cada um ia

formando seu gênio peculiar, entre eles ou sobre eles se ia criando um

repertório de idéias, maneiras e entusiasmos. Mais ainda. Este destino

que os fazia, a par, progressivamente homogêneos e

progressivamente diversos, há de entender-se com certo superlativo

de paradoxo. Porque neles a homogeneidade não foi alheia à

diversidade. Pelo contrário: cada novo princípio uniforme fertilizava a

diversificação. A idéia cristã engendra as igrejas nacionais; a

lembrança do Imperium romano inspira as diversas formas do Estado;

a "restauração das letras" no século XV impele as literaturas

divergentes; a ciência e o princípio unitário do homem como "razão

pura" cria os distintos estilos intelectuais que modelam

diferencialmente até as extremas abstrações da obra matemática.

Finalmente e para cúmulo: até a extravagante idéia do século XVIII,

segundo a qual todos os povos hão de ter uma constituição idêntica,

produz o efeito de despertar romanticamente a consciência diferencial

das nacionalidades, que vem a ser como estimular em cada um sua

vocação particular.

E é que para esses povos chamados europeus, viver sempre foi -

claramente desde o século XI, desde Óton III - mover-se e atuar em

um espaço ou âmbito comum. Isto é, que para cada um viver era

conviver com os demais. Esta convivência tomava indiferentemente

aspecto pacífico ou combativo. As guerras inter-européias mostraram

quase sempre um curioso estilo que as faz parecer muito com as

altercações domésticas. Evitam a aniquilação do inimigo, e são

verdadeiros certames, lutas de emulação, como as dos jovens numa

aldeia ou disputas de herdeiros pela partilha de um legado familiar.

Um pouco de outro modo, todos vão ao mesmo. Eadem sed aliter.

Como Carlos V dizia de Francisco I: Meu primo Francisco e eu

estamos de perfeito acordo: ambos queremos Milão".

É de somenos importância que a esse espaço histórico comum,

onde todos os povos do Ocidente se sentiam como em sua casa,

corresponda um espaço físico que a geografia denomina Europa. O

espaço histórico a que aludo mede-se pelo raio de efetiva e

prolongada convivência - é um espaço social. Ora, convivência e

sociedade são termos equivalentes. Sociedade é o que se produz

automaticamente pelo simples fato da convivência. De sua essência e

inelutavelmente esta segrega costumes, usos, línguas, direito, poder

público. Um dos mais graves erros do pensamento "moderno", cujas

salpicaduras ainda padecemos, tem sido confundir a sociedade com a

associação, que é, aproximadamente, o contrário daquela. Uma

sociedade não se constitui do acordo das vontades. Ao contrário, todo

acordo de vontades pressupõe a existência de uma sociedade, de

pessoas que convivem, e o acordo não pode consistir senão em

precisar uma ou outra forma dessa convivência, dessa sociedade

preexistente. A idéia da sociedade como reunião contratual, portanto

jurídica, é o mais insensato ensaio que se fez de pôr o carro adiante

dos bois. Porque o direito, a realidade "direito" - não as idéias sobre

ele do filósofo, jurista ou demagogo - é, se me permitem a expressão

barroca, secreção espontânea da sociedade e não pode ser outra

coisa. Querer que o direito reja as relações entre seres que

previamente não vivem em efetiva sociedade, parece-me - perdoe-se-

me a insolência - ter uma idéia muito confusa do que é o direito.

Não deve estranhar, por outra parte, a preponderância dessa

opinião confusa e ridícula sobre o direito, porque uma das máximas

desditas do tempo é que, ao toparem os povos do Ocidente com os

terríveis conflitos públicos do presente, se encontraram aparelhados

com instrumental arcaico e ineficiente de noções sobre o que é

sociedade, coletividade, indivíduo, usos, lei, justiça, revolução, etc.

Boa parte da inquietação atual provém da incongruência entre a

perfeição de nossas idéias sobre os fenômenos físicos e o atraso

escandaloso das "ciências morais". O ministro, o professor, o físico

ilustre e o novelista soem ter dessas coisas conceitos dignos de um

barbeiro suburbano. Não é perfeitamente natural que seja o barbeiro

suburbano quem dê a tonalidade do tempo? (2)

Mas voltemos a nossa rota. Queria insinuar que os povos europeus

são há muito tempo uma sociedade, uma coletividade, no mesmo

sentido que têm estas palavras aplicadas a cada uma das nações que

a integram. Essa sociedade manifesta todos os atributos possíveis: há

costumes europeus, usos europeus, opinião pública européia, direito

europeu, poder público europeu. Mas todos esses fenômenos sociais

se dão na forma adequada ao estado de evolução em que se encontra

a sociedade européia, que não é, evidentemente, tão avançado como

o de seus membros componentes, as nações.

