A aplicação do indicador de sustentabilidade BAF no mapeamento de geótopos urbanos: um experimento.. por Lucilia Blanes - Versão HTML

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1

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA FÍSICA

Lucília Blanes

A aplicação do indicador de sustentabilidade BAF no mapeamento de geótopos

urbanos: um experimento para a Bacia Hidrográfica do Córrego Água Espraiada

São Paulo-SP

(versão corrigida)

São Paulo

2011

2

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA FÍSICA

Lucília Blanes

A aplicação do indicador de sustentabilidade BAF no mapeamento de geótopos

urbanos: um experimento para a Bacia Hidrográfica do Córrego Água Espraiada-

São Paulo-SP

(versão corrigida)

Tese de Doutorado apresentada ao

Departamento de Geografia da Faculdade

de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

da Universidade de São Paulo, para a

obtenção do título de Doutora em

Ciências.

Orientador: Prof. Dr. Jurandyr Luciano

Sanches Ross.

De acordo

Jurandyr Luciano Sanches Ross.

São Paulo

2011

3

AUTORIZA-SE A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE

TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO, PARA

FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE.

Blanes, Lucília

A aplicação do indicador de sustentabilidade BAF no mapeamento de

geótopos urbanos: um experimento para a Bacia Hidrográfica do Córrego Água

Espraiada – São Paulo-SP/ Lucilia Blanes; Orientador Prof. Dr. Jurandyr Luciano

Sanches Ross-- São Paulo, 2011- 253 pg.

Tese (Doutorado- Programa de Pós-Graduação em Geografia Física.

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo)

4

FOLHA DE APROVAÇÃO

Lucilia Blanes

A aplicação do indicador de sustentabilidade BAF no mapeamento de geótopos

urbanos: um experimento para a Bacia Hidrográfica do Córrego Água Espraiada –

São Paulo-SP

Tese apresentada ao Departamento de

Geografia da Faculdade de Filosofia,

Letras

e

Ciências

Humanas

da

Universidade de São Paulo, para a

obtenção do título de Doutora em

Ciências.

Aprovado em:

Banca examinadora

Prof. Dr._____________________________________________________________

Instituição___________________________Assinatura________________________

Prof. Dr._____________________________________________________________

Instituição___________________________Assinatura________________________

Prof. Dr._____________________________________________________________

Instituição___________________________Assinatura________________________

5

DEDICATÓRIA

Este trabalho é dedicado a todos os atingidos e removidos em face da execução da

Operação Urbana Água Espraiada.

6

AGRADECIMENTOS

Agradeço aos meus pais, José Blanes Coelho e Cicera Terto França, por todo

o amor e esforço que dedicaram à minha vida.

Aos meus queridos irmãos Luiz, Laura, Leila e Lucas, que sempre me

apoiaram.

Ao meu querido orientador, que esteve sempre ao meu lado em muitos

momentos difíceis de minha jornada acadêmica.

Ao meu amado marido Milton de Freitas, que está sempre ao meu lado me

ajudando a crescer como pessoa e profissionalmente.

Ao meu querido e amado filho Guilherme Blanes de Freitas, que me

impulsiona a lutar cada vez mais pela minha querida família.

Á todas as incríveis mulheres que me ajudaram a cuidar do Guilherme nos

fins de semana na minha ausência devo meus agradecimentos á Edina de Freitas,

minha amada sogra, á Priscila Marques de Freitas, minha enteada querida, á Silvia

Dionísio minha querida comadre, e as fofíssimas Regina e Julia Dionísio que sempre

estavam prontas nos momentos difíceis.

Agradeço do fundo do coração, o apoio de meus queridos amigos, e

principalmente a duas pessoas que sempre me acompanharam na faculdade e

estavam perto e até hoje me acompanham de perto, amigos para sempre e que sem

eles esta pesquisa não seria a mesma. A primeira é a minha amiga e geógrafa Maria

Luisa Briones Velasco (Marisa) que auxiliou os trabalhos de campo e revisão do

mapeamento e ao querido amigo Geógrafo Constantino na revisão do texto e as

valiosas considerações que me passou no decorrer dos trabalhos.

Aos meus queridos colegas Rogério Azevedo dos Santos e Roberto Carlos

Pacheco de Souza na vetorização da base cartográfica.

