A Vida Quer É Coragem por Ricardo Batista Amaral - Versão HTML

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Copy right © 2011 por Ricardo Batista Am aral.

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editores.

preparo de originais: Débora Thom é

consultoria editorial: Otto Sarkis

revisão: Herm ínia Totti, Luis Am érico Costa e Taís Monteiro

pesquisa de im agens: Alice Dias

proj eto gráfico e diagram ação do m iolo: Ilustrarte Design e Produção Editorial

proj eto gráfico e diagram ação do caderno de fotos: Ana Paula Brandão

capa: Miriam Lerner

im agem de capa: Caio Guatelli / Folhapress

geração de epub: Marcelo Morais

cip-brasil. catalogação-na-fonte

sindicato nacional dos editores de livros, rj

A512v

Amaral, Ricardo

Batista

A vida quer

é coragem

[recurso

eletrônico] /

Ricardo Batista

Amaral; Rio de

Janeiro:

Sextante, 2011.

recurso digital:

recurso digital:

il.

Formato: ePub

Requisitos

do sistema:

Multiplataforma

Modo de

acesso: World

Wide Web

ISBN 978-

85-7542-749-1

(recurso

eletrônico)

1. Roussef,

Dilma, 1947-.

2. Presidentes -

Brasil -

Biografia. 3.

Livros

eletrônicos. I.

Título.

CDD: 923.181

11-8321

CDU: 929:32(81)

Todos os direitos reservados, no Brasil, por GMT Editores Ltda.

Rua Voluntários da Pátria, 45 – Gr. 1.404 – Botafogo – 22270-000 – Rio de

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“Remanso de rio largo,

viola da solidão:

quando vou p’ra dar batalha,

convido meu coração.”

J. Guim arães Rosa, Grande Sertão: Veredas

A Therezinha e Francisco, m eus pais.

A Maria do Carm o, que m e ensinou a ler,

e Maria Vasconcelos, m inha avó,

que m e apresentou os j ornais.

Nota do autor

Este livro é resultado das pesquisas, entrevistas e observações de um repórter.

Não tem outra pretensão além de narrar um a grande aventura política do nosso

tem po: a eleição da prim eira presidenta do Brasil. É um a história de final

conhecido, com um enredo em que se entrelaçam a traj etória pessoal de Dilm a

Rousseff e a evolução política do país nas últim as décadas; a história de um a

brasileira que viveu, com o poucas, os sonhos e as frustrações de sua geração,

num país que ela vinha contribuindo para transform ar m uito antes de chegar ao

Palácio do Planalto.

Para reconstituir essa traj etória, contei com a colaboração de m uitas pessoas.

Agradeço, de m aneira especial, a Carlos Araúj o, por ter com partilhado as

m em órias sentim entais e a experiência política de quem foi com panheiro de

Dilm a, na luta e na vida. Da m esm a form a, agradeço a Cláudio Galeno, que

recordou os tem pos da rebeldia rom ântica ao lado da j ovem Dilm a em Belo

Horizonte.

Sônia Lacerda e seu com panheiro Elias m e proporcionaram recriar o

am biente social e afetivo em que Dilm a se form ou, reunindo em sua casa os

am igos Márcio Borges, Helvécio Raton, Carlos Alberto “Flex” de Assis, Betinho

Duarte e Marco Antônio Mey er. A prodigiosa m em ória de Apolo Heringer

Lisboa foi essencial para reconstituir a m ilitância da esquerda em Belo Horizonte.

Recorri tam bém às m em órias e biografias de Herbert Daniel, Carm ela Pezutti e

Maria do Carm o Brito, m ilitantes heroicos.

Para a história das organizações de esquerda no país e dos m ilitantes

m encionados no livro, foram essenciais o Combate nas trevas, de Jacob

Gorender, Tiradentes, um presídio da ditadura (organizado por Alípio Freire e

outros), Dos filhos deste solo (Nilm ário Miranda e Carlos Tibúrcio), História do

marxismo no Brasil (Marcelo Ridenti, Daniel Aarão Reis e outros), além do

com ovente Iara – Reportagem biográfica, de Judith Lieblich Patarra, e do

indispensável A ditadura escancarada, de Elio Gaspari.

Jandira César e Carlos Alberto Tej era De Ré aj udaram a contar a vida da

am iga Dilm a em Porto Alegre depois da prisão (a De Ré, que nos deixou pouco

depois de nos conhecerm os, faço um agradecim ento póstum o). O j ornalista

Ay rton Centeno com partilhou um longo depoim ento que Dilm a nos deu sobre sua

infância e j uventude na cam panha eleitoral. Agradeço de form a especial ao

am igo Silvio Tendler, que cedeu a versão integral do precioso depoim ento da

então m inistra Dilm a Rousseff para o film e Utopia e barbárie.

Muitas pessoas colaboraram para reconstituir a participação de Dilm a no

governo do presidente Lula e os m om entos m ais im portantes da cam panha

eleitoral. Isso não teria sido possível sem o em penho de Giles Azevedo, a quem o

autor e o livro devem m uito. Dentre os dirigentes políticos e outros colaboradores

de Lula e Dilm a, agradeço especialm ente a José Eduardo Dutra.

