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A Vida Sexual de Catherine M. por Catherine Millet - Versão HTML

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A Vida Sexual de Catherine M.

Catherine Millet

Copyright 2001 Editora Ediouro 3- edição

O Número

Quando criança, eu era muito preocupada com os números. A lembrança que

guardamos dos pensamentos ou das ações solitárias é muito clara: são as primeiras

chances dadas à consciência de se mostrar a si mesma. Os acontecimentos

compartilhados, por outro lado, permanecem presos à incerteza dos sentimentos que

os outros nos inspiram (admiração, medo, amor ou aversão) e que, quando crianças,

somos ainda menos aptos a enfrentar e mesmo compreender do que na idade adulta.

Lembro-me, então, particularmente dos pensamentos que, toda noite antes de

adormecer, me aliciavam para uma escrupulosa ocupação de contagem.

Pouco tempo depois do nascimento de meu irmão (eu tinha então três anos e

meio), minha família mudou-se para um novo apartamento. Durante os primeiros anos

em que moramos lá, minha cama ficava no cômodo maior, diante da porta. Olhando

fixamente para a luz que vinha da cozinha, do outro lado do corredor, onde minha mãe

e minha avó ainda trabalhavam, eu não conseguia conciliar o sono enquanto não

tivesse considerado, em seqüência, várias questões. Uma delas dizia respeito ao fato

de alguém ter muitos maridos. Não pensava sobre a possibilidade de que tal situação

existisse, o que me parecia óbvio, mas, evidentemente, sobre suas condições.

Uma mulher poderia ter muitos maridos ao mesmo tempo ou apenas um depois

do outro? Neste caso, quanto tempo deveria ficar casada com um antes de poder

trocar por outro? Quantos maridos ela "razoavelmente" poderia ter: alguns, cinco ou

seis, ou um número muito maior, ilimitado? Como eu agiria quando crescesse? Com o

passar dos anos, a contagem de maridos foi substituída pela contagem de filhos. Acho

que me sentia menos vulnerável à incerteza quando fixava meus devaneios nos traços

de um homem identificado (atores de cinema, um primo alemão etc.), com quem me

encontrava sob o signo da sedução.

Imaginava assim, de maneira mais concreta, minha vida de mulher casada e,

portanto, a presença de crianças.

Colocavam-se novamente as mesmas perguntas: seis era um número razoável ou

se poderia ter mais? Que diferença de idade poderia haver entre eles? Acrescentava-se

a divisão entre meninas e meninos.

Não posso rememorar esses pensamentos sem ligá-los a outras obsessões que

também me ocupavam.

Na relação que eu tinha estabelecido com Deus, todas as noites ocupava-me com

Sua alimentação e com a enumeração dos pratos e dos copos d'água que eu, em

pensamento, Lhe servia — preocupada com a quantidade certa, com o ritmo da

transmissão etc. Esta obsessão se alternava com as interrogações sobre o

preenchimento de minha vida futura com maridos e filhos.

Eu era muito religiosa, e é possível que a confusão na qual eu percebia a

identidade de Deus e de Seu filho tenha favorecido minha inclinação pela atividade de

contagem.

Deus era a voz soante que, sem mostrar o rosto, lembrava a ordem aos homens.

Mas tinham me ensinado que Ele era também o boneco de gesso rosa que eu colocava

todo ano no presépio, o infeliz pregado na cruz diante do qual rezávamos — apesar de

um e outro serem também Seu filho —, da mesma maneira que uma espécie de

fantasma se chamava Espírito Santo.

Enfim, eu sabia muito bem que José era o marido da Virgem e que Jesus, sendo

Deus e filho de Deus, O chamava de "Pai". A Virgem era não apenas a mãe de Deus,

mas dizia-se também Sua filha.

Um dia, quando cheguei à idade de freqüentar o catecismo, quis ter uma

conversa com um padre. Meu problema era o seguinte: eu queria me tornar religiosa,

"casar com Deus" e ser missionária numa Africa onde pululavam povos desprovidos,

mas desejava também ter maridos e filhos. O padre era um homem lacônico, e

interrompeu a conversa, julgando minha preocupação prematura.

Até que nascesse a idéia deste livro, nunca havia pensado muito sobre minha

sexualidade. Tinha, no entanto, consciência das múltiplas relações precoces que vivi, o

que é pouco costumeiro, sobretudo para meninas, pelo menos no meio em que cresci.

Deixei de ser virgem aos dezoito anos — que não é especialmente cedo —, mas

participei de uma suruba pela primeira vez nas semanas que se seguiram a minha

defloração.

Evidentemente, não tomei a iniciativa da situação, mas fui eu quem a precipitou,

o que aos meus próprios olhos permanece um fato inexplicado.

Sempre considerei que as circunstâncias puseram em meu caminho homens que

gostavam de transar em grupo ou de observar sua parceira com outros homens. A

única idéia que eu tinha a esse respeito era que, sendo naturalmente aberta às

experiências e não vendo nelas nenhum entrave moral, tinha, de boa vontade, me

adaptado a elas. Mas delas nunca fiz nenhuma teoria e, portanto, nenhuma militância.

Éramos três rapazes e duas moças e acabávamos de jantar no jardim de uma

casa, situada numa colina acima de Lyon.

Eu viera de Paris visitar um rapaz que tinha conhecido em Londres um pouco

antes, e aproveitara a carona do namorado de uma amiga, André, que era de Lyon. Na

estrada, pedi que parasse para eu fazer xixi. Quando estava agachada, ele veio

observar e me acariciar. Não foi desagradável, mas fiquei um pouco envergonhada. Foi,

talvez, naquele momento que aprendi a me livrar deste tipo de embaraço mergulhando

meu rosto entre as pernas do homem, pegando seu pau com a boca.

