A Revolução Portugueza - O 5 de Outubro (Lisboa 1910) por Jorge de Abreu - Versão HTML

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A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910) por Jorge de Abreu

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(Lisboa 1910), by Jorge de Abreu

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Title: A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910)

Author: Jorge de Abreu

Release Date: October 4, 2008 [EBook #26777]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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BIBLIOTHECA HISTORICA

(POPULAR E ILLUSTRADA)

IV

A

Revolução

Portugueza

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A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910) por Jorge de Abreu

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O 5 DE OUTUBRO

(Lisboa 1910)

POR

JORGE D'ABREU

1912

EDIÇÃO DA CASA ALFREDO DAVID

ENCADERNADOR

30-32, Rua Serpa Pinto, 34-36

LISBOA

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A Revolução Portugueza: O 5 de Outubro (Lisboa 1910) por Jorge de Abreu

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BIBLIOTHECA HISTORICA

(POPULAR E ILLUSTRADA)

IV

A Revolução Portugueza

O 5 DE OUTUBRO

VOLUMES PUBLICADOS

I—HISTORIA

DA

REVOLUÇÃO

FRANCEZA, por F. Mignet, 1.º volume.

II—HISTORIA

DA

REVOLUÇÃO

FRANCEZA, 2.º volume.

III—A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA—O

31 DE JANEIRO (PORTO 1891), por Jorge

d'Abreu.

IV—A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA—O

5 DE OUTUBRO (LISBOA 1910), por Jorge

d'Abreu.

V—A REVOLUÇÃO E A REPUBLICA

HESPANHOLA (1868 A 1874), por Victor

Ribeiro.

NO PRÉLO

VI—A REVOLUÇÃO NIHILISTA NA

RUSSIA, por Stepniak.

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BIBLIOTHECA HISTORICA

(POPULAR E ILLUSTRADA)

IV

A

Revolução

Portugueza

O 5 DE OUTUBRO

(Lisboa 1910)

POR

JORGE D'ABREU

1912

EDIÇÃO DA CASA ALFREDO DAVID

ENCADERNADOR

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30-32, Rua Serpa Pinto, 34-36

LISBOA

Composto e impresso na Imprensa Libanio da Silva = Travessa do Falla-Só, 24—

Lisboa

Indice

• Falando aos leitores

• CAPITULO I—Da perspicacia dos espiões

ao serviço do antigo regimen

• CAPITULO II—Um «accidente de

trabalho» e uma evasão romanesca

• CAPITULO III—Os republicanos e os

dissidentes organisam o 28 de Janeiro

• CAPITULO IV—A policia descobre um

dos fios do «complot»

• CAPITULO V—Marca-se a revolta para as

4 da tarde do dia 28

• CAPITULO VI—A «ratoeira» do elevador

da Bibliotheca insuccesso do «complot»

• CAPITULO VII—O regicidio—Quem

disparou primeiro: Buiça ou Costa?

• CAPITULO VIII—Os regicidas calcularam

que a Revolução rebentaria imediatamente

ao seu acto

• CAPITULO IX—As iniciações na

carbonaria augmentam consideravelmente

• CAPITULO X—Os estudantes militares

offerecem o seu concurso á Revolução

• CAPITULO XI—Os dynamitistas

preparam a «artilharia civil»

• CAPITULO XII—As bombas de João

Borges eram pagas pela «Joven Portugal»

• CAPITULO XIII—O «comité» executivo

de Lisboa procede a um inquerito

• CAPITULO XIV—Nas barbas da policia

realisam-se diversas revistas

revolucionarias

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• CAPITULO XV—Fixa-se a data do

movimento e approva-se o plano definitivo

• CAPITULO XVI—No momento

culminante, o desanimo invade os

organisadores da revolta

• CAPITULO XVII—Uma parte das forças

revolucionarias installa-se na Rotunda

• CAPITULO XVIII—Os sargentos de

artilharia 1 resolvem continuar a lucta

• CAPITULO XIX—O desespero de

Candido dos Reis condul-o ao suicidio

• CAPITULO XX—O rei Manuel abandona

o palacio das Necessidades

• CAPITULO XXI—A artilharia

revolucionaria repelle o ataque das baterias

de Queluz

• CAPITULO XXII—Os ministros

dispersam-se e buscam abrigo em diversas

casas

• CAPITULO XXIII—Proclama-se a

Republica no edificio da Camara Municipal

Falando aos leitores

De todos os relatos que vieram á tona da imprensa portugueza sobre episodios

do movimento que implantou a Republica no nosso paiz, conclue-se nitidamente

esta coisa curiosa: raros foram os pontos do programma revolucionario que se

cumpriram á risca. No emtanto, o movimento triumphou. As longas horas de

espectativa dolorosa, que uns passaram a desafiar a morte e outros a contas com a

torturante ignorancia da verdade, desfecharam na manhã de 5 de outubro em

delirante estralejar da victoria—alcançada simultaneamente pelo esforço heroico

de meia duzia de patriotas e a inacção de centenares de descrentes. O movimento

triumphou apesar de tudo: da ausencia, no momento supremo, de elementos de

coordenação revolucionaria, do desanimo que bem cedo invadiu quasi a totalidade

dos dirigentes da campanha, da falta sensivel de armamento destinado aos

carbonários e outros civis.