Consultei reportagens de j ornais e revistas, que são citadas ao longo do livro,

m encionando os autores nos casos que considerei essenciais, com o a entrevista

de Dilm a a Luiz Maklouf Carvalho sobre as torturas que ela sofreu no DOI-Codi.

Agradeço coletivam ente aos j ornalistas que aj udam a escrever a História do

Brasil.

Incorporei ao livro m uitos episódios que apurei com o repórter em Brasília nos

últim os 25 anos. Acrescentei, por fim , m inhas próprias anotações e m em órias do

período em que fui assessor de Dilm a Rousseff, na Casa Civil, de novem bro de

2009 a m arço de 2010, e ao longo da cam panha eleitoral.

Procurei fazer um relato obj etivo dos fatos, com o se espera de um a

reportagem , sem abrir m ão de explicitar m eu ponto de vista sobre m uitos

episódios. Quanto aos erros que eventualm ente sobreviveram à apuração e

revisão do texto, a responsabilidade por eles será m inha, exclusivam ente.

Ao m eu am igo Otto Sarkis, agradeço o apoio fundam ental para m e dedicar ao

proj eto e levá-lo até o fim . Ao j ornalista Oswaldo Buarim , devo o prim eiro e

im portante incentivo para escrever este livro. Agradeço aos editores Hélio

Sussekind e Marcos Pereira, por terem acreditado desde o com eço, e a Roberta

Cam passi, que m e levou até eles. A Virginie Leite e Débora Thom é, pelas

correções e sugestões criteriosas ao texto final, j untam ente com Hélio. Sou

especialm ente grato a Mana Coelho, Natuza Nery e Thom as Traum ann, pelo

incentivo e pelo carinho, e aos irm ãos Ricardo Stuckert e Roberto Stuckert Filho.

Dedico este livro, com am or, a m inha m ulher, Malu Baldoni, que viveu

com igo essa aventura desde o início, nos m elhores e nos m ais difíceis m om entos,

sem pre m e estim ulando a contar esta história da form a m ais sincera. Tam bém o

dedico a nossos filhos: Marina, que m e aj udou a fazer m uitas perguntas, e André,

que com preendeu m eus silêncios. Eles m e recordam que este livro pode ser útil

para os m ais j ovens e para os que virão depois de nós.

Brasília, novem bro de 2011

capítulo 1

A vida não é fácil

A m anhã de abril chegava ao fim e as nuvens encobriam a serra do Curral,

prenunciando um a chuva de outono em Belo Horizonte. No auditório da

Federação das Indústrias de Minas Gerais, a Fiem g, o telefone celular vibrou

discretam ente no bolso do paletó de Anderson Dorneles, secretário particular da

m inistra-chefe da Casa Civil, Dilm a Rousseff. Ela term inava um a palestra para

em presários sobre investim entos do governo federal, prim eiro com prom isso de

um a pesada agenda na cidade.

Os dígitos azuis no visor do aparelho indicavam um a cham ada de São Paulo. O

secretário não precisou atender para saber que se tratava de assunto sigiloso e

urgente. Conhecia Dilm a havia 15 anos, desde os tem pos em que ela era

econom ista num a fundação do governo do Rio Grande do Sul, onde ele

trabalhava com o m ensageiro para pagar a Faculdade de Adm inistração.

Anderson com preendia gestos, olhares, palavras, silêncios. Conhecia hábitos,

preferências, hum ores, restrições. Recolhia docum entos e organizava os arquivos

no laptop da m inistra. “Esse m enino”, com o Dilm a o cham ava, em bora ele j á

tivesse passado dos 30, sabia ouvir broncas, passar m ensagens e guardar

segredos.

O segredo por trás daquele telefonem a estava guardado havia duas sem anas,

desde o dia em que Dilm a Rousseff esteve no Hospital Sírio-Libanês, em São

Paulo, para extrair um a pequena erupção na axila esquerda. O carocinho tinha

sido encontrado num check-up rotineiro, no com eço daquele ano de 2009. Foi por

insistência do cardiologista Roberto Kalil Filho – o m esm o que atendia o

presidente Luiz Inácio Lula da Silva e alguns dos políticos e em presários m ais

conhecidos do país – que Dilm a concordou em extrair o nódulo num a cirurgia e

subm eter o m aterial a um a biópsia. “Pra não restar som bra de dúvida”, com o ela

costum ava dizer quando queria enfatizar um a decisão.

Sem dem onstrar ansiedade diante dos convidados em torno da m inistra,

Anderson pediu ao interlocutor que aguardasse na linha, localizou a porta de um a

sala contígua ao auditório e indicou o cam inho para Dilm a, sussurrando o nom e

do doutor Kalil de um m odo que só ela conseguiu ouvir. Fechada a porta da sala,

Dilm a tom ou o telefone nas m ãos e ouviu a confirm ação da suspeita que levara o

cardiologista a insistir com obstinação nos exam es: a biópsia, ele disse, indicou

um linfom a, um câncer nos gânglios. Um tipo bem conhecido, que os m édicos

sabiam tratar com grande chance de sucesso quando diagnosticado a tem po,

com o era o caso; m as, sem som bra de dúvida, um câncer.