Chegando a Lyon, André e eu nos instalamos na casa de uns amigos dele, Ringo e

uma mulher mais velha, que era a dona da casa. Como ela estava fora, os rapazes

aproveitaram para fazer uma festa.

Chegou outro rapaz, acompanhado de uma moça, alta, de cabelos muito curtos e

grossos, um pouco masculina.

Era junho ou julho, fazia calor e alguém sugeriu que tirássemos a roupa e

mergulhássemos juntos numa grande fonte que ficava no jardim. Eu já passava a

camiseta pela cabeça quando escutei a voz de André, um pouco abafada, exclamando

que sua "namorada" não seria a última a mergulhar.

Há muito tempo não usava mais roupas de baixo (apesar de minha mãe ter me

obrigado a usar, desde os treze ou quatorze anos, sutiã e cinta-liga com o pretexto de

que uma mulher "devia ter postura"). O fato é que, imediatamente, fiquei quase nua.

A outra moça começou também a tirar a roupa e, é claro, ninguém entrou na

água. O jardim era devassado e, por essa razão, as imagens que lembro em seguida são

as do quarto, eu na concavidade de uma cama alta de ferro forjado vendo, através das

barras, apenas as paredes muito ilumina das, imaginando a outra moça estirada sobre

um divã num canto.

André foi o primeiro a me comer, demorada e tranqüílamente como costumava

fazer. Em seguida, interrompeu bruscamente.

Uma inefável inquietação tomou conta de mim, no tempo justo de vê-lo

afastarse, andando lentamente, os quadris curvados, em direção a outra moça. Ringo

veio substitui-lo em cima de mim, enquanto o terceiro rapaz, que era mais reservado e

falava menos que os outros, acotovelado perto de nós, passava a mão livre sobre a

parte superior do meu corpo. O corpo de Ringo era muito diferente do de André, e eu

gostava mais dele. Ringo era maior, mais nervoso, era desses que separam o

movimento da bacia do resto do corpo, que metem sem se deitar totalmente, o tronco

sustentado pelos braços. Mas André me parecia um homem mais maduro (de fato,

mais velho, ele tinha lutado na Argélia), sua carne era um pouco mais flácida e seus

cabelos já um pouco ralos, e eu achava agradável adormecer enroscada nele, com as

nádegas coladas em sua barriga, dizendo-lhe que eu tinha as medidas certas para

aquilo.

Ringo se retirou e o rapaz, que antes apenas observava e me acariciava, tomou o

lugar dele. Eu estava há algum tempo com uma terrível vontade de urinar. Tive de ir ao

banheiro e o rapaz tímido ficou desapontado. Quando voltei, ele estava com a outra

menina. André ou Ringo, já não lembro mais, teve o cuidado de me dizer que ele tinha

ido apenas "finalizar com ela".

Fiquei cerca de duas semanas em Lyon. Meus amigos trabalhavam durante o dia

e eu passava as tardes com o estudante que havia conhecido em Londres.

Quando seus pais estavam ausentes, deitava-me em sua cama e ele sobre mim,

muito atenta para não acabar batendo com a cabeça na estante que circundava a

cama. Eu não tinha ainda muita experiência, mas percebia que ele era ainda mais

desajeitado do que eu pela maneira como deslizava furtivamente seu sexo ainda

flácido e pouco úmido em minha vagina, e pela forma como logo afundava o rosto em

meu pescoço. Ele devia estar seriamente intrigado com o que deveriam ser as

sensações de uma mulher quando me perguntou se o esperma quando lançado nas

paredes da vagina proporcionava algum tipo de prazer específico. Fiquei

desconcertada. Se eu mal sentia a penetração, como poderia sentir uma pequena

gosma viscosa se espalhando dentro de mim! "É mesmo curioso, nenhuma sensação a

mais?" "Não, nenhuma." Ele estava mais preocupado do que eu.

No final da tarde, o pequeno grupo de amigos vinha me esperar no cais onde a

rua desembocava. Eles eram alegres e, um dia, observando-os, o pai do estudante

afirmou de uma maneira simpática que eu devia ser uma puta de uma garota para ter

todos aqueles rapazes à minha disposição. Para falar a verdade, eu não fazia mais

contas. Tinha esquecido completamente minhas interrogações infantis sobre o número

permitido de maridos. Eu não era mais uma "colecionadora", e os rapazes e as moças

que eu via flertando nas festassurpresas (quer dizer, se amassando e beijando até

perder o fôlego) com o maior número de pessoas para, no dia seguinte, contar

vantagem na escola, me chocavam. Contentava-me em descobrir que este

desfalecimento voluptuoso, experimentado no contato com a inefável doçura de todos

os lábios estranhos ou quando uma mão se colava em meu púbis, podia se renovar

infinitamente, pois confirmava-se que o mundo estava cheio de homens dispostos a

isto. O resto me era indiferente.

Pouco tempo antes de tudo isso, eu quase tinha sido deflorada por um rapaz que

me provocara uma forte impressão, ele tinha o rosto um pouco flácido, lábios imensos

e cabelos negríssimos. Enfiando sua mão sob meu pulôver, ele percorreu uma

superfície extensa do meu corpo, ao mesmo tempo que esticava a borda da calcinha

até quase me cortar a virilha.

Assim foi a primeira vez que me senti tomada pelo prazer. Ele ainda me

perguntou se eu "queria mais". Eu não tinha nenhuma idéia do que ele estava

querendo dizer, mas eu disse que não, porque não imaginava o que podia acontecer

além daquilo.

Aliás, interrompi a experiência e, apesar de nos reencontrar-mos regularmente

nas férias, não pensei em repeti-la.

Não estava também muito preocupada em sair com alguém, nem com alguns.