Na madrugada de 4 de outubro, á hora em que um troço de populares e de

soldados arrastava pela Rotunda o enthusiasmo dos primeiros momentos de

combate bem succedido, ainda n'uma casa dos lados da Sé duas creaturas

devotadissimas fabricavam bombas que um emissario da Revolução d'ahi a pouco

devia ir buscar. Mas o emissario não appareceu e um dos «fabricantes» sahiu á

rua a inteirar-se da situação. Cahiu logo nas garras da policia... E como este,

muitos outros incidentes occorreram na madrugada celebre, mais proprios, sem

duvida, a embaraçar a eclosão do triumpho do que a facilital-a.

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É que se do lado dos revolucionarios havia quem supportasse, com fé

inquebrantavel, todos os obstaculos—e não poucos—que surgiram ante o seu

designio, do lado do inimigo a convicção da perda irreparavel da monarchia

enraizara-se profundamente, abalando, com diminutas excepções, as consciencias

as mais empedernidas. Parece que, mal soaram no silencio tragico da noite os

primeiros tiros de canhão, a maioria das creaturas, ás quaes incumbia a missão de

luctar pelo regimen extincto, teve a visão clara da inutilidade do seu esforço 1 .

A influencia moral desprendida do acto revolucionario, já em precipitado

desenrolar, ajudou muito a conquista da liberdade. A presença da artilharia no

campo revoltoso, a immediata adhesão do «Adamastor» e do «S. Rafael» ao

movimento, o bombardeamento do paço, a fuga do rei e a derrota das baterias de

Queluz contribuiram innegavelmente, e em larga escala, para assegurar a victoria

da Republica; mas, a par d'esses factores, não é licito esquecer a molleza, a

inercia dos que constituiam o inimigo, uma e outra derivadas d'um scepticismo que

a monarchia, sem dar por isso, inspirava desde muito aos proprios que a serviam.

É cedo, porém, para entrarmos na enumeração e apreciação d'esses factores. O

nosso proposito, narrando o que vae lêr-se, é fixar, com o melhor methodo

possivel, os pormenores da sacudidela feliz que destruiu a monarchia portugueza,

as «étapes» do verdadeiro sonho durante o qual se desmoronou a dynastia dos

Braganças. É um pouco a historia da organisação revolucionaria seguida

logicamente do relatorio da batalha de 4 e 5 de outubro. Aqui e ali resaltarão

diversas notas confiadas por authenticos conspiradores ao signatario d'estas

linhas e que, se não modificam a impressão geral do quadro da revolta que os

leitores conhecem, emprestam-lhe, comtudo, «nuances» absolutamente ineditas que

é justo e necessario pôr em lettra redonda.

A historia da organisação revolucionaria—sabemol-o perfeitamente—

escreveram-na tres homens durante o periodo febril da sua preparação. Um

d'elles, Miguel Bombarda, destruiu, pouco antes de morrer, o capitulo mais

interessante, o que delineava, em traços symbolicos, todo o plano de ataque ás

instituições monarchicas. Liam-se n'esse capitulo a força imponente dos elementos

revolucionarios e a sua distribuição pelos pontos vulneraveis; era o balanço,

lucidissimo para os iniciados e inintelligivel para os profanos, do grande exercito

democratico que se aprestara a investir contra a realeza. Miguel Bombarda

destruiu-o receioso de que viesse a cahir, apoz a sua morte, em poder do inimigo.

O outro capitulo escreveu-o João Chagas ao sabor da opportunidade, em

minusculos pedaços de papel, nas margens livres de cartas e telegramas e até em

bilhetes de visita. Era o resumo fidelissimo das assembleias revolucionarias que

antecederam o movimento, as «actas» das reuniões secretas de militares, o registo

palpitante das adhesões que dia a dia faziam engrossar a legião republicana. Esse

capitulo não foi destruido. Atravessou o periodo mais acceso da lucta escondido

n'um chapéu feminino—o chapeu da esposa do illustre pamphletario—e só reviu a

luz do dia quando o governo provisorio já tinha iniciado a sua obra de

reorganisação politica.