A m inistra sentou-se num a cadeira para conversar com o m édico. Falaram

sobre o tratam ento inadiável, doloroso e incôm odo. O exam e definitivo tinha

chegado de um laboratório de Houston, nos Estados Unidos, naquela sexta-feira,

17 de abril. Quanto m ais rápido iniciassem o procedim ento terapêutico, m elhor.

Com binaram data e hora, ela agradeceu, despediram -se. Um breve silêncio foi

quebrado por um suspiro longo, e Dilm a voltou os olhos na direção do secretário

particular, que tinha perm anecido todo o tem po vigilante j unto à porta da sala:

– A vida não é fácil. Nunca foi.

A m inistra devolveu o telefone ao secretário e seguiu para a entrevista

coletiva. Parecia segura. Vestia um casaco de linho verm elho sobre a blusa de

seda preta, o decote redondo acom panhava a curva do colar de pérolas. Era a

Dilm a de sem pre, respondendo com firm eza, até que lhe pediram para falar

sobre a sensação de estar de volta à cidade onde nasceu.

– Tem um a m usicalidade em Minas, e na nossa fala, que só quando sai daqui

que ocê percebe, e só escuta às vezes, com o diz aqui o Patrus, nos livros do João

Guim arães Rosa.

Patrus Ananias, sentado a sua esquerda, era o m inistro do Desenvolvim ento

Social, além de estudioso da obra de Rosa. Ele m urm urou algo que fez Dilm a

balbuciar fora do m icrofone:

– É... Me em ociona...

O que se passou nos oito segundos seguintes foi algo que só Dilm a, ninguém

m ais, podia entender com pletam ente. A m inistra levou a m ão direita à altura dos

olhos e pressionou-os com o indicador e o polegar, que ela fez descer pelo rosto

até apertar com força o contorno dos lábios. O único som no auditório era o

espocar dos flashes. Ela encarou os repórteres e concluiu, com os olhos

m arej ados:

– É o som da infância, gente. É isso...

Das j anelas do prédio da Fiem g, era possível captar o burburinho do trânsito na

avenida do Contorno em direção à Savassi, um m ovim entado centro de

com ércio, serviços e restaurantes de Belo Horizonte. Cerca de dez quarteirões ao

sul daquele edifício ficava a casa onde Dilm a m orou do dia em que nasceu, em

1947, até os oito anos de idade. Era um tem po em que o nom e Savassi não

indicava um a região da cidade, m as apenas a sortida padaria de dois im igrantes

italianos no tranquilo bairro dos Funcionários. A casa da rua Sergipe não existia

m ais; em seu lugar havia um pequeno prédio de escritórios, igual a tantos outros.

Mas era dali que brotava o som da infância.

Na m em ória de Dilm a, era o som das conversas na padaria dos italianos, com

seu im enso balcão de guloseim as, a algazarra das crianças no cinem a do bairro,

suas m atinês de desenhos anim ados e seriados de ação. Era a alegria de pedalar

a bicicleta pintada de am arelo vivo, nas ruas de terra ou calçadas com pedras,

nos anos 1950. Conduzindo a m em ória serra abaixo, em direção ao centro da

cidade, Dilm a chegaria ao apartam ento 1.001, no décim o pavim ento do Edifício

Solar, construção m odernista dos anos 1960 perto da Faculdade de Direito. Foi

daquele apartam ento que Dilm a e o prim eiro m arido, o j ornalista Cláudio

Galeno, tiveram de fugir num a m anhã de j aneiro de 1969, driblando a polícia

política sem produzir som nenhum .

Ela tinha acabado de com pletar 21 anos quando m ergulhou na clandestinidade,

procurada pela ditadura m ilitar. Escondeu-se no Rio, foi presa e torturada em São

Paulo, cum priu pena de quase três anos no Presídio Tiradentes. Só iria

recom eçar a vida em 1973, em Porto Alegre, ao lado do segundo m arido, o

advogado Carlos Araúj o. Fez novos am igos, form ou-se em Econom ia, teve um a

filha e continuou fazendo política – a resistência, a oposição, a luta pela

dem ocracia e a reinvenção dos governos populares. Ali seria convocada, no final

de 2002, para integrar o governo do prim eiro operário eleito presidente do Brasil

– e então a vida recom eçou m ais um a vez para Dilm a Rousseff. Fácil, nunca foi.

Desde o início do segundo m andato de Lula, em j aneiro de 2007, a m inistra

percorria o país explicando, defendendo, fiscalizando ou inaugurando obras do

Program a de Aceleração do Crescim ento, o PAC. Criado e com andado pela

chefe da Casa Civil, era o plano de investim entos de 500 bilhões de reais em

infraestrutura e proj etos sociais com o qual Lula pretendia colocar o país num a

rota de crescim ento sustentável. O PAC tam bém era um instrum ento para

consolidar sua liderança política, que ia m uito além do PT, o partido que ele criou

em 1980 e que chegou à presidência da República 22 anos depois.

Lula enxergava no PAC a possibilidade de realizar um segundo governo

m elhor que o prim eiro, num a conj untura econôm ica e política m ais favorável

que a do m andato anterior. Nos quatro prim eiros anos de Lula o país tinha voltado

a crescer, m as 12 m eses de recessão, em 2005, com prom eteram o desem penho

final. O padrão de vida dos trabalhadores e da população m ais pobre tinha se

elevado, pela com binação de salários m ais altos, m ais crédito, alim entos m ais

baratos e m enos inflação, além de um gigantesco program a de distribuição de

renda, o Bolsa Fam ília. O m andato foi m arcado tam bém por um escândalo

político, que ficou conhecido com o mensalão e levou o PT e o governo às cordas.

