A Terceira Jornada Filosófica por Luiz Caramaschi - Versão HTML

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Terceira Jornada Filosófica

“No alto e embaixo, o mesmo princípio,

a mesma lei, a mesma verdade:

SABEDORIA e AMOR formam a Unidade de Deus;

ESSÊNCIA e SUBSTÂNCIA entram na constituição de todas as coisas;

RAZÃO e SENTIMENTO integram a individualidade do homem” O Autor.

Editado pela

SOCIEDADE FILOSÓFICA LUIZ CARAMASCHI

Praça Arruda, 54

Fone: (14) 3351 1900

18 800-000 - Piraju - SP

O AUTOR

Luiz Caramaschi nasceu a 18/04/1919 e faleceu a 11/10/1992 em Piraju – SP, localidade

onde viveu quase toda a sua vida. Filho de pais de pouca cultura e de escassos recursos financeiros,

teve infância e adolescência difíceis, trabalhando arduamente na agricultura. Mesmo assim, por

esforço e vontade próprios, conseguiu bacharelar-se com distinção na segunda turma do antigo

Colégio Estadual de Piraju. Só bem mais tarde, em 1953, casado e já autor de algumas obras, voltou

aos bancos escolares, formando-se professor pela Escola Normal “Cel. Nhonhô Braga”, de Piraju,

profissão que nunca exerceu.

Desapegado dos bens materiais, buscou apenas sua formação intelectual. Facilmente teria

conseguido projetar-se em altos postos burocráticos ou em profissões liberais, mas acomodou-se

logo no segundo emprego, como agente postal do antigo Departamento de Correios e Telégrafos,

cargo em que se aposentou em 1976, não sem deixar sua passagem marcada pela instituição.

Ganhou o prêmio do melhor trabalho sobre o Código de Endereçamento Postal (CEP), ensaio

posteriormente publicado sob o título de Código Postal e a Raposa Sabida.

Autodidata, Luiz Caramaschi estabeleceu rígido esquema de estudos, que seguiu até a sua

morte. Na busca da solução de seus problemas pessoais, principalmente o do conflito entre a Teoria

da Evolução e o Criacionismo Bíblico, conseguiu ampla cultura geral e, dotado de “memória

mecânica”, via-se obrigado a registrar suas conclusões, ordenando-as de forma lógica.

“O grande acontecimento de sua vida” foi o seu casamento com Odila Prestes Caramaschi,

esposa dedicada, boa mãe e, principalmente, sua maior colaboradora. Pacientemente, anos seguidos,

mesmo trabalhando fora, ela conseguiu tempo para datilografar e colecionar todos os seus trabalhos

que, de outra forma, seriam montanhas de manuscritos ilegíveis, certamente perdidos.

Assim, foi fundada a Sociedade Filosófica “Luiz Caramaschi”, entidade cultural sem fins

lucrativos, voltada primordialmente para a preservação de todos os trabalhos literários desse

filósofo.

A TERCEIRA JORNADA FILOSÓFICA

Coube-me a honrosa tarefa de prefaciar esta obra de meu irmão Luiz

Caramaschi; duas vezes irmão, sendo uma por laços sangüíneos e, outra por

irmandade maçônica.

Há mais de trinta anos compreendi a profundidade da mensagem do autor,

uma vez que convivi com ele desde a mais tenra idade. Era mais velho que eu doze

anos.

Sempre foi estudioso, e, em suas horas de folga, lia, discutia, analisava, e,

principalmente, sintetizava os pensamentos mais variados dos mais diversos autores.

Profundo conhecedor do pensamento de muitos grandes homens, sempre

buscou, em cada um, a mensagem chave, a idéia básica, que a incorporava ao seu

conjunto verdade, em concordando com ela. Mas, caso contrário, tratava-a como falsa

verdade que lhe cumpria combater.

Leitor metódico, de cada livro que lia, anotava em seu caderno toda idéia

que lhe parecia correta para aproveitá-la, e, também, a que lhe parecia errada para

rejeitá-la. Essas anotações lhe valeram a facilidade para a elaboração das suas

citações. Discutia-as com todos os que tiveram o privilégio de conviver com ele. Eu

fui um desses privilegiados que tiveram a vantagem de ter tido dois pais.

Esta obra está sendo editada somente agora, embora, paradoxalmente,

tenha sido a primeira a ser escrita pelo autor. A inversão da ordem de edição deu-se

apenas em virtude de preferência didática, e não de importância, pois considero esta

obra no mesmo nível de todos os seus trabalhos, e dentro da coerência do autor. O

autor inicia esta obra com um diálogo entre personagens imaginários, em uma

biblioteca de uma casa à beira mar, no município de Cananéia, Estado de São Paulo,

com a qual sonhara em sua juventude. Seu sonho não se realizou, porque quando

teve tal oportunidade, já era velho, e não mais possuía as energias físicas para realizar

as rotinas diárias, as quais ludicamente descrevera como parte de suas pescarias na

foz do Rio Mandira. Nunca esteve em Cananéia. Porém foi lá, oniricamente, em

ambiente por si mesmo lúdico, que concebeu a sua Terceira Jornada Filosófica.

Impossível condensar, sem danos, a concepção do autor, que se apoia em

três bases, quais sejam: O Homem – A Natureza – Deus. O seu sistema filosófico

está fortemente alicerçado nas verdades alcançadas por todos os pensadores do

passado, e é de fato uma síntese do maior tesouro da humanidade, que ele dividiu em

três jornadas, como seguem:

A Primeira Jornada, também chamada de Realismo, que se condensa na

polêmica entre Parmênides, que defendia o Ser Único, Fixo, Imutável, Constante;

esta idéia opunha-se ao conceito de Heráclito, que dizia que tudo é Individual,

Mutável, Transformável, em um constante e permanente vir a ser.

A Segunda Jornada, também chamada de Idealismo – ou Filosofia

Moderna – tem início no “COGITO” de Descartes e termina em Darwin, que

sepultou todas as filosofias e religiões com sua Teoria da Evolução (editada em

1858), por ter lançado o mais contundente repto a todas elas.

Por isso, a Terceira Jornada aqui exposta, oferece novamente orientação

filosófica a esta civilização, chamada de Ocidental, e que se encontra sem bússola

desde aquela época.

Impõe-se agora uma nova idéia, ainda que velha, que sintetize as filosofias

todas, cuja síntese se harmonize com o pensamento religioso, na qual se cifra esta

Terceira Jornada Filosófica.

A Coruja de Minerva, a ave de olhar deslumbrado, tantas vezes referida

pelo autor, elevou-se no espaço, em seu primeiro vôo, no século VI a.C., na Grécia,

aurora da nossa Civilização, e, em seu segundo vôo, no século XV, com o Sol a pino

da Renascença, na Itália. Ela prepara-se agora, para alçar o seu terceiro vôo, no

Brasil, para levar ao mundo uma nova, porém velha mensagem, que sintetize todas as

opiniões divergentes, no momento em que assistimos ao declínio de nossa

Civilização Ocidental. Tem de ser agora, porque assim o exige a presente situação,

visto que, os bens do progresso científico anularam-se com a corrupção dos

costumes, e romperam os vínculos da família, que caminha agora para o seu

embrutecimento.