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Ainda outro capitulo—o da implantação da Republica, lista dos actos, das

determinações que deviam succeder immediatamente á consagração solemne do

triumpho. Esse esteve, por instantes, condemnado a desapparecer nas profundezas

d'um syphão, transitou depois de algibeira para algibeira e por fim encontrou

refugio seguro na redacção d'um jornal, a «Lucta»... a dois passos da policia.

Qualquer d'esses capitulos, publicado isoladamente despertaria um real

interesse e daria margem não só a variadissimos commentarios como a uma

legitima exclamação de não menos legitimo espanto. Mas a nossa pretensão é mais

modesta. Na leitura do que vae seguir-se, encontrar-se-hão simplesmente os

elementos aproveitaveis á formação d'um quarto capitulo, meramente subsidiario,

não traçado por espirito de revolucionario—que o não fomos—mas annotado por

quem, durante o periodo de incerteza, limitou a sua acção pessoal a tomar

apontamentos, a ouvir informações, a apreciar incidentes, a defrontar muita

decisão, muita coragem, e, sobretudo muito medo, muito pavor. De mistura com

isto, repetimos, apparecerão os depoimentos dos revolucionarios authenticos, dos

que jogaram a vida n'uma cartada de exito.

J. DE A.

CAPITULO I

Da perspicacia dos espiões ao serviço do antigo

regimen

A policia, que o defunto juizo de instrucção criminal empregava especialmente

na espionagem dos chamados agitadores da opinião, recebeu um bello dia do final

do reinado de D. Carlos o encargo de averiguar o que projectava de sensacional o

partido republicano, que uma denuncia affirmava mover-se activamente n'uma

conspiração surda, mas tremenda. Os bufos puzeram-se immediatamente em campo

e, dentro de curto prazo, davam ao chefe conta pormenorisada da sua missão. O

relatorio d'essa espionagem, que pretendia, se não estamos em erro, elucidar

policialmente o trama revolucionario do 28 de janeiro, é a documentação mais

perfeita sobre a incapacidade dos que essa mesma espionagem exerceram. Um dos

bufos diz pouco mais ou menos isto:

Na noite de... ás... horas, vi entrar na casa n.º... da rua de... um individuo magro, trigueiro, nariz

comprido e de oculos, que se me constou ser empregado d'um judeu lá para os lados de... Sahiu da

mesma casa ás... horas e tambem se me constou que assistiu com mais vinte e tantos individuos a

uma reunião secreta.

Evidentemente, no relatorio do espião, faltam os dados essenciaes. É uma cousa

vaga, que nenhum chefe de policia podia acceitar de boa fé para d'ella concluir que

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o revolucionario assim visado era um dos mais solicitos republicanos de Alcantara.

Mas servia ao momento para justificar a verba ministerial applicada a esta e outras

diligencias e tudo conjugado, tudo espremido em volta d'outra informação policial

que descrevia um passeio de propaganda nocturna dado pelo sr. dr. Antonio José de

Almeida ás proximidades d'um cemiterio—onde conferenciara com soldados e

marinheiros—deu em resultado o supremo dirigente da espionagem enveredar pelo

caminho da phantasia, já que a verdade lhe não era nitidamente facultada pelos

vãos esforços dos seus subordinados.

Houve um momento em que a Parreirinha—ou a Bastilha, como quizerem—suou

em bica para achar o fio do complot. Pensou-se mesmo em peitar uma creatura que

se adivinhava intimamente ligada ao movimento revolucionario e obter d'ella, com

a promessa deslumbrante de farta recompensa, as informações que os bufos não

conseguiam arranjar. Apertou-se a rede da espionagem, principalmente sobre o

rasto e os menores gestos dos drs. Antonio José de Almeida e Affonso Costa e João

Chagas. Certa noite, o ex-ministro do interior, dirigindo-se para um ponto da

estrada da circumvalação onde projectava encontrar-se com elementos

republicanos, foi seguido por um bufo que tinha jurado aos seus deuses obter,

custasse o que custasse, a revelação completa d'essa conferencia secreta. Trabalho

inutil. A meio da viagem, o bufo perdeu a pista do illustre caudilho da democracia e

só logrou reavistal-o quando elle já regressava, tranquilo e risonho, ao seu

consultorio medico. Pouco bastou para a Bastilha mandar enforcar o espião

inhabil...

Em meio do seu desespero e da sua ignorancia, a policia teve um sobresalto

pavoroso. Outra denuncia, d'esta vez bem recheiada de pormenores, assignalava ao

juizo de instrucção criminal a organisação d'um complot, cujo objectivo era não só

a eliminação do dictador João Franco, que se propunha á viva força consolidar e

engrandecer o poder real, mas o de derruir, n'um golpe de audacia, as instituições

monarchicas. Dizia-se que n'esta altura da conspiração os republicanos não

contavam simplesmente com o apoio e a collaboração dos dissidentes, que, tendo

começado por lançar a semente da revolta politica no cavaco animado d'uma

pastelaria da Avenida, já tratavam a serio d'uma mudança de regimen. Dizia-se

tambem que os chefes em evidencia, os organisadores do movimento

revolucionario—Antonio José de Almeida, Affonso Costa e João Chagas—tinham

procurado o auxilio d'uma parte dos libertarios, homens de acção energica,

dispondo de meios de combate essenciaes á dispersão, no momento propicio, das

forças defensoras da monarchia e que essa fracção do partido anarchista portuguez

promettera aos republicanos uma parcella consideravel do seu esforço.

