A Senha por Irving Wallace - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub para obter uma versão completa.

index-1_1.jpg

index-1_2.jpg

http://br.groups.yahoo.com/group/digital_source/

A SYLVIA COM AMOR

NO PRINCIPIO ERA O VERBO, E O VERBO ESTAVA COM DEUS, E O VERBO ERA DEUS.

EVANGELHO SEGUNDO S. JOÃO 1:1

E O VERBO FEZ-SE CARNE, E HABITOU ENTRE NÓS ...

EVANGELHO SEGUNDO S. JOÃO 1:14

SE DEUS NÃO EXISTISSE, SERIA NECESSÁRIO INVENTÁ-LO.

VOLTAIRE (1770)

CAPÍTULO 1

Tinha acabado de chegar ao aeroporto John F. Kennedy, e no momento em que

apresentava o bilhete para Chicago à verificação, o funcionário que se encontrava ao balcão das

instalações da companhia de aviação entregou-lhe um recado urgente.

Telefone para o seu escritório. Importante.

Receando o pior, com o coração batendo em ritmo acelerado correu para a cabine mais

próxima e marcou apressadamente o número do seu escritório em Manhattan.

Ouviu a voz da sua telefonista.

- Steven Randal e Companhia. Serviço de relações públicas.

- Daqui fala Randal - disse impacientemente. - Ligue o telefone para a Wanda.

Momentos depois a ligação foi feita e entrou em contato com a sua secretária.

- Wanda, que se passa? É a respeito do meu pai?

- Não... não... desculpe, era meu dever ser mais explícita... perdoe-me a negligência. Não,

não há más notícias sobre a sua família. Trata-se de outra coisa, assunto de negócios... pensei

que talvez fosse melhor avisá-lo antes de levantar vôo. A chamada chegou logo depois do senhor

ter partido para o aeroporto. E... soou-me a coisa importante.

Randal sentiu-se, imediatamente, aliviado e aborrecido.

-Wanda, que mais pode haver de mais importante depois de tudo porque hoje passei? Não

me sinto com disposição para negócios...

- Patrão, não me dê uma descompostura. Apenas pensei que...

- Está bem, as minhas desculpas. Mas, despache-se, ou acabarei por perder o maldito

avião. Vamos, desembuche. De que trata esse negócio tão importante?

- Possivelmente será uma nova conta. Foi o cliente em pessoa que telefonou. Quando lhe

expliquei que o patrão tinha que sair da cidade devido a um caso urgente respondeu-me que

compreendia, mas insistiu na necessidade de vê-lo logo que estivesse livre e dentro das próximas

quarenta e oito horas.

- Bem, sabe perfeitamente que é impossível. Quem era?

- Já ouviu falar de George L. Wheeler, presidente da Editora Missão?

Ao ouvir o nome reconheceu-o imediatamente.

-O editor de obras religiosas?

-Esse mesmo. O maior deles. O Verdadeiro Medalhão do mercado. Palavra de honra que

não queria incomodar numa altura destas, mas, o assunto pareceu-me tão invulgar, tão

misterioso... e, tal como já lhe disse, o homem insistiu tratar-se de algo muito importante. Fartou-

se de me recomendar que tentasse colocá-lo em contato consigo. Respondi-lhe que era

impossível prometer, fosse lá o que fosse, a não ser que tentaria encontrá-lo para lhe transmitir a

mensagem dele.

- Que mensagem? Afinal, o que é que esse Wheeler deseja?

- Palavra de honra, patrão, tentei descobrir exatamente de que se trata, mas não consegui.

O tipo mostrou-se muito reservado, para além de insinuar ser um assunto ultra-secreto de

natureza internacionalmente importante. Finalmente, acabou explicando que se tratava do patrão

representar um projeto altamente confidencial que engloba a publicação de uma nova Bíblia.

- Uma nova Bíblia? - explodiu Randal . - Então é esse o grande e importante negócio?

Temos já um bilhão de Bíblias. Que raio poderemos fazer com mais uma? Nunca ouvi semelhante

absurdo. Eu feito palerma, servir de instrumento pra uma Bíblia? Não pense mais no assunto.

- Foi o que eu achei também. Não pensaria mais no caso, patrão, mas, não posso, devido

a mensagem do senhor Wheeler... a mensagem que ele insistiu para lhe transmitir. Uma

mensagem tão estranha, tão extravagante... Disse-me: «Se o Sr Randal for um indivíduo à

maneira de S. Tomé, ver para crer, e quiser saber mais coisas a respeito do nosso projeto

secreto, diga-lhe para abrir o Novo Testamento no Evangelho de S. Mateus 28:7. Isso dar-lhe-á

uma pista a respeito daquilo que é o nosso projeto».

Completamente desesperado, Randall quase bramiu:

-Wanda, não tenho a mais leve intenção de ler essa passagem, nem agora nem nunca. De

modo que telefone para o tipo e...

- Patrão, não se excite, eu já a li! - interrompeu Wanda. Essa passagem de S. Mateus reza

assim: «Ide, pois, imediatamente, e dizei aos seus discípulos que já ressuscitou dos mortos. E eis

que Ele vai adiante de vós para a Galiléia; ali o vereis ... » Trata-se da passagem a respeito da

Ressurreição de Cristo. Foi isso que mais me intrigou... que me despertou a curiosidade e me fez

tomar a decisão de encontrá-lo no aeroporto antes de partir. O que faz com que o caso seja

duplamente estranho foi a última coisa que Wheeler me disse antes de desligar. Escrevi o recado.

Cá está ele. Reza assim: «E depois do Sr. Randal ler a passagem do Evangelho de S. Mateus,

diga-lhe que pretendemos que se encarregue da Segunda Ressurreição». É tudo.

Era um enigma e soava a mistério e fantasmagórico ao ouvido, num dia como aquele,

considerando o que havia acontecido e aquilo que ainda tinha enfrentadas. A irritação amainou, e

começou pensando no que quereria o tal Wheeler.

-Quer então que eu me encarregue de tratar da Segunda Ressurreição? Mas, de que raio

é que se trata? Será o homem um desses maníacos religiosos?

- Pareceu-me bastante sóbrio e sério - respondeu Wanda. E pelo que disse fez com que o

projeto soasse como... uma coisa destinada a abalar o mundo.

A memória de Randal voltou-se para o passado. Como tudo aquilo lhe era familiar! O

túmulo estava vazio. O Senhor ressuscitara. Erguera-se. Aparecera. A Ressurreição.

Memorizando, foi a época mais significativa e mais segura da sua vida. Todavia, levara

anos a libertar-se daquele fetichismo decrépito e estropiado.

Através da porta entreaberta da cabine chegou-lhe aos ouvidos a chamada que faziam

pelos alto-falantes.

-Wanda, estão anunciando a última chamada para o meu vôo. Tenho que me apressar.

- Que digo ao Wheeler?

- Diga-lhe... diga-lhe que, por enquanto, ainda não foi capaz de me encontrar.

-Nada mais?

- Nada mais, até que consiga saber o que me aguarda em Chicago e Oak City.

-Espero que tudo corra bem patrão.

-Veremos, telefono-lhe amanhã.

Desligou, e ainda intrigado e vagamente inquieto pelo telefonema de Wanda, apertou o

passo a caminho do avião.

Voavam há mais de duas horas. Randall há muito que afastara do pensamento o tal Sr.

Wheeler, a sua nova Bíblia e a sua enigmática Segunda Ressurreição.

-Estamos prestes a aterrissar - lembrou-lhe a aeromoça a bordo.-Façam o favor de apertar

o cinto de segurança, Sr.... Sr. Randal .