Não se trata, já se vê, nem de pessimismo niilista, nem ainda de otimismo

vazio, e sim de Alertismo Orteguiano, porque, como disse o autor, o nosso futuro

depende de nossas mãos, e estas, de nosso pensar.

A tarefa de condensar tudo isso em uma só obra, constitui-se no objeto

deste livro.

Que estas poucas palavras lancem o leitor na dúvida, e que esta dúvida o

incomode, é o meu desejo.

Bragança Paulista, 27 de dezembro de 1999

Seth Caramaschi

Terceira Jornada Filosófica

ÍNDICE

DIÁLOGO

I - Fundamentos de Terceira Jornada

II - Objetivos do Conhecimento

III - Onde a Verdade

IV - A Perfeição é Imutável

V - A Queda das Almas do Topos Uranos

NÃO DIÁLOGO

VII - Problemas do Nosso Tempo

VIII- Os Caminhos da Vida

IX - Respostas às “Breves Notas”

X - Religião

XI - Essência e Substância

XII - Ontologia e Metafísica

XIII - Minha Filosofia é a Linha do Grau 18

XIV - Símios e Antropóides

XV - O Aparecimento do Homem

As Duas Alternativas

SOCIEDADE FILOSÓFICA LUIZ CARAMASCHI

Praça Arruda, 54

Fone: (14) 3351 1900

18 800-000 - Piraju - SP

Capítulo I

Fundamentos da Terceira Jornada

A noite caíra já, de todo, sobre Cananéia. O mar rumorejava ao longe, batido pelo vento

fresco vindo em direção à terra. A casa de Árago estava toda iluminada, e na sala da biblioteca os

estudiosos esperavam pela entrada do pensador. E tanto que ele entrou, e tomou o seu lugar,

principiou a falar:

– Como vimos, Kant demonstrou a impossibilidade da metafísica. Contudo, deixou a porta

aberta, com dizer que é próprio da nossa inteligência exigir o incondicionado, o absoluto. Por isso

três filósofos surgiram para desenvolver teses absolutistas, que foram Fichte, Schelling e Hegel.

Com eles o mundo se enfastiou de absolutismos. Com Augusto Comte veio a reação, e a

filosofia caiu no ridículo. A suceder, veio Herbert Spencer, filho espiritual de Darwin, levando

para o campo filosófico a doutrina da evolução. Então, o bom Deus não criou o homem de um

golpe, como produto acabado, como pensaram todos até ele. Desde então o mundo ficou sem

filosofia sistemática até nossos dias. Este é também o pensar de José Ortega Y Gasset.

– Agora, continuou o filósofo cananeano, vamos tentar a construção de um sistema.

Todavia, vamos principiar com os métodos novos fornecidos pela chamada filosofia nova.

E após ponderar um pouco, acrescentou o filósofo:

– Cristo disse: se vos não tornardes como meninos, de modo nenhum não entrareis no reino

dos céus. Por isto, se não fizermos tábua-rasa de nossos sistemas anteriores, e não iniciarmos com

métodos novos, não alcançaremos a verdade. E esta é a atitude psicológica em que nos devemos

colocar. Uma vez que nos dispusemos tornar como crianças, que qualidades caracterizam os

meninos, Chilon ?

Após haver ponderado o que havia de responder, exclamou Chilon:

- A primeira qualidade ou caráter das crianças é serem curiosas.

– Bom. Então sejamos todos curiosos, tornou o mestre. Tenhamos os olhos deslumbrados

como as crianças, como a coruja de Minerva. E que outro caráter descobre você nas criança ?

– Acho que são ingênuas.

- Seja essa, então, a nossa outra qualidade que nos faz abertos, e não fechados em nós

mesmos, como se fôramos sábios, e não, meros aprendizes. Quando Sócrates declarava não saber

nada, punha-se nesta atitude ingênua de querer saber. Contudo, existe um caráter próprio dos

filósofos de que não abriremos mão.

– Qual é ? – interrogou Chilon.

– É o rigorismo. Embora ingênuos e curiosos, manter-nos-emos com espírito de rigor,

próprio de homens amadurecidos nas lidas do pensar. Sejamos meninos, porém não de todo

meninos. E há outra qualidade própria de homens velhos, que é a paciência. Não faremos como as

crianças que põe ou propõem problemas para os quais ainda não estão amadurecidas. Quer dizer

que teremos paciência para não colocar problemas que não se tenham colocado, espontaneamente,

pelo desenvolvimento dialético. No transcorrer dos nossos estudos, os problemas ir-se-ão,

espontaneamente, sendo propostos. Concordam todos em nos mantermos nesta atitude ?

Ao dizer isto, encarou o pensador a todos os presentes, a fim de verificar se todos estavam de

acordo. Uma vez notificado que sim, por acenos de cabeça, continuou:

– Curiosos e ingênuos, olhemos para o mundo que nos cerca, e no qual estamos imersos.

Mas quando olhamos para o mundo, verificamos que já sabemos, de antemão, tudo sobre ele. Antes

que compulsemos os compêndios da história da filosofia, verificamos que há a nossa própria

história, a história da nossa vida, como começamos a aprender, e de que modo aprendemos.

– Neste caso, tornou Bruco, caímos de novo na epistemologia, que é de onde partiram os

filósofos idealistas até Kant.

– Pode ser, respondeu Árago, mas será uma epistemologia vital, e não, aquela dos idealistas.

Partiremos da raiz mesma do conhecimento, e não, do galho que bem mais acima nasce. Não

vamos começar por ver como pensa o homem racionalmente, e sim, como pensa ele vitalmente.

Antes do pensamento abstrato está a nossa vida concreta, efetiva, espontânea; antes de nossas

teorias sobre as coisas e sobre o mundo, esteve a nossa vivência, a nossa atuação sobre as coisas,

sem que as conhecêssemos. “No princípio era a Ação”, diz-nos Goethe no seu “Fausto”. Como

doutamente o diz Ortega, “o destino do homem é, portanto, primariamente ação. Não vivemos

para pensar, mas ao contrário: pensamos para conseguir perviver” 1. O próprio pensamento, na sua

gênese (ensaio-e-erro) é pura ação sem pensamento. Assim, o ensaio-e-erro é uma experimentação

caótica; é uma provocação ao meio, ao ambiente, ao contorno, a fim de ver se nele se abre uma

brecha de modo a que o problema se resolva. Não é só o animal que usa este método; o homem

também o emprega, quando se vê frente a um problema inteiramente novo. Quando não há

elementos na mente para agir contemplativamente, reflexivamente, o jeito é experimentar às cegas,

às tontas, ao acaso, até obter os primeiros resultados com os quais, agora sim, se pode contar para as

operações mentais abstratas. Assim se começa a pensar de modo ativo, visto como o sujeito atua

sobre o ambiente, a fim de ver como este reage. Não obstante, há também um modo mais primário

de pensar, que é o passivo, pelo qual o sujeito interpreta e reage às ações que sobre si exerce o

meio. É o que se chama “inferência fisiológica” , para empregarmos a expressão de Bertrand

Russell. Se após ouvir um determinado ruído, recebermos um forte jacto de luz nos olhos, as

pupilas se fecham por efeito da luz. Depois de muitas repetições, só o ruído, sem a luz, fará as

pupilas se contraírem. É que o som e a luz foram associados, como sendo o ruído a “causa” da luz.

