A Sabedoria é Finita por Luiz Caramaschi - Versão HTML

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Luiz Caramaschi

A sabedoria é finita

Pagai o mal com o bem; porque o

Amor é vitorioso no ataque e invulnerável

na defesa. O Céu arma de amor a quem não

quer ver destruído.

Lao-Tsé

A conceituação da divindade marca

o compasso da evolução

O autor

Editora Sociedade Filosófica Luiz Caramaschi

Praça Arruda, 54 - Caixa Postal 44 - 18800-000 - Piraju - SP

Fone (14) 3351.1900

- 2006 -

A SABEDORIA É FINITA

(contra-capa)

Todos passam a vida na busca da evolução espiritual e expiação de pecados.

Sentem-se ínfimos diante do universo, cheios de culpas em virtude da consciência

negativa que as religiões lhes impuseram. Por causa desse fracasso não criam e não se

acham em condições de ajudar os que estão à sua volta porque sentem que as luzes que

deles refletem não têm o brilho suficiente.

Esse é o resultado da crença de que a sabedoria é infinita e por conseqüência

nunca seremos nada nesse formidoloso universo.

Recomendamos esta leitura a todas as pessoas de qualquer religião ou que não

pertençam a qualquer delas, ou ainda a agnósticos e ateus, e temos a certeza de que

todos eles, no final sentir-se-ão valorizados, sem culpas, e com a consciência do quanto

podem dar aos seus próximos.

Cientes disto, com certeza terão mais paz para viver.

Índice

I – Encontro com o filósofo

II – A velha Bíblia

III – Filhos das trevas e filhos da Luz

IV – A sabedoria é finita

V – A sabedoria do mordomo infiel

VI – Quem era a esposa da Caim ?

II – Cristianismo ou Mosaismo?!

III – Trabalho-missão e trabalho-expiação

IX – É lícito abreviar a vida?

X – Do 1. ° ao 4. ° dia da Criação

XI – Do 4. ° ao 6. ° dia da Criação

XII – Sétimo dia da Criação

PREFÁCIO

Luiz Caramaschi passou boa parte de sua vida estudando, meditando e pesquisando obras de

assuntos filosóficos para resolver as dúvidas que o angustiavam sobre a concepção divina, e quando alcançou

a paz, passou a distribuir fartamente tudo que havia conquistado a todos que o rodeavam.

Admirador de Sócrates e do seu método de ensino, denominado de maiêutica, sempre gostava de

debates, pois dessa forma tanto organizava melhor suas idéias ao expô-las, como também revia muitos dos

seus conceitos.

Filósofo de grande abrangência, estudioso de ciências, nunca se prendendo a detalhes ou fragmentos

de idéias, conseguia reunir pessoas de diferentes crenças e até mesmo agnósticos e ateus. Professor nato com

uma didática e paciência incomum para expor suas idéias, gradativamente foi granjeando simpatizantes. A

princípio eles o procuravam para especulações, e, à medida que os encontros foram amiudando, a amizade

entre eles foi acontecendo. Aquelas reuniões que, no início eram somente de estudos, foram ganhando

conotações de entretenimento, pois, além do aprendizado em comum que os enriqueciam, muitas vezes

organizavam algum passatempo agradável, que variava entre prosas descontraídas com bastante risos, jogos

e petiscos, cultivando com isso uma amizade que foi se solidificando a cada dia.

Ao escrever este livro, Luiz usou o método daquele cotidiano. Imaginou-se morando longe do

barulho da civilização, num lugarejo beira-mar, e os seus amigos passaram a ser personagens participantes

desta obra, com os quais vai dialogando e concluindo cada resultado dos assuntos propostos. Ele demonstrou

dessa forma que reconheceu o valor dos seus questionamentos e que, se permanecesse solitário no seu

recolhimento, teria tido mais dificuldade na organização de suas idéias.

Assim, apresentamos mais um trabalho desse filósofo, no qual nos aponta novas perspectivas para se

ver a verdade a qual, para ele, é o resultado da esplendorosa luz divina, que é o amor.

Nesta obra Luiz apresenta a conclusão de um estudo magnífico, que proporciona paz, independente

do credo religioso, porque convence a todos que a sabedoria é finita. Com isso o autor nos aliviou de uma

pesada carga psíquica que sempre nos trouxe desconforto, porque dormíamos e acordávamos com sensação

de culpas, em virtude da responsabilidade de evoluir sempre, o que gerava uma ansiedade ininterrupta. O

resultado dessa sua conclusão é a valorização de cada um, esteja no grau espiritual que estiver, considerando

que cada pessoa atingiu o topo de sua evolução.

A continuar naquela crença, não produzimos, não criamos e não iluminamos os nossos próximos,

porque nos sentimos sempre inferiores e não aptos para dar nada a alguém ou produzir qualquer bem, seja

na situação que for, porque nosso único objetivo é lutar para atingir aquele grau elevado, para depois sim,

produzir. Diga-se de passagem que esse nível é inatingível, porque o caminho que nos ensinaram é infinito.

A evolução por esse novo conceito, demonstrada pelo autor, será conseqüência e não uma

perseguição patológica de pagar seus débitos com a divindade. Desse modo inverte-se o círculo vicioso.