Ela hesitara ao pronunciar o nome, como tentando recordar se já o teria ouvido antes e se

ele seria «Alguém». A moça era uma daquelas belezas texanas de abundantes seios e com um

sorriso estereotipado. Randal pensou que sem o uniforme talvez fosse engraçada, a não ser que

pertencesse ao número daquelas moças que, após dois copos, começam dizendo que não estão

habituadas a sair com homens casados e que andam às voltas com um livro de Dostoiewski.

Pensou consigo mesmo, provavelmente, seria uma outra Darlene. Mas não, quando a encontrara

pela primeira vez havia um ano e meio, Darlene lia Kahlil Gibran e, que ele soubesse, desde

então, não voltara lendo mais nada.

Sentiu-se tentado dizendo à aeromoça que era «Alguém», embora tivesse a certeza de

que não devia ser a espécie de «Alguém» que ela pretenderia. Além disso, não interessava,

naquela noite não, especialmente naquela noite.

Fez-lhe um sinal de assentimento com a cabeça e principiou, obedientemente, a apertar o

cinto de segurança.

Não, não era considerado um «Alguém», refletiu, exceto por certas pessoas que

desejassem tornar-se celebridades ou continuarem celebridades e por pessoas poderosas que

tinham um produto ou até um país necessitando de promoção. O seu nome, Steven R. Randall,

raramente, aparecia em letra impressa, ou era mencionado na televisão, a sua fotografia jamais

aparecera em parte alguma. O público lá fora via somente o que ele queria que visse, enquanto

ele permanecia na sombra, invisível. E não se importava - mesmo em relação à aeromoças –

porque era importante onde devia sê-lo, onde a importância na verdade contava, e as pessoas

interessadas sabiam que ele era importante.

Nessa manhã, por exemplo. Encontrara-se finalmente, cara a cara, com Ogden Towery III,

daquelas pessoas que interessavam e que sabia que Steve Randal era importante, com uma

importância que pesava um par de milhões de dólares. Chegaram, finalmente, a um acordo,sobre

à absorção da Companhia Randall, Relações Públicas, pelo monopólio internacional Towery,

Empresas Cosmos. Haviam discutido em pé de igualdade em todos... bem, em quase todos os

pontos relativos aos negócios menos em um.

Esse compromisso -Randal tentava minimizar a sua capitulação chamando-lhe

compromisso -ainda o deixava inquieto, mesmo envergonhado. Em todo o caso, a reunião dessa

manhã fora uma antecipação do que prometia ser um dos dias mais infelizes da sua vida. Sentia-

se infeliz porque, personagem importante como se julgava, experimentava uma sensação de

desamparo a respeito da sua vida e acerca daquilo que o esperava no fim da viagem.

Para acabar com a introspecção, resolveu dar atenção ao que se passava dentro do avião.

A aeromoça, sem cinta, belo traseiro, regressava à parte dianteira da cabine, distribuindo

cordialidade a todos os outros corpos também apertados nos cintos de segurança. Pensou nas

outros pessoas a bordo. Pareciam moderadamente felizes, e, pôs-se a imaginar se seriam

capazes de ver que ele se sentia infeliz. Imediatamente se sentiu grato pelo seu anonimato dado

não ter disposição para falar com ninguém. Na verdade, nem vontade tinha para o encontro com

Clare, a sua irmã mais nova, que o esperava no Aeroporto O'Hare, com lágrimas nos olhos e

pronta a conduzi-lo de carro de Chicago até ao Wisconsin e a Oak City.

Sentiu o avião inclinar-se e começar baixar. Compreendeu que o grande jato estava quase

chegando ao seu destino, a «casa». Sim, a casa, literalmente.

Regressava à casa por algum tempo, não aparecia ocasionalmente ou estava de

passagem; regressava à casa depois de estar ausente - por quanto tempo? - dois anos, dois ou

três anos desde a sua última visita. O fim do curto, mas, ao mesmo tempo, longo vôo desde Nova

York. O princípio do fim do passado. Tornava-se duro regressar à casa. Esperava que a sua

estadia fosse breve e misericordiosa.

A aeromoça detivera-se no corredor, a seu lado, dizendo:

-Estamos a aterrissar, -Parecia aliviada, mais humana, menos plástica, uma terráquea com

pensamentos terrestres. -Desculpe, mas, estou imaginando que o seu nome me é familiar. Não o

terei visto nos jornais?

Afinal, uma colecionadora de «alguéns», pensou.

- Lamento desapontá-la, mas a última vez que o meu nome figurou nos jornais deve ser na

coluna dedicada aos nascimentos.

A aeromoça sorriu embaraçada.

- Bom, Sr. Randal , espero que tenha feito uma viagem agradável.

- Formidável.

Sim, formidável. A oitenta quilômetros dali o pai jazia em estado de coma. E, pela primeira

vez desde que alcançara o êxito (mas, certamente, que o caso já lhe ocorrera antes, em anos

recentes), Randal compreendeu que o dinheiro não o podia livrar de todas as preocupações, nem

solucionar todos os problemas, tanto como, não podia salvar o seu casamento, ou fazer com que

dormisse às três da madrugada.

Ao mesmo tempo que se apoderava do dinheiro do filho, seu pai costumava dizer: «Meu

filho, o dinheiro não é tudo». E acrescentava: «Deus é tudo». E permanecia de olhos voltados

para Deus, dando a Deus o seu amor. Seu pai, o Reverendo Nathan Randall, estava a serviço de

Deus. Recebia ordens da Grande Organização celeste.

Não era justo, não era justo.

Randal espreitou pela janela do avião, com os vidros polvilhados de gotas de chuva, e deu

uma olhada pela paisagem e pelos edifícios que os holofotes do aeroporto surpreendiam da

maneira mais alucinada.

Muito bem pai, pensou, o dinheiro não te pode tirar nem a ti nem à mãe desta enrascada.

Portanto, o assunto é agora estritamente entre ti e o teu Criador. Mas, coloca-te em meu lugar,

pai: quando falas com Ele estás convencido que Ele te escuta?

Compreendeu que sempre esse desabafo não era justo, que não havia justiça nesse tardio

azedume de criança, nessa recordação de um contínuo insucesso na rivalidade entre si e o Todo-

Poderoso, relativamente, ao amor do Pai. E sempre foi uma coisa Sem Discussão. Surpreendia-o,

nesse momento, que essa espécie de ciúme ainda o afetasse. Tornava-se blasfemo - evocava a

velha palavra antiquada, irascível, lançada do alto do púlpito - numa noite de crise.

Portanto, esse sentimento estava errado, também ele se encontrava em erro. Na verdade

passara belos tempos ao lado do pai. Bruscamente, conseguiu lembrar-se com mais fidelidade do

pobre velhote - aquele velhote um pouco tolo, sem prática do mundo, carinhoso, maravilhoso,

honesto, dogmático, mal orientado, paciente, o seu velhote – e, de repente, amou-o mais do que o

amara em todos aqueles anos.

Apeteceu-lhe chorar. Parecia impossível. Ali estava ele - o grande homem dos grandes

momentos e da grande cidade, com um terno feito sob encomenda, sapatos italianos, unhas

arranjadas pela manicure, cartões de crédito, « cocktails», mulheres, carros de luxo, boas mesas -

um fazedor de imagens sofisticado, mundano, tarimbado, endurecido e com vontade de chorar

como aquele antigo garotinho de Oak City.

A voz da aeromoça anunciava:

-Chegamos a Chicago. Façam o favor de verificar os vossos objetos pessoais. O

desembarque far-se-á pela porta da frente do avião.

Randal assoou o nariz, agarrou a pasta de couro, levantou-se vacilante e colocou-se na

fila que ia avançando para a saída -aquela saída que o levaria a casa e a tudo o que esperava

além.

