A Vida Quer É Coragem por Ricardo Batista Amaral - Versão HTML

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com unista. Nunca chegaram a se encontrar.

Muitos anos depois Dilm a retom ou a correspondência com o m eio-irm ão e

tam bém o aj udou com dinheiro. Quando m inistra, planej ou duas vezes visitar a

Bulgária, m as teve de cancelar os planos nas duas ocasiões. Em 2005, m arcaram

encontro em Paris, e dessa vez foi ele que não pôde ir. Luben m orreu em 2008,

viúvo, sem filhos. Dilm a foi conhecer Gabrovo e os parentes do pai em outubro

de 2011, seu prim eiro ano na presidência da República. Diante do cem itério

local, pediu para ficar só e visitou o túm ulo de Luben.

Pedro Rousseff deixou a França em 1944, quando a guerra chegava ao fim . O

que se registrou de sua vida nesse período foi o que escreveu um a grande am iga,

a poetisa búlgara Lizveta Bagriana, que m ais de um a vez visitaria os Rousseff no

Brasil. Num poem a dedicado ao am igo (e reproduzido num livro por Mom chil),

um personagem fictício, certam ente Pedro, narra a vida de exilado:

Os primeiros quinze anos

Lutei com unhas e dentes e punhos por um teto

Mesmo um que fosse pequeno

Por um pedaço de pão e por um punhado de uísque.

Ele desem barcou em Salvador, desceu para Buenos Aires e logo retornou,

zanzando entre Rio e São Paulo. O Brasil era um país de 45 m ilhões de habitantes,

m ais da m etade analfabetos, m ais de dois terços vivendo no cam po. O presidente

Getúlio Vargas tinha chegado ao poder em 1930, no com ando de um a revolução

contra as oligarquias rurais. Elas continuaram poderosas, m as o dinheiro do

Tesouro, que antes era torrado para m anter artificialm ente altos os preços

internacionais do café, passou a financiar indústrias, estradas e usinas. A

legislação social estabeleceu o salário m ínim o, a j ornada de oito horas e legalizou

os sindicatos. O m inistro da Educação, Gustavo Capanem a, levou para o governo

alguns dos m elhores intelectuais do país, abriu m useus, criou o Patrim ônio

Histórico. As m ulheres conquistaram o direito de votar.

Em 1935, Getúlio Vargas botou os com unistas na cadeia (debaixo de tortura)

depois que eles tentaram um desastrado levante m ilitar. Dois anos depois, a

pretexto de evitar um golpe da direita integralista, criou sua própria ditadura, o

Estado Novo. O regim e tinha um nom e fascista, um chefe de polícia nazista e

prom ovia o culto personalista do ditador, m as Vargas acabou se aliando aos

Estados Unidos na guerra contra Adolf Hitler. Foi deposto em 1945, quando o

Brasil, um a república de quase 60 anos, adotou finalm ente eleições livres e um a

Constituição dem ocrática. Getúlio voltou ao poder pelo voto, em 1950. “Nos

braços do povo”, com o diziam seus partidários.

No com eço de 1945, um am igo brasileiro levou Pedro Rousseff para conhecer

Uberaba, terra de grandes pecuaristas, com um a exposição de gado zebu que

atraía ricaços até de países vizinhos. Aquele gringo grandalhão falava um

espanhol arrevesado, m as se entendia m uito bem com cartas de baralho. Em

discretíssim as rodas de carteado, ganhou um bom dinheiro dos fazendeiros locais,

m as nada que o tornasse m ais respeitável aos olhos da fam ília de Dilm a Jane.

Aquele urso branco era velho dem ais para a j ovem professora. Tinha um a vida

incerta (a fam ília da m oça ainda nem desconfiava das cartas), um passado

nebuloso e j am ais aprenderia a pronunciar o “ão”. Foi m esm o um custo

aceitarem que Pedro se casasse com Dilm a, m as eles conseguiram e foram

viver em Belo Horizonte, onde ele trabalhou inicialm ente com o em preiteiro de

pequenas obras na cidade em expansão.

A prim eira casa em que os Rousseff m oraram , na rua Sergipe, era am pla,

tinha um pom ar no quintal e até um a pequena piscina. As crianças passaram a

ser três em 1951, quando nasceu a caçula Zana Lívia, batizada com um a versão

aportuguesada do nom e da avó búlgara, Tsana. Frequentavam o Minas Tênis

Clube, onde se form aram grandes equipes de vôlei, natação e basquete. O clube

ficava ao lado do Palácio da Liberdade, sede do governo do estado, e Dilm a ia

para lá toda m anhã. Seu Macedo, o treinador, distribuía balas entre as crianças

antes das aulas de natação. Foi no Minas que ela aprendeu a j ogar vôlei, para se

divertir com as am igas, e recebeu aulas de tênis.

Dilm a avistou o m ar pela prim eira vez encarapitada sobre os om bros do pai.

Nas férias, os Rousseff iam para a praia, em Guarapari, e hospedavam -se no

Hotel Radium . Um luxo para a classe m édia alta de Belo Horizonte, que invadia

as praias do Espírito Santo no verão. Pedro Rousseff tam bém iria apresentá-la ao

canto lírico. Dona Dilm a não gostava de viaj ar, e era a filha quem acom panhava

o pai ao Rio e a São Paulo para apresentações de ópera, raras em Belo Horizonte.

A prim eira vez para Dilm a foi Lucia di Lammermoor, de Donizetti. Depois,

Madame Butterfly, de Puccini. As prediletas de Pedro eram as de Giuseppe

Verdi, La Traviata à frente. Música era um prazer de se ouvir, m as um suplício

de praticar. Dilm a penou por um ano nas aulas de piano em casa, sem fazer

progresso algum , até convencer o pai de que sua relação com a m úsica seria de

apreciadora, j am ais de instrum entista.

