A Trégua por Mario Benedetti - Versão HTML

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Créditos

© Mario Benedetti

c/o Guillermo Schavelzon & Asoc. Agencia Literaria

info@schavelzon.com, 1960

Todos os direitos desta edição reservados à

Editora Objetiva Ltda. Rua Cosme Velho, 103

Rio de Janeiro — RJ — Cep: 22241-090

Tel.: (21) 2199-7824 — Fax: (21) 2199-7825

www.objetiva.com.br

Título original

La Tregua

Capa

Marcelo Pereira / Tecnopop

Imagem de Capa

Gueorgui Pinkhassov / Magnum Photos

Revisão

Sonia Peçanha

Lilia Zanetti

Isa Laxe

Conversão para e-book:

Abreu’s System Ltda.

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

B398t

Benedetti, Mario

A trégua [recurso eletrônico] / Mario Benedetti ; tradução Joana Angélica d’Avila Melo.

- Rio de Janeiro : Objetiva, 2011.

recurso dogital

Tradução de: La tregua

Formato: ePUB

Requisitos do sistema:

Modo de acesso:

120p. ISBN 978-85-7962-101-7 (recurso eletrônico)

1. Romance uruguaio. 2. Livros eletrônicos. I. Melo, Joana Angélica d’Avila. II. Título.

11-5174. CDD: 868.993953

CDU: 821.134.2(899)-3

Epígrafe

Minha mão direita é uma andorinha

Minha mão esquerda é um cipreste

Minha cabeça, de frente, é um senhor vivo

E, por trás, é um senhor morto.

VICENTE HUIDOBRO

Segunda, 11 de fevereiro

Só me faltam seis meses e 28 dias para estar em condições de me aposentar. Deve fazer

pelo menos cinco anos que mantenho este cômputo diário do meu saldo de trabalho. Na

verdade, preciso tanto assim do ócio? Digo a mim mesmo que não, que não é do ócio

que preciso, mas do direito a trabalhar no que eu quiser. Por exemplo? Jardinagem,

quem sabe. É bom como descanso ativo para os domingos, para contrabalançar a vida

sedentária e também como defesa secreta contra minha futura e garantida artrite. Mas

temo não conseguir agüentar isso diariamente. Violão, outra hipótese. Acho que me

agradaria. Mas começar a estudar solfejo aos 49 anos deve ser meio desolador. Escrever?

Talvez não o zesse mal; pelo menos, as pessoas costumam gostar das minhas cartas. E

depois? Imagino uma notinha bibliográ ca sobre “as notáveis qualidades deste autor

estreante que beira os 50”, e a mera possibilidade me causa repugnância. Que eu me

sinta, até hoje, ingênuo e imaturo (isto é, só com os defeitos da juventude e quase

nenhuma de suas virtudes) não signi ca que tenha o direito de exibir essa ingenuidade e

essa imaturidade. Tive uma prima solteirona que, quando preparava uma sobremesa,

insistia em mostrá-la a todos, com um sorriso melancólico e pueril que lhe havia cado

preso aos lábios desde a época em que se exibia para o namorado motociclista, o qual

depois se matou numa de nossas tantas Curvas da Morte. Ela se vestia de maneira

correta, inteiramente de acordo com seus 53; nisso, e no resto, era discreta, equilibrada,

mas aquele sorriso reclamava um acompanhamento de lábios frescos, de pele roçagante,

de pernas torneadas, de 20 anos. Era um gesto patético, só isso, um gesto que não

chegava nunca a parecer ridículo, porque naquele rosto havia também bondade. Quantas

palavras, só para dizer que não quero parecer patético.

Sexta, 15 de fevereiro

Para render passavelmente no escritório, preciso me obrigar a não pensar que o ócio está

relativamente próximo. Do contrário, meus dedos se crispam e a letra redonda com a

qual devo escrever os itens me sai quebrada e deselegante. A letra redonda é um dos

meus maiores prestígios como empregado. Além disso, devo confessar que me dá prazer

o traçado de algumas letras como o “M” maiúsculo ou o “b” minúsculo, nas quais me

permiti algumas inovações. O que eu menos odeio é a parte mecânica, rotineira, do meu

trabalho: repassar um lançamento que já redigi milhares de vezes, efetuar um balanço de

saldos e constatar que tudo está em ordem, que não há diferenças a buscar. Esse tipo de

tarefa não me cansa, porque me permite pensar em outras coisas e até (por que não dizer

a mim mesmo?) também sonhar. É como se eu me dividisse em dois entes díspares,

contraditórios, independentes, um que sabe de cor seu trabalho, que domina ao máximo

as variantes e os meandros dele, que está sempre seguro de onde pisa, e outro sonhador

e febril, frustradamente apaixonado, um sujeito triste que, no entanto, teve, tem e terá

vocação para a alegria, um distraído a quem não importa por onde corre a pena nem que

coisas escreve a tinta azul que em oito meses ficará negra.