Ora, o raciocínio é inferência ou associação; logo, esse fenômeno do reflexo condicionado é já

raciocínio na sua forma primigênia, anterior, portanto, ao ensaio-e-erro. Ele não é exato, e, apesar

de não o ser, domina toda a escala animal chegando até ao homem, pelo que se criam os inúmeros e

contínuos qüiproquós.

1 José Ortega Y Gasset, O Homem e a Gente, 62

E após um fôlego, prosseguiu o pensador:

– Qüiproquó significa tomar uma coisa por outra; tomar o ruído pela luz; tomar a nuvem

por Juno ou Hera, como aconteceu a Ixião, herói e rei tessálio. Do rapto de Ixião com a nuvem

com forma de Hera, nasceram os centauros que são, por isso, filhos dum equívoco. Deste modo,

os qüiproquós são equívocos dos quais nascem monstros meio homens e meio cavalos, ou seja,

meio racionais e meio brutos. A inferência fisiológica ou reflexo condicionado é isto. Consulte-se

a história, e ver-se-á o que têm produzido os qüiproquós; batalhas se perderam, ou foram ganhas,

graças aos agouros, maus no primeiro caso, e bons no segundo. Um cometa nos céus antecedeu a

morte de Cesar; logo, Vespasiano devia morrer, porque, em seu governo, apareceu, também, um

cometa nos céus. E conhecendo Vespasiano o efeito deste equívoco, pois algum fanático poderia

até matá-lo para que se cumprisse a previsão, por isto, apressou-se a desfazer o qüiproquó com dizer

que, sendo ele careca, e o cometa, cabeludo, não podia de nenhum modo referir-se a ele. É assim

que contra um qüiproquó, outro qüiproquó. Um homem foi hipnotizado, e logo após, morreu; foi a

hipnose que provocou a morte. Isto jamais aconteceu, mas pode suceder, e tal será o “raciocínio”

da gente simples ou ignorante.

E fazendo um ar de riso irônico, relatou Árago:

– Certa vez, um vereador, ministro protestante, estava falando no plenário, contra a

entronização da imagem de Cristo na sala das sessões. Isto é fato acontecido, se não me engano, em

Ourinhos. O orador teve o seu discurso interrompido por um colapso cardíaco, caindo, morto já,

sobre a mesa que lhe estava à frente. Foi, disseram os da oposição, um castigo do céu fulminado

sobre o herege.

Fez uma pausa, o mestre, para gozar, com os presentes o efeito deste relato sucedido;

depois, compondo de outro modo o semblante, continuou:

– Os bons e os maus agouros são todos qüiproquós, contra ou a favor dos quais todos os

antigos homens de liderança haviam que estar prevenidos. Assim, é que Cipião, entrando na África,

à frente de seus homens de guerra, tropeçou e caiu. Era um mau agouro. Porém, porque estava

prevenido, presto, abraçou-se com a terra e bradou: “Agarrei-te, ó África ! não me sairás mais das

mãos !” Ciro, o persa, acampando-se, com suas tropas, nas vizinhanças da cidade que ia submeter

pelas armas, antes de mais nada, erigia um altar e oferecia sacrifícios aos deuses dessa cidade. Isto

não só dava confiança aos seus, como abalava a dos da cidade, que sempre haviam de ter motivos

para pensar que tinham ofendido a seus deuses. Deste modo os bons agouros sempre foram

preparados antes das batalhas, para animar os de cá, ao tempo em que se procurava minar a

confiança dos da oposição, com os maus.

E voltando-se para Chilon, perguntou o mestre:

– E ainda há, Chilon, quem queira defender a tese de que a história se escreve pelo dedo de

Deus ? Que podemos nos descansar, que tudo irá sair da melhor forma possível ? Que o destino

histórico está predeterminado por uma vontade superior, como pensam os místicos ? Que a história

é ciência, e por isso se acha regida por leis, como pensam os idealistas da direita e da esquerda

hegeliana ? Se fosse assim, não teria havido os contínuos retrocessos das civilizações, e até o

retorna à barbárie poderá ainda ocorrer, se não se mantiver o homem vigilante, alertado sobre o que

possa sobrevir ! A verdade é que alguns sacos de gatos, abertos numa frente de combate, como já

ocorreu, pode decidir da sorte duma batalha, do resultado duma guerra, e modificar o curso da

história ! É ridículo supor que Deus se valha de qüiproquós para riscar, com seu dedo divino, o

rumo da história ! Mas isto é uma digressão. Vamos ao que eu ia dizendo?

– Do quanto expus, a respeito da associação que aparece na gênese do pensamento, seja

como inferência fisiológica, seja como ensaio-e-erro, salta já esta conseqüência: que a associação é

o que, primariamente, aparece na história ainda biológica do pensamento. Portanto, esta é a forma

mais simples de raciocinar. Pela recíproca, a forma mais difícil é a dissociação ou análise. O

método sintético ou dialético é o simples e primitivo; o método analítico ou dissociativo é o

complexo. Pegar uma idéia como premissa, e arrancar dela tudo o que nela se contém, até suas

últimas conseqüências, é muito mais difícil do que associar idéias umas com as outras, assim de

modo que uma idéia puxa pela outra, e se vai fácil e espontaneamente, pouco a pouco,

dialeticamente, armando todo um sistema. Isto mesmo é o que diz o perspicaz Ortega na nota 37,

ao pé da página 96 de sua obra “A Rebelião das Massas”. Aqui está, nas minhas notas que fiz

durante a leitura dessa obra: “A liberdade de espírito, quer dizer, a potência do intelecto, mede-se

por sua capacidade de dissociar idéias tradicionalmente inseparáveis. Dissociar idéias custa muito

mais que associá-las, como demonstrou Kohler em suas investigações sobre a inteligência dos

chimpanzés” .

Neste ponto, interveio Bruco perguntando:

– Quer dizer que essa sua epistemologia vital, como o senhor a nomeou, consiste em que

nossas primeiras idéias nos vêm por associação ?