Pedro exercia um a vigilância silenciosa e constante sobre os filhos. Estava na

entrada do baile, na quadra de tênis, na saída do cinem a. Sem arranhar a

autoridade, sabia negociar nas horas difíceis – a inj eção dolorida ou o rem édio

am argo, com pensados por um doce ou um gibi. A retaguarda do pai dava

segurança a Dilm inha. No aniversário de um a colega, a dona da festa exibiu a

boneca im portada que ganhou de presente, do tam anho de um a criança de

verdade. As m eninas faziam fila para adm irar a novidade, m as Dilm inha, braços

cruzados, nem quis passar perto.

– Não quer carregar m inha boneca? – provocou a aniversariante.

Pra quê? Dilm inha cortou na rede:

– Não, m uito obrigada. O m eu pai vai m e dar um a boneca m aior que a sua.

Pedro Rousseff era capaz de rir de coisas que deixavam dona Dilm a aflita,

com o no dia em que a filha rasgou ao m eio um a nota de alguns cruzeiros para

dividir com um m enino pobre (naquele tem po os pobres batiam à porta das casas

para pedir trabalho, esm ola ou com ida).

– Onde j á se viu rasgar um a nota? Que burrice! Essa m enina não sabe o que é

dinheiro – afligiu-se a m ãe.

Não sabia m esm o, m as com eçava a perceber que havia m uitas pessoas sem

nada no m undo. Dilm a se lem bra de ter conversado com o pai sobre a m iséria

em lugares m uito distantes do bairro dos Funcionários. Ele entendia por que os

pobres gostavam de Getúlio.

Pedro aj udava a filha nas lições de Matem ática e Francês, pois o Sion era,

com o se dizia, um colégio puxado. Até Latim se estudava nos bancos do ginásio.

No tem po do Latim , a fam ília Rousseff j á havia se m udado para outra casa

confortável, na rua Maj or Lopes, no vizinho bairro de São Pedro. Foi pouco

depois da prim eira com unhão. Dentro do arranj o de convivência entre Pedro e

Dilm a Jane, católica praticante, coube à m enina decidir se queria ou não receber

o sacram ento. Ela quis, m as ficou decepcionada ao saber que, pelos ritos

m odernos, o vestido de prim eira com unhão era um a sim ples bata branca com o

PX em dourado, e não m ais a beleza rendada que a m ãe usou em sua época e

que Dilm inha adm irava no álbum de fotografias.

Nos prim eiros anos da rua Maj or Lopes, a vida ainda corria na velocidade da

bicicleta am arela. Ficaria ainda m ais em ocionante em 1958, quando o presidente

JK voltou à cidade para inaugurar a rodovia BR-3 (Rio-Belo Horizonte-Brasília,

atual BR-040). A nova estrada com eçava ali perto, um a larga faixa de asfalto

subindo da avenida do Contorno até as franj as da serra do Curral. Que pista para

um a descida de bicicleta... Enquanto os filhos cresciam , a casa se enchia de

novos am igos e am igas. Form ar turm as – de rua, de bairro, de escola – era a

estratégia social dos adolescentes. Juntos, andavam pelas ruas, ouviam discos,

iam ao cinem a, aos clubes, às festas.

Aos dom ingos, as m oças do Sion e os rapazes do Loy ola, o colégio dos

j esuítas, subiam o m orro do Papagaio para dar algum tipo de assistência à

população da favela, ao lado da BR-3. O Grupo Gente Nova (GGN) era um a

expressão local da doutrina social da Igrej a, na virada dos anos 50 para os 60.

Sob a direção das freiras, ensinavam a ferver a água, ofereciam noções de

higiene, aj udavam nos m utirões, m as nada de discussão política. Muito cedo

Dilm a percebeu que aquele esforço não m udaria o m undo.

“Eu m e lem bro dela dizendo: ‘isso é m uito bom , m as não vai levar a lugar

nenhum . Não resolve os problem as reais’”, conta a professora Sônia Lacerda,

am iga desde os tem pos do Sion. “Me im pressiona até hoj e, porque ela j á tinha

essa percepção ali pelos 12 ou 13 anos de idade.”

A convivência entre m oças e rapazes seguia rígidos padrões. Era perm itido

prom over bailes em casa, as horas dançantes, m as tirar para dançar era

privilégio m asculino. As m eninas ficavam sentadas nas cadeiras, dispostas lado a

lado, esperando o convite. Term inada a m úsica, a m oça pedia licença ao par e

voltava para a fila. Dançar duas m úsicas seguidas com o m esm o rapaz não era,

digam os, de bom tom . Acertado o nam oro, um m ês para pegar na m ão e três

para trocar um beij o. Não é que não houvesse transgressões; elas sim plesm ente

não vinham a público.

Essas festinhas eram regadas com drinques necessariam ente aguados: cuba-

libre (Coca-Cola com rum ), hi-fi (vodca com refrigerante de laranj a, na época

Crush) e batidinhas de coco e de pêssego. Antes dos Beatles e da Jovem Guarda,

a turm a ouvia m uito os rom ânticos italianos (Pepino di Capri e Dom enico

Modugno), Frank Sinatra, Bill Haley, Elvis Presley e, para escândalo de alguns

pais, a desquitada May sa. Era o fino ser adolescente num país que inventava a

bossa nova e descobria o rock and roll.

O governo JK foi um sopro de m odernização nos hábitos de consum o, na

infraestrutura (grandes rodovias e usinas hidrelétricas foram construídas) e no

perfil da econom ia, com um a política de substituição de im portações que trouxe

para o Brasil as prim eiras fábricas de autom óveis e eletrodom ésticos. O país

cresceu e a inflação, tam bém . JK, o charm oso Presidente Bossa Nova, não

conseguiu eleger seu sucessor. Quem venceu as eleições em 1960 foi Jânio

Quadros, ex-governador de São Paulo, que prom etia varrer a corrupção do país

(seu sím bolo de cam panha era um a vassoura). Personalista ao extrem o, sem

apoio da m aioria no Congresso, Jânio renunciou ao cargo em agosto de 1961, no

sétim o m ês de governo. O episódio passou à História com o um a frustrada

tentativa de golpe e abriu um a crise política e m ilitar. O vice João Goulart, do

PTB de Vargas, assum iu com poderes lim itados, num sistem a de governo

parlam entarista que vigorou por 18 m eses.