Em meu trabalho, o insuportável não é a rotina; é o problema novo, o pedido repentino

dessa Diretoria fantasmal que se esconde por trás de atas, disposições e grati cações de

m de ano, a urgência com que se reclama um informe ou um balancete analítico ou uma

previsão de recursos. Então, sim, como se trata de algo mais do que rotina, minhas duas

metades devem trabalhar para a mesma coisa, eu já não posso pensar no que quiser, e a

fadiga se instala nas minhas costas e na nuca, como um emplastro poroso. Que me

importa o lucro provável do item Pernos de Pistão no segundo semestre do penúltimo

exercício? Que me importa o modo mais prático de conseguir a redução das Despesas

Gerais?

Hoje foi um dia feliz; só rotina.

Segunda, 18 de fevereiro

Nenhum dos meus filhos se parece comigo. Em primeiro lugar, todos têm mais energias

do que eu, parecem sempre mais decididos, não estão acostumados a duvidar. Esteban é

o mais arredio. Ainda não sei a quem se dirige seu ressentimento, mas o certo é que ele

parece um ressentido. Creio que tem respeito por mim, mas nunca se sabe. Jaime talvez

seja meu preferido, embora quase nunca possamos nos entender. Ele me parece sensível,

me parece inteligente, mas não me parece fundamentalmente honesto. É evidente que

existe uma barreira entre nós dois. Às vezes acho que ele me odeia, às vezes que me

admira. Blanca, pelo menos, tem algo em comum comigo: também é uma triste com

vocação de alegre. Quanto ao resto, é por demais ciosa de sua vida própria,

impermutável, para compartilhar comigo seus mais árduos problemas. É quem ca mais

tempo em casa, e talvez se sinta um pouco escrava da nossa desordem, das nossas dietas,

da nossa roupa suja. Suas relações com os irmãos às vezes chegam à beira da histeria,

mas ela sabe dominar-se e, mais ainda, sabe dominá-los. Talvez, no fundo, eles se amem

bastante, embora isso de amor entre irmãos traga consigo a quota de exasperação mútua

que o costume provoca. Não, não se parecem comigo. Nem sequer sicamente. Esteban

e Blanca têm os olhos de Isabel. Jaime herdou dela a testa e a boca. O que Isabel pensaria

se pudesse vê-los hoje, preocupados, ativos, maduros? Tenho uma pergunta melhor: o

que eu pensaria, se pudesse ver Isabel hoje? A morte é uma experiência aborrecida; para

os outros, sobretudo para os outros. Eu deveria me sentir orgulhoso por haver cado

viúvo com três lhos e ter conseguido seguir adiante. Mas não me sinto orgulhoso, e

sim cansado. O orgulho é para quando se tem 20 ou 30 anos. Seguir adiante com meus

lhos era uma obrigação, o único escape para que a sociedade não me encarasse e me

dedicasse o olhar inexorável que se reserva aos pais desalmados. Não havia outra solução,

e eu segui adiante. Mas tudo sempre foi por demais obrigatório para que pudesse me

sentir feliz.

Terça, 19 de fevereiro

Às quatro da tarde, senti-me de repente insuportavelmente vazio. Tive de pendurar o

paletó de lustrina que se usa no escritório e avisar ao Setor de Pessoal que precisava

passar pelo Banco República para resolver aquele assunto do capital de giro. Mentira. O

que eu não suportava mais era a parede em frente à minha escrivaninha, a horrível parede

ocupada por aquela enorme folhinha com um fevereiro dedicado a Goya. O que faz

Goya nessa velha casa importadora de autopeças? Não sei o que teria acontecido, se eu

tivesse permanecido olhando a folhinha como um imbecil. Talvez gritasse, ou iniciasse

uma das minhas costumeiras séries de espirros alérgicos, ou simplesmente submergisse

nas esmeradas páginas do Livro-Razão. Porque já aprendi que meus estados de pré-

explosão nem sempre conduzem à explosão. Às vezes terminam numa humilhação lúcida,

numa aceitação irremediável das circunstâncias e de suas diversas e agravantes pressões.

Gosto, no entanto, de me convencer de que não devo me permitir explosões, de que devo

freá-las radicalmente, sob pena de perder meu equilíbrio. Então saio como saí hoje,

numa encarniçada busca do ar livre, do horizonte, de sei lá quantas coisas mais. Bom, às

vezes não chego ao horizonte e me conformo com me acomodar à janela de um café e

registrar a passagem de algumas pernas bonitas.

Estou convencido de que, durante o expediente, a cidade é outra. Conheço a Montevidéu

dos homens com horário, os que entram às oito e meia e saem às 12, os que retornam às

duas e meia e vão embora de nitivamente às sete. Esses rostos crispados e suarentos,

esses passos urgentes e tropeçantes são meus velhos conhecidos. Mas existe a outra

cidade, a das frescas moçoilas que no meio da tarde saem recém-banhadinhas,

perfumadas, desdenhosas, otimistas, espirituosas; a dos filhinhos da mamãe que acordam

ao meio-dia e às seis da tarde ainda trazem impecável o colarinho branco de tricolina

importada; a dos velhos que tomam o ônibus até a Aduana e depois retornam sem

desembarcar, reduzindo sua módica farra à simples mirada reconfortante com que

percorrem a Cidade Velha de suas nostalgias; a das mães jovens que nunca saem de noite

e entram no cinema, com cara de culpadas, por volta das três e meia da tarde; a das babás

que denigrem suas patroas enquanto as moscas devoram as crianças; a dos aposentados e

ociosos vários, en m, que crêem ganhar o céu jogando migalhas aos pombos da praça.