– É isso. Mas não é meu intento recuar na escala zoológica. Por agora, não nos interessa

como “raciocinam” os animais, e, conseguintemente, o pré-homem macacóide. Temos de recuar a

fundamentos menos remotos, e ver como aprende o homem atual. Tenho de ater-me a isto: aquilo

que sei, como, primariamente, me veio ? Mas quando dava voltas à razão para achar o caminho,

encontro-o já achado por Ortega, pelo que sou forçado, com muito gosto, a filiar-me a ele. Forçado

porque ele veio antes, e honestamente devo referi-lo; com muito gosto, porque, o que ele fez está

muito bem feito, não precisando eu de tornar a o fazer. Dizendo isto, dou por recomendado a vocês

o estudo das obras de Ortega que tratam desta parte; são elas: “O Homem e a Gente” e “A

Rebelião das Massas” . Diz, então, Ortega, a este propósito: “O mundo humano precede, em nossa

vida, ao mundo animal, vegetal e mineral. Vivemos todo o resto do mundo como através das grades

de uma prisão, através do mundo de homens em que nascemos e em que vivemos. E, como uma

das coisas que mais intensa e freqüentemente fazem esses homens, em nosso imediato contorno, em

sua atividade reciprocamente, é falarem uns com os outros e comigo, com o seu falar injetam em

mim as suas idéias sobre todas as coisas e eu vejo, em princípio, o mundo todo através dessas idéias

recebidas” 2 . Mais: “Somos aquilo que nosso mundo no convida a ser, e as feições fundamentais

de nossa alma são impressas nela pelo perfil do contorno como por um molde. Naturalmente: viver

não é mais que tratar com o mundo. O semblante geral que ele nos apresenta será o semblante geral

de nossa vida” 3 . Deste modo, a primeira experiência que temos é a social, e ao nascimento nos

achamos abertos ao contorno social que nos penetra e nos plasma, e toda a realidade do mundo nos

vem, primariamente, por esta via. Ou então, na bela formulação de Ortega: “Isso nos leva a

2 Ortega Y Gasset, O Homem e a Gente, 142

3 Ortega Y Gasset, O Homem e a Gente, 117

formular este primeiro teorema social: o homem está a nativitate aberto ao outro que não é ele,

ao ser estranho; ou, com outras palavras: antes de que cada um de nós percebesse a si mesmo,

havia tido a experiência básica de que existem aqueles que não sou “eu” , os Outros; isto é, o

Homem ao estar a nativitate aberto ao outro, ao alter que não é ele, é, a nativitate, queira ou

não, goste ou não goste, altruísta 4 . Deste modo, pouco a pouco, vai a doutrina de Ortega

condensando-se no enunciado seu de que “eu sou eu e a minha circunstância” 5 .

Fez uma pausa o pensador, e aproveitou-a Benedito Bruco para fazer uma observação; disse

ele:

– Essa epistemologia que o senhor chama vital, pelo que se vê, é oposta à dos filósofos

idealistas. Porque Platão dizia que a opinião comum era a doxa, contra a qual ele opunha a

episteme ou ciência. Daí, que a doutrina dos filósofos havia que ser, necessariamente, para-doxa,

paradoxa, isto é, contra a doxa. Ora, o senhor afirma que nosso primeiro conhecimento é a doxa, a

opinião comum que o meio social nos inocula desde o nascimento.

– Acontece, meu caro Bruco, que antes da episteme ou ciência, está, de fato, a doxa ou

opinião comum. A própria episteme nasceu da doxa, por oposição dialética, isto é, como antítese à

doxa. E é por aqui, pela doxa, que começamos a aprender. Além disso, se epistemologia quer dizer

teoria do conhecimento, temos de ver como e por que meio começamos conhecer. E esta, que não

terminou ainda, é apenas a primeira visão de como aprendemos, depois do que virá a segunda.

E vendo que Bruco se aquietara com esta resposta, continuou o filósofo com o que vinha

expondo:

– Todos nascemos num lar, e, por isto, a primeira realidade que encontramos é a social. Ora

bem, Chilon: por que meio a cultura do nosso grupo, do nosso contorno social nos penetra, nos

enche, nos satura, de modo a nos tornar um novo elemento do meio ?

– Ah ! Isso nós já estudamos nos “Serões Bíblicos” , pelo que sabemos bem. O método

empregado pelo social que nos rodeia é a sugestão.

– Bom. Fale, então, você, um pouco sobre isso, a fim de que possamos prosseguir.

Instado, assim, pelo pensador, Chilon se pôs a meditar um pouco, relembrando as lições

dadas nos “Serões Bíblicos” . E tendo dado com o ponto, começou:

– Estudamos já que a sugestão é fundada no princípio da autoridade, no princípio do

magister dixt. Para a criança que aprende, todo mundo é mestre. E aprendemos, por esse modo, a

língua, a religião, a moral, os costumes, e ainda, pela imitação, adquirimos os hábitos.

– Quer dizer, meu Chilon, que a episteme ou ciência não está na raiz dos nossos

conhecimentos, e sim, a sugestão ? Que nós aprendemos de memória, e não, de razão ?

4 Ortega Y Gasset, O Homem e a Gente, 142

5 Ortega Y Gasset, Meditações do Quixote, 52

– Exato ! Nossos conhecimentos, primariamente nos vêm por sugestão, e esta se define

como sendo a aceitação duma idéia sem exame algum; por isso ela se opõe à persuasão que é a

aceitação duma idéia mediante demonstração lógica, mediante exame racional, mediante estudo,

mediante o ato de re-pensar, por nós mesmos, com nossa própria cabeça aquilo que outros, antes de

nó, pensaram, disseram e escreveram.

– Está certo. Quer dizer que depois que o homem cresce, hein Chilon, ele se torna

racional ?

– De modo nenhum ! A sugestão continua sendo uma constante componente da vida de

quase todo mundo. Só há uma pequena elite dos que pensam. O resto vai de roldão, arrastado por

essa elite. Quando o escolástico, na Idade Média, dizia: magister dixt (o mestre disse), esse

mestre era Aristóteles ao qual não se admitia contestação. Essa aceitação de fé da palavra do

grande mestre grego é pura sugestão. Portanto, está com a verdade Medeiros e Albuquerque ao

afirmar que, “mesmo no domínio da inteligência, é uma tola presunção a dos que dizem que já

passou a época do magister dixt” 6 . Por esta causa, quando, no século XVII, o jesuíta astrônomo

Scheiner descobriu as manchas do Sol, “foi repreendido por seus superiores espirituais – porque

nos escritos de Aristóteles não havia nada escrito sobre manchas solares” 7 . Lineu, o sábio

sistematizador da botânica, tinha lido Aristóteles em sua mocidade; pois “quarenta anos depois, já

homem famoso, continuava a afirmar, com a idéia fixa de uma criança, que a andorinha e a cegonha

hibernavam no fundo do mar. Continuou pensando assim e nunca, durante toda a sua vida, se

deixou convencer do contrário. Para ele a palavra de Aristóteles valia mais do que a própria

experiência” 8 . A grande autoridade de Aristóteles entravou o progresso das ciências, tendo-se

esfacelado nesta muralha de misoneísmo todos os que se puseram a pesquisar sobre os fatos da

evolução. Medeiros e Albuquerque tem razão: “A sugestão é onímoda” 9 .