Dilm a tinha 13 anos quando Jânio renunciou. Já era bastante m íope (chegou a

usar óculos grossos para 12 graus), tinha os cabelos anelados, m uito longos, que

usava soltos até a cintura ou presos num rabo de cavalo. Estava entrando na

adolescência, na rotina das turm as e no ritm o das horas dançantes “Ela era m uito

solicitada em todas as festas, dançava bastante, e sem pre m e lem bro dela

paquerando alguém ”, diz a am iga Sônia Lacerda.

As grandes ocasiões sociais, com orquestra profissional e bufê de verdade,

eram os bailes de debutantes. Algum as garotas preferiam trocar o baile por um a

viagem e talvez fosse o caso de Dilm a, m as 1962, quando ela com pletaria os 15,

não foi um ano feliz na casa dos Rousseff. Num a tarde de sábado, Pedro deixou

Dilm a num a festa de casam ento e seguiu para o Clube Cam pestre, onde j ogava

cartas com am igos, m uitos deles tam bém europeus de origem . Pedro fum ava

m ais de duas carteiras de cigarro por dia. À noite, com eçou a sentir-se m al e

voltou para casa com dificuldade de dirigir. Mauro, o tio que desencantou Papai

Noel, cham ou o Prontocor, que ficava bem próxim o, m as j á era tarde quando a

am bulância chegou.

Pedro Rousseff m orreu em casa, de um a crise de angina, aos 62 anos. Deixou

pelo m enos um a dúzia de im óveis, o suficiente para prover a fam ília pelos anos

seguintes, e um vazio do tam anho de sua presença. Jean-Paul Sartre dizia que

cresceu sem superego (a referência aos valores externos na m ente hum ana,

segundo a teoria psicanalítica) porque seu pai – a figura dom inante na fam ília

Sartre – m orreu quando ele tinha apenas um ano.

“Quando m eu pai m orreu, eu perdi o m eu supersuperego”, Dilm a diria m uito

tem po depois.

capítulo 3

A política na esquina

O j ornalista Cláudio Galeno de Magalhães Linhares tinha 22 anos quando deixou

o presídio da Ilha das Cobras, no Rio, no final de 1964. Ele tinha caído num a das

prim eiras levas de prisões depois do golpe m ilitar. Com as cadeias lotadas de

adversários do novo regim e, Galeno foi confinado no porta-aviões Minas Gerais

antes de seguir para a ilha. Solto graças a um habeas corpus coletivo do advogado

Heráclito Sobral Pinto, voltou a Belo Horizonte, onde m orava antes, com a ideia

de retom ar o contato com sua organização política secreta. O cam inho de volta o

conduziu a um a pensão m odesta, na rua Curitiba, quase esquina com a avenida

Am azonas, um a zona m ovim entada no centro da cidade.

O contato ali era Carlos Alberto de Assis, o Carlinhos Flex, de 21 anos. Devia o

apelido ao salto potente e às pernas elásticas; era capaz de carim bar placas de

trânsito espetadas bem alto nos postes e desferir pernadas certeiras num a briga

de rua. Carlinhos era filho da proprietária da pensão, viúva de um pequeno

hoteleiro, todos originários de Ferros, interior de Minas, m esm a cidade onde

Galeno nasceu. Odete – este era o nom e dela e, naturalm ente, do

estabelecim ento – servia aos sábados um a feij oada que os am igos de Carlinhos

saboreavam de graça. Ela percebia o j eito rebelde de uns, as preferências

m usicais avançadas de m uitos e até o costum e geral de discutir política, m as

sequer suspeitava que em sua casa funcionasse um a das m ais ativas células da

Organização Revolucionária Marxista-Política Operária (ORM-Polop). Era a

organização de Galeno.

Criada em 1961 por dissidentes do PCB e do antigo Partido Socialista Brasileiro

(PSB), e por seguidores do russo Leon Trotski, a Polop reivindicava a herança de

Vladim ir Lenin, pai da Revolução Soviética de 1917, e da revolucionária alem ã

Rosa Luxem burgo. Dentre as organizações da esquerda brasileira, era de longe a

m ais exigente com a form ação teórica de seus m ilitantes, um traço im posto pelo

fundador, Eric Sachs, que assinava seus textos com o Ernesto Martins. Entre os

cam aradas da Polop, era O Velho. Austríaco de nascim ento, form ado na escola

da social-dem ocracia alem ã, Sachs reuniu na Polop aplicados intelectuais

m arxistas – Michael Lowy, Ruy Mauro Marini, os j ovens irm ãos Em ir e Eder

Sader, Theotonio dos Santos.

A Polop, com o o nom e indicava, propunha a form ação ideológica e a

organização da vanguarda da classe proletária, m as enquanto existiu recrutou

seus quadros basicam ente na pequena burguesia, que é com o os m arxistas

cham am a classe m édia.

“Nossos poucos operários eram só para am ostra”, recorda Apolo Heringer

Lisboa, que entrou para a Polop quando era dirigente estudantil em Belo

Horizonte. Conheceu a prisão, a clandestinidade e o exílio. De volta ao país nos

anos 80, assum iu a m ilitância am biental com o causa política.

O grupo dirigente da Polop, baseado em São Paulo, correspondia-se em Minas

com o sociólogo Guido Rocha, j ornalista e artista plástico; com o líder estudantil

Juarez Guim arães de Brito, um j ovem cavalheiro de fala suave, m agro e alto

feito bam bu; e com o estudante de Econom ia Carlos Alberto “Beto” Soares de

Freitas, físico de atleta, bigode de galã, m odos de sedutor, articulador incansável.

A iniciação de um quadro da Polop passava obrigatoriam ente pelo estudo

dedicado dos Princípios fundamentais de Filosofia, do francês Georges Politzer.