Esses são meus desconhecidos, ao menos por enquanto. Estão instalados muito

comodamente na vida, ao passo que eu co neurastênico diante de uma folhinha com seu

fevereiro consagrado a Goya.

Quinta, 21 de fevereiro

Esta tarde, quando eu vinha do escritório, um bêbado me deteve na rua. Não protestou

contra o governo, nem disse que ele e eu éramos irmãos, nem tocou em nenhum dos

incontáveis temas do pileque universal. Era um bêbado estranho, com uma luz especial

nos olhos. Segurou meu braço e disse, quase apoiando-se em mim: “Sabe o que lhe

acontece? Que você não vai a lugar nenhum.” Outro sujeito que passou nesse instante me

tou com uma alegre dose de compreensão e até me dedicou uma piscadela de

solidariedade. Mas já faz quatro horas que estou intranqüilo, como se realmente não me

dirigisse a lugar nenhum e só agora o percebesse.

Sexta, 22 de fevereiro

Quando eu me aposentar, creio que não escreverei mais este diário, porque então, sem

dúvida, me acontecerão muito menos coisas do que agora, e vou achar insuportável me

sentir tão vazio e, ainda por cima, deixar disso um registro por escrito. Quando eu me

aposentar, talvez o melhor seja me abandonar ao ócio, a uma espécie de modorra

compensatória, a m de que os nervos, os músculos, a energia aos poucos se relaxem e

se acostumem a morrer bem. Mas não. Há momentos em que tenho e mantenho a

luxuosa esperança de que o ócio seja algo pleno, rico, a última oportunidade de

encontrar a mim mesmo. E isso, sim, valeria a pena anotar.

Sábado, 23 de fevereiro

Hoje almocei sozinho, no Centro. Quando vinha pela Mercedes, cruzei com um sujeito

de marrom. Primeiro, ele esboçou uma saudação. Devo tê-lo olhado com curiosidade,

porque o homem se deteve e, com alguma vacilação, estendeu-me a mão. Não era uma

cara desconhecida. Era algo assim como a caricatura de alguém que eu, em outros

tempos, tivesse visto com freqüência. Também estendi a minha, murmurando desculpas e

de certa forma confessando minha perplexidade. “Martín Santomé?”, perguntou ele,

mostrando no sorriso uma dentadura devastada. Claro, Martín Santomé, mas meu

desconcerto era cada vez maior. “Não se lembra da rua Brandzen?” Bom, não muito. Faz

bem uns trinta anos desde aquela época, e não sou famoso por minha memória.

Naturalmente, quando solteiro morei na rua Brandzen, mas, ainda que me moessem de

pancada, não poderia dizer como era a fachada da casa, quantas sacadas tinha, quem

morava ao lado. “E do café da rua Defensa?” Aí, sim, a névoa se dissipou um pouco e

por um instante vi a barriga, com cinturão largo, do galego Álvarez. “Claro, claro!”,

exclamei iluminado. “Bem, eu sou Mario Vignale.” Mario Vignale? Não me lembro, juro

que não me lembro. Mas não tive coragem de confessar. O sujeito parecia tão

entusiasmado com o encontro... Então respondi que sim, que me desculpasse, que eu era

um péssimo sionomista, que na semana passada me encontrara com um primo e não o

tinha reconhecido (mentira). Naturalmente, era obrigatório tomarmos um café, de modo

que ele me arruinou a sesta do sábado. Duas horas e 15 minutos. Obstinou-se em me

reconstituir pormenores, em me convencer de que havia participado da minha vida. “Eu

me lembro até da tortilha de alcachofra que sua velha fazia. Sensacional. Eu ia sempre às

onze e meia, esperando que ela me convidasse para almoçar.” E soltou uma bruta

gargalhada. “Sempre?”, perguntei, ainda descon ado. Então ele sofreu um acesso de

vergonha: “Bom, fui umas três ou quatro vezes.” Afinal, qual era a porção de verdade? “E

sua velha, vai bem?” “Morreu há 15 anos.” “Caralho. E seu velho?” “Morreu há dois

anos, em Tacuarembó. Estava morando na casa da minha tia Leonor.” “Devia estar

idoso.” Claro que ele devia estar idoso. Deus do céu, que chatice. Só então ele formulou

a pergunta mais lógica: “E você, acabou se casando com Isabel?” “Sim, e tenho três

lhos”, respondi, encurtando o caminho. Ele tem cinco. Que sorte. “E como vai Isabel?

Sempre bonita?” “Morreu”, respondi, fazendo a cara mais imperscrutável do meu

repertório. A palavra soou como um disparo e ele — ainda bem — cou desconcertado.