Por exemplo: a forma de pressão social que é o poder público

funciona em toda sociedade, inclusive naquelas primitivas em que não

existe ainda um organismo especial encarregado de manejá-lo. Se a

esse órgão diferenciado a quem se entrega o exercício do poder

público se quer chamar Estado, diga-se que em certas sociedades não

há Estado, mas não se diga que nelas não há poder público. Onde há

opinião pública, como poderá faltar um poder público se este não é

mais que a violência coletiva suscitada por aquela opinião? Ora bem,

que há séculos e com intensidade crescente existe uma opinião

pública européia e até uma técnica para influir nela - é incômodo negá-

lo.

Por isso, recomendo ao leitor que poupe a malignidade de um

sorriso ao deparar que nos últimos capítulos deste volume se faz com

certo denodo, ante o cariz oposto das aparências atuais, a afirmação

de uma possível, de uma provável unidade estatal da Europa. Não

nego que os Estados Unidos da Europa são uma das fantasias mais

módicas que existem e não me solidarizo com o que os outros

pensaram sob esses signos verbais. Mas, por outra parte, é

sumamente improvável que uma sociedade, uma coletividade tão

madura como a que já formam os povos europeus, ande longe de criar

para si seu artefato estatal mediante o qual formalize o exercício do

poder público europeu já existente. Não é, pois, debilidade ante as

solicitações da fantasia nem propensão a um "idealismo" que detesto,

e contra o qual hei pugnado toda a minha vida, o que me leva a

pensar assim. Foi o realismo histórico que me ensinou a ver que a

unidade da Europa como sociedade não é um "ideal", mas um fato de

velhíssima cotidianidade. Ora bem, uma vez que se viu isso, a

probabilidade de um Estado geral europeu impõe-se necessariamente.

A ocasião que leve subitamente a término o processo pode ser

qualquer, por exemplo, a cólera de um chinês que apareça pelos Urais

ou uma sacudida do grande magma islâmico.

A figura desse Estado super-nacional será, é claro, muito diferente

das usadas, como, segundo nesses mesmos capítulos se tenta

mostrar, foi muito diferente o Estado nacional do Estado-cidade que os

antigos conheceram. Eu procurei nestas páginas pôr em franquia as

mentes para que saibam ser fiéis à sutil concepção do Estado e

sociedade que a tradição européia nos propõe.

Nunca foi fácil ao pensamento greco-romano conceber a realidade

como dinamismo. Não podia desprender-se do visível ou seus

sucedâneos, como um menino não entende do livro senão as

ilustrações. Todos os esforços de seus filósofos autóctones para

transcender essa limitação foram vãos. Em todos os seus ensaios

para compreender atua, mais ou menos, como paradigma, o objeto

corporal, que é, para eles, a "coisa" por excelência. Só conseguem ver

uma sociedade, um Estado onde a unidade tenha caráter de

continuidade visual; por exemplo, uma cidade. A vocação mental do

europeu é oposta. Toda coisa visível lhe parece, como tal, simples

máscara aparente de uma força latente que a está constantemente

produzindo e que é sua verdadeira realidade. Ali onde a força, a

dynamis, atua unitariamente, há real unidade, embora à vista se nos

apareçam como manifestação dela apenas coisas diversas.

Seria recair na limitação antiga não descobrir unidade de poder

público apenas onde este tomou máscaras já conhecidas e como

solidificadas de Estado; isto é, nas nações particulares da Europa.

Nego redondamente que o poder público decisivo atuante em cada

uma delas consista exclusivamente em seu poder público interior ou

nacional. Convém cair de uma vez na compreensão de que há muitos

séculos - e com consciência disso há quatro - vivem todos os povos da

Europa submetidos a um poder público que por sua própria pureza

dinâmica não tolera outra denominação que a extraída da ciência

mecânica: o "equilíbrio europeu" ou balance of Power.

Esse é o autêntico governo da Europa que regula em seu vôo pela

história o enxame de povos, solícitos e pugnazes como abelhas,

escapados às ruínas do mundo antigo. A unidade da Europa não é

uma fantasia, mas de fato a própria realidade, e a fantasia é

precisamente a crença de que a França, a Alemanha, a Itália ou a

Espanha são realidades substantivas e independentes.