Foi só depois do aeroporto O'Hare ter ficado para trás, há cerca de quarenta e cinco

minutos e quando um sinal luminoso na estrada indicou que estavam entrando no estado de

Wisconsin, que Clare, finalmente, acabou com os seus soluços e com o vão balbuciar de seus

lamentos para mergulhar num agradável silêncio agarrada ao volante do carro.

No terminal do aeroporto, Clare atirara-se-lhe para os braços semi-desmaiada, chorando e

gemendo como uma Madalena. Nenhuma Electra dos tempos modernos manifestaria melhor a

sua dor pública. Quase com rudeza, Randall ordenara-lhe que se dominasse o suficiente para lhe

conseguir dizer em que estado estava o pai. Soube apenas - Clare evitava os termos médicos,

sempre o fizera, como sendo ameaçadores - que se encontrava mal e que o Dr. Oppenheimer não

fizera quaisquer previsões Sim, havia uma tenda de oxigênio, e claro, o pai estava inconsciente lá

dentro, e, oh, meu Deus o pai tinha um aspecto como nunca tivera.

Depois daquela cena, dentro do carro e agarrada ao volante, por entre fungadelas, Clare

continuava a pautar, incessantemente, a sua verborréia incessante. Como ela amava o pai, e a

mãe, e o que iria ser dela, da mãe e do tio Hermann e de toda a família? Tinham estado no

hospital o dia todo, desde que a doença se declarara ao princípio da madrugada. Ainda estava

toda a gente no hospital, à espera dele, Steve. Estava lá a mãe, o tio Hermann - irmão da mãe -e

o melhor amigo do pai, Ed Periot Johnson e o Reverendo Tom Carey, todos lá, todos à espera de

Steve.

A espera dele, pensou Randall, o êxito da família, o êxito de Nova York que realizava

milagres com o talão de cheques, ou por intermédio dos seus conhecimentos. Teve vontade de

perguntar a Clare se alguém esperava d'Aquele, Aquele que era tudo para o pai, a Quem o pai

tudo dera, de quem dependera, no Qual fizera todos os seus investimentos pensando no dia do

Juízo Final, o Criador, Jeová, o Pai do Céu. Teve vontade de perguntar, mas conseguiu dominar-

se.

-Julgo que já te contei tudo o que sei - dizia Clare.

Logo a seguir, a irmã, com os olhos postos na estrada molhada e escorregadia, de dedos

crispados no volante, disse:

-Não demora muito. Estamos quase chegando - acabando por mergulhar no silêncio.

Deixando a irmã a confabular com os seus íntimos demônios de culpa privada, Steve Randal

recostou-se bem no assento e fechou os olhos, bendizendo aquele interlúdio para poder estar

sozinho.

Continuava sentindo dentro de si a carga emotiva que o acompanhara durante todo o dia,

mas, nesse momento podia analisá-la, e o mais curioso era que a dor pelo pai ocupava a menor

parte da sua infelicidade. Tentou procurar a razão da sua reação tão pouco filial e acabou por

decidir que o sofrimento era a mais intensa das emoções e, por isso mesmo, a de menor duração.

A extraordinária intensidade da dor torna-a tão auto destruidora, que o instinto de

sobrevivência de uma pessoa é obrigado a erguer-se e a lançar um manto sobre o sofrimento,

furtando-o da mente e do coração. Ele Steve, lançara esse véu resistente sobre a sua aflição e

deixara de consagrar ao pai os seus pensamentos. Naquele momento pensava em si próprio-

como sua irmã o consideraria um herético se soubesse! -e imaginava em todos os seus recentes

infortúnios.

Não podia dizer exatamente, o dia em que começara a perder o interesse no seu próspero

negócio de relações públicas em plena ascensão, mas, teria acontecido há um ou dois anos. Essa

perda de interesse iniciara-se pouco antes, ou pouco depois, de ter discutido pela última vez com

a mulher, Bárbara, quando decidiram separar-se e ela partira para S. Francisco onde tinha

amigos, levando consigo Judy, a filha do casal.

Tentou situar no tempo o momento em que o fato ocorrera. Judy acabara de completar

treze anos. Tinha agora quinze, por conseguinte, fora há dois anos. Bárbara falara firme de

divórcio, mas sem que tivesse depois agido de acordo com tal idéia, de modo que tudo se situava

numa mera separação. Randal não se importava com tal estado transitório, dado não conceber a

concretização do divórcio. Não porque tivesse receio de perder a mulher, as relações entre ambos

estavam para sempre condenadas, mas, porque se preocupava com Bárbara na medida em que

era o seu ego que estava em causa e lhe era merecedor dos maiores cuidados. Não pretendia um

divórcio porque isso significaria admitir um fracasso. Todavia, mais importante ainda do que um

malogro, significaria um afastamento radical em relação a sua filha Judy. Ora, muito embora

Randall não visse a filha com muita freqüência, nem lhe tivesse dedicado grande parte do seu

tempo, o fato é que a filha era uma pessoa humana e a representação de uma idéia, um

prolongamento de si próprio, que ele valorizava e acarinhava.

A carreira profissional a qual dedicara tanta energia e devoção, acabara finalmente por se

tornar aborrecida e monótona, tão aborrecida e monótona como o seu casamento. Cada dia que

passava nada mais era do que uma cópia do dia anterior. Uma pessoa entrava na sala de

recepção, decorada com requinte, onde a jovem recepcionista, marcadamente sexual e vestida a

primor, encontrava-se, permanentemente, bebendo café com duas outras moças, ao mesmo

tempo que conversavam frívolas sobre jóias. Deparava-se com jovens e brilhantes agentes de

publicidade sobraçando da mesma maneira as suas pastas, com gabardines dobradas nos braços

da mesma forma, dirigindo-se para os serviços onde se refastelavam como toupeiras nas suas

macias tocas. Organizavam-se reuniões de trabalho nos modernos e luxuosos gabinetes desses

jovens promotores, onde se deparava com escrivaninhas superabundantes de fotografias das

mulheres e filhos, deixando antever que tudo aquilo não passava de um embuste e que

provavelmente atraiçoavam todos os princípios de família.

Passara o tempo da excitação em conseguir novos clientes, novas contas. No seu trabalho

lidara com toda a espécie de pessoas - a cantora negra em ascensão, o último grupo « rock», a

caprichosa atriz inglesa, os mais rápidos carros de desporto, o detergente miraculoso, o país

africano recém-independente que necessitava de uma indústria de turismo. O lançamento de

personalidades de renome, ou de produtos comprometedores, deixara de ser emocionante.

Perdera o estímulo criador e a motivação do dinheiro. Tudo o que fizesse, já tinha feito antes.

Tudo quanto lucrava o tornava mais rico, mas não suficientemente rico.

Randal sabia que estava afastado da irremediável prisão da classe média, mas, essa

condenação a prisão perpétua parecia-lhe quase tão vazia como desumana. Todos os dias

acabavam para ele tal como haviam começado, com despeito e ódio por aquela existência de

enfadonha, de círculo vicioso. Inevitavelmente, o seu desgosto privado por uma vida sem

perspectivas, sem mulher, sem a sua Judy não só continuou, como ainda se intensificou. Havia

mais mulheres a quem possuir sem a mínima parcela de amor, mais bebidas alcoólicas, mais

noites de insônia, mais restaurantes, bares, clubes noturnos a freqüentar, mas, todos com a visão

dos mesmos clientes habituais, dos mesmos rostos de homens e dos mesmos corpos de

mulheres.