Por duas vezes, estive apaixonada por homens com quem as relações fisicas não

eram, em princípio, permitidas.

O primeiro tinha acabado de se casar e, de qualquer forma, não manifestava

nenhum interesse por mim, e o segundo morava longe, não fazia, portanto, questão de

ter um namorado.

O estudante era muito insípido, André era quase noivo de minha amiga, e Ringo

vivia com uma mulher.

Em Paris, tinha Claude, o amigo com quem fiz amor pela primeira vez, que

parecia estar apaixonado por uma jovem burguesa capaz de lhe dizer frases poéticas

do tipo "veja como meus seios estão doces esta noite", sem permitir que ele fosse mais

longe.

Comecei imediata e confusamente a compreender que eu não pertencia ao grupo

das mulheres sedutoras e que, conseqüentemente, meu lugar no mundo era mais ao

lado dos homens do que diante dos homens.

Nada me impedia de simplesmente renovar a experiência de aspirar uma saliva

cujo gosto é completamente diferente, de apertar em minhas mãos, sem ver um objeto

sempre inesperado.

Claude tinha um belo pau, reto, bem proporcionado, e as primeiras trepadas me

deixaram na lembrança um tipo de entorpecimento,como se eu tivesse ficado

intumescida e obturada por ele.

Quando André abriu a braguilha na altura do meu rosto, fiquei surpreendida ao

descobrir um objeto menor e também mais maleável porque, ao contrário de Claude,

ele não era circuncidado.

O pau com a cabeça imediatamente à mostra se dirige ao olhar e provoca

excitação por sua aparência de monolito liso, enquanto o vai-e-vem do prepúcio,

revelando a glande como se fosse uma grande bolha de sabão na superfície da água,

suscita uma sensualidade mais fina, sua flexibilidade se propagando em ondas até o

orifício do corpo do parceiro. O pau de Ringo era mais do tipo do de Claude, o do rapaz

tímido mais como o de André, e o do estudante pertencia a uma categoria que eu só

reconheceria mais tarde, a dos que, sem ser particularmente grandes, proporcionam à

mão uma imediata sensação de consistência, talvez em razão de uma camada cutânea

mais densa. Eu aprendia que cada sexo suscitava de minha parte gestos e até

comportamentos diferentes. Da mesma maneira que, a cada vez, era necessário

adaptar-me a outra epiderme, outra carnadura, outra pilosidade, outra musculatura

(não é preciso dizer, por exemplo, que a maneira de agarrar um tronco que nos cobre

varia segundo sua conformação: ele pode ser liso como uma pedra, pesado e com

algum veio ou ainda os que impedem a visão da genitália. É, também, evidente que

estas visões não repercutem no imaginário da mesma forma, e, assim,

retrospectivamente, parece que minha tendência era de ser mais submissa aos corpos

mais magros, como se eu os considerasse verdadeiramente machos, enquanto tinha

mais iniciativa com os corpos mais pesados que eu feminizava, qualquer que fosse seu

tamanho); a compleição característica de cada corpo parecia me induzir a atitudes

próprias.

Guardo a lembrança agradável de um corpo nervoso, com uma vara afilada

golpeando apenas minha bunda a distância, com as mãos sustentando minhas ancas,

sem que praticamente nenhuma outra parte do meu corpo fosse tocada.

Inversamente, homens gordos, apesar de me atraírem, me incomodavam quando

se esparramavam sobre mim e, sem que eu procurasse me desvencilhar,combinavam

comportamento e corpulência, com uma tendência a beijocar e lamber. Enfim, entrei

na vida sexual adulta como uma menina, abismava-me às cegas no túnel do trem-

fantasma pelo prazer de ser sacudida e apanhada por acaso. Ou melhor, pelo prazer de

ser engolida como uma rã por uma serpente.

Alguns dias depois de minha volta a Paris, André mandou uma carta para me

prevenir, com tato, que todos nós provavelmente havíamos pegado uma gonorréia.

Minha mãe abriu o envelope. Mandaram-me ao médico e proibiram que eu saísse.

Mas, a partir daí, o pudor de que meus pais pudessem me imaginar transando tornou-

se extremamente intransigente e não me permitiu continuar a suportar a coabitação

com eles. Fugi e fui recapturada. Finalmente, deixei de viver definitivamente com eles

para viver com Claude. A gonorréia tinha sido meu batismo e, depois, durante anos,

vivi obcecada por aquela ruptura que, no entanto, me parecia ser uma espécie de

marca distintiva, uma espécie de fatalidade compartilhada pelos que trepam muito.

"Como um caroço..." Nas maiores surubas que participei, nos anos seguintes, era

possível encontrar algumas vezes até cento e cinqüenta pessoas (nem todas trepavam,

algumas iam apenas para observar), e com um quarto ou um quinto delas eu fazia sexo

de várias maneiras: com as mãos, com a boca, na boceta e no rabo. Acontecia de beijar

e trocar carícias com outras mulheres, mas isso era muito secundário.

Nos clubes, a quantidade era mais variável certamente em função dos

participantes, é claro, mas também dos hábitos do lugar — retomarei a questão mais

adiante. Para as noites passadas no bosque de Boulogne', a estimativa seria ainda mais

difícil de ser feita: devo considerar apenas os homens que chupei com a cabeça

comprimida contra o volante dos carros, ou aqueles com quem mal tive tempo de tirar

a roupa dentro da cabine de um caminhão, e não levar em conta os corpos sem cabeça

que se alternavam do lado de fora da porta do carro, sacudindo com mãos loucas

cacetes em vários estágios de ereção, enquanto outras mãos mergulhavam pelo vidro

aberto para massagear energicamente meus peitos? Hoje, sou capaz de contabilizar

quarenta e nove homens que me penetraram e aos quais posso atribuir um nome, ou,

pelo menos, em alguns casos, uma identidade. Mas não posso incluir nos cálculos os

que se perderam no anonimato.