A bomba, o engenho destruidor, que é o pezadelo do que se convencionou

denominar uma sociedade regularmente constituida, passou então a ser a sombra

espectral das regiões policiaes. Descobrir a fabrica do explosivo, desvendar o

recanto solitario onde, dia a dia, homens sem medo, sem hesitações, debruçados

carinhosamente sobre pedaços de metal, apparentemente insignificantes, jogavam a

vida com um desprezo titanico, era o sonho dourado do Cyro—o Cyro, que se

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gabava de conhecer todos

os

anarchistas

militantes—e

d'uma

longa

theoria

de

famintos,

que

espionavam para terem

que comer.

Dois accidentes de

trabalho, occorridos com

pequeno intervallo um do

outro,

ergueram

aos

olhos coruscantes da

policia uma pontinha do

veu. O primeiro deu-se

n'uma casa da rua de

Santo Antonio á Estrella.

Um operario do Arsenal

de Marinha e o professor

de

ensino

livre

Bettencourt foram as

victimas da explosão

d'uma bomba—explosão

provocada

pela

D. Carlos I

imprudencia do operario

ao tentar soldar o apparelho ao fogo d'uma lampada. O segundo accidente alarmou

a cidade na tarde d'um domingo sombrio. As campainhas dos telephones vibraram

apressadamente communicando ás redacções dos jornaes a noticia do facto.

Emquanto, a poucos passos, na Avenida, uma banda regimental deliciava

centenares de pessoas descuidosas e a garridice feminina animava o quadro d'uns

tons voluptuosos, alguns revolucionarios, encafuados n'um modesto quarto de

estudante, na rua do Carrião, preparavam tranquillamente o exterminio da guarda

pretoriana. De repente, um estrondo formidavel sobresaltou a visinhança. Viu-se

sahir da janella d'esse compartimento acanhado e inexpressivo uma lingua de fogo

e d'ahi a momentos uns transeuntes mais corajosos, um bombeiro voluntario e um

policia defrontavam o espectaculo commovedor de dois cadaveres mutilados em

meio d'um armazem de bombas.

O Cyro, prevenido do facto, não tardou a apparecer no local, esbofando-se por

apprehender o alcance de tamanha revelação. Os nomes dos dois mortos não

figuravam na sua lista de anarchistas; o do preso (Aquilino Ribeiro) que a judiciaria

já fizera conduzir á esquadra proxima e que evitara, n'um gesto de gavroche, o ser

apanhado pela machina photographica d'um reporter, tambem lhe não soava

familiarmente ao ouvido. O caso era de embatucar... Os outros chefes ao serviço do

juizo de instrucção perdiam-se egualmente em conjecturas. Adivinhavam no

desastre qualquer coisa de muito tragico e de muito ameaçador para a segurança do

regimen vigente, mas não ligavam a occorrencia a outros incidentes de menor

importancia, que, todos arrumados methodicamente, poderiam talvez fornecer uma

indicação preciosa.

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Ao cahir da noite, quando a noticia do facto se divulgou pela Baixa e pelos

centros de palestra, o espanto e o terror invadiram e fizeram emmudecer muita

gente. A policia ainda tentou, com um truc velho, projectar alguma luz no

inesperado acontecimento. Sem perda de tempo, levou á Morgue o estudante preso

no local da explosão e, collocando-o em face dos corpos esphacelados dos seus dois

camaradas, forcejou por arrancar-lhe uma confissão plena. O sobrevivente do

desastre sensibilisou-se, é certo, á vista dos cadaveres, mas as lagrimas que no

momento derramou não lhe despegaram dos labios a denuncia apetecida. O truc

não surtiu effeito.

Restava applicar á imprensa a mordaça do estylo. O dictador João Franco fel-o

sem rebuço, auxiliado por alguns jornaes que, longe de reagirem contra esse

costume intoleravel de consentir que o chefe do governo ditasse pelo telephone as

poucas phrases em que a noticia de qualquer facto podia ser transmittida ao

publico, se apressaram a recordar-lhe a existencia d'uma lei, que era feroz

armadilha para insubmissos. Quer dizer: esses jornaes mettiam complacentemente,

e até com certo jubilo, o pescoço na canga da oppressão. Ainda não esquecemos o

dialogo telephonico travado na noite d'esse domingo melancholico entre o

presidente do conselho e a redacção d'um diario de Lisboa:

—V. ex.ª consente pormenores da explosão? perguntava o jornal.