Á querida amiga Ivone Gorete pela tradução da língua alemã;

Agradeço também à Brandt Meio Ambiente que através do geógrafo Alceu

Raposo esclareceu minhas diversas duvidas sobre o mapeamento de biótopos;

Á Brimold LTDA. – Pré-moldados, Pisos Intertravados e Briquetes que me

auxiliou na pesquisa fornecendo seus catálogos com especificações técnicas e

diversas informações sobre seus produtos;

E finalmente ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e

tecnológico (CNPq) pelo apoio a esta pesquisa.

7

RESUMO

O principal objetivo deste trabalho foi o de utilizar um indicador de sustentabilidade

conhecido como BAF (Fator Biótopo de Área) no mapeamento de geótopos urbanos

da bacia hidrográfica do Córrego Água Espraiada, (Estado de São Paulo – SP

capital - Brasil), em dois momentos históricos, 1958 e 2011. As unidades da

paisagem estudadas enquadraram-se nos níveis de paisagem proposta por

Bertrand. A partir dessa classificação realizou-se o mapeamento dos geótopos, e

utilizando o BAF fez-se a análise dos coeficientes de impermeabilização das

superfícies que cobrem as áreas estudadas. Utilizando essa metodologia é possível

a identificação de geótopos incompatíveis à sustentabilidade e assim propor

solucões. Essa abordagem pode ser utilizada como ferramenta para um melhor

planejamento urbano brasileiro aliado a qualidade ambiental.

Palavras-chave: córrego água espraiada, geossistema, geótopo, paisagem, Fator

Biótopo de Área (BAF).

8

ABSTRACT

The main objective of this thesis it was to evaluate the use of the sustainability

indicator named "BAF" (Biotope Area Factor) to mapping urban geotopes present

in the drainage basin "Aguas Espraiada" (São Paulo-SP-Brazil) in two historical

moments, 1958 and 2011. The landscape units studied were classified as geotopes

as proposed by Bertrand. Considering this classification we mapped the geotopes,

and using BAF we did the analysis of the surface waterproofing coefficients that

covers the studied area. Using this methodology it is possible to identify the geotopes

incompatible with sustainability and propose clever solutions. This approach can be

used as a tool for a better Brazilian urban planning associated with environmental

quality.

Keywords: geosystem, geotopes, landscape, Biotope Area Factor (BAF).

9

ÍNDICE DE FIGURAS

Figura 1

Mapa de localização...............................................................

22

Figura 2

Esquema teórico do geossistema..........................................

50

Figura 3

Bacia Hidrográfica Água Espraiada – Mosaico

Georreferenciado.....................................................................

67

Figura 4

Chácaras, sítios e fazendas existentes ao redor do centro

de São Paulo no início do século XX......................................

73

Figura 5

Planta da cidade de São Paulo em 1943................................

76

Figura 6

Propaganda da empresa Auto-Estrada em 1930...................

79

Figura 7

Propaganda de loteamento próximo a Represa de

Guarapiranga nos anos 30....................................................

80

Figura 8

Planta da Auto Estrada de Santo Amaro em 1926................

83

Figura 9

Detalhamento das etapas da Operação Urbana Água

Espraiada..............................................................................

87

Figura 10

Propaganda de panfletagem da empresa Cyrela dos prédios

de alto padrão construtivo.....................................................

101

Figura 11

Sistema de Reuso da água da chuva.................................

120

Figura 12

Mapa de geótopos urbanos- 1958........................................

122

Figura 13

Mapa de geótopos urbanos-2011...........................................

123

10

ÍNDICE DE TABELAS

Tabela 1

Classificação da paisagem, segundo Sotchawa............................

47

Tabela 2

Classificação da paisagem, segundo Bertrand.............................

51

Tabela 3

Classificação da paisagem, segundo Bertrand, adaptada ao

caso brasileiro................................................................................

52

Tabela 4

Componentes da qualidade ambiental urbana...............................

64

Tabela 5

Crescimento da população de São Paulo no período 1900-1945. 69

Tabela 6

Variação da população de Santo Amaro no período 1940-1960.. 74

Tabela 7

Coeficientes de permeabilidade dos tipos de superfícies- BAF....

107

Tabela 8

Áreas dos Geótopos Urbanos-1958.............................................

124

Tabela 9

Áreas dos Geótopos Urbanos-2011..............................................