Ajudamos o próximo porque acreditamos ser espíritos sábios e evoluídos, e porque ajudamos, evoluímos, e

assim por diante.

Considerado o filósofo do futuro – porque não prescinde da ciência em seus estudos –, Luiz buscou,

sem quaisquer amarras, tanto nas escrituras cristãs como nas de outras religiões, e também nas dúvidas dos

agnósticos e ateus, a base dos conceitos que geraram a consciência de incapacidade em cada um, portanto,

que não permitiram a alegria pulsar em seus corações.

O jargão de que, se não se for a Deus pelo amor, certamente, se irá pela dor, é a confirmação de

que as pessoas vivem tristes, sem amor próprio, sabendo-se inferiores. O autor acredita e demonstra que o

caminho mais seguro e rápido para Deus é, com certeza, o da alegria, da auto-confiança e da crença de que

cada um está bem situado e atingiu o topo de sua evolução. Nessa crença, cada um, com muito prazer, tentará

distribuir aos seus próximos, sabedoria, bondade e outras formas de manifestação do amor..

OS EDITORES

I – Encontro com o filósofo

Chilon Aquilano estava visitando a cidadezinha de Cananéia, que fica ao sul do Estado de

São Paulo, quando ouviu falar do filósofo Árago Pandagis, que tem um telheiro para seu barco na

foz do Rio Mandira que é afluente do Rio da Minas. Chilon que gosta imensamente duma discussão

amigável, seja pela imprensa, ao longe, seja à viva voz, ao perto, rumou para lá, a fim de conhecer o

sábio. O dia já declinava, e o farol da Ilha do Bom Abrigo estava aceso.

Custou-lhe muito a Chilon encontrar a cabana; todavia, como diz o brocardo, quem tem

boca vai a Roma. Chegando ao rancho que lhe diziam ser o do filósofo, viu um pescador que retecia

sua rede no terreiro, aproveitando os últimos clarões da tarde, sentado num tamborete de três

pernas. Então disse-lhe Chilon:

– O senhor me poderia informar onde eu encontraria Árago o sábio?

– Eu me chamo Árago, e alguns me têm por sábio, embora eu não passe de filósofo, isto é,

de amigo da sabedoria.

– Bravo! É ao senhor mesmo que eu busco, com minhas andanças por estas bandas.

– Para que me busca ?

– Desejava trocar idéias com o senhor !

Árago que tinha suspenso o trabalho, fazendo um ar faceto, respondeu:

– Está bom. Mas eu o advirto que tenho trocado muitas idéias com muita gente, e em tais

barganhas, tenho sempre levado na cabeça. O tal quer barganhar suas idéias comigo; mas no final

das contas, ele leva o que é meu, nada me deixando em troca, pois as idéias que traz, já as desprezei

de há muito. Todavia ainda que seja você um desses, dar-me-á o prazer, não só da visita, como

ainda me possibilitará falar, visto que o falar me faz bem. Falando passo revista aos meus

conhecimentos, ampliando-os ainda mais com pormenores imprevistos. Desse modo, embora eu

perca na troca de idéias, ainda saio ganhando.

Árago disse isto com uma ponta de malícia e bom humor a lhe transparecer no sorriso,

depois do que continuou:

– Eu não moro aqui, e sim em Cananéia. Aqui só tenho este telheiro para a pesca, com

uma dependência de quatro cômodos, onde passo, às vezes, até uma semana. Neste caso trago

minha esposa para cá, para cuidar de tudo, enquanto pesco ou escrevo. Além de ela cozinhar, e

arrumar a casa pegada ao telheiro, ainda datilografa meus escritos. Às vezes Anidra, a empregada,

também vem cá, a fim de ajudar Cornélia, minha esposa, nos quefazeres domésticos. Por isso a casa

possui dois quartos, além da sala e da cozinha. Hoje nenhuma está aqui, pelo que teremos de nos ir

para minha casa. A distância, conquanto razoável, será coberta facilmente pela minha canoa

motorizada.

Árago dizia isto no tempo em que se ia dirigindo para o interior do barraco, a fim de

guardar a rede e demais petrechos de pesca, depois do que, fechou a porta. Falando ainda, convidou

a Chilon a sentar-se, acomodando-se por sua vez, no interior da canoa, puxou a cordinha do motor,

pondo tudo em movimento rumo à Cananéia. Chegados à casa foi Árago ainda quem primeiro

falou:

– Seja bem-vindo à minha casa modesta. Vamo-nos para minha biblioteca, e aí sentemo-

nos tranqüilos, pois de agora em diante, se você cumprir o prometido, estaremos fora do tempo, o

tempo todo...

Acenou Árago a Chilon para que se sentasse numa poltrona, enquanto ele tomava assento

noutra próxima. Corria Chilon os olhos pela biblioteca e demais móveis do aposento amplo, no

passo que ia Árago fazendo a descrição da serventia de cada peça:

– Ali está o aparelho de som de alta fidelidade; aqui, a poltrona reclinável, para os

exercícios hipnopédicos; mais além, o gravador de som, para música e auto-sugestões.

Após ver e ouvir tudo, Chilon, saindo-se do mutismo, perguntou:

– O senhor poder-me-ia explicar por que veio habitar nesta região, entre pescadores

incultos, em vez de em São Paulo ou Rio ?