Nas circunstâncias que evoco aqui e também nas surubas quando havia pessoas

que eu conhecia ou reconhecia, o encadeamento e a confusão dos amassos e das

trepadas eram tais que, se era possível distinguir corpos, ou ainda seus atributos, nem

sempre era possível distinguir as pessoas. E mesmo quando evoco atributos, devo

confessar que não tinha sempre acesso a todos eles; certos contatos são muito

efêmeros e, se muitas vezes podia, de olhos fechados, reconhecer uma mulher pela

doçura de seus lábios, não poderia necessariamente reconhecê-la pelos toques que,

eventualmente, podiam ser muito enérgicos. Já aconteceu de me dar conta apenas

bem depois de estar há algum tempo trocando carícias com um travesti. Estava

entregue a uma hidra até que Éric se separasse do grupo para me soltar, como, ele

mesmo disse, "como um caroço da fruta".

Conheci Éric aos vinte e um anos, depois de ele ter-me sido "anunciado", várias

vezes, por amigos comuns que estavam certos de que, considerando meus gostos, ele

seria, sem dúvida, um homem que eu deveria encontrar.

Depois das férias em Lyon, eu e Claude tínhamos continuado a ter relações

sexuais em grupo. Com Éric, o regime se intensificou, não somente porque ele me

levava a lugares onde eu poderia me entregar a um número incalculável de mãos e de

cacetes, mas sobretudo porque as sessões eram realmente organizadas.

Sempre estabeleci uma diferença clara entre as circunstâncias mais ou menos

improvisadas que levam os convidados, depois de um jantar, a se redistribuir em sofás

e camas à sua volta, ou as que fazem um grupo animado dar voltas de carro na porta

Dauphine, até estabelecer contato com os passageiros de outros carros e acabar todos

juntos num grande apartamento, e as noitadas organizadas por Éric e seus amigos. Eu

preferia o inflexível desenrolar destas últimas e seu objetivo único: não havia

precipitação nem crispação, nenhum fator estranho (álcool, comportamento

exibicionista...) emperrava a mecânica dos corpos. As idas e vindas jamais se afastavam

de uma determinação de insetos.

As festas de aniversário de Victor eram as que mais me impressionavam. Na

entrada, seguranças com cães falavam em walkie-talkies e a multidão me intimidava.

Algumas mulheres vestiam-se para a ocasião com roupas transparentes que eu

inveJava e, enquanto as pessoas chegavam e se reencontravam tomando champanhe,

eu me mantinha à parte. Só me sentia à vontade quando tirava o vestido ou a calça.

Minha nudez era a roupa que verdadeiramente me protegia.

A arquitetura do lugar me divertia porque parecia uma butique da moda, La

Gaminerie, que ficava no bulevar Saint-Germain. Era uma gruta, maior do que a

butique, com cavidades de estuque branco. Nos reuníamos no subsolo e a iluminação

vinha do fundo de uma piscina que ficava diretamente sobre a gruta. Através do fundo

de vidro, como em uma imensa tela de televisão, assistíamos a evolução dos corpos

que mergulhavam na piscina na parte de cima. Descrevo um lugar no qual não

costumava me deslocar muito. A escala das coisas tinha mudado a minha volta, mas a

situação não era muito diferente do que tinha sido em minha primeira vez com meus

amigos de Lyon.

Éric me instalava sobre uma das camas ou sofás colocados nas alcovas e,

seguindo um ritual informal, tomava a iniciativa de tirar minha roupa e de me deixar

exposta. Ele geralmente começava a me acariciar e a me beijar, sendo imediatamente

substituído por outros. Eu ficava quase sempre deitada de costas, talvez porque outra

posição mais comum, em que a mulher monta ativamente no homem, não permite a

participação de várias pessoas e acaba implicando uma relação mais pessoal entre os

parceiros. Deitada, eu podia ser acariciada por muitos homens enquanto um deles, de

pé, para aumentar o espaço de observação, se satisfazia no meu sexo. Eu era

manipulada por partes; uma mão estimulava a parte mais acessível de meu púbis com

movimentos circulares, outra roçava meu dorso ou esfregava meus mamilos...

Mais até do que as penetrações, as carícias me proporcionavam muito prazer,

principalmente as picas que passeavam na superfície do meu rosto ou as glandes

esfregadas nos meus seios.

Eu adorava segurar de passagem uma com a boca, fazê-la ir e vir entre meus

lábios enquanto outra reclamava minha boca do outro lado, roçando em meu pescoço

esticado para, logo depois, virar a cabeça e pegar a recém-chegada.

Ou ter uma na boca e outra na mão. Meu corpo entregava-se mais sob o efeito

desses toques, de sua relativa brevidade e de sua renovação, do que nas trepadas. A

propósito, lembro-me sobretudo da ancilose entre minhas coxas, às vezes depois de

quase quatro horas de atividade, provocada pela preferência de muitos homens em

manter as coxas das mulheres muito abertas, para simultaneamente aproveitar a visão

e meter mais fundo. Quando conseguia descansar, tomava consciência do

entorpecimento de minha vagina. Era uma volúpia sentir as paredes enrijecidas,

pesadas, um pouco doloridas, guardando, de certa forma, a marca de todos os

membros que nela se alojaram.