Fez silêncio Chilon. E Árago, tomando a palavra, prosseguiu:

– Esta parte, se bem que não com o nome de sugestão, está amplamente desenvolvida na

obra de Ortega “A Rebelião das Massas”. Na obra “O Homem e a Gente”, Ortega deixa

assentado um ponto de suma importância para os nossos estudos. Completando a doutrina

sociológica de Durkheim, demonstra, Ortega, que o fato social não só possui exterioridade e

coercividade, como, mal e mal, o viu Durkheim, senão que também ele é irracional, ou possui o

característico de irracionalidade. Contrariamente, Durkheim acreditava “que o fato social era

verdadeiramente racional, porque emanava de uma suposta e mística “consciência social” ou

“alma coletiva” . Além disso, não advertiu que consiste em usos, nem o que é o uso. Ora, a

irracionalidade é nota decisiva” 10 . Caberia fazer, agora, um paralelo entre usos e hábitos

individuais, no sentido de que não os pensamos para os executar. Deste modo, os usos são hábitos

sociais, e só se diferem dos instintos, por serem natos. Os hábitos são reflexos condicionados,

donde vem que os usos também o são, porém, no social. Mas a racionalidade, a reflexão, está na

gênese de tudo isto, a saber: os hábitos, propriamente ditos, são pensados nos seus nascimentos, e

pela repetição dos atos pensados, e também, pela imitação, se fixam em automatismos irracionais.

6 Medeiros e Albuquerque, Hipnotismo, 79

7 Herbert Wendt, À Procura de Adão, 14

8 Herbert Wendt, À Procura de Adão, 32

9 Medeiros e Albuquerque, Hipnotismo, 250

10 Ortega Y Gasset, O Homem e a Gente, 48

Igualmente, os usos não surgiram do nada; alguém os executou pela primeira vez, após tê-los

pensado. Depois é que estes usos se transmitem, por imitação, por sugestão, ao resto da massa

coletiva, e é, então, que se desumanizam, ou seja, perdem o seu sentido de coisas individuais. Sub-

posto que os hábitos são irracionais, por serem automatismos executados sem pensar, mesmo para

aquele que os criou, quanto mais para aqueles que os assimilou do meio por imitação; suposto que

a crença em que sempre um homem está (“estamos sempre numa crença” – Ortega), com ser fé,

também e irracional; que os usos são repetições automatizadas que somo forçados a executar (o

cumprimento, por exemplo), e por isto não os pensamos para os fazer; considerando que a maior

parte dos conhecimentos, até científicos, possuímo-los na base do magister dixt ; que é que sobra

para ser classificado como verdadeiramente racional ? E se o homem-massa, que constitui a grossa

maioria, nunca pensa, nunca é si mesmo, mas, pelo contrário, é o social nele, o social que o

invadiu, que o dominou, que o expulsou de si, que o fez inautêntico, se este homem-massa é semi-

racional, como afirmar que a epistemologia, que a teoria do conhecimento como tal, se aplica a este

grosso pragmatismo feito de irracionalidade, que enche a vida humana ?

E sentindo-se perfeitamente entendido, continuou o mestre:

– “O animal (diz Ortega) não rege a sua existência, não vive a partir de si mesmo, mas está

sempre atento ao que se passa fora dele, a esse outro diferente dele. Nosso vocábulo outro não é

senão o latino alter. Dizer, portanto, que o animal não vive a partir de si mesmo, mas do outro,

trazido e levado e tiranizado por seu outro, equivale a dizer que o animal vive sempre alterado,

alienado, que sua vida é constitutiva alteração 11 . E tal como ocorre com o animal, “quase todo

o mundo está alterado, e na alteração o homem perde o seu atributo mais essencial: a possibilidade

de meditar, de recolher-se dentro de si mesmo, para se pôr de acordo consigo mesmo e precisar,

para si mesmo, aquilo que crê; aquilo que estima de verdade e o que deveras detesta. A alteração

o obnubila, o cega, o obriga a atuar mecanicamente em um frenético sonambulismo” 12 . Deste

modo, “o homem costuma viver intelectualmente a crédito da sociedade em que vive, crédito do

qual nunca se fez questão. Vive, portanto, como um autômato da sua sociedade. Só em tal ou qual

ponto se dá o trabalho de revisar as contas, de submeter à crítica a idéia recebida e rejeitá-la ou

readmiti-la; mas, desta vez, porque a repensou ele mesmo e examinou os seus fundamentos” 13 .

Todavia, o que faz isto, ou seja, repensar as idéias, já não é homem-massa, e antes, se encaminha

para o homem excelente, porque, “o homem-massa é o homem cuja vida carece de projeto e

caminha ao acaso. Por isso não constrói nada, ainda que suas possibilidades, seus poderes, sejam

enormes” 14 . “Diante de uma só pessoa podemos saber se é massa ou não. Massa é todo aquele

que não se valoriza a si mesmo – no bem ou no mal – por razões especiais mas que se sente

“como todo o mundo” , e, entretanto, não se angustia, sente-se à vontade ao sentir-se idêntico aos

demais” 15 .

E após o descanso numa pausa, prosseguiu Árago:

– Consequentemente, o homem-massa se opõe a outro tipo de homem, do homem excelente,

do homem minoria. E o próprio Ortega nos fala longamente dele. Trata-se do homem-elite, do

11 Ortega Y Gasset, O Homem e a Gente, 56

12 Ortega Y Gasset, O Homem e a Gente, 55

13 Ortega Y Gasset, O Homem e a Gente, 292

14 Ortega Y Gasset, A Rebelião das Massas, 104

15 Ortega Y Gasset, A Rebelião das Massas, 63

homem-nobre que faz para si um projeto do que quer ser. A esse homem Ortega chama herói,

porque, querendo ser si mesmo, se opõe à massa inautêntica, visto como autenticidade é ser si

mesmo. O homem autêntico, o que se opõe à massa homogênea de iguais, sofre a reação nivelante

deste, causando a ele sofrimentos. Mas fale Ortega:

E dizendo isto, pôs-se o mestre a folhear suas notas. E tendo achado o ponto, leu, para os

presentes:

– “(...) É um fato existirem homens decididos a não se contentarem com a realidade.

Aspiram a curso diverso para as coisas; negam-se a repetir os gestos que o costume, a tradição, e,

em resumo, os instintos biológicos querem impor-lhes. A homens assim chamamos heróis. Porque

ser herói consiste em alguém ser si mesmo. Se resistimos a que a herança, a que o circunstante nos

imponham ações determinadas, é porque almejamos assentar em nós mesmos, e só em nós, a

origem dos nossos atos. Quando o herói quer algo não são os antepassados nele ou os usos

presentes que querem, mas ele mesmo. Este querer ser si mesmo é o heroísmo” . E continua

Ortega:

– “Não creio em originalidade mais profunda que esta originalidade “prática” , ativa do

herói. Sua vida é uma perpétua resistência ao habitual e consuetudinário. Cada movimento que ele

faz necessitou, primeiro, vencer o costume e inventar nova maneira de ser. Vida assim é dor

perene, o constante desgarrar-se daquela parte de si mesmo entregue ao hábito, prisioneiro da

matéria” 16 . Este é o homem autêntico, no passo que o homem-massa é o inautêntico. Entretanto,

a vida não nos apresenta estes extremos, estas quase exceções. Verificamos que cada homem traz

em si ambas coisas, porções descompensadas de autenticidade e inautenticidade. Deste modo,

“todos levamos dentro de nós os despojos de um herói” 17 . “Mas aos pés do herói interior que

todos nós trazemos, agita-se uma caterva de instintos plebeus. Em virtude de razões sem dúvida

suficientes, costumamos abrigar uma grande desconfiança em relação ao portador de usos novos. A

quem não se esforça por ultrapassar o nível ordinário não pedimos justificação, mas exigimo-la

peremptoriamente ao valente que tenta transcendê-la. Poucas coisas odeia tanto nosso plebeu

interior como o ambicioso. E o herói, claro está, começa por ser um ambicioso. A vulgaridade não

nos irrita tão a fundo como as pretensões. Daí que o herói ande sempre a dois passos de cair, não na

desgraça – que isto seria subir, para ele – , mas no ridículo” 18 . Por conseguinte, há “duas

castas de homens: os meditativos e os sensuais. Para estes é o mundo uma superfície nivelante...