Era um a coletânea das palestras para operários do Partido Com unista Francês,

nos anos 40; um curso ortodoxo de m arxism o-leninism o em 21 lições, redigido na

form a de perguntas e respostas. Na versão m im eografada da Polop, eram

destacados o segundo capítulo, “Estudo do m étodo dialético m arxista”, e o quinto,

“O m aterialism o histórico”. Superada a etapa da cartilha stalinista, os m ais

aplicados estudavam Lenin ( O Estado e a revolução, Duas táticas, Que fazer? ) e

avançavam para os renovadores do m arxism o de então: o francês Louis

Althusser, autor de Para ler O Capital, e seu discípulo grego, Nicos Poulantzas.

Era o que havia de m ais refinado na esquerda, m as seu peso político era quase

nada com parado ao velho PCB, à Ação Popular (AP) da esquerda católica e até

m esm o ao Partido Com unista do Brasil (PCdoB), facção ortodoxa stalinista que

saiu do PCB em 1962.

Quando a Polop foi criada, o país vivia um am biente de agitação política sem

precedentes, um expressivo m ovim ento de m assas e de renovação cultural que o

golpe m ilitar interrom peria violentam ente. A luta pelas reform as de base

(agrária, urbana, educacional e de setores estratégicos da econom ia) m obilizou

m ilhões e criou a expectativa de um grande avanço social. Nos últim os m eses de

seu governo, o presidente João Goulart, o Jango, do PTB, cam inhava pela

esquerda, apoiado pelo PCB, pelo Com ando Geral dos Trabalhadores e por um

propalado, j am ais testado, “dispositivo m ilitar”. “Não estam os no poder, m as j á

estam os no governo” era um a frase livrem ente atribuída ao lendário secretário-

geral do PCB, Luiz Carlos Prestes. Cam poneses desfilavam pelas ruas das

capitais; greves gerais eram decretadas num estalar de dedos; sargentos, cabos e

m arinheiros se m anifestavam e disputavam eleições, desafiando abertam ente a

hierarquia m ilitar.

Não era a tom ada do Palácio de Inverno, m as, se não havia propriam ente

um a revolução socialista no horizonte, algum tipo de m udança, transform adora e

com raízes populares, parecia ao alcance da m ão no com eço de 1964. Na

m oldura da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, foi tam bém um a

fase de brutal radicalização política: a oposição da UDN, a Igrej a Católica,

fazendeiros e em presários m obilizavam intensam ente a classe m édia contra o

governo. Os consulados am ericanos distribuíam film es anticom unistas, que

padres exibiam nas praças e igrej as. Políticos alinhados com os Estados Unidos

recebiam dinheiro e apoio publicitário de organizações ligadas ao Departam ento

de Estado.

Os dólares da CIA eram a contrapartida do ouro de Moscou, num a disputa por

corações e m entes que trouxe ao Brasil estrelas de Holly wood, de um lado, e

cosm onautas soviéticos, de outro. Jango reuniu 300 m il no Com ício das

Reform as, em 13 de m arço de 1964, quando desapropriou as m argens das

rodovias para a reform a agrária. Um a sem ana depois, a oposição botou m eio

m ilhão nas ruas de São Paulo, na Marcha da Fam ília com Deus pela Liberdade,

que esconj urava o com unism o e queria depor a “república sindicalista” de Jango.

O j ogo desem patou, com a derrota da esquerda, no dia 1o de abril de 1964,

quando o governo Jango caiu sem disparar um tiro. O presidente deposto exilou-

se no Uruguai e orientou seus aliados a não reagir para não m ergulhar o país

num a guerra civil.

A frustração da esquerda recaiu com o um segundo golpe sobre o partido de

Prestes. O PCB foi acusado, entre outras coisas, de ter feito um a política de

colaboração com a burguesia, em vez de preparar as m assas para resistir ao

golpe. Exagerada ou j usta, nessa crítica estavam de acordo a Polop, a AP, os

trotskistas, os nacionalistas radicais e as dissidências do PCB nos estados. O velho

Partidão, que chegou a ter 300 m il m ilitantes, j ornais influentes e a hegem onia

nos m ovim entos sociais, j am ais recuperaria a dim ensão e o peso político

perdidos em 1964.

Foi nesse am biente de crítica à conciliação de classe que a ortodoxa Polop

nam orou com o perigo. Um grupo de Minas foi se reunir no Rio com sargentos

expulsos das Forças Arm adas e da PM da antiga Guanabara para discutir

seriam ente um a resistência arm ada. Eles conspiravam num apartam ento em

Copacabana. Não eram os únicos a pensar num contragolpe, um putsch, com o se

dizia. Do exílio no Uruguai (e com dólares enviados pelo cubano Fidel Castro), o

ex-governador gaúcho Leonel Brizola, do PTB, patrocinou um a expedição

guerrilheira no Paraná, que cam inhou pouco antes de ser capturada. O “Foco de

Copacabana” em que a Polop se m eteu frustrou-se antes m esm o de pegar em

arm as, com a prisão sim ultânea de 14 conspiradores, entre eles Guido Rocha e

Cláudio Galeno. Beto Soares de Freitas escapou por pouco.

Cláudio Galeno era, portanto, um quadro experiente quando retornou a Belo

Horizonte, e o que ele viu na pensão da Odete parecia m ais um encontro de

j ovens rebeldes do que a reunião clandestina de um a célula revolucionária. A

com eçar pela presença daquelas secundaristas, m eninas ainda, vestidas com a

blusa branca com gravatinha verde e a saia cinza evasê do uniform e do Colégio

Estadual. Elas interrom piam a análise de conj untura a qualquer tem po para falar

de cinem a, de teatro ou dos escritores da m oda, Jean-Paul Sartre e Sim one de

Beauvoir. E o toca-discos no quarto, que não parava, o que era aquilo? Era

Tam ba Trio, Quarteto Novo, Zim bo Trio, era Baden Powell tocando Vinicius, até

j azz am ericano se ouvia, antes, durante e depois da reunião: Dave Brubeck, Miles

Davis, John Coltrane. Carlinhos teve de explicar ao aturdido Galeno: “Olha,

com panheiro, ou a gente faz dessa m aneira ou não tem com o am pliar a

organização na base.”