Este lugar de aranha ativa no meio de sua teia me convinha. Uma vez, não na

casa de Victor, mas numa sauna da praça Clichy, encontrei-me na situação de não sair,

praticamente durante toda a noite, do fundo de um grande sofá, mesmo havendo uma

cama imensa que ocupava o centro da sala. Com a cabeça na altura certa, eu podia

chupar quem se apresentasse ao mesmo tempo que, apoiada nos braços do sofá,

estimulava até dois sexos ao mesmo tempo. Mantinha minhas pernas bastante

levantadas para que os que ficassem suficientemente excitados viessem, um depois do

outro, continuar em minha boceta.

Transpiro muito pouco, mas, às vezes, ficava inundada com o suor dos meus

parceiros. Aliás, havia sempre filetes de esperma secando no alto das coxas, às vezes

nos seios ou no rosto, e até mesmo nos cabelos.

Aliás, os homens que costumam fazer surubas gostam muito de esporrar em uma

boceta quando ela já está forrada de bastante porra. De tempos em tempos, com o

pretexto de ir ao banheiro, conseguia cair fora do grupo e me lavar A casa de Victor

tinha um banheiro com uma luz azulada suficientemente clara sem ser agressiva. Um

espelho acima da banheira ocupava toda a parede, e a imagem profunda e fundida que

ele refletia tomava a atmosfera ainda mais doce. Costumava ficar observando meu

corpo, espantada ao constatar que ele era mais miúdo do que eu suspeitava ser alguns

minutos antes.

Naquele banheiro havia espaço para trocas mais tranqüilas. Sempre havia alguém

para me cumprimentar pela cor morena de minha pele e pelo meu savoir-faire no uso

da boca — comentários que eu usufruía melhor ali do que quando estava enterrada no

sofá, e ouvia, como se fosse muito longe, um grupo trocar impressões sobre mim,

como um doente percebendo através do torpor a conversa de médicos e internos na

ronda de leito em leito.

Jato d'água em minha xoxota aberta e entorpecida. Era raro que aquele que

vinha ao banheiro para uma pausa não aproveitasse do momento em que eu me

agachava no bidê, para agitar nos meus lábios a pica já quase flácida mas sempre

disposta. E, muitas vezes, apenas refrescada, de pé, as mãos nas bordas do lavabo,

ofereci minha vulva à pressão cada vez mais determinada de um sexo que finalmente

conseguia ainda dar mais uma bombada. Um dos meus maiores prazeres é o que

proporciona um sexo que desliza por entre os grandes lábios e vai ficando firme,

descolando progressivamente um lábio do outro, antes de engolfar-se num espaço que

fui paulatinamente sentindo se abrir.

Nunca fui vítima de um gesto desajeitado ou brutal; pelo contrário, sempre fui

objeto de cuidado e atenção. Se estava cansada ou se a posição se tornava

desconfortável, bastava que eu comunicasse, por intermédio de Éric (que sempre

estava por perto), para que me deixassem descansar ou me levantar.

De fato, a gentileza sem insistência, quase indiferente, que me rodeava nas

surubas, convinha perfeitamente à mulher muito jovem que eu era, gauche em suas

relações com o outro. A população do bosque de Boulogne era mais heterogênea —

também do ponto de vista social — e parece-me que, neste caso, devo ter tido

relações com homens mais tímidos ainda que eu. Via poucos rostos, mas cruzei com

olhares que me examinavam com uma espécie de expectativa, alguns até mesmo com

espanto. Havia os freqüentadores que conheciam os lugares, organizavam rapidamente

o desenrolar das coisas, outros cuja presença era mais furtiva, e também aqueles que

observavam sem participar.

Por mais que a situação e os protagonistas sempre mudassem, e Éric se

empenhasse em sua renovação — eu o acompanhava sempre com um pouco de

apreensão —, meu prazer era, paradoxalmente, o de reencontrar relações familiares

nessas circunstâncias desconhecidas.

Lembro de um episódio surpreendente. Encontrei lugar em um banco de cimento

particularmente rugoso e granulado. Formou-se um grupo: de ambos os lados de

minha cabeça três ou quatro homens se aproximavam para ser chupados, mas eu podia

perceber de viés um segundo círculo formado pelo vai-e-vem claro de mãos

movimentando picas, que pareciam molas vibrando.

Atrás, havia ainda algumas sombras atentas. No momento em que minhas roupas

começavam a ser arregaçadas, ouviu-se o estrépito de um acidente de carro. Largaram-

me. Estávamos num desses pequenos bosques ao longo do bulevar de l'Amiral-Bruix,

perto da porta Maillot. Depois de algum tempo fui me juntar ao grupo que observava

da entrada, por entre as sebes. De um Mini Austin saía uma faixa luminosa bem no

meio da avenida. Alguém disse que havia uma mulher jovem dentro dele. Um

cachorrinho aflito corria em todas as direções. A faixa luminosa e os faróis ligados do

carro formavam uma estranha mistura de luzes amarelas e brancas.

Sem prestar muita atenção as sirenes dos caminhões de socorro, reocupei o

banco. E, como se o espaço do bosque fosse elástico, o círculo se refez e os atores

retomaram a cena no ponto em que tinha sido interrompida. Algumas palavras foram

trocadas, a visão do acidente fazia repentinamente sobressair o laço até então mudo

entre as pessoas, e eu reencontrava minha efêmera pequena comunidade,

inteiramente cúmplice na realização de sua atividade particular; Eu adorava me

introduzir nas raras trocas de propostas e nos gestos ou atitudes ordinárias, que, no

bosque de Boulogne, ao mesmo tempo, temperam e colocam em relevo os encontros

extraordinários. Uma noite em que a porta Dauphine estava quase deserta, vimos

contra a luz dos faróis do carro dois homens, muito altos, negros, parados na beira da

calçada. Tinham o ar de duas pessoas desgarradas, ou que, num subúrbio desolado,

esperam um improvável ônibus. Eles nos levaram a um pequeno quarto perto dali. O

cômodo e a cama eram estreitos. Comeram-me um depois do outro. Enquanto um

deles me cobria, o outro ficava sentado no canto da cama sem intervir. Ele

simplesmente observava. Tinham movimentos muito lentos, pirocas grandes como

nunca havia visto, não muito grossas, que penetravam fundo sem que eu tivesse de

abrir muito as pernas. Eram como gêmeos. Dois contatos que se encadearam nas

carícias sem precipitação. Eles me tocavam com precisão e, em troca, era maravilhoso

usufruir da imensa superfície de pele que me ofereciam. Acredito que, naquela vez,

pude sentir toda a intensidade de uma penetração realmente paciente.