Compreende-se, entretanto, que nem todo o mundo perceba com

evidência a realidade da Europa, porque a Europa não é uma "coisa",

mas um equilíbrio. Já no século XVIII o historiador Robertson

qualificou o equilíbrio europeu de the great secret of modern politics.

Segredo grande e paradoxal, sem dúvida! Porque o equilíbrio ou

balança de poderes é uma realidade que consiste essencialmente na

existência de uma pluralidade. Se essa pluralidade se perde, aquela

unidade dinâmica se desvaneceria. A Europa é, com efeito, enxame;

muitas abelhas e um só vôo.

Esse caráter unitário da magnífica pluralidade européia é o a que

eu chamaria boa homogeneidade, a que é fecunda e desejável, a que

fazia Montesquieu dizer: L'Europe n'est qu'une nation composée de

plusieurs, (3) e Balzac, mais romanticamente, falava da grande famil e continentale, dont tous les efforts tendent à je ne sais quel mystère de

civilisation. (4)

III

Esta multidão de modos europeus que brotam constantemente de

sua radical unidade e reverte a ela mantendo-a, é o maior tesouro do

Ocidente. Os homens de cabeças toscas não conseguem congeminar

uma idéia tão acrobática como esta em que é preciso saltar, sem

descanso, da afirmação da pluralidade ao reconhecimento da unidade

e vice-versa. São cabeças pesadas nascidas para existir sob as

perpétuas tiranias do Oriente.

Triunfa hoje sobre toda a área continental uma forma de

homogeneidade que ameaça consumir completamente aquele

tesouro. Onde quer que tenha surgido o homem-massa de que este

volume se ocupa, um tipo de homem feito de pressa, montado tão

somente numas quantas e pobres abstrações e que, por isso mesmo,

é idêntico em qualquer parte da Europa. A ele se deve o triste aspecto

de asfixiante monotonia que vai tomando a vida em todo o continente.

Esse homem-massa é o homem previamente despojado de sua

própria história, sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil a

todas as disciplinas chamadas "internacionais". Mais do que um

homem, é apenas uma carcaça de homem constituído por meros idola

fori; carece de um "dentro", de uma intimidade sua, inexorável e

inalienável, de um eu que não se possa revogar. Daí estar sempre em

disponibilidade para fingir ser qualquer coisa. Tem só apetites, crê que

só tem direitos e não crê que tem obrigações: é o homem sem

nobreza que obriga - sine nobilitate - snob. (5)

Este universal snobismo, que tão claramente aparece, por

exemplo, no operário atual, cegou as almas para compreender que,

embora toda estrutura dada da vida continental tenha de ser

transcendida, tudo isso há de se fazer sem perda grave de sua interior

pluralidade. Como o snob está vazio de destino próprio, como não

sabe que existe sobre o planeta para fazer algo determinado e

impermutável, é incapaz de entender que há missões particulares e

mensagens especiais. Por essa razão é hostil ao liberalismo, com uma

hostilidade que se assemelha à do surdo em relação à palavra. A

liberdade significou sempre na Europa franquia para ser o que

autenticamente somos. Compreende-se que aspire a prescindir dela

quem sabe que não tem autêntico mister.

Com estranha facilidade todo o mundo se colocou de acordo para

combater e injuriar o velho liberalismo. A coisa é suspeita. Porque as

pessoas não costumam pôr-se de acordo a não ser em coisas um

pouco velhacas ou um pouco tolas. Não pretendo que o velho

liberalismo seja uma idéia plenamente razoável: como pode ser se é

velho e se é ismo! Mas sim penso que é uma doutrina sobre a

sociedade muito mais profunda e clara do que supõem seus detratores

coletivistas, que começam por desconhecê-lo. Ademais, há nele uma

intuição do que a Europa tem sido, altamente perspicaz.

Quando Guizot, por exemplo, contrapõe a civilização européia às

demais fazendo notar que nela não triunfou nunca em forma absoluta

nenhum princípio, nenhuma idéia, nenhum grupo ou classe, e que a

isso se deve o seu crescimento permanente e seu caráter progressivo,

não podemos deixar de pôr o ouvido atento (6). Este homem sabe o que diz. A expressão é insuficiente porque é negativa, mas suas

palavras chegam-nos carregadas de visões imediatas. Como do

mergulhador emergente transcendem olores abismais, vemos que este

homem chega efetivamente do profundo passado da Europa onde

soube submergir. É, com efeito, incrível que nos primeiros anos do

século XIX, tempo retórico e de grande confusão, se tenha composto

um livro como a Histoire de la Civilisation en Europe. Todavia o

homem de hoje pode aprender ali como a liberdade e o pluralismo são

duas coisas recíprocas e como ambas constituem a permanente

entranha da Europa.