– Isso ser-me-á fácil fazer, se você for filósofo, embora não manifesto, ao menos em

potencial. Mas se você pertencer aos outros dois tipos humanos, o avarento e o ambicioso, não me

poderá entender. Para responder sua pergunta, preciso fazer falar Sócrates, pela pena de Platão.

E assim dizendo, tirou da estante o volume “A República” de Platão (Atena Editora),

abrindo-o na página 389:

* * *

“Sócrates – Eis por que dissemos que três são os principais caracteres dos homens: o

filósofo, o ambicioso e o avarento”.

“Glauco – Com efeito”.

“Sócrates – Se perguntasses a cada um desses homens em particular qual é a vida mais

feliz, tens dúvida de que cada um deles exaltaria principalmente a sua? Porque o avarento porá a

ganância acima de todos os prazeres e desprezará a ciência e as honras, a menos que lhe sirvam de

meios para chegar à posse da riqueza.”

“Glauco – É verdade.”

“Sócrates – Que diria, por sua vez, o ambicioso, senão que é baixo o prazer que deriva das

riquezas, e vão o que resulta da ciência, a menos que o seu estudo conduza às honras e glórias?”

“Glauco – Assim é.”

“Sócrates – Pelo que toca ao espírito filosófico, afirmamos com toda convicção que

nenhum caso faz de todos os demais prazeres, em comparação com o de procurar a verdade pura; e

que, aplicando-se ao seu estudo, os desfruta mais e mais, tendo todos os mais deleites como outras

tantas necessidades, às quais ninguém se deve prestar, exceto na medida das exigências da

natureza.”

* * *

Árago, fechando o livro, exclamou:

– Eis por que vim parar neste lugar, tão logo me vi aposentado na função que exercia no

serviço público. Se eu fosse ganancioso, num esforço de enriquecer-me, iria procurar uma cidade

próspera, cheia de aventureiros, de vida caríssima, como Brasília, por exemplo, ou outras,

igualmente de vida cara, como Presidente Prudente, Londrina, Piraju etc. Se meu objetivo fosse o

prestígio, a glória, a honra, o renome, iria buscar posição de mando nos grandes centros, nas

capitais; iria ser como um desses muitos salvadores da pátria, que andam por aí em evidência,

iludindo e enganando as massas, porque ninguém poderá dar o que não tem. Mas sou filósofo, e por

isso vivo aqui nos meus vastíssimos domínios de pensamento, tranqüilo e feliz, longe desta época

de loucuras e desmandos, vivendo noutras dimensões fora do espaço e do tempo, e com a morte

superada. Conquanto esteja ainda metido neste corpo, tenho, no meu peito, uma gostosa sensação

de eternidade...

E após uma pausa, prosseguiu:

– Eu vivo em paz com estes pescadores, com os quais me misturo, copiando-lhes os trajes

e a vida simples, despreocupada. Ajudo-os, por todos os modos, pelo que são todos meus amigos.

Pesco com eles, em seus barcos, para me distrair, de vez em quando. Peixes e coisas do mar não me

faltam nunca. Eu próprio sei pescar de rede, e me dei conta de que o celeiro do oceano é

inesgotável. Filosofar é como pescar, ou seja, tirar um pouco do inesgotável oceano do saber.

Chilon ouvia atento; e, aproveitando-se de uma pausa, obtemperou:

– O senhor não acha que devia dar um pouco das suas luzes aos outros? Ou acha que deve

guardar, para si, avaramente, tudo?

Árago, tomando “A República” de sobre a mesa, respondeu:

– Ainda, se me permite, farei que fale Sócrates, visto que percebo na sua pergunta, a velada

acusação de que o filósofo é uma pessoa que não presta para nada. Sócrates propõe uma alegoria

para explicar por que as repúblicas se governam mal; a causa é por que os piores são os que,

vencendo por qualquer meio, se impõem; dizendo isto, Sócrates continuou o seu pensamento

anterior, quando afirmara: “Realmente, é provável que, se houvesse uma cidade constituída só de

bons, haveria competição para fugir ao poder, precisamente como agora existe para o obter”1.

Concluindo Sócrates o que explica sua alegoria da briga dos marujos, pela posse do leme,

prossegue:

“Sócrates – Amplas razões lhes assistem em dizer que os mais ilustres filósofos são

realmente inúteis à sociedade. Mas faze-lhes ver que a razão de tal inutilidade não se deve atribuir a

eles, filósofos, senão aos que não se dignam empregá-los. Porque, como não é natural que o piloto

suplique aos marinheiros que lhe entreguem o leme da nau, também não é curial que os filósofos

andem de porta em porta a fazer súplicas que tais aos ricos.(...) A verdade é que, rico ou pobre,

quem está doente é que deve bater à porta do médico. Quem tem precisão de ser bem governado vá

procurar quem bem o governe. Não há de ser o bom governo quem, capaz de ser útil a outrem, ande

mendigando o favor de se valerem os outros de sua luzes. Não erraram, pois, comparando com os

marinheiros da alegoria os políticos que ora se encontram à testa dos negócios públicos e chamando

filósofos aos que são tidos por gente inútil, perdida nas estrelas”2.

E fechando o livro, concluiu Árago:

– De maneira que, tornando ao meu caso, não preciso andar implorando o favor de os

outros se valerem das minhas luzes.