Recentemente, principiara a refugiar-se cada vez com mais insistência num velho sonho,

um devaneio, um objetivo pelo qual tanto lutara outrora, mas, de que foi desviado. Desejava um

refúgio, um lugar com verdes arvoredos, com apenas água pura para beber e sem oficina onde se

pudesse reparar o relógio, um local idílico onde o New York Times chegasse com um atraso de

duas semanas e onde tivesse que fazer uma longa caminhada a pé até à aldeia mais próxima

para fazer um telefonema ou encontrar uma moça com quem pudesse dormir e com quem

desejasse tomar o café na manhã seguinte. Pretendia escrever não publicidade exagerada e

palavrosa, mas, verdadeiros livros eruditos numa máquina de escrever portátil sem pensar em

dinheiro como necessidade imediata, aprendendo a razão porque se torna tão importante

continuar na Terra.

No entanto, era-lhe impossível encontrar a ponte que o levasse à concretização desse

sonho. Dizia pra você próprio que não tinha possibilidades de mudar de vida por não possuir

economias que o permitissem. De maneira que tentava arranjar esse dinheiro redentor e manter-

se em linha com os seus anseios. Durante semanas engajava-se, compulsivamente, num método

de vida saudável. Nada de bebidas, de comprimidos, de tabaco, nada de deitar-se horas tardias.

Afadigava-se a praticar handbal à beça.

Tinha trinta e oito anos de idade, um metro e oitenta, olhos castanhos injetados de sangue,

já um pouco empapuçados, nariz reto implantado entre faces avermelhadas, queixo forte

pronunciado já revelando os primeiros indícios de papada e uma constituição física cheia de

solidez. Nos seus períodos de vida saudável, quando começava sentindo-se com vinte e oito anos

em vez de trinta e oito, os olhos castanhos começavam a clarear, as olheiras fundas se

atenuavam, a cara redonda e balofa tomava uma feição quadrada, o queixo ganhando definição e

tornando visível, o estômago perdendo a adiposidade, e os bíceps quase musculosos, quando

isso acontecia, ele perdia todo incentivo para manter esse regime espartano e uma vida limpa e

saudável.

Dedicava-se a tal jogo de ganha-perde duas vezes por ano – e perdia. Ultimamente tinha

desistido de joga-lo. Nessas esporádicas tentativas para regularizar a sua existência, tentara

também limitar-se a ter uma só mulher. Uma ligação de caráter permanente. Fora desse modo,

recordou, que Darlene Nicholson e o Kahlil Gibran havia penetrado na sua vida no mesmo

momento em que Darlene entrara no seu apartamento em Manhattan.

Tornava-se-lhe, particularmente, difícil agüentar-se durante horas de trabalho, que lhe

preenchiam a maior parte do tempo. Wanda Smith, sua secretária particular, uma moça negra,

alta e empenhada, com uma natureza enérgica, mas, espontaneidade contida e busto bem

desenvolvido, preocupava-se muito com as suas crises. Joe Hawkins, seu protegido e associado,

preocupava-se com ele, Randal . Thad Crawford, seu advogado grisalho e de falinhas mansas,

preocupava-se com ele. Reafirmava-lhes a todo o instante que não rebentaria, e trabalhava com

regularidade todos os dias a fim de o provar. Todavia, o trabalho que fazia era duro e melancólico.

Porém, de vez em quando, embora com raridade, surgia um poço de luz na sua existência

sombria. Um mês antes, por intermédio de Thad Crawford, travara conhecimento com um recém-

formado em direito que não exercia advocacia, entretanto, enveredara por uma profissão na

verdade inédita no seio de uma democracia de caráter competitivo: profissão que constituía uma

verdadeira ciência social e que se denominava Honestidade. Esse homem, no último estádio dos

vinte anos, possuidor de uns olhos ardentes como carbúnculos e um fantástico bigode a cair-lhe

para as comissuras dos lábios como o de uma foca, era Jim McLoughlin. Jim fundara uma coisa

chamada Instituto de Pesquisas Raker [ Raker esquadrinhador de velhas coisas; investigador;

pessoa que procede a limpezas com um utensílio especial (N. do T.)]; em Nova York, Washington,

Chicago e Los Angeles. A organização não dava dividendos, e o pessoal era constituído por

jovens colegas advogados, por assistentes formados em comércio, antigos professores,

jornalistas rebeldes, investigadores profissionais e filhos pródigos fugidos à opulenta comunidade

empresarial americana. Operando calmamente durante alguns anos, o Instituto Raker de Jim

McLoughlin procedera a investigações, como um primeiro projeto a que se sucederiam muitos

outros, a uma conspiração inconfessável e oculta da alta finança americana, através das suas

indústrias e companhias, conspiração lançada contra o bem comum e contra o público

consumidor em geral.

Durante o primeiro encontro, McLoughlin dissera a Randal :

-As coisas chegaram a este ponto: durante décadas, os nossos dirigentes em empresas

privadas, monopolistas virtuais, têm suprimido novas idéias, invenções, produtos que teriam

baixado o custo de vida para o consumidor. Essas idéias e novas invenções morreram ao nascer,

ou foram abafadas pelos grandes negociantes, dado que se chegassem ao conhecimento do

público liquidariam os fabulosos lucros das empresas particulares sustentadas pela alta finança.

Em todos estes meses efetuamos um incrível trabalho de detetive. Sabia que houve alguém que

inventou uma pastilha capaz de produzir gasolina de alta qualidade para os veículos carros?

Randal respondera que há muito tempo vinha ouvindo boatos sobre o caso, mas que

sempre considerara tais descobertas como pura fantasia.

McLoughlin, prosseguiu com decisão:

- Os homens de dinheiro sempre se esforçaram por levá-lo pensando que essas

descobertas não passavam de puras fantasias, como você disse. Mas, pode acreditar no que

digo: tais maravilhas existiram e continuam existindo. Um dos mais notórios exemplos é a pastilha

concentrada de gasolina. Um químico genial, completamente desconhecido, surgiu com uma

fórmula de gasolina sintética e conseguiu reduzir os compostos químicos integrantes até ao

tamanho de um pequeno comprimido. Você nada mais tinha fazendo do que encher o tanque de

gasolina com vulgar água da torneira, jogar a pastilha dentro e obtinha setenta ou oitenta litros de

combustível, que não eram fatores de poluição e que, provavelmente, lhe custariam para aí uns

dois cents. Julga então, que as grandes companhias iriam consentir que o invento fosse lançado

no mercado? Jamais em dias da sua vida - muito menos durante a vida deles -, porque isso

significaria o fim da multimilionária indústria petrolífera. Todavia, trata-se apenas de um caso. E

quanto ao chamado fósforo perpétuo? Haveria na verdade um fósforo que lhe podia proporcionar

quinze mil chamas? Pode apostar que sim e pode também apostar sem receio de perder, que foi

prontamente suprimido pelos grandes monopólios. Porém, depois descobrimos mais,

imensamente mais.

Randal sentira-se positivamente intrigado e interessado no caso.

- Que mais? - perguntara.

- Tivemos conhecimento de um têxtil, isto é, de um tecido impossível de se gastar. De uma

lâmina de barbear para a vida inteira sem sequer necessitar ser afiada. Vários exemplos de pneus

capazes de percorrerem cerca de quinhentos mil quilômetros, sem nada perderem das suas

qualidades e sem furarem. Uma lâmpada elétrica especial capaz de se manter dez anos sem ter

que ser substituída. Você pode calcular o que tais produtos podiam significar para os periclitantes

orçamentos familiares? Mas não, a alta finança não iria permitir tal coisa. No decorrer dos anos

foram comprados muitos inventores, reduzidos ao silêncio muitos outros, vitimados por chantagem

ou destruídos - em dois casos desapareceram como o fumo e suspeitamos que foram

assassinados. É verdade, Sr. Randal , temos tudo muito bem documentado e vamos expor toda a

repugnante roupa suja de tais supressões num livro branco - ou se preferir, num livro negro - que

terá por título A Conspiração Contra Vós.