Os outros, pelo contrário, vivem na dimensão da profundidade” 19 . Pelo que estamos vendo, “há

quem não viva quase nada, senão a pseudo-vida da convencionalidade, e há, em compensação,

casos extremos em que entrevejo o outro energicamente fiel à sua autenticidade. Entre ambos os

pólos aparecem todas as equações intermediárias, pois que se trata de uma equação entre o

convencional e o autêntico que em cada um de nós tem cifra diferente” . Mais isto: “Em nosso

primeiro momento de trato com o outro, sem atentarmos especialmente nisso, calculamos a sua

equação vital, isto é, quanto há nele de convencional e quanto de autêntico” 20 .

16 Ortega Y Gasset, Meditações do Quixote, 156

17 Ortega Y Gasset, Meditações do Quixote, 163

18 Ortega Y Gasset, Meditações do Quixote, 163

19 Ortega Y Gasset, Meditações do Quixote, 95

20 Ortega Y Gasset, O Homem e a Gente, 180

Fechando o pensador seu caderno de anotações, levantou-se e foi à lousa; e voltando-se para

os presentes, rematou:

– Tudo o quanto disse Ortega, podemos resumir neste princípio psicológico-social: todo o

homem é uma soma da sua autenticidade com a sua convencionalidade; sendo uma soma, quanto

mais se ganha em autenticidade, mais se perde em convencionalidade, e vice-versa. Isto mesmo

expresso em fórmula, usando por letras as iniciais das palavras homem (H), autenticidade (A) e

convencionalidade ( C ), daria:

H = A + C

Ora, o convencional nos vem por sugestão (S), do meio que nos circuita, no passo que a

autenticidade se origina da persuasão (P) daquele que repensou as idéias alheias, a par das suas

próprias que engendrou. Daí poder a fórmula posta aqui na lousa, assumir este outro cariz:

H = S + P

E esperando que dos presentes viesse alguma réplica, e vendo que não vinha, voltou a ocupar

o seu lugar à mesa, prosseguindo:

– O outro passo que se segue a este na seqüência das idéias, é saber como pode o homem

cem por cento convencional, o homem massa por excelência, ir-se passando para o outro termo, a

autenticidade. O animal, já o vimos, vive alterado, porque tem toda a sua atenção voltada para o

contorno que o ameaça; descuidar-se é morrer. Também o homem inautêntico, que vive fora de si,

que não sabe ainda ensimesmar-se, vive na alteração. O contorno o move, o obriga a parar ou

correr. E quando o homem resolve opor resistência ao meio, a não obedecê-lo, a não seguí-lo,

precisa buscar os recursos dentro de si. “Na solidão o homem é a sua verdade, – na sociedade

tende a ser sua mera convencionalidade ou falsificação. Na realidade autêntica do viver humano,

está incluído o dever da freqüente retirada para o fundo solitário de si mesmo (...) Essa retirada (...)

é o que se chama, com um nome amaneirado, ridículo e confusionista, filosofia 21 . “A filosofia

é, pois, a crítica da vida convencional, inclusive, e muito especialmente, da nossa vida, - críticas

que o homem se vê obrigado a fazer, de quando em quando, levando-a diante do tribunal da sua

vida autêntica, da sua inexorável solidão; ou – também se pode dizer – é a partida dobrada de

que o homem precisa, para que os negócios, assuntos, coisas em que pôs a sua vida, não sejam, em

excesso, ilusão; mas averiguados com a pedra de toque que é a realidade radical, permaneça cada

um deles no grau de realidade que lhe corresponda” 22 . Eis como surge para o homem a fase da

racionalidade, do pensamento abstrato.

E após uma interrupção, continuou o mestre:

– Reparem que, até aqui, a nossa epistemologia vital tratou duma teoria do conhecimento

tomado das realidades da vida. Vimos que os conhecimentos que o homem-massa possui, foi-lhe

transmitido pelo meio social desde o seu nascimento, por via sugestiva. Este é o conhecimento

primário, e não aquele que surgiu pela necessidade do rigor. Kant, à frente dos idealistas, cuidou

que o conhecimento científico e rigorosamente racional é o básico na vida humana, no que esteve

21 Ortega Y Gasset, O Homem e a Gente, 135 - 136

22 Ortega Y Gasset, O Homem e a Gente, 137

completamente enganado. A atitude reflexiva, racional, é secundária, e só nasce muito mais tarde;

e às vezes não aparece nunca; e há povos, haja vista o israelita, que nunca pautaram suas vidas pela

razão, e só, isso sim, pela fé nos seus deuses. A exemplo dos israelitas, todos os povos primitivos

eram místicos, e não racionais. E isto não os impediu em nada de viverem suas vidas, e de

escreverem suas histórias. Não tem, pois, sentido a admiração dos filósofos gregos ao considerar

como foi possível que todos os povos, sem exceção, até eles, tivessem vivido sem filosofia, sem

ciência, sem os conhecimentos racionais exatos ! Pois viveram, e vivem ainda, porque a razão não

é um mar de pensamento como cuidaram todos, e sim, breve ilha a flutuar no oceano da vida, como

o afirma Ortega. E iremos ver ainda isto mesmo por uma ótica diferente. Cumpre-nos, por ora,

prosseguir nesta parte. Continuemos:

– O homem primitivo vivia, como qualquer animal, na mais completa alteração. Mas fez

isto um dia de diferente, que o transformou a tal ponto, que o posto que tem de rei dos animais,

passou a ser-lhe dura humilhação. Por isto quis considerar-se, nem mais nem menos, uma espécie à

parte, criada diretamente por Deus, sem parentesco nenhum com os seres inferiores. Eis a

portentosa façanha que transformou um animal em homem: “Mal os seres em torno lhe deixaram

um alento, o homem, fazendo um esforço gigantesco, consegue um instante de concentração, mete-

se dentro de si, isto é, mantém, a duras penas, sua atenção fixa nas idéias que brotam dentro dele,

idéias que as coisas suscitam, e que se referem ao comportamento destas, ao que logo o filósofo

chamará “o ser das coisas” ” 23 . “Por isso, o Homem, goste ou não goste, queira ou não queira, é,

constitutivamente e sem remédio, um decifrador de enigmas e, ao longo da história universal, se

ouve, por trás de todos os ruídos, um estridor de facas que alguém afia no amolador: é a mente

humana que passa e repassa o seu fio sobre o tenaz enigma (...) que é o Ser” 24 . Deste modo, à

força de ensimesmar-se, o homem se transforma num contemplativo habitual; neste caso quase

perde o homem sua capacidade de dormir, em oposição com o que ocorre com os animais

domésticos (o cão, o gato), ou com os postos em cativeiro. “Daí, a enorme capacidade de

sonolência que manifesta o animal, a modorra infra-humana, continua em parte no primitivo e,

opostamente, a insônia crescente do homem civilizada, a quase permanente vigília – às vezes,

terrível, indomável – que aflige os homens de intensa vida interior. Não faz muitos anos, meu

grande amigo Scheler, – uma das mentes mais fecundas do nosso tempo, que vivia em incessante

irradiação de idéias, – morreu de não poder dormir” 25 .