129

11

ÍNDICE DE QUADROS

Quadro 1

Cálculos BAF do Geótopo Loteamento Consolidado...................

127

Quadro 2

Cálculos BAF do Geótopo Loteamento em Consolidação...........

128

Quadro 3

Cálculos

BAF

do

Geótopo

Prédios

Alto

Padrão

Construtivo....................................................................................

132

Quadro 4

Cálculos BAF do Geótopo Prédios de Médio Padrão

Construtivo...................................................................................

135

Quadro 5

Cálculos BAF do Geótopo Casas de Alto Padrão Construtivo..... 138

Quadro 6

Cálculos BAF do Geótopo Casas de Médio Padrão Construtivo. 143

Quadro 7

Cálculos BAF do Geótopo Casas de Baixo Padrão Construtivo.. 147

Quadro 8

Cálculos BAF do Geótopo Moradias Precárias............................ 151

Quadro 9

Cálculos BAF do Geótopo Estruturas e Edificações Públicas...... 154

Quadro 10 Cálculos BAF do Geótopo Geótopos Econômicos.......................

159

Quadro 11 Cálculos BAF do Geótopo Edifícios Comerciais e Financeiros

Modernos...................................................................................... 162

Quadro 12 Quadro síntese dos índices BAF

16

12

ÍNDICE DE FOTOS

Foto 1

Operários durante a construção da auto-estrada, em agosto de

1936 (atual Av. Washington Luiz)...............................................

79

Foto 2

Construção do Aeroporto de Congonhas em 1936.....................

81

Foto 3

Inauguração do metrô Jabaquara em 1972................................

84

Foto 4

Vista aérea do Bairro de Moema 1970......................................

84

Foto 5

Obra de canalização do córrego paralisada nas proximidades

do Brooklin. Agosto de 1988.......................................................

86

Foto 6

Ponte sobre o córrego no bairro do Brooklin. Agosto de 1988...

87

Foto 7

Construção da Estação de bombeamento na Av. Luiz Carlos

Berrini, saída da água do córrego para o rio Pinheiros, 1995.....

89

Foto 8

Ponte Octávio Frias de Oliveira sobre o rio Pinheiros (Ponte

Estaiada) – 2011........................................................................

90

Foto 9

Trecho canalizado do córrego Água Espraiada a jusante –

2011...........................................................................................

91

Foto 10 Vista das moradias precárias remanescentes à margem da

Avenida Jornalista Roberto Marinho – 2011...............................

91

Foto 11 Trecho próximo a Av. Dr. Lino de Moraes Leme e margem do

córrego Água Espraiada, após remoção de moradias

precárias, 2011...........................................................................

92

Foto 12 Trecho a montante do córrego Água Espraiada, após remoção

de moradias precárias, 2011.......................................................

92

Foto 13 Trecho a montante do córrego Água Espraiada, após remoção

de moradias precárias, 2011......................................................

93

Foto 14 Rua Manuel Cherem, córrego Água Espraiada tomado por

moradias precárias – 2011.........................................................

93

Foto 15 Área onde foi construído o reservatório Jabaquara- 1995..........

95

Foto 16 Reservatório Jabaquara sem manutenção em 1998..................

95

Foto 17 Reservatório Jabaquara não finalizado, após intensa chuva em

2000............................................................................................

96

Foto 18 Reservatório Jabaquara em funcionamento, 2001.....................

96

13

Foto 19 Propaganda do Programa de Urbanização de Favela da

Prefeitura de São Paulo- Lote 7- Obra Corruíras ......................

99

Foto 20 Propaganda do Programa de Urbanização de Favela da

Prefeitura de São Paulo- Lote 9- Obra Jardim Edite...................

99

Foto 21 Construção de edificio de alto padrão nas proximidades da

Av. Jornalista Roberto Marinho................................................... 100

Foto 22 Propaganda do Governo do Estado de São Paulo das futuras

instalações do metrô Água Espraiada.........................................

102

Foto 23 Piso intertravado de concreto

121

Foto 24 Vista dos prédios de alto padrão.................................................

130

Foto 25 Vista dos Prédios Alto Padrão Construtivo com inserção de

comércio e serviços- Rua Nova York X Padre Antonio José

131

dos Santos..........................................................................