Apressou-se em terminar o terceiro café e, em seguida, olhou o relógio. Há uma espécie

de reflexo automático nisso de falar da morte e em seguida olhar o relógio.

Domingo, 24 de fevereiro

Não tenho saída. A conversa com Vignale me deixou uma obsessão: recordar Isabel. Já

não se trata de resgatar sua imagem por meio das historinhas familiares, das fotogra as,

de algum traço de Esteban ou de Blanca. Conheço todos os seus dados, mas não quero

sabê-los de segunda mão, e sim recordá-los diretamente, vê-los em todos os detalhes

diante de mim, assim como vejo agora minha cara no espelho. E não consigo. Sei que os

olhos dela eram verdes, mas não consigo me sentir diante de seu olhar.

Segunda, 25 de fevereiro

Encontro meus lhos muito pouco. Nossos horários nem sempre coincidem, e nossos

planos ou nossos interesses, menos ainda. Eles são corretos comigo; mas como, além

disso, são terrivelmente reservados, sua correção sempre parece o mero cumprimento de

um dever. Esteban, por exemplo, está sempre se contendo para não discutir minhas

opiniões. O que nos separa será a simples distância geracional, ou eu poderia fazer algo

mais para me comunicar com eles? Em geral, acho-os mais incrédulos do que

desatinados, mais fechados do que eu, quando tinha a mesma idade.

Hoje jantamos juntos. Fazia provavelmente uns dois meses que não estávamos todos

presentes num jantar familiar. Perguntei, em tom de brincadeira, que acontecimento

festejávamos, mas não houve eco. Blanca me olhou e sorriu, como se quisesse me

comunicar que compreendia minhas boas intenções, e mais nada. Passei a registrar quais

eram as escassas interrupções do consagrado silêncio. Jaime disse que a sopa estava

insossa. “O sal está bem aí, a 10 centímetros da sua mão direita”, retrucou Blanca, e

acrescentou, ferina: “Quer que eu lhe passe?” A sopa estava insossa. É verdade, mas por

que aquilo? Esteban informou que, a partir do próximo semestre, nosso aluguel vai

aumentar 80 pesos. Como todos contribuímos, a coisa não é tão grave. Jaime começou a

ler o jornal. Acho ofensivo que as pessoas leiam quando comem com a família. Disse

isso a ele. Jaime largou o jornal, mas foi o mesmo que se tivesse continuado a ler,

porque continuou sisudo, distante. Relatei meu encontro com Vignale, tentando

ridicularizá-lo para trazer ao jantar um pouco de animação. Mas Jaime perguntou:

“Quem é esse Vignale?” “Mario Vignale.” “Um sujeito meio careca, de bigode?” Ele

mesmo. “Conheço. Bela peça”, disse Jaime, “é colega de Ferreira. Tremendo achacador.”

No fundo, agrada-me que Vignale seja uma porcaria, assim não tenho escrúpulos em me

livrar dele. Mas Blanca perguntou: “Com que então, ele se lembrava de mamãe?” Achei

que Jaime ia dizer alguma coisa, creio que moveu os lábios, mas decidiu car calado.

“Sorte dele”, acrescentou Blanca, “eu não me lembro.” “Mas eu, sim”, disse Esteban.

Como será que ele se lembra? Como eu, com recordações de recordações, ou

diretamente, como quem vê o próprio rosto no espelho? Será possível que ele, que só

tinha 4 anos, possua a imagem, e que a mim, em contraposição, a mim, que tenho

registradas tantas noites, tantas noites, tantas noites, não reste nada? Fazíamos amor no

escuro. Talvez seja por isso. Seguramente, é por isso. Tenho uma memória táctil dessas

noites, e esta, sim, é direta. Mas e o dia? Durante o dia, não estávamos no escuro. Eu

chegava do trabalho cansado, cheio de problemas, talvez furioso com a injustiça daquela

semana, daquele mês.

Às vezes fazíamos contas. Nunca chegava. Talvez olhássemos demais os números, as

somas, as sobras, e não tivéssemos tempo de nos olhar. Onde ela estiver, se é que está,

que lembrança terá de mim? A nal, a memória importa alguma coisa? “Às vezes me sinto

infeliz, só por não saber do que tenho saudade”, murmurou Blanca, enquanto repartia os

pêssegos em calda. Couberam três e meio para cada um.

Quarta, 27 de fevereiro

Hoje entraram para o escritório sete empregados novos: quatro homens e três mulheres.

Tinham umas esplêndidas caras de susto, e de vez em quando dirigiam aos veteranos um

olhar de respeitosa inveja. A mim, couberam dois pirralhos (um de 18 e outro de 22) e

uma moça de 24 anos. Portanto, agora sou totalmente chefe: tenho nada menos que seis

funcionários sob minhas ordens. Pela primeira vez, uma mulher. Sempre desconfiei delas

em matéria de números. Além disso, outro inconveniente: durante os dias do período

menstrual, e até mesmo nos que os antecedem, se normalmente forem espertas, elas ficam

meio atarantadas; e se normalmente já forem atarantadas, tornam-se completamente

imbecis. Esses “novos” que entraram não parecem ruins. O de 18 anos é o que menos

me agrada. Tem um rosto sem força, delicado, e um olhar fugidio e ao mesmo tempo

adulador. O outro é um eterno descabelado, mas tem um aspecto simpático e (ao menos

por enquanto) uma evidente vontade de trabalhar. A mocinha não parece ter tanta

vontade, mas pelo menos compreende o que a gente explica; além disso, tem testa larga e

boca grande, dois traços que, em geral, me causam boa impressão. Chamam-se Alfredo

Santini, Rodolfo Sierra e Laura Avellaneda. Vou deixar com eles os livros de mercadorias

e com ela o Auxiliar de Resultados.