Agora, o aquecim ento da econom ia, a preservação da base política e o sucesso

do PAC eram os ingredientes que poderiam levar à vitória nas eleições

presidenciais de 2010, e Dilm a Rousseff estava no centro da estratégia política de

Lula.

Pelo restante daquela sexta-feira e no final de sem ana prolongado pelo feriado

de Tiradentes, ninguém além dos m édicos ouviria da m inistra um com entário

sequer sobre o telefonem a do doutor Kalil. Som ente na noite de 22 de abril, um a

quarta-feira, Dilm a iria com partilhar a angústia e um prato de m assa com Carlos

Araúj o, agora ex-m arido e m elhor am igo, e a filha dos dois, Paula. Aos 32 anos,

Paula era form ada em Direito, procuradora do Trabalho e estava casada havia

m enos de um ano. Escolheram conversar a três num pequeno restaurante do

bairro da Tristeza, em Porto Alegre.

Naquele m esm o lugar, entre o Natal de 2008 e o ano-novo, Dilm a havia

reunido sua pequena fam ília gaúcha para confirm ar, na intim idade, aquilo que o

m undo político brasileiro especulava abertam ente: sim , ela, que nunca havia

disputado um a eleição, em bora se dedicasse à luta política de corpo e alm a desde

a adolescência, seria m esm o a candidata do PT e do presidente Lula ao Planalto.

Era a prim eira m ulher com chances reais de presidir o m aior país da Am érica

Latina, com 190 m ilhões de habitantes, a sétim a m aior econom ia do m undo,

Produto Interno Bruto de 2 trilhões de dólares e um passivo de desigualdade

social que desafiava sua história.

Ao passado de m ilitante clandestina, Dilm a havia som ado a experiência de

participar, na fase final da ditadura m ilitar, do m ovim ento pela anistia e da

reorganização dos partidos políticos legais. No Rio Grande do Sul, um a

considerável corrente da esquerda associou-se não ao nascente PT, m as à

tradição trabalhista, fortem ente arraigada na terra natal dos ex-presidentes

Getúlio Vargas e João Goulart. Dilm a e Carlos Araúj o participaram da fundação

do Partido Dem ocrático Trabalhista de Leonel Brizola, o herdeiro do trabalhism o.

Pelo PDT e, anos m ais tarde, incorporada ao PT, Dilm a foi secretária de

Fazenda da prefeitura de Porto Alegre, presidenta da Fundação de Econom ia e

Estatística do Rio Grande do Sul e duas vezes secretária de Energia, Minas e

Com unicação, antes de se tornar m inistra de Minas e Energia e chefe da Casa

Civil do governo Lula – sem pre a prim eira m ulher a assum ir aquelas funções.

Um currículo e tanto para quem se considerava sobrevivente da luta contra a

ditadura – um a luta que ceifou com panheiros em com bates desiguais ou nas

m asm orras do regim e. Para Dilm a Rousseff, aos 61 anos, a vida teim ava em

recom eçar sem pre.

A presidência da República j am ais esteve nos planos de Dilm a. Nem em

sonhos. Que se lem brasse, quando criança queria ser bailarina, porque achava

bonito, ou entrar para o corpo de bom beiros, que nem era profissão de m enina,

m as era bonito tam bém . Em dezem bro de 2008, quando conversou sobre o

assunto com Carlos e Paula, faltavam quase dois anos para as eleições. Nada era

oficial ainda, m as o proj eto Dilm a presidenta era bem m ais do que a insinuação

feita por Lula no com eço do ano, quando a cham ou de “m ãe do PAC” no

lançam ento das obras do Com plexo do Alem ão, no Rio de Janeiro.

Lula associava boa parte do sucesso de seu governo, que batia recorde sobre

recorde de aprovação nas pesquisas, ao trabalho de coordenação da m inistra na

Casa Civil. Ela assum iu a função em j unho de 2005, em plena torm enta do

mensalão, depois de cum prir todas as tarefas que o presidente lhe havia confiado

nas Minas e Energia. Os dois estabeleceram um a relação de lealdade política e

pessoal que viria a ser o cim ento da candidatura.

Lula nunca disse diretam ente a Dilm a que a queria com o sucessora. Tam bém

não abriu essa discussão com o PT ou com os m inistros m ais próxim os. Foi

sim plesm ente criando fatos, até que todos, inclusive Dilm a, com preendessem

que a decisão estava tom ada. Na virada de 2008 para 2009, o proj eto era

evidente, e Dilm a decidiu preparar o espírito da filha.

Paula guarda um a im pressionante sem elhança com a m ãe, no rosto e no

caráter. Com o a m aioria dos filhos de m ilitantes de esquerda de sua geração, ela

cresceu num a casa em que tinha de dividir os pais com a política; o espaço da

sala com as reuniões dos com panheiros; e os iogurtes da geladeira com os

fam élicos do m undo, que entravam a qualquer hora, saíam sem pre tarde e

m uitas vezes dorm iam tem poradas inteiras ao abrigo de Carlos e Dilm a.