Enquanto me vestia, eles conversavam com Éric sobre os hábitos do bosque de

Boulogne e sobre o trabalho como cozinheiros. Quando os deixamos, me agradeceram

com a justeza de anfitriões sinceros, e a lembrança que guardo deles é marca de

afeição.

No Chez Aimé, as relações entre as pessoas tinham menos civilidade. O "Aimé"

era um clube de trocas de casais muito concorrido. Vinha-se de muito longe, às vezes

do exterior, para freqüentá-lo. Anos após seu fechamento, eu ainda me espantava

como uma provinciana quando Eric enumerava o nome das personalidades, artistas de

cinema, da música popular e do esporte, homens de negócios que eu poderia ter

conhecido lá sem ter aberto suficientemente os olhos para reconhecê-los.

Nos anos em que o freqüentávamos, estreou um filme que parodiava alguns

aspectos da liberação sexual e uma cena se passava num clube parecido com o Chez

Aimé: via-se um grupo de homens se comprimindo em volta de uma mesa onde havia

uma mulher deitada, de quem só era possível distinguir as pernas calçadas com botas

que se agitavam comicamente acima das cabeças.

Com efeito, naquela época, as botas de cavaleiro estavam na moda, eu as usava

e, por serem difíceis de tirar, tinha o hábito de ficar com elas mesmo não tendo nada

sobre o corpo. E mais de uma vez, deitada sobre uma mesa, as exibi da mesma maneira

que no filme. Tive, então, a vaidade de supor que meu traje minimalista e meus

movimentos no ar tinham influenciado a imaginação do cineasta.

O prazer de me entregar durante longas sessões no Chez Aimé, a bunda colada

na beirada de uma grande mesa de madeira, a luz de uma luminária suspensa caindo

sobre o meu corpo como sobre uma mesa de bilhar só é igual à aversão que eu sentia

do caminho que percorríamos para chegar até lá. O Chez Aimé era longe de Paris: era

preciso atravessar a escuridão sinistra do bosque de Fausses-Raposes à Ville-d'Avray,

para, finalmente, encontrar a casa no fundo de um pequeno jardim que se parecia com

os do subúrbio da minha infância. Éric nunca me revelava com antecedência a

programação da noite, porque acredito que uma de suas satisfações era a de organizá-

la juntamente com as surpresas; era sua maneira de criar condições "romanescas".

Aliás, eu fazia o jogo sem nenhuma pergunta. No entanto, quando percebia que já

estávamos a caminho, ficava ansiosa tanto ao pensar nos desconhecidos que em breve

me obrigariam a despertar de mim mesma, quanto pela antecipação da energia que

seria obrigada a despender. Era um estado similar ao que experimento sempre antes

de fazer uma conferência, quando sei que será necessário que eu esteja inteiramente

concentrada no meu assunto e entregue à platéia. Ora, nem os homens que

encontramos nessas circunstâncias, nem um auditório mergulhado no escuro têm rosto

e, como por encantamento, entre a ansiedade que antecede e a fadiga que se segue,

não se tem consciência da própria exaustão.

Entrávamos pelo bar. Não me lembro de ter sido comida ali, embora o contato da

boceta com o revestimento de couro sintético do tamborete e a bunda amassada

pronta para pegação disfarçada tenham pertencido ao registro de minhas fantasias

mais antigas. Não tenho certeza de ter estado muito atenta ao que se passava à minha

volta, às mulheres empoleiradas perto do balcão de quem vinham apalpar a xoxota e a

gordura da bunda.

Meu lugar era em uma das salas da parte de trás, estirada, como disse, sobre

uma mesa. As paredes eram nuas. Naquelas salas não havia cadeiras ou banquetas, não

havia nada além de mesas rústicas e luminárias que pendiam do teto. Podia ficar ali

duas ou três horas.

Sempre a mesma configuração: mãos percorrendo meu corpo, minha cabeça

virando para chupar ora à direita, ora à esquerda, enquanto outros cacetes se

esfregavam em meu ventre. Cerca de vinte homens podiam se revezar assim durante

toda a noite. Esta posição, a mulher deitada de costas, seu púbis na altura do pau do

homem apoiado em suas pernas, é uma das melhores e mais confortáveis que conheço.

A vulva fica bem aberta, o homem fica à vontade para atochar horizontalmente e

meter fundo sem parar.

Trepadas vigorosas e precisas. As vezes, as investidas eram tão vigorosas que eu

agarrava a beirada da mesa com as duas mãos e, durante muito tempo, fiquei

permanentemente com a marca de uma pequena esfoladura bem abaixo do cóccix, no

local onde minha coluna vertebral friccionava a madeira rugosa.

O "Aimé" acabou fechando. Fomos lá uma última vez, o lugar estava deserto e

eles tinham acabado de receber uma intimação da polícia judiciária. Diante da

situação, propusemo-nos a voltar mais tarde e Aimé, com o tronco pesado atrás do

balcão, berrava com sua mulher, recriminando-a por estar nos obrigando a ir embora.