Foto 26 Vista dos Prédios de Médio Padrão Construtivo- Rua Gian...

134

Foto 27 Vista das Casas de Alto Padrão Construtivo-Rua Pirandello..

137

Foto 28 Vista das Casas de Médio Padrão Construtivo- Rua Viaza...

140

Foto 29 Vista das Casas de Médio Padrão Construtivo com inserção

de Sobrados Geminado- Rua Gabriel de Lara.....................

141

Foto 30 Casas de Médio Padrão Construtivo com inserção de comércio

e Indústrias- Rua Gastão da Cunha.......................................

142

Foto 31 Vista das Casas de Baixo Padrão Construtivo- Rua Astrolábio..

145

Foto 32 Vista das Casas de Baixo Padrão Construtivo com inserção de

comércio e serviço- Rua Antônio da Silva Lobo Junior.

146

Foto 33 Vista das Moradias Precárias com infra-estrutura-Rua Jorge

Duprat jr.

149

Foto 34 Vista das Moradias Precárias- Rua Dr. Alcides de Campos...

150

Foto 35 Entrada do Hospital Municipal Artur Ribeiro de Saboya- Rua

Gal. Daltro Filho..................................................................

153

Foto 36 Vista parcial do Geótopo de Comércio e serviços em vias de

grande circulação- Av. Santa Catarina..................................

156

Foto 37 Vista parcial do Geótopo de Comércio em casa ou sobrados-

Rua Padre Antônio José dos Santos...................................

157

14

Foto 38 Vista parcial do Geótopo de Indústrias e Galpões com inserção

de casas- Rua Ciridião Durval...................................................

158

Foto 39 Vista de Edifícios Modernos Financeiros, Comerciais e de

Serviços- Av. Jornalista Roberto Marinho............................

161

15

SUMÁRIO

1-

PRESSUPOSTOS DA PESQUISA: OBJETIVOS E

JUSTIFICATIVA........................................................................

17

2-

FUNDAMENTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS...............

25

2.1- A TEORIA GERAL DOS SISTEMAS E A PESQUISA

GEOGRÁFICA........................................................................................

25

2.2- GEOSSISTEMA E PAISAGEM............................................

32

2.3- GEOSSISTEMA URBANO...................................................

53

3-

A ÁREA DE ESTUDO.................................................................

66

3.1- CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO DA

PESQUISA..............................................................................................

66

3.2- - BREVE HISTÓRICO DA OCUPAÇÃO DO MUNICÍPIO DE

SÃO PAULO.....................................................

68

3.2.1- BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DE SANTO

AMARO...................................................................................................

70

3.2.2- A OCUPAÇÃO DA BACIA HIDROGRÁFICA DO

CÓRREGO ÁGUA ESPRAIADA.............................................................

75

3.3- HISTÓRICO DAS INTERVENÇÕES NO CÓRREGO ÁGUA

ESPRAIADA...............................................................................

85

3.4- O RESERVATÓRIO JABAQUARA.......................................

94

3.5- OPERAÇÃO URBANA ÁGUA ESPRAIADA: UM NOVO

PROJETO...............................................................................................

97

4-

IDENTIFICAÇÃO E MAPEAMENTO DE GEÓTOPOS

URBANOS...................................................................................

103

4.1- FATOR BIÓTOPO DE ÁREA – BAF.....................................

104

4.1.1- EXEMPLO DE CÁLCULO BAF.........................................

109

4.2- CONSIDERAÇÕES SOBRE A METODOLOGIA.................

110

5-

UMA EXPERIMENTAÇÃO DE CLASSIFICAÇÃO DE GEÓTOPOS

URBANOS...................................................................................

112

5.1- PROCEDIMENTOS TÉCNICOS E OPERACIOANAIS DA

PESQUISA......................................................................................

112

5.1.1 PRIMEIRA ETAPA..............................................................

112

16

5.1.2 SEGUNDA ETAPA.............................................................

117

5.2- RESULTADOS E ANÁLISE DOS GEÓTOPOS URBANOS

MAPEADOS..............................................................................................

124

5.2.1- ANÁLISE DOS GEÓTOPOS GEÓTOPOS DE 1958.............

124

5.2.2- ANÁLISE DOS GEÓTOPOS GEÓTOPOS DE 2011............

129

6-

CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................