Fez uma pausa o pensador, depois do que continuou:

– Um dever de honestidade nos impõe que façamos esta deliciosa rapsódia de trechos

orteguianos, e ainda nos cumpre prosseguir com ela, se bem que já num novo movimento. Não

podemos dar por nosso o que é alheio, e ainda mais que este alheio se nos mostra meridianamente

claro, além de expresso em forma incomparável. Conquanto o que se diga ainda é de Ortega, isto

nos veio da brilhante pena de José Ferreira Mora, no seu “Ensaio Introdutório” à obra de Ortega,

“Origem e Epílogo da Filosofia”. A esta altura do desenvolvimento que vamos fazendo, cumpre-

nos aprofundar um ponto referido por Ortega, e que é o de que vivemos sempre numa crença. Ora,

“as crenças não são idéias que sustentamos ou mantemos, antes idéias que somos 26 . E explica

Mora: “a diferença entre idéias e crenças é equivalente à diferença entre pensamentos que

23 Ortega Y Gasset, O Homem e a Gente, 60 - 61

24 Ortega Y Gasset, O Homem e a Gente, 178 - 179

25 Ortega Y Gasset, O Homem e a Gente, 58 - 59

26 Ferreira Mora, Origem e Epílogo da Filosofia, 77

produzimos, examinamos, discutimos, formulamos ou negamos, e pensamentos que não

formulamos, discutimos, negamos ou aceitamos porque ao invés de fazer alguma coisa com eles

estamos simplesmente neles” 27 . Dê um exemplo disto, Chilon, para que esta doutrina não fique

no ar, como pura teoria.

Depois de meditar um tanto, propôs Chilon:

– Quando Kant afirmou que as coisas não nos dão os seus conceitos, mas nós é que pomos às

coisas as essências que formamos delas, estava baseado numa crença, e por isso não referida, e é a

de que Deus fez o homem completo desde as origens, tendo posto nele, ao fazer-lhe o cérebro, todo

o mecanismo da razão. O pensamento, deste modo, foi doado ao homem, juntamente com as

funções de todos os demais orgãos. A razão, para Kant, não tem história, não é histórica. Mas a

ciência da Evolução mostra, inexoravelmente, que o homem, assim como todos os seus poderes, é

histórico, tendo partido de começos muito simples. E andava no ar, ao tempo de Kant, como

outrora, no tempo de Aristóteles, a idéia da evolução; mas percebendo Kant, como já o percebera

Aristóteles, em que poderia dar essa doutrina, declarou, assustado, que essa era “uma arrojada

aventura da razão” 28 . E quando Goethe se dispôs a escrever a sua “Metamorfose das Plantas” ,

declarou, referindo-se a Kant: “Nada mais me pode impedir de empreender corajosamente a

aventura da razão” 29 , Essa aventura não só era arrojada, senão, também, perigosa não só para o

realista Aristóteles, o primeiro sistematizador da natureza, mas também para Kant, o idealista, e o

primeiro perigo consistia em dar xeque-mate não só ao realismo aristotélico, senão, também, à

filosofia idealista da qual Kant era o expoente máximo. Todavia, Kant nunca se referiu à sua crença

de que Deus fizera o homem completo, perfeito, de um golpe, simplesmente, porque ele estava

nela, e ela se sub-punha a ele, como a terra, debaixo de seus pés.

– Está bem, Chilon: quer dizer que “os pensamentos chamados idéias são objetos de nosso

discurso; os pensamentos chamados crenças são o objeto de nossa suposição: não os pensamos,

mas os damos por supostos. Quando tal acontece dizemos que “estamos numa crença” ” 30 .

Supor significa sub-por, por debaixo, como alicerce ou fundamento. O exemplo que nos deu

Chilon, de Kant, prova que “existem pensamentos não formulados e às vezes inclusive não

formuláveis que damos continuamente por supostos e que sustentam, empurram e dirigem nosso

comportamento. Não devemos estranhar, pois, de que as crenças constituam, conforme apontamos,

o fundamento de nossa vida e de que ocupem o lugar da realidade 31. “O homem necessita

saber de si mesmo e de suas próprias circunstâncias. Necessita, consequentemente, uma “idéia” ou

“interpretação” do mundo. Eis aqui por que, consoante Ortega, o homem deve possuir suas próprias

“convicções” ; de fato, o que chamamos “um homem sem convicções” é um ente fictício. Não é

necessário, claro está, que tais convicções sejam “positivas” ; podem perfeitamente ser – e são

com freqüência – negativas. Pode ser-se, por exemplo, um completo cético. Mesmo neste caso,

porém, possuem-se algumas determinadas convicções: as de que não se pode crer verdadeiramente

em nada” 32 .

27 Ferreira Mora, Origem e Epílogo da Filosofia, 77

28 Herbert Wendt, À Procura de Adão, 111

29 Herbert Wendt, À Procura de Adão, 111

30 Ferreira Mora, Origem e Epílogo da Filosofia, 78

31 Ferreira Mora, Origem e Epílogo da Filosofia, 79

32 Ferreira Mora, Origem e Epílogo da Filosofia, 75 - 76

E tendo o mestre feito uma pausa, prosseguiu:

– Deste modo, como vêem, “as dúvidas pertencem, em suma, ao mesmo estrato da vida que

as crenças: como estas, aquelas são também nossa realidade. O que significa que podemos estar

em dúvida no mesmo sentido em que podemos estar em crença. Uma só diferença fundamental

existe entre estes dois modos de estar; funda-se no fato de que as crenças são “coisas estáveis”

enquanto as dúvidas são “coisas inestáveis” . Propriamente falando, as dúvidas são “o inestável”

na existência humana. Mas em todo caso vivemos simultaneamente em ambas, de tal modo que

nossa vida seria tão incompreensível sem as dúvidas como o é sem as crenças” . E prossegue

Mora:

– “O fato de que estejamos também em dúvidas ou, como Ortega prefere dizer, “num mar

de dúvidas” , não significa, porém, que aceitamos esta situação como um estado normal das coisas.