Afinal de contas, a m úsica era boa; a conversa, inteligente, e as m eninas...

Bem , as m eninas eram m uito interessantes, m as Galeno teve que sair da cidade

outra vez. Seu habeas corpus tinha sido revogado e ele foi se esconder em São

Paulo, onde encontrou de novo os ex-sargentos e m uita gente que era contra o

governo m as não sabia bem o que fazer. Eric Sachs o despachou de volta a

Minas, para reorganizar a Polop ao lado de Guido Rocha e Beto Soares de Freitas,

rem anescentes da direção original. (Juarez Brito tinha ido para o Rio com a

m ulher, Maria do Carm o, depois de um tem po escondido em Goiás e Recife.

Theotonio dos Santos e a m ulher, Vânia Bam birra, estavam a cam inho do exílio

no México.)

Na segunda m etade de 1965, Galeno estava de volta a Belo Horizonte,

torcendo para que os m ilitares se esquecessem do “Foco de Copacabana”. A

célula da pensão da Odete continuava ativa e as m eninas do Colégio Estadual não

eram m ais adolescentes. Ali pela segunda reunião, o j ornalista com eçou a

prestar m ais atenção à secundarista de olhos vivos por trás dos óculos grossos.

Havia um festival de cinem a italiano na cidade. Galeno não lem bra se o film e

que foi assistir ao lado de Dilm a era de Michelangelo Antonioni ou de Federico

Fellini, m as guardou o roteiro que realm ente interessava: m ão na m ão, o braço

estendido sobre os om bros da m oça, um beij o na sala escura. Nam oravam .

Entre a m orte de Pedro Rousseff, as reuniões da Polop e o nam oro com o

j ornalista revolucionário, a ex-aluna do Colégio Sion havia percorrido um

cam inho longo em ritm o veloz. Para com eçar, Dilm a recusou o destino com um

das m oças de sua classe, que seria cursar a escola norm al e tornar-se professora,

com o fizeram a m ãe e as tias. Seu últim o ano de ginásio não havia sido

estim ulante – o Sion foi fechado na onda de m udanças do Concílio Vaticano II e

ela, transferida de colégio, para o Santa Dorotéia. Dilm a cortou os cabelos bem

curtos, deixando aparecer a nuca, com franj as caindo com o vírgulas sobre a

testa.

Ela aprofundou as leituras para além da biblioteca do pai, e decidiu prestar

exam es para o curso científico (equivalente hoj e ao ensino m édio) no Colégio

Estadual. Não era fácil passar no exam e de adm issão daquela escola pública

centenária, dirigida por um reitor, com professores que não raro eram autores

dos livros adotados nos m elhores colégios. Desde 1956, em m ais um a ousadia de

Niem ey er que JK patrocinou, o Colégio Estadual funcionava num arroj ado

conj unto arquitetônico que se erguia sobre a m ais alta colina do bairro de

Lourdes. O auditório tinha as form as curvas de um m ata-borrão, a caixa-d’água

era um giz enorm e cravado no pátio e o prédio principal, um a extensa régua

flutuando sobre pilotis em form a de com passos abertos. Era cham ado Estadual

Central, para diferenciá-lo dos colégios estaduais “anexos”, criados na m esm a

época em cidades do interior e em pontos cardeais da capital.

Com cerca de dois m il alunos, rapazes na esm agadora m aioria, o Estadual

Central era o coração do m ovim ento estudantil secundarista, celeiro de quadros

da esquerda. Um lugar m uito especial para se transitar da adolescência à

j uventude, a porta para todas as descobertas: m úsica, literatura, cinem a, política,

paixão. Dilm a chegou ali em m arço de 1964, apenas duas sem anas antes do

golpe m ilitar. Ainda ecoavam no pátio as canções engaj adas de Vinicius de

Moraes e Carlos Ly ra, inspiradores dos universitários Edu Lobo e Chico Buarque.

Ainda sopravam ali os ventos do Cinem a Novo de Nelson Pereira dos Santos e

Glauber Rocha, do teatro de Oduvaldo Vianna Filho e Dias Gom es, da poesia de

João Cabral e Geir Cam pos. O Centro Popular de Cultura, o CPC da UNE, ainda

era a esquina onde todos se encontravam .

A Polop tinha pelo m enos um m ilitante de peso no Estadual Central, o

professor de Matem ática Badih Melhem , m as Dilm a j á conhecia Guido Rocha,

seu prim eiro líder, quando chegou à nova escola. Eram três as m eninas de sua

turm a do prim eiro ano: Dilm a, Sônia Lacerda e Marina Gontij o, que era da AP e

nam orava o Carlinhos Flex da pensão. Apolo Lisboa, dirigente estudantil na

Faculdade de Medicina da UFMG, recorda-se de ter aplicado a Dilm a a cartilha

do francês Politzer, m as foi Beto quem apresentou a ela o prim eiro texto do

próprio Karl Marx: “A acum ulação prim itiva”, capítulo de O capital que

descreve com o o sistem a aliena o hom em dos m eios de produção.

– Afinal, esse Marx é contra ou a favor dos trabalhadores? – ela se lem bra de

ter indagado ao term inar o texto difícil.

Dilm a sem pre teve grande capacidade de apreensão, m as Beto notou que “A

acum ulação prim itiva” era leitura precoce dem ais até para aquela garota

esperta. Muitos, m uitos anos depois, Dilm a seria capaz de elaborar um a síntese

sofisticada sobre a herança do filósofo alem ão: “A utopia criada por Marx é um

m undo superior, onde as pessoas não se relacionam por m eio dos obj etos.”

Superado aquele tropeço, Dilm a devorou o que havia disponível na literatura

brasileira m arxista (ou influenciada por Marx): Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de

Holanda, Celso Furtado. Um dia a secundarista surpreendeu Carlinhos com um a

citação de Althusser.