Carlos Araúj o tam bém foi preso pela ditadura – ele e Dilm a dirigiam a

organização clandestina Vanguarda Arm ada Revolucionária-Palm ares. Livre,

elegeu-se três vezes deputado estadual pelo PDT no Rio Grande do Sul e disputou

duas vezes a prefeitura de Porto Alegre. Paula sabia bem o que era um a

cam panha eleitoral na vida da fam ília, m as nesse m om ento Dilm a estava no

centro de um a disputa pelo poder, com tudo o que isso significa em term os de

cautelas, restrições e obrigações para parentes e am igos. “Você é a pessoa de

quem a Dilm a m ais vai precisar ao longo dessa cam panha”, Lula diria a Paula

num a noite de com ício.

O fato de j am ais ter disputado um a eleição não preocupava Dilm a. Lula e seu

assessor de m arketing, o j ornalista João Santana, consideravam que o noviciado

da candidata, som ado ao fato de ser m ulher, poderia representar um a vantagem

com parativa num país em que a im agem geral dos políticos ia de m al a pior.

Dilm a confiava acim a de tudo nas razões obj etivas que indicavam o sucesso do

governo nas urnas: a aprovação ao presidente Lula estava lastreada no

crescim ento constante da econom ia, com binado a um processo de redistribuição

de renda que tinha gerado um a nova classe m édia no país, incorporando 28

m ilhões de pessoas ao m ercado de trabalho e de consum o.

Dilm a percebia nas viagens pelo país um am biente de otim ism o e confiança,

confirm ado pelas pesquisas, em bora o favoritism o do governo ainda não tivesse o

nom e e o sobrenom e da candidata. Seria questão de tem po para se tornar

conhecida e reconhecida. Além do m ais, ela teria a seu lado o líder político m ais

popular que o país conheceu ao longo de gerações. Não, Dilm a j á não tinha

receio de entrar na disputa, m esm o sabendo que as condições favoráveis

fatalm ente levariam a oposição a atacá-la duram ente durante a cam panha.

Daquela prim eira conversa a três, Carlos Araúj o guardou na m em ória a

segurança serena de Dilm a:

– Quem vai para a cam panha com um peso sobre os om bros é o adversário,

não sou eu. Eu vou com o sangue doce – foi o que ela disse no restaurante

italiano.

***

Na noite de 22 de abril de 2009 ela estava ali novam ente, no pequeno restaurante

da Tristeza, para contar a Carlos e Paula que a vida tinha lhe aprontado m ais

um a. O linfom a, conform e explicou o doutor Kalil, era um tipo de câncer que

podia ser tratado com am plas chances de sucesso – os m édicos evitam , nesse

caso, a palavra cura, preferem falar rem issão.

Era um a questão de m étodo, disciplina e sacrifício. A rotina seria subordinada

ao horário dos rem édios, e a agenda, às sessões de tratam ento no hospital em São

Paulo. Ela teria de receber as drogas da quim ioterapia por m eio de um cateter

que j á estava im plantado no lado direito do tórax. Sentiria náuseas, ficaria

cansada e estressada. Os cabelos cairiam . Sua pele e sua carne seriam

literalm ente queim adas nas sessões de radioterapia. Durante algum tem po, que

ainda não era possível definir, a vida ficaria em suspenso, na dependência do

resultado de exam es m inuciosos e invasivos.

Quem passou pela violência do pau de arara, pelas m áquinas de choques

elétricos, pela agonia incerta de resistir à tortura sabe que a vida não é fácil.

Nunca foi. Mas havia outra dim ensão na notícia que ela com partilhava com a

pequena fam ília: a dim ensão da política. Por m ais seguro e otim ista que fosse o

prognóstico dos m édicos, câncer era um a palavra m aldita quando pronunciada

em público, especialm ente se relacionada a um candidato presidencial.

No Brasil, o estigm a da doença poderia despertar no eleitorado a m em ória

trágica de Tancredo Neves, prim eiro presidente civil depois da ditadura, eleito

indiretam ente em 1985, que m orreu sem tom ar posse, de um a doença que ele

tentava esconder. A frustração com a m orte de Tancredo, ao fim de um a

j ornada de esperança que m obilizou a nação, tornou-se um episódio traum ático

na história do país. Mas tam bém havia o exem plo do vice-presidente José

Alencar, que nos últim os dez anos vinha superando cirurgia após cirurgia. A sua

história era de perseverança, e m ostrava os avanços da m edicina no com bate à

doença.

O câncer era um episódio que não estava previsto no roteiro da vida de Dilm a

Rousseff, nem da m ulher nem da candidata. Ela precisava avaliar com Lula a

nova situação. Dilm a expôs a questão a Carlos e Paula com obj etividade: se o

m ais prudente fosse desistir da cam panha, trocar de candidato, o correto era

tom ar a decisão logo, dando tem po a Lula para refazer sua estratégia. Antes de

voltar a Brasília, Dilm a pediu um a conversa pessoal com o presidente, que só iria

acontecer na m anhã de 24 de abril, na Base Aérea da capital, onde Lula

desem barcaria vindo da Argentina.

– Eu tenho um a coisinha im portante para contar – ela disse ao telefone, sem

ligar para a contradição aparente entre as palavras “coisinha” e “im portante”.