Mas Guizot teve sempre péssima publicidade, como em geral, os

doutrinários. Não me surpreendo. Quando vejo que para um homem

ou grupo se dirige fácil e insistente o aplauso, surge em mim a

veemente suspeita de que nesse homem ou nesse grupo, talvez junto

a dotes excelentes, há algo sobremodo impuro. Talvez isto seja um

erro em que incorro, mas devo dizer que não o procurei, que o foi

dentro de mim decantando a experiência. De qualquer maneira, quero

ter a coragem de afirmar que este grupo de doutrinários, de quem todo

o mundo riu e fez mofas truanescas, é, a meu ver, o mais valioso que

houve na política do continente durante o século XIX. Foram os únicos

que viram claramente o que havia que fazer na Europa depois da

Grande Revolução, e foram além disso homens que criaram em suas

pessoas uma atitude digna e distante, no meio da rusticidade e da

frivolidade crescente daquele século. Rotas e sem vigência quase

todas as normas com que a sociedade presta uma continência ao

indivíduo, não podia este constituir-se uma dignidade se não a extraía

do fundo de si mesmo. Mal pode fazer-se isso sem alguma

exageração, ainda que seja somente para se defender do abandono

orgiástico em que vivia seu contorno. Guizot soube ser, como Buster

Keaton, o homem que não ri (7). Não se abandona jamais.

Condensam-se nele várias gerações de protestantes nimeses que

haviam vivido em alerta perpétuo, sem poder flutuar à deriva no

ambiente social, sem poder abandonar-se. Havia chegado a converter-

se neles em um instinto a impressão radical de que existir é resistir,

fincar os calcanhares no chão para se opor à correnteza. Numa época

como a nossa, é bom tomar contacto com os homens que não "se

deixam levar". Os doutrinários são um caso excepcional de

responsabilidade intelectual; quer dizer, do que mais tem faltado aos

intelectuais europeus desde 1750, defeito que é, por sua vez, uma das

causas profundas do presente desconcerto

Mas eu não sei se, ainda que me dirigindo a leitores franceses,

Posso aludir ao doutrinarismo como a uma magnitude conhecida. Pois

se dá o fato escandaloso de que não existe um só livro onde se tenha

tentado precisar o que aquele grupo de homens pensava, (8) como, ainda que pareça incrível, não há tampouco um livro medianamente

formal sobre Guizot nem sobre Royer-Col ard (9). É verdade que nem um nem o outro publicaram jamais um soneto. Mas, enfim, pensaram

profundamente, originalmente, sobre os problemas mais graves da

vida pública européia, e constituíram o doutrinal político mais

estimável de toda a centúria. Nem será possível reconstruir a história

desta se não se estabelece intimidade com o modo em que se

apresentaram as grandes questões ante estes homens (10), Seu estilo intelectual não é só diferente em espécie, mas o é de outro gênero e

de outra essência em face de todos os demais triunfantes na Europa

antes e depois deles. Por isso não os entenderam, apesar da sua

clássica lucidez. E, todavia, é muito possível que o porvir pertença a

tendências de intelecto muito semelhantes às suas. Pelo menos,

asseguro a quem se proponha formular com rigor sistemático as idéias

dos doutrinários, prazeres de pensamento não esperados e uma

intuição da realidade social e política totalmente diferente das usadas.

Perdura neles ativa a melhor tradição racionalista em que o homem se

compromete consigo mesmo a procurar coisas absolutas; mas

diferentemente do racionalismo linfático de enciclopedistas e

revolucionários, que encontram o absoluto em abstrações bon marché,

descobrem eles o histórico com o verdadeiro absoluto. A história é a

realidade do homem. Não tem outra. Nela chegou a fazer-se tal e

como é. Negar o passado é absurdo e ilusório, porque o passado é "o

natural do homem que volta a galope". O passado não está presente e

não teve o trabalho de acontecer para que o neguemos, mas para que

o integremos (11). Os doutrinários desprezavam os "direitos do homem" porque são absolutamente "metafísicos", abstrações e

irrealidades. Os verdadeiros direitos são os que absolutamente estão

aí, porque foram aparecendo e se consolidando na história: tais são as

"liberdades", a legitimidade, a magistratura, as "capacidades". Se