“Você anda lendo m uita orelha de livro, m enina”, ele ironizou. Carlinhos ficou

m ais surpreso ainda quando Dilm a apresentou a ele a biblioteca que tinha em

casa, para provar que lia o que citava.

Ler era um vício que se praticava coletivam ente, com o ir ao cinem a ou

frequentar determ inados bares para falar de livros, film es e revolução, nos dois

prim eiros anos depois do golpe. Os 43 cinem as que havia então em Belo

Horizonte não bastavam para a sede de film es daquela turm a. Dilm a, Sônia,

Marina e os colegas de turm a Ângelo Oswaldo e Ricardo Gom es Leite (que

Dilm a cham ava de Gom es Milk) frequentavam o Centro de Estudos

Cinem atográficos, o CEC, um a pequena sala no centro da cidade onde as sessões

term inavam em debates.

Quem não fosse cequiano estava sim plesm ente por fora em m atéria de

cinem a. Criado em 1951 e dirigido nos tem pos de Dilm a pelo crítico Ronaldo

Brandão, o CEC exibia os film es da vanguarda francesa, do neorrealism o

italiano, os clássicos am ericanos, os film es fora de circuito de Sergei Eisenstein e

Akira Kurosawa. Além de Cinem a Novo, é claro, com o detalhe luxuoso de

trazer os diretores para os debates. Dilm a guardou um a forte im pressão das

cenas finais de Deus e o Diabo na Terra do Sol , de Glauber Rocha, em que os

personagens dançam ao som das Bachianas no 5, de Villa-Lobos, na paisagem

árida do sertão nordestino. Foi num a sessão do CEC que ela descobriu Guim arães

Rosa, depois de ver A hora e a vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos,

baseado num conto de Sagarana. Artigos dos Cahiers du Cinéma, a revista

francesa de cinem a, circulavam com o bíblia entre os cequianos. Graças às aulas

de francês no Colégio Sion, Dilm a traduzia a revista para os am igos.

Todos eram especialistas, críticos, roteiristas, diretores em potencial e alguns

até seriam cineastas de verdade: Schubert Magalhães, Carlos Alberto Prates,

Helvécio Raton, Neville D’Alm eida e um rapaz baixinho de olhos claros e cabelo

enrolado. Cham ava-se Márcio Borges e m orava com a fam ília enorm e no

Edifício Levy, bem perto da pensão da Odete, onde Dilm a j á o tinha visto antes.

Vivia dividido entre a m úsica (andava com pondo com um j ovem parceiro, seu

vizinho Milton Nascim ento) e o cinem a (em placou um curta no Festival JB de

1967). Dilm a sapecou-lhe o apelido definitivo: Marcinho Godard. Ela era boa

nisso de arrum ar apelidos. Um a tarde Dilm a encontrou Godard no Parque

Municipal, escoltado pelo parceiro.

“Ô Bituca, m ostra pra ela nossa filha m ais nova”, ele pediu. Sentaram -se num

banco, Milton aj eitou o violão e cantou:

Hoje foi que a perdi, mas onde já nem sei...

Era a prim eira versão de Vera Cruz , canção que anos depois ganhou m ais

versos de Ronaldo Bastos e Elis Regina gravou.

Ah, quisera esquecer a moça que se foi

de nossa Vera Cruz.

Dilm a tam bém teve seu m om ento de cineasta. Ela participou de um roteiro

coletivo com m ilitantes da Polop: Galeno, Guido Rocha, Eid Ribeiro (futuro

diretor de teatro) e o secundarista José Aníbal Peres de Pontes (futuro deputado

do PSDB). Galeno fez a sinopse a partir de um a fantástica notícia de j ornal: um

acidente de ônibus num a ponte sobre o rio Paracatu. Os corpos de dezenas de

passageiros foram resgatados das águas do rio – m enos um , o do rem ador

Giordano Righetti. A m ãe passou dois anos buscando em vão pelo filho e relatos

de aparições do m isterioso afogado com eçaram a surgir nas duas m argens do

rio, às vezes sim ultâneos e sem pre im pressionantes. Com o se não faltasse

fantasia à história, Galeno criou um a personagem que esconde o j ovem

Giordano em casa e se apaixona por ele. Para o papel dessa viúva apaixonada, a

produtora Dilm a escalou tia Arilda – ela m esm a, que levava Dilm inha ao Cine

Pathé. O film e nunca foi concluído, m as tia Arilda atuou com Eid, Galeno e

Guido Rocha nas poucas cenas que foram rodadas.

O tem po do CEC foi tam bém o tem po do Dickson na m em ória daquela

geração. Ali pelos 25 anos, sem pre com um cigarro entre os dedos, Dickson do

Am aral Oliveira parecia aos m ais j ovens ter saído diretam ente de um livro de

Sartre (ou de um film e do verdadeiro Godard) para as ruas de Belo Horizonte,

carregando no sorriso irônico toda a experiência do m undo. Trabalhava na

Biblioteca Municipal, que em 1966 funcionava num cantinho do parque. A

biblioteca virou ponto de encontro nos fins de tarde, fim do expediente do Dickson

e com eço da ronda pelos bares. Havia o Seis às Seis, na praça Raul Soares, bar

de m úsicos: j azz e MPB instrum ental ao vivo, das seis da tarde às seis da m anhã.

Havia os bares de intelectuais, j ornalistas e artistas no Edifício Maletta:

Berim bau, Lua Nova, Cantina do Lucas, além dos inferninhos na sobreloj a, onde

Wagner Tiso, Toninho Horta e Milton Nascim ento, o futuro Clube da Esquina,

aprendiam a tocar na noite com m úsicos experientes com o o baterista Pascoal

Meirelles e o baixista Paulo Horta.