—Não tenho nada com isso, respondia o primeiro ministro de D. Carlos... os

senhores bem sabem o que lhes compete fazer.

—Mas a lei de 13 de fevereiro?...

—Ah! sim, está em vigor...

—E... v. ex.ª applica-a?

—Naturalmente.

—Mas o publico precisa ser informado...

—Bem sei... mas eu nada tenho com isso... mandem ao governo civil. Vou

recommendar para ali que forneçam a todos os jornaes uma nota resumida do caso.

E assim succedeu. Uma hora depois, os reporters que tinham ido ao bebedouro

commum da informação officiosa regressavam com cinco linhas—cinco linhas

apenas, não exageramos—em que se registava, n'uma linguagem quasi sybillina, a

descoberta, por meio do desastre, do fabrico de explosivos para fins

manifestamente criminosos. Uns jornaes publicaram essa nota na integra, sem

resalvarem a proveniencia; outros, mais escrupulosos, precederam-na d'outras

linhas que a reduziam ao seu justo valor; um unico teve a coragem de transgredir as

ordens do dictador, noticiando ao mesmo passo o nome d'uma das victimas da

explosão!...

O relato pormenorisado do acontecimento com as competentes gravuras

(photographias dos cadaveres na Morgue, croquis do interior do quarto de

estudante e a reconstituição graphica da scena commovente) foi no dia immediato

exportado para o Brazil e inserto n'uma folha do Rio, afim de que se não perdesse

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totalmente o trabalho do noticiarista, a presteza do photographo e a habilidade do

desenhador.

CAPITULO II

Um «accidente de trabalho» e uma evasão

romanesca

O proprio Aquilino Ribeiro—que, diga-se de passagem, é um intellectual—

descreveu mais tarde ao signatario d'estas narrativas como occorrera o desastre da

rua do Carrião.

—Aquillo foi assim—contou elle. Eu nunca tinha feito bombas, apesar das

minhas convicções já me terem enfileirado n'um grupo libertario. Sabia que n'essa

occasião, e mercê da preparação do movimento revolucionario do 28 de janeiro,

esse fabrico se alargara a diversos pontos de Lisboa e mesmo fóra de Lisboa e dava

-me intimamente com diversos militantes e propagandistas da acção directa. Tinha

até cooperado na organisação do ataque aos quarteis e ás forças da municipal, indo

com Alfredo Costa e outros alugar quartos em varios pontos estrategicos, d'onde

projectavamos dynamitar essa legião fiel ao regimen monarchico. Um bello dia o

dr. Gonçalves Lopes pediu-me para levar ao meu quarto dois caixotes com bombas.

Hesitei, observando-lhe que a dona da casa podia attentar no facto, mas elle

desvaneceu-me todos os receios, explicando-me que necessitava absolutamente

transformar o meu aposento n'um deposito eventual de explosivos.

«Combinou-se o transporte dos caixotes do consultorio do dr. Gonçalves Lopes,

na rua do Ouro, para ali, mas, ou porque elle não me pormenorisasse bem como a

coisa devia ser feita, ou por outro motivo de que me não recordo, o moço

incumbido de os levar á rua do Carrião teve de arripiar caminho e voltou com os

caixotes para o consultorio. Grande pasmo do dr. Gonçalves Lopes e, no dia

seguinte, após uma breve explicação que eu e elle tivemos no Suisso, os caixotes

(cada um pesando approximadamente sessenta kilos) tornaram a emprehender a

viagem para o meu quarto. Desde então, passei tambem a collaborar regularmente

no fabrico de explosivos.

«Vendo o dr. Gonçalves Lopes e o commerciante Belmonte, seu companheiro na

manipulação dos engenhos, carregarem umas tantas bombas, aprendi facilmente a

operação e no domingo do desastre em que nos reuniramos para a continuar já me

comportava ao lado de ambos como um fabricante experimentado. Tinhamos

carregado umas sessenta ou oitenta e faltava ultimar muitas mais. O dr. Gonçalves

Lopes parou a descançar e disse-me:

«—Você agora podia incumbir-se do resto...

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«Eu não respondi de

prompto e, ficando assente

que á noite recomeçariamos

a operação, dispuzemo-nos,

no emtanto, a carregar mais

tres para dar por finda a

tarefa da tarde. Cada um de

nós pegou n'uma bomba

vasia. Na minha frente estava

o dr. Gonçalves Lopes e

mais

adeante

o

seu

companheiro.

O

dr.

Gonçalves

Lopes,

descuidando-se um pouco

nas precauções que era de

uso

tomar

em

taes

circumstancias, principiou a

martellar com força no

engenho que tinha na mão.