165

BIBLIOGRAFIA............................................................................

170

ANEXOS........................................................................................

178

17

1- PRESSUPOSTOS DA PESQUISA: OBJETIVOS E JUSTIFICATIVA.

O processo de urbanização a que estão submetidas às cidades implica

constantes transformações da organização do espaço. As grandes cidades

modernas são formações sócio-territoriais complexas, de fronteiras imprecisas e

com tendências de evolução cada vez mais dispersivas e fragmentadas. A coesão

e a legibilidade dos espaços urbanos tradicionais deram lugar a mosaicos

territoriais diversos, fisicamente descontínuos e diluídos, processo potencializado

pelos avanços da industrialização, das tecnologias de transporte, de comunicação e

dos serviços, principalmente.

Para a Geografia, as cidades se apresentam como um objeto de estudo

ímpar, pois combina “concentração populacional, organização social e dinamização

econômica”. Por sua vez, esta porção do espaço geográfico é a que apresenta as

mais intensas mudanças promovidas pelo homem, de modo que a cidade combina

natureza e cultura. (Monteiro, 2008).

Para compreender as questões relativas aos processos gerados pela

urbanização, primeiramente é preciso lembrar que o ambiente urbano tem

particularidades que trazem consigo as marcas das construções humanas. Dessa

forma, trata-se o ambiente urbano através de uma concepção sócio-cultural que

inclui, concomitantemente, aspectos econômicos, culturais e ambientais.

As cidades não são iguais no tempo e no espaço: a cidade é,

particularmente, referência das relações entre grupos sociais, sendo a

representação da cultura da sociedade que a constrói, como materialização dos

processos sociais, ao mesmo tempo em que, segundo Carlos (2004), também

18

influencia na reprodução da sociedade. Monteiro (2008), afirma que as cidades

refletem fielmente o tipo de país no qual elas se inserem.

Como outras grandes cidades contemporâneas, a compreensão de como a

cidade de São Paulo é produzida e reproduzida está, por sua vez, associada ao

modo de produção ali desenvolvido.

Com o aumento da população vivendo em áreas urbanas, agravaram-se os

impactos sobre o ambiente, que se deu tanto pelo aumento da demanda de infra-

estrutura urbana e mais concentração de fluxos de energia, quanto pelas

disparidades sócio-espaciais dentro dos próprios centros urbanos e suas

conseqüências no uso e ocupação da terra nas cidades.

À preocupação com a qualidade ambiental das áreas urbanas está

associado o conceito de planejamento urbano. Assim, diante da temática ambiental

nas cidades, criaram-se instrumentos que visavam à mitigação e controle da

degradação socioambiental em áreas urbanizadas. Os Planos Diretores são um

destes instrumentos que se aplicam à gestão municipal, visando a estabelecer

legalmente o uso planejado das áreas urbanizadas para que se obtenha uma

melhor qualidade ambiental e, conseqüentemente, uma melhor qualidade de vida

para os habitantes urbanos. As diretrizes de um Plano Diretor se dão através do

zoneamento.

O desafio que se apresenta como o mais instigante é a gestão da cidade,

que demanda planejamento que, por sua vez, é para Monteiro (2008), prever

conseqüências e prover recursos materiais, além de ordenar, regulamentar,

restringir e coibir. O desafio de planejar se torna hercúleo quando se inclui o fator

“jogo de interesses”, por meio do qual se relacionam os agentes que promovem as

19

mudanças no espaço urbano, posto que o solo urbano é, em grande parte,

propriedade privada.

As diretrizes político-admistrativas para a gestão das cidades são traçadas

por categorias de políticos profissionais na disputa de poder, conduzidos

por transações nem sempre credenciadas para um bom direcionamento

das realidades urbanas. (MONTEIRO, 2008, 98)

Conforme trabalho de Blanes (2006), referente aos biótopos da bacia

hidrográfica do córrego Água Espraiada, o zoneamento urbano cria condições para

a adequação da realidade local, flexibilizando os usos da terra de acordo com o

momento socioeconômico materializado no ambiente, em um dado momento, de

forma a garantir melhorias na paisagem urbana, no tráfego, nos espaços públicos

etc. Porém, as mudanças espaciais ocorrem continuamente e os agentes que

atuam no espaço são muitos e conflitantes. Os aspectos socioeconômicos se

traduzem em impactos de ordem socioambiental.