Randal saboreara o título, repetindo-o e murmurando:

- Formidável!

McLoughlin prosseguira:

- Na altura em que o nosso livro branco for editado, os grandes tubarões dos monopólios,

utilizarão todos os meios ao dispor deles, a fim de evitarem que a nossa denúncia chegue ao

conhecimento do público. Se isso falhar, tentarão desacreditá-la. Eis o motivo porque o procurei.

Pretendo que se ocupe da promoção do Instituto Raker na publicação do seu primeiro livro

branco. Desejo que transmita ao público tudo o que descobrimos - através de congressistas

interessados no caso, repórteres do rádio e televisão, jornalistas, por meio de monografias

impressas e de apadrinhamento de conferências explicativas. Pretendo que inutilize todos os

esforços para tentarem reduzir-nos ao silêncio, ou difamarem-nos. Quero que lance a nossa

história na publicidade espalhada por todo o país até que se torne tão conhecida como o hino

nacional, The Star-Spangled Banner. Certamente, não seremos clientes para o enriquecer, mas

esperamos, depois de se inteirar das nossas atividades, que venha a ter a consciência de fazer

parte de um significativo núcleo de pessoas que pela primeira vez se revelam na história da

América. Tenho fé que venha a juntar-se a nós e que realize o trabalho que proponho.

À medida em que ia considerando o projeto, Randall sentia-se voltar à vida. Entrar na luta,

realizar o trabalho? E de que maneira estava disposto a fazê-lo? Estava pronto a elaborar

pormenores, a iniciar reuniões, logo que Jim McLoughlin e os seus cruzados estivessem

preparados? McLoughlin dissera que em breve estariam preparados, talvez, lá para o fim do ano.

Juntamente com uma equipe investigadora veterana, Jim estaria ocupado durante alguns meses

no estudo relativo ao protótipo, altamente secreto, de um carro movido a vapor, sem poluição do

ambiente e a baixo preço que há duas décadas estava suprimido pelos tipos do motor de

combustão interna predominantes em Detroit. Além disso, iria proceder à verificações, juntamente,

com os seus ajudantes de campo, colaboradores que se encontravam empenhados na avaliação

de futuros projetos, que englobavam outros poderosos extorsivos amparados pela lei,

defraudadores do sonho americano, incluindo-se entre esses gangsters autorizados algumas

companhias de seguros, monopólios dos telefones, companhias de conservas alimentares, de

aparelhagens domésticas e associações de crédito.

O jovem e entusiasta McLoughlin dissera-lhe:

-Durante algum tempo não espere ouvir falar de mim, nem do meu pessoal. O nosso

paradeiro será confidencial. Temos de trabalhar na sombra, disfarçadamente, foi uma coisa que

bem cedo aprendi. De outra maneira, os grupos das grandes negociatas, bem como os seus

fantoches espalhados pelos diversos departamentos governamentais, não tardariam em colocar

seus asseclas no nosso encalço, em movimentos de antecipação e para contrariarem o nosso

trabalho. Houve um tempo em que julguei impossível uma tal política a nível estadual num

governo do povo, pelo povo e para o povo. Pensava que falar de coisas assim não passava na

verdade de paranóia juvenil, de um absurdo melodramático. Mas não. Logo que o lucro

desmedido se torna sinônimo de patriotismo, qualquer meio se afigura justificado para a sua

preservação. Em nome do público, o público que vá para o inferno! De modo que para

protegermos o público, para expormos à luz do dia as mentiras e fraudes, temos que agir como

guerrilheiros. Pelo menos por enquanto. Uma vez que, por seu intermédio, possamos sair em

campo aberto, passarão então, a prevalecer as práticas honestas e o bem público; conseguiremos

apoio e segurança em doses maciças. Manter-me-ei em contato consigo, Sr. Randall, ou pelos

menos tentarei. Seja como for, peço-lhe que esteja preparado para irmos para a frente, com a sua

ajuda, num prazo de seis ou sete meses, talvez em Novembro ou Dezembro e será esse o prazo

definitivo. Randall concordara, sentindo uma genuína excitação.

-Está bem, procure-me então dentro de seis ou sete meses. Estarei pronto e à espera para

desencadear a ofensiva.

Antes de franquear a porta, McLoughlin voltara-se para trás, dizendo:

-Passaremos a depender de si, Sr. Randall.

Eis que ainda mal começara o período de espera para a grande campanha promotora do

Instituto de Pesquisas Raker quando de repente, surgiu uma perspectiva de mudança ainda maior

para Randal . As empresas Cosmos, grupo internacional multimilionário sob a presidência de

Ogden Towery III, interromperam como um furacão na existência de Randall. Tal como um ímã

colossal, as Empresas Cosmos andavam passando pente fino nos Estados Unidos e o mundo,

atraindo e aglomerando para a sua esfera de influência pequenos negócios de reconhecido êxito,

a fim de engrandecerem o seu programa de diversificação. Procurando bastiões no setor das

comunicações públicas, o grupo Towery considerara Randall Associates como uma promissora

empresa de relações públicas. Conversações preliminares a nível de advogados foram iniciadas.

Rapidamente se fizeram sentir progressos. E, antes da papelada legal ser assinada, só faltava um

encontro entre o próprio Towery e Randal .

Ora fora precisamente nessa manhã, bem cedo, que Ogden Towery III surgira na

Companhia Randal . Depois de ter examinado as premissas do negócio com os seus assistentes,

acabara por se encerrar, numa reunião a sós, no escritório de Randall, apresentável na sua

mobília estilo HeppIewhite do século XVIII.

O vago e distante Towery, uma lenda nos círculos financeiros, tinha o aspecto de um

próspero rancheiro. Tratava-se de um homem do Oklahoma, que mantinha o seu típico chapéu,

ligeiramente modificado, de abas largas colocado nos joelhos enquanto se ajeitava no fofo sofá de

couro, falando seco como um homem habituado sendo obedecido e escutado.

Randal passara a escutá-lo atentamente, visto que considerava o seu visitante como um

verdadeiro anjo salvador. Por obra e graça daquele bilionário, em poucos anos Randall possuiria a

fantasia há tanto sonhada, aquele paraíso, aquela felicidade com verdes arvoredos, sem telefone,

com uma máquina de escrever portátil e com segurança para o resto da sua vida.

Foi perto do final do monólogo de Towery que ocorrera o único momento desagradável -na

verdade terrível.

Towery lembrara a Randall que embora as Empresas Cosmos passassem sendo

proprietárias da firma, Randal ficaria a tomar conta da companhia por meio de um contrato de

direção assinado por cinco anos. Ao expirar o contrato poderia optar por ficar ou demitir-se com

dinheiro suficiente de contado e em ações para ser um homem rico e independente.

-Isto continuará sendo o seu negócio enquanto estiver conosco - dissera Towery a Randall.

-Continuará pois a dirigir isto como o fez até agora. De resto não faria sentido que interferíssemos

com um modo de gerência cheio de êxito. A minha política, em tudo aquilo de que me apodero, foi

sempre de me manter à parte.

A partir daquele momento, Randal deixara de ser um mero assistente a escutar em

silêncio. Fora assaltado por uma suspeita. Resolvera pois experimentar o seu anjo libertador,

dizendo:

- Sr. Towery, aprecio imenso a sua atitude. Se bem compreendi, quis significar que a

minha repartição poderá tomar as suas próprias decisões a respeito das operações a realizar e

dos clientes a aceitar sem sermos vigiados e orientados pela Cosmos.