Ainda

lhe recommendei

prudencia; mas elle sorriu-se,

incredulo, do meu receio, e

continuou o trabalho. De

repente, um grande estrondo

João Franco

atordoou-me sensivelmente.

A bomba do dr. Gonçalves Lopes explodira. Vi-o cahir esphacelado, salpicando-me

de sangue e vi o commerciante Belmonte avançar para mim, soltando um grito

como o d'um animal ferido de morte. Acolhi-o nos braços, mas tive que o largar

logo a seguir porque já agonisava.

«Foi um instante de dolorosissima atrapalhação. Dirigi-me a outro quarto a lavar-

me, porque estava negro como um carvoeiro e quando voltei ao meu aposento

pensei em fugir. Mas, como? O meu chapeu parecia um crivo, o vestuario não

inspirava confiança, as mãos e a cara denunciavam-me, trahiam-me... Passeei uns

segundos pelo quarto sem saber o que fazer e quando percebi que gente estranha

subia a escada, a inquirir do estrondo, fui estupidamente esconder-me debaixo da

cama. Os primeiros minutos passei-os quieto e calado n'esse refugio d'occasião.

Mas, logo que ouvi a curta distancia os commentarios da policia e as interrogações

dos reporters, longe de procurar misturar-me com o meu amigo e os nossos

collegas—Aquilino Ribeiro era n'esse tempo collaborador da Vanguarda—comecei

a agitar-me e despertei a attenção do chefe Ferreira. Estava apanhado.

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Attentado de 1 de Fevereiro.—Assassinato do Rei. D. Carlos e Principe D. Luiz Filippe

—Levaram-me para o governo civil e depois á Morgue. Assediaram-me de

interrogatorios. Pouco antes, com a explosão da rua de Santo Antonio, á Estrella,

tinham sido presas, por suspeitas, umas cem pessoas. Com a da rua do Carrião,

apesar da extensão enorme do fabrico das bombas em Lisboa, restringi tanto o

cerco da curiosidade policial, que o chefe Ferreira apenas conseguiu incommodar

um pobre homem em casa de quem foi encontrado um cartão de visita com o meu

nome. Depois; estive dois mezes incommunicavel, durante os quaes só me queixei

d'uma coisa: da má qualidade da comida fornecida aos presos.

«Durante o periodo da incommunicabilidade procurei, naturalmente, libertar-me

da prisão. Fiz para isso, com a maior paciencia, variados preparativos. Aproveitei o

azeite que condimentava as minhas rações de bacalhau para amaciar os gonzos e os

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ferrolhos do carcere. Com o miolo de pão fiz prodigios de habilidade e de disfarce.

Em summa, quando me levantaram a incommunicabilidade já tinha quasi tudo

organisado para a evasão.

«Uns amigos prometteram-me auxilio. Era necessario arranjar um automovel

para me receber á sahida da esquadra do Caminho Novo e transportar-me a logar

seguro. Creio, porém, que os donos de dois d'esses vehiculos, aos quaes os meus

amigos se dirigiram, os não puderam dispensar e uma bella noite, quando consegui

fugir do carcere, encontrei-me na rua, só, exposto a uma chuva torrencial que me

transformava n'um pintainho. Uma vez transposto o muro do Posto de Desinfecção,

contiguo á esquadra e tendo-me deixado escorregar por uma guarita onde uns

operarios guardavam a ferramenta, atrevi-me a passar deante da sentinella da

esquadra, como se fôra um simples transeunte que recolhia a casa a deshoras.

«Fui á Estephania á procura d'um conhecido. Bati. Ninguem me respondeu. Ou

melhor, ninguem me abriu a porta. No trajecto, até lá, sempre debaixo de agua,

encontrei uma carruagem particular, vazia, mas o cocheiro, quando lhe fallei em

transportar-me, olhou-me de soslaio e respondeu com uma evasiva. Que admira! A

barba hirsuta dava-me certamente um aspecto horrivel. Tinha sobre o casaco uma

blusa com bolsos collados a miolo de pão... As botas e as calças destilavam

immensa lama... Da Estephania dirigi-me á Praça da Figueira. Deram as oito da

manhã e calculei que a essa hora a policia, sabendo da minha fuga, já andasse

pressurosa no encalço do evadido. Na Praça comprei um molho de hortaliça e tratei

de occultar o rosto o mais possivel. Fui a casa do Alfredo Costa, á rua dos

Retrozeiros. Dormia ainda. Fui a outra casa. A pessoa que a habitava aconselhou-

me o esconderijo n'outro ponto. Não acceitei o conselho e encafuei-me na taberna

do João do Grão, na travessa da Palha.