Quinta, 28 de fevereiro

Esta noite conversei com uma Blanca quase desconhecida para mim. Estávamos

sozinhos, depois do jantar. Eu lia o jornal e ela jogava paciência. De repente cou

imóvel, com uma carta erguida no alto, e seu olhar era ao mesmo tempo perdido e

melancólico. Vigiei-a durante alguns instantes; em seguida, perguntei em que pensava.

Ela então pareceu despertar, dirigiu-me um olhar desolado e, sem conseguir se conter,

afundou a cabeça entre as mãos, como se não quisesse que ninguém profanasse seu

pranto. Quando uma mulher chora diante de mim, eu me torno indefeso e, ainda por

cima, desajeitado. Fico desesperado, não sei como lidar com aquilo. Desta vez, segui um

impulso natural: me levantei, me aproximei dela e comecei a lhe acariciar a cabeça, sem

dizer palavra. Aos poucos ela foi se acalmando e as convulsões chorosas se espaçaram.

Quando, por m, baixou as mãos, sequei-lhe os olhos e lhe assoei o nariz com a metade

não usada do meu lenço. Nesse momento, ela não parecia uma mulher de 23 anos, mas

uma menininha, momentaneamente infeliz porque uma de suas bonecas se quebrou ou

porque não a levaram ao zoológico. Perguntei se se sentia descontente e ela respondeu

que sim. Perguntei o motivo e ela disse que não sabia. Não estranhei muito. Eu mesmo,

às vezes, me sinto infeliz sem motivo concreto. Contrariando minha própria experiência,

comentei: “Oh, alguma coisa deve haver. Ninguém chora por nada.” Ela então começou a

falar atropeladamente, impelida por um desejo repentino de franqueza: “Tenho a horrível

sensação de que o tempo passa e eu não faço nada, e nada acontece, e nada me comove até

a raiz. Vejo Esteban e vejo Jaime e tenho certeza de que eles também se sentem

descontentes. Às vezes (não se aborreça, papai), também olho para você e penso que não

gostaria de chegar aos 50 anos e ter sua têmpera, seu equilíbrio, simplesmente porque os

considero sem relevo, gastos. Sinto em mim uma grande disponibilidade de energia, e

não sei em que empregá-la, não sei o que fazer com ela. Acho que você se resignou a ser

opaco, e isso me parece horrível, porque eu sei que você não é opaco. Pelo menos, não

era.” Respondi (que outra coisa eu poderia dizer?) que ela estava com a razão, que zesse

o possível para se desligar de nós, de nossa órbita, que me agradava muito vê-la gritar

esse inconformismo, que me parecia estar escutando um grito meu, de muitos anos atrás.

Ela então sorriu, disse que eu era muito bom e jogou os braços ao meu pescoço, como

antes. É uma menininha ainda.

Sexta, 1º de março

O gerente chamou os cinco chefes de seção. Durante três quartos de hora, falou-nos do

baixo rendimento do pessoal. Disse que a Diretoria lhe zera chegar uma observação

nesse sentido, e que no futuro não estava disposto a tolerar que, por causa da nossa

negligência (como gosta de acentuar “negligência”!), sua posição se visse gratuitamente

afetada. Portanto, de agora em diante, etc. etc.

O que será que eles chamam de “baixo rendimento do pessoal”? Eu, pelo menos, posso

dizer que meus funcionários trabalham. E não somente os novos, os veteranos também.

É certo que Méndez lê romances policiais habilmente acondicionados na gaveta central da

sua escrivaninha, enquanto sua mão direita empunha uma caneta sempre atenta à possível

entrada de algum hierarca. É certo que Muñoz aproveita suas saídas até a Inspetoria de

Rendas para surrupiar à empresa vinte minutos de ócio diante de uma cerveja. É certo

que Robledo, quando vai ao banheiro (exatamente às 10h15), leva escondido sob o

guarda-pó o suplemento em cores ou a página de esportes. Mas é também certo que o

trabalho está sempre em dia, e que, nas horas em que o trâmite se acelera e a bandeja

aérea do Caixa viaja sem cessar, repleta de faturas, todos se afanam e trabalham com

verdadeiro sentido de equipe. Cada um, em sua reduzida especialidade, é um entendido,

e posso confiar plenamente em que as coisas estão sendo bem-feitas.