Se Dilm a e Lula ainda não haviam conversado form alm ente sobre a

cam panha eleitoral, tratando-se pelo que de fato eram – ela, a candidata, e ele, o

presidente que a apoiaria na cam panha –, o m om ento seria aquele.

Conferiram os prognósticos dos m édicos e das pesquisas. Confirm aram a

confiança m útua. Acertaram com o m inistro Franklin Martins, da Secretaria de

Com unicação, a divulgação do diagnóstico e do tratam ento, para exorcizar os

fantasm as da desinform ação. Dilm a concederia um a entrevista coletiva no dia

seguinte, um sábado, ao lado dos m édicos em São Paulo. O presidente se

despediu da candidata com palavras de am igo:

– Tranquila, Dilm inha, tranquila. Você é forte, vai conseguir.

Ela conseguiu, m as fácil não foi. Nunca foi.

capítulo 2

Um homem muito alto

Dilm a Vana Rousseff nasceu em 14 de dezem bro de 1947, na m aternidade do

Hospital São Lucas, em Belo Horizonte. Foi batizada com o m esm o nom e da m ãe

e por isso, em fam ília, seria para sem pre Dilm inha. O segundo nom e, Vana, era

um a hom enagem à irm ã m ais nova de seu pai, o im igrante Pedro Rousseff, que

em 1929 deixou a fam ília na longínqua Bulgária e em 1945 veio parar no Brasil,

onde o acaso o conduziu a Minas Gerais. Pedro tinha olhos claros, cabelos louros

e andar ereto. Era um hom em m uito alto, de quase dois m etros, e m uito branco,

“quase azul de tão branco” na m em ória da filha. Tinha 46 anos quando se casou

com a professora prim ária Dilm a Jane Coim bra da Silva, um a beleza m orena,

prendada e altiva, 26 anos m ais j ovem , nascida em Nova Friburgo, na serra

flum inense, e criada em Uberaba, no Triângulo Mineiro. Dilm inha era a segunda

filha do casal, que j á tinha Igor, nascido em j aneiro do m esm o ano, tam bém

batizado com nom e búlgaro (em casa dizia-se Igór, à m aneira eslava).

O parto da m enina foi conduzido pelo doutor Lucas Machado, form ado nas

prim eiras turm as da Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais.

Doutor Lucas Machado foi da prim eira e privilegiada geração de estudantes de

Belo Horizonte. A cidade tinha apenas 50 anos de existência, com pletados dois

dias antes do nascim ento de Dilm a. Nesse tem po tão curto passou de aldeia

pastoril a canteiro de obras, de centro político e adm inistrativo a eixo de

com ércio regional, e estava ingressando na era industrial. Seus 300 m il habitantes

conviviam com características de todas essas etapas sim ultaneam ente. O leite

ainda era vendido nas esquinas – fluía das torneiras de cam inhõezinhos-pipa, as

vaquinhas – e o bonde subia a avenida Afonso Pena à som bra das fileiras de

fícus. Ao m esm o tem po, um m oderno parque siderúrgico se erguia na direção

oeste, nos bairros em poeirados onde ia m orar a nova classe operária. Não era

um a cidade grande, m as j á tinha deixado de ser a província em que Lucas

Machado e seus colegas de faculdade reinaram nas décadas de 20 e 30. Foi um a

geração que estudou com grandes m estres, conviveu com poetas inspirados e

boêm ios fenom enais, lutou contra os paulistas nas revoluções de 1930 e 1932 e

iria povoar os rom ances m em oriais de Pedro Nava.

No ano em que Dilm a nasceu, brilhava a estrela do m ais fam oso

representante daquela geração: Juscelino Kubitschek, deputado federal do PSD,

m aior partido do país, em cam panha pelo governo de Minas. Prefeito nom eado

de 1940 a 1945, JK liderou a m odernização urbana de Belo Horizonte. Mandou

abrir e asfaltar 43 quilôm etros de avenidas, estendendo-as à nascente Cidade

Industrial, fez novas captações de água, enterrou m ais de cinco quilôm etros de

rede de saneam ento, trouxe os ônibus elétricos e construiu, em ritm o alucinante,

a represa e o conj unto turístico da Pam pulha – a prim eira j oia arquitetônica de

Oscar Niem ey er. A Pam pulha foi o ensaio de Brasília, com j ardins de Burle

Marx, painéis de Candido Portinari e esculturas de Alfredo Ceschiatti. [1]

No pioneiro bairro dos Funcionários, onde a fam ília Rousseff m orava no

com eço dos anos 50, as ousadias urbanísticas de JK eram pouco percebidas, a

não ser pelo novo calçam ento das ruas, com paralelepípedos retirados das

avenidas que ele m andou asfaltar. Os sinais m ais visíveis de que a cidade vivia

novos tem pos estavam encravados no topo dos m uros que protegiam as casas e

dividiam quintais. Cada vez m ais os m uros ficavam pontilhados de cacos

coloridos de garrafas. Disform es, cortantes, am eaçadores, os cacos de vidro

serviam para espantar os gatunos num a cidade onde a população crescia ao

ritm o de 7% ao ano. Tam bém serviam de barreira para as crianças, que faziam

das ruas território de brincar, desafiando cercas, escalando telhados. A Dilm inha

eles não intim idariam . Cedo a m enina aprendeu a se equilibrar sobre as bordas

dos m uros encarquilhados, valendo-se de algum a coragem e das plantas dos pés

acentuadam ente arqueadas.