Naquela noite, um amigo chamado Henri, Claude e eu, que formávamos o mais

amigável dos trios, acabamos nos Glycines, em minha primeira visita a um lugar que

nos fazia sonhar. Henri morava num apartamento minúsculo na rua de Chazel, em

frente do muro alto coberto de reboco claro, que escondia a mansão. Claude e eu

tínhamos o hábito de passar na casa de Henri, que ficava no caminho que fazíamos

quando voltávamos da visita dominical a nossos pais. Trepávamos os três, os dois

metendo em mim ao mesmo tempo, um na boca, e outro no rabo ou na boceta, sob os

alegres auspícios de um dos mais belos quadros de Martin Barré, que chamávamos de

"o espaguete", presente do autor a Henri.

Depois costumávamos espiar pela janela as entradas e saídas nos Glycines.

Henri tinha ouvido falar que a boate era freqüentada por atores de cinema que,

às vezes, acreditávamos ver passar. Ficávamos como crianças idiotas, fascinados e

iludidos por uma atividade secreta que nem conseguíamos imaginar, mas excitados

pela aparência de coisas que nos eram inacessíveis: os carros chiques que paravam

diante da porta, o porte burguês das silhuetas que desciam. Quando, alguns anos mais

tarde, transpus aquele portal, imediatamente percebi que preferia o estilo gasto do

Chez Aimé.

Subimos a pequena aléia de cascalho, ocupada por um grupo de japoneses,

conduzidos por uma jovem com ares de aeromoça. Ela exigiu que eu apresentasse a

carteira de seguridade social, que eu evidentemente não tinha, nem comigo nem em

outro lugar qualquer, pois não trabalhava regularmente.

Mesmo que eu tivesse um contracheque, me sentiria como se estivesse devendo

alguma coisa, uma vez que, diante de uma mulher maior que eu — jamais de um

homem — sou, ainda hoje, uma criança desajeitada, qualquer que seja sua idade.

Acabamos entrando.

O lugar era claro como uma sala de jantar, com muita gente nua deitada sobre

colchões no chão, e o que me desconcertava ainda mais do que a ameaça da "inspetora

de trabalho" na entrada era que as pessoas contavam piadas. Uma mulher de pele

branca, sem maquiagem, cujos cabelos desfeitos apresentavam traços do mesmo

coque banana da recepcionista, fazia a assistência rolar de rir contando que seu filho

pequeno "queria muito acompanhá-la esta noite".

Lembro-me de Éric, sempre extremamente prático, apalpando a parede à procura

de um interruptor, porque tínhamos conseguido combinar uma troca de parceiros com

um casal, que certamente seria mais agradável com a luz mais baixa.

Porém, uma das garçonetes que navegavam entre os corpos com uma bandeja de

flûtes de champanhe pisou em um fio e reacendeu a luz. Ela mesma acompanhou seu

gesto com um sonoro "merda", apoiado por todos.

Depois disso, não me lembro de termos falado mais nada.

Com exceção do bosque de Boulogne, não costumávamos nos misturar com

outros antes de sermos cumprimentados, antes de que tivesse sido respeitada uma

certa distância de transição, na qual algumas palavras são trocadas e cada um mantém

entre si e os outros o espaço do copo que oferece ou do cinzeiro que passa. Sempre

quis abolir este suspense, mas eu suportava melhor certos rituais do que outros.

Achava Armand engraçado: quando todo mundo ainda estava de conversa, ele tinha o

hábito de ficar completamente nu (ele dobrava suas roupas com o cuidado de um

criado de quarto), era inconveniente por se antecipar apenas alguns minutos. Tinha de

me ajustar à mania, um pouco idiota, daquele grupo que só iniciava a suruba depois de

ter jantado, sempre no mesmo restaurante, como um grupo de antigos colegas de

escola cuja alegria inabalável era a de tirar a calcinha ou o collant de uma das mulheres

presentes enquanto o garçom servia a mesa.

Em compensação, contar histórias libidinosas numa boate de surubas me parecia

obsceno. Será que eu, instintivamente, conseguia distinguir os números que são

apresentados como prelúdio à verdadeira comédia, para melhor prepará-la, das

momices e palhaçadas que servem apenas para postergá-la? Os atos praticados no

primeiro caso não o são no segundo e estão, na verdade, "fora do lugar".

Mesmo que tenha guardado até hoje reflexos de católica praticante (fazer o sinal

da cruz disfarçadamente se pressinto um incidente, sentir-me observada logo que

tenho consciência de uma falta ou erro...) não posso verdadeiramente pretender crer

em Deus Aliás é bem possível que esta crença tenha me abandonado quando comecei a

ter relações sexuais. Portanto, sem uma missão a cumprir, sem rumo, descobri ser uma

mulher mais passiva, sem outros objetivos a atingir que não fossem os que os outros

me oferecessem. Na persecução desses objetivos, sou mais do que constante, e se a

vida em si não tivesse fins eu os perseguiria sem trégua, mesmo que eu mesma não os

tivesse definido. Foi com este estado de espírito que jamais fugi à tarefa que me foi

confiada, já há muito tempo, de dirigir a redação da Art Press.

Participei da criação da revista, dediquei-me bastante a este trabalho para que

fosse estabelecida uma identificação entre mim e ele, mas nele sinto-me mais como

um condutor que não deve sair dos trilhos do que como um guia que sabe onde está o

porto. Eu trepava dessa mesma maneira. Como eu era totalmente disponível e não

tinha estabelecido um ideal a ser atingido, tanto na vida profissional quanto na vida

amorosa, fui estigmatizada como uma pessoa sem nenhum impedimento,

excepcionalmente desprovida de inibição, apesar de não ter nenhum motivo para não

ocupar este lugar. Minhas lembranças das surubas e das noites passadas no bosque de

Boulogne em companhia de um dos meus amigos-amantes articulam-se entre si como

os quartos de um palácio japonês.