Na realidade, sei muito bem qual era o destinatário do aperto do gerente. A “Expedição”

trabalha sem vontade e, além disso, executa mal sua tarefa. Todos sabíamos hoje que o

sermão era para Suárez, mas então, para que chamar-nos todos? Que direito tem Suárez

a que compartilhemos sua culpa exclusiva? Será que o gerente sabe, como todos nós, que

Suárez se deita com a filha do presidente? Não é de se jogar fora, essa Lidia Valverde.

Sábado, 2 de março

Ontem à noite, depois de trinta anos, voltei a sonhar com meus encapuzados. Quando eu

tinha 4 anos ou até menos, comer era um pesadelo. Então minha avó inventou um

método realmente original para que eu engolisse sem maiores problemas a batata

amassada. Ela vestia um enorme impermeável do meu tio, colocava o capuz e uns óculos

escuros. Com esse aspecto, aterrorizante para mim, vinha bater à minha janela. A

empregada, minha mãe, alguma tia, diziam então em coro: “Chegou don Policarpo!” Don

Policarpo era uma espécie de monstro que castigava as crianças que não comiam.

Paralisado no meu próprio terror, eu só tinha forças para mover as mandíbulas numa

velocidade incrível e assim acabar com o insosso e abundante purê. Era cômodo para

todo mundo. Ameaçar-me com don Policarpo equivalia a apertar um botão quase

mágico. No final, aquilo se tornara uma diversão famosa. Quando chegava uma visita, era

trazida até o meu quarto para assistir aos engraçados pormenores do meu pânico. É

curioso como às vezes se pode chegar a ser tão inocentemente cruel. Porque, além do

susto, havia minhas noites, minhas noites cheias de encapuzados silenciosos, estranha

espécie de Policarpos que sempre estavam de costas, rodeados por uma bruma espessa.

Sempre apareciam em la, como que esperando a vez para ingressar no meu medo.

Nunca pronunciavam uma só palavra, mas moviam-se pesadamente numa espécie de

balanço intermitente, arrastando suas túnicas escuras, todas iguais, pois era isso o que o

impermeável do meu tio zera. Era curioso: em meu sonho, eu sentia menos horror do

que na realidade. E, à medida que passavam os anos, o medo ia se transformando em

fascinação. Com aquele olhar absorto que a gente costuma ter sob as pálpebras do

sonho, eu assistia como que hipnotizado àquela cena cíclica. Às vezes, em outro sonho

qualquer, eu tinha uma obscura consciência de que preferiria sonhar com meus

Policarpos. E, uma noite, eles vieram pela última vez. Formaram sua la, balançaram-se,

guardaram silêncio e se esfumaram, como de costume. Durante muitos anos dormi com

um inevitável desconforto, com uma quase enfermiça sensação de espera. Às vezes

adormecia decidido a encontrá-los, mas só conseguia criar a bruma e, em raras ocasiões,

sentir as palpitações do meu antigo medo. Só isso. Depois fui perdendo cada vez mais

essa esperança e cheguei insensivelmente à época em que comecei a contar aos estranhos

o fácil enredo do meu sonho. Também cheguei a esquecê-lo. Até ontem à noite. Ontem à

noite, quando eu estava bem no meio de um sonho mais vulgar do que pecaminoso,

todas as imagens se esfumaram e apareceu a bruma, e, no meio da bruma, surgiram

todos os meus Policarpos. Sei que me senti indizivelmente feliz e horrorizado. Até agora,

se me esforçar um pouco, posso reconstituir algo daquela emoção. Os Policarpos, os

indeformáveis, eternos, inócuos Policarpos da minha infância, balançaram-se e, de

repente, zeram algo totalmente imprevisto. Pela primeira vez, viraram-se, só por um

momento, e todos eles tinham o rosto da minha avó.

Terça, 12 de março

É bom ter uma funcionária que seja inteligente. Hoje, para testar Avellaneda, expliquei-

lhe de uma só vez tudo o que se refere à Controladoria Fiscal. Enquanto eu falava, ela foi

fazendo anotações. Quando concluí, comentou: “Veja, senhor, acho que entendi bastante,

mas tenho dúvidas sobre alguns pontos.” Dúvidas sobre alguns pontos... Méndez, que

cuidava disso antes dela, precisou de nada menos que quatro anos para dissipá-las...

Depois, coloquei-a para trabalhar na mesa que ca à minha direita. De vez em quando,

dava-lhe uma olhada. Ela tem belas pernas. Ainda não trabalha automaticamente, e por

isso se cansa. E também é inquieta, nervosa. Acho que minha hierarquia (pobre

inexperiente!) a coíbe um pouco. Quando diz: “Senhor Santomé”, sempre pestaneja. Não

é uma formosura. Bom, sorri passavelmente. Já é alguma coisa.

Quarta, 13 de março

Esta tarde, quando cheguei do Centro, Jaime e Esteban estavam gritando na cozinha.

Consegui ouvir que Esteban dizia ao irmão algo sobre “aqueles seus amigos podres”.

Quando escutaram meus passos, eles se calaram e procuraram falar com naturalidade.