Houve tam bém o Bucheco (dizia-se Butchéco), num a sobreloj a da rua

Guaj aj aras, atrás da Faculdade de Direito. Tão acanhado que a freguesia tinha

de sentar-se na escadaria do prédio, por falta de m esas e cadeiras. Enquanto

existiu, por pouco m ais de um ano, foi m ilagrosam ente dirigido por Inês Etienne

Rom eu. Inês estudava Sociologia e era um a ativista apaixonada (o destino estava

reservando para ela um papel heroico na luta contra a ditadura). A organização

fornecia os discos, atraía os fregueses e arrecadava os lucros do Bucheco para

financiar a revolução, m as o bar de fachada não resistiu a duas ou três batidas

policiais e a Polop decidiu fechá-lo.

Dilm a não chegou a frequentar o Bucheco e esteve poucas vezes no Maletta.

Por volta de 1966, a organização orientou os m ilitantes a não se exporem nos

am bientes da “esquerda festiva” (perdeu, por isso, um quadro ou outro para a

boem ia). Era m ais fácil encontrá-la nos bares em torno do Parque Municipal,

entre os discípulos do Dickson. Para acom panhar a bebida, pediam um prato de

farinha e um vidrinho de m olho inglês. O bibliotecário existencialista ensinou-os a

despej ar tem pero sobre a farinha e pescar, com dois palitos, as bolotas escuras

que se j untavam no prato, o suficiente para quem se alim entava de sonhos.

Era um tem po de grandes m udanças no com portam ento dos j ovens e das

m ulheres, especialm ente. Não apenas no Brasil, m as em qualquer lugar onde se

popularizavam livros com o Escuta, Zé Ninguém!, do psicanalista alem ão Wilhelm

Reich, ou o Relatório Hite, sobre a vida sexual do am ericano m édio. Foi na

segunda m etade dos anos 60 que a pílula anticoncepcional ofereceu às m ulheres

a oportunidade de exercer m ais livrem ente a sexualidade. Isso num a época em

que Sartre entrava por um a porta no coração dos j ovens e o m ovim ento hippie

subia pela j anela.

Quando Dilm a entrou para a Polop, a principal atividade da organização ainda

era im prim ir m aterial considerado subversivo pelas autoridades, essencial para

form ar novos quadros, m obilizar e “educar o proletariado”. Para os quadros

politizados, Beto Freitas encaixava artigos na revista Mosaico, a publicação oficial

do diretório estudantil da UFMG. Para as m assas, Guido Rocha e o j ornalista

Regis Gonçalves faziam o j ornal O Piquete, que circulava clandestinam ente

entre operários da Mannesm ann, da Belgo-Mineira e de outras fábricas da

Cidade Industrial. Dilm a cuidava da im pressão clandestina de O Piquete e

adm irava o talento de Guido, que além de escrever ilustrava o j ornal.

Num a edição que Dilm a nunca esqueceu, Guido fez um a historinha satirizando

um encarregado (capataz) que infernizava a vida dos operários de um a seção da

Mannesm ann. Um estudante da Polop planej ou até cortar-lhe um a das orelhas.

Guido im pediu a selvageria e levou os operários à desforra, com a história que

ilustrava a letra de um sucesso de época dos Cantores de Ébano, m eio sam ba,

m eio ponto de m acum ba:

Eu estou ensinando pra suncê

Mas suncê num tem sido muito bão

Tem sido mau fio, mau marido

Inda puxa saco de patrão

Fez candonga de companheiro seu

Ele botou feitiço em suncê

...Ah mô fio do jeito que suncê tá

Só o hôme é que pode te ajudar.

O m áxim o que o pessoal da Polop se arriscava fazer, até 1966, além das

publicações clandestinas, era pichar os m uros da cidade com palavras de ordem

do tipo “Abaixo a ditadura”, “Fim do arrocho salarial”. Ainda não se achava

spray em qualquer quitanda, e o serviço era feito com baldes de tinta e bastões

de piche enrolados em j ornal. Nilm ário Miranda, secundarista que seria colega

de Dilm a na faculdade (depois na cadeia e no m inistério de Lula), gostava de

“redigir” sobre o m uro branco de um a casa de esquina na cidade vizinha de Sete

Lagoas. O dono da casa pintava o m uro para cobrir as pichações no m esm o dia

em que elas vinham à luz. Um a noite, Nilm ário caprichou no “Abaixo a

ditadura” e anotou no cantinho, em letras m enores, um recado para o zeloso

proprietário: “Desculpa, chefe, m as o m uro dos ricos é a im prensa dos pobres.”

A organização fazia finanças à base de m ensalidades, e Dilm a era um a das

responsáveis pelo carnê da revolução. Houve algum a renda do Bucheco e da

Livraria Prom ove, outra fachada da Polop que funcionava no sexto andar do

Edifício Maletta, m as nunca o suficiente. Em 1965, Cláudio Galeno valeu-se de

contatos no Rio para levar a Belo Horizonte o show Opinião, que fazia sucesso

com a força telúrica das m úsicas de João do Vale (Carcará, pega, mata e come/

Carcará, mais coragem do que homem) e dos sam bas engaj ados de Zé Keti

( Podem me prender, podem me bater/ Podem até deixar-me sem comer/ Que eu

não mudo de opinião/ Daqui do morro eu não saio, não).

Galeno conseguiu um a data para duas apresentações no Teatro Francisco

Nunes. Com o a estrela Maria Bethânia não iria, o título do show m udou para

Carcará – Em defesa da Música Popular Brasileira. Guido Rocha desenhou um

bonito cartaz e os m ilitantes venderam todos os ingressos. No teatro lotado (m ais

de 1.500 lugares) nem todo o público sabia que era um show “de finanças” da

Polop, m as a polícia desconfiou e um agente infiltrado fez um m inucioso

relatório daquela “atividade subversiva” para a Secretaria de Segurança.

Ao fim da prim eira apresentação, um fã carregou João do Vale para o boteco

m ais próxim o, de onde só sairiam no dia seguinte. Sob o risco de ter de devolver

os ingressos, Carlinhos Flex im provisou a segunda sessão com Zé Keti, reforçado

por Pascoal Meirelles na bateria e, no violão, o tal Bituca, o am igo do Marcinho

Godard. Aquela foi a prim eira apresentação de Milton Nascim ento no palco.