- Com certeza. Vimos os vossos contratos, a vossa lista de clientes. Se não aprovasse não

estaria aqui.

-Bem, nem todos os clientes figuram nos fichários que observou, Sr. Towery. Existem

alguns novos cujos cadastros ainda não foram formalizados. Tudo o que desejo é saber na

verdade se nos vão deixar resolver as coisas como desejarmos, trabalhando como nos apetecer e

com quem nos apetecer.

- Claro que sim. E porque não? - perguntara Towery, franzindo ligeiramente o cenho. - O

que é que o pode levar pensando que nos preocuparíamos com tais coisas?

- É que por vezes aceitamos um cliente, tomamos conta de um caso que seria considerado

como sujeito a controvérsia. E eu estava pensando...

Towery interrompeu-o rapidamente:

-Por exemplo, que cliente e que caso?

-Há cerca de duas semanas realizei um acordo verbal com Jim McLoughlin para lançar e

promover o primeiro relatório do Instituto de Pesquisas Raker.

Towery empertigou-se no sofá. Mesmo sentado era muito alto. O seu rosto pareceu

repentinamente moldado em bronze, bronze endurecido.

- Jim McLoughlin! - exclamou como se proferisse uma obscenidade.

-E o seu... e o Instituto Raker. Towery levantou-se.

-Aquela corja de anarquistas comunas -pronunciou rouco. - Esse... esse McLoughlin.

Como muito bem sabe assalariado por Moscovita. Bem, talvez não saiba.

- Não foi essa a impressão com que fiquei.

- Escute-me bem, Randal : Eu sei. Esses radicais, nem o meu mijo merecem. Não

merecem um país como este. A partir do momento em que comecem a fomentar complicações

garanto-lhe que os correremos daqui para fora. - Olhou de soslaio para Randall, e logo a seguir o

rosto abriu-se num sorriso. - Randal , não possui as informações que nós temos e, por isso, é

natural que tenha embarcado na coisa. Agora que já conhece os fatos, julgo que não precisa se

preocupar com gente dessa laia.

Towery fez uma pausa para observar Randall atentamente e percebeu seu conflito devido

à perturbada reação, amenizando imediatamente a sua arremetida com modos complacentes.

- Não se preocupe. Tudo se passará tal como lhe disse. Nada de interferências nos seus

negócios... excetuando quando virmos que alguém tentando subvertê-lo, subvertendo a Cosmos

no mesmo processo. De resto estou certo que o problema não voltará a impor-se. - Estendera a

enorme, e larga mão. - Combinado, Sr. Randall? Pelo que me diz respeito, o senhor já faz parte

da família. A partir daqui é trabalho para os nossos consultores jurídicos. Dentro de oito semanas

estará tudo arranjado e assinado. Bom, e agora vou almoçar. - Piscara o olho maliciosamente. -

Parabéns, Randall, o senhor vai ser um homem rico e independente!

Assim decorrera a entrevista. E depois, a sós, sentado na cadeira giratória da secretária,

Steve Randal compreendeu que não tivera alternativa. Adeus, Jim McLoughlin e Raker. Viva,

Ogden Towery e Cosmos. Não tivera nenhuma alternativa. Quando uma pessoa chegava aos

trinta e oito anos, sentindo-se como se tivera setenta e oito, pois, deixa de alinhar no jogo da

gente honesta se tal implicar pôr em perigo a única oportunidade de ser alguém. E só havia uma

maneira de se ser alguém: independência e dinheiro.

Foi um momento terrível, um dos seus piores momentos, e sentira depois uma espécie de

náusea. Dirigira-se para a sua banheiro privativa e vomitara, dizendo depois com os seus botões

que lhe fizera mal qualquer coisa que comera ao café. Voltara para a secretária sem experimentar

melhoras. Precisamente nesse momento Wanda ligara para ele soando a campainha do telefone

interno, anunciando que a irmã, Clare, estava ao telefone de Oak City,

Foi então que soube que o pai tivera um grave colapso, que ia a caminho do hospital e que

ninguém sabia se sobreviveria. Nas horas seguintes, o dia transformou-se numa espécie de

caleidoscópio de um rodopio de atividades. Entrevistas canceladas, marcação de lugar no avião,

assuntos pessoais a arrumar, avisar Darlene, Joe Hawkins e Thad Crawford do sucedido, um sem

número de chamadas para Oak City e, finalmente, a corrida até ao aeroporto internacional John F.

Kennedy.

Presentemente regressava daquela retrospectiva, dando-se conta que era noite em

Wisconsin, que estava em Oak City e que a irmã o olhava de soslaio.

-Dormiste? - perguntou ela.

-Não - respondeu ele.

Eis o hospital - disse apontando para a frente. - Não fazes idéia de quanto venho aqui orar

pelas melhoras do pai. Randal empertigou-se no assento quando Clare voltou ao carro no parque

de estacionamento cheio de carros, parque que se prolongava ao longo da fachada do Hospital do

Bom Samaritano de Oak City.

Mal Clare localizou um espaço vazio e arrumou o carro, Randall saiu e fez uns movimentos

com os braços para descontrair os músculos das costas. À espera no passeio, Randal deu-se

conta pela primeira vez que o carro da irmã era um Lincoln Continental, tipo sedan, novo em folha.

Quando a irmã finalmente se juntou a ele, Randall fez um gesto na direção do Lincoln.

- É quase um vagão de luxo, mana. Como é consegues ter uma coisa destas com o teu

ordenado de secretária?

O redondo e claro rosto de Clare vincou-se numa carranca de mau humor.

-Já que queres saber, foi o Wayne quem me deu.

-Tens um patrão formidável. Espero que a mulher do Wayne tenha metade dessa

generosidade relativamente aos amigos do marido.

Clare fitou-o.

-Dito por ti, isso é para fazer rir.

E desatou a caminhar com um passo firme e apressado pela área circular que levava à

entrada principal do hospital. Randall seguiu-a lentamente, arrependido de ter atirado pedras ao

telhado do vizinho uma vez que também o tinha.

Já estava há mais de uma hora no quarto particular para onde o Pai fora transferido após

ter passado pela sala de observações. Mantivera-se sentado na desconfortável cadeira de costas

retas, por baixo da prateleira onde se encontrava um aparelho de televisão desligado, e junto à

parede voltada para os pés da cama de onde pendia, emoldurada, uma reprodução do Sagrado

Coração de Jesus. Naquele momento, quase vazio de emoções, com as pernas cruzadas,

começava sentindo a perna direita dormente. Descruzou os membros inferiores. Principiava

sentindo-se inquieto e apetecia-lhe imenso fumar.

Esforçou-se por se integrar na grande atividade que desenvolvia em volta do leito do pai,

mas como que hipnotizado, seus olhos eram irremediavelmente atraídos para o corpo, coberto

com uma manta, que se encontrava no interior da tenda de oxigênio.

O pior momento daquela dolorosa experiência fora o primeiro vislumbre que tivera do

progenitor. Penetrara naquele quarto arraigado à imagem do pai tal como o vira pela última vez.

O Reverendo Nathan Randall, mesmo na casa dos setenta, apresentava uma figura imponente.

Aos olhos do filho assemelhava-se a um desses magnificentes patriarcas descritos pelo Êxodo ou

pelo Deuteronômio. Tal como Moisés no apogeu da idade, «o seu olhar não se ofuscara, nem a

sua força natural declinara». O cabelo branco e fino ainda coroavam a testa grande e o rosto

longo, como um desses magnificentes patriarcas descritos pelo Êxodo ou pelo de perdão, era

marcado por uns serenos olhos azuis colocados em feições que primavam pela regularidade, com

exceção, talvez, do apêndice nasal, demasiado reto e cortante como a lâmina de uma faca.