«Ahi reparei as forças perdidas com essa noitada de anciedade, de cançaço e de

chuva, comendo meia desfeita e tomando um litro de vinho. Momentos depois,

apparecia-me então o Alfredo Costa e eu entrava para uma casa da maior confiança,

conservando-me em Lisboa, escondido da policia, durante dois mezes...»

Preso um dos fabricantes de bombas, a policia volveu os olhos para todos os

amigos de Aquilino Ribeiro, calculando ser-lhe relativamente facil capturar, acto

continuo, o que ella appelidava os cumplices das vitimas. Um dos alvejados pela

perseguição da Bastilha, o dr. Alberto Costa, tendo-se injustamente convencido de

que o preso falára, abalou para Hespanha. Deu-se a fuga de outros revolucionarios,

as diligencias policiaes arrastaram-se mollemente e com evidente desorientação e,

apezar de que o desasocego dos conspiradores era de molde a infundir suspeitas aos

menos precavidos, ainda d'esta vez a espionagem do juizo de instrucção não logrou

desenrolar o fio da meada. E que admira, se no periodo de descuidosa

imprevidencia em que o dr. Alberto Costa passeiava nas ruas de Lisboa com uma

maleta cheia de bombas e se divertia a bailar, sobre uma cama que occultava uma

caixa d'esses engenhos, os Argus da Parreirinha nem por palpite o encaravam com

desconfiança!...

O fabrico de explosivos não occupava simplesmente meia duzia de pessoas.

Absorvia os cuidados de diversos grupos. Generalisara-se por uma fórma

assombrosa e, dentro e fóra de Lisboa, trabalhava-se afincadamente em centenas de

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apparelhos destruidores. Cada dia que passava sobre as arranhadelas da dictadura

via surgir para a lucta novos combatentes e novas dedicações. Então, não era só o

partido republicano que protestava contra o existente; os seus clamores de revolta

echoavam na consciencia de muitos monarchicos; a legião dos que, na primeira

hora de enganadora miragem, tinham acolhído o governo João Franco como o

advento de um Messias, esboroava-se a olhos vistos. A atmosphera em volta do

throno carregava-se progressivamente de indignação, de odio, de intranquillidade e,

a não ser D. Carlos, que nunca se sensibilisára com a agitação da massa popular, e

o ministerio franquista, que suppunha governar a contento do paiz, todos os outros

elementos argamassados pelos favores do regimen sentiam, palpavam, futuravam,

com maior ou menor largueza de vistas, a derrocada imminente.

A preparação do 28 de Janeiro proseguia com alma, com actividade febril. A

compra de armamento e a sua introdução em Lisboa, atravez das barreiras fiscaes,

haviam tomado tal incremento que os proprios organisadores do movimento se

admiravam da cegueira da policia. As reuniões secretas succediam-se

vertiginosamente. Havia como que a ancia de chegar ao fim da jornada

revolucionaria, fazendo d'um só folego a corrida heroica para o triumpho ou para a

derrota.

CAPITULO III

Os republicanos e os dissidentes organisam o 28 de

Janeiro

Quem, a dentro do partido democratico, teve a iniciativa da projectada revolta?

Não é facil responder, porque ella estava desde muito no animo dos mais fogosos

caudilhos d'esse partido. Entretanto, podemos conjecturar que, sabendo João

Chagas dos trabalhos revolucionarios que alguns dos seus companheiros de lucta já

tinham annos antes encetado, procurasse aproveital-os, realisando ao mesmo tempo

a approximação dos republicanos e dos dissidentes, que a dictadura franquista

hostilmente arredara do contacto do rei Carlos. Os primeiros passos para o

movimento foram dados em casa do visconde da Ribeira Brava, de todos os amigos

do sr. Alpoim o que então se mostrava mais inclinado a abandonar a monarchia.

Conta elle o seguinte:

«Quando se tinham malogrado todos os esforços dos partidos para subjugar o

despotismo do rei e de João Franco fui procurado pelo infeliz Alberto Costa, que

me propoz tomar eu a iniciativa da revolta. Hesitei, objectando que para isso me

faltavam os elementos populares, que estavam todos no partido republicano, e que

sósinho nada poderia fazer.

«—E se você se entendesse com o João Chagas?—retorquiu Alberto Costa.

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«—N'esse caso estou certo

de que fariamos alguma coisa

de importante.

«Ficou logo aprazado um

encontro com João Chagas,

que se efetuou n'esse mesmo

dia, a dez de julho (1907) se

não me engano, á meia noite,

junto do coreto da Avenida.

Ahi assentámos nas linhas

geraes

do

movimento

revolucionario, resolvendo-se

nomear

um

comité

organisador.

A

primeira

reunião effectuou-se no dia

seguinte, em minha casa,

comparecendo a ella Affonso

Costa, Alexandre Braga, Egas

Moniz,

França

Borges,

Mascarenhas Inglez, Marinha

de Campos e Alpoim, tendo-

se depois d'isso realisado

Manuel Buiça

ainda uma entrevista entre

José d'Alpoim e Antonio José

d'Almeida.»