– Conquanto o senhor tenha fundamentado bem sua recusa em ajudar os homens, desde

que, para isso tenha de os procurar, eu peço licença para discordar do senhor e de Sócrates:

discordando, digo que não se pode querer aquilo que se desconhece; como é que os homens hão de

desejar filosofia, se nem sabem o que isso seja? Como é que hão de sentir necessidade do saber, se

isto não é, para a maioria, coisa de primeira precisão? Dê-se a conhecer o sábio, faça brilhar suas

luzes, e todos precisarão delas depois, tendo-as como coisas indispensáveis à vida, senão à do

corpo, ao menos à do espírito.

– Quê? Acaso tenho eu de ir falar às gentes nas praças, fazendo-me preceder de toques de

caixas e de cornetas? Ter-me-iam, por louco ou fanático, é certo, se isso fizesse !

– É certo que sim. Mas já se foi o tempo da escola peripatética. Agora, temos a imprensa.

– Ora, a imprensa!... Você me vem falar dela! Acaso não vê que o jornal, a revista, o livro,

tudo está nas mãos dos mercadores? Eles querem dinheiro à farta, e não idéias raras, peregrinas,

originais, sábias. Quando qualquer escrito lhe cai nas garras, vão eles logo, e às pressas, correndo

seus olhetes míopes pelas linhas. Se depois, do alto de sua sapiência econômica, “julgarem” que a

coisa é boa, dão-na ao prelo. Deste modo, quem não é suíno morre de fome, como o filho pródigo

da parábola, no meio da fartura de landes ou bolotas. O pensamento é o que governa o mundo, com

ser espírito, princípio ou lei; contudo sua abundância divina se torna escassa, por causa de o maldito

1 Platão, A República, 42 – Atena Editora

2 Platão, A República, 250 – Atena Editora

dinheiro subordiná-lo aos seus fins. É assim que, na mais universal fartura de Deus, morre-se a

fome neste chiqueiro. Eu não leio jornais, nem revistas, conquanto os receba aos montes, porque

neles, com raras exceções, só acho bugiarias. Muitas das minhas idéias eu as pus em papel, e sabe o

que sucedeu?

– Como o saberia?

– Pois nem abrindo mão dos proventos resultantes de direitos autorais, achei editor. Minha

obra fi-la, de certo, para as traças e para os ratos, pois o fim das minhas páginas será algum porão

ou sótão.

– É que o mestre tem buscado os editores, diretamente, para imprimir seus escritos; ora,

como eles são meros ganhadores de dinheiro, por isso não perguntam se em seus escritos há idéias,

mas sim, se para eles haverá público grosso. E os que não agem por dinheiro, esses são até piores,

porque são escravos da parcialidade a que pertencem, julgando ser verdade somente aquilo que

estiver de suas portas para dentro. Acrescente-se a isto as amizades, os personalismos, as

recomendações. E como para os grandes sucessos editoriais qualquer bugiaria serve, nada mais é

preciso fazer que seguir a inclinação das massas. Tem razão Ortega quando afirma: “Quando vejo

que para um homem ou grupo se dirige fácil e insistente o aplauso, surge em mim a veemente

suspeita de que nesse homem ou nesse grupo, talvez junto de dotes excelentes, há algo sobremodo

impuro”3.

– Cáspite! Até parece que sou eu quem está falando! Como você vê, trancou-se ainda mais

a porta que já me impedia de sair à luz. Como é que hei de sair a público, a não ser, então, beijando

as mãos aos editores? Aconselhar-me-ia, acaso, escrever umas pedantonas bugiarias, para começar?

Estaria, porventura, me querendo dizer que devo arranjar algum padrinho? Não vê, todavia, que

tudo isso é tão difícil, perigoso e humilhante, quanto o forçar fazer, a águia, vôo rasteiro de pardal?

Ora, meu caro Chilon, eu estou muito sossegado no meu canto, sem nenhum estímulo que me mova

a sair à luz, e ainda mais, a tal preço. Desprezo os sonhos de grandeza, e se ainda lhes sinto os

pruridos, devo lutar contra eles com toda a força e tenacidade com que se combate uma paixão

malsã. Meus vencimentos de aposentado me dão muito bem para viver. Se, pois, riquezas, glórias e

honrarias não me dominam, que coisas outras me fariam assoalhar? O que só busco é o saber, e

para isto não preciso nada mais do que já possuo, exceto aqui do meu casco – e ao dizê-lo, apontou

para a cabeça.

Chilon ouvia tudo admirado; e aproveitando a pausa falou:

– Já nem sei o que dizer; defendi suas razões e sua tese sem o querer. Façamos, todavia,

um concerto.

– Que quer combinar comigo ?

– Proponho reunirmos uma vez por semana, de preferência aos sábados, a fim de estudar

juntos vários assuntos. Nossa reunião pode até ter outros participantes. Eu tomo nota de tudo das

nossas palestras em rascunhos. Numa segunda fase, passo tudo a limpo, corrijo, acepilho e dou

forma literária. Que acha disto?