Randall nunca vira o pai sem aquelas profundas rugas que lhe vincavam o rosto, umas rugas que

serviam para acentuar o seu ar de autoridade, muito embora não fosse um autoritário. O

Reverendo Doutor Randal possuíra sempre um ar difícil de definir, mas, algo de privado, secreto,

místico, sugerindo que era um dos escolhidos, que estão em comunicação com Nosso Senhor

Jesus Cristo, sendo membro privativo do sapiente conselho do Senhor. Alguns dos seus

paroquianos metodistas mantinham essa opinião a respeito do Reverendo Nathan Randal , e por

isso, acreditavam nele e no seu Deus.

Ora essa límpida imagem que Steve Randal trouxera para aquele quarto de hospital, como

que projetada num espelho, quebrara-se em miríades de pedaços. Por aquilo que podia observar

através da transparência da tenda de oxigênio afigurava-se-lhe ver uma ruína, um arremedo de

ser humano, tal como aquelas encarquilhadas cabeças das múmias egípcias ou como aqueles

sacos de ossos do campo de concentração de Dachau. O sedoso e brilhante cabelo branco

mostrava-se fosco, opaco, desbotado, amarelado. As pálpebras riscadas de veias velavam uns

olhos perdidos na inconsciência. O rosto apresentava-se esquálido, terroso, chupado. Ouvia-se-

lhe a oprimida respiração custosa, roufenha. Ao que avaliara, em todos aqueles frágeis membros

se viam inseridos tubos, agulhas.

Para Randall fora assustador ver alguém tão íntimo, uma pessoa do seu sangue e da sua

carne, alguém tão invulnerável, tão seguro de si, tão crente, tão confiante, tão bom e tão

merecedor do bem, reduzido àquela condição vegetativa e de tanto abandono.

Depois de alguns minutos, Randal voltara-se para esconder as lágrimas que sentia

assomarem-se-lhe aos olhos, procurara a cadeira às apalpadelas, deixando-se cair no assento, e

nunca mais se mexera. Houvera uma enfermeira franzina, de aspecto eslavo, possivelmente uma

polaca, que operava com firmeza no perímetro do leito, ocupando-se com os frascos de soro

suspensos nas suas armações, a ajustar tubagens e a consultar os gráficos clínicos. Decorrera

certo tempo, que não podia definir, talvez meia hora ou mais, quando finalmente chegara o Dr.

Morris Oppenheimer para se juntar à enfermeira privativa. Era um homem maciço e sólido,

ultrapassando a meia idade, movimentando-se à vontade, com eficiência e confiança.

Cumprimentara Randall com um rápido, mas, vigoroso aperto de mão, uma palavra de simpatia, e

a promessa de relatar o mais breve possível o que havia quanto ao estado do seu doente.

Por momentos, Randal observou o médico no exame que fazia ao pai. A seguir, exausto,

fechou os olhos com força e tentou recordar-se de uma oração apropriada àquele momento de

aflição. Fora o Pai Nosso que estais no Céu, santificado seja o Vosso nome... mas a memória

fraquejou e esqueceu o resto. Seu espírito, em viagem retrospectiva por todos os acontecimentos

do movimentado dia, deteve-se culposamente na projeção dos desenvolvidos seios de Wanda, a

sua secretária; retrocedeu depois até a noite anterior, quando beijara os seios de Darlene;

envergonhado apagou da mente aquelas imagens de pecado e procurou situar o pai no passado

mais próximo. Veio-lhe à idéia a última vez que visitara o pai e a mãe, talvez há mais de dois

anos, e a visita anterior a essa, possivelmente há mais de três.

Ainda sentia o tormento que o devorara nessas duas visitas anteriores: o desânimo do pai

por causa dele. O Reverendo não escondera seu desagrado relativamente ao filho ter rompido o

casamento, pela vida que levava, pelo seu cinismo e falta de fé.

Ao evocar a reprovação paterna, Randal ainda se sentia intimamente revoltado: afinal

quem era o pai para o censurar, quando, a avaliar pelos padrões sociais convencionais, o pai

representava o malogro e ele o êxito? Mas agora, esfriada a paixão da revolta por se ver

censurado, considerava que o seu sucesso era meramente material. O pai julgara-o por um

padrão diferente, que servia igualmente para se julgar a si próprio e a toda a gente, partindo desse

princípio de retidão. E segundo esse padrão, achara-o em falta, em pecado. Randal compreendia.

Na verdade o pai possuía o grande componente humano que lhe faltava: a Fé. O pai possuía uma

fé cega e ardente no Verbo, e através dele numa humanidade melhor e num melhor sentido e

pureza de vida. Randal não tinha fé.

Pensou: «É precisamente isso, pai. Falta-me fé. Não acredito. Não confio em nada.»

Mas, como era possível acreditar-se num Deus de Bondade, Justo? A sociedade era

injusta, hipócrita, podre até o âmago. Em grande maioria, os homens não passavam de animais à

solta, selvagens para sobreviverem, ou que se escondiam para sobreviverem. E coisa alguma que

o homem pudesse fabricar, desde o Mito de uma hipotética ressurreição lá em cima do Céu-visto

que o Inferno não precisava ser garçon, existia desde sempre na Terra - até aos falsos deuses

que forjavam, sim, coisa alguma poderia modificar a realidade do presente e o Nada que era o fim

de todos os animais humanos. Parecia-se com aquele velho provérbio hebraico que um cliente

judeu lhe citara certa vez: «Se Deus vivesse na terra, certamente as pessoas Lhe quebrariam os

vidros das janelas».

Caramba, pai, não é capaz de ver como as coisas são?

Para de discutir com ele (quase que pronunciara mentalmente Ele), disse Randall para

com seus botões. Pera de discutir com o passado.

Randal abriu os olhos. Amargava-lhe a boca, tinha dificuldade em respirar e começavam a

doer-lhe as costas. Sentia-se enjoado devido ao cheiro a desinfetantes que imperava no quarto,

desinfetantes e carne moribunda - o cheiro próprio dos hospitais. Sentia-se também fatigado da

fúria e dor interiores, de não fazer nada, de ser capaz de não fazer nada. Frustrava-o aquele papel

de mero espectador. Aquilo não era um espetáculo esportivo. Achou que já bastava.

Levantou-se da cadeira. Deu um passo para falar ao médico e à enfermeira, para os avisar

que ia para junto dos outros na sala de espera, mas, Dr. Oppenheimer estava absorvido

estudando os gráficos do doente e nesse momento entrou no quarto um especialista empurrando

à sua frente um aparelho portátil de cardiografia.

Coxeando, pois a perna ainda continuava dormente, Randal saiu, percorrendo o longo

corredor até à sala de visitas. Parou à entrada para acender o seu cachimbo favorito, britânico,

saboreando por uns segundos o perfumado e tranqüilizante narcótico daquele fumo azulado.

Depois, aprumando-se, atravessou o vestíbulo com decisão. Mas, voltou a deter-se no limiar da

porta da sala de visitas.

A sala era iluminada por lâmpadas fluorescentes, tinha cortinados com flores estampadas

que lhe conferiam uma certa vida; estava mobiliada com um sofá, cadeiras de vime, um aparelho

de televisão antigo, mesinhas com os inevitáveis cinzeiros e revistas já muito velhas. Lá dentro

estavam apenas os membros da família e os mais íntimos amigos do pai.

Esparramada numa cadeira, com o rosto oculto atrás de uma revista cinematográfica,

encontrava-se Clare. Junto dela, ao lado do telefone de parede, falando em voz baixa com a

mulher, encontrava-se o seu antigo condiscípulo e escolhido sucessor de seu pai, o Reverendo

Tom Carey. Não muito distante, sentados próximos a uma mesa, jogando cartas, estavam Ed

Ponto Jonhson [ Para melhor compreensão, em português o nome seria: Ed Ponto Final Johnson.