Cantou Morro Velho e Canção do sal, futuros sucessos, e garantiu a renda da

noite, que a Polop usou para com prar um m im eógrafo.

No final de 1966, com a organização de novo sem dinheiro, Beto Soares de

Freitas selecionou uns versos da MPB – Torquato Neto, Geraldo Vandré, Chico

Buarque – e pediu para Guido Rocha ilustrar com uns desenhos abstratos.

Surgiram assim os cartões de Natal m ais increm entados que a cidade j á tinha

visto. Nada podia ser m enos revolucionário (e m ais constrangedor para um a

m oça de classe m édia) do que vender cartões de Natal na porta das loj as do

centro da cidade, m as Dilm a cum priu a tarefa. Tudo pela causa...

O circuito bar-escola-cinem a fazia Belo Horizonte caber na palm a da m ão,

apesar dos m ais de 800 m il habitantes com que contava no fim dos anos 60, j á

então a terceira cidade do país. Todo m undo conhecia todo m undo de algum

lugar nos universos gêm eos da política e das artes. Os quadros m ais im portantes

da organização – Dilm a em pouco tem po estava nesse grupo – tinham de se

proteger. Beto, que tinha sido preso pichando m uros, foi m orar escondido na casa

de José Aníbal, que tam bém em prestava seu fusca verde para as m issões da

organização.

Difícil era conter o ím peto dos universitários, cada vez m ais inquietos e

num erosos na base da Polop. Universitários e secundaristas de Belo Horizonte

foram os responsáveis, em 1965, pela prim eira passeata contra a ditadura no

país. Foi um protesto contra o envio de tropas brasileiras para sustentar o golpe de

direita na República Dom inicana. Hegem ônicas no Rio e em São Paulo, a AP e

as dissidências do PCB tinham de disputar com a Polop a direção do m ovim ento

estudantil em Minas. O núcleo m ais forte era o da Faculdade de Medicina, onde

Apolo Lisboa recrutou, entre outros, o casal de noivos Jorge e Maria José Nahas e

o calouro Ângelo Pezzuti, que trouxe consigo o irm ão m ais novo, Murilo Silva, e a

m ãe dos dois, Carm ela Pezzuti. Bonita, desquitada e independente, Carm ela era

secretária no gabinete do governador Israel Pinheiro. Prisão, tortura e exílio

seriam o destino dos Nahas e dos Pezzuti. De todos, sem exceção.

Apolo Lisboa tinha sido preso pela prim eira vez depois de um a ocupação da

faculdade, em m aio de 1964. Meses depois, virou notícia de novo, agora com o

cam peão da etapa m ineira do Concurso Nacional de Bíblia. Prim ogênito entre os

12 filhos de um pastor presbiteriano, Apolo sabia de cor a linhagem dos profetas

do Antigo Testam ento, os salm os do Rei Davi e os nom es de cada um dos m uitos

filhos do Rei Salom ão. Ele guardou na m em ória a nota irônica de um j ornal da

época, algo na linha “A polícia prendeu com o subversivo um rapaz que j á leu a

Bíblia cinco vezes”. Dilm a guardou a lem brança da com em oração na casa do

pastor, onde a vanguarda do proletariado foi recebida com lim onada e Ki-Suco.

O tem po de rebeldia quase inocente ia ficando cada vez m ais distante.

Quando entrou para a Faculdade de Ciências Econôm icas da UFMG, em 1967,

Dilm a acom panhava discretam ente o m ovim ento estudantil, apesar da tentação

das passeatas. Ela continuava no setor de im prensa da Polop, que iria educar o

novo proletariado se a vida corresse conform e os planos da organização. Galeno

trabalhava com o repórter na Última Hora, convidado por Guido Rocha, e o casal

devia se m anter longe de confusões. Faltou com binar com os dois professores

italianos convidados para o encerram ento de um festival de cinem a, um coquetel

na galeria de arte Guignard. No m eio da festa os italianos deram pelo sum iço de

um livro que traziam , o roteiro do film e Os companheiros, de Mario Monicelli.

Roteiros eram pequenos tesouros naquele tem po. Márcio Borges nunca se

esqueceu, por exem plo, da tarde em que Dilm a e Marina Gontij o foram visitá-lo

no apartam ento do Edifício Levy, quando convalescia de um acidente quase

fatal. Elas levaram de presente o roteiro de Marguerite Duras para o film e

Hiroshima meu amor, de Alain Resnais, que o Dickson tinha copiado para ele à

m ão, cena por cena. Aquilo, sim , era um a prova de am izade.

Pois lá na galeria os italianos avisaram que não voltariam para casa sem o

precioso livro. O tem po fechou no festival. Dilm a e Galeno não tinham nada a

ver com o sum iço e decidiram sair daquele princípio de confusão, m as qual!

“Daqui só sai depois que eu revistar”, gritou um suj eito na porta, m ãos

estendidas em direção a Dilm a.

Antes que Galeno pudesse reagir, o pé esquerdo de Carlinhos Flex alcançou o

peito do atrevido. Socos pra lá e pra cá, sirene de radiopatrulha, corre-corre.

Quando Carlinhos deu por si, estava escondido no banheiro ao lado de seu

contendor, am bos com os punhos feridos, esperando a barra lim par para sair dali.

Dilm a e Galeno j á estavam longe. Naquela altura, tinham m otivos m ais sérios

para evitar a polícia.

capítulo 4

A revolução tem pressa, companheiro

A velocidade do m undo com eçou a m udar m ais ou m enos quando Dilm a e

Galeno se casaram , em setem bro de 1967. A cerim ônia, presidida por um j uiz de

paz, foi num cartório no centro da cidade, para onde tinha se m udado a fam ília

da noiva. Fizeram um a recepção para os am igos m ais próxim os, m ilitantes da

Polop, alunos da Faculdade de Econom ia e colegas da redação do j ornal. Era um

dia de sem ana com um e Dilm a com pareceu às aulas na faculdade, pela m anhã,

j á com o vestido verde-água que usou para se casar. Tinha 19 anos e calçava