– Seja como você quiser. Você fica autorizado a pôr em papel as minhas idéias. Faça como

bem entender visto que me desinteresso de tudo; chego até a ter aversão pelos homens de imprensa,

vazios de convicções que, às mais das vezes, não passam de estilos em busca de assuntos. Estão eles

sempre prontos a escrever pró e contra qualquer coisa, porque, como já se disse, cantam a música

daqueles de cujo pão vivem. Vejamos se minhas idéias pela sua pena vão achar quem as edite.

– De acordo; aceito a condição.

– Também darei de ombros aos que me quiserem contrastar em polêmicas, por se sentirem

ofendidos de os meus raciocínios colidirem com suas opiniões preconcebidas; se minhas razões

ferirem opiniões estabelecidas, mesmo que se doam os crentes delas, não lhes darei quaisquer

3 Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas, 32

explicações. E não me causarão mossa esses tais, com seus protestos e doestos, visto que os não

levarei em conta, nem mesmo deles tomarei conhecimento. Serei igualmente indiferente tanto aos

aplausos, como à reprovação, pois só busco a verdade. Para que aquelas coisas não me perturbem a

placidez de espírito, pratico, pelo método hipnopédico, o desprendimento da vida, que nisto só

consiste o verdadeiro objetivo da filosofia. Tal, o caminho que me tracei, e você, Chilon, não me

desviará dele! não o tente!...

– Aceito, também, essa condição.

– Proponha, então, o que quer estudar comigo.

– Para começar, eu lhe desejaria fazer uma pergunta a respeito da Bíblia, de Adão, de Eva,

de que vem a ser “filhos de Deus” e “filhos dos homens”, de “filhos das trevas” e “filhos da luz”;

desejaria me dissesse, também, se a evolução e a sabedoria são finitos ou não, e outras coisas mais

que agora não me ocorrem perguntar-lhe. Tudo isto tem me causado embaraços, pois sempre que

faço tais perguntas aos que fazem às vezes de mestres, recebo respostas secas, peremptórias,

dogmáticas: é assim, ou é assado. Ora, eu quero desenvolvimentos lógicos e raciocínios e não

dogmas. Também desejaria conhecer melhor como é sua vida nesta ilha. No entanto, por hoje nossa

conversa fica só nisto, pois já é tarde e eu preciso retornar ao meu hotel. Voltarei noutra

oportunidade, e prometo será breve.

II – A velha Bíblia

No dia imediato ao do primeiro encontro com o filósofo Árago Pandagis, Chilon retornou

ao seu telheiro da foz do rio Mandira, passando lá uma tarde magnífica. Andou com Árago, em sua

canoa, passeando pelo rio das Minas, subindo até perto da embocadura do rio Ipiranguinha. Em

certo ponto, Árago meteu-se inteiro dentro d’água, a fim de desprender o arame que tinha preso a

uma raiz submersa, puxando para fora um covão de taquara com algumas lagostas, camarões e

peixes. Deixou novamente o covão no mesmo sítio, rumando, diretamente para Cananéia. Depois

do jantar, no qual Chilon tomou parte, com muito gosto, foram ambos para a biblioteca ouvir

música suave, adormecedora, recostados em poltronas acolhedoras. Passada uma hora mais ou

menos, começaram a palestra, tendo sido Chilon o primeiro quem falou:

– Bom, caro Árago, estou ansioso por ouvir-lhe sobre o tema de hoje.

– Qual é ele?

– Qualquer um daqueles já referidos. Uma vez porém que vamos estudar coisas da Bíblia,

acho que deveríamos saber primeiramente o que ela seja. Esse livro muito discutido, base de todas

seitas diferentes, é ponto de fé, principalmente para todas as seitas vindas da Reforma. Para estes a

Bíblia é a indiscutível palavra de Deus, por conseguinte, toda de inspiração divina. Que acha disso ?

– Eu não acho nem isto nem aquilo. Nós vamos estudar esse assunto com técnica precisa,

com método. Em primeiro lugar você me há de dizer qual é a autoridade máxima entre os

seguidores da Bíblia.

– Digo que são Moisés e Cristo. Apresento-lhe duas autoridades, e não uma, porque para

os cristãos é Cristo; porém, para os judeus continua ainda sendo Moisés, que o era já antes de

Cristo. Mas, como não nos interessa os judeus, digamos então que a suprema autoridade bíblica é

Cristo.

– Neste caso, tornou Árago, a primeira coisa a fazer é ver o que disse o mesmo Cristo do

Velho Testamento, pois o Novo relata coisas dele próprio. Você que é lido no assunto, discorrerá

sobre o que sabe.

– Bom. Os primeiros capítulos dos Evangelistas Mateus e Lucas tratam da genealogia de

Cristo, fazendo-o brotar do galho de Daví que saiu de Abraão. Marcos nos apresenta Cristo já

adulto, sendo batizado no Jordão por João Batista. Este batismo de Cristo, feito por João, filia-o à

seita dos Essênios, segundo muitos. João Evangelista, em seu Evangelho, mostra a filiação divina

de Cristo, dizendo que ele era o Verbo que estava no princípio com Deus, pelo que era Deus. Três

filiações, portanto: a humana, a social e a divina.