(N. do T.)] e o tio Herman.

Ed Ponto Johnson era o melhor amigo do Reverendo Nathhan Randal . Muitos anos antes

fundara o Oak Gyty Bugle, o periódico local, que continuava ainda a dirigir e editar e que surgia

seis dias por semana. Ed dissera certa ocasião a Randal :

-A melhor maneira de se poder dirigir um pequeno jornal provinciano é arranjar modo de

toda a gente da cidadezinha ter o nome publicado pelo menos duas vezes por ano. A partir daí já

não há preocupações com a rivalidade desses pretensiosos jornais de Chicago.

O verdadeiro nome de Johnson, o seu nome de batismo, não era Ed Ponto, mas sim Lucas

(ou seria Lutero?), Randal não se lembrava muito bem. Anos antes, um dos seus repórteres

começara a chamar-lhe Ed abreviatura de Editor, e dado ser uma abreviatura, certo gramático

consciencioso acrescentara o Ponto. Johnson era um sueco desajeitado, de rosto marcado pela

varíola e nariz arrebitado que ninguém conseguia ver sem os seus óculos de espessas lentes

bifocais.

Diante de Johnson, dispondo cuidadosamente as cartas em leque por naipes, estava

sentado o tio Herman, irmão mais novo da mãe de Randal . O seu rosto continha uma perpétua

expressão de total vacuidade, dando a impressão de um pote de margarina. Randal recordava-se

do único emprego que o tio Herman agüentara. Durante algum tempo fora empregado de uma loja

de bebidas alcoólicas em Gary, Indiana. Após ser despedido, mudara-se com armas e bagagens

para o quarto reservado aos hóspedes em casa da irmã e nunca mais havia saído daquela casa.

Ora o caso ocorrera quando Randal ainda andava no liceu.

Tio Herman era a pessoa que aparava e regava o jardim, quem fazia os arranjos na cerca

e outras obras simples de interior, desempenhava o papel de moço de recados, sendo ao mesmo

tempo um devotado espectador dos jogos de futebol na televisão, e o habitual consumidor das

tortas caseiras. O pai de Randall nunca se preocupara com a sua presença em casa. De resto o

tio Herman constituía um produto visível daquela caridade tão apregoada pelo reverendo nos seus

sermões: aquele que tiver dois casacos, reparta um deles com quem não tem nenhum; e aquele

que tiver de comer, reparta também a sua refeição com quem não tem. E era assim que o

reverendo procedia com o cunhado... Amém.

O olhar de Randal deteve-se na mãe. Já a tinha beijado e consolado à chegada, embora

de fugida porque ela o empurrara praticamente para junto do pai. Cochilava encolhida a um canto

do sofá. Sem o marido parecia estranhamente incompleta. Seu rosto era rechonchudo e bondoso,

quase sem rugas, não obstante encontrar-se nos últimos estádios dos sessenta. Seu corpo, que

se afigurava destituído de formas, ocultava-se por baixo de um daqueles familiares vestidos de

algodão azul, já muito usado, mas, impecavelmente limpo e, ainda, calçava os mesmos sapatos

ortopédicos pesados de anos atrás.

Randal amara-a sempre, e continuava a amar aquela criatura paciente, meiga, simples e

discreta para quem ele nunca podia fazer nada de mal. Sarah Randal , a adorada esposa do

adorado pregador, segundo Randall supunha tinha bastante reputação na comunidade. No

entanto, para ele, não a podia conceber como um indivíduo separado, era unicamente a sua mãe.

Quase lhe era impossível evocar uma imagem da progenitora como uma individualidade com

opiniões, idéias e preconceitos próprios, salvo pelas recordações dos seus tempos de menino e

moço. Como adulto, conhecia-a como alguém que escutava e se fazia eco do seu companheiro,

que realizava os trabalhos domésticos que eram necessários fazer-se e cuja função primordial se

resumia em estar presente no lar. Sentia-se sempre confusa e surpresa, mas instintivamente

satisfeita, com os êxitos do filho e modos de homem da grande cidade. O amor dela pelo filho era

constante, cego, incondicional.

Randal resolveu sentar-se junto da mãe e esperar que ela acordasse. Quando

atravessava a sala a cabeça de Clare espreitou por cima da revista.

-Steve. Onde é que estiveste este tempo todo?

-Junto do papi.

- O médico disse alguma coisa? - perguntou Ed Ponto Johnson voltando-se na cadeira.

- Tem tido muito que fazer. Vem aqui logo que termine. Subitamente acordada, Sarah

Randall afastou-se do braço do sofá, onde estivera encostada, e alisou o vestido. Randal deu-lhe

um beijo na face e colocou-lhe o braço por cima dos ombros.

- Não estejas preocupada, mãe, verás que tudo acabará bem.

-Enquanto há vida, há esperança. O resto é com Deus.- Sarah Randall olhou para Tom

Carey, que se encontrava nesse momento a telefonar.-Não é verdade, Tom?

-Tem toda a razão, Sra. Randall. As nossas orações serão ouvidas.

Steve Randal seguiu os olhos de Carey que se voltavam para a porta, levantando-se

imediatamente.

Dr. Oppenheimer, ocupado vestindo o casaco, remexeu nos bolsos à procura de um

cigarro, que encontrou. Só quando se preparava para acender um fósforo pareceu dar-se conta

das pessoas que se encontravam na sala e da tensão que a sua chegada despertara entre eles.

- Quem me dera ter alguma novidade para lhes dar! - disse o médico não se dirigindo a

ninguém em particular. - Infelizmente ainda nada tenho para lhes dizer, por enquanto.

Fez um gesto para que Randal se sentasse, arrastou uma cadeira para junto do sofá,

sentou-se e acendeu finalmente o cigarro, enquanto Clare, Johnson, o tio Herman e o Reverendo

Tom Carey se reuniam junto dele.

Dirigindo-se especialmente a Randal e à mãe, o Dr. Oppenheimer começou:

- Clinicamente falando, eis o mal que estamos a combater: Nathan sofreu esta manhã uma

obstrução intra-craniana cuja origem se desconhece. O colapso foi provocado pelo bloqueio de

uma artéria-um coágulo de sangue numa das artérias que irrigam o cérebro. O resultado habitual

dessa espécie de acidente cerebral é a perda de consciência, seguida geralmente por uma

hemiplegia temporária, pelo menos.

Fez uma pausa para chupar o cigarro. Steve Randall aproveitou para perguntar:

-O que é a hemiplegia?

-Paralisia de um lado do corpo -normalmente o rosto, o braço e a perna - , precisamente

do lado do corpo oposto à parte do cérebro onde se verificou o acidente. Neste caso foi o lado

esquerdo. Antes de Nathan entrar em coma, o seu lado esquerdo mostrou indicações de

paralisia, mas os órgãos vitais estão em funcionamento. Até agora não registrou também qualquer

agravamento no seu estado. -Percorreu com os olhos o círculo de seres humanos que o

rodeavam - e para já é tudo o que tenho para lhes dizer.

-O senhor, Dr. Oppenheimer, nem sequer nos disse qual a gravidade do caso. Podemos

ao menos alimentar esperanças? - perguntou, impacientemente, Randal .

- Não posso prever o futuro - respondeu o médico encolhendo os ombros. -A minha

profissão nada tem vendo com a de Nostradamus, Steve. Ainda é cedo demais para poder

pronunciar. Sem dúvida que o estado dele é grave, mas, estamos fazendo tudo aquilo que os