De fato, estamos sem cessar lutando com o fim de sobrenadar este mar de dúvidas que ameaça com

submergir-nos. Mas com o fim de libertar-nos de dúvidas somente temos um remédio: pensar a

propósito delas ou, o que equivale ao mesmo, produzir idéias. Com o que começamos a entender a

função própria dessas idéias até agora tão insuficientemente definidas: as idéias servem para cobrir

as fissuras que se abrem continuamente nas crenças que constituem a vida humana” 33 . “Nada de

estranho que a maioria dos exemplos proporcionados a respeito por Ortega sejam exemplos

propiciados pela história, sobretudo por esses momentos da história que chamamos “críticos” e nos

quais se nos mostra o apaixonante espetáculo da simultânea desintegração e formação de crenças”

34 .

E levantando os olhos de suas notas, comentou Árago para os presentes:

– A filosofia teve sua origem num destes períodos críticos, quando os gregos, pondo em

dúvida suas crenças tradicionais, tiveram que arranjar outras com que sobreviver. “O fenômeno que

chamamos “conhecimento” , isto é, o particular modo de pensamento que usa conceitos, razões e

argumentos surgem num certo momento no desenvolvimento histórico do homem. Quando ?

Somente quando foram estabelecidas certas condições. Ortega menciona duas delas: 1) a crença de

que por trás do caos das impressões existe uma realidade estável que chamamos “o ser das coisas” ,

e 2) a crença de que unicamente o entendimento humano pode apreender a natureza dessa realidade

estável. Ora, admite-se comumente que somente os filósofos gregos se aferraram de maneira

suficientemente radical a ambas as crenças” 35 . “Basta assinalar que, como sempre acontece com a

vida humana, os gregos abraçaram essas crenças porque certas outras crenças se haviam

volatilizado” 36 . E depois que a filosofia nasceu pela necessidade de substituir as velhas crença por

outras novas, que são aquelas duas enumeradas por Ortega, ficaram tão satisfeitos com sua nova

descoberta, que “se mostraram com freqüência surpreendidos de que alguns homens pudessem

prescindir da filosofia. Não é a existência filosófica mais completa e mais suportável que qualquer

outra ? Mas admitir isto equivale a dar por assentada a existência, e excelência, da filosofia, sem

prestar atenção aos motivos que tornaram possível a filosofia, e talvez, em alguns instantes,

33 Ferreira Mora, Origem e Epílogo da Filosofia, 80 - 81

34 Ferreira Mora, Origem e Epílogo da Filosofia, 82

35 Ferreira Mora, Origem e Epílogo da Filosofia, 116 - 117

36 Ferreira Mora, Origem e Epílogo da Filosofia, 117

necessária” 37 . Deste modo, “os filósofos podem aprender de Ortega que “o primeiro princípio de

uma filosofia é a justificação de si mesma” ” 38 .

– Nesse caso, tornou Bruco, o senhor tem que justificar também essa sua filosofia, isto é,

essa que o senhor dá como sendo a “Terceira Jornada” ?

– Tenho.

– E como é que o senhor a justifica ?

– A justificação dela está na crise por que passei em minhas crenças, e pela qual está

passando o resto do mundo. O caos reinante em nosso contorno, o protesto vazio dos moços, a

desintegração dos costumes e usos, a impotência das religiões face aos novos problemas mostra,

mui claramente, que quase todos são do parecer de Anibal Machado que disse, referindo-se ao

modernismo da literatura: “Não sabemos definir o que queremos, mas sabemos discernir o que não

queremos” 39 . Ora bem. Aqueles que não sabem definir o que querem, mas movem guerra ao

estabelecido, só podem chegar a um resultado: o caos. “As coisas da política chegaram no

Ocidente ao extremo de que, à força de ter todo mundo perdido a razão, acabam tendo-a todos.

Apenas, a razão que cada um tem não é a sua, mas a que o outro perdeu” 40 . E adverte Ortega:

“que desde 1880 acontece que o homem ocidental não tem uma filosofia vigente. A última foi o

positivismo. Desde então só este ou aquele homem, este ou aquele mínimo grupo social tem

filosofia. O certo é que desde 1880 a filosofia vai deixando progressivamente de ser um

componente da cultura geral e portanto, de ser um fator histórico presente. Ora, isto jamais

aconteceu desde que a Europa existe” 41 .

E levantando o mestre os olhos do caderno, e pondo-os nas luzes distantes que davam para a

janela, concluiu a menear a cabeça com desdém:

– Quem se arrisca hoje a dedicar-se a estudos filosóficos, para ser, não filósofo, porém mero

professor de filosofia, depois não tem cadeira para lecioná-la, porque as autoridades do ensino

julgam-na desnecessária. Assim, a cadeira de filosofia é acumulada com outras, só para as quais há

registro especial. Um dia, no futuro, estas autoridades serão lembradas com mágoa por aqueles que

dirão, referindo-se aos nossos tempos: “naqueles tempos em que as máquinas dominavam, o

próprio homem se tornou máquina, e ser autômato do social era o objetivo de todos” ... Porque,

sendo a filosofia o ensimesmamento, o entrar cada um em si para ajustar as contas, o submeter tudo

à pedra-de-toque da nossa vida inquestionável, segue-se que, o não ter filosofia, é não fazer nada

disto, dando, como conseqüência, o não ser autêntico, o não ser si mesmo, e antes, pelo contrário, é

viver ao sabor dos acontecimentos, viver sem amanhã, sem projetos futuros de nós mesmos, viver

como autômatos, escravos do meio que nos invade, nos domina. Não é o homem que vive, mas o

contorno que vive nele. Esta é a crise moderna.

37 Ferreira Mora, Origem e Epílogo da Filosofia, 117

38 Ferreira Mora, Origem e Epílogo da Filosofia, 119

39 Afrânio Coutinho, Literatura no Brasil, Vol. III, T. 1, pág. 80

40 Ortega Y Gasset, O Homem e a Gente, 72

41 Ortega Y Gasset, Origem e Epílogo da Filosofia, 165 -166

– Reagindo contra tudo isto, continuou o mestre, fui procurar a minha luz, surgindo esta

filosofia que me serenou o ânimo, da qual me dispus falar-lhes. E estou tão seguro de mim mesmo,

do que eu sei, que a custo refreio o ímpeto que tenho de sair gritando heureca ! como Arquimedes

fez; ou, então, de insultar a todos. E nisto não ando errado, visto como, “de certo modo, o insulto

ao vulgo é a tonalidade própria ao “pensador” pois a missão deste, seu destino profissional, é

possuir idéias “próprias” opostas à doxa ou opinião pública” 42 . Por isto é que a filosofia

começa insultando. “Daí a consciência claríssima que Heráclito e Parmênides tinham de que ao

pensarem diante e contra a doxa, sua opinião era constitutivamente para-doxa. Este caráter

paradoxal perdurou ao longo de toda a evolução filosófica. Parecidamente Amós, o primeiro

“pensador” hebreu, que é contemporâneo de Tales, nos fará constar que ao ser constituído por

Deus em sua profissão, Deus lhe impõe este encargo: Profetiza contra meu povo. “Todo profeta é

profeta contra e o mesmo todo “pensador” ” 43 . Assim, fica justificada, de antemão, minha