E feita uma pausa, prosseguiu Chilon:

– E Cristo firma sua autoridade divina na história que é social. Mas vamos aos pontos, por

ordem: em Mateus 21, 42, Marcos 12, 10, e Lucas 20, 17, diz Cristo: Nunca lestes nas Escrituras: A

pedra que fora rejeitada pelos edificadores, essa foi posta por cabeça do ângulo? Essa escritura, a

que se refere Cristo, é a do profeta Isaias, e está no capítulo 28, versículo 16. Em Marcos, 12, 24,

disse Cristo: Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus. Porque depois da

ressurreição, nem as mulheres terão maridos, nem os maridos mulheres; mas serão como anjos de

Deus no céu. Todavia, esta parte não é achada no Velho Testamento, de modo explícito, pelo que se

conclui que Jesus, para dizer isto, faz a exegese de algum outro ponto, no qual esta idéia fica

implícita. Em Mateus 26, 54 e Marcos 14, 49, exclama Cristo: Como se cumprirão logo as

Escrituras, que declaram que assim deve suceder? E esta Escritura está em Isaías 53, 7. Em Mateus

26, 24, está: O Filho do homem vai (ser traído) certamente, como está escrito dele etc. E Mateus

declara, no capítulo 26, versículo 56, “que tudo isto assim aconteceu, para que se cumprissem as

Escrituras dos profetas” .

– Lucas diz, prosseguiu Chilon, no capítulo 4, 16, que Cristo foi à sinagoga dos hebreus, e

tendo desenrolado o livro do profeta Isaías, leu o que estava escrito no capítulo 61, versículo 1.

Enrolando de novo o livro, disse para os presentes: – Hoje se cumpriu esta profecia nos nossos

ouvidos. Depois da ressurreição Cristo aparece a dois discípulos que iam para Emaús. E tendo se

acercado deles, sem se dar a conhecer, ensinava-lhes as Escrituras (Luc. 24, 27 e 32), começando

por Moisés, quer dizer, pelo Gênese, discorrendo, diz o texto, por todos os profetas, explicando-

lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras.

– Em João, continuou Chilon, no capítulo 5, versículo 39, recomenda Cristo: – Examinai

as Escrituras, pois julgais ter nela vida eterna, e elas mesmas são as que dão testemunhos de mim. E

em João 7, 38, declarou: – Quem crê em mim, como diz a Escritura, dele corre rios de água viva.

As escrituras desta parte encontram-se em Deuteronômio 18, 15, Isaías 12, 3 e 44, 3. Em João 7, 42,

interroga Cristo: – Não diz a Escritura que o Cristo vem da descendência de Daví, e de Belém, da

aldeia de onde era Daví? E que Escritura diz isso? É a que se acha inserta em Jeremias 23, 5, e

Miquéias 5, 2. Em João 10, 34 pergunta Cristo: – Não é assim que está escrito na vossa lei? Eu

disse: – vós sois deuses? E pouco mais adiante acrescenta que a Escritura não pode falhar (Jo 10,

35). Que lei é esta referida por Cristo? É a que se encontra em Salmos 82, 6 (João Ferreira de

Almeida).

– Noto aqui, prezado Árago, com espanto, que Cristo chama lei às poesias de Davi! E mais

me espanto ainda, quando declara, em se referindo a esta lei, que a “Escritura não pode falhar” (Jo

10, 53). E em Lucas 24, 44, diz expressamente, Cristo: – “Convinha que se cumprisse tudo o que de

mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas, e nos Salmos” .

Manuseando uns papéis que tinha nas mãos, continuou Chilon:

– Em João 17, 12, orando Cristo a Deus, recomenda a este seus discípulos, declarando que

até o momento os guardara, e que nenhum se perdeu, exceto o que já era filho da perdição;

acrescenta que tudo sucedeu para que a Escritura se cumprisse. Também, para que se cumprisse a

Escritura inserta em Salmo 22, 18, não foram rasgadas as vestes de Cristo, e antes se lançaram

sortes sobre elas Jo 19, 24). Eis de novo o poema de Davi funcionando como profecia e lei.

Igualmente, para que se cumprisse a Escritura do Salmo 69, 21, disse Cristo na cruz: – Tenho sede

(Jo 19, 28). Ainda, para que se cumprisse a Escritura do Êxodo 12, 46, Cristo morreu antes do

sábado, para que não sucedesse, como aos ladrões, lhe quebrassem as pernas e os braços (Jo 19, 36).

– Depois de tudo isto, continuou Chilon, Cristo, como querendo enfeixar toda esta

Doutrina numa sentença, declarou: – Não cuideis que vim destruir a lei, ou os profetas; não os vim

revogar, senão cumprí-los. E acrescentou: – Porque em verdade vos digo que enquanto não passar o

céu e a terra, não passará da lei um só "i", ou um "til", sem que tudo seja cumprido. E ameaçando,

agora, prossegue: – Aquele pois que quebrar um destes mínimos mandamentos, e os ensinar aos

homens, será chamado pequeno no reino dos céus; mas o que os guardar, e ensinar a guardá-los,

esse será reputado grande no reino do céus (Mat 5, 17 a 19).

E guardando as notas, prosseguiu Chilon:

– Estes são os pontos, prezado Árago, em que Cristo mostra seu respeito pelas Escrituras,

seja fundamentando nela sua autoridade, seja cumprindo à risca o que fora predeterminado pelos

profetas. Que me diz a respeito disto?