Em áreas urbanas, entre os mais freqüentes problemas socioambientais,

estão as enchentes e as moradias precárias ao longo de cursos d’água,

compreendendo desde bacias de primeira ordem até bacias hidrográficas de ordem

superiores.

A área da pesquisa é a bacia hidrográfica do córrego Água Espraiada, que se

localiza no planalto paulistano e possui uma área de 13,8 Km². O córrego Água

Espraiada é afluente da margem direita do rio Pinheiros e confronta-se ao norte, com

o córrego Traição, a leste, com a bacia do córrego Ipiranga e ao sul, com o córrego

do Cordeiro. Sua nascente fica no alto do Jabaquara e seu deságüe, no rio Pinheiros

(figura 1). A área exibe uma complexa realidade devido às diversas intervenções que

sofreu principalmente no decorrer das décadas de 1970, 1980 e 1990, seguindo

pelos anos 2000 e, por este motivo, é objeto deste estudo.

20

À medida que avança o processo de urbanização, as cidades perdem

algumas características que, historicamente, lhes foram atribuídas. O córrego Água

Espraiada, assim denominado por ter um leito indefinido devido ao seu

espalhamento, hoje é um córrego parcialmente retificado, margeado por uma via

denominada Avenida Jornalista Roberto Marinho, a qual é interrompida por um

reservatório de águas pluviais, que foi construído devido à alta freqüência de

enchentes na região.

A alta taxa de impermeabilização causou a rápida drenagem das enxurradas,

aumentando, consideradamente, as enchentes, que hoje são mais freqüentes,

fluem mais rapidamente e são mais destrutivas do que as enchentes provocadas

por grande volume de precipitação, antes da urbanização.

Enfim, o homem foi promovendo intervenções cada vez mais intensas no

meio, como: movimentação de terra, (cortes e aterros), construções de grandes

obras civis, alterando completamente a morfologia do terreno, surgindo, desta

forma, novas unidades espaciais, com novas características e funcionalidades.

As unidades espaciais ou unidades de paisagem, que surgem, apresentam

variadas tipologias e, neste contexto, o mapeamento de geótopos tem se revelado

um instrumento valioso para o entendimento da complexidade dos sistemas

ambientais em áreas urbanas.

Cada geótopo urbano estudado nesta pesquisa foi classificado dentro de

classes que expressam o tipo de construção, a presença de arborização, o

tamanho aproximado dos lotes, densidade de construções, o tipo de cobertura das

edificações e sua função. As classes de geótopos estão estritamente associadas à

morfologia, estruturas e processos originados pela intervenção antrópica em áreas

urbanas.

21

Na área estudada, inserida entre os bairros do Brooklin Paulista e Jabaquara,

na região sul do município de São Paulo, encontram-se vários geótopos, nos quais

estão inseridos a canalização parcial do córrego Água Espraiada, o Reservatório

Jabaquara, também chamado de piscinão, com capacidade aproximada de 390.000

m³ de água da chuva, completamente impermeabilizado, além de uma alta

concentração de edificações.

Após a definição das classes de geótopos presentes na bacia hidrográfica,

utilizou-se o BAF (Fator Biótopo de Área), um indicador de sustentabilidade

desenvolvida e aplicada com sucesso em Berlin, na Alemanha, para mensurar as

áreas “ecologicamente efetivas” dos geótopos através da utilização de coeficientes

de permeabilização das superfícies. O BAF foi aplicado nesta pesquisa em dois

momentos históricos diferentes. O primeiro, em 1958 (vôo aerofotogramétrico

realizado pela Cruzeiro do Sul), quando o córrego apresentava o seu curso natural,

com poucas intervenções antrópicas e, no segundo momento, em 2011 (imagem de

satélite IKONOS II - 2008), com atualização em campo em 2011, apresentando

inúmeras intervenções antropogênicas.

A área de estudo ainda está sendo transformada através de intensas

intervenções definidas no Projeto da Operação Urbana Consorciada Água

Espraiada, que prevê a construção de um parque linear de 650 mil m², que

acompanhará o traçado de um túnel de 2,4 km, onde hoje habitam

aproximadamente 8 mil famílias, que deverão ser removidas.