Acreditamos estar num cômodo fechado até que outra parede desliza, revelando

uma seqüência de outros cômodos, e à medida que avançamos, outras paredes se

abrem e se fecham, e se os cômodos são muito numerosos, incalculáveis são as

maneiras de passar de um para o outro.

Mas, nessas lembranças, as visitas aos clubes de trocas de casais ocupam um

lugar pouco relevante. O Chez Aimé era coisa de outra ordem: era o berço nu da

trepada. Se guardo na memória o fiasco dos Glycines foi porque ele representou a

atualização exemplar de um devaneio da época em que estava saindo da adolescência.

Talvez isto se deva ao fato de que minha memória seja sobretudo visual e que eu me

lembre melhor, por exemplo, do Cléopâtre, clube aberto pelos antigos clientes do Chez

Aimé, com sua localização extravagante no coração do centro comercial do XIIIe

arrondissement, decoração limpa e atividades sexuais bastante banais. Em

compensação, outros lugares e outros acontecimentos são tão marcantes que eu quase

poderia classificá-los por temas.

Como, por exemplo, a visão do cortejo de carros, continuidade viva de nosso

próprio carro. Subíamos a avenida Foch e tive uma súbita vontade de fazer xixi.

Quatro ou cinco carros seguiam o nosso. Paramos, desço e atravesso correndo

uma faixa de grama para chegar a uma árvore. As portas dos outros carros se abrem, e

alguns, sem entender o que estava acontecendo, se aproximam. Éric corre e se

interpõe, já que o lugar é exposto e muito iluminado. Volto ao carro e o cortejo dá a

partida. Estacionamento na porta de Saint-Cloud: o guarda observa quase quinze

carros chegando uns atrás dos outros, e retornando uma hora mais tarde quase na

mesma ordem. Em uma hora, uns trinta homens me comeram, muitos me mantendo

levantada e encostada em um muro, outros sobre o capô do carro.

Algumas vezes o roteiro se complica pela necessidade de despistarmos alguns

carros na estrada. Os motoristas combinam um destino, uma fila se forma, seguida por

outras que vão se juntando, até que a fila se torna muito grande e acaba sendo mais

prudente limitar o número de participantes. Uma noite rodamos durante tanto tempo

que parecia uma viagem. Um motorista que conhecia um certo lugar, acabou revelando

que não sabia tão bem o caminho.

Eu via pares de faróis nos seguindo à direita e à esquerda aparecendo e

desaparecendo no retrovisor. Finalmente, após muitas paradas e conciliábulos, sob os

degraus de uma quadra de esportes do lado de Vélizy-Villacoublay, tive o direito de

usufruir os cacetes pacientes daqueles que não se desgarraram no caminho.

A errância poderia ser outro tema. Os carros andam, param, partem novamente,

manobram secamente como um jogo teleguiado. Picadeiro da porta Dauphine: nos

comunicamos de um carro ao outro e a senha parece ser: "Você tem um lugar?" Alguns

carros deixam o círculo e uma espécie de perseguição se inicia em direção a um

endereço desconhecido. Aconteceu, na verdade, apenas uma vez, em que a procura

demorasse um pouco mais e que acabássemos fazendo algumas bobagens. Estou com

um grupo de amigos, pouco habituados ao bosque de Boulogne, seis pessoas apertadas

em um Renault e dispostas a desistir depois de ter rodado um tempo em vão. Numa

das aléias principais, ao vermos dois ou três carros parados no sinal, entramos na fila.

Eu, como um pequeno soldado bravo e fanfarrão, em nome dos outros que ficam me

esperando, desço para chupar o pau do motorista do carro parado atrás do nosso.

Previsivelmente, dois policiais se plantam à minha frente enquanto tento cair fora. Eles

perguntam ao homem, que se abotoa desconfortavelmente sob o volante, se ele me

pagou e exigem que todos se identifiquem.

Mesmo quando minha memória se organiza em torno de fatos corporais, as

sensações acabam sendo menos relevantes do que os ambientes. Poderia reunir

muitos casos ligados ao uso que fiz durante muito tempo do meu ânus, tão

regularmente ou, até mesmo, mais do que de minha vagina. Num belo apartamento

situado atrás dos Invalides, participo de uma suruba em petit comitê e recebo pela

abertura anal a viga de um gigante.

O quarto em mezaniflo com vão envidraçado e as numerosas lâmpadas

iluminando o nível da cama lembram um cenário de filme americano.

O lugar tem em si um caráter desmesurado e irreal por causa de uma gigantesca

mão aberta de resina pintada, colocada na sala àguisa de mesa baixa, e onde uma

mulher pode facilmente se estender. Tenho receio do sexo do grande gato de Cheshire,

quando percebo a via por onde ele procura penetrar, mas ele acaba conseguindo sem

forçar demais e fico espantada e quase orgulhosa ao descobrir que tamanho não

constitui um obstáculo. O número também não. Por alguma razão — período de

ovulação? blenorragia? — aconteceu de só haver penetração em meu cu, em uma

suruba onde havia uma multidão. Vejo-me ao pé de uma escada estreita, na rua

Quincampoix, hesitante antes de decidir se ia subir. Claude e eu havíamos conseguido

o endereço, quase por acaso. Não conhecíamos ninguém. O apartamento tem teto

baixo, extremamente escuro. Escuto os homens perto de mim passando a senha: "Ela

quer ser enrabada", ou prevenindo aos que tomam o caminho errado: "Não, ela só dá o

rabo." Dessa vez, acabei passando mal. Mas fiquei também com a satisfação pessoal de

não ter me sentido impedida de fazer o que queria.