– Digo que se Cristo valida as Escrituras, que vão do Gênese a Malaquias, e sendo ele a

autoridade suprema entre os cristãos, nenhum cristão poderá desautorizar as Escrituras, sem

desautorizar também a Cristo.

– E se houver quem desacredite o Velho Testamento?

– Esse desacredita também a Cristo, pelo que não é cristão.

– Porém, se alguém se disser cristão, e desacreditar o Antigo Testamento?

– Se afirmar que é cristão e negar aquilo que Cristo afirma, e em que se firma, comete um

erro que em lógica tem um nome muito simples: absurdo.

– Será, porém, que Cristo valida todo o Velho Testamento ?

– Isso, tornou Árago, é o que nos cumpre verificar; todavia, se depois disto ficar provado

que Cristo valida todo o Velho Testamento, não cairá este, sem que também caia Cristo.

– Mas como é que iremos proceder esta averiguação?

– Ainda examinando o texto – replicou o mestre – nas partes em que Cristo discorda do

que está escrito. Se houver destes pontos não autorizados por Cristo, estes estarão revogados.

Chilon se fez pensativo. Depois, recorrendo as suas notas, prosseguiu:

– Cristo discorda do passado nos pontos em que torna mais rigorosas ainda as prescrições

dadas aos antigos, e tanto que declara: – Se vossa justiça não superar à dos escribas e fariseus, de

modo nenhum entrareis no reino dos céus (Mat 5, 20). E daqui em diante vem, no mesmo capítulo,

a reforma da lei, não pela revogação do que está escrito, senão por um aumento de rigor. Do

versículo 21 em diante vêm as partes que são encabeçadas pelas palavras: – “Ouvistes o que foi dito

aos antigos”. De maneira que Cristo discorda, não por anulação ou abrandamento dos preceitos,

senão pelo aumentar-lhes a estreiteza.

– Então Cristo – interrogou o filósofo – respeitou, cumpriu, ampliou e recomendou as

Escrituras antigas, não é assim?

– Exatamente.

– Logo, não poderá dizer-se cristão quem subestimar e negar o que Cristo respeitou, e

cumpriu, e ampliou, e recomendou.

– Mas isto não pode ser assim, “in totum”, meu amigo, pois outro dia estive eu assistindo

às festividades de Nossa Senhora dos Navegantes que, como o senhor sabe, são tradicionais aqui em

Cananéia, pelo que a cidade se regurgita de forasteiros e mercadores, estando eu, como dizia,

assistindo a esses festejos, parei, sem o perceber, nas proximidades de uma barraca, onde um

camelô mascateava suas bugigangas. Mais tarde vim a saber que o homem atendia pelo nome ou

alcunha de Lumbaio.

– Como é do seu conhecimento, prosseguiu Chilon, a 15 de agosto, encerram-se, todos os

anos, os festejos em honra de Nossa Senhora dos Navegantes. Neste dia uma embarcação maior,

enfeitada com capricho, segue na frente levando consigo a banda de música e a santa, enquanto o

grosso do acompanhamento, constituído de embarcações menores de todos os tipos, vai atrás

soltando foguetes e rojões.

E continuou Chilon, após meditar um pouco:

– Na hora da procissão, portanto de pouco movimento nas ruas, porque o povo aflui em

massa para os lados do mar, Lumbaio travou discussão com um desses fanáticos que a si se dão o

nome de testemunhas de Jeová. A todo custo Alonstro, o testemunha de Jeová, queria converter

Lumbaio, o camelô, para sua grei. Para se ver livre da importunação de Alonstro, Lumbaio atacou a

Bíblia, chamando-a de livro imoral, citando o Gênesis, versículos 11 a 18, onde Abraão, de medo

de morrer às mãos dos egípcios, concordou em que Sara, sua mulher, se fizesse concubina de faraó.

Prosseguindo em seu ataque à Bíblia, Lumbaio afirma que "Jeová é Deus parcial, pois pune ao

faraó, e não a Abraão que se sai muito rico deste evento, como refere o texto. Como se não bastasse

essa ciganice de Abraão, mais negocista que eu, repete a mesma traça com o rei Abimeleque, como

se pode ver em Gênesis capítulo 20, versículos de 1 a 14. Abraão sai desta outra ciganada de

riqueza aumentada, pois Abimeleque lhe mandou dar ovelhas, vacas, servos e servas. Mais justos

foram o faraó e Abimeleque do que Abraão; contudo, Jeová, pactuando com aquelas falcatruas de

Abraão, esteve na parcialidade deste contra aqueles dois reis".

Fez uma pausa Lumbaio, e depois prosseguiu:

– "Este homem desprezível é cognominado “o pai da fé”, pelos protestantes que são

paulinianos, visto que São Paulo declarou que “pela fé ofereceu Abraão a Isaque” (Heb 11, 17) em

holocausto, que só não se consumou, porque o mesmo Deus o suspendeu por um anjo na hora

extrema. A coisa está em que aqui perderia a vida Isaque, e por isso Abraão tem fé; todavia,

quando, no Egito e no reino de Abimeleque, foi a vida mesma de Abraão que esteve em jogo, então

Abraão não tinha fé".