– Eu tinha os pés assim , ó – ela recordou m uito tem po depois, desenhando um a

curva no ar.

Vida de criança era andar em bandos, tocar cam painhas e se esconder

correndo, subir nas árvores para com er fruta no pé, pedalar ladeira acim a e

soltar a bicicleta do ponto m ais alto da rua, ganhando velocidade na descida. Aos

sete anos, Dilm a foi presenteada com um a bicicleta am arela, cor que ela

escolheu e Pedro Rousseff m andou pintar. Preso ao guidão, havia um disco

estam pado com o Mickey Mouse e o núm ero 14, dia do seu aniversário. Foi o

presente de um Natal inesquecível, por causa da bicicleta e de um a revelação

inesperada. Às vésperas da festa, Dilm a e Igor brincavam na porta de casa com

Mauro, um tio m aterno com m ais j eito de prim o (era apenas cinco anos m ais

velho que os dois), quando Pedro Rousseff chegou de carro, seguido por um

cam inhãozinho de entregas. As crianças receberam ordem de entrar, com um a

desculpa qualquer, e Mauro provocou:

– Não é nada disso, são os presentes de Natal.

Esconderam -se entre as folhas de um a cerca viva e viram desem barcar a

bicicletinha am arela.

– Se vocês contarem , sua m ãe m e m ata – advertiu o m enino tio.

Dilm a guardou a desilusão: “Além de ficar sabendo, de repente, que Papai

Noel não existia, tive de aguentar caladinha.”

Dom ingo era dia de m atinê no cinem a do bairro, o Cine Pathé, com fachada

art déco, equipam ento de proj eção m oderno e m il poltronas na plateia.[2] A

program ação era irresistível para as crianças. Festival Tom e Jerry e desenhos da

Disney : Peter Pan, Alice no País das Maravilhas, Branca de Neve e os sete anões.

Film es de aventura: Robinson Crusoé; Simbad, o marujo. Seriados em ocionantes:

Flash Gordon no planeta Mongo, Buck Rogers no século XXV e Zorro, o cavaleiro

solitário, os favoritos de Dilm a. A criançada torcia e pulava sobre as poltronas de

couro. Num dom ingo daqueles, Dilm inha voltou para casa e foi se balançar feito

o Tarzan na corda am arrada a um a árvore no quintal. Ficou com as m ãos em

carne viva. Quem a escoltava até o Cine Pathé era tia Arilda, um a das irm ãs de

Dilm a Jane. Um dia fizeram a m enina vestir anágua por baixo da saia. A peça

não resistiu aos pinotes de Dilm inha e estava no chão, aos seus pés, quando as

luzes do Pathé se acenderam .

– Não liga. Finge que é um lenço e apanha do chão – sugeriu a tia. E quem

disse que a sobrinha aceitou aquela ideia besta? Choro, bater de pés, protesto.

Nunca m ais usou anáguas.

O film e que m ais a im pressionou foi O maior espetáculo da Terra , um a

história de circo, com Cornel Wilde no papel de Sebastian, o grande trapezista.

Quando foi a um circo de verdade, dos Irm ãos Garcia, Dilm inha adm irou os

trapezistas, m as saiu com um a vontade im ensa de ser bailarina.

Tirando os anos de prisão e de clandestinidade, Dilm a sem pre teve um

cachorro por perto, até m ais de um . Pingo , um fox terrier preto e branco, pelo de

aram e, foi o prim eiro e m ais querido de todos. Cúm plice, esperto, carinhoso,

m orreu de velhice em baixo da cam a da m enina. O enterro, num lote vago a três

quarteirões de casa, teve caixãozinho de papelão e cortej o fúnebre. Nos alm oços

de dom ingo – sem pre o arroz de forno e a m aionese introduzida em Belo

Horizonte pela cozinha francesa do Cassino da Pam pulha – Pingo se aninhava

em baixo da m esinha das crianças. Quando os pais se distraíam , ela atirava para o

cãozinho os nacos de carne que não conseguia engolir. Tinha a garganta

estreitada por am ígdalas gigantes, que teve de extrair aos sete anos.

Na convalescença da operação, Dilm inha tom ou litros de sorvete e descobriu

a com panhia do rádio. Acom panhou novelas e seriados da Rádio Nacional –

Jerônimo, o herói do sertão, rom ântico e ingênuo, e tam bém O Sombra, com seu

prefixo assustador: “Quem sabe o m al que se esconde nos corações hum anos?”

Pelo rádio ela aprendeu, para toda a vida, a ouvir m úsica popular brasileira.