Na mesma reunião e em posteriores conferencias escolheram-se, para a execução

do plano revolucionario, dois comités: o civil composto pelos srs. Bernardino

Machado e Antonio José de Almeida, membros do Directorio, e mais João Chagas,

Affonso Costa e Augusto José da Cunha; o militar formado por Candido dos Reis,

José de Freitas Ribeiro, José Carlos da Maia, Xavier Barreto, Sá Cardoso e Alvaro

Pope. O primeiro cuidado d'estes comités foi o de aggregar os elementos que

andavam dispersos mas que se conservavam fieis á causa da democracia os que

restavam da mallograda revolta de 31 de Janeiro e se tinham preparado para o

movimento de 1896, que mal chegara a esboçar-se.

Houve divergencia entre os mais evidentes dos revolucionarios por causa do

plano a executar. Uma minoria, radicalissima na maneira de proceder, não

contrariava o projecto, delineado ao de leve, de se atacar o paço das Necessidades e

forçar o rei Carlos a um embarque consecutivo para o estrangeiro. Os restantes

queriam simplesmente limitar a revolta á eliminação da monarchia com o menor

dispendio de violencia. Por fim, triumphou a parte moderada dos organisadores do

movimento e deliberou-se, em ultima analyse, fazer explodir a Revolução durante a

ausencia do monarcha em Cascaes, mesmo para que a sua estada em Lisboa não

influisse de qualquer modo na attitude que muitos dos officiaes, de politica

indefinida, por certo, adoptariam. Por outro lado, alguns dos revolucionarios

receiavam que um acto violento dirigido contra D. Carlos creasse, no extrangeiro,

difficuldades á futura Republica. Assentou-se, portanto, em definitivo, que o

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movimento rebentaria quando o rei estivesse fóra da capital. A Revolução, uma vez

triumphante, prenderia em Cascaes o soberano e a familia, e obrigal-os-hia a

sahirem do paiz.

Mas, os trabalhos dos conspiradores alongaram-se mais do que seria licito

calcular, e, como a familia real regressasse, no entanto, a Lisboa, houve precisão de

concertar outro plano, que comprehendia, novamente o assalto ao palacio das

Necessidades. N'esta altura do complot, um dos officiaes que os revolucionarios

suppunham inteiramente do seu lado commetteu uma traição e o plano soffreu

grandes modificações, recomeçando-se, n'outras bases, os trabalhos indispensaveis

á sua realisação pratica. Appareceram ainda difficuldades de diversa natureza,

contrariando fortemente a propaganda nos quarteis e o aliciamento de elementos

civis, e a situação só melhorou quando a familia real partiu para Villa Viçosa,

«simplificando bastante o programma pela suppressão d'um dos seus numeros mais

difficeis e delicados...»

O plano da campanha, urdido por um official do estado-maior, passou então a ser

cuidadosamente preparado. A cidade foi dividida em diversos sectores,

comprehendendo cada um d'elles os pontos a atacar, isto é, os pontos d'onde se

calculava que surgiria, no momento supremo, a defesa do regimen combalido. Cada

quartel da municipal e de cavallaria era cercado de uma verdadeira rede de

dynamitistas que, conjugando a sua acção com outros grupos de populares

armados, procurariam impedir a sahida, para a lucta, das forças declaradamente

monarchicas. As esquadras de policia tambem deviam soffrer o ataque dos

populares; os officiaes de marinha e outros elementos revolucionarios tomariam

conta do D. Carlos e do quartel de Alcantara; a carreira de tiro em Pedrouços e

todos os pontos onde era relativamente facil encontrar armamento seriam

egualmente visados pela acção dos revoltosos.

Para o assalto aos quarteis das forças que constituiam propriamente a guarnição

de Lisboa, João Chagas organisára vários grupos de 30 a 60 homens de todas as

classes—medicos, agronomos, engenheiros, advogados, empregados do

commercio, etc.—grupos que se distinguiam uns dos outros por um emblema

representando uma flor:—uma rodela de cartão aguarelado que o revolucionario

pendurava no forro do casaco e que só seria visivel quando elle o abrisse perante

um companheiro ou um chefe. Temos deante de nós varias d'essas rodelas e uma

nota escripta a lapis pelo punho de João Chagas, que descrimina assim a formação

das forças:

Malmequer, 60 homens.

Rosa, 30.

Violeta, 40.

Cravo, 60.

Saudade, 20.

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Crysanthemo, 40.

Papoula, 30.

Total, 280 assaltantes para os quarteis das forças da guarnição. Cada grupo tinha

previamente conhecimento do regimento onde, no momento opportuno, devia