E continuou Lumbaio para Alonstro:

– "Quer que fale agora da aventura de Siquem, filho do rei Hemor heveu, com Dainá filha

de Jacó? Leia-se o capítulo 34 do Gênese, e depois cada um que se pergunte: por que razão Jeová

não puniu tamanha injustiça e barbaridade de que se pasmam os leões, os tigres e os chacais?"

– E deste modo, prezado Árago, foi despejando Lumbaio o seu carcás, alvejando e ferindo

a Alonstro com sua palavra fácil, até que este fugiu horrorizado, como se tivesse dado de cara com

o demo em pessoa. Que me diz o senhor a isto? Endossaria Cristo estas e outras objeções contidas

no livro sagrado?

– É certo que não – tornou o mestre. – E aí estão os pontos que Cristo desautorizou com

seus ensinamentos e atos.

E prosseguiu Chilon em seu relato, dizendo:

– Lumbaio em seu discurso disse que Jeová é um Deus provincial, ciumento, cruel, parcial

e gostador do cheiro de assados, no que eu acho que ele tem razão. Que me diz o senhor?

– Digo que Lumbaio e você têm razão. Jeová é um Deus concebido por selvagens, para uso

de selvagens. É por isso que Voltaire, falando sobre “alma”, no seu “Dicionário Filosófico”, depois

de transcrever um trecho do Deuteronômio, acrescenta: “É manifesto nada haver em todas essas

promessas e ameaças que não seja temporal. Nem uma palavra sobre a imortalidade da alma. Nem

uma sobre vida futura” (pág. 18). Não surtiria efeito desejado se estas falas de Deus se referissem a

prêmios e castigos futuros. Observando esta mesma regra, a pedagogia moderna ensina que as

crianças não se sentirão motivadas ao aprendizado, se lhes oferecermos prêmios futuros,

longínquos, distantes. Há-se de lhes afirmar que os prêmios serão distribuídos no final da aula,

àqueles que mais se esforçarem. E há mais isto:

– A conceituação da divindade marca o compasso da evolução. Diga-me o modo como

concebes Deus, ou como a ele oras, e dir-te-ei quem és. É por isso que Cristo substituiu o conceito

de Jeová pelo de Pai nos Evangelhos; nisto também revogou o passado. No entanto o conceito de

Deus-Pai está superado, porque Pai é um conceito pessoal, limitado, antropomórfico e Deus não

pode ser entendido assim. Os conceitos se superam e nisto está o que se chama progresso. Mas é

ilógico tomar-se o homem de sanha destruidora, como procedeu Lumbaio, arrasando os conceitos

que serviram no passado, só porque dispõe de melhores luzes no presente. Ninguém consegue

pensar fora da sua época, e em qualquer julgamento histórico não se poderão desprezar as

coordenadas o lugar e a época dos acontecimentos. Fazer como Lumbaio é agir como o pavão que,

segundo a lenda, manifesta desdém pelos próprios pés, esquecendo-se de que sem pés não há pavão

nem pavonadas...

– Agora sou contente – tornou Chilon – e sinto que as dificuldades se aclaram. Prossiga o

senhor com o que dizia!

– Vamos chegar a este ponto por outros caminhos. Você me vai respondendo as perguntas.

– De acordo.

– Que é o átomo?

– É um sistema planetário no qual os elétrons, como se foram planetas em torno do Sol,

gravitam em redor do núcleo em todas as direções do espaço.

– Isso é o que se dizia antigamente. Pondere agora com sua cabeça e não com a alheia: um

elétron percorre sua órbita 1015 vezes por segundo, isto é, 1.000.000.000.000.000 (um quatrilhão) de

vezes por segundo. E a pequenez dessa órbita é humanamente inconcebível. De maneira que com

órbita tão pequena e com tal velocidade, o elétron torna-se como que onipresente em todos os

pontos de sua trajetória, pelo que a órbita eletrônica se parece com um anel como os anéis de

Saturno. Está claro?

– Está. Nunca tinha pensado nisso. Agora já concebo o átomo como uma bola, se visto por

fora, imaginariamente, uma vez que ele é constituído de argolas concêntricas, cada uma ocupando

um plano diferente do espaço.

– Você chegou então a conceber o átomo como uma bola, em nada se assemelhando ele

com sistemas planetários, onde grandes esferóides lerdos giram em torno de uma estrela central, não

em volume, mas em plano, como carrossel. De fato, “de um elétron, que circula em torno do núcleo

atômico com a velocidade de 50.000 Km/seg numa órbita de 0,000.000.000.4 mm de diâmetro

1015 vezes por segundo, não se pode dizer em que ponto da órbita ele se encontra”4. Todavia,

segundo os últimos resultados apresentados pelos matemáticos e físicos modernos, os corpos

deformam-se com a velocidade; eles se encurtam no sentido do eixo da deslocação. “A Terra gira

30 Km/seg ao redor do Sol. Em conseqüência desse movimento, o seu diâmetro no equador é 10

cm mais curto do que seria se a Terra fosse imóvel”5 .

E fazendo uma pausa concluiu Árago:

– Ora, movendo-se o elétron a 50.000 Km/seg, em sua órbita, ele se achata como um disco.

Assim, o anel orbitário que o elétron forma ao redor do núcleo, não seria uma procissão de bolas,

mas de discos, como moedas empilhadas ao longo duma circunferência. O turbilhão eletrônico ou