Mas Jaime tinha os lábios apertados, e os olhos de Esteban brilhavam. “O que houve?”,

perguntei. Jaime deu de ombros e o outro disse: “Nada que lhe interesse.” Que vontade

de lhe acertar um soco na boca. É isso o meu lho, esse rosto duro, que nada nem

ninguém abrandará jamais. Nada que me interesse. Fui até a geladeira, peguei a garrafa

de leite e a manteiga. Estava me sentindo indigno, envergonhado. Não era possível que

ele me dissesse: “Nada que lhe interesse” e eu casse tão tranqüilo, sem lhe fazer nada,

sem lhe dizer nada. Servi-me um copo grande. Não era possível que ele me gritasse com

o mesmo tom que eu devia empregar com ele e que, no entanto, não empregava. Nada

que me interesse. Cada gole de leite me doía nas têmporas. De repente, virei-me e o

agarrei pelo braço. “Mais respeito com seu pai, entendeu? Mais respeito.” Era uma

idiotice dizer isso àquela altura, quando o momento já passara. O braço estava tenso,

duro, como se repentinamente se tivesse transformado em aço. Ou em chumbo. Minha

nuca doeu quando levantei a cabeça para tá-lo nos olhos. Era o mínimo que eu podia

fazer. Não, ele não estava assustado. Simplesmente, sacudiu o braço até se soltar, moveu

as asas do nariz e disse: “Quando é que você vai crescer?”, antes de sair batendo a porta.

Minha cara não devia estar muito tranqüila quando me virei para encarar Jaime. Ele

continuava encostado à parede. Sorriu com espontaneidade e limitou-se a comentar:

“Que mau gênio, velho, que mau gênio!” É incrível, mas, nesse preciso instante, senti

que minha raiva congelava. “É que também seu irmão...”, falei, sem convicção. “Deixe-o”,

respondeu Jaime, “a esta altura nenhum de nós tem remédio.”

Sexta, 15 de março

Mario Vignale foi me ver no escritório. Quer que eu vá à sua casa na semana que vem.

Diz que encontrou fotos antigas de todos nós. Não as trouxe, o cretino. Sem dúvida,

constituem o preço da minha aceitação. Aceitei, claro. Quem não é atraído pelo próprio

passado?

Sábado, 16 de março

Esta manhã, o novo — Santini — tentou se confessar comigo. Não sei o que tem a

minha cara para convidar sempre à con dência. As pessoas me olham, me sorriem,

algumas até chegam a fazer a careta que precede o soluço; depois se dedicam a abrir o

coração. E, francamente, há corações que não me atraem. São incríveis a cômoda

impudicícia, o tom de mistério com que alguns tipos segredam acerca de si mesmos.

“Porque eu, sabe, senhor?, eu sou órfão”, foi logo dizendo Santini, para me obrigar à

piedade. “Prazer, e eu sou viúvo”, respondi com um gesto ritual, destinado a destruir

aquela cara-de-pau. Mas minha viuvez o comove muito menos do que sua própria

orfandade.

“Tenho uma irmãzinha, sabe?” Enquanto falava, de pé junto à minha escrivaninha, ele

tamborilava os dedos, frágeis e delgados, sobre a capa do meu Livro Diário. “Você não

pode deixar quieta essa mão?”, gritei, mas ele sorriu docemente antes de obedecer. No

pulso, usa uma corrente de ouro, com uma medalhinha. “Minha irmãzinha tem 17 anos,

sabe?” O “sabe?” é uma espécie de tique. “Não me diga. E ela vai bem?” Era minha defesa

desesperada, antes de que se rompessem os diques do seu último arremedo de escrúpulo

e eu me visse de nitivamente inundado pela sua vida íntima. “O senhor não me leva a

sério”, disse ele, apertando os lábios, e afastou-se muito ofendido para sua mesa. Não

trabalha muito depressa. Demorou duas horas para me fazer o resumo de fevereiro.

Domingo, 17 de março

Se eu algum dia me suicidar, será num domingo. É o dia mais desalentador, o mais sem

graça. Quem me dera car na cama até tarde, pelo menos até as nove ou as dez, mas às

seis e meia acordo sozinho e já não consigo pregar o olho. Às vezes penso o que farei

quando toda a minha vida for domingo. Quem sabe? Vai ver que me acostumo a

despertar às dez horas. Fui almoçar no Centro, porque os rapazes saíram para o m de

semana fora, cada um para seu lado. Comi sozinho. Nem sequer tive forças para

entabular com o garçom o fácil e ritualístico intercâmbio de opiniões sobre o calor e os

turistas. Duas mesas adiante, havia outro solitário. Tinha o cenho franzido, partia os

pãezinhos a socos. Duas ou três vezes olhei para ele, e numa oportunidade seus olhos

cruzaram com os meus. Tive a impressão de que ali havia ódio. O que haveria para ele

nos meus olhos? Deve ser uma regra geral, isso de nós, os solitários, não simpatizarmos

uns com os outros. Ou será que, simplesmente, somos antipáticos?