A construção do parque linear, principalmente, alterará significativamente a

qualidade ambiental do local. Através do indicador BAF adotado nesta pesquisa,

poderá se prever como os geótopos a serem criados irão se compor com os

geótopos já existentes, atribuindo nova qualidade ambiental à bacia hidrográfica.

index-22_1.png

22

23

O objetivo principal deste trabalho é classificar e analisar os geótopos da

bacia hidrográfica do córrego Água Espraiada no intervalo de mais de 50 anos (1958

e 2011) através do indicador de sustentabilidade Fator Biótopo de Área- BAF,

conhecer a situação encontrada hoje e avaliar as mudanças provocadas pela ação

antrópica. Para tanto, foi necessário gerar o mapeamento dos geótopos da bacia

hidrográfica do córrego Água Espraiada nos anos de 1958 e 2011, além do

estabelecimento de um processo de análise suficientemente objetivo para explicar

as transformações que houve na bacia hidrográfica. Será criado um prognóstico dos

geótopos após o prolongamento da Av. Jornalista Roberto Marinho até a Rodovia

dos Imigrantes com a implantação do parque linear, conforme o projeto da EMURB

(Empresa Municipal de Urbanização).

A questão que se coloca é: um indicador de sustentabilidade criado para ser

aplicado à realidade de um país desenvolvido europeu pode ser aplicado às cidades

brasileiras, tendo como exemplo a porção da cidade paulistana enquadrada na bacia

hidrográfica do córrego Água Espraiada, e oferecer resultados satisfatórios?

A hipótese defendida é de que os resultados da pesquisa permitirão

demonstrar que é possível, a partir das adaptações feitas ao indicador BAF,

mensurar cada geótopo mapeado e oferecer um método de avaliação de

sustentabilidade.

24

O objetivo geral desta tese é identificar, mapear, classificar e comparar os

geótopos urbanos na bacia hidrográfica do córrego Água Espraiada para os anos de

1958 e 2011.

Os objetivos específicos são:

 Mapear e classificar os geótopos urbanos para os anos de 1958 e

2011, utilizando-se da metodologia de mapeamento proposta por Bedê

et all (1997);

 Criar classes de geótopos adequadas à realidade encontrada;

 Adaptar o indicador BAF aos geótopos mapeados;

 Identificar, através do indicador adaptado BAF, a qualidade ambiental

dos geótopos mapeados para o ano de 1958;

 Identificar, através do indicador adaptado BAF, a qualidade ambiental

dos geótopo mapeado para o ano de 2011;

 Analisar as transformações verificadas nos geótopos mapeados na

bacia do córrego Água Espraiada;

 Mapear e analisar o geótopo onde será implantado o parque linear,

utilizando-se o indicador adaptado BAF.

25

2- FUNDAMENTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS.

2.1- A TEORIA GERAL DOS SISTEMAS E A PESQUISA GEOGRÁFICA.

A compreensão da paisagem, exige do pesquisador um caminho seguro que

o conduza a resultados confiáveis. Considerando que o desenvolvimento alcançado

pelas diversas tecnologias potencializa a capacidade que se tem de conhecer a

realidade, encontra-se um oceano de informações que precisam ser ordenadas a fim

serem compreendidas.

O método, nesta tarefa, apresenta-se como norteador das investigações,

sabendo-se, a priori, que nenhum método é, ainda, capaz de oferecer a solução

para a compreensão da totalidade do conhecimento.

Para o estudo do espaço geográfico, optou-se, nesta pesquisa, por enveredar

pelas possibilidades que são oferecidas pela Teoria Geral dos Sistemas,

desenvolvida por Bertalanffy (2009), por entender que ela oferece elementos

essenciais de pesquisa, já consagrados em inúmeros trabalhos geográficos. Nesse

caso, houve a preocupação de compreender as diversas concepções que tratam do

estudo da paisagem, realizadas por Bertrand (1971), Chorley (1971), Delpoux

(1974), Tricart (1977), Sotchawa (1978), entre outros.

Biólogo por formação, Bertalanffy, à procura de um método que o auxiliasse a

compreender os problemas biológicos do organismo individual, tratou as

comunidades biológicas como um sistema. Ocorre que o esquema que a ciência se

utilizava até meados do século XX , estudando cada objeto isoladamente, não se

apresentava mais adequado para as pesquisas que Bertalanffy realizava. Então, a