A m enina Dilm a prestava m uita atenção tam bém às histórias que a m ãe e as

tias Dalva e Arilda contavam . Não saber ler era um a lim itação angustiante. O

j ardim de infância do Instituto Izabela Hendrix, onde foi m atriculada aos cinco

anos, não alfabetizava os alunos. Dilm a invej ava Igor, que estudou em outra

escola e aprendeu a ler m ais cedo. Pedia que lessem para ela os contos de

Andersen e Grim m , e a coleção Mundo da criança. Aprendeu finalm ente na

Cartilha da Sarita, aos sete, j á m atriculada no Colégio Sion, no bairro vizinho do

m esm o nom e. Ia para a escola num ônibus cheio de crianças vigiadas pelas

freiras. Foi um triunfo quando leu sem aj uda a coleção infantil de Monteiro

Lobato e, depois, tudo o que lhe caía nas m ãos: as obras da Condessa de Ségur, o

Tesouro da juventude e, crescendo, os rom ances açucarados da coleção Menina

e m oça .

Dilm a devia ter uns 12 anos quando Pedro Rousseff propôs: “Te dou dois

desses livrinhos se você ler este aqui.” Era Germinal, de Ém ile Zola, um clássico

na iniciação política de m uitas gerações. Dilm a ficou im pressionada com a

história – a denúncia do sofrim ento dos m ineiros de carvão na França do século

XIX – e a narrativa naturalista de Zola. A segunda negociação com o pai foi para

le r Humilhados e ofendidos, de Dostoievski, outro livro de tem ática social forte

m as de estilo aborrecido para a m enina. Passou então a Honoré de Balzac: O lírio

do vale, O pai Goriot. Aos 18, tinha lido praticam ente toda a Comédia humana.

Ela iria reencontrar (e devorar) Dostoievski anos depois num a prisão da ditadura.

Pedro Rousseff proporcionou um a vida de m uito conforto à fam ília. Seus

negócios se estabilizaram e ele prosperou de vez quando a alem ã Mannesm ann,

m aior fabricante de tubos de aço do m undo, decidiu construir a siderúrgica do

Barreiro, na região industrial de Belo Horizonte. Era o fruto tardio de negociações

iniciadas no prim eiro governo Getúlio Vargas, antes de o Brasil engaj ar-se com

os Aliados na guerra contra o nazism o. O proj eto foi retom ado depois da Segunda

Guerra Mundial. A inauguração da fábrica, em agosto de 1954, foi a últim a

aparição pública de Getúlio antes do suicídio. Estava ao lado do governador JK,

que seria eleito presidente um ano depois. Juscelino foi seu aliado fiel nos últim os

dias de um governo acuado por denúncias e em paredado por um a oposição

feroz.

No dia da inauguração da siderúrgica, Getúlio foi recebido no centro de Belo

Horizonte com vaias de estudantes ligados à União Nacional Dem ocrática

(UDN) e ao Partido Com unista (PCB). JK o levou para ser aplaudido pelos

operários no Barreiro. Duas sem anas depois, quando chegou à cidade a notícia do

suicídio, m ultidões enfurecidas cercaram a sede do j ornal do Partido Com unista.

Num a m anobra desesperada, um estudante com unista fez um discurso inflam ado

contra os “verdadeiros responsáveis” pela desgraça do presidente m orto: os

trustes norte-am ericanos e os entreguistas da UDN. O j ovem com unista j untou às

palavras um latão de gasolina, e assim com eçou o incêndio do consulado dos

Estados Unidos em Belo Horizonte. Dilm inha tinha seis anos.

Algum tem po antes daqueles acontecim entos, Pedro Rousseff teve um

encontro com o acaso no aeroporto de Belo Horizonte. Lá estava um am igo da

j uventude, de passagem pela cidade a serviço da Mannesm ann. Os dois haviam

estudado num liceu de artes técnicas na Alem anha, algo sem elhante ao que hoj e

cham am os de curso de engenharia. Pedro tinha se form ado em Direito na

Bulgária, m as estudou na Alem anha por insistência do pai. O am igo no aeroporto

precisava de alguém que entendesse de altos-fornos. Ali m esm o acertaram que

Pedro trabalharia com o em preiteiro na construção da nova fábrica. Era a últim a

volta do destino na vida do im igrante búlgaro.

Pétar Russév, este era seu nom e original, nasceu no ano de 1900, num a

fam ília de coureiros da pequena cidade de Gabrovo. Havia séculos que a

Bulgária era um a peça m enor, conturbada e m uito pobre no j ogo político da

Europa Central. Quando Pétar resolveu deixar seu país, um governo fascista

sucedia a um a m onarquia decadente, num contínuo de intolerância e atrocidades

políticas. Tinha 29 anos e trabalhava na firm a de com ércio de tecidos de um tio

na capital, Sofia. Deixou grávida a prim eira m ulher, Evdoky a, e passou os 15

anos seguintes na França. Dilm a Jane contou aos filhos que Pedro era ligado ao

Partido Com unista búlgaro e fugiu de sua terra por razões políticas, am eaçado de

m orte (em 2009, o j ornalista búlgaro Mom chil Indj ov investigou a vida dos

Russév em seu país e não encontrou confirm ação de atividade política de Pedro).

Em 1948, j á com o sobrenom e afrancesado, Pedro retom ou contato com a

fam ília búlgara, por m eio de um a carta enviada de Belo Horizonte à prefeitura

da pequena Gabrovo. Passou a se corresponder com o filho, Luben-Kam en;

m andava-lhe algum dinheiro em butido em cartões-postais, ou pedras

sem ipreciosas por m eio de raros interm ediários entre o Brasil e a Bulgária