Voltei para casa, dormi a sesta e me levantei pesado, de mau humor. Tomei uns mates,

mas estavam amargos, e me aborreci. Então me vesti e fui outra vez ao Centro. Desta vez

me meti num café; consegui uma mesa junto à janela. Em um lapso de uma hora e 15,

passaram exatamente 35 mulheres interessantes. Para me entreter, fiz uma estatística sobre

o que mais me agradava em cada uma. Anotei tudo no guardanapo de papel. Este é o

resultado. De duas, gostei da cara; de quatro, do cabelo; de seis, do busto; de oito, das

pernas; de 15, do traseiro. Ampla vitória dos traseiros.

Segunda, 18 de março

Ontem Esteban voltou à meia-noite, Jaime à meia-noite e meia, Blanca à uma da manhã.

Escutei todos, captei minuciosamente cada ruído, cada passo, cada palavrão murmurado.

Acho que Jaime veio um pouco bêbado. Pelo menos, tropeçava nos móveis e por quase

meia hora manteve aberta a torneira da pia. Os xingamentos, no entanto, eram de

Esteban, que nunca bebe. Quando Blanca chegou, Esteban disse a ela alguma coisa lá do

seu quarto, e ela o mandou ir cuidar da própria vida. Depois, silêncio. Três horas de

silêncio. A insônia é a peste dos meus ns de semana. Quando eu me aposentar, será que

não vou dormir nunca?

Hoje de manhã, falei somente com Blanca. Disse que não me agradava que ela chegasse

àquela hora. Ela não é insolente, de modo que não merecia meus resmungos. Mas acima

disso está o dever, o dever de pai e mãe. Eu deveria ser os dois ao mesmo tempo, e creio

que não sou nada. Senti que passava dos limites quando me ouvi perguntar, em tom de

admoestação: “O que você andou fazendo? Aonde foi?” Ela então, enquanto passava

manteiga na torrada, respondeu: “Por que você se sente obrigado a bancar o mau? Há

duas coisas das quais temos certeza: que temos carinho um pelo outro e que eu não estou

fazendo nada errado.” Fiquei derrotado. Ainda assim acrescentei, só mesmo para salvar

as aparências: “Tudo depende do que você entende por errado.”

Terça, 19 de março

Trabalhei a tarde inteira com Avellaneda. Busca de diferenças. A coisa mais aborrecida

que existe. Sete centavos. Mas, na realidade, compunha-se de duas diferenças contrárias:

uma de 18 centavos e outra de 25. A pobrezinha ainda não pegou bem a coisa. Num

trabalho de estrito automatismo, como este, ela se cansa tanto quanto em qualquer outro

que a obrigue a pensar e a buscar soluções próprias. Estou tão habituado a esse tipo de

busca que às vezes a pre ro a outra espécie de trabalho. Hoje, por exemplo, enquanto ela

me cantava os números e eu ticava os itens da soma, exercitei-me em ir contando as pintas

do seu antebraço esquerdo. Dividem-se em duas categorias: cinco pintas pequenas e três

grandes, uma das quais avultadinha. Quando ela terminou de me cantar novembro,

sugeri, só para ver qual era sua reação: “Mande cauterizar esta pinta. Geralmente não

acontece nada, mas, num caso em cem, pode ser perigoso.” Ela corou e não sabia onde

colocar o braço. Disse: “Obrigada, senhor”, mas continuou me ditando terrivelmente

encabulada. Quando chegamos a janeiro, comecei eu a ditar, e ela ia ticando. Num

determinado instante, tive consciência de que algo estranho estava acontecendo e levantei a

vista no meio de uma cifra. Ela estava olhando minha mão. Em busca de pintas? Talvez.

Sorri e, outra vez, ela morreu de vergonha. Pobre Avellaneda. Não sabe que eu sou a

correção em pessoa e que nunca, jamais me aproveitaria de uma das minhas funcionárias.

Quinta, 21 de março

Jantar na casa de Vignale. O ambiente é as xiante, escuro, carregado. Na sala de estar há

duas poltronas, de um inde nido estilo internacional, que na realidade parecem dois

anões peludos. Afundei numa delas. Do assento subia um calor que me chegava até o

peito. Veio receber-me uma cachorrinha desbotada, com cara de solteirona. Olhou-me

sem me farejar, depois ergueu uma das patas e cometeu o clássico delito de lesa-tapete. A

mancha cou ali, sobre uma cabeça de pavão, que era a vedete naquele desenho algo

assombroso. Mas havia tantas manchas no tapete que, a nal, alguém podia chegar a crer

que elas faziam parte da decoração.

A família de Vignale é numerosa, barulhenta, cansativa. Inclui a mulher dele, a sogra, o

sogro, o cunhado, a concunhada e — horror dos horrores — os cinco lhos. Estes

poderiam ser de nidos mais ou menos como monstrinhos. No físico são normais,

excessivamente normais, corados e saudáveis. Sua monstruosidade está no fato de serem

tão incômodos. O maior tem 13 anos (Vignale se casou já maduro) e o menor, 6.

Movem-se constantemente, constantemente fazem barulho, constantemente discutem aos

gritos. A pessoa tem a sensação de que eles estão lhe subindo pelas costas, pelos ombros,